Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Moçambique – Filósofo Severino Ngoenha considera que o país pode deixar de ser uma nação

O filósofo Severino Ngoenha defende que os resultados que serão proclamados pelo Conselho Constitucional vão fragmentar o país. Ngoenha diz que qualquer resultado vai servir “como um fósforo”, que pode piorar a situação do país. 

Em entrevista ao Jornal O País, Severino Ngoenha disse que Moçambique está em perigo iminente de fragmentação. 

“A polarização está no mais alto nível. Moçambique voltou a ser um país onde a questão tribal e regional está no centro de preocupações de todos. Moçambique voltou a ser um país racista. São todos ingredientes para pôr em perigo a nossa existência como país e como nação”, disse o filósofo.

Para Ngoenha, os resultados que serão proclamados, no dia 23, pelo Conselho Constitucional, podem piorar a situação do país. “Estes resultados finais que serão proclamados, ganhe um candidato ou ganhe o outro, vão ser um fósforo, que vai acender o petróleo (…). De facto, o país será fragmentado”.  

Ngoenha não parou por aí, explicou que o presidente que será proclamado, independentemente de quem for, não terá legitimidade suficiente para governar o país e “levar os moçambicanos para o desenvolvimento”. 

O académico diz que é preciso que o país saia da situação de dependência em relação a outros países. E a única maneira de o fazer é com um Governo legítimo, capaz de unir o povo. 

“Somos um país pobre. Não, miserável. Não conseguimos dar de comer às nossas populações. Nós não temos escolas em condições. Nós não temos medicamentos nos hospitais. Somos um país assistido que vive da boa vontade de outros. Apesar de nos chamarmos independentes, somos um país que depende de outros. Temos de sair desta situação. E para sair desta situação temos de ter um Governo legítimo, capaz de congregar a todos, de unir todos”, explicou.

Severino Ngoenha apelou a todos os moçambicanos para que tenham uma atitude responsável e um acordo antes da proclamação dos resultados. 

“Um acordo de bravos, quer dizer, não em que há derrotados e vencedores, mas que haja só um vencedor, o povo moçambicano e a unidade do nosso país. Para isso, é preciso que cada um meta um pouco de água no seu próprio vinho.  É importante que cada um tempere as suas ambições. É preciso que cada um esteja pronto a ceder, para encontrarmos uma plataforma comum, na qual nos podemos congregar como moçambicanos, para sairmos da situação que nos encontramos”.

O filósofo apela também a menos rigidez, mais abertura, mais predisposição e mais plataformas de diálogo a quem é de direito. 

Severino Ngoenha condenou algumas atitudes que têm caracterizado as manifestações, dizendo que os bandidos estão a aproveitar-se da situação para fazer desmandos. 

“Queimar carros, queimar infra-estruturas que precisamos, queimar tribunais, tirar linhas férreas, destruir infra-estruturas necessárias é fazer o país voltar para trás, é fazer com que mesmo aquele que venha a governar amanhã, independentemente de quem ele seja, não tenha condições para oferecer aquilo que o país precisa, sobretudo para os mais pobres”.

Ngoenha disse não haver nenhuma razão para querer que o presidente Nyusi fique no poder por mais dois anos. “Não há nenhuma razão para mandar parar a revolução, as modificações, as reformas do nosso país têm que continuar (…) Temos falado muito, eu, pessoalmente, sobre muitos desmandos para uma sociedade democrática, aberta e inclusiva, que Moçambique tem demonstrado. Não queremos favorecer nada nem ninguém”, concluiu. Eugénia Arnaldo – Moçambique in “O País”


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Moçambique – Cidade de Maputo já se prepara para “sete dias difíceis”

Num movimento de uma manhã atípica, Edgar Chaúque tenta comprar o máximo de alimentos que pode para enfrentar os “sete dias difíceis” que se esperam em Moçambique com a previsão de novas manifestações contra os resultados eleitorais.


“Com o último anúncio do Venâncio Mondlane, decidimos ir comprar o que falta para que não nos arrependamos nos próximos dias”, explica à Lusa o moçambicano de 46 anos, momentos após comprar alguns produtos num dos principais supermercados de Kachamanculo, nos subúrbios de capital moçambicana.
Num frenesim atípico para uma manhã de quarta-feira em Maputo, como Edgar, dezenas de pessoas têm estado a comprar produtos, com engarrafamento em algumas avenidas, face a uma eventual paralisação, com receio de um cenário semelhante ao dos primeiros três dias de manifestações convocadas por Mondlane em protesto contra a alegada fraude nas eleições de 9 de Outubro.
“Está todo o mundo a correr porque não sabemos o que vai acontecer (…) sete dias é difícil. A parte difícil de tudo isto são as crianças que não poderão ir à escola. Eles estão nas últimas semanas e têm as últimas avaliações, mas todos nós, no fundo, queremos liberdade democrática, sem violência”, declara Cármen João, a escassos metros do seu carro já cheio de produtos alimentares.
Os últimos dias de manifestações convocadas por Mondlane, na semana passada, culminaram com violentos confrontos entre a polícia moçambicana e apoiantes do político em vários pontos do país, com destaque para Maputo, que, à margem das confrontações que ocorreram sobretudo na periferia, esteve quase uma cidade-fantasma, com o comércio paralisado.
Na terça-feira, numa das suas concorridas ‘lives’ vistas por milhares na rede social Facebook, Mondlane apelou para uma greve geral de uma semana a partir de quinta-feira, manifestações nas sedes distritais da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e marchas para Maputo em 7 de Novembro, contestando os resultados apresentados pela CNE, que deram a vitória a Daniel Chapo, apoiado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder, com 70,67% dos votos.
No princípio, Mondlane convocou uma “paralisação geral”, mas, após o assassínio de Elvino Dias, seu advogado, e Paulo Guambe, mandatário do partido Podemos, que o apoia, chamou os seus apoiantes para as ruas, dando-se, assim, início a confrontos entre manifestantes e a polícia em vários pontos do país, com mortos, feridos e detidos, além de lojas fechadas.
Embora na rua as opiniões sobre a contestação aos resultados continuem divididas, para alguns o que está em causa actualmente em Moçambique ultrapassa “ideologias políticas”: trata-se de uma “luta do povo moçambicano”.
“Eu estou pronto para sete dias difíceis, querendo como não, temos de segurar. A Frelimo tem de sair”, diz à Lusa Nelson Rafael Paunde, um jovem lavador de carros na avenida Carlos Morgado, simpatizante assumido de Mondlane.
Não muito longe de Kachamanculo, no mercado de Xipamanene, no bairro do Alto Maé, Carlos Baptista, outro lavador de carros na rua, diz não estar tão pronto como Nelson, embora admita que votou no “VM7 da política moçambicana”, uma alcunha política que lhe foi atribuída pelos seus simpatizantes numa comparação ao português Cristiano Ronaldo (CR7) no futebol.
“Eu votei em Venâncio, mas agora estou a ver que ele está a estragar as coisas (…) Sete dias? Vamos morrer à fome. Não estou pronto. Eu vivo da rua e ficar sete dias paralisado vai obrigar-me a roubar”, diz à Lusa Carlos Baptista.
Enquanto na rua as opiniões permanecem divididas, a tensão está estampada no rosto da maioria em cada esquina de Maputo, com a indefinição sobre o que vai acontecer nos próximos dias como a única coisa que é consensual: “Independentemente de partidos políticos, isto é uma batalha de todo povo moçambicano”, conclui Edgar Chauque.
O Centro de Integridade Pública, uma organização não-governamental moçambicana que monitoriza os processos eleitorais, estima que até agora morreram 10 pessoas, dezenas ficaram feridas e cerca de 500 foram detidas, no contexto dos protestos e confrontos durante a greve e manifestações de quinta e sexta-feira, que se sucederam a iguais confrontos violentos em 21 de Outubro, também convocados por Mondlane.
A Renamo diz que vai divulgar contagem paralela e que venceu em duas províncias
A Resistência Nacional de Moçambique (Renamo), principal força da oposição, prepara a divulgação dos resultados da contagem paralela das eleições gerais, em que se declara vencedora em duas províncias, declarou o seu mandatário. Geraldo Carvalho disse que, após a divulgação dos resultados pela Comissão Nacional de Eleições, que ainda carecem de validação do Conselho Constitucional, a Renamo “manteve-se calma” enquanto trabalha nos dados da contagem paralela, lembrando que não é “a favor dos resultados veiculados” pelos órgãos oficiais. “Adianto a dizer que consta que em duas províncias a Renamo leva vantagem no que diz respeito à eleição de governador de província e de assembleias provinciais”, disse, referindo que o partido aguarda igualmente pelo pronunciamento do CC. “Esperamos que o Conselho Constitucional desta vez faça o seu papel como deve ser, lembrando-se do que são as suas obrigações”, apontou. Estevão Chavisso – Moçambique “Agência Lusa” in “Jornal Tribuna de Macau”