Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 10 de março de 2022

Cataguases, cidade-ícone da Literatura Brasileira

                                                                  I

Poucas cidades brasileiras foram (e continuam sendo) tão geradoras de cultura como a pequena Cataguases, município de 74 mil habitantes localizado na Zona da Mata do Estado de Minas Gerais, a 320 quilômetros de Belo Horizonte. Entre as muitas manifestações culturais que a tiraram do limbo da História, estão a publicação da revista Verde, ainda nos anos 20 do século passado, o cinema de Humberto Mauro (1897-1983) e a música de Patápio Silva (1880-1907), que ficou conhecida mais tarde pela voz terna do cataguasense Lúcio Alves (1925-1993).

A par disso, houve ainda a presença muitos literatos que deixaram sua marca na história da Literatura Brasileira, como Rosário Fusco (1910-1977), Guilhermino César (1908-1993), Ascânio Lopes (1906-1929) e Francisco Inácio Peixoto (1909-1986), sem contar os de geração mais recente, como Joaquim Branco, Ronaldo Werneck, Ronaldo Cagiano, Luiz Ruffato, Eltânia André e outros. Também não se pode deixar de assinalar as obras de Oscar Niemeyer (1907-2012) e de outros renomados arquitetos que são encontradas na cidade, bem como os trabalhos de Candido Portinari (1903-1962), Santa Rosa (1909-1956), Djanira (1914-1979) e outros artistas que estão em seus museus e ainda os seus jardins projetados por Burle Marx (1909-1994).   

Para recuperar grande parte dessa história, o cataguasense Ronaldo Werneck acaba de publicar Cataguases século XX antes & depois (São Paulo, Editora Tipografia Musical, 2021) em que reúne não só depoimentos de sua lavra como de outros autores que traçam um longo painel que vem de meados do século XVIII, passando pelo século XIX para chegar aos tempos de nossos dias. Ou seja: trata-se de uma cidade povoada de poetas que “faz com que um deles, Werneck, tome o fio da História, ilumine a Memória e celebre a “poesia nossa de cada dia”, ao trazer para este livro a narrativa da saga da Meia-Pataca e Cataguases inteira”, como observa no prefácio o jornalista e ensaísta Angelo Oswaldo, ex-secretário estadual de Cultura de Minas Gerais e atual prefeito de Ouro Preto, em seu quarto mandato, também ele filho de cataguasense.

 

                                                                 II

Nascido em Cataguases em 1943, Ronaldo Werneck morou por mais de 30 anos no Rio de Janeiro, mas voltou a viver em sua cidade natal ao final do século passado. E, como observa o cineasta Paulo Augusto Gomes, no texto de apresentação do livro, a tal ponto Cataguases marcou a sua vida que “ele se viu obrigado a nos dar um histórico desse relacionamento”. E procurou contar a história da cidade desde “a fundação do primitivo arraial, o surgimento do seu comércio e principais indústrias, em torno dos quais se reuniram gentes que o influenciaram”.

De fato, no texto de abertura, Werneck procura mostrar a cidade e seus ares de modernidade, deslocando o seu olhar exatamente para a residência do escritor e industrial Francisco Inácio Peixoto, projeto de Oscar Niemeyer. Grande impulsionador do modernismo na cidade, Peixoto deixou para os seus pósteros a chamada “casa de Chico”, marco inicial da Cataguases moderna. Mais adiante, Werneck assinala: “Em Cataguases, o ideário modernista se concretizou como nunca. Mário e Oswald de Andrade, luminares do movimento, chegaram mesmo a homenagear juntos, assinando “Marioswald”, os poetas da revista Verde – publicação que congregou os modernos de todo o país –, editada na cidade nos anos 1920: Tarsila não pinta mais/ Com verde Paris / Pinta com Verde / Cataguazes / Os Andrades / Não escrevem mais / Com terra roxa / NÃO! / Escrevem / Com tinta Verde / Cataguazes”.

Do livro, constam ainda textos de outros escribas da cidade, como o ensaio de Lina Tâmega Peixoto (1931-2020) sobre a correspondência entre Francisco Inácio Peixoto e Guilhermino Cesar. De Joaquim Branco, há um texto sobre os suplementos literários que apareceram na cidade nas décadas de 1960 e 1970. Já Francisco Marcelo Cabral (1930-2014) recupera a história da revista Meia Pataca, de 1948, que, segundo ele, foi obra integral de Lina Tâmega Peixoto, responsável pela edição, diagramação, sueltos e resenhas, embora o autor também tenha participado da “aventura”. 

Por fim, Ronaldo Cagiano escreve sobre o movimento literário na cidade ao longo do século XX, com enfoque especial sobre os escritores deste século XXI. Por tudo isso, este livro se torna fundamental para quem quiser conhecer a história desta cidade-ícone na história da Literatura Brasileira.

 

                                                                III

Jornalista e crítico, Ronaldo Werneck colaborou com jornais e revistas cariocas, como Jornal do Brasil, Pasquim, Diário de Notícias, Última Hora, Revista Vozes, Revista Poesia Sempre e Revista História, ambas da Biblioteca Nacional. Em 2013, organizou a edição especial sobre Cataguases para o Suplemento Literário Minas Gerais. Desde 1968, colaborou com esse Suplemento, onde publicou poemas, resenhas e algumas críticas de cinema.

Poeta, tem vários livros publicados, entre os quais: Selva Selvaggia (1976), pomba poema (1977), minas em mim e o mar esse trem azul (1999), Ronaldo Werneck Revisita Selvaggia (2005), Noite Americana/Doris Day by Night (2006) e Minerar O Branco (2008). Lançou em 2009 o livro-ensaio Kiryrí Rendáua Toribóca Opé – humberto MAURO revisto POR ronaldo WERNECK e os livros de crônicas Há Controvérsias 1 (2009) e Há Controvérsias 2 (2011). Em 2001, gravou em show ao vivo o cd Dentro & Fora da Melodia/Que papo é esse, poeta?  Em 2019, lançou  Momento Vivo, 71 poemas favoritos & 21 novos (São Paulo, Editora Tipografia Musical).

Ensaísta, tradutor e crítico de literatura, cinema e artes plásticas, Werneck tem textos e artigos publicados em vários veículos da mídia. Desde os anos 1990, assina a coluna “Há Controvérsias”, publicada em vários blogs e no jornal O Liberal, de Cabo Verde. Produtor cultural, foi um dos realizadores dos dois Festivais Audiovisuais de Cataguases – Música e Poesia (1969/1970) e coordenador da exposição Os Mineiros do Pasquim, em 2008.

Videomaker, editou em 2009 dois filmes sobre a trajetória do cineasta Humberto Mauro, sOLdade e mauro move O mundo. Membro do Pen Clube do Brasil, é verbete da Enciclopédia da Literatura Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, e do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Adelto Gonçalves - Brasil

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Cataguases século XX antes & depois, de Ronaldo Werneck. São Paulo: Editora Tipografia Musical, 310 páginas, R$ 70,00, 2021. E-mail da editora: editora@tipografiamusical.com.br Site: tipografiamusical.com.br E-mail do autor: roneck@ronaldowerneck.com.br 

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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015),  Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Para tirar Rosário Fusco do esquecimento

                                                            I

O romancista, poeta, dramaturgo, jornalista, crítico literário e advogado Rosário Fusco (1910-1977) foi uma figura ímpar na Literatura Brasileira, cujo esquecimento só pode ser atribuído à indigência mental que tem marcado a atuação da intelectualidade nacional nos últimos tempos. Basta ver que seu livro Carta à Noiva (1954) foi considerado à época de seu lançamento uma obra-prima por Millôr Fernandes (1923-2012) e listado pelo jornalista e ficcionista Ivan Ângelo como uma das dez mais importantes obras de nossa história literária.

Além disso, o seu romance O Agressor (1939) teve os seus direitos comprados por Orson Welles (1915-1985) à editora italiana Mondadori, que o lançou na década de 1960, com um prefácio que comparava o romancista brasileiro a Franz Kafka (1883-1924) e James Joyce (1882-1941). Já o professor e crítico Antonio Candido (1918-2017) o considerou um raro exemplo de romance surrealista no Brasil. Não é pouco.

Que ainda não se tenha escrito a sua biografia é imperdoável lacuna que o poeta e cronista Ronaldo Werneck tenta minorar com Sob o Signo do Imprevisto: Rosário Fusco por Ronaldo Werneck (Cataguases-MG, Poemação Produções, 2017), que reúne “lembranças, memórias, evocações e confissões que constituem um mosaico capaz de revelar a grandeza deste personagem intenso, polêmico e essencial”, como observa o escritor Luiz Ruffato na apresentação que escreveu para este livro.


                                               II
Como se sabe, até a década de 1970, a crítica não levava em conta a vida pessoal dos autores, pois entendia que a obra era autônoma e valia por si mesma. Mas, de lá para cá, os críticos passaram a considerar a literatura também como reflexo da experiência pessoal do autor, o que resultou na valorização do gênero biográfico. Hoje, vive-se uma disputa surda entre jornalistas e acadêmicos para se apontar quem melhor produz livros de história e biografias. Os acadêmicos, obviamente, pesquisam mais e revelam detalhes mais importantes e verídicos que estavam perdidos em arquivos, mas, com raras exceções, escrevem com uma sisudez que afugenta leitores.

Já os jornalistas, com base na experiência acumulada em redações de jornais e revistas, sabem como produzir textos atraentes, mas muitos deles sofrem de “alergia” ao pó dos arquivos. Ou seja, limitam-se a citar livros impressos, sem base documental.  Assim, se um historiador publicou alguma invencionice ou boutade no século XIX, por exemplo, aquela impropriedade é repetida indefinidamente. O ideal, portanto, seria sempre aliar o texto bem escrito e de fácil entendimento ao rigor da pesquisa acadêmica, ainda que as últimas páginas sejam repletas de citações das fontes consultadas. É o que dá credibilidade à obra.


                                               III
No caso de Rosário Fusco, não se sabe ainda se os arquivos têm muito que revelar. O que se conhece é que Fusco guardava zelosamente em sua casa “quilos” de cartas recebidas do poeta Mário de Andrade (1893-1945), entre outras possíveis preciosidades, segundo Werneck.

Quem sabe uma pesquisa no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro possa revelar fatos inéditos de sua atuação no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura e propaganda à época da ditadura de Getúlio Vargas (1882-1954), uma passagem de sua vida que não seria edificante, mas que não deve ser vista sob os olhos de hoje em que as ideologias de direita e esquerda fracassaram completamente. De fato, de 1941 a 1943, ele dirigiu, ao lado do jornalista Almir de Andrade (1911-1991), ideólogo do Estado Novo (1937-1946), a publicação Cultura Política: Revista de Estudos Brasileiros, mantida pelo DIP.

Até por isso, como mostra Werneck, Fusco é uma personalidade perfeita para uma biografia de sucesso. Irreverente, iconoclasta, verborrágico e frasista, deve ter deixado impresso e manuscrito muito material, além dos livros publicados. A princípio, essa biografia deveria ser escrita pelo próprio Werneck ou por Joaquim Branco, nascidos em Cataguases, que, em sua juventude naquela mítica cidade do interior de Minas Gerais, conheceram o romancista já em seus últimos anos de vida. Ou por Luiz Ruffato, cataguasense de geração mais recente.

Mas, pensando bem, dessa missão também poderia encarregar-se um pesquisador literário disposto a escrever uma tese de doutoramento em Letras na área de Literatura Brasileira. Nesse caso, Werneck, Branco e Ruffato seriam fontes indispensáveis. Até porque a essa altura da vida já não haveria contemporâneos da época de juventude de Fusco.



Portanto, Sob o Signo do Imprevisto, é, desde já, uma contribuição indispensável e valiosa para uma futura biografia de Fusco, pois traz não só as lembranças que Werneck guardou como a famosa entrevista que o romancista deu a ele e a Joaquim Branco e publicada pelo semanário Pasquim, do Rio de Janeiro, na edição de 19 a 25 de março de 1976. Naquela entrevista, depois de dizer que “ninguém vive de literatura”, Fusco dava como exemplo o escritor francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), que, segundo ele, vivia à custa de uma jovem mulher e não podia admitir que um de seus romances pudesse vender apenas 30 mil exemplares, enquanto as memórias de um ex-secretário da atriz Brigitte Bardot vendiam mais de 300 mil “só na chamada área parisiense” (p.102).

Ainda naquela entrevista, esbanjando erudição, Fusco dizia-se precursor do “realismo fantástico” no romance sul-americano. Lembrava que Julio Cortázar (1914-1984) aprendera “a coisa” com Jorge Luis Borges (1899-1986), que começara a produzir textos de “realismo fantástico” em 1942. “Ora, em 39, eu escrevi O Agressor, que demorou quatro anos na José Olympio e só saiu em 43”, argumentava.

Depois, ridicularizou o “realismo fantástico”, considerando-o “besteira”, lembrando que já existia o suprarrealismo de André Breton (1896-1966) e Guillaume Apollinaire (1880-1918). E acrescentava: “(...) o suprarreal, significando algo mais que o real ou o outro lado dele, diz mais do que realismo grudado a fantástico”. Dizia ainda que o real independe da existência, podendo até precedê-la. “Tomás de Aquino já associava a potência e o ato, ou distinguia o ser da existência (coisa que o vosso amigo Sartre explorou às pampas) pois que a essência precede a existência (Heidegger, Husserl etc.)”, afirmava aos entrevistadores.

Para Fusco, vivia-se (e vivemos ainda!) um tempo semântico. “A mesma coisa e a mesmice se impondo com outros nomes. Inventa-se uma palavra (inventa-se ou valoriza-se) e logo vem uma teoria para lhe dar curso”, dizia (pp.91-92).


                                               IV
Rosário Fusco de Souza Guerra, nascido em São Geraldo-MG, filho de um comerciante italiano e de uma lavadeira, ficou órfão de pai logo em seus primeiros meses de vida e mudou-se com a família para Cataguases. Em 1925, com 15 anos de idade, iniciou intensa correspondência com o grupo modernista de São Paulo e começou, bastante cedo, a publicar seus poemas no jornal Mercúrio, da Associação Comercial de Cataguases.

Ainda aluno do ginásio de Cataguases, frequentou as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e participou da fundação do grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, importante publicação modernista editada entre 1927 e 1929. Essa revista contou com a colaboração de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e de outros países.

Em 1932, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu, em 1937, o curso de Direito na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e realizou intensa atividade na imprensa como crítico e jornalista. Nessa época trabalhou também como publicitário, cronista de rádio, redator-chefe da revista A Cigarra, crítico literário do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, secretário da Universidade do Distrito Federal e procurador do Estado de Guanabara, cargo em que se aposentou.

Depois de trabalhar, na década de 1940, como adido da Embaixada do Brasil em Santiago do Chile, candidatou-se a deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro, na década de 1950, mas não conseguiu se eleger, apesar do slogan criativo que exibia: “Não fique confuso, fique com Fusco”. Sua justificativa: “Os imbecis não me entenderam, o que, aliás, não é novidade”. Por volta de 1960, mudou-se para Nova Friburgo-RJ, onde permaneceu até 1968, tendo retornado em seguida para Cataguases, onde faleceu.

Em 2000, a editora Bluhum, do Rio de Janeiro, relançou O Agressor. Em 2003, a Ateliê Editorial, de Cotia-SP, publicou um dos livros que Fusco deixou inédito, a.s.a. - Associação dos Solitários Anônimos, definido como “uma rapsódia surrealista” pelo crítico Manuel da Costa Pinto. Fusco publicou mais dois romances – O Livro do João (1944) e Dia do Juízo (1961) –, além de obras de poesia, ensaios e teatro. Segundo Werneck, existem ainda outros inéditos, como Vacachuvamor, romance; Um jaburu na Tour Eiffel, livro de viagem; e Creme de Pérolas, poemas eróticos.


                                               V
Ronaldo Werneck nasceu em Cataguases, morou por mais de 30 anos no Rio de Janeiro e voltou a viver na cidade natal desde o final do século passado. Jornalista e crítico, colaborou com vários jornais e revistas cariocas. Desde 1968, colabora com o Suplemento Literário Minas Gerais, onde publicou poemas, resenhas e críticas de cinema.

Poeta, tem oito livros publicados: Selva Selvaggia (1976), pomba poema (1977), minas em mim e o mar esse trem azul (1999), Ronaldo Werneck Revisita Selvaggia (2005), Noite Americana/Doris Day by Night (2006), Minerar O Branco (2008), cataminas pomba & outros rios (2012), e o mar de outrora & poemas de agora (2014).

O escritor lançou também em 2009 o livro-ensaio Kiryrí Rendáua Toribóca Opé – Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck e os livros de crônicas Há Controvérsias 1 (2009) e Há Controvérsias 2 (2011). Desde os anos 1990, assina a coluna Há Controvérsias, publicada em vários blogs e no jornal O Liberal, de Cabo Verde. Adelto Gonçalves - Brasil

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Sob o Signo do Imprevisto: Rosário Fusco visto por Ronaldo Werneck, de Ronaldo Werneck, com apresentação de Luiz Ruffato e prefácio de Joaquim Branco. Cataguases-MG: Poemação Produções, 128 págs., 2017.
E-mail: poemacaoproducoes@gmail.com


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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Ronaldo Werneck – Para mais informações aceda aqui

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Ronaldo Werneck e o rio de Minas

I

Tantos anos depois do desaparecimento de Rosário Fusco (1910-1977), romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e crítico literário reconhecido pela crítica como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário, Cataguases, pequena cidade da Zona da Mata de Minas Gerais, nascida em 1877 à época da “febre” pela busca de diamantes (afinal, nunca encontrados), continua a exibir seus talentos literários. Os mais notórios hoje são os romancistas e contistas Luiz Ruffato, Ronaldo Cagiano, ambos da safra de 1961, e Eltânia André.

Sem esquecer de Joaquim Branco (1940), que lançou, no ano passado, Pequena história da fundação de Cataguases. Ou de Guilhermino César (1908-1993), que igualmente exaltou e evocou a mítica Cataguases. Ao lado de outros expoentes do Movimento Verde, como Ascânio Lopes (1906-1929) e Francisco Ignácio Peixoto (1909-1986), que, com Guilhermino César e tantos outros, editaram a Revista Verde (1927-1929), publicação que teve colaboradores da estirpe de Mário de Andrade (1893-1945), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Aníbal Machado (1894-1964), Antônio de Alcântara Machado (1901-1935), Sérgio Milliet (1898-1966) e Ribeiro Couto (1898-1963), entre outros.

Da geração de Joaquim Branco, Ronaldo Werneck (1943) é outro literato que continua em plena atividade, como provam seus últimos lançamentos: O mar de outrora & poemas de agora (2014) e Cataminas pomba & outros rios (2012), livros de poemas entremeados por muitas fotos captadas pelo próprio autor e por sua esposa, Patrícia Barbosa, e outras de arquivo.


                                               II
Poeta de textos rápidos, instantâneos, fragmentários e, às vezes, simultâneos, Werneck é, no dizer do poeta, ensaísta, dramaturgo e romancista W. J. Solha, autor do prefácio de O mar de outrora & poemas de agora, dono de um trabalho virtuosístico em cima da palavra. Solha cita como exemplo o poema “Fogalegre” em que Werneck brinca com o nome de Audrey Hepburn – happy, rap, help, burn –, tal como Shakespeare (1564-1616), 400 anos antes, pusera a sua assinatura em Antonio e Cleópatra, ao dizer que alguém, como um animal, shakes his ears.

Mais: compara-o, sem recorrer a hipérboles, a Guimarães Rosa (1908-1967), Millor Fernandes (1923-2012), James Joyce (1882-1941) e Ezra Pound (1885-1972). De fato, Werneck, depois de deglutir toda a experiência poética do século 20, é hoje um dos poucos poetas brasileiros capazes de recorrer a todas as formas possíveis de fazer versos para expressar o seu testemunho de um mundo desgovernado, pois a vida é breve/ tome lépido o leme e engrene/ torne-a leve/ não deixe que ela se apequene, como diz no poema “Lemeleve”. É o que se pode ver também em “23.10.13”, poema em que diz: hoje tenho setenta/ e de novo e sempre/ a vida me inventa/ aos setenta e a cada dia – vírus que me adentra – tomado sou pela poesia.

Como se percebe, o livro constitui o resultado do deslumbramento do poeta pela vida e um balanço de seus setenta anos, a partir da infância em Cataguases, a atração pelo mar tão distante, a vida errante pelo Rio de Janeiro, Bahia e as viagens pelo mundo: Paris, Nova York e Barcelona, até o retorno a Cataguases na idade madura.


                                                III
Cataguases é também homenageada em Cataminas pomba & outros rios, com o poeta recuperando na memória pedaços de sua infância, figuras marcantes de Cataguases, tipos populares, os seus familiares, seus amigos, como observou Manuel das Neves (1914-1999) em prefácio que escreveu em 1977 para Pompa Poema, livro-gênese deste. Como resumo, bastam as palavras deste poema:

(...) nada vale com algemas
pois a palavra é poesia
                                   e a poesia morreu
são cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
            e dos homens com as coisas
mas nos lados de santa rita
lá entre djaniras lá
entre faculdades orfanatos lá
em meio ao paço centenário lá
entre marciers encobertos
lá entre andorinhas suspeitas lá
a sé velha
bate que bate
diz o vate guilhermino
homenino diz-que lá
a poesia chegará
aos verdes fordes gêmeos do ascânio
se transmutam
                        se debruçam
ainda como gerânios
e levam
upa!
o mesmo sonho na garupa
e trotam belos galgos fidalgos
amarelos burros bucólicos
burricos borrando o município (...)

Ninguém definiu tão bem a poesia de Werneck quanto o professor Fábio Lucas, igualmente de alma mineira, para quem só se pode entrar neste livro “como quem ingressa num sonho, puxado por um rio sem foz”. Para ele, Werneck sempre levou em suas lembranças Cataguases, ainda que tenha percorrido o mundo: “Onde quer que tenha estado poeta, corria no seu íntimo o rio de Minas”. Melhor definição, impossível.


                                               IV
Nascido em Cataguases, Ronaldo Werneck morou por mais de 30 anos no Rio de Janeiro, mas voltou a viver em sua cidade natal ao final do século passado. Jornalista e crítico, colaborou com jornais e revistas cariocas, como Jornal do Brasil, Pasquim, Diário de Notícias, Última Hora, Revista Vozes, Revista Poesia Sempre e Revista História, ambas da Biblioteca Nacional. Em 2013, organizou a edição especial sobre Cataguases para o Suplemento Literário Minas Gerais. Desde 1968, colabora com esse Suplemento, onde publicou poemas, resenhas e algumas críticas de cinema.

Poeta, tem mais seis livros publicados: Selva Selvaggia (1976), pomba poema (1977), minas em mim e o mar esse trem azul (1999), Ronaldo Werneck Revisita Selvaggia (2005), Noite Americana/Doris Day by Night (2006) e Minerar O Branco (2008). Lançou em 2009 o livro-ensaio Kiryrí Rendáua Toribóca Opé – humberto MAURO revisto POR ronaldo WERNECK e os livros de crônicas Há Controvérsias 1 (2009) e Há Controvérsias 2 (2011). Em 2001, gravou em show ao vivo o cd Dentro & Fora da Melodia/Que papo é esse, poeta?

Ensaísta, tradutor e crítico de literatura, cinema e artes plásticas, Werneck tem textos e artigos publicados em vários veículos da mídia. Desde os anos 1990, assina a coluna "Há Controvérsias", publicada em vários blogs e no jornal O Liberal, de Cabo Verde. Produtor Cultural, foi um dos realizadores dos dois Festivais Audiovisuais de Cataguases – Música e Poesia (1969/1970) e coordenador da exposição Os Mineiros do Pasquim, em 2008.

Videomaker, editou em 2009 dois filmes sobre a trajetória do cineasta Humberto Mauro, sOLdade e mauro move O mundo. Membro do Pen Clube do Brasil, é verbete da Enciclopédia da Literatura Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, e do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Adelto Gonçalves – Brasil

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Cataminas pomba & outros rios - poemas, de Ronaldo Werneck. São Paulo: Dobra Editorial, 268 págs., 2012. Site: www.dobraeditorial.com.br

O mar de outrora & poemas de agora, de Ronaldo Werneck. Belo Horizonte: Anome Livros, 176 págs., 2014. Sites: www.anome.com.br www.ronaldowerneck.com.br
E-mail: roneck@ronaldowerneck.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br