O pastor Silas Malafaia é pela
manutenção da escala de trabalho 6x1 e diante de seus fiéis, numa pregação na
sua igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro, aproveitou
para criticar o Bolsa Família e ironizar "do jeito que estão indo as
coisas, logo haverá
gente querendo um dia de trabalho e seis de folga".
Evidentemente existe muito cinismo quando um milionário
rejeita a escala 5x2, um dia de folga para os trabalhadores de menores
salários, porém o pastor Malafaia tem a seu favor a Bíblia. Segundo ela, foi o
próprio Deus quem criou a escala 6x1, pois teria trabalhado seis dias para
criar a Terra, o homem e a mulher, mas no sétimo dia, escreve o primeiro livro
bíblico, o de Gênesis, Deus descansou.
E, mais tarde, ao entregar os dez mandamentos para
Moisés, Deus colocou a obrigação do descanso no sétimo dia, como terceiro
mandamento, depois dos seis dias de trabalho, para a família humana. E isso
incluía mesmo seus visitantes, seus animais e seus servidores, em outras
palavras, seus escravos.
A ideia de um Deus cansado e ao mesmo tempo generoso era
simplesmente simbólica, mesmo porque os sete dias de trabalho e descanso
divinos não se repetiam. Mas essa primeira lei trabalhista, atribuída ao
sobrenatural e inscrita nos livros religiosos desde os primeiros agrupamentos
humanos, foi oportuna pois impedia a exaustão das pessoas numa época em que
nenhum trabalho era mecânico.
Entretanto, a crença de uma origem divina da primeira lei
limitando o tempo semanal de trabalho não significa que não possa ser
melhorada. Aqui o erro dos fundamentalistas bíblicos, no caso Silas Malafaia e
dos pastores evangélicos que lhe seguem nessa linha.
A escala bíblica do 6x1 tinha uma falha básica: não
estabelecia quantas horas diárias se deveria trabalhar nos dias favoráveis.
Assim, de uma maneira geral, mas vamos citar a França, só em 1848, os
trabalhadores conseguiram limitar para 12 horas a duração do trabalho diário.
Na maioria dos países ocidentais, trabalhava-se de 14 a 16 horas por dia. Marx
defendia a jornada de 10 horas, mas a Revolução Russa de 1917 foi além, criou a
jornada de 8 horas, imitada por outros países, como a França, em 1919.
Apesar de resistências de certos políticos e
empregadores, existem setores no Brasil que já adotaram, faz tempo, escalas
semanais de horas de trabalho favoráveis aos empregados.
É o caso dos empregos com a chamada semana inglesa e o dos bancários com cinco
dias de seis horas diárias num total de trinta horas semanais.
Entretanto, existem certas atividades de trabalhadores
avulsos, como as empregadas domésticas, que dificilmente se adaptarão à escala
5x2 por pressão de seus patrões. Esse setor bem se enquadra na crítica do Canal
Metrópoles sobre a mentalidade histórica de raízes coloniais de certos patrões,
herdada do período da escravidão. Em compensação, o Valor
Econômico já publicou reportagem mostrando a adesão de algumas empresas
varejistas à escala 5x2 para seus empregados.
Em contrapartida, os trabalhadores de plataformas
digitais conhecidos como uberizados ou empreendedores autônomos com
flexibilidade horária, escapam à escala 5x2 e das proteções trabalhistas,
embora esteja sendo discutida a regulamentação de seus trabalhos. Fora da
proteção da CLT, Consolidação das Leis do Trabalho, estão sem férias
remuneradas e sem 13.º salário, trabalhando jornadas que ultrapassam as 8 horas
normais e sem descanso semanal. Rui Martins – Suíça
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Rui Martins é
Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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