Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Península Ibérica - De onde vieram os actuais ursos-pardos?

Nova história da viagem dos ursos-pardos até à Península Ibérica inspirada no seu ADN e em fósseis. Segundo um novo estudo, os ursos-pardos actuais não terão descendido directamente dos ursos do Norte na última glaciação



Havia uma história sobre os ursos-pardos que todos julgávamos como certa. Temo-la ouvido assim: depois das últimas glaciações na Europa ocidental, o Sul da Europa tornou-se um refúgio para ursos que chegavam do Norte. Viriam então daí os ursos-pardos que hoje vivem na Península Ibérica. Contudo, estudos mais recentes, como um na revista científica Historical Biology, reformularam essa história através do ADN e de fósseis desta espécie de ursos. Querem reescrevê-la desta forma: os ursos-pardos actuais não descendem directamente dos ursos do Norte na última glaciação. Estes ursos abrigaram-se algures na Europa continental atlântica e só depois “desceram” para a Península Ibérica.

O urso-pardo (Ursus arctos), um mamífero com mais de 1,5 metros, tem garras longas, quase direitas, e com elas faz a demarcação visual e olfactiva nos troncos das árvores. O seu tamanho e cor do pêlo variam conforme o sítio onde vive, que pode ser em florestas densas, florestas montanhosas e na tundra. Nos meses mais frios pode ficar a hibernar em grutas.

Este é o ursídeo com maior área de distribuição, encontrando-se na América do Norte, na Europa ou na Ásia. Este peso-pesado das florestas está classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês) com o estatuto de “pouco preocupante”. “Apesar de a população global estar estável e a sua área de distribuição ser grande, na Europa várias pequenas populações isoladas estão ameaçadas devido à proximidade com o homem”, alerta o site do Jardim Zoológico de Lisboa, acrescentando-se que os perigos que hoje enfrenta são sobretudo a destruição e fragmentação do seu habitat, assim como a caça. Em Portugal, ter-se-á extinto, enquanto espécie reprodutora, por volta do século XVII. Mas o último urso-pardo no território português terá sido morto em 1843, no Gerês, como relembra o livro publicado em Novembro de 2017 Urso-pardo em Portugal – Crónica de uma Extinção (editora Bizâncio), de Miguel Brandão Pimenta e Paulo Caetano.



Mas como chegou este urso à Península Ibérica? É sempre uma aventura entrar na máquina do tempo para percorrer os caminhos do urso. A teoria do refúgio glaciar “atreveu-se” a fazê-lo. Dizia que durante as fases glaciares do Pleistoceno (entre há dois milhões e 12 mil anos) que as penínsulas do Sul da Europa se tinham tornado um refúgio para várias espécies de plantas e animais que não se adaptaram ao frio extremo. Quando as condições climáticas melhoraram, voltaram a expandir-se para norte. “Isto foi confirmado através de estudos filogenéticos de uma variedade de espécies, incluindo plantas, insectos e vertebrados, que mostraram que muitas populações do Norte da Europa tinham provindo das regiões do Sul”, lê-se no artigo. Uma das espécies que teriam ainda “vestígios” desta altura seria o urso-pardo, que ainda vive na Península Ibérica. Portanto, o urso-pardo que conhecemos teria descendido directamente dos ursos das últimas glaciações e a Península Ibérica seria o seu refúgio predilecto.

Agora, um novo estudo de uma equipa espanhola propõe uma reviravolta na história. “Durante o período da última glaciação [entre há 31 mil a 16 mil anos], o aspecto da Europa era um pouco diferente do que é hoje”, conta Ana García Vázquez, da Universidade da Corunha (Espanha) e principal autora do trabalho. Ora, a calota polar tapava completamente a Escandinávia e grande parte da Inglaterra e da Irlanda, que na altura estavam ligadas ao continente porque o nível do mar era mais baixo. Para completar este cenário, os Alpes e os Pirenéus formavam duas grandes barreiras, cobertos por glaciares. Antes deste período, os ursos-pardos espalhavam-se pelo resto da Europa, mas com este clima tiveram de procurar uma “casa” mais habitável.

O rasto destes ursos foi agora seguido através de fósseis de ursos, datados por radiocarbono, e cujo ADN mitocondrial (transmitido por via materna e contido nas mitocôndrias, as baterias das células), tal como o de ursos modernos da Europa Ocidental, foi analisado. “Vimos então que a teoria do refúgio glaciar, geralmente aceite, não funciona para esta espécie”, explica em comunicado Aurora Grandal-D’Anglade, também da Universidade da Corunha e outra autora do estudo.

Passagem pelas Ilhas Britânicas

Comecemos pelo ADN. Observou-se que, no Norte da Península Ibérica, havia três linhagens genéticas durante o Pleistoceno. Mas hoje só resta uma só linhagem na Península Ibérica, o que quer dizer que as outras que chegaram de sítios longínquos não sobreviveram aqui. Como tal, a equipa conclui que as linhagens do Pleistoceno se perderam e que os ursos que hoje existem cá chegaram mais tarde, já no Holoceno (época geológica iniciada há cerca de 12 mil anos e em que nos encontramos). Já depois de terem colonizado as Ilhas Britânicas, chegaram por fim há dez mil anos à Península Ibérica. Uma conclusão obtida pela datação dos fósseis: os das Ilhas Britânicas tinham 15 mil anos e os da Península Ibérica dez mil anos.

“Concluimos que a Península Ibérica não era o refúgio glaciar, pelo menos o Norte. Esse refúgio devia ser uma área mais central, como França”, indica Ana García Vázquez. “De França a Inglaterra, não haveria barreiras físicas, por isso entrar na Península Ibérica poderia ser mais complicado, com os Pirenéus cobertos de glaciares e pouca extensão de terra entre o mar e as montanhas. Outro problema seria o País Basco, localizado na entrada na Península Ibérica: tinha uma população humana importante e competia com os ursos por comida e pela ocupação nas grutas.”





Estaremos assim perante uma nova versão desta história para os livros de ciência? “Esta é apenas uma pequena parte da história dos ursos-pardos, e restrita a uma área particular, mas pode servir como um exemplo de como o urso-pardo é uma espécie plástica em termos de habitat”, salienta Ana García Vázquez. Mas nada termina aqui. “O próximo passo é descobrir onde era o refúgio [antes de virem para a Península Ibérica] desses ursos, por isso, será necessário mais amostras de ursos-pardos da Europa atlântica,” adianta a cientista.

Portanto, aguardemos pelos próximos capítulos da história evolutiva do urso-pardo na Península Ibérica. E, enquanto esperamos, podemos conhecer melhor este animal em Lisboa, na exposição Reis da Europa Selvagem – Os Nossos Últimos Grandes Carnívoros no Museu Nacional de História Natural e da Ciência ou vê-los ao vivo no Jardim Zoológico. Teresa Serafim – Portugal in "Público"



Sobre este tema pode aceder ao seguinte artigo:


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Organização de Estados Ibero-americanos - Promove aliança entre as línguas portuguesa e espanhola

Responsável da Organização de Estados Ibero-Americanos aponta “posição altamente privilegiada” de Portugal



O secretário-geral da Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) considerou, em Lisboa, que Portugal tem “uma posição altamente privilegiada”, por ser o ponto de articulação entre a Europa, a América Latina, a África e a Ásia.

“Portugal é um país que está na confluência de três espaços, que só se articulam através de Portugal: a Península Ibérica, ou seja, a Europa; a América Latina e o Caribe; a África, além da Ásia, se incluirmos Timor e Macau”, disse o responsável, o brasileiro Paulo Speller, na cerimónia de abertura do escritório de Lisboa da Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

Para Speller, Portugal “está numa posição altamente privilegiada para levar a missão da OEI não só aos países-membros, mas também a todo o globo terrestre”.

Com a abertura do escritório em Lisboa, a organização “já está a receber pedidos imensos, do Governo e da sociedade, para além dos projectos” em que já participa, acrescentou.

Um deles é o Observatório Ibero-Americano da Educação, que terá Portugal e Argentina como Estados líderes, e em que o país colaborará “com as boas práticas” nesta área, e pelas se quais se tornou “um exemplo” para outros, disse o secretário-geral.

No mesmo sentido, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, disse que “Portugal é o único país do mundo que faz a intersecção do espaço da União Europeia, da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] e do espaço ibero-americano” e tem, por isso, “um papel insubstituível como activador das partilhas entre estes diferentes universos”.

Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, destacou que a OEI assenta sobre dois pilares: o diálogo entre a Europa e a América Latina e as Caraíbas e o diálogo entre a língua portuguesa e a espanhola, que constituem “a verdadeira força e alcance” à organização e “à cooperação que se faz no espaço ibero-americano”.

A OEI, acrescentou, “é uma organização chave para a promoção da cidadania em todos os nossos países através da cooperação entre eles”.

Ana Paula Laborinho, que dirige a nova representação em Lisboa, enumerou vários projectos da OEI em que Portugal já está envolvido e anunciou o lançamento de uma bolsa para licenciados em Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Dos objectivos essenciais do escritório, a directora salientou a promoção de “mais integração de Portugal na Ibero-América, valorizando as suas boas experiências nos três principais domínios da organização – educação, ciência e cultura -, e de forma recíproca, a valorização da frutuosa experiência da OEi consubstanciada nos seus programas e mecanismos institucionais”.

Contribuir para a cooperação sul-sul, “que tem tido particular expressão com a Agenda dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável [Agenda 2030 das Nações Unidas], estando definida a cooperação com a CPLP como um eixo estratégico” e “valorizar a proximidade linguística e cultural, reforçando a estratégia do bilinguismo espanhol e português, que é útil para os negócios, mas também para o crescimento conjunto dos indicadores de ciência e para a inovação” são outros dos objectivos da OEI em Lisboa, disse.

Portugal, que integra a OEI desde 2012, tornou-se o 18.º país a ter um escritório da organização.

A OEI conta com 24 Estados-membros – a grande maioria da América Latina, e Caribe mas também Europa (Portugal, Espanha e Andorra) e África (Guiné Equatorial). In “Ponto Final” - Macau

China – Proíbe a importação de “lixo estrangeiro”

Desde o passado dia 01 de Janeiro de 2018 que a China, o maior importador de resíduos de plástico, proibiu a importação de “lixo estrangeiro”.

Entre os países que mais exportavam resíduos de plástico estão o Reino Unido, os Estados Unidos e o Japão. Só o Reino Unido enviou desde 2012 mais de 2,7 milhões de toneladas de plástico.

Com esta proibição por parte da China, vai obrigar os países que mais utilizavam o mercado chinês como um autêntico vazador, a tomarem medidas contra o desperdício de embalagens e outros recipientes de plástico, voltando a redescobrir produtos que sejam reutilizáveis. Baía da Lusofonia

Brasil - Concorrência desleal

SÃO PAULO – Há anos que as comissárias de despachos aduaneiros sofrem concorrência desequilibrada por parte de empresas multinacionais da área de fretes internacionais, como DHL, Fedex, Schenker, UPS e outras, que oferecem serviços por preços claramente subsidiados e, em geral, sem o recolhimento dos honorários dos despachantes aduaneiros. Sem contar que, aos importadores e exportadores que se utilizam de seus serviços de fretes internacionais, essas empresas costumam vincular o valor dos serviços aduaneiros à compra do frete.

Outra distorção – não menos grave – ocorre por parte das concessionárias de serviços de armazenamento nas operações de comércio exterior, como terminais portuários, entrepostos, portos secos ou estações aduaneiras interiores (Eadis) e afins, que operam sob concessão do poder público e se utilizam das informações que dispõem para ofertar serviços de despachos claramente subsidiados pelas tarifas de armazenagem. Esses serviços são ofertados sem nenhuma trava por parte do poder público, ficando ao livre-arbítrio dessas concessionárias que se valem dessa concessão para angariar clientes tanto na área de despachos como na de transporte rodoviário.

Trata-se de concorrência desleal e sumamente nefasta ao mercado à medida que o acesso a tarifas privilegiadas de armazenagem, despacho e frete rodoviário subsidiado é oferecido àquelas empresas que representam faturamento significativo. Em outras palavras: esse procedimento tem por única finalidade aumentar os lucros dessas empresas e fere o princípio da igualdade de tratamento, como seria razoável de se esperar de quem desempenha serviços sob concessão pública.

Para que o leitor possa compreender melhor, basta dizer que esse é um procedimento tão antiético quanto o de uma concessionária de rodovia que venha a dar desconto no pedágio para empresas que tenham maior movimento de veículos em seus pedágios. Embora fira o princípio da isonomia, esse comportamento absurdo também é comum em vários portos brasileiros.

Os importadores brasileiros, muitas vezes, também não têm como alterar essa situação à medida que as concorrências nessa área são feitas no exterior, sobrando às subsidiárias brasileiras apenas o cumprimento de ordens. De fato, pouco podem fazer os importadores contra esse procedimento que já trouxe e continua trazendo consequências bastante onerosas, especialmente quando ocorrem as revisões aduaneiras, pois, além das cobranças fiscais decorrentes de falhas técnicas, há também sanções penais aos quais os representantes legais dessas empresas estão sujeitos.

Por tudo isso, entendemos que empresas que operam serviços sob concessão pública não poderiam se utilizar dessa condição para oferecer outros serviços em condições mais favoráveis. Tampouco empresas multinacionais de fretes poderiam agir do mesmo modo, tendo como contrapartida as contas de fretes internacionais, sob pena de produzir, como ocorre agora, uma situação absolutamente desfavorável para as empresas nacionais que concorrem nesse segmento. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Cabo Verde - Vai apostar durante a sua presidência no reforço institucional da CPLP e na credibilidade da organização

Cidade da Praia – Cabo Verde vai apostar no reforço institucional e na credibilidade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), durante a sua presidência nesta organização, em 2018, disse ma passada sexta-feira, na Praia, o Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca.

“Tudo deveremos fazer para que no período (2018-2020) haja um reforço institucional e da credibilidade da organização, transformando-a progressiva e decisivamente numa comunidade de povos, num ampla casa da cidadania de língua portuguesa”, sublinhou Jorge Carlos Fonseca, no acto de posse do novo Governo.

Segundo Jorge Carlos Fonseca, Cabo Verde deve privilegiar as pessoas, a cultura e os oceanos durante a sua presidência na CPLP.

O arquipélago assume como prioritária a temática da mobilidade no espaço territorial da CPLP.



















Durante a sua presidência Cabo Verde vai defender a necessidade de se fazer da CPLP uma organização que deverá estar cada vez mais próxima dos cidadãos, uma verdadeira comunidade de povos, que deverá apostar progressivamente na meta da livre circulação de pessoas e bens.

A questão da livre circulação, que há anos tem encontrado entraves para o seu avanço, constará no plano de acção da presidência cabo-verdiana, entre 2018 e 2020, revelou recentemente o ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades, Luís Filipe Tavares.

Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste são os países que integram a CPLP. In “Inforpress” – Cabo Verde

Holanda - Bicicleta para terceira idade tem mais estabilidade e ajuste automático

Bicicleta com maior estabilidade

Uma engenheira holandesa conseguiu aumentar a estabilidade de uma bicicleta, além de adicionar recursos que tornam as magrelas mais seguras para pessoas na terceira idade.

Antes de aprimorar o projeto da bicicleta, Vera Bulsink, da Universidade de Twente, precisou aprimorar as simulações computadorizadas usadas para se projetar veículos de duas rodas.



Ela descobriu que os modelos de software atuais para o desenvolvimento de bicicletas consideram o ciclista como uma massa única. Mas as propriedades pessoais do ciclista determinam sua probabilidade de cair. Vera então acrescentou ao programa um modelo realista de contato pneu-estrada e adicionou os movimentos do ciclista de forma independente - o movimento dos braços no guidão, o movimento do tronco superior do corpo e os movimentos do joelho para baixo.

Isso permite projetar bicicletas para públicos diferentes, e o primeiro foco foram os idosos mais velhos, que têm maior probabilidade de perder o equilíbrio e são menos seguros nas manobras.

Tripé e selim automáticos

O novo modelo de simulação resultou em várias sugestões de design para tornar a estrutura da bicicleta mais estável. A combinação de um ângulo mais inclinado para o garfo dianteiro, rodas menores e uma distância entre eixos mais curta tornaram a bicicleta mais estável em baixas velocidades.

Vera idealizou também melhorias com base nas estatísticas, que mostram que a maior parte dos acidentes com bicicletas conduzidas por pessoas mais velhas envolve quedas laterais em baixa velocidade, ou mesmo quando os ciclistas já estão parados, em um sinal de trânsito, por exemplo.

Para resolver esse problema, ela acrescentou um tripé acionado eletricamente, que baixa automaticamente assim que bicicleta começa a parar, e um selim de altura ajustável, que baixa também automaticamente conforme a velocidade diminui, facilitando a colocação dos pés no chão.

O novo projeto da bicicleta ainda não foi licenciado, não havendo prazo definido para sua colocação no mercado. In “Inovação Tecnológica” - Brasil

domingo, 7 de janeiro de 2018

As Caravanas















Vamos aprender português, cantando


É um dia de real grandeza, tudo azul
um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
um sol de torrar os miolos
quando pinta em Copacabana
a caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba
a caravana do Irajá, o comboio da Penha
não há barreira que retenha esses estranhos
suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
a caminho do Jardim de Alá
é o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
em sungas estufadas e calções disformes
é, diz que eles têm picas enormes
e seus sacos são granadas
lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa
a gente ordeira e virtuosa que apela
pra polícia despachar de volta
o populacho pra favela
ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
que bate na moleira, o sol
que estoura as veias, o suor
que embaça os olhos e a razão

E essa zoeira dentro da prisão
crioulos empilhados no porão
de caravelas no alto mar
tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
filha do medo, a raiva é mãe da covardia
ou doido sou eu que escuto vozes
não há gente tão insana
nem caravana do Arará
não há, não há

Sol, a culpa deve ser do sol
que bate na moleira, o sol
que estoura as veias, o suor
que embaça os olhos e a razão

E essa zoeira dentro da prisão
crioulos empilhados no porão
de caravelas no alto mar
tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
filha do medo, a raiva é mãe da covardia
ou doido sou eu que escuto vozes
não há gente tão insana
nem caravana
nem caravana
nem caravana do Arará


Chico Buarque - Brasil