Caiu o pano de mais um espectáculo em patuá, interpretado pelo grupo Dóci Papiaçám di Macau, e o dramaturgo e encenador já pensa na próxima edição. Levantando um pouco o véu daquilo que poderá ser satirizado em 2026, Miguel de Senna Fernandes disse ao Jornal Tribuna de Macau que a ideia é dar continuidade aos temas relacionados com “os novos ventos” do desenvolvimento do território. O responsável mostra-se satisfeito com a actuação das pessoas em palco, “que conseguiram envolver o público”, destacando a simbiose entre os mais velhos e as novas gerações. Por outro lado, confirmou a este jornal que o Instituto Cultural pediu que fosse retirada “uma expressão”, tendo o grupo feito uma rectificação
Casa cheia no sábado à noite e plateia
com menos gente no domingo à tarde constituem o balanço da adesão do público a
mais um ano de espectáculo em patuá, interpretado pelo grupo de teatro Dóci
Papiaçám di Macau, que teve por palco o Grande Auditório do Centro Cultural.
Incluída no programa do Festival e Artes, a peça de quase
duas horas e meia de duração, com legendas em português, inglês e chinês,
abordou o ambiente socioeconómico de Macau com muito humor e sátira social.
O enredo girou em torno de duas irmãs que assumiram o
restaurante do pai (o estabelecimento “Glorioso”) após a sua morte. “E Agora
Como? (E agora?)” reflectiu o impacto do fecho de casinos-satélite e as
dificuldades do pequeno comércio.
O dramaturgo e encenador mostra-se “muito satisfeito”,
porque as pessoas em palco “conseguiram envolver o público, que é o mais
importante”, disse ao Jornal Tribuna de Macau. Miguel de Senna Fernandes afirma
que “todos os anos a experiência se repete, sendo uma confirmação do esforço
comum”, adiantando que “cada participante teve oportunidade de, por si e
juntamente com os outros, realizar algo de pessoal, uma vez que há sempre
espaço para alguma criatividade dentro do guião, o qual permite essa
liberdade”.
Como todos os anos acontece, houve algumas revelações,
como foi o caso de Eduardo, de apenas 11 anos de idade, que teve a
responsabilidade de apresentar a peça. E é nestas novas gerações que o mentor
do espectáculo aposta, sem nunca descurar os mais velhos, já veteranos nestas
andanças.
“O Doçi Papiaçám não é aquela escola tradicional de
teatro, mas também é uma escola em que se aprende a estar em palco”, salienta,
acrescentando que “enfrentar o palco é psicológico e treina-se”. Para o
encenador, que há 33 anos fundou o grupo, “quem tem experiência de palco tem
experiência da vida, sendo isto uma oportunidade fantástica de auto-estima e de
auto-afirmação”. Por isso, nota, “queremos apostar nas novas gerações para dar
continuidade ao espectáculo e ao próprio patuá, como língua”.
Referindo-se à tecnologia utilizada, desta feita com
algumas imagens geradas através de Inteligência Artificial, diz que esta
ferramenta “tem de ser aproveitada, uma vez que está ao nosso dispor e permite
muitas vezes dar azo a que nós possamos realizar algo que nós idealizámos e não
iríamos conseguir pelas nossas próprias mãos”.
No entanto, na peça deste ano, notou-se que os momentos
musicais foram escassos, ao contrário de espectáculos anteriores. “Reconheço
que deveria haver mais”, admitiu, afirmando que, “o que houve foi conseguido em
tempo recorde pela Joana Freitas e pela Agurtzane Cordeiro que quiseram
arriscar, tendo resultado bem”. Para o ano, revela, “vou apostar mais na música
e nas canções, porque é de facto importante, posso mesmo dizer insubstituível”.
E por falar na edição de 2026, Miguel de Senna Fernandes
diz já ter algumas ideias, com o tema a andar provavelmente à volta dos “novos
ventos” da RAEM. “Para onde é que se vai hoje em dia quando se quer desenvolver
Macau?”, questiona, dando um exemplo: Hengqin.
Aponta o mês de Setembro para começar a definir a
história da peça. “Mas terá sempre a ver com os novos ventos do desenvolvimento
do território”, expressa.
O responsável do grupo Dóci Papiaçam di Macau
congratula-se pelo apoio dado pelo Instituto Cultural (IC). “A presidente,
Leong Wai Man, esteve na plateia e no final foi aos bastidores apresentar
cumprimentos, o que é um sinal de que podemos contar com o seu apoio e de facto
não nos podemos queixar de nada ao longo destes anos”, menciona.
Sobre a obrigação de apresentação, à “priori”, do guião
do espectáculo ao IC, o dramaturgo desvaloriza algumas rectificações feitas
pontualmente. “Falaram comigo e nós retirámos uma expressão, apenas isso, mas
nós compreendemos e aceitamos”, conclui.
Relativamente ao programa do Festival de Artes, outro
espectáculo teatral estará em cena nos próximos dias 29 e 30 de Maio,
sexta-feira e sábado, às 20h00, no Grande Auditório do IC. “Divina Comédia”
terá interpretação do grupo italiano NoGravity. Vítor Rebelo – Macau
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