Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 1 de novembro de 2025

Macau - “Civic Pulse” quer fazer “eco” da agenda cultural da Lusofonia

José Basto da Silva lançou recentemente a página “Civic Pulse”, com a intenção de agrupar os anúncios das actividades recreativas e culturais da comunidade de matriz portuguesa num único sítio. Partindo de uma ideia cogitada “há muito tempo”, o propósito da plataforma é auxiliar tanto o público como os organizadores de eventos, segundo disse ao Tribuna de Macau

José Basto da Silva é o autor do recém-lançado sítio “Civic Pulse”, uma plataforma através da qual o macaense tenciona agregar todos os eventos culturais da comunidade lusófona, num lugar só. Para além de contribuir para a divulgação dos mesmos, Basto da Silva quer também ajudar as entidades organizadoras a evitarem sobrepor eventos nas mesmas datas, em prol do público.

Como explica o autor, “o projecto consiste numa página na Internet onde as pessoas podem aceder, num único sítio, a informações sobre eventos locais, mais concretamente, eventos organizados por associações ou grupos de matriz portuguesa, que podem estar disponíveis em variados locais”. “Outra questão tem a ver com o facto de a nossa comunidade, de matriz portuguesa, e não me refiro apenas a falantes de português, ser muito presente e vibrante”, realça Basto da Silva ao Jornal Tribuna de Macau.

“Por exemplo, a Fundação Rui Cunha organiza muitos eventos e costuma fazer a divulgação através do Facebook. A Casa de Portugal também. Mas ainda que usem a mesma plataforma, as informações não estão na mesma página”, lamenta José Basto da Silva. “Uma pessoa tem que ir ver [à página] da Fundação, ou da Casa de Portugal, ou do Instituto Internacional de Macau, ou da ADM”. “Depois ainda há casos em que os eventos são divulgados por e-mail ou estão nas próprias páginas das organizações e, portanto, a informação está dispersa”.

“Um dos comentários que tenho ouvido, de forma recorrente ao longo dos anos, é que há muitas actividades organizadas pelas associações, não apenas portuguesas”, afirma Basto da Silva. “Organizam-se tantas actividades. Às vezes, umas associações nem sabem o que as outras estão a fazer”.

“Podem ser eventos, lançamentos de livros, que acontecem no mesmo dia, à mesma hora, em sítios diferentes. Isso tem acontecido várias vezes. A Fundação [Rui Cunha] está a lançar um e, entretanto, no Clube Militar está a haver outro lançamento. Ou na livraria portuguesa”. “Torna-se difícil para nós, a comunidade, conseguir aproveitar, participar em todos os eventos que possa interessar. Foi daí que surgiu esta ideia”.

José Basto da Silva confessou também que era um projecto que “já tinha em mente há muito tempo”. “Vim de férias, a oportunidade surgiu, as coisas conjugaram-se. E agora, tirando partido das ferramentas de inteligência artificial, é muito mais fácil. Desde que uma pessoa tenha ideias e vontade de fazer, consegue criar muitas coisas interessantes”.

Outro objectivo do projecto foi criar um espaço mais comunitário, segundo Basto da Silva. “A característica principal deste sítio é que não tem uma organização centralizada, ou seja, qualquer pessoa da comunidade, desde que se registe no “Civic Pulse”, pode criar um registo de um evento”, esclarece. “Alguém lançou um evento no Facebook e eu vi o anúncio. Posso ir ao sítio da ‘Civic Pulse’ e fazer a referência a esse evento. Coloco lá o cartaz, o título e uma descrição. Se existir, é só copiar um ‘link’, data, hora e local. Uma coisa que demora menos de um minuto a criar. Os eventos são organizados pelas entidades. A comunidade tem aqui, digamos, uma plataforma onde faz eco dos eventos que vai descobrindo”.

Nas linhas orientadoras da comunidade da plataforma, é solicitado que a mesma não seja usada para efeitos de promoção comercial ou política. “Como moderador da página, tive o cuidado de criar uma política de utilização”. “Não usar este sítio para fazer política ou autopromoções. É para ajudar a divulgar eventos”, sublinha José Basto da Silva. “Fazer política, campanha publicitária de um ou outro produto ou autopromoção, não”, reitera o criador da página. “Como administrador do sítio, posso lá ir e, se tiver havido utilização indevida, apagar o registo”.

Relativamente ao investimento, o autor do projecto assume estar a pagar do “próprio bolso”. “É uma coisa que eu faço em prol da comunidade de matriz portuguesa, em Macau, tendo em conta a minha própria disponibilidade financeira”. “O facto de ser de gestão comunitária também baixa os custos [financeiros] e de tempo”. “O facto de as pessoas se envolverem mais também é uma vantagem”, frisa.

Quanto aos efeitos da plataforma, Basto da Silva espera que o investimento “tenha alguma utilidade”. “Promove a inclusão, a diversidade de interesses. Este sítio não é só para falantes de português”. “Por isso é que eu tive o cuidado de usar inglês. Pretendo que seja inclusivo e diversificado”, assevera.

Sobre a recepção por parte da comunidade, o macaense revela-se “um bocado surpreendido”. “Tenho recebido mensagens de organizações a felicitar, a dizerem que a ideia foi boa e que é útil. Inclusive, já há pessoas a colocarem eventos”. “Parece-me que estão a ter uma boa impressão desta página e que é capaz de resultar”.

Relativamente a novos projectos ou funcionalidades para o sítio, José Basto da Silva afirma ter “mais ideias”, ainda em desenvolvimento. Contudo, assume que falará sobre as mesmas depois de serem concretizadas. “Prefiro falar menos e fazer mais”, remata. Pedro Milheirão – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Macau - Multiculturalidade dos macaenses “tem de ser melhor explorada”

O papel da comunidade macaense no passado, presente e futuro de Macau, é tema para uma análise de alguns macaenses residentes no território. Falando sobre o período de 25 anos desde que foi estabelecida a RAEM, Leonel Alves entende que a “multiculturalidade” dos macaenses é algo que “tem de ser melhor explorado”. As vantagens específicas dos macaenses, e da RAEM em geral, também são salientadas por António Monteiro, Paula Carion, José Basto da Silva e Manuel Silvério



Numa altura em que a RAEM celebra 25 anos de existência, “é já altura de reflectirmos e vermos qual é o posicionamento da comunidade macaense no contexto do desenvolvimento de Macau e da China”, considera Leonel Alves. “Não houve uma clarificação muito forte sobre aquilo que os jovens macaenses do futuro poderão vir a desempenhar neste território”, disse ao Jornal Tribuna de Macau o antigo deputado que integra actualmente o Conselho Executivo da RAEM.

Leonel Alves, um dos exemplos de “figuras da terra” que têm desempenhado cargos de relevância no panorama político, relembra o contributo dos macaenses em duas vertentes, funcionalismo público e extra-funcionalismo público, considerando que a comunidade está muito ligada à administração.

“Os lugares mantiveram-se, obviamente que muitos tiveram de aprender o chinês. Sendo uma administração chinesa, o bilinguismo é fundamental e é precisamente esse o segmento em que a comunidade macaense pode, poderia e poderá futuramente desempenhar uma função muito específica”.

Para o advogado de profissão, “o macaense, na essência, tem essa vocação linguística, multiculturalidade, é um ser multifacetado”. “É isso que tem de ser melhor explorado, porque penso que não está muito bem explorado até hoje e terá de o ser futuramente para desempenhar a sua função na sociedade”.

Recordando diversos macaenses que exerceram altos cargos políticos, ou foram directores de serviços em várias áreas, Leonel Alves acredita que “tudo isso indica que no aspecto macro político o macaense é considerado parte integrante da população de Macau e as posições que desempenhe dependem da valia e das oportunidades que surgirem”.

O presidente do Conselho Geral do Conselho Permanente das Comunidades Macaenses, que ainda recentemente participou no Encontro de 2024, dá grande ênfase ao futuro, sublinhando a necessidade do macaense “enfatizar a sua vocação natural, que é a multiculturalidade”. “Se isso for muito vincado, poderá contribuir enormemente” para a RAEM, sustenta.

“O território é especial, atento às suas características, às suas singularidades, e uma delas é efectivamente a existência de uma comunidade própria, que é a comunidade macaense, a qual poderá, enfim, fazer as pontes com o exterior”, acrescenta.

Por outro lado, recorda que “Macau tem um desígnio nacional de ser plataforma com os países de língua portuguesa e esta aproximação poderá proporcionar à comunidade macaense um posicionamento muito especial”. Actualmente, prossegue, com muitos chineses a dominarem a língua de Camões, a comunidade macaense “não pode ficar-se atrás” nessa área, porque “o Português é importante também acompanhar o futuro de Macau”.

Com Hengqin, o futuro “não tem limites”

Atualmente, “com a maior integração económica, com o maior espaço geográfico com Hengqin, o futuro não tem limites”, afirma Leonel Alves, frisando que a comunidade macaense também tem outra vertente, que é a sua vocação para o aspecto profissional. “O uso das novas tecnologias aprendidas no estrangeiro pode ser uma mais-valia, um valor acrescentado muito importante para Macau”, defende, vincando que “as portas estão abertas e o macaense terá, obviamente, o seu lugar próprio em Macau”.

Com a entrada de um novo Chefe do Executivo, fluente na Língua Portuguesa, “o diálogo com a comunidade lusa, com a comunidade macaense, que não se expressa bem em Chinês, vai ser muito mais facilitado”, realça, prevendo uma interacção diferente. “Já não é preciso puxar muito pela cabeça para encontrar a palavra chinesa correcta para expressar o que está a pensar, tudo facilitando um diálogo que será certamente profícuo e para o benefício de Macau”, assevera.

Leonel Alves salienta também que a próxima etapa do desenvolvimento da RAEM “é fundamental para se pensar naquilo que poderá vir a ser depois de 2049”. Essa data significa “uma garantia de que ‘Um País, Dois Sistemas’ vigorará durante 50 anos, mas não quer dizer que seja um beco sem saída”. Macau, tal como Hong Kong, “terá um desenvolvimento natural”, que “tem a ver com a utilidade que a região venha a ter, nessa altura, para o país”, destaca.

Uma das especificidades de Macau assenta no sistema jurídico, distinto dos vigentes em Hong Kong e na China continental. “É um ordenamento jurídico que urge, neste momento, ser modernizado, adaptado às circunstâncias de desenvolvimento de Macau e desta região do mundo, para poder ser escolhido o direito de Macau nos negócios que venham a ser estabelecidos na zona da Grande Baía, havendo ligação com Macau ou com os países de língua portuguesa”, adverte.

Reforçando a sua análise, o advogado considera que, “com o desenvolvimento e a modernização, a adaptação às exigências da modernidade do direito, captando os melhores exemplos provenientes do continente europeu, e também colhendo as boas experiências arrecadadas no interior da China nestes últimos 30 anos, Macau poderá ser um laboratório e fazer uma síntese destas duas evoluções, ou seja, arranjar um quadro legal propício para o seu desenvolvimento e desta região do sul da China”.

Leonel Alves diz que esta é uma vertente que pode ser aprofundada e que beneficiará a característica de Macau como região distinta de Zhuhai, Foshan, de toda esta zona, e também de Hong Kong. “A RAEHK está extremamente ligada à ‘Common Law’, o que quer dizer com o mundo de negócios, e tem a sua vocação, que é o hemisfério norte”. Já Macau poderá servir-se “do direito que existe, melhorando-o, captando os interesses económicos do hemisfério sul, portanto os países lusófonos, Portugal, servindo de ponte de ligação depois à Europa continental”.

É isto que o causídico antecipa como uma evolução natural de Macau. Para isso, conclui, “é preciso que tenhamos políticas próprias e, mais do que políticas públicas, o próprio incentivo da sociedade civil, o próprio direccionamento daquilo que se deve fazer junto dos jovens, os pais a deverem transmitir aos seus filhos mais novos aquilo que eles poderão vir a ser em Macau e desempenhar o seu papel no futuro”.

Factor identitário tornou Macau “única e especial”

Apesar de nessa altura se encontrar em Portugal a concluir os estudos, António Monteiro lembra-se dos 10 anos que antecederam a transferência de soberania, um período de muitas mudanças, com a construção da Ponte da Amizade, Aeroporto, Zona de Aterros do Porto Exterior, Novos Aterros do Porto Exterior, redes rodoviárias, viadutos, estátuas de Kun Iam no NAPE e da Deusa A-Má em Coloane, do Centro Cultural e do pavilhão provisório para a Cerimónia de Transferência.

“Em 2006, ano do meu regresso ao território, assisti a uma Macau em constante desenvolvimento”, que “apresenta um legado cultural singular onde as festividades não são somente as chinesas tradicionais, mas também reúnem características ocidentais, mais propriamente as portuguesas, e onde se inclui a mais especial, que é a macaense”, salienta.

Este factor identitário “tornou Macau única e especial, algo que se manifesta na língua, religião, gastronomia, artes e música das suas comunidades, lado a lado com os monumentos tangíveis”, destaca o presidente da Associação dos Jovens Macaenses (AJM) e secretário-geral do Instituto Internacional de Macau.

António Monteiro observa que “com uma sociedade civil bem presente, Macau reúne comunidades e pessoas de diferentes rostos e etnias, sendo a verdadeira base da continuidade de um segundo sistema saudável, um sistema que congrega os valores de diferentes gerações e que considera importante o entendimento das culturas, nomeadamente quando conta com uma história de 500 anos”.

Compreender Macau e promover a sua marca “entre quem não é de cá implica criar condições favoráveis que permitam às novas gerações compreender o seu passado e o seu legado e, a partir daí, levar Macau para novos patamares, onde o desenvolvimento económico pode e deve incluir valores e características culturais únicas”, defende, dando como exemplos o Festival da Lusofonia, o Grande Prémio, o Arraial de São João, o mês de Portugal (Junho) em Macau e os Encontros das Comunidades Macaenses.

No que respeita ao futuro, “passa por haver uma melhor promoção de Macau internacionalmente e também na Área da Grande Baía, aproveitando exactamente a essência da sociedade civil, que tem extensas ligações com os países lusófonos e as representações macaenses no mundo, transmitindo os desenvolvimentos e os sucessos de Macau no exterior”.

No entanto, ressalva, “não podemos esquecer a utilidade da plataforma que existe entre a China e os países de língua portuguesa em vários sectores, muitas vezes não só empresariais, mas também culturais, académicos, editoriais, entre outras vertentes”. Por isso, “o meu desejo é que Macau continue a ser uma cidade aberta ao mundo, e o seu passado continue a abraçar o presente e também o futuro”, confessa António Monteiro.

“Falta de interesse” em continuar o legado

Paula Carion é também dirigente da AJM e um dos elementos da “nova geração” que mais tem lutado pela identidade macaense. Recorda 20 de Dezembro de 1999 como tendo sido “o dia mais frio” que viveu em Macau. Tendo feito uma actuação de karaté com o cantor macaense Casimiro Pinto, como parte do sarau cultural para a delegação portuguesa, “desde então, há 25 anos que me cruzo com o karaté, com o Casimiro e com a representação em palco de muitas formas diferentes”.

Paula Carion salienta ser “inegável” que o desenvolvimento social e económico de Macau se processou a uma velocidade extraordinária nas últimas duas décadas e meia. “Os edifícios, a tecnologia, os transportes e até os métodos de pagamento seriam inimagináveis no início dos anos 2000”, indica.

Concretamente sobre a comunidade macaense e a sua cultura, considera estarem a despertar cada vez maior interesse e atenção. “É isso que, na minha opinião, torna Macau único em relação a outras cidades e regiões vizinhas”. Há cada vez mais pessoas “a quererem aprender sobre a cozinha macaense, o patuá e outros aspectos da cultura que fazem de nós o que somos”, destaca, reconhecendo que têm sido “dados mais recursos para preservar estas culturas, o que é, naturalmente, uma vantagem”.

No entanto, Paula Carion alerta para uma “falta de interesse de dentro da comunidade macaense em continuar este ‘legado’, uma vez que há algumas gerações mais jovens (mais jovens do que eu, que nasci no início dos anos 80), que não se vêem como macaenses ou têm dificuldade em reconhecer-se como parte da comunidade”.

Na sua perspectiva, a preservação e a manutenção das culturas “têm de ser feitas pelas pessoas que as vivem”. “É por isso que tento levar o meu filho a tantos eventos e celebrações macaenses quanto possível, para que ele possa crescer com estas tradições, em vez de ter de aprender sobre a sua própria cultura a partir de outras fontes depois de crescer”, conta.

Impacto da comunidade tem sido “excepcional”

José Basto da Silva, por seu turno, entende que “os macaenses têm tido um papel preponderante na política, na preservação cultural, desenvolvimento económico, planeamento e desenvolvimento urbanístico, sustentabilidade do ambiente, educação e desenvolvimento de mão-de- obra, associativismo e saúde”.

Apesar da baixa percentagem da população macaense, José Basto da Silva acha que o impacto tem sido “excepcional se compararmos com os feitos”. Em todas as áreas mencionadas, “é com grande satisfação, e até com alguma vaidade alheia, que olho para estas pessoas e vejo o trabalho desenvolvido em prol não só da própria comunidade, mas do território em si”.

O engenheiro informático não esquece os macaenses da diáspora. “À sua maneira e dentro das limitações, têm ajudado a preservar a cultura tão característica de Macau e a divulgar a imagem do território, promovendo o que de bom temos e de que tanto nos orgulhamos”, aponta.

Ademais, acredita “genuinamente” que, “se não fosse a nossa comunidade, Macau seria uma terra mais ou menos igual a tantas outras, de monumentos silenciosos, sem alma e desinteressantes”. “É graças aos macaenses que a história se mantém viva, os laços com Portugal e os outros países de língua oficial portuguesa se mantêm fortes”, sublinha, acrescentando que “se Macau hoje é uma terra que se destaca na China e até no mundo, é em grande medida devido à comunidade macaense, que mantém vivas as suas raízes, cultura e língua entre outras características”.

A comunidade macaense é “resiliente, vibrante, activa e pujante”, descreve José Basto da Silva, convicto de que “são essas características que fazem com que a RAEM se tenha desenvolvido e criado a imagem que tem hoje”. O macaense afiança que os Governos Central e da RAEM “valorizam esse facto e têm todo o interesse em preservar”. Para tal, “os macaenses são o elo de ligação entre a China e (não só, mas em especial) o mundo lusófono, o factor diferenciador que enriquece o território e que não pode desaparecer, mesmo depois do fim do período de transição”, remata.

Associações e media têm sido “a bengala” da preservação

Manuel Silvério é um macaense de outra geração, que ocupou cargos antes e depois da transição, com destaque na área desportiva. “Todos tivemos e temos a liberdade de escolher”, começou por dizer, recordando que uns optaram por continuar a viver e trabalhar em Macau, enquanto outros preferiram deixar o território.

“Os macaenses estão inseridos nas diversas áreas para o desenvolvimento não só da RAEM como da Grande Baía e do próprio País, e nas áreas mais sensíveis e visíveis são ‘seleccionados’ para integrarem ou participarem nas suas discussões”, observa, aditando que “a importância dessa participação é por vezes mais simbólica e não interventiva, mas é uma predisposição da Lei Básica”. Paralelamente, “os costumes e tradições das diversas comunidades e religiões são respeitados, que vão desde a ópera Cantonense, a crença do Taísmo, a procissão do Nosso Senhor dos Passos que continua a realizar-se pelas ruas de Macau”.

No entanto, “no mercado de trabalho a comunidade tem encontrado uma maior dificuldade na sua integração, principalmente para aqueles que não dominam o Chinês escrito e falado, ou o desconhecimento do ‘Putonghua’, salvo os que possuem uma formação ou especialização”. Em contrapartida, salienta, “a nova geração de portugueses vindos do exterior tem-se adaptado e participado neste processo em permanente evolução”.

Relativamente ao que mudou depois de 1999, constata que “a idade da comunidade está envelhecida e há pouco sangue novo”. Silvério não tem dúvidas de que Macau ganhou visibilidade regional e internacional pela sua prosperidade económica e que as infraestruturas urbanas e as construções emergentes com a liberalização do jogo e o novo modelo de turismo mais diversificado alteraram radicalmente a sua imagem. “Foram os melhores anos na história de 600 anos de Macau”, resume.

Já a “divisão dos macaenses é mais visível e uma das razões prende-se com a falta de uma liderança situacional, mais afirmativa”. Ainda assim, “de uma forma genérica têm recebido maior atenção do governo central e são ouvidos sem intermediários”.

Em termos de participação política e cívica, “comparativamente com os tempos da administração portuguesa, a comunidade macaense ganhou uma posição de destaque nas sucessivas eleições para a Assembleia Legislativa pelo sufrágio directo”, refere Silvério, notando que se quebrou a tradição dos macaenses serem funcionários públicos.

Questionado sobre a preservação da identidade macaense e da Língua Portuguesa, o antigo responsável pela organização dos Jogos da Ásia Oriental (2005) e Jogos da Lusofonia (2007), entre outros eventos que projectaram Macau na cena desportiva internacional, Silvério diz que está “um pouco tremida” por falta de dinâmica e de recursos, motivação, liderança”. Na sua opinião, essa descaracterização é natural e consequente da nova situação política e económica de Macau.

“Não sou competente nem responsável para poder responder a este assunto com rigor, não participo, assim como não sou ouvido por quem de direito”, ressalva, sugerindo, porém, que essa questão estará associada ao resto dos residentes incluindo novos migrantes. “Estamos ainda num período de adolescência da RAEM”.

De qualquer modo, o Português é “usado de um modo geral pelos macaenses, é uma das duas línguas oficiais e até é utilizada nos tribunais”. “As organizações de matriz portuguesa e os media em língua portuguesa têm sido a bengala desta preservação/identidade”, realça, enfatizando que “os discursos oficiais continuam a dar ênfase aos macaenses e à sua importância para o desenvolvimento social e económico de Macau”.

Em conclusão, Silvério salienta que “a comunidade macaense de um modo geral tem tido o senso da convivência na nova sociedade e o governo local, as diversas entidades chinesas e portuguesas têm demonstrado grande vontade desta preservação”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Macau - Coro Papiaçám leva a Portugal “Lisboa Antiga” em patuá

O grupo coral dos Dóci Papiaçám di Macau vai actuar a 8 e 10 de Outubro em Lisboa, a convite da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. O coro interpretará cerca de uma dezena de temas, quase todos em patuá. Apenas um é uma adaptação do clássico da Amália Rodrigues, “Lisboa Antiga”, da autoria do poeta macaense Adé, na qual “será feito um arranjo”, segundo referiu ao Jornal Tribuna de Macau Miguel de Senna Fernandes. Está também prevista uma actuação na Casa de Macau em Portugal



Cerca de uma dezena de composições em patuá farão parte do repertório do Coro do Dóci Papiaçám di Macau numa deslocação a Portugal, a convite da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. O grupo será integrado por 14 elementos, 12 cantores, um regente e um técnico.

A actuação oficial do coro irá processar-se em duas sessões. A primeira, no dia 8 de Outubro, acontecerá no Palácio de São Bento, edifício-sede da Assembleia da República Portuguesa, e a segunda, a 10, no Paço Municipal de Lisboa, por ocasião do encerramento do Plenário das Comunidades portuguesas.

Para além destes dois dias, o Coro dos Dóci Papiaçám di Macau deverá igualmente, ainda que a nível particular, exibir-se na Casa de Macau em Lisboa no dia 9. “Estamos a combinar com eles para podermos fazer lá uma sessão, aproveitando assim a nossa presença na capital portuguesa e assim conviver e cantar na Casa de Macau”, disse ao Jornal Tribuna de Macau Miguel de Senna Fernandes, ao comentar uma notícia divulgada pela TDM.

No repertório do coro para esta deslocação, vão ser cantadas, pela primeira vez, cerca de 10 trechos, dois deles com letra do poeta macaense José dos Santos Ferreira, conhecido por Adé, falecido em 1993. Uma dessas interpretações é “Lisboa Antiga”, de Amália Rodrigues, que Adé compôs em patuá.

“Vamos fazer um arranjo e, portanto, será uma canção em português e patuá”, referiu o responsável pelo grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, que fará também parte dos elementos que cantam, já que a regência caberá a José Basto da Silva.

O grupo tem habitualmente 20 elementos – foi esse o número da última actuação, no Natal de 2023 – mas Miguel de Senna Fernandes lamenta que nem todos possam integrar a comitiva nesta viagem a Lisboa. “Tenho pena de deixar algumas pessoas de fora, sem desprimor por ninguém, mas isso só acontece por limitações de orçamento da parte da organização”, explicou.

O Coro dos Dóci Papiaçám di Macau regressa assim a Lisboa 25 anos depois de ali ter actuado. “Foi em 1999 e por isso deixa-me satisfeito este convite para voltarmos a Portugal com o coro”, salientou Miguel de Senna Fernandes. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Macau - José Basto da Silva lança romance de alunos da escola comercial

“Amor Escarlate” é um romance de alunos da Escola Comercial que se passa nos anos 80. Embora se baseie em factos reais, é uma obra de ficção. É assim, ao contar as suas memórias, que o macaense José Basto da Silva se lança no mundo das letras. O autor espera que o leitor possa “viajar no tempo” com este seu primeiro livro, que vai ser apresentado no próximo domingo, na Casa Garden


José Basto da Silva lança-se no “mundo das letras” com a obra “Amor Escarlate: Memórias dos Tempos de Estudante em Macau”, que vai ser lançada no próximo domingo, dia 15, no âmbito do programa Rota das Letras do XII Festival Literário de Macau. O lançamento decorrerá na Casa Garden, às 15h00. Sem querer “levantar a ponta do véu”, o macaense contou ao Jornal Tribuna de Macau que se trata de “um romance de alunos da Escola Comercial, nos anos 80”.

“Embora baseado em factos reais, o enredo deste livro é uma obra de ficção. Os eventos e nomes são, em grande medida, fictícios e usados com o propósito de criar uma história envolvente. Espero que o leitor goste de ler este livro tanto quanto eu gostei de escrevê-lo”, afirmou.

O livro começou a ser escrito quando estava ainda na Direcção da Associação dos Macaenses e estava envolvido na revista “A Voz”. “As coisas iam acontecendo um pouco sob pressão e, por uma questão de gestão de tempo, comecei a escrever antecipadamente, nos intervalos, para poder entregar trabalho assim que surgisse algum pedido urgente. Aos poucos comecei a juntar material que não saía porque a revista estava atrasada. Foi assim que me ocorreu a ideia de aproveitar o que tinha em mãos e fazer um livro”, contou José Basto da Silva.

Segundo disse, já por várias vezes tinha sido “desafiado a escrever”, sobretudo por Jorge Rangel, mas também por Miguel de Senna Fernandes e até por Henrique de Senna Fernandes. “Nesta altura que o meu professor faria 100 anos, acho que não podia fazer melhor homenagem à sua memória”, apontou.

Sublinhando que “escrever é uma arte”, José Basto da Silva explicou que foi aprendendo à medida que ia avançando na história. “Aliás, uma vez que só escrevia nos tempos livres, demorei anos a terminar este projecto, e eu próprio notei que do primeiro ao último capítulo houve uma evolução – creio que significativa”.

José Basto da Silva referiu ainda a este jornal que o que escreveu foi revisto várias vezes para “tentar homogeneizar o estilo e a narrativa”. “Aprendi muito. Além disso, o processo em si também levou a que me lembrasse de muitas recordações perdidas no fundo do inconsciente. Eu próprio fiquei surpreendido com as coisas que me vieram à memória e que julgava perdidas. Foi muito bom porque permitiu-me, de certo modo, viajar no tempo. Acho que isso será algo que os leitores também irão experimentar”, prosseguiu.

Sendo o português a língua principal, José Basto da Silva não deixa de explicar que o livro foi “escrito em várias línguas”. “Também usei – porque somos assim, faz parte da nossa cultura – um pouco de patuá e chinês. Ocasionalmente, porque esta é uma terra internacional, sempre foi, também usei inglês e até francês… Macau sãm assi ia!”, concluiu. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”




quinta-feira, 7 de julho de 2022

Macau - Revisitar o trilho percorrido pelos invasores holandeses há 400 anos

Um documentário narrado pela historiadora Beatriz Basto da Silva e produzido por José Basto da Silva encontra-se já disponível ‘online’ no sentido de comemorar o aniversário dos 400 anos da vitória de Macau sobre os holandeses. Tendo identificado o mais fielmente possível qual o trilho que os invasores holandeses percorreram, tornou-se possível reconstruir as memórias e revisitar a verdadeira história. O projecto pretende, através de uma apresentação audiovisual, lembrar à comunidade local e às novas gerações a relevância desta efeméride histórica


Este ano marca o quadricentenário de Macau ter conseguido derrotar a Holanda e conquistar uma vitória milagrosa. Para assinalar este dia de grande valor histórico, um pequeno documentário intitulado ‘Interpelando a História: O ataque holandês a Macau há 400 anos’, narrado pela historiadora e investigadora Beatriz Basto da Silva e produzido pelo seu filho, José Basto da Silva, deveria ter sido apresentado a 23 de Junho no âmbito do evento ‘Serões com Histórias’, organizado pela Fundação Rui Cunha e pela Associação dos Antigos Alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco (AAAEC). No entanto, o lançamento da curta-metragem sofreu uma baixa de última hora devido ao surgimento da nova ronda de crise de saúde pública no território.

O realizador da obra, José Basto da Silva, revelou ao Ponto Final que teve a intenção de criar um documentário “diferente do que tem sido feito até agora”, que “é muito baseado em fotografias ou desenhos, pouco visual e, sobretudo, sem uma compreensão física, sensorial, do que os intervenientes, na altura, terão vivenciado,” referiu o actual presidente da AAAEC. “Para já não conseguimos viajar no tempo, não é possível mostrar o que se passou de facto, mas tentei simular os acontecimentos e mostrar, em filme, o melhor possível, embora com todas as limitações,” acrescentou.

Recorrendo à produção de um documentário de 11 minutos, o realizador macaense tentou abrir a possibilidade de reconstruir as memórias e revisitar a verdadeira história da batalha de Macau de Junho de 1622. “Procurei identificar o mais fielmente possível qual o trilho que percorreram, o que terão visto e sentido, as circunstâncias em que tudo se desenrolou, de modo a perceber melhor a situação,” referiu.

Na semana anterior à data da efeméride, Basto da Silva fez algumas das filmagens e seguiu o percurso a pé durante duas horas, sob um intenso calor. Para o realizador, este trabalho preparatório é considerado significativo já que “só assim se percebem as distâncias, o porquê do caminho percorrido, ou a razão que levou os holandeses a irem à fonte da Flora”, mesmo sabendo que o pano da fortaleza do Monte não estava muito longe, mas a uma distância “ameaçadora”.

Porém, mesmo os melhores planos nem sempre funcionam conforme pretendido. O evento “Serões com Histórias” que estava programado para o dia 23 de Junho, data do primeiro ataque há quatro séculos, acabou por ser cancelado num momento derradeiro.

Segundo afirmou o coorganizador, a sessão tinha três momentos planeados: O Antes; O Durante; e O Depois. O documentário era suposto ser apresentado na parte do “Durante”. Infelizmente, Macau foi atingida de surpresa com um surto da Covid-19 menos de uma semana antes da ocasião, e a Fundação Rui Cunha viu-se obrigada a adiar a sessão.

Com o passar de quase duas semanas, a situação epidemiológica em Macau não parece recuperar, e Basto da Silva decidiu lançar nas redes sociais esta obra audiovisual. “Não prevíamos que isto durasse tanto tempo e, receando que o documentário perdesse o ‘momentum’, decidimos lançar agora. Avançaremos mais tarde, assim que estiverem reunidas as condições. Nessa altura, o vídeo será passado, acompanhado de comentários da minha mãe, e meus também”, lamentou o filho da investigadora da História de Macau.

Macau teria tido uma história muito diferente

No que diz respeito ao ataque dos holandeses a Macau no ano de 1622, Basto da Silva considera que foi “um erro crasso” e “uma vergonha indelével” para os holandeses “gananciosos” e “imprudentes” que, em quase todas as outras investidas nesta região geográfica, tiveram sucesso. “Os holandeses fizeram muito mal aos portugueses e a outros povos nesta região. Tanto quanto sei, não deixaram saudades em nenhuma das ex-colónias, ao contrário dos portugueses. Veja-se, por exemplo, o caso de Malaca”, comentou.

Apesar de tudo, o presidente da AAAEC ressalvou a importância histórica desta batalha para Macau na medida em que os chineses passaram a olhar para os portugueses como aliados, com maior confiança e proximidade. A própria China foi beneficiada com a amizade que se forjou, por exemplo, tirando proveito do poder bélico português em confronto com os Tártaros.

A nossa história define quem somos. “Creio que se a Holanda tivesse sido bem-sucedida, Macau colonial teria tido uma história muito diferente e não se teria desenvolvido uma comunidade e cultura híbrida tão rica como a macaense. Seria, porventura, uma cidade protestante com alguns monumentos históricos em ruínas, e pouco mais”, comentou Basto da Silva, dizendo acreditar mesmo que a própria China seria outra se a invasão dos “corsários” tivesse tido outro desfecho, tendo em conta “os holandeses, ao contrário dos portugueses, conquistavam por via da força, não do comércio nem da diplomacia”.

Importância ainda válida

Ao ser questionado sobre a relevância de assinalar o dia 24 de Julho nos dias de hoje, Basto da Silva argumentou que: “Faz todo o sentido celebrar a efeméride, não só para portugueses ou macaenses, mas eu diria também para os chineses, pela singularidade que esta terra é, não só na China, mas em todo o mundo”, defendendo que esta data não só simboliza o aniversário da cidade, o Dia de São João (padroeiro de Macau), mas também a amizade e coexistência secular entre dois povos.

Na observação do macaense, as novas gerações, entretanto, tendem a desvalorizar esta data especial onde os macaenses sentem e celebram as suas raízes, fruto de vários factores, nomeadamente porque deixou de ser feriado após a transferência de soberania de Macau de Portugal para a República Popular da China. “É de apontar que, infelizmente, o Governo local não tem dado a devida relevância que, na minha opinião, esta data merecia”, criticou.

Basto da Silva frisou que é importante continuar a comemorar este momento da história, não só como uma festa gastronómica ou religiosa, mas também para lembrar à comunidade chinesa e às novas gerações em Macau e lá fora. “Não nos podemos esquecer dos jovens macaenses espalhados pela diáspora e fornecer-lhes bases históricas consistentes”, salientou. Dinis Chan – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Macau - “Catharsis” exposição individual de aguarela

José Basto da Silva apresentou a sua primeira exposição individual de aguarela “Catharsis”, na galeria da Fundação Rui Cunha. O presidente da associação dos antigos alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco e membro do grupo de teatro Doci Papiaçam di Macau estreia-se agora na pintura com a apresentação de 40 obras de aguarelas, pintadas cronologicamente ao longo de 2020 no contexto da pandemia e do recente confinamento colectivo


“Catharsis” é o nome da exposição que hoje se estreou, na Fundação Rui Cunha, da autoria de José Basto da Silva, actor e cantor do grupo de teatro Doci Papiaçam di Macau. O projecto envolve 40 aguarelas com um tema marítimo de mar, ondas e barcos, de cariz local. O autor descreve a partilha pública destas obras como “o passar de uma mensagem de esperança e de motivação em tempos de incerteza e instabilidade, mas que abrem portas a novos voos que nos levam a olhar o mundo de uma forma diferente e a redescobrirmo-nos a nós mesmos”. O evento é também uma celebração dos seus 50 anos.

José Basto da Silva falou ao Ponto Final um pouco acerca da génese do projecto. “Eu comecei a fazer aguarelas há sensivelmente 12 meses”, começa a explicar, adiantando que, na altura em que a pandemia surgiu, encontrava-se em casa em confinamento, sem muito que fazer, e acabou por pegar nos materiais de pintura que a sua filha tinha mas que não dava grande uso. E, por outro lado, tinha o quarto do filho livre depois deste ter ido para a universidade. “Montei ali uma espécie de um atelier onde comecei a experimentar e a fazer umas brincadeiras, umas aguarelas”, refere.

A facilidade de aprendizagem nos tempos que correm foi também um factor decisivo para o início deste seu novo hobby, explica o engenheiro informático. “Qualquer pessoa que tenha o mínimo de curiosidade e disciplina pode facilmente ligar-se ao YouTube, ou matricular-se em cursos online, e começar a aprender a fazer aguarelas e a começar pelas coisas mais básicas”, referiu ao Ponto Final. “E na altura também tive muita motivação, sobretudo da família e de amigos, e fui fazendo e aperfeiçoando”, prosseguiu. O artista macaense aponta que de entre os aquarelistas de nível mundial que mais gosta e segue estão Alvaro Castagnet, Shibazaki e Joseph Zbukvic.

Em termos de materiais usados, José Basto da Silva assinala que começou com o material de arte inutilizado da filha. “Eles têm tudo do bom e do melhor e depois não usam”, explica entre risos. “Comecei a usar uns lápis parecidos com os de cera, mas da marca Caran D’ache, que depois de pintar, passa-se o pincel e a tinta dilui, mas não fica aquele traço muito agreste, e eu senti assim alguma curiosidade de experimentar”.

Quando questionado acerca do nome “Catharsis”, José Basto da Silva assinala que a exposição centra-se muito no tema da água e dos barcos por sempre ter tido um fascínio especial por esses elementos. “Eu desde pequeno que me deixei sempre influenciar muito pelos quadros de artistas locais, pois os meus pais tinham quadros do Herculano Estorninho, que nas suas obras era muito vocacionado para juncos e barcos chineses”, indica, acrescentando: “aventurei-me pois na altura também achei que fazer mar, ondas e barcos seria muito mais fácil do que estar a iniciar-me nas aguarelas com paisagens urbanas, e acabando também por estar associado ao facto de as aguarelas terem sido um processo que me permitiu de certa forma abstrair-me do confinamento e purificar-me um bocado daquele sentimento de frustração, de prisão, e a água entra aí como um elemento purificador”, descreveu.

O nome da exposição, revela o artista, provém desta explicação, pois relembra que todos, em momentos difíceis, passam por momentos de catarse como forma de ultrapassar as dificuldades e, se calhar, descobrir talentos que acredita estarem dentro de cada um de nós, apesar da falta de tempo ou condições para os desenvolver. “Esta exposição para mim é também uma mensagem, que todos precisamos de passar por uma fase de purificação, de catarse, para descobrirmo-nos a nos próprios, melhorarmo-nos, de sermos mais úteis, talvez”.

José Basto da Silva revela ainda sentir uma ligação muito forte “à sua terra” Macau. “Eu sou de cá e o facto de estar a completar 50 anos de idade, uma idade muito marcante, tive o cômputo de fazer as perguntas existenciais como “o que é que eu sou realmente?” e “o que é que eu fiz na minha vida ou qual foi a minha contribuição à nossa sociedade?”.

A exposição inaugurada hoje, conta o artista, é também uma boa desculpa para juntar amigos e pôr à disposição o seu trabalho. “Oxalá os visitantes se sintam motivados e embarquem neste meu processo de catarse, e que consigam saborear um bocado daquilo que me vai na alma, com uma certa motivação também, para se descobrirem a si próprios”, conclui. Joana Chantre – Macau In “Ponto Final”

Joanachantre.pontofinal@gmail.com