Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 6 de março de 2025

Macau - Festival Literário leva poesia ao Porto Interior entre os dias 21 e 30 de Março

A 14.ª edição do Rota das Letras – Festival Literário de Macau vai acontecer entre os dias 21 e 30 de Março. O festival regressa este ano à zona da Barra e volta a ter como tema principal a poesia. Os 50 anos do fim da guerra colonial e os 100 anos da publicação de Lin-Tchi-Fá, Flor de Lótus, também vão estar em foco. Lisbon Poetry Orchestra, Xana, Xu Jinjin, Valério Romão e António Costa Silva, entre outros, vão estar presentes



O 14.º Rota das Letras – Festival Literário de Macau vai acontecer entre os dias 21 e 30 de Março, anunciou a organização. Nesta edição, o evento volta à zona da Barra e terá como tema a poesia, como aconteceu em 2019.

A programação do festival conta com duas dezenas de palestras, três exposições, um ciclo de cinema, um concerto, visitas a escolas e oficinas de fotografia e de escrita criativa. A programação detalhada será divulgada em breve pela organização.

A habitual parte musical, que acontece no dia 29 de Março, vai estar a cargo da Lisbon Poetry Orchestra, que faz a sua estreia em Macau. A banda vai apresentar um espectáculo intitulado “Os Surrealistas”, trazendo como convidada especial Xana, a vocalista dos Rádio Macau. Os Poetry & Music, do antigo responsável pela organização do Festival Literário de Pequim, Anthony Tao, farão a primeira parte do concerto, com uma actuação que terá como tema “O Mito da Escrita”.

Uma vez que o ponto focal desta edição é a poesia, o Rota das Letras traz a Macau vários poetas chineses, como por exemplo Xu Jinjin, artista interdisciplinar que divide o seu tempo entre Xangai e Nova Iorque, expondo os seus trabalhos com regularidade em museus de ambas as cidades. Xu Jinjin foi recentemente premiada pela Sociedade Americana de Poesia. A Xu Jinjin juntam-se, entre outros poetas, Valério Romão, de Portugal, Zang Di e Jia Wei, de Pequim, Chan Ka Long e Wang Shanshan, de Macau. As récitas de poesia, apresentações de novos livros, palestras e workshops vão decorrer no edifício do Antigo Matadouro Municipal.

A ocasião vai servir para assinalar o 100.º aniversário da publicação de Lin-Tchi-Fá, Flor de Lótus, um livro de poemas de Maria Anna Acciaioli Tamagnini. No festival, serão lançadas traduções inéditas da obra para chinês e inglês.

O Rota das Letras também vai assinalar os 50 anos do fim da guerra colonial e da independência dos Países Africanos de Língua Portuguesa através de uma exposição do fotojornalista português Alfredo Cunha, que fez a cobertura desses acontecimentos históricos. Além disso, o realizador Luís Filipe Rocha, que adaptou para o cinema o romance “O Teu Rosto Será o Último”, de João Ricardo Pedro e que também aborda o tema da descolonização, regressa a Macau, depois de, no final da década de 1980 ter dirigido no território a programação da TDM e filmado “Amor e Dedinhos de Pé”, uma adaptação do romance de Henrique de Senna Fernandes.

Ainda dentro da temática da descolonização, virá a Macau António Costa Silva, escritor, poeta, ensaísta e antigo ministro português da Economia e do Mar. António Costa Silva vai apresentar no território o romance “Desconseguiram Angola”, sobre um período vivido há já meio século, “quando no meio de uma guerra fratricida se procurava construir a nação angolana”.

Chen Jiming, vice-presidente da Associação de Escritores de Guangdong, também vai estar presente. Ao longo da sua carreira tem coleccionado distinções literárias, incluindo o Prémio Anual da Literatura Chinesa para o Melhor Novelista, o Prémio Literário do Povo e o China Good Book Award, entre outros. “Cidade dos Sete Passos” e “Monólogo em Voz Alta” são dois dos romances mais premiados do autor.

Vão também fazer parte desta edição do Rota das Letras autores de língua inglesa. O escritor britânico Paul French traz ao festival os seus dois últimos trabalhos: “Her Lotus Year”, biografia de Wallis Spencer, “Duquesa de Winsor”, sobre o período que viveu na China durante os anos 20 do século passado; e “Destination Macao”, uma colecção de histórias sobre algumas das mais fascinantes figuras do território dos séculos XIX e XX. Tony Banham, de Hong Kong, apresenta o resultado da sua investigação sobre o afundamento do navio Lisbon Maru. Thomas DuBois, autor sediado em Pequim, dá a conhecer a China em “Sete Banquetes”, um estudo profundo da história da gastronomia chinesa.

Os livros para os mais novos serão levados às escolas por Chen Shige, o primeiro escritor pós-anos 80 a ganhar a mais alta distinção da literatura infantil na China, e por André Letria, ilustrador e editor português que tem já várias das suas obras publicadas em língua chinesa. Sophia Hotung, ilustradora de Hong Kong, vem ao festival partilhar a sua arte com o público de Macau.

Na véspera da abertura do festival, Wang Zhengping, considerado um dos grandes mestres da fotografia chinesa, inaugura na Galeria do Tap Seac, a exposição “O Vento Sopra na Pradaria”, um olhar poético sobre os campos de pastagens da Mongólia Interior e quem os habita. Rao Yongxia, discípula de Wang, seguiu-lhe os passos e mostra o seu trabalho dias mais tarde, na Galeria do Albergue da Santa Casa da Misericórdia.

O evento, organizado pela Sociedade de Artes e Letras e pela Praiagrande Edições, é patrocinado pela MGM Macau, contando também com o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura e de outras entidades. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 15 de março de 2024

Macau - Rota das Letras termina com sessões de fotografia, cartografia, ilustração, poesia e música

Para além do concerto de guitarra portuguesa no sábado com Marta Pereira da Costa, o último fim de semana do festival literário contará com o lançamento da Revista Halftone dedicada a António Mil-Homens e do novo livro de fotografia de João Miguel Barros, um recital de Li Bai e Camões, uma sessão para famílias com o cartoonista Rodrigo de Matos e Catarina Mesquita, e outros painéis dedicados a Pessanha, 500 anos da cartografia do território, narrativas no feminino, e ficção baseada em Macau


O segundo e último fim-de-semana do Festival Literário vai ser preenchido por 12 sessões a preencherem as duas tardes de sábado e domingo, 16 e 17 de Março. No sábado, logo pelas 15h, na sala 1, estará o autor Dong Xi, vencedor do Prémio Mao Dun e do Prémio Lu Xun, que irá partilhar a sua experiência literária com vários autores de Macau em “Errância Sem Fim: os Horizontes Alargados da Narrativa Ficcional”. Yao Jingming, subdirector do festival, descreve Dong Xi como “um dos escritores mais representativos da actualidade”, sendo “reconhecido pela sua invulgar capacidade de contar estórias numa linguagem narrativa própria”.

À mesma hora, mas na sala 2, Catarina Mesquita, da editora Mandarina, e o cartoonista Rodrigo de Matos convidam pais e filhos a participar numa sessão de criação de uma história improvisada, em que o ilustrador irá desenhar em tempo real enquanto público e moderadora vão construindo a narrativa. A sessão será em português, estando também aberta aos falantes da língua inglesa.

No mesmo dia, pelas 16h30, Chang-rae Lee, escritor norte-americano de origem coreana e professor de escrita cr­­­iativa na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, apresentará o seu mais recente romance, intitulado “My Year Abroad”, cuja acção decorre parcialmente em Macau. A escrita de Chang-rae Lee, que recebeu o Prémio da Fundação Hemingway pelo seu romance “Native Speaker”, explora temas como a imigração, a assimilação, a história da Coreia e a experiência dos americanos com raízes asiáticas numa América distópica.

Na sala ao lado, também às 16h30, será a oportunidade de ficar a conhecer o mundo ilustrado de Wang Zumin e Zhu Cong Quian. As palestras do dia 16 prosseguem às 18h com uma sessão dedicada à escrita no feminino, que reunirá autoras de Macau, Hong Kong e da China Continental. Jojo Wong, Ying Zhu e Li Wenli estarão à conversa sobre a escrita como ferramenta de auto-afirmação das mulheres.

À mesma hora, será a ocasião de ficar a conhecer de perto o trabalho desenvolvido pela exposição que está patente na Casa Garden centrada na história da cartografia de Macau. “500 Anos de Cartografia de Macau” contará com um painel de académicos e estudiosos do tema composto por Marco Duarte Rizzolio, Marco Caboara, Stephen Morgan, Angela Gil, José Alves e José Chui Sai Peng. A sessão será orientada em língua inglesa. O penúltimo dia do festival terá ainda às 21h o concerto de guitarra clássica portuguesa no teatro D. Pedro V com Marta Pereira da Costa, que é acompanhada em palco por João José Pita na sua estreia em Macau.

Domingo, dia 17 de Março, como vem sendo tradição, será dedicado à apresentação de obras do domínio das artes visuais e, em particular, à fotografia. João Miguel Barros e a associação de fotografia Halftone irão dar a conhecer as suas últimas realizações. Antes disso, logo pelas 15h, Duarte Drumond Braga estará na sala 1 da Casa Garden para apresentar o seu estudo sobre a “China e Macau”, de Camilo Pessanha, recentemente lançado em Portugal. Às 16h30 Duarte Drumond Braga, So Menlin, Huang Lihai, Luojia e Zhu Cong Qian irão homenagear Camões e Li Bai com um recital literário intitulado “Quando Camões encontra Li Bai”, recital que irá certamente deliciar os apreciadores de poesia clássica. Como foi anteriormente referido, também às 16h30, o fotógrafo João Miguel Barros estará na sala 2 para apresentar o seu mais recente livro e viagem interior de instantes fotográficos a preto e branco, “Incidental Moments”.

Pelas 18h, Peter Rose, advogado norte-americano, fará aqui o lançamento do seu primeiro romance, “The Good War of Consul Reeves”, que tem como pano de fundo o período da Guerra do Pacífico em Macau e a acção do diplomata britânico que soube tirar partido da neutralidade portuguesa para sobreviver à constante ameaça do inimigo japonês. A publicação desta obra é uma iniciativa da editora de Hong Kong Blacksmith Books. Na sala ao lado, também às 18h, Gonçalo Lobo Pinheiro estará à conversa com António Mil-Homens a propósito dos cinquenta anos da carreira do fotógrafo, e da última edição da Revista Halftone, que lhe presta homenagem.

O Rota das Letras encerra às 19h30 com um actuação de poesia e jazz: “BPM – Morder as Palavras e Saborear o Jazz II” conta com Duarte Drumond Braga, a percussionista Yukie Lai e outros convidados. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 11 de março de 2024

Macau - Camões no Rota das Letras: As dúvidas sobre o poeta e uma nova teoria para a sua data de nascimento

Luís de Camões foi um dos temas centrais do primeiro fim-de-semana do Festival Literário Rota das Letras. Na sessão “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – as perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões”, Kenneth David Jackson, Fido Nesti e Felipe de Saavedra falaram sobre o que se sabe e o que ainda está por saber sobre a vida e obra do poeta. Saavedra chegou mesmo a avançar uma nova data para o nascimento de Camões: 25 de Fevereiro de 1525


“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – as perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões” foi o nome do painel que se realizou no sábado, no âmbito do Festival Literário Rota das Letras, e que procurou dar resposta a algumas das dúvidas que subsistem acerca do poeta, por exemplo, no que toca às diferenças entre cada edição e aos estudos camonianos. A sessão foi moderada por Sara Augusto e teve a participação de Kenneth David Jackson, Felipe de Saavedra e Fido Nesti, que ontem também apresentou “Os Lusíadas em Quadrinhos” [artigo seguinte].

Uma das grandes questões relacionadas com o poeta é a sua data de nascimento. No final do ano passado, um grupo de cientistas da Universidade de Coimbra chegou a uma possível data de nascimento através da interpretação de uma passagem da obra de Camões e do estudo de efemérides astronómicas. A estrofe em causa é: “O dia em que eu nasci, morra e pereça/Não o queira jamais o tempo dar/Não torne mais ao mundo e, se tornar/, Eclipse nesse passo o Sol padeça”. Isto levou a que este grupo de investigadores, com base no estudo astronómico e da ocorrência de eclipses, a dizer que a data de nascimento do poeta foi 23 de Janeiro de 1524.

No entanto, Felipe de Saavedra, especialista em Camões e coordenador da Rede Camões na Ásia e África, refutou a teoria e adiantou que, segundo os seus cálculos, Camões nasceu a 25 de Fevereiro de 1525.

Saavedra disse, na sessão de sábado do Rota das Letras, que o eclipse de 23 de Janeiro de 1524 não foi sequer visto na zona de Lisboa, onde Camões terá nascido. Por sua vez, houve um outro eclipse, a 25 de Fevereiro de 1525, e terá sido esse a marcar o nascimento do poeta. O historiador baseou a teoria em registos de eclipses da NASA e indicou que, no futuro, irá apresentar os seus cálculos detalhados.

Tropeções e alterações nas edições de “Os Lusíadas”

Outra das questões levantadas na sessão de sábado foi a das diferenças entre as primeiras edições de “Os Lusíadas”. Kenneth David Jackson, professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Yale e autor de uma compilação das primeiras edições da obra, falou sobre o tema e assinalou que, “em todos os livros impressos naquela época havia mudanças inconcebíveis”. “Não há exemplares iguais. Só no caso de ‘Os Lusíadas’, houve mais ou menos, depois dos primeiros volumes, 15 ou 20 impressões”, completou.

A primeira edição de 1572 teve duas edições e ambas impressas por António Gonçalves. No entanto, com o tempo, foram surgindo mais. Terá sido contrafacção? “Contra quê?”, brincou Kenneth David Jackson, defendendo que todas seriam da autoria de António Gonçalves, devido aos elementos em comum que cada uma delas tinha. As mudanças em cada uma das versões são explicadas como “tropeções e mudanças no caminho”. Felipe de Saavedra concordou, dizendo que “o grosso ou até a totalidade” das edições da época seriam da autoria de António Gonçalves, salientando que “não há duas [edições] iguais, como qualquer livro da época”.

Falta de especialistas

A falta de especialistas na obra de Camões também foi falada nesta sessão do Festival Literário. Kenneth David Jackson, que fez o Doutoramento na Universidade de Wisconsin com Jorge de Sena, afirmou que “é difícil Camões entrar nos estudos renascentistas dos EUA por falta de especialistas”. “Os grandes especialistas são pessoas do passado, espero que o quadro mude. Camões não está a ser celebrado nos EUA por falta de especialistas e leitores”, referiu o professor universitário.

Saavedra, que lecciona na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, sublinhou o interesse que os alunos que estudam no ensino superior de Macau têm na obra de Camões, nomeadamente os estudantes que vêm do interior da China: “Um dos pontos fortes da ligação que vão criando a Macau é a ligação a Camões. Cria-se uma dinâmica muito interessante. O coordenador da Rede Camões na Ásia & África, que organizou o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, voltou a referir a necessidade de Macau estabelecer no território um centro interpretativo de Camões. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”



sexta-feira, 1 de março de 2024

Macau - Rota das Letras regressa para celebrar Camões, Li Bai e o 25 de Abril

Começa já no dia 8 de Março a 13.ª edição do Festival Literário Rota das Letras. Este é um regresso do evento à Primavera, depois de três anos em que se realizou no Outono. Nesta edição, o Rota das Letras assinala os 500 anos de Luís de Camões, celebra a obra poética de Li Bai e destaca o 50.º aniversário do 25 de Abril, por exemplo. Entre os convidados, estão o chinês Dong Xi, vencedor do Prémio Mao Dun de Literatura, e o norte-americano Chang-rae Lee, finalista do Pulitzer, entre outros


Depois de três edições no Outono, o Festival Literário Rota das Letras está de volta à Primavera. Começa já daqui a uma semana, dia 8 de Março, e prolonga-se até dia 17. Entre as várias sessões que se vão realizar na Casa Garden, o evento vai celebrar Camões, Li Bai e o 25 de Abril, por exemplo.

Este regresso à Primavera é explicado por Ricardo Pinto, director do Rota das Letras, pelo facto de esta ser “uma época do ano com menor sobrecarga de eventos”. “Daí que, à primeira oportunidade, e depois de várias edições realizadas nos meses de Outubro e Novembro, por força da pandemia, tenhamos decidido fazê-lo regressar à sua data original”, explica, citado no comunicado enviado ontem às redacções.

Camões e Li Bai em foco

Os 500 anos do nascimento de Luís de Camões serão assinalados na Casa Garden com a presença de Kenneth David Jackson, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos da América, e autor de vários estudos sobre o poeta português. Além disso, também o ilustrador brasileiro Fido Nesti irá evocar Camões numa adaptação de “Os Lusíadas” para crianças.

Li Bai será também lembrado no Rota das Letras através de uma exposição de fotografia de Xu Peiwu, artista chinês que, ao longo da última década, percorreu os mesmos caminhos por onde andou o poeta há mais de mil anos. João Miguel Barros, curador da exposição, descreve as imagens como sendo “de uma enorme beleza e densidade, que nos permitem contemplar uma China despida e cativante”. Li Bai será também o protagonista da sessão inaugural do Festival Literário, com Carlos Morais José, responsável da editora Livros do Meio, a apresentar o livro “Li Bai – A Vida do Imortal”, de António Izidro.

No primeiro fim-de-semana do festival, de 8 a 10 de Março, vão ser apresentadas várias obras: San San, jovem escritora chinesa premiada, dará a conhecer “Primavera Tardia”, uma antologia de contos que esteve entre os candidatos ao Prémio literário de 2023 da rede social Douban; James Zimmerman, advogado norte-americano que reside em Pequim há mais de 25 anos, vai apresentar “The Peking Express”, um trabalho de investigação que conta com a história do Grande Assalto Ferroviário de 1923, considerado o maior da história da China e um factor determinante da evolução da guerra civil chinesa; e Ian Gill irá falar de “Searching for Billie”, em que o escritor neo-zelandês fruto da relação entre dois prisioneiros de guerra em Hong Kong tenta compreender o passado da sua mãe, o que o leva a descobrir uma China desaparecida. Ma Ka Fai, escritor e cineasta de Hong Kong, virá a Macau falar sobre “Once Upon a Time in Hong Kong”, o seu romance de estreia.

Celebrar os 50 anos do 25 de Abril

Este ano comemoram-se os 50 anos do 25 de Abril e o Rota das Letras vai aproveitar a efeméride para apresentar em Macau a obra de João Céu e Silva “O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses Antes dos Capitães”, a história de como o General António Spínola fez cair o regime. Ainda no âmbito da revolução de 1974, será inaugurada na Livraria Portuguesa uma exposição sobre os 50 anos de carreira de António Mil-Homens.

O segundo fim-de-semana do festival vai começar com a gastronomia de Macau. Na sexta-feira, 15 de Março, Graça Pacheco Jorge e Annabel Jackson irão acompanhar Barrie Sherwood, da Universidade de Singapura, numa reflexão sobre o momento presente da gastronomia macaense e as questões de identidade cultural que lhe estão associadas. Sherwood apresentará também o livro “The Macanese Pro-Wrestler’s Cookbook”.

Dong Xi e Chang-rae Lee marcam presença

O dia seguinte será dominado pela escrita no feminino, que reunirá autoras de Macau, Hong Kong e da China Continental. Nesse sábado estará presente também Dong Xi, vencedor do Prémio Mao Dun e do Prémio Lu Xun, que irá partilhar a sua experiência literária com vários autores de Macau. Yao Jingming, subdirector do festival, descreve Dong Xi como “um dos escritores mais representativos da actualidade”, sendo “reconhecido pela sua invulgar capacidade de contar estórias numa linguagem narrativa própria”.

No mesmo dia, Chang-rae Lee, escritor norte-americano de origem coreana e professor de escrita criativa na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, apresentará o seu mais recente romance, intitulado “My Year Abroad”, cuja acção decorre parcialmente em Macau. A escrita de Chang-rae Lee, que recebeu o Prémio da Fundação Hemingway pelo seu romance “Native Speaker”, explora temas como a imigração, a assimilação, a história da Coreia, a experiência dos americanos com raízes asiáticas numa América distópica.

Ainda no sábado, o programa encerra com o concerto de Marta Pereira da Costa, intérprete de guitarra portuguesa, que será acompanhada em palco por João José Pita. Outras performances serão promovidas numa colaboração entre o Rota das Letras e a livraria independente de Hong Kong Bookand.

Espaço às artes visuais

Domingo, dia 17 de Março, será o último dia do festival e, como vem sendo tradição, será dedicado à apresentação de obras do domínio das artes visuais e, em particular, à fotografia. João Miguel Barros e a associação de fotografia Halftone irão dar a conhecer as suas últimas realizações. A associação irá também apresentar no festival a mais recente edição da sua revista.

Duarte Drumond Braga vem a Macau apresentar o seu estudo sobre a “China e Macau”, de Camilo Pessanha, recentemente lançado em Portugal. Além disso, Peter Rose, advogado norte-americano, fará aqui o lançamento do seu primeiro romance, “The Good War of Consul Reeves”, que tem como pano de fundo o período da Guerra do Pacífico em Macau e a acção do diplomata britânico que soube tirar partido da neutralidade portuguesa para sobreviver à constante ameaça do inimigo japonês. A publicação desta obra é uma iniciativa da editora de Hong Kong Blacksmith Books. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Macau - José Basto da Silva lança romance de alunos da escola comercial

“Amor Escarlate” é um romance de alunos da Escola Comercial que se passa nos anos 80. Embora se baseie em factos reais, é uma obra de ficção. É assim, ao contar as suas memórias, que o macaense José Basto da Silva se lança no mundo das letras. O autor espera que o leitor possa “viajar no tempo” com este seu primeiro livro, que vai ser apresentado no próximo domingo, na Casa Garden


José Basto da Silva lança-se no “mundo das letras” com a obra “Amor Escarlate: Memórias dos Tempos de Estudante em Macau”, que vai ser lançada no próximo domingo, dia 15, no âmbito do programa Rota das Letras do XII Festival Literário de Macau. O lançamento decorrerá na Casa Garden, às 15h00. Sem querer “levantar a ponta do véu”, o macaense contou ao Jornal Tribuna de Macau que se trata de “um romance de alunos da Escola Comercial, nos anos 80”.

“Embora baseado em factos reais, o enredo deste livro é uma obra de ficção. Os eventos e nomes são, em grande medida, fictícios e usados com o propósito de criar uma história envolvente. Espero que o leitor goste de ler este livro tanto quanto eu gostei de escrevê-lo”, afirmou.

O livro começou a ser escrito quando estava ainda na Direcção da Associação dos Macaenses e estava envolvido na revista “A Voz”. “As coisas iam acontecendo um pouco sob pressão e, por uma questão de gestão de tempo, comecei a escrever antecipadamente, nos intervalos, para poder entregar trabalho assim que surgisse algum pedido urgente. Aos poucos comecei a juntar material que não saía porque a revista estava atrasada. Foi assim que me ocorreu a ideia de aproveitar o que tinha em mãos e fazer um livro”, contou José Basto da Silva.

Segundo disse, já por várias vezes tinha sido “desafiado a escrever”, sobretudo por Jorge Rangel, mas também por Miguel de Senna Fernandes e até por Henrique de Senna Fernandes. “Nesta altura que o meu professor faria 100 anos, acho que não podia fazer melhor homenagem à sua memória”, apontou.

Sublinhando que “escrever é uma arte”, José Basto da Silva explicou que foi aprendendo à medida que ia avançando na história. “Aliás, uma vez que só escrevia nos tempos livres, demorei anos a terminar este projecto, e eu próprio notei que do primeiro ao último capítulo houve uma evolução – creio que significativa”.

José Basto da Silva referiu ainda a este jornal que o que escreveu foi revisto várias vezes para “tentar homogeneizar o estilo e a narrativa”. “Aprendi muito. Além disso, o processo em si também levou a que me lembrasse de muitas recordações perdidas no fundo do inconsciente. Eu próprio fiquei surpreendido com as coisas que me vieram à memória e que julgava perdidas. Foi muito bom porque permitiu-me, de certo modo, viajar no tempo. Acho que isso será algo que os leitores também irão experimentar”, prosseguiu.

Sendo o português a língua principal, José Basto da Silva não deixa de explicar que o livro foi “escrito em várias línguas”. “Também usei – porque somos assim, faz parte da nossa cultura – um pouco de patuá e chinês. Ocasionalmente, porque esta é uma terra internacional, sempre foi, também usei inglês e até francês… Macau sãm assi ia!”, concluiu. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”




segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Macau - Festival Literário avança detalhes do programa completo

Para além do programa já anunciado, com a vinda dos autores portugueses Francisco José Viegas e Valério Romão, o Festival Literário de Macau revelou mais nomes e detalhes do programa da sua 12.ª edição que junta escritores da Grande Baía e da Lusofonia em Macau entre os dias 6 e 15 de Outubro. A par da literatura contemporânea, prestar-se-á tributo a nomes grandes do passado: Camões, Shakespeare, W.H. Auden e J.R.R. Tolkien


Depois de três edições em que o Festival Literário de Macau, devido à pandemia, apenas pôde contar com a presença de autores locais, o evento deste ano marca o regresso de convidados vindos de fora. Segundo um comunicado enviado ontem às redacções pela organização, de Portugal chegam Valério Romão e Patrícia Portela, dois jovens escritores que têm em comum a originalidade das suas obras e passagens anteriores por Macau. Já António Caeiro, outro dos convidados, é um veterano do jornalismo com largos anos de trabalho na China. No festival vai apresentar o seu último trabalho, “Os Retornados de Xangai”. Francisco José Viegas, nome já anunciado, é o único dos participantes do exterior que já antes esteve no Rota das Letras, em 2015. Vem agora para falar das suas mais recentes novelas policiais, “Melancholia” e “Luz em Pequim”, e também para apresentar duas obras da editora Quetzal, que dirige: “O Jogo das Escondidas”, romance póstumo de Fernando Sobral antes publicado em fascículos pelo jornal Hoje Macau; e “Jornadas pelo Mundo”, do Conde de Arnoso, que retrata Macau e a China de finais do séc. XIX.

O centenário do nascimento de Henrique de Senna Fernandes abre o festival a 6 de Outubro, com o lançamento do primeiro livro de ensaios sobre a produção literária do escritor macaense, trabalho dirigido e coordenado por Lola Xavier e Pedro d’Alte, ambos professores da Universidade Politécnica de Macau. Na mesa deste primeiro painel vai estar ainda Miguel de Senna Fernandes, também autor e filho do homenageado. Antes desta sessão, e logo após a cerimónia de abertura do 12.º Festival Literário de Macau, vai ser inaugurada na galeria da Livraria Portuguesa a primeira exposição individual de pintura do artista norte-americano Benjamin Hodges, académico que reside em Macau há vários anos.

Este ano, o Rota das Letras vai ter a sua base, numa primeira fase, na Livraria Portuguesa, de 6 a 8 de Outubro, e depois na Casa Garden, sede da Fundação Oriente, no fim de semana de 13 a 15 do mesmo mês. Por ambos os espaços vão também passar vários autores de Macau ou aqui baseados: Joe Tang, Erica Lei, Yang Sio Mann, Isaac Pereira, Rui Rasquinho, Rui Farinha Simões, Paulo Cardinal, José Basto da Silva, Marisa C. Gaspar, Andrew Pearson, Tim Simpson, Joshua Ehrlich. Este último, historiador, vai apresentar a obra que recentemente publicou sobre a Companhia Britânica das Índia Orientais, justamente num espaço que outrora lhe serviu de sede, a Casa Garden.

A Grande Baía vai estar representada por nomes importantes das letras chinesas. Deng Yiguang, escritor de etnia mongol nascido em Chongqing, mas hoje baseado em Shenzhen, é um autor já galardoado com o Prémio Literário Lu Xun, um dos mais importantes da China.

Os seus romances estão traduzidos em várias línguas estrangeiras e têm sido, frequentemente, adaptados ao cinema. Fu Zhen, natural de Nanchang, em Jiangxi, agora radicada em Hong Kong, é uma das escritoras mais influentes da nova geração. Vem a Macau falar do seu primeiro romance, “Zebra”, e também dos vários livros de viagens que já publicou. Wang Weilian é outro dos jovens autores chineses de maior talento. Sinal disso, o ter sido distinguido com o Prémio Literário Mao Dun para Novos Autores e com a medalha de ouro na mais importante competição literária da China para obras de ficção científica.

Vem de Cantão, como vem também Zhu Shanbo, autor de vários romances históricos e colecções de contos. Xiao Hai, hoje a viver em Pequim, é um representante da chamada poesia operária chinesa, um género literário que está a ressurgir na China. No Festival Rota das Letras, vai partilhar a mesa de uma sessão com Valério Romão, que recentemente tem vindo a trabalhar este tema de forma performativa.

Sara Ferreira Costa, poeta, escritora e tradutora portuguesa, já esteve antes envolvida na organização do Rota das Letras, e volta agora como convidada. Vai apresentar a sua poesia e dirigir uma oficina sobre a tradução de poemas chineses, coordenando uma sessão livre de poesia, a ter lugar no bar Vasco’s, no hotel Artyzen-Grand Lapa.

Com o quinto centenário do nascimento do grande poeta português Luís Vaz de Camões a aproximar-se a passos largos – é já em 2024 –, o escritor e jornalista Carlos Morais José, director do Hoje Macau, vai entrevistar na Livraria Portuguesa Edward Wilson-Lee, professor da Universidade de Cambridge e autor de “A History of Water” – uma biografia de Camões que narra também, em paralelo, a vida de Damião de Góis. O autor britânico é especialista em literatura do Renascimento e vai juntar-se aos professores da Universidade de Macau, Glenn Timmermans e Nick Groom, seus compatriotas, na celebração de um outro marco importante da história da literatura: a publicação, há 400 anos, do primeiro livro inteiramente dedicado à dramaturgia de William Shakespeare – o “First Folio”. Noutras sessões do evento, Timmermans vai ainda evocar a figura do poeta britânico W.H. Auden, e Groom vai apresentar a edição mais recente do seu ensaio sobre a obra de J.R.R. Tolkien.

Quanto à fotografia, outra arte com lugar já reservado em cada edição do Festival Literário, vai estar novamente presente através do lançamento de obras da autoria de Rusty Fox e Francisco Ricarte, e do lançamento do sexto número da revista Halftone. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”





sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Macau - Autores da Região apresentam obras que reflectem sobre as emoções humanas


A natureza humana e o diálogo das emoções internas, relacionados com a vida social e experiência pessoal, são os temas que inquietam os dois autores de Macau, Lawrence Lei e Cheong Kin Han, na sua criação literária. Os escritores procuram examinar isso mesmo nos seus romances lançados recentemente. A apresentação das suas obras, “Rostos Mascarados” e “Ying”, respectivamente, foi a abertura dos painéis da presente edição do Rota das Letras – Festival Literário.

Apesar de o contexto das histórias contadas ser muito diferente, os dois romances, que foram distinguidos na 13.ª edição dos Prémios Literários de Macau, destacam igualmente a revelação de complexidade da emoção, quer interpessoal quer interna, do ser humano. A narrativa de “Rostos Mascarados”, de Lawrence Lei, adoptou o cenário do tempo actual do surto epidémico da Covid-19, e usou duas intrigas e o género literário de meta-ficção, de forma a criar uma história ao mesmo tempo realista e absurda.

O escritor Lawrence Lei explicou que o conceito original é descrever como actua a natureza humana sob mudanças sociais e a nível das relações pessoais provocadas pela pandemia. O conto começa com “um dia as pessoas acordam e descobrem que o mundo mudou drasticamente, todas as pessoas só podem expor metade do seu rosto”. A protagonista, uma médica responsável pelo combate à pandemia e por rastrear os infectados e os casos de contactos próximos, iniciou a sua investigação pela necessidade de trabalho.

A médica, enquanto exerce as suas funções, é apaixonada pela literatura, e decidiu escrever uma ficção sobre um realizador de cinema que vinha a Macau para escapar da epidemia. Na outra parte do enredo, este realizador de renome internacional está a imaginar o seu próximo filme, com a protagonista médica, que persiste no seu cargo durante a pandemia.

“O livro é como uma peça dentro da outra peça, uma médica e um realizador. Afinal, quem é o criador da história do outro?” questionou o autor, deixando os leitores a procurar a resposta.

A narrativa “Rostos Mascarados” fala ainda do afecto e da traição, entre diversas relações, incluindo o casamento. No romance, a médica acabou por ter de investigar uma amiga próxima, que tem contacto próximo com um infectado, ficando a conhecer de forma abrangente a vida da amiga e descobrindo assim muitos segredos relacionados com ela, com o seu próprio marido e outros membros da família.

“A médica acredita muito na sua amiga e no seu marido, mas, devido à pandemia, descobriu que o afecto entre amigos e entre o casal não é como imaginava”, destacou Lawrence Lei, que prosseguiu dizendo que “muitas coisas não podem ser inspeccionadas, nem verificadas com uma lupa, incluindo a amizade e o amor da família, há muitos defeitos ali se usarmos uma lupa para vê-los com cuidado e em pormenor”.

Na perspectiva de Lawrence Lei, a ligação entre pessoas mais concreta e importante é nada mais do que a emoção e o afecto, da amizade, do amor familiar e do amor romântico. O autor pretende realçar no romance que a protagonista mostra um certo nível de “mentir a si própria”, “narcisismo”, e “excesso de confiança” relativamente às pessoas mais próximas e, apenas por causa da necessidade profissional, se apercebeu da proximidade de traição.

Sendo uma “meta-ficção”, o romance de Lawrence Lei conta, além da descrição de realidade, com elementos dramáticos de comédia, tragédia e absurdo, dado que o futuro da situação epidémica ainda não está claro.

No processo de criação de obra, Lawrence Lei fez várias visitas a profissionais médicos, a instalações de prevenção epidémica, até entrevistas com pacientes e quem se encontrava em observação médica, de modo a recolher informações relevantes. “A pesquisa de informação sobre o contexto é muito importante, especialmente porque escrevo algo que envolve conhecimento profissional, o que não posso inventar”, afirmou.

Olhar de mãe

Já no romance “Ying”, a autora Cheong Kin Han escolheu relatar a experiência de uma mulher relativamente à interrupção involuntária da gravidez, com destaque para a transformação da emoção de uma mãe nos dias após o incidente.

“Isso também me aconteceu a mim uma vez em 2019. Tomei conhecimento depois de que o aborto espontâneo não é uma coisa tão rara entre mulheres. Mas uma vez que aconteça, ninguém vai falar sobre isso, até as amigas mais próximas e famílias, todas as pessoas têm cautela com os seus sentimentos, observam os seus comportamentos, o estado físico e psicológico, mas não mencionam uma palavra disso”, disse a escritora.

Cheong Kin Han, apesar da tristeza, encontrava-se num “estado especial e estranho” de sentimento pessoal e, um dia, surgiu-lhe a ideia de “escrever um romance”, mesmo que nunca tenha lançado nenhum.

A escrita, portanto, tornou-se também um meio para a autora expressar e libertar as suas emoções. “Nessa altura não tinha maneira a exportar o que eu pensava, mas não suportava engolir assim a experiência. O motivo de escrever é afastar o incidente com o papel da autora e organizar a minha mente”, asseverou, considerando que superar o trauma da interrupção involuntária da gravidez é também uma responsabilidade sua, enquanto mulher e a mãe de uma filha.

A escritora admitiu ser uma pessoa tímida e fraca no contacto social, pelo que presta particular atenção e está interessada em tomas como a motivação e os percursos psicológicos dos seres humanos.

Com o romance que conta a experiência física e mental de uma mulher durante três dias no hospital, Cheong Kin Han quer mostrar uma “vista interna” de uma mãe, quando não é apenas um papel na família, mas ligada ao espírito e físico.

Outra discussão lançada é como a sociedade vê as mulheres. “Por exemplo, quando se vai ao ginecologista, podem sentir indiferença e serem tratadas como apenas um corpo. E, num estado frágil, até uma frase ou um programa na televisão pode ter impacto nas mulheres em termos físico e psicológico”, salientou.

Ying”, cuja tradução literal é “feminino”, relata a história de uma mulher que deu à luz uma filha há três ano e sofreu um aborto espontâneo na 11.ª semana de gravidez. “Em média, 10% dos fetos não sobrevivem ao primeiro trimestre. […] Nascimento e morte são frequentes, qual é o sentido real disso? Qual é o propósito de Deus?”, pergunta-se na narrativa.

No entanto, Cheong Kin Han referiu que teve receio e uma certa dificuldade em realizar a presente obra, uma vez que é a sua primeira vez a escrever um romance de 80 mil palavras em chinês. A autora dedica-se à escrita como colunista de jornais há 16 anos, mas disse ser uma coincidência de ver a publicidade do concurso do prémio literário no final de 2019, após a interrupção involuntária da gravidez. Apesar de tudo, com uma curta auto-aprendizagem, Cheong Kin Han concluiu uma obra de 20 capítulos com a sua experiência mais pessoal e real.

“Escrever ou não, e como escrever, é um assunto pessoal e não tem a ver com outros. Esta é a parte mais solitária, mais egoísta e, portanto, mais libertadora da criação. As emoções e pensamentos são subtis e complexos, onde para expressá-los? Somente a expressão da cultura e da arte pode conter as sombras da vida”, concluiu a escritora acerca da realização de “Ying”. Catarina Chan – Macau in “Ponto Final”

A vida como um teatro

Este primeiro painel do Rota das Letras – Festival Literário de Macau contou ainda com a apresentação do dramaturgo local Wong Teng Chi sobre a sua mais recente publicação: “Apposite Performance – A Collection of Plays by Wong Ting Chi”. A obra inclui três guiões – “Go away and I don’t play with You”, “Sunset is How I Feel About You” e “Mr.Time and His Lover”, que o dramaturgo criou desde 2009 em Taiwan e Macau, ao explorar temas como identidade pessoal, questão de género e observância social, bem como um conto “Macau Three Days Two Nights Air Tickets and Hotel”. Sobre “Apposite Performance”, Wong Ting Chi explicou que está relacionado com a decência com que as pessoas se comportam na vida quotidiana, “o que é também como uma representação no palco de teatro”. O dramaturgo considera que, para algumas pessoas, a vida é semelhante ao teatro, onde actuam mais e melhor para ganhar mais retorno. “É apenas para seguir a expectativa da sociedade?”, perguntou o artista, sublinhando que pretende “investigar” a complexidade da emoção expressa ou escondida. Relativamente a “Macau Three Days Two Nights Air Tickets and Hotel”, que é sobre uma viagem em Macau de uma turista de Taiwan em 2009, Wong Ting Chi realçou que quer dar ênfase à diversidade da cidade numa altura em que conviviam diferentes grupos de pessoas “de macaenses, de portugueses, de chineses, de filipinos, e de diferentes profissões”.






 

Macau - A poesia e a fotografia juntas, numa rota íntima pela cidade no livro “Macau – O Livro dos Nomes”


Macau – O Livro dos Nomes” foi editado originalmente em 2010. Agora, 12 anos volvidos, Carlos Morais José juntou à sua poesia a fotografia de Sara Augusto. No livro, que foi apresentado na tarde do passado sábado, no Rota das Letras – Festival Literário de Macau, passeamos pela cidade através da poesia e da fotografia. Um projecto que levou um ano e meio a ficar concluído.

São 88 os lugares de Macau apresentados no livro, cada um com um poema e uma fotografia associados. São, então, 88 textos “de amor, ciúme, abandono e indiferença, entre outros sentimentos menos próprios para almas arredias das coisas desta cidade, que não cessa de existir como utopia e vício”. É assim que a obra foi descrita pelo autor nas redes sociais.

Na apresentação do livro, Sara Augusto acrescentou: “Nestas palavras que o Carlos tece sobre o livro, fica desde logo estabelecida a irremediável relação entre o sujeito lírico e o espaço e paisagem. Também fica definido um outro aspecto, que há aqui uma relação não só do sujeito poético, mas também há um apelo à vivência e experiência da cidade que o leitor possivelmente vai ter; quem vai ver as imagens também tem a sua visão da cidade”.

A poesia de Carlos Morais José, descreve Sara Augusto, é “apelativa, íntima, feita de instantâneos e expressões, ficcionalizações”. “A relação com o espaço feito de paisagem não é descritivo, mas é imaginado. A poesia é um lugar de imaginação, um lugar de ficção. O sujeito lírico é uma entidade que enuncia e sente. Tem uma função mágica de transformação do lugar e da paisagem a partir da experiência, vivência subjectiva de transformar o lugar em paisagem e a paisagem em arte”, sublinhou.

Assim, em “Macau – Livro dos Nomes”, cada lugar ganha um espaço particular, feito de memórias e pensamentos. É um “mapa mental da cidade antiga” que se cria ao ler os poemas de Morais José, a que se juntam as fotografias de Sara Augusto.

“O ‘Livro dos Nomes”, que é uma pequena jóia para mim, não é mais do que uma rota íntima desenhada pelo sujeito poético que é uma personagem omnipresente em todo o livro. É obvio que espero que seja também a rota íntima de quem lê e vê o livro nesta tríade que o compõe: o nome do lugar, o poema e a imagem”, sublinhou a autora das fotografias.

Na sessão da Livraria Portuguesa, Carlos Morais José falou sobre a personagem principal: Macau. “Poucas cidades como esta se desfazem e refazem num tão curto espaço de tempo. Ao invés de nela reconhecermos uma essência, reconheçamos que esse arquétipo é precisamente a constante mutação da paisagem. E o que permanece na memória são locais específicos”, afirmou o autor.

Sobre as imagens de Sara Augusto, Morais José referiu: “A fotografia tem vocação de fixar o instante, mas, uma vez mais, esse não é o caso. Aqui, o tempo perdeu parte da sua existência, porque se inaugura outro tempo. Surge logo o instante em que o tempo fica congelado no papel ou píxeis e transforma estas imagens num tempo utópico que remete para uma outra possibilidade de existência e fusão”.

Há uma “infinitude dos lugares” fotografados por Sara Augusto.  “A Sara não captura uma imagem, reproporciona uma outra sacralidade a estes lugares, uma nova perspectiva de os olhar e de os sentir e interpretar e imaginar ou reimaginar ‘ad infinitum'”, concluiu. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”

Reservatório

Lá por ter acreditado num espelho onde tudo se reflectiria, não teria forçosamente de o encontrar. O casto céu acaricia a água e o vento estremece-a de prazer. Não há mais nada, mais nada interessa: só há vento, só há céu. E tudo isto na água.

Doca de Lam Mau

No fim rebelde da cidade, em terras por cristianizar, repousam barcos, depois da travessia mole do canal. E mesmo quando me afasto e lho os prédios baços, ainda as pernas me fraquejam de ali escutarem tanta promessa de viagens. Moribundo, o dia convida cintilações em cada andar.

Casa do Mandarim

Vem, minha doce concubina, mas vem lenta, mal pisando a pedra fria do corredor. Despe suavemente a cabaia, com o deleite de alguém que se oferece à morte. Ao lado, suspira um grilo e um pássaro antigo dorme ainda, no silêncio frígido da gaiola. Vem, minha doce concubina, descobre-me dormindo e, ajoelhada, cumprirás o ritual de madrugada.

Ruínas de São Paulo

Os teus lábios soletravam eternidade, baixinho… mas nas mãos trazias apenas um momento. Dizias: “num instante toda uma religião se incendeia, num instante toda uma paixão se consome”. Subir uma escada é rogar uma promessa. Depois marulhou o fogo e foi nas chamas que surgiu a cruel revelação: o amor fora sempre uma fachada. Soube-me a ruínas a tua voz ao telefone.


 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Macau – Lançamento na Universidade de São José do livro “Macau, A Minha História”

Chama-se “Macau, A Minha História” e é um livro que mistura fotografia e histórias sobre as várias perspectivas que o território apresenta aos seus autores. João Rato, fotógrafo amador, é um dos editores de uma obra que conta com 13 autores e 12 histórias. O lançamento, incluído no cartaz do festival literário Rota das Letras, faz-se amanhã na Universidade de São José


Macau, A Minha História” não é apenas um livro de fotografia, tem também histórias das diversas visões e percepções que o território pode proporcionar a quem cá vive. O lançamento acontece amanhã, às 19h30, no Departamento de Media, Arte e Tecnologia da Universidade de São José (USJ), e está inserido no programa da 11.ª edição do festival literário Rota das Letras. “Macau, A Minha História” é editado em chinês e português e conta com quatro editores: João Rato, fotógrafo amador e co-fundador da associação Halftone, ligada à fotografia; José Manuel Simões, coordenador do curso de comunicação na USJ, Paris Pei e Guan Jian Sheng. A USJ é responsável pela edição do livro.

A ideia para editar este livro surgiu em finais de 2020, de uma conversa entre João Rato e Pei Ding An, seu colega de trabalho. À medida que o tempo passava, mais editores e colaboradores foram-se juntando ao projecto. “O livro tem uma componente visual adicional ao texto, e isso dá uma maior profundidade e riqueza à obra. Não é apenas um livro de fotografia, permitindo essas duas leituras”, contou João Rato ao HM.

Macau, A Minha História” acaba por reflectir “a diversidade de Macau e a ideia de que o território é um ponto de encontro de culturas”. “Pode parecer algo muito visto e falado, mas a verdade é que a síntese de Macau é isso mesmo. É um ponto de passagem desde há centenas de anos. Temos Macau e as histórias, que podem incluir a geografia, arquitectura, fantasia, um pouco de romance, poesia ou literatura. O livro trata percepções, sensações e opiniões que cada um dos autores tem sobre Macau. Nós, como editores, não criamos nenhuma restrição em termos temáticos.”

Da diversidade

As histórias começam a contar-se com “A História escolheu Macau e Macau também fez História”, um texto escrito por Guan Jian Sheng, acompanhado das imagens de Cecília Vong. Segue-se “Macau, nascida e criada”, de Marjolene Estrada, que faz a fotografia e o texto.

“Ela faz o retrato de uma Macau contemporânea, de quem acabou de sair da universidade e que está cheio de dúvidas sobre o futuro. O trabalho dela versa sobre o período da sua adolescência, os concertos ao ar livre, o mundo da moda”, descreve João Rato.

Ou Tian Xing escreve e fotografa sobre a “Arquitectura de Macau em Luz e Sombra”, seguindo-se depois João Monteiro com “Um passeio fotográfico pelo Património de Macau”. Há, nestas páginas, muitas histórias que se vão contando, e outras que já terminaram, mas das quais ainda existem rastos nas ruas. Há, portanto, imagens de “pequenas alfaiatarias, lojas que vendem côco, algumas que já desapareceram devido ao crescimento desenfreado da cidade”.

João Rato, por sua vez, escreveu “Macau em profundidade”, que mais não é do que uma “deambulação”, algo que lhe interessa fazer também na fotografia. “Os textos, neste livro, têm a ver com as marcas indeléveis e com aquilo que Macau, na sua intensidade, permite vivenciar a quem se deixa levar e a queira descobrir.”

O co-editor da obra não tem dúvidas de que “a passagem do tempo vai conferir ao livro uma importância maior, porque é o registo da mudança pela qual o mundo e Macau estão a passar”. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau”


terça-feira, 29 de novembro de 2022

Macau - Rota das Letras recorda Saramago, reflecte sobre o “Romance dos Três Reinos” e mostra autores locais

Está de regresso o Rota das Letras – Festival Literário de Macau. Desta vez, ao longo dos próximos dois fins-de-semana, a iniciativa divide-se entre a Livraria Portuguesa e o Art Garden. Na sua 11.ª edição, o festival acompanha as efemérides dos centenários do nascimento de José Saramago e de Maria Ondina Braga. A publicação integral do “Romance dos Três Reinos” comemora o 5.º centenário e, por isso, o Rota das Letras propõe uma reflexão sobre a obra. Por outro lado, o festival vai também dar a conhecer as obras mais recentes de vários autores locais


O Rota das Letras – Festival Literário de Macau está de volta. Desta vez, a iniciativa divide-se entre os primeiros dois fins-de-semana de Dezembro: Entre 2 e 4 de Dezembro, na Livraria Portuguesa; e entre 9 e 11 de Dezembro, no Art Garden. Saramago, Maria Ondina Braga, James Joyce, T. S. Eliot e Virginia Woolf são alguns dos nomes em foco.

Esta, que é a 11.ª edição do Festival Literário, começa então esta sexta-feira, na Livraria Portuguesa, com a apresentação, a partir das 18h30, dos mais recentes trabalhos dos autores chineses de Macau Lawrence Lei e Cheong Kin Han. As suas obras, “Rostos Mascarados” e “Ying”, respectivamente, foram distinguidos na 13.ª edição dos Prémios Literários de Macau. Ainda na sexta-feira, Wong Teng Chi apresenta uma performance onde explora temas como a observância social e questões de identidade e género.

Já sábado as primeiras sessões destinam-se ao público infantil e começam pelas 11h com a Livraria Júbilo a mostrar os trabalhos da ilustradora Yang Sio Maan. Logo depois, Tony Lam fará a apresentação de uma aventura para crianças que se passa em boa parte nos subterrâneos do Templo de A-Má.

Da parte da tarde, é proposta uma reflexão sobre o importante contributo da literatura para a História. A sessão – que terá como oradores os professores Wang Di e Wang Sihao, da Universidade de Macau, estando a moderação a cargo de Yao Jingming – vai centrar-se no 5.º centenário da primeira publicação integral do “Romance dos Três Reinos”.

Mais tarde, acontece um diálogo sobre a ficção gótica de Daniel Defoe, que escreveu o “Diário do Ano da Peste” há 300 anos. Nick Groom e William Hughes, académicos ligados à Universidade de Macau, vão explicar como a literatura de terror nos pode ajudar a compreender a pandemia do coronavírus.

Os centenários das publicações de “Ulisses”, de James Joyce, e de “A Terra Devastada”, de T. S. Eliot, também estarão em destaque numa sessão conduzida por Glenn Timmermans. O programa de sábado termina com o lançamento da segunda edição de “Macau – o Livro dos Nomes”, de Carlos Morais José. Nesta edição, são publicados 88 textos acompanhados de fotografias de Sara Augusto.

No domingo, dia 4, volta a literatura infantil, com a editora Mandarina a dar a conhecer o seu último título, “Em Casa”, que contará com a apresentação de Catarina Mesquita. A recém-criada editora Lits revela o seu primeiro livro infantil, “O Menino que Queria Ver o Mar”, um conto de António Correia que agora é publicado a título póstumo. Por fim, Andreia Martins mostra às crianças “Uma Casa com Asas”.

Na tarde de domingo é organizada uma sessão online com vários autores lusófonos – Krishna Monteiro, Manuel da Costa, Hélder Macedo, entre outros – sobre o seu contributo para uma nova antologia bilingue de contos lusófonos, traduzidos para chinês, “Viagens”.

Finalmente, serão celebrados os centenários do nascimento de José Saramago e de Maria Ondina Braga. No tributo a Saramago serão apresentados trabalhos de Miguel Real e José Luís Peixoto que têm como referência a vida e a obra do único escritor português até aqui distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. A sessão contará também com a participação da artista chinesa de Macau Kay Zhang, que, em conversa com Carlos Marreiros, falará sobre o seu projecto artístico inspirado no “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago. Maria Ondina Braga será recordada com a projecção do documentário “O que Vêem os Anjos”, de Tiago Fernandes. Haverá também uma evocação da autora, a cargo da Professora Vera Borges.

No fim-de-semana seguinte, entre 9 e 11 de Dezembro, o Rota das Letras muda-se então para o Art Garden, sede da associação Art for All (AFA), onde será apresentado o projecto plurianual “A Room of One’s Own”, que é baseado na obra de Virginia Woolf e que inclui uma série de sessões de debate, seminários, concertos e performances que vão explorar o tema da condição feminina. A primeira mesa-redonda acontece pelas 18h30 e junta Agnes Lam, Glenn Timmermans e a psicanalista Natalie Si num debate sobre o conceito de literatura feminina e as suas implicações psicológicas, a partir da obra de Virginia Woolf.

Virginia Woolf continuará como tema central no concerto do músico meditativo de Hong Kong Paul Yip, que se junta aos poetas locais M. Chow e Isaac Pereira e à bailarina Tina Kan, inspirando-se na escrita poética da autora britânica para criarem um espectáculo que combina a palavra, a música e o gesto.

De 10 a 11 de Dezembro, terão também lugar seminários subordinados ao mesmo tema. Agnes Lam e a psicoterapeuta Jojo Lam, vão dirigir uma série de workshops experimentais sobre a condição feminina com elementos literários e teatrais de experiências sociais e terapêuticas. Ainda no sábado haverá uma sessão de poesia onde poderão ouvir-se poemas de José Craveirinha, de T.S. Eliot e de outros poetas, de diferentes espaços e tempos.

No domingo, dia 11, a fechar esta edição do Festival Literário recordar-se-á o II Raid Macau-Lisboa, que é agora tema de um livro de banda desenhada; Shee Va irá fazer a apresentação de “Uma Breve História Cultural do Chá da China”, de Rui Rocha; João Rato e vários outros fotógrafos amadores do território mostram o trabalho conjunto recentemente lançado, intitulado “Macau: My Story”; e a revista Halftone dá a conhecer a sua 4.ª edição, que inclui trabalhos de João Nuno Ribeirinha, David Lopo, Dinamene, Sofia Mota, Alina Bong e Barry Tsang. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Macau - Festival Literário Rota das Letras 2020

Numa versão altamente marcada pela pandemia, o festival literário vira-se para dentro e aposta nos autores de Macau. Além da homenagem a Henrique de Senna Fernandes, será celebrado o centenário da publicação de “Clepsydra” de Camilo Pessanha e discutido o impacto do confinamento nos autores locais



A homenagem ao escritor macaense Henrique de Senna Fernandes vai ser um dos pontos altos da edição deste ano do Festival Literário Rota das Letras, que decorre entre 2 e 4 de Outubro. O programa, que inclui também a celebração dos 100 anos da publicação de “Clepsydra”, de Camilo Pessanha, foi apresentado ontem e vai ter uma sessão dedicada à pandemia da covid-19 e aos efeitos do confinamento na criação literária.

A cerimónia que vai celebrar o escritor macaense está agendada para 4 de Outubro, o mesmo dia em que morreu em 2010. Para assinalar a memória de Henrique de Senna Fernandes serão apresentadas as primeiras traduções em chinês e inglês do livro de estreia do autor macaense, “Nam Van – Contos de Macau”. A obra foi publicada pela primeira vez em 1978, em português.

“Uma das principais razões de ser do Festival Literário é a aproximação, através da literatura, das diferentes comunidades de Macau”, justificou Ricardo Pinto, director-geral do Rota das Letras, sobre a escolha.

“Fazemo-lo desta vez dando pela primeira vez a conhecer aos públicos de língua chinesa e inglesa, a obra que revelou Henrique de Senna Fernandes como um exímio contador de histórias”, realçou.

A sessão agendada para as 17h nas Oficinas Navais conta com a participação do filho do escritor, Miguel de Senna Fernandes, que vai publicar o seu primeiro livro de contos.

Ao contrário das edições anteriores do festival, que se prolongavam por mais de uma semana, a pandemia levou a que a organização optasse por uma edição em moldes diferentes. Também o facto de as fronteiras de Macau estarem encerradas a pessoas com nacionalidade estrangeira levou a organização a focar mais a atenção nos autores locais.

“A crise devastadora que se abateu sobre o mundo obrigou-nos a repensar a edição deste ano do Festival, numa perspectiva realista de contenção de custos e de aposta nos talentos locais”, explicou Ricardo Pinto.

“Esta mesma crise, enquanto tema de reflexão para todos nós, não podia obviamente estar ausente da programação do Festival”, acrescentou.

Reflexões sobre a pandemia

Com a aposta a passar pela “prata da casa”, Eric Chau, Wang Feng, Jenny Lao-Phillips e Konstantin Bessmertny são os autores presentes na sessão de abertura, marcada para as 14h30 de 2 de Outubro, na Oficinas Navais. Os autores vão reflectir sobre os efeitos da pandemia para a sociedade, para o futuro e o impacto para as suas futuras obras. “Numa época de crise em que o mundo está dividido em diferentes zonas de bloqueio, a ideologia de ‘Think Global Act Local’ parece ser especialmente relevante”, comentou Alice Kok, directora executiva do Rota das Letras. “Agora é tempo de reforçar a nossa energia criativa e trazê-la para a boca de cena”, considerou.

Depois da sessão de abertura do festival, serão anunciados os vencedores do Concurso de Contos, além do lançamento do livro de poemas “Sétimo Céu”, que conta com a participação de escritores como Jidi Majia, José Luís Peixoto, Gisela Casimiro e Hirondina Joshua.

Na manhã do primeiro dia do evento decorre também a abertura da Exposição de Fotografia ‘Macau, 2020: Tempo de Introspecção’ e o lançamento da revista Zine Photo, da autoria de João Miguel Barros.

A agenda de um primeiro dia muito preenchido termina com uma peça de teatro intitulada “O Momento”, a cargo da Associação de Teatro de Macau Comuna de Pedra, inspirada no romance 1984, de George Orwell.

Sábado foi o dia escolhido para celebrar os 100 anos da publicação de “Clepsydra”, livro que agrega os poemas dispersos do autor que passou a maior parte da sua vida em Macau, onde está sepultado. Os poemas de Pessanha vão ser ditos e cantados num recital dirigido pelo maestro Simão Barreto, numa sessão agendada para as 18h30 nas Oficinas Navais. João Filipe – Macau in “Hoje Macau”