Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Pessanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Pessanha. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de setembro de 2026

Portugal - Exposição em centro comercial da cidade de Coimbra homenageia Camilo Pessanha

Um percurso visual e literário que revisita os momentos essenciais da vida de Camilo Pessanha é o tema de uma exposição que se encontra patente num centro comercial de Coimbra. A mostra reúne fotografias, poemas e depoimentos de autores contemporâneos, aproximando a comunidade de uma das figuras mais marcantes do simbolismo português


Uma exposição que ilumina a vida, a obra e o legado simbolista do poeta conimbricense Camilo Pessanha, celebrando o centenário do seu falecimento com imagens, poemas e vozes que o mantêm vivo na cidade, está patente no Centro Comercial Alma Shopping, em Coimbra.

A mostra divulga o percurso visual e literário que revisita os momentos essenciais da vida do escritor, a força de Clepsidra e a influência que deixou nas gerações seguintes, juntando-lhe ainda a transcrição de depoimentos de alguns dos escritores portugueses contemporâneos mais importantes, que se assumiram como seus discípulos.

Com curadoria da Comissão Organizadora do Centenário da Morte de Camilo Pessanha e produção gráfica do centro comercial, a exposição integra as iniciativas do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro e do Centro de Literatura Portuguesa, com o apoio da Câmara Municipal e da Universidade de Coimbra, reforçando o diálogo entre cultura, cidade e memória.

A exibição reúne fotografias, poemas e depoimentos de autores contemporâneos, aproximando a comunidade de uma das figuras mais marcantes do simbolismo português. Nos painéis que compõem a mostra consta informação concisa sobre os factos centrais da vida do poeta, bem como são reproduzidos alguns dos seus poemas mais conhecidos e abreviadamente transcritas declarações e homenagens de poetas como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Eugénio de Andrade e Carlos de Oliveira, que o veneraram como mestre.

A redacção e a escolha dos textos da exposição são da responsabilidade da Comissão Organizadora do Centenário da Morte do poeta, representada por António Apolinário Lourenço e por Manuel Seixas, tendo a concepção gráfica e a produção ficado a cargo do Alma Shopping.

Camilo Pessanha é o nome maior da corrente simbolista em Portugal, tendo nascido em Coimbra a 7 de Setembro de 1867 e frequentado Direito na Universidade de Coimbra entre 1884 e 1891. Partiu para Macau no início de 1894, onde faleceu a 1 de Março de 1926.

Em 1920 foi publicado o seu único livro de poesia, Clepsidra, uma das obras mais importantes e influentes da literatura portuguesa do século XX. A publicação foi produzida pelas Edições Lusitânia, de Ana de Castro Osório.

Citando António Ferro, escritor, jornalista, político e diplomata português, o Diário de Coimbra refere que “a nova geração passara a ter um missal e um relógio”, acrescentando que “desde há muito os jovens modernistas portugueses conheciam uma boa parte da obra poética de Pessanha, que circulava em versões manuscritas distribuídas por Carlos Amaro, o fiel depositário da poesia do mestre de Coimbra”.

Nesta exposição, patente até ao dia 30 de Setembro, será cumprida mais uma etapa das comemorações do Centenário da Morte de Camilo Pessanha. “A causa do poeta e escritor é a causa da Literatura, da Poesia, de Coimbra, onde nasceu e se formou, de Portugal”, remata o diário conimbricense. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Portugal - Autocarro em Coimbra homenageia Camilo Pessanha

No centenário da morte de Camilo Pessanha (01/03/1926), a Câmara Municipal de Coimbra e os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos decidiram homenagear o poeta, que nasceu naquela cidade portuguesa, mas passou parte da vida em Macau, onde acabou por morrer. Assim, o autocarro 501 exibe um retrato do poeta, com a sua assinatura, acompanhado do verso que abre Clepsidra


O autocarro 501, que circula desde o início da semana em Coimbra, homenageia Camilo Pessanha, no ano em que se assinala o centenário da sua morte. A iniciativa partiu da Câmara Municipal de Coimbra e dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC), que decidiram decorar a viatura com uma imagem evocativa do poeta, assinalando a sua vida e obra, segundo se pode ler numa nota publicada na página dos SMTUC.

O autocarro exibe um retrato de Camilo Pessanha, uma reprodução da sua assinatura e o verso que abre Clepsidra: “Eu vi a luz em um país perdido”. Camilo Pessanha (1867-1926) é considerado a principal figura do Simbolismo em Portugal e um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa.

Nascido em Coimbra, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, cidade onde iniciou a sua actividade literária. Em 1894, partiu para Macau, onde exerceu funções como professor de Filosofia e desempenhou diversos cargos na administração pública. Acabou por morrer no território, sendo que a sua campa se localiza no Cemitério de São Miguel Arcanjo.

A iniciativa da Câmara Municipal de Coimbra e dos SMTUC integra “uma estratégia de valorização de figuras maiores da cultura portuguesa com ligação a Coimbra”, segundo acrescenta o comunicado. Neste âmbito, no mês passado e a propósito da 37.ª edição da Feira do Livro de Coimbra, que teve como mote o livro A árvore das Palavras, foi dedicada uma outra viatura à escritora Teolinda Gersão.

Também no âmbito do centenário da morte de Pessanha, a Biblioteca Municipal de Coimbra associa-se às comemorações com duas iniciativas. Na Casa Municipal da Cultura, a exposição “Imagens de Coimbra na época de Camilo Pessanha (1867-1926)” estará patente até 28 de Setembro, com curadoria de Alexandre Ramires.

A exposição é organizada pela Divisão de Bibliotecas e Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Coimbra, em colaboração com o Centro de Literatura Portuguesa e com o Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, entidades promotoras das comemorações do centenário, às quais se associam igualmente a autarquia e a Universidade de Coimbra.

Além disso, realizou-se um recital performativo intitulado “Miragens do Nada – um olhar sobre a poesia de Camilo Pessanha”, apresentado pela Cooperativa Bonifrates. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sábado, 6 de junho de 2026

Macau - Poesia de Camilo Pessanha acompanhada à viola

Uma exposição colectiva sobre Camilo Pessanha vai contar com a declamação de poemas e acompanhamento musical. O evento reunirá diferentes olhares e interpretações da obra e do universo poético de Pessanha, valorizando a diversidade de suportes e linguagens artísticas. Durante o fim-de-semana, há outros eventos integrados na programação do “Junho, Mês de Portugal”, incluindo no Club Lusitano de Hong Kong


Poesia de Camilo Pessanha declamada ao som de viola é um dos destaques dos eventos agendados para o fim-de-semana, no âmbito da programação do “Junho, Mês de Portugal”. A exposição, promovida pela Casa de Portugal, será inaugurada no domingo, pelas 17h00, na galeria temporária da Casa Garden.

O evento, que tem apoio do Movimento Associativo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Fundação Oriente (FO), serve para assinalar o centenário da morte do poeta em Macau, reunindo “diferentes olhares e interpretações da obra e do universo poético de Camilo Pessanha (07/09/1867 – 01/03/1926), valorizando a diversidade de suportes e linguagens artísticas”, segundo refere a sinopse da exposição.

O primeiro dia da mostra intitulada “Camilo Pessanha”, sob curadoria de Elisa Vilaça, será enriquecida pela poesia declamada por Paulo Campos dos Reis, acompanhado à viola por Nuno Cintrão. A exposição ficará patente até ao dia 30 de Junho.

Também a Casa Garden será anfitriã da Exposição “Insider, uma visão por dentro”, da autoria de Eduardo Leal. Trata-se de uma mostra individual do fotógrafo documental português radicado em Macau, que explora a condição humana através de uma metodologia de imersão profunda.

Noutras actividades incluídas no “Mês de Portugal”, os Jardins do Consulado-Geral recebem mais uma iniciativa do projecto “Diniz Caixapiz”, da Sílaba – Associação de Educação Literária. O evento celebra a língua portuguesa em Macau através de uma proposta pedagógica e criativa que une a curadoria literária ao jornalismo júnior.

Através da Dinis Magazine, o projecto “dá voz e palco ao talento dos jovens residentes, promovendo a literacia e o sentimento de pertença cultural”, diz a Sílaba em comunicado, adiantando que esta décima edição celebra o “percurso do projecto” e reafirma o “compromisso de envolver famílias e educadores” na valorização da língua e da expressão artística.

O lançamento, que inclui o anúncio dos vencedores do concurso internacional “O Poster é Teu”, constitui um “momento alto de partilha comunitária e de celebração da vitalidade da cultura portuguesa em Macau, unindo tradição e futuro através do olhar das crianças”, salienta a Sílaba.

Também o Teatro D. Pedro V será palco do Recital de Música Lírica, contando, entre outros artistas, com a soprano portuguesa Sílvia Sequeira, e o Club Lusitano em Hong Kong promove a “Celebração do Dia Nacional de Portugal”, que terá a presença do Cônsul-geral de Portugal para as RAE, Alexandre Leitão.

O evento, destinado a membros e convidados, inclui um pequeno espectáculo, denominado “Um sabor de fado”, com canções interpretados pelo Club Permitted User e pela cantora Anandi Bhattacharya. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Portugal - Congresso na cidade de Coimbra evoca Camilo Pessanha

Um congresso de dois dias em Coimbra dedicado a Camilo Pessanha vai assinalar os 100 anos desde a morte do professor, poeta e escritor que nasceu naquela cidade portuguesa e faleceu em Macau. Vários oradores participam no evento, entre os quais Sara Augusto e Carlos Morais José, ambos online, Celina Veiga de Oliveira e António Carlos Cortez


Durante dois dias, 11 e 12 de Maio, Coimbra receberá um congresso sobre a vida e obra de Camilo Pessanha, contando com uma plêiade de oradores, alguns dos quais de Macau. As sessões realizar-se-ão na Faculdade de Letras e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (UC), que o poeta frequentou durante a formação académica.

Na apresentação do evento, a organização destaca o “nome maior da poesia portuguesa”, nascido em Coimbra em 7 de Setembro de 1867. O escritor viria a falecer em Macau a 1 de Março de 1926, onde exerceu relevantes funções públicas. Foi autor de um único e extraordinário livro de versos, Clepsidra, publicado pelas Edições Lusitânia, de que era proprietária a sua amiga Ana de Castro Osório, e posteriormente enriquecido por novos poemas que foram sendo descobertos.

“Apesar da distância e da data tardia da publicação da Clepsidra (1920), posterior quer ao surgimento de vários livros de Mário de Sá-Carneiro, quer à publicação da revista Orpheu, o nome do poeta simbolista era bem conhecido nos meios literários de Lisboa, onde os seus poemas circulavam manuscritos desde o início do século XX”, pode ler-se na nota da UC.

Por isso, acrescenta, “Fernando Pessoa, que o conheceu pessoalmente numa das passagens de Pessanha pelo país natal, lhe chamou Mestre, comparando-o apenas a Antero de Quental e a Cesário Verde como guias e precursores da geração modernista”.

Mário de Sá-Carneiro chegou mesmo a considerar, em 1914, respondendo a um inquérito promovido pelo jornal República, que o melhor livro de poesia dos últimos trinta anos, era um livro até então não publicado, aquele que reunisse a poesia de Camilo Pessanha, o “grande ritmista”. “É esta grande figura da literatura nacional que o Centro de Literatura Portuguesa se propõe celebrar”, sublinha a UC.

A sessão de abertura do evento acontecerá na segunda-feira, pelas 9h30, com palestras de Daniel Pires e Celina Veiga de Oliveira, versando os temas “O percurso cívico de Camilo Pessanha” e “Camilo Pessanha e as teias jurídicas a Oriente”, respectivamente. Ainda durante a manhã, em sessões que terão lugar no Colégio da Trindade, extensão da UC, Duarte Drumond Braga falará sobre “Macau, essa China e esse Portugal”, enquanto Catarina Nunes de Almeida abordará “Camilo Pessanha, mestre de poetas”, e Maria do Carmo Cardoso Mendes orientará uma conversa sob o título “Água, poeira e silêncio: visões do Oriente na poética de Clepsidra”.

Da parte da tarde, num anfiteatro da Faculdade de Letras da UC, estarão os conferencistas Orlando Nunes de Amorim, Ana Margarida Chora, Raquel Brandão do Sêrro, Osvaldo Manuel Silvestre, Gabriella Campos Mendes e Ana Marques. Pelas 18h00, será inaugurada uma exposição bibliográfica sobre Pessanha, na Biblioteca Geral da UC.

Na terça-feira, o congresso contará com o palestrante António Carlos Cortez, que em Março veio a Macau para participar no Festival Literário Rota das Letras. O professor de Literatura Portuguesa falará sobre “Camilo Pessanha e Gastão Cruz: o sentido violento da forma”. Seguir-se-á Charles Cheung, com “Reenquadrar a China de Camilo Pessanha: recepção póstuma do Prefácio ao Esboço crítico da civilização chinesa em Portugal e na China”

Sara Augusto e Carlos Morais José, ambos online, orientarão conversas na manhã do segundo dia. A primeira com a dissertação “Confluências na poesia de Camilo Pessanha em Macau”, e o segundo com “a dor que deveras sente”. Durante o dia haverá também palestras de Diego Emanuel Giménez, Felipe Fusco, Paulo Franchetti, Danglei de Castro Pereira, Carla Datia, Maria do Céu Estibeira, Gustavo Rubim, Luís Quintais e António Apolinário Lourenço.

Os seminários integram-se nas actividades comemorativas promovidas pelo Centro de Literatura Portuguesa e pelo Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, com a colaboração da Pró-Associação 8 de Maio, a que se associam a Câmara Municipal de Coimbra, a UM e o Museu Machado de Castro. Participam também na iniciativa bibliotecas de localidades relacionadas com a vida e a obra de Pessanha (entre as quais as bibliotecas municipais de Coimbra, Tábua e Óbidos) e algumas escolas da região. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


terça-feira, 24 de março de 2026

Angola - Artistas exibem “100tenário de Camilo Pessanha” em exposição colectiva no Camões Centro Cultural Português

O Camões Centro Cultural Português, em parceria com o literArte, realiza hoje, a partir das 17h30, a inauguração da 14.ª Exposição colectiva “100tenário de Camilo Pessanha”, uma mostra que reúne uma selecção de 14 artistas, inspiradas em três poemas do poeta e escritor português Camilo Pessanha. Depois da abertura oficial, a mesma estará patente ao público até 15 de Abril do corrente ano


Inspirada nos poemas “Caminho”, “Vénus” e “Voz Débil que Passas”, trata-se não apenas de uma exposição de artes plásticas, mas de uma mostra que representa um encontro entre gerações, unindo uma nova geração de artistas angolanos a um dos maiores nomes da literatura portuguesa.

A exposição apresenta 28 obras, entre pintura, escultura, gravura e cerâmica, explorando diferentes correntes artísticas, como o surrealismo ou o realismo, entre outras abordagens contemporâneas.

Em declaração à imprensa, o assessor de cooperação-cultura do Camões-Centro Cultural Português, João Azeredo, disse que o grupo é composto por 14 artistas diferentes que vão colocar os seus trabalhos à disposição da comunidade, alguns com mais experiência na área e outros com menos tempo de carreira. Maria Custódia – Angola in “O País”


domingo, 1 de março de 2026

Canção da Partida









Canção da Partida

 

Ao meu coração um peso de ferro

Eu hei de prender na volta do mar.

Ao meu coração um peso de ferro... Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor não queira levar...

Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.

E hei de mercar um fecho de prata.

O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta...

_ A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves, _ a carta encantada!

E um lenço bordado... Esse hei de o levar,

Que é para o molhar na água salgada

No dia em que enfim deixar de chorar.

 

Camilo Pessanha – Portugal / Macau

In Clepsidra, (1920, Lisboa, Lusitânia Editora)

______________

Há alguns meses que o Blogue Baía da Lusofonia apresenta aos domingos um poeta e a sua poesia. Associamo-nos às diversas homenagens do centenário da morte de Camilo de Almeida Pessanha, que nasceu em Coimbra a 07 de setembro de 1867 e faleceu em Macau a 01 de março de 1926, há precisamente 100 anos, que estão a realizar-se nesta última cidade.

Uma das Entidades de Macau que vai assinalar o centenário da morte de Camilo Pessanha é o Instituto Português do Oriente (IPOR) que dinamizará um conjunto de atividades ao longo do ano de 2026.

A primeira será um Clube de Leitura onde se irá falar da vida e obra do autor que viveu em Macau. Acontece já no dia 3 de março de 2026, na Biblioteca do IPOR, batizada com o nome do escritor.

Esta é uma organização do IPOR, em parceria com o Clube de Leitura de Macau, o Festival Rota das Letras e que conta com o apoio do Camões, I.P.

 


 

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Macau - Trisneto gostaria que a cidade tivesse “feito mais” pelo poeta Camilo Pessanha

Dos descendentes de Camilo Pessanha estão apenas vivos os nove trisnetos, filhos da neta Ana Maria Jorge, falecida em 2018. O mais velho admitiu ao Jornal Tribuna de Macau conhecer pouco sobre o percurso do seu trisavô como poeta, apenas sabendo que “viajava muito” entre Macau e Portugal. Victor Jorge gostaria que “se tivesse feito mais no território para assinalar a carreira dele”. Sobre a aventada hipótese de trasladar os restos mortais para o Panteão Nacional, em Lisboa, confessa que “seria para mim uma honra, mas a minha mãe é muita supersticiosa e recusou o pedido”


Como o primogénito dos nove irmãos, todos trisnetos de Camilo Pessanha, Victor Jorge, de 76 anos, reconheceu ao Jornal Tribuna de Macau que não conhece muito sobre o percurso do trisavô como escritor. Apenas soube, pela boca da sua avó, Ana Maria Jorge, falecida em 2018, que o poeta “viajava muito” entre Macau e Portugal.

“O meu trisavô tinha uma neta (minha avó) e um neto que também tinha o mesmo nome do avô, ambos falecidos, e que eu saiba não há mais descendentes, apenas resta a minha família”, começou por referir.

Mesmo com a existência de alguns sinais da sua passagem pelo território, como por exemplo a estátua no Jardim das Artes e a rua com o seu nome, “Macau [as autoridades] devia ter feito mais sobre a carreira dele”, lamenta, ainda que se congratule com algumas iniciativas organizadas aquando da passagem dos 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha.

Lembra-se, no entanto, de algumas histórias que foi ouvindo na família, que o trisavô sempre sustentou a neta. “Depois da morte do poeta, houve disputa das heranças que ele deixou, uma vez que tinha muitas antiguidades, e a madrasta não quis dividir para a minha avó invocando que ela não fazia parte da família por não ser filha legítima de Camilo Pessanha”, contou.

O caso foi para tribunal, que “deu razão à minha avó, após ter lido uma carta escrita pelo pai dela que a identificava como filha”, recorda.

No próximo mês de Maio, completam-se 10 anos desde que, em Portugal, foi aventada a possibilidade de trasladação dos restos mortais de Camilo Pessanha para o Panteão Nacional, onde se encontram túmulos de outros nomes do panorama literário, como por exemplo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro e João de Deus. A oposição dos familiares de Camilo Pessanha, acompanhada pela também não concordância do Instituto Cultural, foi decisiva para que a Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto da Assembleia da República encerrasse o caso.

Victor Jorge comenta essa intenção de Portugal. “Isso seria para mim uma honra, mas a minha mãe é muito supersticiosa e recusou o pedido”.

Mesmo depois da morte de Ana Maria Jorge, os seus filhos querem respeitar a opinião da família. “Julgo que é difícil voltar atrás a propósito da trasladação dos restos mortais para Portugal, uma vez que os familiares não querem que se mexa no túmulo, por entenderem que ele escolheu ficar em Macau”, destacou.

Para marcar a efeméride da morte do poeta, a família não tem nada de especial programado. “No dia 1 de Março vamos fazer a limpeza e colocar flores na campa instalada no Cemitério de São Miguel Arcanjo”, adiantou, ressalvando que “fazemos isso anualmente, para além de pagarmos a um operário para tratar do jazigo”.

Lembra também que o filho do Camilo Pessanha tinha um afilhado que residia em Hong Kong e que foi ele que mandou fazer a lápide da sepultura com caracteres em cantonense. “Não sei se ainda está vivo, perdi o contacto dele”, esclareceu.


Victor Jorge, que acedeu prontamente a tirar uma fotografia junto à estátua do trisavô no Jardim das Artes, a qual integra ainda um pedestal com o cão do poeta, Arminho, confessou a este jornal que o interesse pela vida e obra de Camilo começou na sua juventude. “Quando eu era ainda jovem, um colega mostrou-me uma nota de 100 patacas com a gravura do poeta e perguntou-me quem era, mas na altura eu não sabia que era o meu trisavô. Depois disso, comecei a inteirar-me sobre a história dele”, afirma.

Questionado sobre documentos que possivelmente se encontrem na posse dos familiares, o trisneto disse ter apenas um livro que fala de Camilo Pessanha e da sua família. “Tem alguns poemas ilustrados e também um documento oficial que relata a identidade da minha avó como filha ilegítima, por os pais não terem sido casados”, revela.

O poeta, recorde-se, era também filho ilegítimo de Francisco António de Almeida Pessanha, um aristocrata estudante de Direito e de Maria Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua empregada.Tirou o curso de direito em Coimbra, foi procurador régio em Mirandela (1892), advogado em Óbidos, em 1894, e depois de se mudar para Macau foi, durante três anos professor de Filosofia Elementar no Liceu.

Entre 1894 e 1915, voltou a Portugal algumas vezes, para tratamentos de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a Fernando Pessoa, que era, como Mário de Sá-Carneiro, apreciador da sua poesia.

Morreu devido ao uso excessivo de ópio e a tuberculose pulmonar. Nos relatos sobre a sua morte, extraídos do livro Camilo Pessanha de António Dias Miguel, é referido que na manhã de 1 de Março de 1926 “falece Camilo Pessanha, depois de prolongado sofrimento”. O funeral realizou-se no dia seguinte, a meio da tarde.

O seu enterro, “singelo e civil”, foi muito concorrido. Transportado, a seu pedido, num armão militar, coberto pela bandeira nacional, o poeta foi conduzido por sargentos, cabos e soldados e ladeado pelos estudantes do Liceu e outras escolas.

No cemitério, a oração fúnebre foi pronunciada pelo reitor Borges Delgado, com estas palavras: “Espírito altamente filosófico e amplamente liberal, alma aberta a todas as dores e infortúnios, encarava a vida desprendidamente, sem os preconceitos vãos que por aí pululam, a contaminar tudo e todos”.

Os jornais de Lisboa deram grande relevo à morte de Camilo Pessanha. Em 1949, a Câmara Municipal da capital portuguesa homenageou o escritor dando o nome dele a uma rua junto à Avenida da Igreja, em Alvalade.

Estátua terá nova placa informativa

A escultura em bronze, de corpo inteiro, do poeta Camilo Pessanha, acompanhada pelo seu cão Arminho, no Jardim das Artes, vai ser alvo de colocação de uma placa informativa, uma vez que a “concepção original é de difícil leitura”, segundo referiu o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM). Em resposta ao Jornal Tribuna de Macau, o organismo indicou que a escultura, da autoria do arquitecto Carlos Marreiros, foi erguida no local há mais de 10 anos, e na coluna de pedra atrás da mesma, encontra-se gravado o texto de apresentação do poeta. “Com vista a melhorar a situação, inicia-se, nesta fase, a recolha das respectivas informações”, complementou o IAM. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau” 





quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Macau - Um século depois da sua morte, Camilo Pessanha é homenageado

O centenário da morte de Camilo Pessanha vai ser assinalado com dois eventos no início de Março, que pretendem resgatar a memória e o legado de um dos maiores poetas da língua portuguesa. As celebrações começam no dia exacto em que se completam cem anos desde o seu desaparecimento, no domingo, com uma mesa-redonda na Casa Garden. No dia 3, é a vez de o IPOR receber uma discussão sobre as várias dimensões de um homem que, mais do que poeta, foi professor, jurista e até tradutor de chinês-português. Faleceu em Macau a 1 de Março de 1926


Camilo Pessanha é um poeta tão grande que Macau inteiro não chega para seu túmulo, disse Eugénio de Andrade. Não basta, portanto, que o centenário do seu falecimento seja assinalado uma única vez. A vida e a obra do poeta – um dos vultos de maior dimensão na literatura de língua portuguesa – serão homenageadas ao longo do corrente ano de 2026, começando com duas sessões no início de Março.

A primeira mesa-redonda está agendada para domingo, dia 1, quando terá decorrido exactamente um século desde o desaparecimento de Pessanha. O painel de convidados vai reunir-se na Casa Garden, pelas 16h, para uma conversa distribuída por seis oradores e moderada por Sérgio Sousa, professor catedrático no Departamento de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Macau (UM).

Os nomes convidados para esta sessão são o poeta, professor e ensaísta António Carlos Cortez, os escritores e jornalistas Carlos Morais José e Christopher Chu, os professores da UM Diego Giménez, Maggie Hoi e Yao Feng e o arquitecto Carlos Marreiros. Importa sublinhar que todos estes oradores possuem um conhecimento aprofundado da obra de Camilo Pessanha, sendo responsáveis por ensaios, recensões críticas, documentários cinematográficos (no caso de Carlos Morais José) e até traduções oficiais do seu único livro de poemas, “Clepsidra” (no caso de Yao Feng).

O evento tem como título “Ir assim, a bordo de um navio, sem destino”, em alusão às palavras que Camilo Pessanha dirigiu ao amigo Carlos Amaro numa carta escrita em 1909, embalado pelas ondas que o levavam de regresso a Macau. É um reflexo da identidade muito própria do poeta e do homem, ambos eternamente seduzidos pela ideia do vaguear sem rumo (e da ameaça constante do naufrágio libertador), e também uma reflexão directa sobre o caminho desbravado entre Lisboa e Macau.

A relação com o território asiático é densa, complexa e ambígua, revista em tempos contemporâneos como cravada de orientalismos e preconceitos. Chegar a Macau não era avistar um farol depois de uma temporada em alto-mar: era regressar ao “chão antipático do exílio”, como lhe chamou. Num texto escrito em 1924 para o jornal A Pátria, extinto dois anos depois, a descrição geral que Pessanha fazia sobre os poetas expatriados parecia conter um carácter auto-biográfico. “Os poucos [poetas] que vagueiam e se definham por longínquas regiões, se acaso escreverem um verso, é sempre para cantar a pátria ausente”.

Diz-se que o poeta se exilou voluntariamente em Macau após um desgosto amoroso, quando Ana de Castro Osório recusou o seu pedido de casamento. Sugere-o o poema “Canção da Partida”, em que o poeta alude ao noivado da escritora e activista com Paulino de Oliveira, também homem de letras. Um ano depois, cruzava os oceanos rumo a Macau.

Homem de várias facetas

A versão trágico-romântica da história insiste no coração partido, mas a verdade é que a partida para Macau surgiu também amparada pela necessidade de encontrar oportunidades profissionais. É assim que vai parar ao recém-criado Liceu de Macau, onde leccionou diferentes disciplinas: Filosofia, Língua Portuguesa, História, Geografia, Economia Política, Direito Comercial e História da China.

A mundividência de Camilo Pessanha reflectiu-se também nos diferentes ofícios que ocupou até à data da morte. Para além de docente, foi conservador, advogado, juiz, auditor e, à excepção da última década de vida, sempre poeta – talvez a mais desconhecida das suas ocupações para a população local, que o interpretava como excêntrico e de aparência peculiar (percepção exacerbada pelo vício de ópio).

O escritor e investigador Danilo Barreiros, que chegou a ser contemporâneo do poeta, descreveu-o do seguinte modo na obra “O Testamento de Camilo Pessanha”: “Magro esquálido, a barba hirsuta, o cabelo colado à testa, seminu sobre o leito, aspirando voluptuosamente o longo cachimbo sobre a chama amarelada da lâmpada de cristal, que lhe projetava a sombra desfigurada nas paredes obscurecidas, tendo no semblante a expressão hipnótica dos opiómanos”.

O reconhecimento literário foi póstumo e possível graças aos esforços de Ana de Castro Osório, com quem manteve uma estreita amizade apesar do romance gorado. “Clepsidra” – obra única no repertório de Camilo Pessanha, obra máxima na literatura portuguesa – reúne as composições que o poeta criava ao longo da sua vida e mantinha vivas apenas na sua memória, sem as passar para papel. Em edições posteriores, a obra viria a ser ampliada com poemas entretanto descobertos.

O evento de 3 de Março no IPOR – Instituto Português do Oriente, marcado para as 18h30, vem pôr em foco as várias facetas do poeta. O médico e escritor Shee Vá, responsável pela moderação, conta ao Ponto Final que a escolha de cada um dos três oradores convidados foi intencional.

José Basto da Silva, membro do conselho de administração da Fundação da Escola Portuguesa, vai debruçar-se sobre a actividade professoral do poeta, enquanto Frederico Rato, advogado e notário de Macau, vai explorar o seu percurso como advogado e jurista. Por fim, António Carlos Cortez – que também estará presente na sessão de dia 1 na Casa Garden – vai focar-se no domínio da poesia.

“Vou dar-lhe dois temas para desenvolver”, conta Shee Vá. “O primeiro, para saber se Camilo teria tantas saudades de Portugal como se diz habitualmente. E se isto se reflectiu ou não na sua poesia, porque, como sabemos, a maior parte da sua obra foi escrita antes de vir para Macau – e em Macau corrigiu, corrigiu, corrigiu”.

Uma segunda área de discussão incide sobre os contactos que mantinha com Portugal. “Camilo manteve correspondência com os jornais e as revistas portugueses, que eram lá publicados. Também mandava muitas crónicas. Portanto, vamos também questionar se a faceta de prosador se reflectia nos seus poemas”.

Depois da intervenção do trio de oradores, haverá espaço para um “clube de leitura” em que serão declamados poemas, alguns deles já mencionados no decorrer da conversa. “Aliás, a introdução que vou fazer em relação à vida de Camilo até vir para Macau já vai introduzindo alguma da obra poética”, explica Shee Vá. E desvenda ainda alguns dos outros temas que poderão ser mencionados ao longo da conversa: a faceta de Camilo Pessanha enquanto coleccionador (“foram enviadas muitas obras de arte para Portugal, e seria interessante saber se têm ou não muito valor”) e os seus anos tardios, marcados pelo vício de ópio e uma degradação lenta que culminou na sua morte aos 58 anos.

Recuperar um legado empoeirado

Nas últimas décadas de vida, Pessanha fez viagens sucessivas a Portugal para tratamentos médicos, onde conheceu – e influenciou directamente – os membros da geração da revista “Orpheu”. Regressou sempre a Macau. Macau, esse território que descreveu em 1916, numa carta endereçada a Ana de Castro Osório, como um “meio acanhadíssimo – mexeriqueiro e boçal – a todos os respeitos misérrimo”.

Mas Pessanha era um homem de contradições e paradoxos, e centrarmo-nos nas suas (sucessivas) críticas ao território seria ignorar o respeito que demonstrou sentir pela cultura local. Aprendeu cantonês, leu poesia chinesa, coleccionou antiguidades. Dedicou-se também a um importante trabalho de tradução que incluiu as “Oito Elegias Chinesas” da dinastia Ming, conferindo-lhes visibilidade e relevância no mundo lusófono.

A sua visão de Macau parecia, acima de tudo, enevoada pelo saudosismo umbilical de uma pátria à distância de meio mundo. Descrevia-o assim o poeta, no seu ensaio sobre a gruta de Camões: “Em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal menos frequentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas (…) e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa”.

Hoje, Camilo Pessanha faz parte dessa mesma portugalidade de Macau. A sua imagem está inscrita num mural no jardim do Consulado de Portugal, assinado pelo artista Vhils, ou na estátua que o representa apoiado na bengala, no Jardim das Artes. De resto, num território em que apenas 2,3% da população diz ser fluente em português, os seus versos circulam entre um grupo restrito de apreciadores de poesia. Macau inteiro não chega para túmulo de Pessanha, dizia Eugénio de Andrade, mas o seu legado vai sendo empoeirado pelos anos – que formam agora um século. A sua campa singela passa despercebida a quem passeia, desatento ou com outros destinos, no Cemitério de São Miguel Arcanjo.

As iniciativas marcadas para este ano ajudam a recuperar a memória de um poeta irrepetível, que elevou o Simbolismo em Portugal à sua máxima expressão. Para além das duas sessões já mencionadas, o IPOR pretende organizar uma série de actividades relacionadas com o poeta ao longo de todo o ano de 2026.

Em declarações ao Ponto Final, Patrícia Quaresma confirma que os futuros eventos “estão planeados, mas ainda não confirmados, portanto não podemos falar muito sobre eles”. Adianta, porém, que o IPOR está “a tentar estudar a possibilidade de trazer uma exposição bibliográfica, em conjunto com o Instituto Camões”, assim como a realização de “outras actividades sobre o poeta, ou na biblioteca [pertinentemente chamada de Biblioteca Camilo Pessanha] ou no Café Oriente”. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Macau - Dupla de autores está a preparar livro sobre vida de Camilo Pessanha

A obra, ainda sem data de lançamento marcada, procurará, acima de tudo, partilhar a história de vida do poeta português com um público que não fale português. Christopher Chu, um dos autores, explicou ainda ao Ponto Final que o livro dedicado ao expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa deverá seguir uma fórmula semelhante à do primeiro livro editado pela dupla, intitulado “Macau’s Historical Witnesses”, recentemente editado


Depois de “Macau’s Historical Witnesses”, a dupla Christopher Chu e Maggie Hoi está já a preparar o seu próximo livro que versará sobre a vida do poeta português Camilo Pessanha em Macau.

Numa breve conversa com o Ponto Final, Christopher Chu revelou que, juntamente com a colega, estão a trabalhar numa publicação que seguirá uma fórmula semelhante à do primeiro livro, que é contar histórias com envolvimento. “Estamos também a trabalhar num segundo livro que se debruça sobre a vida de Camilo Pessanha em Macau seguindo uma fórmula semelhante à do primeiro livro”, confidenciou, enquanto explicava os planos que tinham para a promoção de “Macau’s Historical Witnesses”.

Chu contou ao nosso jornal que a ideia de escrever sobre o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa começou numa conversa que teve no restaurante Albergue 1601, no bairro de São Lázaro, onde existe uma sala dedicada ao poeta. “Foi-me proposto que fizesse um pouco de pesquisa sobre Pessanha e a sua vida. Como já estávamos a escrever o primeiro livro, acabámos por encontrar um tema muito interessante. Na verdade, quando aconteceu o surto no ano passado, tive mais tempo em mãos e encontrei uma boa história”, referiu o autor.

Portanto, o novo livro sobre Camilo Pessanha procurará focar-se, essencialmente, na vida do poeta português em Macau, no método que os autores fizeram com o primeiro livro. “De certa forma, Camilo torna-se na nossa próxima testemunha histórica de Macau. Enquanto o primeiro livro se concentra no tangível, o próximo concentrar-se-á nos intangíveis”, explicou Christopher Chu, revelando ainda que o livro será escrito em inglês, principalmente para “partilhar a história de Pessanha com um público que não fale português”.

Nascido em Coimbra em 1867, Camilo Pessanha, que durante algum tempo ficou desconhecido da grande maioria das pessoas, foi um poeta que hoje é considerado o representante mais genuíno do simbolismo português, uma corrente literária que teve impacto da literatura no final do século XIX, início do século XX. O português, que veio viver para Macau em 1894, onde chega a 10 de Abril, escreveu Clepsidra, livro que acabou por ser publicado em 1920 graças aos esforços de Ana e João de Castro Osório, amigos do poeta. É o único livro do autor conimbricense publicado até hoje, ele que morreu a 1 de Março de 1926, em Macau, diz-se devido ao uso excessivo de ópio e a uma tuberculose. Está sepultado no Cemitério São Miguel de Arcanjo.

A poesia simbolista possui objectivos metafísicos e busca a utilização da linguagem literária como instrumento de desenvolvimento cognitivo, encontrando-se entre o mistério e o misticismo. Em Portugal, para além de Pessanha também se destacam os nomes de Eugénio de Castro, António Nobre ou Augusto Gil.

O movimento simbolista – que nasceu na França – durou aproximadamente até 1915, altura em que se iniciou o modernismo, corrente de onde nasceram poetas que, mais tarde, constituíram a chamada geração Orfeu e de onde se destacam nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro ou Almada Negreiros. Gonçalo Pinheiro -Macau in “Ponto Final”


sábado, 17 de setembro de 2022

Macau - Camões e Pessanha em destaque na Casa da Literatura


A Casa da Literatura de Macau foi inaugurada hoje e abrirá ao público amanhã, apresentando obras e manuscritos originais de vários escritores influentes e poetas chineses e portugueses, anunciou o Instituto Cultural (IC). Tang Xianzu, Wu Li, Luís Vaz de Camões e Camilo Pessanha, escritores, associações literárias e revistas literárias de diferentes períodos estarão em destaque na sala de exposições permanente da Casa da Literatura, espaço que se situa na Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, n.º 95A-B (entre a Galeria Tap Seac e a Academia Jao Tsung-I),

“O Pavilhão das Peónias”, maior obra do dramaturgo Tang Xianzu (1550-1616), conhecido como o Shakespeare chinês, inclui uma cena inspirada em Macau, enquanto o poeta e pintor Wu Li (1632-1718) tornou-se um dos primeiros padres jesuítas chineses, após estudar no Colégio de São Paulo, em Macau. Segundo inúmeros historiadores, Luís Vaz de Camões (1524-1580) terá passado por Macau e escrito na cidade parte da sua obra “Os Lusíadas”. Já o expoente do “simbolismo” Camilo Pessanha (1867-1926) viveu quase 30 anos em Macau, onde veio a falecer.

“O ‘Painel com capas de livros’, patente na sala, constitui uma representação global da constante evolução da literatura local passando pelo seu passado, presente e futuro, permitindo ao público descobrir e sentir o património literário da cidade”, sublinhou o IC.

A sala de leitura disponibilizará uma variedade de obras, publicações periódicas e livros infantis, bem como jogos multimédia e dispositivos interactivos destinados a fazer da aprendizagem uma experiência divertida. O segundo piso integra duas salas polivalentes, numa das quais estará patente uma exposição sobre a “Colecção Casa da Literatura de Macau”.

As salas polivalentes serão posteriormente disponibilizadas, por marcação prévia, a todos os interessados em organizar pequenas exposições, palestras, exibição de filmes e outras actividades culturais.

De acordo com o IC, a Casa da Literatura tem como objectivo “divulgar a produção literária local e construir uma plataforma de permuta na área da escrita através de um variado leque de exposições e eventos, promovendo assim o espírito criativo da literatura e impulsionando um desenvolvimento cultural inovador”.

A moradia que agora acolhe a Casa da Literatura foi construída nos anos 20 do século passado, servindo inicialmente como residência de funcionários públicos. O edifício de dois pisos, que apresenta características típicas de estilo português, integra actualmente a lista dos bens imóveis classificados de Macau. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Portugal - Morreu Pedro Barreiros, grande divulgador da cultura macaense

Filho do macaense Leopoldo Danilo Barreiros, divulgador de Camilo Pessanha e de Wenceslau de Moraes e presidente da Associação Wenceslau de Moraes, Pedro Barreiros faleceu este domingo vítima de doença prolongada. Quem com ele privou, descreve-o como um médico humanista e um importante divulgador da cultura macaense. Deixa por publicar uma autobiografia

Morreu este domingo, vítima de doença prolongada, Pedro Barreiros, médico e um grande divulgador da cultura macaense, com uma enorme dedicação à divulgação dos escritos de poetas e escritores como Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes, bem como da memória do seu avô, José Vicente Jorge. Pedro Barreiros era filho do macaense Leopoldo Danilo Barreiros.

Nascido em Macau em 1943, Pedro Barreiros formou-se em medicina em Lisboa, tendo ingressado no quadro de Oficiais Médicos da Força Aérea Portuguesa em 1968. Em 1997 foi promovido a Major General Médico e Director de Saúde da Força Aérea. Foi também professor de patologia entre 1982 e 2013, não apenas na Força Aérea, mas em várias universidades portuguesas.

No entanto, a área das artes e cultura esteve sempre presente na sua vida. Pedro Barreiros, que foi também um dos convidados numa edição do festival literário Rota das Letras, esteve sempre ligado à pintura, que aprendeu ainda em criança com um mestre chinês. Em Macau, chegou a fazer algumas exposições individuais, entre os anos de 1990 e 2002. Em 2006, foi distinguido com a Ordem do Infante D. Henrique.

Um comunicado da Associação Wenceslau de Moraes, à qual presidia, descreve-o como um “médico de aldeia e cidade, militar e civil, de guerra e de paz” que “a todos tratava com a devida atenção de quem sabe que a medicina é, antes de mais, uma ciência humana”.

No entanto, Pedro Barreiros era “acima de tudo pintor”, e também “macaense, de alma, corpo e coração, filho de macaenses e de Macau”.

Casado com Graça Pacheco Jorge, e ambos netos de José Vicente Jorge, Pedro Barreiros esteve ainda envolvido, juntamente com a sua esposa, na produção da fotobiografia “José Vicente Jorge – Um macaense ilustre”, editado pelo Albergue SCM.

Tendo sido comissário das comemorações dos 150 anos do nascimento de Wenceslau de Moraes, foi nessa qualidade que Pedro Barreiros foi entrevistado, em 2005, pela RTP. Nessa conversa, desvendou um pouco do fascínio que sentia pelo percurso do escritor.

“Wenceslau de Moraes foi uma das minhas paixões desde a juventude e o meu pai foi um dos biógrafos dele. Não apenas pelo seu aspecto literário, mas pela divulgação que me deu do Japão. Tinha também uma grande dimensão humana e disse, muito precocemente, que o ser humano amarelo era igual aos outros”, afirmou.

Pedro Barreiros recordou a amizade íntima que uniu Camilo Pessanha a Wenceslau de Moraes e o facto de Pessanha ter sido “visita habitual da casa” do seu avô, Vicente Jorge.

“Uma das minhas tias foi a primeira menina de Macau a ir estudar para Lisboa com uma bolsa paga pelo Camilo Pessanha e eles traduziram as oito elegias chinesas, oito poemas Ming descobertos por Camilo Pessanha numa caixa que ele teria comprado num antiquário”, exemplificou, numa outra entrevista concedida à RTP, desta vez em 2007.

Ligado a Macau

Ana Paula Laborinho, ex-presidente do Instituto Camões, e que trabalhou com Pedro Barreiros nas comemorações dos 150 anos do nascimento de Wenceslau de Moraes, recordou ao HM alguém “que primava pela solidariedade e pela atenção aos outros”.

“Nunca deixou de querer visitar Macau e sempre se sentiu muito ligado a essa terra onde viveu muitos anos. Tinha uma relação muito especial com a comunidade macaense.”

Tido como um “médico de excepção”, Pedro Barreiros “continuou a pintar e a desenhar, até aos últimos dias, porque essa relação com as telas e a sua paleta lhe trazia serenidade”.

Ana Paula Laborinho destaca, neste aspecto, que “muitos dos trabalhos de pintura [de Pedro Barreiros] se fizeram em torno de poetas, quer chineses, como Li Bai, quer portugueses, como Camilo Pessanha”. “A relação entre a pintura e a escrita sempre esteve muito presente no seu percurso, feito de reflexão sobre a vida e as artes”, frisou.

Ainda sobre o trabalho desenvolvido em torno da vida e obra de Wenceslau de Moraes, a actual directora em Portugal da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura, lembrou que Pedro Barreiros “deu um impulso extraordinário para que conhecêssemos melhor Wenceslau de Moraes, que estava muito esquecido, e classificado praticamente como um escritor menor”.

“Ele e a mulher tinham uma relação muito grande com uma figura [José Vicente Jorge] que teve contactos privilegiados com Camilo Pessanha. Têm um espólio notável que nos permite um conhecimento especial de Camilo Pessanha. Ele não deixou de trabalhar, de fazer exposições e de promover a obra deste poeta, dando um novo enfoque e permitindo que algumas ideias sobre Pessanha tenham sido alteradas.”

Ana Paula Laborinho revelou ainda que Pedro Barreiros deixa por publicar uma auto-biografia, esperando que a família e amigos possam, a título póstumo, editar esse livro. “Estou certa que a comunidade de Macau se juntará a essa vontade.”

Carlos Piteira, antropólogo macaense, recorda uma personalidade que fez “um trabalho essencial na divulgação dos princípios do que é a comunidade macaense, a sua identidade, e a própria singularidade de Macau”.

“Pedro Barreiros é mais uma pessoa que perdemos e que nos faz falta para continuarmos a marcar a presença portuguesa e dos macaenses em Macau. Espero que as pessoas de Macau e em Portugal o recordem sempre como alguém que entregou parte da sua vida aos outros, essencialmente [em relação] ao que é a identidade macaense”, frisou ao HM.

Perda de um amigo

Mário Matos dos Santos, da direcção da Fundação Casa de Macau, em Lisboa, conta que perdeu “um grande amigo e promotor da cultura macaense”, mas também da cultura em geral.

“Ele era um homem muito culto em todos os sentidos, muito equilibrado na sua visão da medicina. Fazia uma medicina quase social, porque era um excelente médico e muito humano. Tinha um consultório em Lisboa e outro ao pé de Mafra, onde também tinha uma biblioteca que punha à disposição dos doentes e dos visitantes, o que é notável do ponto de vista da divulgação cultural.”

Pedro Barreiros tinha, sobretudo, “a humanidade de fazer medicina com preços acessíveis a muita gente, porque achava que era um veículo de apoio às pessoas”.

Para Mário Matos dos Santos, o filho de Leopoldo Danilo Barreiros “transmitia com muita força as suas ideias e a visão da cultura macaense”. “Sabia respeitar o que tinham sido as suas raízes e dedicou muita da sua vida a continuar a obra do pai na recolha de testemunhos da cultura macaense, particularmente sobre Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes”, adiantou.

Coração grande

Também o arquitecto Carlos Marreiros diz ter perdido um amigo. Mas, na sua visão, Macau “ficou mais pobre e perdeu um filho ilustre”. “Ele era militar de carreira e médico, tendo-se dedicado muito à sociocultura de Macau e principalmente à investigação e divulgação de dois escritores da sua protecção, Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha”, acrescentou.

Carlos Marreiros lembrou “o coração muito grande” de Pedro Barreiros, que “lutou com todas as forças contra a doença”.

Em comunicado, a Casa de Macau em Lisboa também reagiu ao falecimento de Pedro Barreiros, recordando “um ser humano excepcional que dedicou toda a sua vida a outros como médico e homem multifacetado, que muito contribuiu para a divulgação e preservação da cultura macaense, quer através da arte, quer de outras formas expressivas”.

As cerimónias fúnebres de Pedro Barreiros aconteceram no domingo, ao final do dia, com uma missa de corpo presente igreja da Força Aérea Portuguesa, sita junto do Palácio dos Marqueses de Fronteira – Pupilos do Exército. Ontem, decorreu a cerimónia de cremação no cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau"
 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Macau - Clepsydra: Uma herança com 100 anos que “coloca Macau no mapa da literatura lusófona”

Para assinalar o centenário de Clepsydra, foram ontem lançados em Macau dois livros sobre a obra de Camilo Pessanha. “Clepsydra 1920-2020 – Estudos e Revisões” agrega uma série de artigos académicos de uma dezena de autores, e “Ladrão de Tempo” é da autoria de Carlos Morais José, que reúne textos sobre Pessanha publicados nas últimas três décadas



“E eis quanto resta do idílio acabado

Primavera que durou um momento

Como vão longe as manhãs do convento

do alegre conventinho abandonado”

Foi com este excerto de Clepsydra que Carlos Morais José apresentou ontem, na Casa de Portugal, os dois livros editados pela COD que assinalam o centenário da obra de Camilo Pessanha. “Ladrão de Tempo” junta os textos de Morais José sobre a obra do poeta que morreu em Macau em 1926, enquanto “Clepsydra 1920-2020 – Estudos e Revisões” agrega publicações académicas de uma dezena de autores acerca do livro.

“Tudo isto se enquadra no século da Clepsydra. Faz este ano, 2020, 100 anos desde que foi publicado o livro Clepsydra de Camilo Pessanha. Nós estamos a celebrar estes 100 anos”, lembrou Carlos Morais José ao Ponto Final, ainda antes da apresentação das publicações.

“Clepsydra 1920-2020 – Estudos e Revisões” é um livro editado em Macau pela COD e que tem Catarina Nunes de Almeida, académica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, como coordenadora. Além de Catarina Nunes de Almeida e de Carlos Morais José, há ainda outros oito autores: Daniel Pires, Duarte Drumond Braga, Fernando Cabral Martins, Paulo Franchetti, Pedro Eiras, Ricardo Marques, Rogério Miguel Puga e Serena Cacchioli.

Esta é uma colecção de artigos académicos “sobre a literatura do Pessanha e sobre a importância dessa literatura no contexto da lusofonia e não só”, explicou Morais José. Apesar de a ideia do livro ter nascido em Portugal no início do ano, só em Novembro é que a COD acordou a publicação de “Clepsydra 1920-2020 – Estudos e Revisões”  em Macau.


Na apresentação do livro, na Casa de Portugal, o autor falou sobre a importância “fundamental” que Clepsydra teve para Macau. “Clepsydra coloca Macau no mapa da literatura lusófona. Macau será para sempre lembrada como um espaço onde floresceu a literatura portuguesa por Pessanha”, afirmou Morais José.

Também esteve presente na sessão de ontem, através de videochamada, Catarina Nunes de Almeida, que destacou Clepsydra como “uma das obras máximas da poesia portuguesa”. Duarte Drumond Braga também esteve presente directamente a partir de Portugal, tendo frisado que, nos 30 anos em que Pessanha viveu em Macau, o poeta “foi um activo representante de Portugal”. “A sua escrita deve ser vista como parte da produção cultural portuguesa na China”, acrescentou.

“Ladrão de Tempo” foi o outro livro sobre Pessanha lançado ontem na Casa de Portugal. “É uma colecção de coisas que eu fui escrevendo ao longo do tempo sobre o Camilo Pessanha e que agora resolvi publicar”, adiantou Carlos Morais José. De “Ladrão de Tempo” fazem parte artigos publicados desde a década de 1990 até agora em diversos sítios, como a Revista de Cultura do Instituto Cultural (IC), o jornal Hoje Macau, e há também textos publicados no Brasil e em Portugal.

Os textos são de diferentes naturezas. “Um deles foi um texto que eu li nos 80 anos da morte do Camilo Pessanha junto à campa”, indicou. O livro já estava preparado para ser lançado por ocasião dos 100 anos de Clepsydra e “é o encerrar de uma série de trabalhos que fiz sobre Camilo Pessanha”, explicou. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”