Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 8 de março de 2024

Macau - Livro de Pedro D’Alte aborda representação feminina nas literaturas a Oriente

“Imagótipos femininos nas literaturas em português a Oriente”, da autoria de Pedro d’Alte, que tem investigado a representação da autoria feminina nas literaturas em português neste lado do mundo, mais concretamente em Macau e Timor, é o título do livro que vai ser lançado hoje, Dia Internacional da Mulher, pela Casa de Portugal. O autor disse à Tribuna de Macau que o seu “primeiro deslumbramento” foi perceber que há “um corpus textual bastante rico e original e que merece maior estudo”. Nesta investigação, analisou autores como Henrique de Senna Fernandes, Luís Cardoso, Deolinda da Conceição, Agustina Bessa-Luís ou Maria Ondina Braga


Pedro d’Alte, natural do Porto, tem vindo a estudar e a promover o tema da representação e da autoria feminina nas literaturas em português a Oriente – do seu trabalho resulta agora um livro intitulado “Imagótipos femininos nas literaturas em português a Oriente”. Vai ser lançado pela Casa de Portugal esta sexta-feira, Dia Internacional da Mulher, cabendo a apresentação da obra a Ana Paula Dias. Enquanto trabalhava os temas, Pedro d’Alte percebeu que poderia fazer sentido aglomerar tudo numa obra, ideia que foi bem recebida. Em entrevista ao Jornal Tribuna de Macau, o autor defende a expansão do universo de estudantes que reflecte sobre a literatura e a cultura de Macau.

Foi em 2022 que Pedro d’Alte apresentou à Universidade Aberta um projecto de pós-doutoramento que propunha aproximar a produção romanesca de dois autores: Henrique de Senna Fernandes e de Luís Cardoso, um dos mais importantes escritores timorenses. “À época, era impossível prever se existiria material suficiente para a produção de um livro, nem essa constituía uma preocupação central. Porém, em meados de 2023, percebi que poderia ser interessante aglutinar a produção intelectual sobre a representação feminina a Oriente num livro único”, contou. “Felizmente”, disse, a iniciativa foi bem recebida pela Casa de Portugal e pelo Fundo de Desenvolvimento da Cultura, que subsidiou a edição do livro.

Segundo disse, do ponto de vista editorial, “resultou um livro bastante apelativo”, além de que, academicamente poderá também “constituir um importante contributo” para a área de estudos, que, “curiosamente, continua periférica”. Pedro d’Alte tem vindo a leccionar em diferentes latitudes: Timor, Angola, Portugal e Macau. Colabora, em Macau, com a Escola Portuguesa e com a Universidade Politécnica.

Com percurso académico em Portugal, estudou obras e autores canónicos, recordou, dizendo que, à época, não existia um trabalho efectivo com autores periféricos. “Neste sentido, a leitura de autores de outras latitudes foi, por si, um percurso de descoberta. À boleia destas escritas, vamos percebendo diferentes figuras femininas, seus espaços de acção e as assimetrias de género; os pulsares e as clivagens étnicas e religiosas; a constituição de elites minoritárias ou a cosmovisão da época. Tanto Macau como Timor foram sociedades que criaram diferentes estruturas e níveis de influência. A mulher não escapou a tais sinergias”, observou.

Autores locais e não locais

Para esta investigação, o académico tentou fazer uma selecção de autores que “favorecessem a figura feminina na narrativa e, também autoras”. Foram, assim, analisados escritores como Henrique de Senna Fernandes, Rodrigo Leal de Carvalho, Luís Cardoso, Deolinda da Conceição, Miguel Real, Agustina Bessa-Luís ou Maria Ondina Braga.

Olhando para a literatura de Macau no seu sentido mais amplo, englobando autores de diferentes nacionalidades que escrevem sobre o território, “percebe-se uma qualidade que passa despercebida, sobretudo, a um público mais jovem porque são edições mais antigas e que não foram reeditadas”. “Quantos de nós conhecemos os escritos de Eugénio de Andrade sobre Macau? Quantos folhearam ‘Estátua de Sal’ de Ondina Braga ou ‘A quinta-essência’ de Agustina Bessa-Luís?”, questionou.

“O meu primeiro deslumbramento foi, precisamente, o do acesso, a tomada de consciência de que existe um corpus textual bastante rico e original e que merece maior estudo. O segundo aspecto relaciona-se com o conhecimento que se foi formando sobre estas literaturas e o modo claro como estes textos possibilitam um estudo relevante sobre imagótipos, sobre representações que radicam em fenómenos como a identidade, a cultura ou o género. Há, ainda, a questão de autores locais que não recebem atenção noutras latitudes, apesar da qualidade estética. O descobrimento destes autores foi tão impactante que tenho dedicado alguns anos ao seu estudo”, contou Pedro d’Alte.

No que respeita à parte de Timor, o autor aborda essencialmente a obra escrita de Luís Cardoso. “Outras formas literárias como a oral e a tradicional não são tão visíveis”, aponta, acrescentando que, “em todo o caso, percebe-se que Luís Cardoso propõe alternativas ao papel tradicional reservado à mulher que tende a ocupar ‘a linha da retaguarda’”. Pedro d’Alte exemplifica: “Narradoras como a sandália esquerda, Carolina e Catarina tendem a romper com os discursos patriarcais e a revelar-se mais autónomas em relação à figura do homem. O caso mais paradigmático é a voz presente n’O plantador de abóboras. Uma narradora feminina, destituída de nome próprio, e que é incumbida de contar a História do país, sem ocultar o drama feminino, num claro revisionismo histórico”.

Assegurar a evolução “positiva” da literatura

A este jornal, Pedro d’Alte sublinhou que “existem obras interessantes no panorama literário de Macau”, mas é preciso trabalhar para que tenham a sua visibilidade e apostar na sua continuidade. “A jusante, o que é necessário assegurar é a evolução positiva da literatura de Macau, tanto através da formação de leitores e de mediadores, como de produtores de literatura em variadas línguas”, defendeu.

Para isso, continuou, poderia recorrer-se a “bolsas de criação literária”, a “residências artísticas”, à “ampliação do mercado editorial traduzido a diferentes idiomas”, “à divulgação mais fluída das obras”, à “reedição de obras e de filmes” e à “promoção de sessões literárias e/ou oficinas de escrita”.

“A montante, é necessário ampliar o universo de alunos que estuda a literatura e a cultura de Macau de modo a ampliar o volume de estudos. É de crer que estes estudos se alinhem com os interesses investigativos actuais que privilegiam mudanças sociais, sobretudo no que é atinente às assimetrias de género”, considerou.

Com o patrocínio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura, os primeiros 100 exemplares do livro serão oferecidos na cerimónia de lançamento, na Casa de Vidro. Uma outra edição, a acontecer, seguirá os circuitos tradicionais do comércio livreiro em Macau, indicou Pedro d’Alte. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


terça-feira, 21 de novembro de 2023

Macau - Palestra sobre adaptação para cinema e teatro de obras de Senna Fernandes na Fundação Rui Cunha

“O que é melhor, o filme, ou o livro?”. Esta e outras questões associadas à adaptação de textos literários para cinema ou outras expressões como o teatro vão estar em debate na Fundação Rui Cunha, numa palestra da Associação dos Amigos do Livro em Macau que conta com Shee Va, Miguel de Senna Fernandes, e dois actores chineses que participaram naquela que foi a primeira adaptação para teatro inspirada em contos do autor macaense


Shee Va, médico gastroenterologista e escritor, revelou ao Ponto Final detalhes do debate a decorrer hoje, às 18h30, na Fundação Rui Cunha que, antes de mais, é “uma homenagem que a Associação dos Amigos do Livro em Macau quer prestar a Henrique de Senna Fernandes na comemoração do centenário do seu aniversário”.

Intitulada “A Arte para Além da Escrita: Adaptar Henrique de Senna Fernandes”, a sessão conta com Shee Va, Miguel de Senna Fernandes, e ainda os actores Chau Wai Fong e Un Kuok Weng, que em Outubro fizeram parte da peça de teatro organizada pela Associação de Cultura e Arte de Macau, numa adaptação do primeiro livro de Senna Fernandes. A encenação tomou como base a primeira história da colectânea de contos ‘Nam Van’, “da tancareira, e depois desenvolveram a história introduzindo alguns elementos do conto ‘Chá com essência de cereja’”, esclareceu o responsável.

Durante a palestra, pretende-se desconstruir e compreender os processos de adaptação de literatura para outras formas de expressão que, defende Shee Va, não podem nunca ser considerados uma tradução, sendo, acima de tudo, criações. “Sempre que se fala em adaptação de romances para cinema pergunta-se o que é melhor, se é o filme, ou o livro? Normalmente as pessoas têm tendência a dizer que é o livro. Porquê? Porque no livro há sempre a descrição do autor, e ficamos a conhecer os personagens não por aquilo que eles dizem, mas por aquilo que eles pensam e a maneira como o autor trata essas personagens”. No entanto, no cinema, o personagem já está a ver reproduzido através da “visão do realizador ou de quem escreveu o guião. Portanto essa é uma outra criação. Mesmo que se faça uma adaptação, essa é uma criação. Normalmente não podemos dizer que seja uma tradução, isto é, não se traduz palavras em imagens, mas faz-se uma nova criação”.

Nesse sentido em que o realizador ou o guionista “toma conta da história”, mas depois faz a sua versão e torna-a sua, o organizador da palestra quer justamente ir ao fundo deste questionamento e trocar impressões sobre o que, por um lado, foi o feedback do autor em concreto sobre adaptações das suas obras para cinema, e, por outro, as visões que outras comunidades tiveram ao pegarem nestas obras do autor macaense.

Concretamente, recordou Shee Va, sabe-se que Henrique de Senna Fernandes “dizia que não tinha gostado da adaptação feita por Luís Filipe Rocha” de “Amor e Dedinhos de Pé”, tendo preferido a outra adaptação para cinema de um livro seu, “A Trança Feiticeira”. Este será, aliás, um dos pontos de discussão durante a sessão. “Eu tenho a minha perspectiva”, e Miguel de Senna Fernandes terá outra. “Vamos pôr isso em discussão”. Shee Va quer também perguntar ao filho do autor se “todas as sessões culturais que foram feitas para comemorar o centenário do nascimento do pai foram suficientes ou não”.

O organizador da palestra admitiu ter a impressão que Henrique de Senna Fernandes é um grande autor de língua portuguesa em Macau, mas que a população chinesa de Macau desconhece. “A iniciativa da Associação em realizar aquela peça de teatro foi importante porque isto deu alguma visibilidade à obra de Henrique de Senna Fernandes na comunidade chinesa”. Fazer esta “extensão da língua portuguesa e da vivência portuguesa em Macau, para a comunidade chinesa” é importante, e interessante de analisar, referiu. “Os actores da peça de teatro vão partilhar a vivência deles e conhecimento que tinham em relação a Henrique de Senna Fernandes antes e depois da peça de teatro, e a maneira como viveram os personagens, e se a forma como Henrique de Senna Fernandes escreve pode ser vista de uma perspectiva chinesa”.

Para Shee Va, haver esta conversa com os actores é estimulante, já que, ao se acrescentar a perspectiva chinesa à discussão, está-se a “abrir um pouco esta janela, que está cingida à comunidade portuguesa e convivência com a comunidade chinesa e macaense”. Segundo o responsável falta neste diálogo um “reverso, isto é, como é que os chineses vêem esta descrição e este convívio”.

A Associação dos Amigos do Livro em Macau foi criada em 2005 “com o objectivo de unir as comunidades de Macau à volta do interesse pelo livro, fomentar o gosto pela leitura como forma de lazer e de desenvolvimento cultural, especialmente entre os jovens, contribuir para um maior conhecimento das literaturas da China, de Portugal e do Mundo, promover autores locais, da China Continental, de Portugal, e de outros países e criar incentivos à produção literária local”, referiu a Fundação Rui Cunha em nota.

Shee Va diz que está nos planos próximos da associação criar mais encontros de leitura, “comemorar outros centenários de autores portugueses, e também alargar o campo da leitura não só em língua portuguesa, mas também em inglesa e chinesa”.

“A Arte para Além da Escrita: Adaptar Henrique de Senna Fernandes”, sessão organizada no âmbito do ciclo Conversas sobre o Livro, irá decorrer em português e chinês, com tradução consecutiva. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 24 de março de 2023

Portugal - Cem anos depois, nove autores literários e uma fadista

Este ano comemora-se o centenário do nascimento de diversas figuras ligadas às artes e letras de Portugal, com especial enfoque na literatura. Dos mais conhecidos, poetas, cronistas, ensaístas, romancistas e tradutores, mas também a fadista Celeste Rodrigues, falecida em 2018


No ano em que se publicavam o “Livro de Soror Saudade” de Florbela Espanca ou “Os Pescadores” de Raul Brandão, nasciam nove célebres nomes ligados à literatura portuguesa e uma fadista. Comemora-se este ano o centenário de Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Henrique de Senna Fernandes, João Maia, José Palla e Carmo, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Celeste Rodrigues, irmã da voz de Portugal, Amália Rodrigues.

Prémio Camões em 1996 e Prémio Pessoa em 2011, Eduardo Lourenço foi um professor e filósofo português, com ligações profundadas a questões relacionadas com a identidade portuguesa, com especial enfoque na literatura, mas não só. Beirão nascido a 23 de Maio de 1923 no concelho de Almeida, distrito da Guarda, Eduardo Lourenço “é uma figura fulcral da cultura portuguesa”, considerou ao nosso jornal a professora universitária Lola G. Xavier, confessa seguidora do trabalho do pensador português.

Para Lola G. Xavier, até hoje, Eduardo Lourenço é “uma voz única e ímpar”. “Ao nível da própria filosofia e da ontologia do ser-se português. É um autor fundamental, essencial e incontornável em questões relacionadas com a lusofonia. Uma voz crítica que, por ter vivido muito tempo fora de Portugal, teve o afastamento físico necessário que lhe permitiu uma perspectiva mais objectiva”, considerou a docente.

Eduardo Lourenço recebeu diversos prémios ao longo da sua carreira e foi condecorado por inúmeras vezes, tanto em França, onde viveu, como em Portugal. De 2016 a 2020 foi Conselheiro de Estado, por nomeação presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Morreu em 2020, aos 97 anos, tendo o Governo português decretado um dia de luto nacional.

A universalidade de Eugénio de Andrade

Coube também a Lola G. Xavier comentar, mesmo que de forma breve, a vida e obra do poeta Eugénio de Andrade, nascido no concelho do Fundão a 19 de Janeiro de 1923. Prémio Camões em 2001, o também beirão esteve em Macau em 1990, território cujas impressões ficaram registadas no “Pequeno Caderno do Oriente”. “Aquilo que talvez mais me impressiona na sua poesia é como ele consegue, de uma forma aparentemente simples, dizer tanto”, referiu a professora universitária.

Para Lola G. Xavier, Eugénio de Andrade é “um dos poetas da universalidade” e, também por isso, “um dos poetas fundamentais em língua portuguesa”. “Conseguiu congregar de uma forma despretensiosa a beleza da língua portuguesa estampada em verso”, notou, acrescentando que “qualquer literato não terá dificuldade em incluir o poeta nos maiores da literatura portuguesa”.

Eugénio de Andrade é pseudónimo de José Fontinhas. Foi próximo de Eduardo Lourenço e de Miguel Torga, com quem conviveu em Coimbra. Para além de poeta, foi tradutor e escritor.

Morreu, no Porto, a 13 de Junho de 2005, aos 82 anos. A sua poesia lírica foi considerada por José Saramago como uma “poesia do corpo a que chega mediante uma depuração contínua”.

De Macau para o mundo

É unânime dizer-se que a ‘Magnum opus’ de Henrique de Senna Fernandes é o seu livro “Amor e Dedinhos de Pé”, obra adaptada para cinema em 1992 pelo realizador Luís Filipe Rocha e protagonizada por Joaquim de Almeida. O autor português de origem macaense nasceu a 15 de Outubro de 1923 em Macau, precisamente. Foi advogado e uma pessoa politicamente interventiva.

No campo da escrita, Senna Fernandes retratou a Macau antiga dos anos de 1930, 1940 e 1950, através dos seus livros publicados, de onde se destacam, para além do “Amor e Dedinhos de Pé”, “Nam Van – Contos de Macau”, “A Trança Feiticeira” e “Mong-Há – Contos de Macau”. O seu conto “A-Chan, a tancareira” vence o Prémio Fialho de Almeida, em 1950. “Em termos literários, o texto exibe o gosto pelo tratamento de amores interétnicos e pela representação da figura feminina, tão afastada, ainda hoje, da ‘atenção patriarcal’”, considerou o professor Pedro d’Alte ao nosso jornal.

Os seus contos e romances “estão repletos de força etnográfica e bem exprimem a cosmovisão da época”. “A construção narrativa, a força imagética e temática explicam, em parte, as adaptações para a sétima arte dos seus romances”, apontou ainda.

Morreu no território, já sob administração chinesa, aos 86 anos, no dia 4 de Outubro de 2010. Pedro d’Alte acredita que tanto ao leitor quanto ao apreciador de cinema, “decerto agradará a encenação glamorosa dos ambientes da Cidade Cristã e dos amores entre A-Ling e Adozindo ou Chico e Victorina”. “Na memória do centenário sobre o seu nascimento, Senna Fernandes bem merecia mais e melhor atenção literária por parte da ‘mátria’, Macau, e da ‘pátria, Portugal”, concluiu o docente.

Um lisboeta apaixonado pelo Alentejo

Urbano Tavares Rodrigues é outro dos autores cujo centenário se comemora este ano. Nasceu em Lisboa a 6 de Dezembro de 1923, tendo falecido também na capital portuguesa a 9 de Agosto de 2013, aos 89 anos. Foi escritor, jornalista, crítico e professor universitário. Afastado de Portugal por motivos políticos, foi leitor em diferentes universidades europeias. Foi um autor profícuo, tendo, entre 1949 e 2011, escrito quase uma centena de obras, tendo a última delas (“Nenhuma Vida”), já a título póstumo, sido editada em 2013, pouco tempo depois de morrer. Escreveu poesia, crónicas, textos para teatro, contos e literatura de viagem, mas foi nos ensaios e nos romances que deixou marca indelével nomeadamente com as obras “Uma pedrada no charco” (1958), “Nus e suplicantes” (1960) ou “Imitação da felicidade” (1966).

Com “Fuga imóvel” (1982) recebe o prémio Aquilino Ribeiro e com “Violeta e noite” (1991) é galardoado com o prémio Fernando Namora. “Urbano Tavares Rodrigues evidencia uma voz combativa e reflexiva. As suas personagens lutam, pelo século XX, contra os poderes instituídos de um sistema ditatorial repressivo. Assim, a sua escrita é um projecto político de militância pelo povo e pelos oprimidos, conforme se pode ler, desde logo, na bela composição Mulheres do Alentejo e da qual se relembram alguns versos: Mulheres do Alentejo / com papoilas nos olhos / São primaveras erguidas / Contra os bastões / Contra as balas (…) Mulheres searas fontes azinheiras / Nossa esperança, ainda em flor e fruto / No vermelho das feridas deste País de Abril”, afirmou Pedro d’Alte, enfatizando que devido a ter crescido em Moura, “o Alentejo é, efectivamente, paisagem, tema e inspiração da sua obra”.

Foi grande amigo de Mário Soares, ligação que esmoreceu com a filiação de Urbano Tavares Rodrigues no Partido Comunista Português. Segundo o próprio, foi devido aos seus ideais políticos que nunca chegou a receber o Prémio Camões.

A FENPROF, em colaboração com a SABSEG – Corretor de Seguros, criou, em 2012, o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, um prémio literário anual de ficção destinado a professores.

Uma açoreana de pêlo na venta

Natália Correia nasceu nos Açores, mais concretamente em Fajã de Baixo, uma localidade da ilha de São Miguel, a 13 de Setembro de 1923. Foi um dos nomes femininos mais sonantes da literatura portuguesa contemporânea, tendo-se destacado como escritora e poetisa. Devido ao seu carácter activista, moveu-se também na política portuguesa, tendo sido deputada à Assembleia da República entre 1980 e 1991. Interveio inúmeras vezes em prol da cultura e do património, mas também da defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.

Para além de autora da letra do Hino dos Açores, foi, juntamente com José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues, em 1992, fundadora da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). A sua obra, traduzida em várias línguas, estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Morreu em Lisboa, aos 69 anos, no dia 16 de Março de 1993, vítima de ataque cardíaco. “Só quem conhece profundamente a obra de Natália Correia pode afirmar que Natália Correia foi o mais importante poeta e pensador do século XX português. O seu pensamento supera o de Pessoa, Agostinho da Silva e Eduardo Lourenço”, referiu o escritor Henrique Levy, profundo admirador da obra da poetisa.

Henrique Levy vai mais longe e cita Ângela Almeida, autora também ela açoriana e especialista na obra de Natália Correia: “Não é possível entender o que representa a literatura para Natália Correia, sem constatarmos a imensidão do seu conhecimento: Natália bebe nas fontes antigas, clássicas, medievais, modernas, contemporâneas, ocidentais e orientais, percorre os ciclos históricos da humanidade, estuda as correntes de pensamento filosóficas e estéticas, viaja pelos géneros literários, estuda as religiões do mundo, sente o pulsar das culturas e das etnias e vive com todo o fulgor a relação telúrica e endógena que liga o ser humano à Tellus Mater. Tais fontes levam-na a escrever odes, epístolas, poesia lírica e épica, cantigas de amigo, textos dramáticos, romance, ensaios, textos para a imprensa (de 1943 a 1992)”.

O surrealismo português

Para além de poeta, Mário Cesariny foi também pintor, sendo considerado como o principal representante do surrealismo português. Nascido em Lisboa a 9 de Agosto de 1923, Cesariny também tem obra enquanto antologista, compilador e historiador. Homossexual assumido, foi muitas vezes detido pela polícia de costumes por “vagabundagem”.

Escreveu cerca de 20 livros. A sua poesia é animada por um sentido de contestação a comportamentos e princípios institucionalizados ou considerados normais nos campos do pensamento e dos costumes. Já a sua pintura, à imagem da sua personalidade inquieta, é marcada pela experimentação.

Em 2002 foi-lhe atribuído o grande Prémio EDP de Artes Plásticas e, em 2005, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Também em 2005, arrecadou o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD.

Morreu, também em Lisboa, a 26 de Novembro de 2006, aos 83 anos. Doou em vida o seu espólio à Fundação Cupertino de Miranda e, por testamento, deixou um milhão de euros (cerca de 10 milhões de patacas) à Casa Pia.

Mário-Henrique Leiria nasceu em Lisboa a 2 de Janeiro de 1923 e foi um escritor surrealista português, amigo próximo de Mário de Cesariny.

Poeta, escritor, pintor, crítico de arte, crítico literário, tradutor, gráfico e editor, Mário-Henrique Leiria tinha o espírito de coleccionador. Guardava tudo, desde escritos a desenhos, passando por pinturas e fotografias, catálogos ou manifestos. Envolveu-se activamente no Grupo Surrealista Português entre 1949 e 1951. Ao mesmo tempo também se dedicou a uma carreira musical que durou entre 1949 e 1979.

Foi preso pela PIDE. Posteriormente, instalou-se no Brasil onde desenvolveu várias actividades, como a de encenador e de director literário da Editora Samambaia. Regressou a Portugal em 1970 e aderiu, em 1976, ao Partido Revolucionário do Proletariado. Morreu aos 57 anos, a 9 de Janeiro de 1980, vítima de doença prolongada.

“Mário Cesariny e Mário-Henrique Leiria são nomes que conheço e cuja obra acompanhei de perto, porque representam uma certa modernidade, uma certa ruptura com o sistema, nomeadamente em relação a valores ou até à expressão”, referiu a professora Vera Borges, acrescentando que “faz todo o sentido atentarmos na literatura de um passado mais próximo”, mais contemporâneo.

O jesuíta das letras e o humorista Sesinando

Outros nomes há, também consagrados, que, por esta ou aquela razão, se tornaram desconhecidos do público em geral. Vera Borges explicou ao Ponto Final que tudo passa, essencialmente, “pela dimensão da sua obra” e, claro, “pelo gosto de cada um”. “São nomes que surgem, muitas vezes, a reboque de outros nomes. Autores pensados no âmbito de estudos específicos e desconhecidos num sentido mais lato”, referiu a docente de Português.

João Maia ou José Palla e Carmo são dois desses nomes. No entanto, considera Vera Borges, “são importantes para a literatura portuguesa”. “Gostava muito que esses nomes merecessem uma revisitação da sua obra. Talvez estas efemérides pudessem ser um ponto de partida para isso. Mas, claro, há nomes que têm sempre mais peso do que outros, é normal”, constatou.

João Maia foi um poeta e crítico, que também se notabilizou como cronista e ficcionista. Ganhou, em 1954, o prémio Antero de Quental pela sua obra literária “Abriu-se a Noite”. Anos antes, em 1940, ingressou na Companhia de Jesus, tendo-se licenciado em Filosofia pela Faculdade Pontifícia de Braga e, posteriormente, obteve o doutoramento na Faculdade de Teologia de Burgos, em Espanha. Autor de 10 livros, entre 1954 e 1989, a poesia de João Maia “pouco aberta a inovações formais e geralmente apoiada na rima”, mereceu de Jorge de Sena os epítetos de “suave e inteligente, meditativa e singela”.

Já José Palla e Carmo, nascido em Lisboa em 1923, foi um escritor, ensaísta, crítico, tradutor e especialista de literatura anglófona. Também se dedicava à escrita de textos humorísticos, os quais assinava como José Sesinando. Era irmão do consagrado arquitecto e fotógrafo Victor Palla e, por conseguinte, tio-avô do igualmente arquitecto e fotógrafo João Palla Martins, radicado em Macau há diversos anos.

O Instituto Português do Oriente (IPOR) também vai celebrar alguns destes nomes. Em declarações ao Ponto Final, a coordenadora do Centro de Língua Portuguesa foi peremptória em afirmar que se “deve falar e celebrá-los” a todos sem excepção, “independentemente de uns serem mais conhecidos do que outros”. No entanto, admitiu, o IPOR celebrará, ao que tudo indica, apenas seis desses nomes: Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Mário Cesariny, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Henrique de Senna Fernandes. “Vamos celebrando ao longo do ano. Começámos com o Eugénio e acabamos com o Urbano, dando ainda algum destaque ao centenário de Agustina Bessa-Luís, que se celebrou o ano passado, mas nós não o celebrámos como deveria ser”, notou Paula Costa.

Tudo isto é fado

A fadista Celeste Rodrigues nasceu no Fundão a 14 de Março de 1923 e morreu em Lisboa a 1 de Agosto de 2018, com 95 anos. Era a irmã mais nova da voz de Portugal, Amália Rodrigues.

Com 25 anos, Celeste conhece o actor Varela Silva com quem casaria com 30 anos. Ambos abrem a casa de fados “A Viela”, projecto que abandonariam após quatro anos. Por essa altura, e apesar de viver um pouco na sombra da irmã Amália, Celeste atingia a notoriedade com o tema “Olha a Mala”, da autoria de Manuel Casimiro.

Celeste Rodrigues cantou por mais uma década na casa de fados Parreirinha de Alfama, propriedade da também fadista Argentina Santos, passando depois a integrar o elenco da Taverna do Embuçado, do fadista João Ferreira-Rosa ao longo de 25 anos.

Ao Ponto Final, o actual proprietário da Parreirinha de Alfama, o guitarrista de Fado Paulo Valentim, que viveu em Macau por diversos anos, recordou que Celeste “trabalhou muitos anos na Parreirinha e a irmã [Amália] a visitava muitas vezes”. “Celeste era uma pessoa sábia, bastante culta e educada”, acrescentou.

Depois do 25 de Abril, passou meio ano no Canadá, acabando por divorciar-se de Varela Silva com quem teve duas filhas. O seu último trabalho discográfico foi o “Fado Celeste”, editado na Holanda em 2007. Três anos depois, em 2010, o neto Diogo Varela Silva revela o documentário “Fado Celeste”, realizado por si, que se debruça na vida e obra de Celeste Rodrigues.

Aliás, em declarações ao nosso jornal, o neto da fadista revelou que “foi inaugurada no dia 14 de Março uma exposição sobre ela no Museu do Fado”. “Houve o lançamento da biografia escrita por mim e lançámos dois temas inéditos que foram gravados muito pouco tempo antes dela falecer. Uma versão de “A Noite do Meu Bem” de Dolores Duran e uma música nova chamada “Se Alguém Me Procurar”, com letra de Ricardo Maria Louro e música de Pedro de Castro, que foi o seu último guitarrista. Fizemos ainda um grande jantar celebrativo nessa data com muitos amigos dela”, referiu, lamentando que o Fundão, cidade onde a fadista nasceu, aparentemente, não tenha qualquer homenagem marcada para celebrar o centenário, mas adiantando que tanto a família quanto os amigos estão a contar que Câmara Municipal de Lisboa a inclua na toponímia da cidade. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Macau – “Portugal tem de perceber o que representa Henrique de Senna Fernandes”

O desabafo foi feito ao Ponto Final pelo filho, Miguel de Senna Fernandes, que revelou que vai escrever um conto em memória do pai. O centenário do nascimento de Henrique de Senna Fernandes comemora-se no próximo ano, mas, para já, não existe nada de dimensão superior para destacar a efeméride. O presidente da Associação dos Macaenses desconhece o que a sociedade civil e as instituições possam estar a preparar para homenageá-lo e lamenta que Portugal se esqueça e não valorize a sua obra

Durante o próximo ano comemoram-se 100 anos que o escritor e advogado macaense Henrique de Senna Fernandes nasceu. O autor de “Amor e Dedinhos de Pé” saiu do ventre materno a 15 de Outubro de 2023, mas, para já, nada se tem falado nem tampouco têm surgido movimentações no sentido de se comemorar a efeméride.

Em conversa com o Ponto Final, Miguel de Senna Fernandes, filho do escritor, revelou que, a título meramente pessoal, vai fazer qualquer coisa. “Que saiba, a nível geral, não há nada programado, mas eu vou escrever um conto para o homenagear”.

Uma obra póstuma, no entanto, não está, para já, nos planos da família. “Não há nada de momento. Vai haver, sim, traduções de alguns livros dele. É o Instituto Cultural que está a promover isso e penso que seja o desejo deles para comemoração do centenário do meu pai”, adiantou.

Autor da famosa frase “Portugal é a minha pátria e Macau é a minha mátria”, Henrique de Senna Fernandes parece, aparentemente, ser esquecido pelas autoridades portuguesas. Nem Camões, nem o IPOR, nem nada. De Portugal não há nada, absolutamente nada, garantiu-nos Miguel de Senna Fernandes. “A ideia com que fico é que Portugal não conhece quase nada de Macau. Somos uma nesga para aqui. É preciso, de uma vez por todas, entender o que é que os escritores de Macau representam para Portugal. E, em particular, eles têm de perceber o que é que o meu pai representa”, atirou, desiludido.

Miguel de Senna Fernandes acredita, no entanto, que Macau não esqueça o filho da terra e é certo que “alguém vai fazer alguma coisa”. “Haverá gente com interesse em promover alguma coisa. Gente que conheceu o meu pai ou que, simplesmente, gosta da sua obra e lhe dá valor”, admitiu, sublinhando que defende o que defende e diz o que diz não por Henrique de Senna Fernandes ser seu pai, “mas ele é um ilustre macaense e a sua obra tem de ser valorizada”.

O próximo ano será de grande rebuliço para o presidente da Associação dos Macaenses (ADM). Os Dóci Papiaçám di Macau celebram 30 anos de existência e também por isso, o tempo é “escasso”. “Para mim, será um ano muito cheio, com muita coisa a acontecer no que à cultura macaense diz respeito. Terei muito pouco tempo”, admitiu.

Henrique de Senna Fernandes nasceu em Macau a 15 de Outubro de 1923, tendo falecido, também no território a 4 de Outubro de 2010. Foi um de 11 irmãos de uma das mais antigas e ilustres famílias de luso-descendentes de Macau, que se estabeleceu no território há mais de 250 anos. Estudou Direito na Universidade de Coimbra antes de se tornar escritor. A sua obra, escrita em português, evoca o ambiente das décadas de 1930, 1940 e 1950. Muitas vezes centrada na vida de personagens de origens raciais mistas, como o próprio autor, a sua obra representa um ponto de vista único sobre a evolução de Macau durante o século XX.

Além de escritor, foi também professor e director da Escola Comercial Pedro Nolasco. De 1998 a 2009 foi membro residente da Assembleia Geral do CAM – Aeroporto Internacional de Macau. Enquanto advogado, foi presidente da Associação dos Advogados de Macau de 1991 a 1995. Foi ainda foi presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), durante o período em que se criou a actual Escola Portuguesa de Macau.

Em 2006 recebeu o grau de Doutor Honoris Causa da Universidade de Macau e a Medalha de Mérito Cultural em 2001. Portugal também lhe concedeu honrarias de onde se destacam a de Grande-Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico, de 1998, e a de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 2005. Ainda em vida, recebeu dois doutoramentos honoris causa em literatura pelo Instituto Inter-Universitário de Macau (2006) e pela Universidade de Macau (2008).

É o autor de “Nam Van – Contos de Macau”, “Amor e Dedinhos de Pé”, “A Trança Feiticeira” e “Mong-Há – Contos de Macau”. Deixou também três outros livros por terminar: “A Noite Nasceu em Dezembro”, “O Pai das Orquídeas” e “Os Dores”. A título póstumo o Instituto Cultural (IC) de Macau lançou o inédito “Os Dores” e reeditou “Amor e Dedinhos de Pé” no âmbito de uma apresentação pública da colecção “Obra Completa de Henrique de Senna Fernandes” que assinalou o 89.º aniversário do nascimento do mais prestigiado escritor macaense. Posteriormente, em 2015, o IC editou “A Noite Desceu em Dezembro”, num lançamento que teve lugar na Academia Jao Tsung-I. Na mesma cerimónia foram igualmente lançadas a nova edição de “A Trança Feiticeira” e a versão chinesa de “Os Dores”. “O Pai das Orquídeas” ainda está na gaveta, mas Miguel de Senna Fernandes garantiu ao Ponto Final que um dia será publicado, sendo que a sua edição “será uma experiência única”.

ECOAdOR vai editar livro sobre os 100 anos de Senna Fernandes

O Grupo de Estudos de Culturas Ocidentais, Africanas e do Oriente (ECOAdOR), pretende evocar Henrique de Senna Fernandes no centenário do seu nascimento. Desde o passado mês de Julho que o grupo aceita artigos originais que abordem a vida de Henrique Senna Fernandes que passem pela sua produção romanesca ou contista, bem como pelo diálogo entre o cinema e a literatura na adaptação das suas obras para a grande tela; os imagótipos da época; a representação do quotidiano ou da paisagem; ou outros aspetos pertinentes e associados à vida profissional ou produção estética, linguística e literária do macaense. O livro sobre o centenário do escritor terá a direcção da professora universitária Lola Geraldes Xavier e contará com a coordenação dos igualmente professores Ana Margarida Silva e Pedro d’Alte. Em declarações ao nosso jornal, o professor Pedro d’Alte adiantou que “serão publicados 12 a 13 artigos cada um com 15 a 20 páginas”. No entanto, o co-coordenador da obra lamenta que não se consiga atingir um carácter mais multidisciplinar da mesma. “Do que temos recebido de trabalhos posso destacar temas dentro da literatura, sociologia ou história”, revelou. David Brookshaw, Micaela Ramón, Celina Veiga de Oliveira, António Aresta, entre outros, são alguns dos nomes cujos trabalhos académicos vão figurar da obra que se pretende seja lançada em Outubro do próximo ano, precisamente no mês em que Henrique de Senna Fernandes nasceu. “Não é expectável que haja atrasos. Será um projecto competente que fará jus à vida e obra de Senna Fernandes”, referiu, acrescentando que, tal como noutros projectos do ECOAdOR, a editora Praia Grande deverá dar chancela ao livro. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Macau - Festival Literário Rota das Letras 2020

Numa versão altamente marcada pela pandemia, o festival literário vira-se para dentro e aposta nos autores de Macau. Além da homenagem a Henrique de Senna Fernandes, será celebrado o centenário da publicação de “Clepsydra” de Camilo Pessanha e discutido o impacto do confinamento nos autores locais



A homenagem ao escritor macaense Henrique de Senna Fernandes vai ser um dos pontos altos da edição deste ano do Festival Literário Rota das Letras, que decorre entre 2 e 4 de Outubro. O programa, que inclui também a celebração dos 100 anos da publicação de “Clepsydra”, de Camilo Pessanha, foi apresentado ontem e vai ter uma sessão dedicada à pandemia da covid-19 e aos efeitos do confinamento na criação literária.

A cerimónia que vai celebrar o escritor macaense está agendada para 4 de Outubro, o mesmo dia em que morreu em 2010. Para assinalar a memória de Henrique de Senna Fernandes serão apresentadas as primeiras traduções em chinês e inglês do livro de estreia do autor macaense, “Nam Van – Contos de Macau”. A obra foi publicada pela primeira vez em 1978, em português.

“Uma das principais razões de ser do Festival Literário é a aproximação, através da literatura, das diferentes comunidades de Macau”, justificou Ricardo Pinto, director-geral do Rota das Letras, sobre a escolha.

“Fazemo-lo desta vez dando pela primeira vez a conhecer aos públicos de língua chinesa e inglesa, a obra que revelou Henrique de Senna Fernandes como um exímio contador de histórias”, realçou.

A sessão agendada para as 17h nas Oficinas Navais conta com a participação do filho do escritor, Miguel de Senna Fernandes, que vai publicar o seu primeiro livro de contos.

Ao contrário das edições anteriores do festival, que se prolongavam por mais de uma semana, a pandemia levou a que a organização optasse por uma edição em moldes diferentes. Também o facto de as fronteiras de Macau estarem encerradas a pessoas com nacionalidade estrangeira levou a organização a focar mais a atenção nos autores locais.

“A crise devastadora que se abateu sobre o mundo obrigou-nos a repensar a edição deste ano do Festival, numa perspectiva realista de contenção de custos e de aposta nos talentos locais”, explicou Ricardo Pinto.

“Esta mesma crise, enquanto tema de reflexão para todos nós, não podia obviamente estar ausente da programação do Festival”, acrescentou.

Reflexões sobre a pandemia

Com a aposta a passar pela “prata da casa”, Eric Chau, Wang Feng, Jenny Lao-Phillips e Konstantin Bessmertny são os autores presentes na sessão de abertura, marcada para as 14h30 de 2 de Outubro, na Oficinas Navais. Os autores vão reflectir sobre os efeitos da pandemia para a sociedade, para o futuro e o impacto para as suas futuras obras. “Numa época de crise em que o mundo está dividido em diferentes zonas de bloqueio, a ideologia de ‘Think Global Act Local’ parece ser especialmente relevante”, comentou Alice Kok, directora executiva do Rota das Letras. “Agora é tempo de reforçar a nossa energia criativa e trazê-la para a boca de cena”, considerou.

Depois da sessão de abertura do festival, serão anunciados os vencedores do Concurso de Contos, além do lançamento do livro de poemas “Sétimo Céu”, que conta com a participação de escritores como Jidi Majia, José Luís Peixoto, Gisela Casimiro e Hirondina Joshua.

Na manhã do primeiro dia do evento decorre também a abertura da Exposição de Fotografia ‘Macau, 2020: Tempo de Introspecção’ e o lançamento da revista Zine Photo, da autoria de João Miguel Barros.

A agenda de um primeiro dia muito preenchido termina com uma peça de teatro intitulada “O Momento”, a cargo da Associação de Teatro de Macau Comuna de Pedra, inspirada no romance 1984, de George Orwell.

Sábado foi o dia escolhido para celebrar os 100 anos da publicação de “Clepsydra”, livro que agrega os poemas dispersos do autor que passou a maior parte da sua vida em Macau, onde está sepultado. Os poemas de Pessanha vão ser ditos e cantados num recital dirigido pelo maestro Simão Barreto, numa sessão agendada para as 18h30 nas Oficinas Navais. João Filipe – Macau in “Hoje Macau”

domingo, 17 de março de 2019

Macau - O “rastro literário” deixado pelo “guardião da memória de Macau”

As obras de Henrique de Senna Fernandes dão ênfase à voz do personagem macaense, demarcam a sua identidade e espelham os “contrastes sócio-histórico-culturais que determinaram os rumos do povo de Macau”. Bruno Tateishi é o autor de uma tese em que dá como provado o contributo do espólio literário de Senna Fernandes que ainda hoje ajuda a delinear os “principais contornos da identidade étnica macaense”



Analisar a forma como o romance de Henrique de Senna Fernandes “orquestra a diversidade social de linguagens representadas artisticamente, recuperando memórias para forjar uma identidade macaense”, foi o objectivo a que se propôs Bruno Tateishi, autor de uma tese de doutoramento em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

“Assim, só poderemos fazer uma leitura precisa dos romances se os deslocarmos no tempo, visto que no seu tempo de publicação o projecto étnico macaense já havia se enfraquecido e a comunidade macaense já encontrara outros meios de sustentar a sua identidade”, sublinha Bruno Tateishi, no documento consultado pela Tribuna de Macau.

Henrique de Senna Fernandes é descrito pelo doutorando como um “guardião da memória de Macau”. Nascido em 1923, no seio de uma das “mais ilustres e tradicionais famílias macaenses”, o filho de Edmundo José e Maria Luíza ingressou no curso de Direito da Universidade de Coimbra onde terminou os estudos em 1952. Regressou a Macau para exercer advocacia e teve escritório próprio. Destacou-se também à docência, sendo professor e director da Escola Comercial Pedro Nolasco. Viria a falecer aos 86 anos, em Outubro de 2010, em Macau.

Senna Fernandes testemunhou “momentos de vital importância para a história de Macau”, como o impacto da Guerra do Pacífico na sociedade local e o período de transição, que culminaria na transferência de administração para a China. “Desse modo, acompanhou as mutações pelas quais passou o projecto étnico macaense, que aos poucos começava a se distanciar do ‘capital da portugalidade’”, observa o autor.

Assim, “tendo observado as metamorfoses identitárias sofridas pela sua comunidade, Senna Fernandes empenhou-se numa produção literária que retratasse o macaense”. Aliás, acrescenta, foi produtor de obra que “promovia o macaense de personagem secundário ao protagonista da acção discursiva”. “Neste sentido, o autor macaense, actuando como uma espécie de guardião da memória de Macau oferece um rastro literário cheio de cumplicidades e demarcações para a preservação e identificação da cultura macaense”, refere, citando Mónica Simas.

Do vasto espólio literário que deixou constam os romances “Amor e dedinhos de pé” (1986), “A trança feiticeira” (1993), “Os Dores” (2012) – este deixado incompleto -, e as colectâneas “Nam Van” (1978) e “Mong-Há” (1998) através dos quais “procura realizar uma intervenção que traga visibilidade ao macaense, nos seus processos de interculturalidade, tomando-o nuclearmente presente nos processos de significação que a literatura encerra”, acrescenta.

Colocando o foco nas duas primeiras obras, rapidamente se percebe que foram publicadas num espaço de tempo em que a administração de Macau estava prestes a ser assumida pela China. Os dois livros retratam períodos anteriores à época em que foram escritos pelo que “só poderemos fazer uma leitura precisa dos romances se os deslocarmos no tempo, visto que no seu tempo de publicação o projecto étnico macaense já se tinha enfraquecido e a comunidade macaense já tinha encontrado outros meios de sustentar a sua identidade”, observa o autor da tese.

Ademais, a “localização do macaense como protagonista da acção narrativa foi um dos factores decisivos” para ter seleccionado a “prosa literária de Henrique de Senna Fernandes para o estudo desta tese, podendo delinear, por meio dos discursos que emanam das obras, os principais contornos da identidade étnica macaense”.

Além disso, “podemos vislumbrar, através da sua escrita, todas as particularidades da sociedade que circunda os personagens”, muito embora esta exploração exaustiva da imagem do macaense não seja evidente no primeiro conto de Senna Fernandes, “A-chan, a tancareira” – vencedor do prémio Fialho de Almeida, dos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950, da UC.

“O conto retrata […] os encontros e desencontros que se desenrolavam numa Macau imersa num complexo fluxo de culturas que surgia por meio dos movimentos de diáspora ocasionados em decorrência da eclosão da Guerra do Pacífico”, analisa Bruno Tateishi.

A história de “Amor e dedinhos de pé

Falar da escrita de Henrique de Senna Fernandes, é também recordar a história de Chico Frontaria e Vitorina Vidal, em “Amor e dedinhos de pé” – que foi também adaptado para filme.

Como explica o doutorando, apesar de ter sido escrita na década de 80, a obra está “ambientada na primeira metade do século XX, em 1905” e representa um “período da história de Macau em que a administração portuguesa ainda mantinha controlo sobre o território e a geração declinante empenhava-se na manutenção de uma capital de ‘portugalidade’, que lhe garantia um forte laço com o governo luso e, consequentemente, maiores oportunidades de ascensão social”.

A obra narra a história das duas personagens principais cujas trajectórias coincidem, a todo o momento, com a vida social existente em Macau. “O romance está estruturado em quatro partes, contando com dois pequenos textos escritos pelo autor, situados respectivamente antes e depois da narrativa”, refere.

Mas, realça Bruno Tateishi, o primeiro ponto a ser considerado nesta análise é o prefácio de Senna Fernandes: “Para ser mais conforme com o ambiente, eu devia, em certos diálogos, redigi-los em patuá, isto é, no dialecto local, hoje em vias de total desaparecimento. Não o fiz, porque escrevendo sobretudo para o leitor lusófono em geral, não familiarizado com o dialecto, a sua leitura tornar-se-ia difícil e exaustiva para a compreensão, além de dispersar e fatigar o interesse sobre a trama”.

Em todo o caso, “é bem certo que o patuá – uma maravilha linguística – é mais doce e sugestivo ouvido do que lido, dada a impossibilidade de traduzir, em linguagem escrita, todas as nuances e inflexões de sotaque, em pronúncia e entonação, de tão surpreendentes efeitos. […] No entanto, aqui e ali, cedi à atracção, repetindo frases em patuá e noutras introduzi construção gramatical do português falado pelo macaense”, acrescentou o escritor.

Para Bruno Tateishi, ao ter sido seguido esta opção linguística, Senna Fernandes “deixa implícita a existência de outras línguas, como o chinês, e outras variedades linguísticas, como o português de Macau, e outros dialectos, como o patuá. O patuá, dessa forma, pode ser visto de forma mínima, em algumas situações informais”, aponta. “A nosso ver, este procedimento de apagamento acaba remetendo, ainda que essa não seja a intenção do autor, ao pensamento característico do macaense da época. Nesta perspectiva, o domínio da Língua Portuguesa era factor imprescindível para sustentar o projecto étnico macaense”, vinca. Aliás, sendo um lugar que “se encontrava sob administração portuguesa, possuir o domínio da Língua Portuguesa atribuía status social e profissional”, acrescenta o autor.

No documento, é ainda analisado o romance “A trança feiticeira” que “aborda justamente a complicada relação de chineses e macaenses em Macau durante o período da administração portuguesa, por meio da união do personagem macaense, Adozindo, e a personagem chinesa, A-Leng”.

De um modo geral, vinca, “Henrique de Senna Fernandes orienta o seu romance, bem como as vozes sociais orquestradas por ele, para forjar uma identidade macaense que ainda possuía como sustentáculo um projecto étnico calcado no ‘capital da portugalidade’”.

“As memórias de Senna Fernandes acabam por se coadunar com o retrato histórico da sociedade de Macau na composição dos romances, recuperando as suas vivências como macaense que presenciou eventos importantes que se reflectiram na história do território […], bem como no percurso da identidade étnica macaense”, acrescenta.

Assim, “poderemos tomar os romances de Henrique de Senna Fernandes como um importante registo de traços culturais que permitiram estabelecer um diálogo entre Macau e outras localidades da chamada ‘rede lusófona’”.

“Por meio da leitura e análise dos romances pudemos reafirmar a hipótese sustentada ao longo da nossa tese, asseverando que Henrique de Senna Fernandes faz jus ao seu título de ‘guardião da memória de Macau’, retratando, através da sua escrita, os contrastes sócio-histórico-culturais que determinaram os rumos do povo de Macau e, particularmente, dando ‘voz’ ao personagem macaense e demarcando a sua identidade”, remata. Catarina Almeida – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”