Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Moçambique - 8ª edição da Feira do Livro de Maputo

A 8ª edição da Feira do Livro de Maputo, na comemoração dos 100 anos de José Craveirinha, celebra o autor do emblemático Nós Matámos o Cão-tinhoso como o Escritor Homenageado desta edição. Luís Bernardo Honwana lançou o seu livro de estreia há 58 anos


A Feira do Livro de Maputo arranca esta quinta e termina sábado.

A realizar-se na Praça da Independência e no Átrio Municipal, o evento irá homenagear o escritor Luís Bernardo Honwana, o autor do célebre Nós matamos o cão-tinhoso.

De acordo com uma nota de imprensa, a Feira do Livro de Maputo vai se materializar em diversas disciplinas artísticas. A música com o Coro Xiquitsi, teatro, oficinas de escrita e leitura, debates, concursos literários, palestras e outras atracções literárias

Citando na nota da feira, para Ungulani Ba Ka Khosa, homenagear Luís Bernardo Honwana, significa consolidar o papel fundacional do pai da modernidade da literatura moçambicana.

A Feira do Livro, graças a parceria com o Camões – Centro Cultural Português em Maputo e com Instituto Guimarães Rosa – Centro Cultural Brasil-Moçambique, traz a Maputo duas vozes da literatura portuguesa e brasileira respectivamente, nomeadamente, Lúcia Vicente, em residência literária, e Tatiana Pequeno, autora do livro Tocar o Terror que será lançado na Feira do Livro.

De Moçambique, pontificam nomes tais como: Ungulani Ba Ka Khosa, Paulina Chiziane, Marcelo Panguana, Sónia Sultuane, Aurélio Rocha, Jorge Ferrão, Licínio Azevedo, Jaime Munguambe, Hirondina Joshua e Matilde Chabana.

A Feira do Livro de Maputo, entre 20 e 22 de outubro, vai contar com a participação de vozes imprescindíveis da literatura lusófona e hispânica. A Feira vai contar este ano com a participação de escritores de 24 países, nomeadamente: Moçambique, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Brasil, Portugal, Bolívia, Argentina, Espanha, Itália, Cuba, República Dominicana, Guiné-Equatorial, Honduras, Rússia, Finlândia, Inglaterra, Colômbia, Venezuela, El Salvador, Chile, Mali, Uruguai.

O evento, que contará com 12 mesas de autores e debates, vai contar com um espaço dedicado aos escritores e editoras, na Praça da Independência, decorrendo em simultâneo com actividades lúdicas e criativas para o publico infanto-juvenil, lançamentos de livros, oficinas de leitura, sessões de autógrafos e conversas entre escritores e leitores. In “O País” - Moçambique


quarta-feira, 1 de junho de 2022

Moçambique - Maria de Lurdes Mutola organiza légua para evocar centenário de José Craveirinha


Uma grande figura, uma homenagem à sua dimensão. No ano em que se assinala o centenário do nascimento do poeta José Craveirinha (passado dia 28 de Maio), Maria de Lurdes Mutola não ficou indiferente à efeméride.

Influenciada pelo primeiro moçambicano a vencer o Prémio Camões e que a desviou do futebol para o atletismo, modalidade em que viria a brilhar e tornar-se campeã olímpica, Lurdes Mutola não quis deixar passar este momento de evocação ao poeta-mor.

É neste sentido que, no próximo dia 16 de Julho, a Fundação Lurdes Mutola, da qual é patrona, vai organizar uma légua que terá como ponto de partida e chegada a Praça da Independência.

E porque José Craveirinha teve “olho de lince” ao descobri-la e lançá-la para o atletismo pela mão do filho Stélio Craveirinha, a campeã olímpica e mundial dos 800 metros faz mesmo questão de participar activamente nesta légua como uma das corredoras.

A apresentação deste evento, que se espera que seja de grande dimensão, está prevista para esta quinta-feira, 2 de Junho, na capital do país.

Mutola, de resto, não deixou de recordar o papel fundamental que José Craveirinha teve para a sua afirmação ao nível mundial. Falando na I Conferência Internacional Centenário José Craveirinha, evento promovido pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), Lurdes Mutola, visivelmente emocionada, recordou: “Craveirinha não foi só poeta, mas alguém que serviu de pai e tutor e que, sem o qual eu não teria todo este sucesso”.

Craveirinha identificou, desde logo, no bairro do Chamanculo, talento na menina de ouro. Fez, por isso, as démarches para que deixasse o atletismo e abraçasse o futebol. Mutola acenou positivamente, mas quis desistir devido às exigências da modalidade. Todavia, Craveirinha insistiu-a e teve um grande papel na ascensão da única atleta moçambicana a conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos.

“Quando o vi, não acreditei e, a partir daquele momento, mudei de mentalidade. Fomos à minha casa para falar com o meu pai e explicar o que pretendia, assim, foi-lhe dada a liberdade de ser meu tutor. Comecei a entender que, afinal de contas, parece que tenho um pouco de talento e dediquei-me até chegar ao topo”, recordou Lurdes Mutola.

De resto, como Renato Caldeira, o decano do jornalismo desportivo moçambicano, retratou em palavras ao “O País”, Stélio Craveirinha sentenciou: “Esta menina que me trouxeste é ouro, pai! Logo nos primeiros treinos, obteve marcas que não estão ao alcance de qualquer uma!”, lê-se no artigo publicado a 12 de Outubro de 2020.

Caldeira, que acompanhou a carreira de Lurdes Mutola, refere que foi a partir desta constatação feita por Stélio, então treinador do Desportivo, que surgiu, por parte do pai, a insistência para que Mutola optasse e apostasse no atletismo. A partir daí, ela participou em maratonas locais, colocando-se, muitas vezes, à frente de atletas masculinos. Depois ganhou algumas provas na nossa Zona.

Sempre com Stélio a orientar, foi à Olimpíada de Seul, em 1988, ainda sem grande notoriedade. Seguiu-se o desafio norte-americano, a partir do qual Lurdes venceu marcas e medos.

Stélio, com a paixão de sempre, abraçou outros projectos, na primeira linha dos quais surgiu uma outra estrela: Argentina da Glória. No Mundial de Estugarda, Alemanha, 1993, não fosse um tropeção desta e tê-la-íamos no pódio, para além do ouro de Mutola, uma outra medalha para o nosso país, tal era a forma e o momento da nova coqueluche nacional. In “O País” - Moçambique


 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Macau - Poemas seleccionados de José Craveirinha editados em livro

Grupo informal de investigação ECOAdOR (Estudos de Culturas Ocidentais, Africanas e do Oriente), em parceria com a Praia Grande Edições, aposta forte num dos nomes mais importantes da literatura moçambicana, no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento. O autor de “Karingana ua Karingana” tornou-se o primeiro africano galardoado com o Prémio Camões, em 1991

O centenário do nascimento de José Craveirinha será celebrado em Macau, no próximo sábado, dia 28 de Maio, pelas 17h30, na Livraria Portuguesa, com o lançamento de um livro, com tradução para língua chinesa, de poesia seleccionada escolhida pelo Grupo informal de investigação ECOAdOR (Estudos de Culturas Ocidentais, Africanas e do Oriente) e com chancela da Praia Grande Edições. “Vai ser possível lançar este livro precisamente no dia em que faz 100 anos que nasceu o poeta moçambicano”, começou por dizer ao Ponto Final a professora universitária da Universidade Politécnica de Macau (UPM) Lola Geraldes Xavier.

A iniciativa de traduzir o poeta maior de Moçambique para chinês surgiu de forma natural, como nos confidenciou a mentora do projecto, Lola G. Xavier, que também coordena, desde o ano passado, o grupo informal de investigação ECOAdOR. “Temos alguns projectos no grupo que se prendem precisamente com essa divulgação e diálogo entre a língua portuguesa e a língua chinesa. Coordeno este sobre o Craveirinha, mas outros membros do grupo estão a trabalhar noutros projectos”, referiu a académica, revelando que o ECOAdOR está a preparar uma publicação já para o próximo ano que tem mais directamente a ver com Macau.

Mas, tratando-se de um grupo informal, conforme a académica reiterou, qual projecto que ali nasça tem de ser financiado à posteriori. “Foi aí que entrou a Praia Grande, na pessoa do Ricardo Pinto, a quem agradeço imenso, pois percebeu a nossa ideia e abraçou-a de imediato”, afirmou Lola G. Xavier, que explicou ainda que os grandes objectivos do grupo informal que coordena passam por “contribuir para a promoção e para a difusão das literaturas em língua portuguesa e colaborar para uma comunicação efetiva entre as culturas e literaturas em língua portuguesa e a língua chinesa”.

Durante este último ano, explicou ao Ponto Final, o ECOAdOR quis homenagear José Craveirinha, preparando um livro de ensaios. “A sair no segundo semestre por uma editora brasileira” e “a tradução de poemas seleccionados para chinês por dois estudantes do doutoramento em Português da UPM: Lu Jing e Wu Hui”. “Sem o interesse, motivação e perseverança deles, esta publicação não seria possível”, considera Lola G. Xavier, fazendo notar que sempre fez sentido “publicar em Macau, dando razão às directrizes governamentais de Macau enquanto plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa”.

Durante esta semana, revelou ainda a professora, “haverá várias homenagens feitas ao poeta, com colóquios, palestras, etc., sobretudo em Moçambique e em Portugal”, por isso a ECOAdOR vai juntar-se às celebrações “com o lançamento desta tradução, a primeira para chinês deste poeta”.

No evento na Livraria Portuguesa, que para além de presencial será transmitido online, via Zoom (https://zoom.us/j/95792888265), o proprietário da Praia Grande Edições, Ricardo Pinto, iniciará o evento com um discurso de boas-vindas. Em seguida, pelas 17h45, Lola G. Xavier fará a apresentação do projecto e agradecimentos. Quinze minutos depois, Wu Hui e Lu Jing falarão da sua experiência enquanto tradutores de Craveirinha. Pelas 18h15, Wang Yuan, da Universidade de Pequim, fará alusão à história da tradução de autores moçambicanos na China. O brasileiro Giorgio Sinedino, tradutor-intérprete, explicará como é traduzir, poeticamente falando, obras literárias do português para o chinês. Pelas 18h45, o professor Pires Laranjeira, da Universidade de Coimbra, vai abordar o tema “Craveirinha, uma óptima escolha para começar” e, antes de uma discussão final com perguntas e respostas, moderada por Lola G. Xavier, o filho do poeta, o artista plástico Zeca Craveirinha, dedicará algumas palavras ao pai.

José Craveirinha nasceu em Maputo, Moçambique, a 28 de Maio de 1922, e morreu em Joanesburgo, na África do Sul, a 6 de Fevereiro de 2003. É considerado o maior poeta da literatura moçambicana e, em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. “Karingana ua Karingana”, o seu segundo livro, datado de 1963, mas só publicado em 1974, é considerada a sua obra-prima. Trata-se de um livro que transmite, de forma poética, o dia-a-dia dos moçambicanos, numa época marcada pela luta contra a ocupação colonial. Em sua homenagem, a Associação dos Escritores Moçambicanos instituiu em 2003, o Prémio José Craveirinha de Literatura. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Sementeira

Cresce a semente
lentamente
debaixo da terra escura.

Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de Africa
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.

Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.

E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.

Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.

Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!

José Craveirinha - Moçambique

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Nobel


“Não sei se alguém dentre os meus leitores me pode explicar como o quarto ou quinto idioma mais importante do mundo como é o português – o nosso galego culto – desde 1901 só tenha um escritor laureado, José Saramago, que o foi em 1998. Que escreveram em português houve de forma sobrada infinidade de excelentes escritores no Brasil e Portugal merecedores deste prémio. Aos que se poderiam agregar alguns da Galiza, o angolano Pepetela e o moçambicano Craveirinha. Remeto aos meus leitores a um artigo anterior meu intitulado «A maldição do Brasil com o Prémio Nobel», em que destaco todos aqueles escritores brasileiros que sobejamente mereciam ter recebido este galardão literário.

Desde 1901 receberam o prémio 108 escritores. Polo idioma em que escreveram existe um profundo desfasamento em prejuízo do nosso comum idioma universal. Em inglês escreviam 26, 14 em francês e também em alemão, 11 em castelhano, sete em sueco, seis em italiano, cinco em russo, quatro em polaco, três em dinamarquês e em norueguês e dous em japonês e grego. O português, com tão só um escritor, está ao nível do finlandês, o checo, o ocitano, o islandês, o iídixe, o turco, o árabe, o chinês e o bengali, chamado Bangla.” Paz Rodrigues – Galiza  in “Portal Galego da Língua”