Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 22 de novembro de 2025

Angola - Primeiro Congresso Internacional de Kizomba resgata origens do estilo no país

Mais de trezentas pessoas participaram no Primeiro Congresso Internacional de Kizomba, realizado de 18 a 20 do mês em curso, com a presença de professores e praticantes do género vindos do Brasil, Estados Unidos da América, Canadá, Espanha, França, Angola, Zâmbia, Itália e Portugal. Os participantes apelaram à elevação da Kizomba a Património Mundial


Durante três dias, o evento foi marcado por workshops criativos de desempenho e improvisação, roda de Kizomba com mestres convidados, cerimónia de entrega de certificados e uma grande festa de encerramento com artistas convidados.

O cantor angolano Dom Kikas, presente no encontro, destacou que eventos do género devem acontecer com mais frequência, para que todos que trabalham com Kizomba no mundo possam incluir este congresso de forma permanente nas suas agendas.

Na sua perspetiva, a Kizomba ganhou mais vida e destaque a nível internacional do que dentro do próprio país, pelo que devem ser criadas políticas que promovam e valorizem o que é nacional.

Sublinhou ainda que Angola não dispõe de uma “Casa da Kizomba”, um espaço onde os visitantes e artistas possam trocar experiências e partilhar vivências. Para o artista, a valorização da classe artística no país tem evoluído, mas ainda não atingiu o nível desejado, pois muitos artistas continuam a ser vistos apenas como entretenimento, sem se reconhecer plenamente o contributo que a música e a cultura desempenham na educação da sociedade.

“A arte é um veículo de mensagens e um instrumento de união entre as pessoas”, referiu. Defendeu ainda que o artista é “muito mais importante do que se pensa”, não apenas na música: “É muito importante que as nossas autoridades criem plataformas através das quais os artistas possam conquistar um estatuto social e profissional que lhes permita fazer mais pela sociedade”, ressaltou.

Já o presidente do concurso nacional de dança Kizomba e Semba, Mucano Charles, afirmou que, a partir deste congresso, todos passarão a ter uma abordagem diferente quando se falar de Kizomba.

“Este evento é o início de muitos bons resultados que virão nos próximos anos. Trouxe temáticas que antes não eram discutidas desta forma. Aqui pudemos debater a Kizomba no verdadeiro sentido da palavra, desde o seu valor cultural, a sua origem, identidade e propósitos”, afirmou com satisfação.

Contacto com a origem da Kizomba O convidado Horácio João, angolano residente nos Estados Unidos da América há mais de seis anos e professor de dança Kizomba, disse que a conferência foi bastante positiva, com temas de grande relevância.

“O feedback foi muito bom em termos de Kizomba no geral. Fico feliz por saber que a primeira conferência internacional de Kizomba está a ser realizada em Angola, que é a casa-mãe, a origem.

Como angolano que ensina lá fora, sempre tive receio de que o congresso tivesse iniciativa noutros países. Em várias partes do mundo, a Kizomba está a ganhar espaços muito grandes”, destacou. Maria Custódia – Angola in “O País”


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Península Ibérica - De onde vieram os actuais ursos-pardos?

Nova história da viagem dos ursos-pardos até à Península Ibérica inspirada no seu ADN e em fósseis. Segundo um novo estudo, os ursos-pardos actuais não terão descendido directamente dos ursos do Norte na última glaciação



Havia uma história sobre os ursos-pardos que todos julgávamos como certa. Temo-la ouvido assim: depois das últimas glaciações na Europa ocidental, o Sul da Europa tornou-se um refúgio para ursos que chegavam do Norte. Viriam então daí os ursos-pardos que hoje vivem na Península Ibérica. Contudo, estudos mais recentes, como um na revista científica Historical Biology, reformularam essa história através do ADN e de fósseis desta espécie de ursos. Querem reescrevê-la desta forma: os ursos-pardos actuais não descendem directamente dos ursos do Norte na última glaciação. Estes ursos abrigaram-se algures na Europa continental atlântica e só depois “desceram” para a Península Ibérica.

O urso-pardo (Ursus arctos), um mamífero com mais de 1,5 metros, tem garras longas, quase direitas, e com elas faz a demarcação visual e olfactiva nos troncos das árvores. O seu tamanho e cor do pêlo variam conforme o sítio onde vive, que pode ser em florestas densas, florestas montanhosas e na tundra. Nos meses mais frios pode ficar a hibernar em grutas.

Este é o ursídeo com maior área de distribuição, encontrando-se na América do Norte, na Europa ou na Ásia. Este peso-pesado das florestas está classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês) com o estatuto de “pouco preocupante”. “Apesar de a população global estar estável e a sua área de distribuição ser grande, na Europa várias pequenas populações isoladas estão ameaçadas devido à proximidade com o homem”, alerta o site do Jardim Zoológico de Lisboa, acrescentando-se que os perigos que hoje enfrenta são sobretudo a destruição e fragmentação do seu habitat, assim como a caça. Em Portugal, ter-se-á extinto, enquanto espécie reprodutora, por volta do século XVII. Mas o último urso-pardo no território português terá sido morto em 1843, no Gerês, como relembra o livro publicado em Novembro de 2017 Urso-pardo em Portugal – Crónica de uma Extinção (editora Bizâncio), de Miguel Brandão Pimenta e Paulo Caetano.



Mas como chegou este urso à Península Ibérica? É sempre uma aventura entrar na máquina do tempo para percorrer os caminhos do urso. A teoria do refúgio glaciar “atreveu-se” a fazê-lo. Dizia que durante as fases glaciares do Pleistoceno (entre há dois milhões e 12 mil anos) que as penínsulas do Sul da Europa se tinham tornado um refúgio para várias espécies de plantas e animais que não se adaptaram ao frio extremo. Quando as condições climáticas melhoraram, voltaram a expandir-se para norte. “Isto foi confirmado através de estudos filogenéticos de uma variedade de espécies, incluindo plantas, insectos e vertebrados, que mostraram que muitas populações do Norte da Europa tinham provindo das regiões do Sul”, lê-se no artigo. Uma das espécies que teriam ainda “vestígios” desta altura seria o urso-pardo, que ainda vive na Península Ibérica. Portanto, o urso-pardo que conhecemos teria descendido directamente dos ursos das últimas glaciações e a Península Ibérica seria o seu refúgio predilecto.

Agora, um novo estudo de uma equipa espanhola propõe uma reviravolta na história. “Durante o período da última glaciação [entre há 31 mil a 16 mil anos], o aspecto da Europa era um pouco diferente do que é hoje”, conta Ana García Vázquez, da Universidade da Corunha (Espanha) e principal autora do trabalho. Ora, a calota polar tapava completamente a Escandinávia e grande parte da Inglaterra e da Irlanda, que na altura estavam ligadas ao continente porque o nível do mar era mais baixo. Para completar este cenário, os Alpes e os Pirenéus formavam duas grandes barreiras, cobertos por glaciares. Antes deste período, os ursos-pardos espalhavam-se pelo resto da Europa, mas com este clima tiveram de procurar uma “casa” mais habitável.

O rasto destes ursos foi agora seguido através de fósseis de ursos, datados por radiocarbono, e cujo ADN mitocondrial (transmitido por via materna e contido nas mitocôndrias, as baterias das células), tal como o de ursos modernos da Europa Ocidental, foi analisado. “Vimos então que a teoria do refúgio glaciar, geralmente aceite, não funciona para esta espécie”, explica em comunicado Aurora Grandal-D’Anglade, também da Universidade da Corunha e outra autora do estudo.

Passagem pelas Ilhas Britânicas

Comecemos pelo ADN. Observou-se que, no Norte da Península Ibérica, havia três linhagens genéticas durante o Pleistoceno. Mas hoje só resta uma só linhagem na Península Ibérica, o que quer dizer que as outras que chegaram de sítios longínquos não sobreviveram aqui. Como tal, a equipa conclui que as linhagens do Pleistoceno se perderam e que os ursos que hoje existem cá chegaram mais tarde, já no Holoceno (época geológica iniciada há cerca de 12 mil anos e em que nos encontramos). Já depois de terem colonizado as Ilhas Britânicas, chegaram por fim há dez mil anos à Península Ibérica. Uma conclusão obtida pela datação dos fósseis: os das Ilhas Britânicas tinham 15 mil anos e os da Península Ibérica dez mil anos.

“Concluimos que a Península Ibérica não era o refúgio glaciar, pelo menos o Norte. Esse refúgio devia ser uma área mais central, como França”, indica Ana García Vázquez. “De França a Inglaterra, não haveria barreiras físicas, por isso entrar na Península Ibérica poderia ser mais complicado, com os Pirenéus cobertos de glaciares e pouca extensão de terra entre o mar e as montanhas. Outro problema seria o País Basco, localizado na entrada na Península Ibérica: tinha uma população humana importante e competia com os ursos por comida e pela ocupação nas grutas.”





Estaremos assim perante uma nova versão desta história para os livros de ciência? “Esta é apenas uma pequena parte da história dos ursos-pardos, e restrita a uma área particular, mas pode servir como um exemplo de como o urso-pardo é uma espécie plástica em termos de habitat”, salienta Ana García Vázquez. Mas nada termina aqui. “O próximo passo é descobrir onde era o refúgio [antes de virem para a Península Ibérica] desses ursos, por isso, será necessário mais amostras de ursos-pardos da Europa atlântica,” adianta a cientista.

Portanto, aguardemos pelos próximos capítulos da história evolutiva do urso-pardo na Península Ibérica. E, enquanto esperamos, podemos conhecer melhor este animal em Lisboa, na exposição Reis da Europa Selvagem – Os Nossos Últimos Grandes Carnívoros no Museu Nacional de História Natural e da Ciência ou vê-los ao vivo no Jardim Zoológico. Teresa Serafim – Portugal in "Público"



Sobre este tema pode aceder ao seguinte artigo:


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O bisonte-europeu

Esteve quase extinto nos anos 20. Hoje há mais de cinco mil animais e a história da sua evolução é invulgar. O bisonte-europeu resulta do cruzamento entre outra espécie de bisonte e o antepassado das vacas domésticas.


Há mais de 30 mil anos, as paredes das grutas de Chauvet, em Pont d'Arc, França, serviam de tela para caçadores desenharem as suas presas. Algo tão quotidiano como a caça na pré-história ficou representado também noutras grutas francesas, como Lascaux, o que agora ajudou a descobrir a origem do bisonte-europeu. E, para tal, a história e a genética juntaram-se.  

A origem do bisonte-europeu (Bison bonasus) era um mistério. Apareceu, de repente, há cerca de 11 mil anos, na mesma altura em que desaparecia o bisonte-das-estepes (Bison priscus) e a sua sobrevivência também intrigava os especialistas.


Na época do Pleistoceno (a última Idade do Gelo, período compreendido entre há 1,8 milhões e 11 mil anos), o bisonte-europeu resistiu a uma extinção causada por períodos de temperaturas muito baixas na Europa, refere uma notícia na revista Nature. E, no século passado, esteve mesmo à beira da extinção, devido à caça excessiva: em 1927, havia apenas 12 animais. Hoje esta espécie, aos poucos reintroduzida na Europa, encontra-se em manadas na natureza em alguns locais, segundo o Fundo Mundial para a Natureza (WWF): na Rússia; no Parque Nacional de Bialowieza (na Polónia e Bielorrússia); e na Ucrânia. Ao todo, a população de bisontes-europeus é de 5500. 

Agora, a equipa de Alan Cooper, director do Centro Australiano para o ADN Antigo da Universidade de Adelaide (Austrália), encontrou a resposta para o aparecimento misterioso do bisonte-europeu, como é revelado num artigo científico na Nature.

Tudo começou com a análise de ADN de ossos e dentes de bisontes recolhidos em grutas espalhadas pela Europa, pelos Montes Urales e pelo Cáucaso — material esse que esta equipa já tinha começado a datar por radiocarbono há cerca de 15 anos. Foram usados ossos e dentes de mais de 65 bisontes, com idades compreendidas entre 14 mil e 50 mil anos. Inicialmente, em 2001, o objectivo era perceber o impacto das alterações climáticas ao longo do tempo através do estudo do bisonte. Mas a investigação mudou de rumo.

Os resultados das análises de ADN revelavam características genéticas intrigantes em alguns dos fósseis de bisonte — e que eram bastante diferentes das do bisonte-europeu, explica-se num comunicado da Universidade de Adelaide. Havia, assim, uma espécie-mistério.

“As datações por radiocarbono mostravam que a espécie misteriosa dominou nos registos [fósseis] europeus durante milhares de anos em vários pontos, e alternava ao longo do tempo com o bisonte-das-estepes, que era considerada a única espécie presente na Europa no final da Idade do Gelo”, lê-se no comunicado. “Os ossos datados revelaram que a nossa nova espécie e o bisonte-das-estepes dominaram alternadamente na Europa por várias vezes, em conjunto com grandes mudanças ambientais causadas pelas alterações do clima”, explica, no comunicado, o principal autor do estudo, Julien Soubrier, da Universidade de Adelaide.

Os cientistas australianos decidiram então contactar especialistas franceses em arte rupestre. E fez-se luz. “Quando lhes perguntámos, disseram-nos que, de facto, havia duas formas distintas de bisontes nas pinturas das grutas da Idade do Gelo. Acontece que as suas idades coincidiam com as das diferentes espécies”, diz Julien Soubrier. “Nunca adivinharíamos que os artistas rupestres tinham pintado para nós imagens das duas espécies que nos ajudariam bastante.”

Afinal, a resolução do mistério estava nas pinturas de grutas como as de Chauvet (cerca de 36 mil anos), Lascaux (cerca de 20 mil anos), Niaux e Pergouset (17 mil anos), todas em França. Há 36 mil anos, o bisonte era desenhado com cornos longos e uma corcunda mais alta. Era mais parecido com o bisonte-americano, que descende do bisonte-das-estepes. Mas há 17 mil anos, o bisonte já surgia representado com os cornos mais pequenos e encurvados para cima e a corcunda era mais pequena. Parecia-se mais com o que agora conhecemos como o bisonte-europeu.

As análises de ADN mostraram que o bisonte-europeu tinha material genético parecido com o bisonte-americano, por um lado, e com as vacas domésticas, por outro. Desta forma, os resultados apontaram para a existência de um cruzamento na Europa entre o bisonte-das-estepes e o antepassado das vacas modernas, o auroque, também ele já extinto desde 1627. Ou, nas palavras dos cientistas, houve uma hibridização entre o bisonte-das-estepes e o auroque, há mais de 120 mil anos. E foi deste bisonte híbrido que evoluiu o bisonte-europeu actual.



“Descobrir que foi a hibridização que levou à origem de uma espécie completamente nova foi uma verdadeira surpresa. Não se esperava que isto acontecesse nos mamíferos”, comenta Alan Cooper, que coordenou o trabalho. “Esta espécie dominou na tundra durante os períodos frios, sem Verões quentes, e foi a maior espécie europeia a sobreviver às extinções de megafauna.” Os mamutes-lanudos, por exemplo, não tiveram essa sorte. “Mas o bisonte-europeu moderno é geneticamente bastante diferente, porque passou por um efeito de gargalo genético de apenas 12 indivíduos nos anos 20, quando quase se extinguiu.” Teresa Serafim – Portugal in “Jornal Público”