Obra
do professor Flávio R. Kothe mostra que, nas escolas, a filosofia hoje só é
utilizada para defender os privilégios das classes dominantes
I
A partir da conclusão que os cursos de
Letras carecem de Filosofia da Linguagem e de Lógica e que o sistema escolar
brasileiro só serve para domesticar, gerar fiéis, servidores, serviçais, e não
pensadores autônomos, o professor Flávio R. Kothe escreveu, em meados da década
de 1980, um manual que, publicado pela Editora Ática, incluía o texto que
aparece agora na obra que leva o título Alegoria, Aura e Fetiche
(Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023), que, além de ter passado por uma apurada revisão,
recebeu vários acréscimos, inclusive, discutindo dois temas complementares:
aura e fetiche. Continua, portanto, um manual que pode ser usado em escolas,
pois constitui “uma reflexão sobre os fundamentos metafísicos que ditam o nosso
modo de pensar, com a pretensão de começar a pensar onde se fica repetindo o
mesmo convencionado, para daí ir mais longe”, como observa o autor no texto de
apresentação.
Eliminado da Universidade de Brasília (UnB), pelos esbirros
do famigerado regime militar (1964-1985), tendo retornado como anistiado em
1994, Kothe sempre defendeu o princípio de liberdade nas ideias e disso sofreu
consequências, já que “a oligarquia não quer que se desenvolva nos estudantes
e, obviamente, na população esse direito de pensar, para que ela não perca seus
privilégios”, que vêm desde o início da construção da nação no século XVI. E
argumenta: “As grandes obras obrigam a pensar. São evitadas pelo sistema
escolar brasileiro. As sequelas se mostram em palestras e falas de
intelectuais, mas não são percebidas, porque o público sofre das mesmas
deformações”, diz na introdução.
Na primeira parte da obra, Kothe defende que o Estado laico
precisa ensinar a pensar na escola, para que os cidadãos aprendam a pensar por
si, deixando de ser manipulados pela mídia, pela IA, pelas igrejas e
propagandas. “Essa é a condição para que democracia, esclarecimento e cidadania
sobrevivam”, garante, lembrando que filosofia não é decorar alguns dados
bibliográficos e frases.
“Estudar a alegoria envolve revisar a filosofia que
alimenta suas definições”, diz, observando, porém, que é também preciso
desconstruir a alegoria, enquanto construção imagética, para ver a que fins
serve sua definição e seu uso. “Ela tem servido para auratizar o poder,
fazer propaganda de governantes como se cada um fosse a concretização da ideia
de rei, papa, nobre. É preciso ver se ela serve não só para propagar o poder,
mas se pode sugerir uma leitura diferente, mais livre, fugindo ao
convencional”, adverte.
E aqui utiliza o pouco convencional verbo auratizar no
sentido desenvolvido pelo filósofo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940),
atribuindo um valor transcendental ou quase-divino a alguém, ou seja, uma aura,
especialmente a uma autoridade ou a alguma obra de arte. Para Kothe, a alegoria
tem sido fundamento da pintura e da escultura sacra, enquanto representação
concreta de uma noção abstrata, como a maternidade, a redenção, a fidelidade. “A
leitura alegórica procura decifrar uma imagem, ainda que se desviando de seu
sentido literal, como ver o salvador na figura de um crucificado”, acrescenta.
II
Segundo o autor, a leitura alegórica de um fato pode ser
tanto a busca da verdade quanto a imposição de um código de leitura, um
paradigma de interpretação. Nesse sentido, cita o filósofo grego Plutarco (46
d.C-120 d.C.), que conta um episódio ocorrido na Roma antiga, durante uma
rebelião de escravos, que haviam se retirado da cidade. E Menenius Agripa
(?-493 a.C.), cônsul nos primeiros tempos da República Romana, teria ido
conversar com eles para convencê-los a voltar para “casa” (e continuando sendo
bons escravos). Para tanto, teria inventado uma fábula em que o estômago, tendo
ficado sem comida, causaria o enfraquecimento geral do organismo. E todos
perderiam. Com essa fábula, teria convencido os escravos a voltar para “casa”.
Para Kothe, essa história tem a estrutura da narrativa
trivial de direita, sendo uma falácia, pois “finge que é da natureza o que é um
regime social de opressão e exploração não remunerada do trabalho”. Aliás, nesse
sentido, algo similar a essa fábula, recentemente, foi ressuscitado em
editorial por um tradicional órgão de imprensa para condenar a política do
governo de reajuste real do salário mínimo
com o argumento de que a economia seria incapaz de suportar o acréscimo,
sob a alegação de que isso empurraria o País para o abismo, tal como já fizeram
as classes dominantes no século XIX, ao condenar a abolição da escravatura em
1888, fato que provocou o derrube da monarquia no ano seguinte por meio de um reles
golpe militar.
Entre as muitas variantes da alegoria, Kothe aponta a
personificação ou prosopopeia em que coisas se tornam humanas e passam a agir.
E cita como exemplo o episódio do gigante Adamastor no poema Os Lusíadas,
de Luís de Camões (?-1580 d.C.), marco decisivo que teria ocorrido ao Sul da
África na viagem em direção às Índias, em que se contam como dignos de menção
apenas os europeus predecessores do imperialismo. “Os afros não contam. Isso
faz parte da ideologia colonialista apregoada por Camões, numa obra de encomenda
governamental”, observa.
III
O autor lembra ainda que o cinema norte-americano faz
parte, há um século, de um imperialismo mediático, que serve para legitimar a
política do governo. “No faroeste se decantou como épico o avanço sobre as
terras indígenas e o genocídio dos povos índios”, diz, recordando que os
“americanos” tomaram grande parte do território mexicano. E que, na Guerra Fria
(1947-1991), comunistas e russos foram criminalizados e achincalhados, como os
mexicanos e os chicanos, assim como os muçulmanos seriam rotulados como fanáticos
e perigosos.
Aliás, é que se repete agora quando o governo Trump, a
pretexto de combater o narcotráfico, trata de apreender navios petroleiros
ligados à Venezuela, com fins inconfessáveis. E até sequestrar o presidente
Nicolás Maduro. Ou seja, como diz Kothe: “O que não se questiona nessa
“narrativa” toda é o próprio fundamento do imperialismo ianque: ele representa
o bem, é “heróico” participar dele, criminoso é ir contra os seus interesses”.
Na conclusão, o professor analisa ainda a publicidade,
admitindo ser essa atividade uma prática alegórica, na medida em que concretiza
a ideia abstrata de felicidade como consumo, mas observa que a propaganda
comercial sempre faz de conta que está aí para servir ao freguês, mas nunca
confessa que quer se servir dele. E define sua linguagem como a do engodo, da
manipulação, e não a da informação, a de veículo da verdade. “No máximo,
pode-se dizer que a publicidade veicula aspectos parciais da verdade” diz. E
acrescenta: “A linguagem publicitária procura auratizar mercadorias para
aumentar a sua venda. Faz isso através de alegorias, querendo gerar fetiches.
Fomenta, assim, a regressão mental como normalidade”.
IV
Nascido em Santa Cruz do Sul, na região central do Rio
Grande do Sul, Flávio René Kothe (1946) é doutor em Teoria Literária e
Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), com livre-docência
pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de Campinas. Fez estágios de pós-doutoramento
nas universidades de Yale, nos Estados Unidos, Heidelberg, Berlim, Konstanz,
Bonn e Frankfurt, na Alemanha. Lecionou também na PUC, de São Paulo, e na Universidade
Federal de Goiás (UFG). Foi professor visitante nas universidades de Rostock,
na Alemanha, onde conseguiu refúgio por cinco anos, fugindo de seus
perseguidores, e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
É pesquisador sênior e professor titular aposentado de
Estética. Na Europa, teve como interlocutores alguns dos maiores nomes da
Filosofia, da Literatura e de outras Ciências Humanas. Em seu retorno à UnB, trabalhou
com as disciplinas de Teoria Literária, Literatura Comparada, Tradução, Narrativa
Trivial e Cânone Brasileiro.
Dedica-se, sobretudo, a questões de estética, arte
comparada e semiótica da cultura. Atualmente, coordena o Núcleo de Estética,
Hermenêutica e Semiótica e é editor da Revista de Estética
e Semiótica, que está no Portal de Periódicos da UnB. Foi
presidente da Academia de Letras do Brasil, em Brasília, por três períodos
(seis anos), e é editor da revista impressa da instituição, de publicação
semestral.
Dono de vasta obra que inclui mais de 50 livros e mais de 600 trabalhos
publicados nos gêneros romance, novela, contos, poesia, tradução e ensaios,
entre os seus últimos títulos (todos publicados pela Editora Cajuína) estão
também: Casos do acaso (contos, 2018), Literatura e
sistemas intersemióticos (ensaios, 2019), Fundamentos da
Teoria Literária (ensaios, 2019), Segredos da concha
(contos, 2019), Sem deuses mais (poesias, 2019), Benjamin
& Adorno: confrontos (ensaios, 2020), O Cânone
Colonial (ensaios, 2020), O Herói (ensaios, 2022), Rio
do Sono (contos, 2023), Crimes no campus
(novela, 2023) e O Cânone Imperial (ensaios, 2025). Tem
prevista para 2026 a publicação de um livro de contos, a princípio, com o
título A folha amarela e o bem-te-vi.
Foi pioneiro no Brasil em estudos sobre a
escola de Frankfurt, formalismo russo, círculo de Bakhtine, semiótica da
cultura, poesia hermética e hermenêutica. Além de Walter Benjamin, traduziu
também obras de Theodor Adorno (1903-1969), Friedrich Nietzsche (1844-1900),
Karl Marx (1818-1883), Paul Celan (1920-1970), Franz Kafka (1883-1924),
Heinrich Mann (1871-1950), Patrick Süsskind (1949) e outros. Adelto
Gonçalves - Brasil
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Alegoria,
Aura e Fetiche, de Flávio R. Kothe. São Paulo: Editora
Cajuína, 1ª edição, 184 páginas, R$ 82,00, 2023. Site: www.cajuinaeditora.com.br
E-mail: contato@editoracajuina.com.br
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1999), Barcelona Brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil
perdido (Lisboa, Editorial
Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia
Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em terras d´el-Rei na São
Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os
vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981;
Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo
Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros.
Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global
Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e
nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
A simplicidade, o realismo das decisões sociais, a fraternidade universal, que inclui humanos e não humanos ,podem ser melhor percebidos quando a filosofia se fundamenta na fisio ou natureza das coisas (Tito Lucrecio Caro: De rerum natura). O Prof. Kothe está ligado aos humanos e não humanos em sua formulação filosofica.
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