Historiador
Daniel Pires reúne textos (quinze inéditos) do “padre voador” que estavam esquecidos
nos arquivos
I
Uma vida breve, mas assinalada por fatos
que marcaram uma personalidade muito à frente de seu tempo, capaz de produzir
textos extremamente importantes – essa descrição do que representou o sacerdote
secular Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724) pode ser comprovada com a
leitura dos textos (quinze deles inéditos), além de traduções, petições e peças
científicas em latim, que foram reunidos em Obra de Bartolomeu
de Gusmão (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda – IN-CM, 2025),
pelo historiador, pesquisador e professor Daniel Pires. Nascido na então vila
de Santos, no Brasil, o religioso ficou conhecido como padre voador,
por ter inventado o primeiro aeróstato operacional (balão de ar quente), a
“Passarola”, que subiu (sem tripulante) aos céus em 1709, em Lisboa, fato que
acabou por circunscrever o seu nome a essa experiência pioneira, relegando
praticamente ao esquecimento uma obra marcada por sua erudição e criatividade e
por seu visionarismo e espírito científico.
Diplomata, poliglota, filósofo, polígrafo,
poeta, ensaísta e orador sacro, Bartolomeu de Gusmão é considerado o primeiro
cientista do continente americano. Morreu em Toledo, na Espanha, provavelmente
por febre tifoide, em meio a uma vida tumultuada e atribulada por perseguições
movidas pelo preconceito, pela inveja e pela ignorância, à frente das quais
estava o Tribunal do Santo Ofício. Ainda em 2026 será possível conhecer
circunstâncias mais detalhadas e fundamentadas dessa vida com a publicação pela
IN-CM de uma biografia também preparada por Daniel Pires, que fez intensas
pesquisas em arquivos de Portugal, Espanha e Brasil, tendo coligido novas
informações sobre essa figura genial.
Para confirmar esse juízo, basta lembrar que Bartolomeu de Gusmão
criou um aparelho aerostático 74 anos antes dos irmãos franceses Montgolfier – Joseph-Michel
(1740-1810) e Jacques-Étienne (1745-1799) –, que construíram o Étienne, balão
que subiu aos céus em 9 de setembro de 1783, levando uma ovelha, um pato e uma
galo para testar os efeitos da altitude. O primeiro voo tripulado por humanos e
idealizado pelos irmãos Montgolfier foi realizado a 21 de novembro de 1783, com
Jean-François Pilâtre de Rozier (1754-1785) e o marquês François d´Arlandes
(1742-1809), aventureiros que voaram sobre Paris por cerca de 25 minutos.
Apesar do pioneirismo de Bartolomeu de Gusmão, o seu
espólio foi queimado pela Inquisição, que impôs igualmente a proibição, durante
um século, de que seu nome fosse citado em documentos, orações sacras e
apresentações públicas. O que se espera é que essa biografia bem como este
livro que reúne textos de sua lavra sejam em breve publicados também por
editora brasileira, já que se trata de um santista ilustre, cuja memória é
reverenciada em monumento inaugurado em 1923 e localizado à Praça Rui Barbosa,
antigo Largo do Rosário, no tradicional centro de Santos. O monumento, de
estilo clássico, inclui um obelisco de granito, bustos do rei D. João V
(1689-1750) e do aeronauta e inventor Alberto Santos Dumont (1873-1932), além
de figuras em bronze.
II
O que se pode adiantar ao futuro leitor é
que Bartolomeu de Gusmão, ainda bem jovem, oriundo de uma família próspera e
numerosa (12 filhos), deixou a vila de Santos para estudar no Seminário Jesuíta
de Belém da Cachoeira e no Colégio de Jesus, na Bahia, onde iniciou sua
formação religiosa e demonstrou talento para ciências e mecânica. No local, ele
também teria desenvolvido um sistema para transportar água de um brejo para o
seminário. Como seu conhecimento e habilidade não podiam ficar limitados ao
Brasil profundo de então, por empenho de seus professores, pôde rumar em 1708
para Lisboa, onde logo atraiu a atenção do D. João V, que por ele passou a
nutrir particular admiração, como observa Daniel Pires.
Matriculou-se então na Universidade de
Coimbra e não demorou muito a apresentar ao monarca um projeto de um invento
aerostático. Com a aprovação do rei, passou a trabalhar numa propriedade régia,
em Alcântara. Despertou a admiração de alguns nobres, mas também atraiu a
inveja de muitos despeitados que passaram a se referir ao seu invento com uma
mescla de ironia e sarcasmo. Sem contar que imediatamente a alta hierarquia da
Igreja Católica passou a considerar a sua máquina aerostática um “corolário de
feitiçaria”, algo ligado ao demônio e ao judaísmo.
Também a juventude do inventor contribuiu
para que germinasse essa má vontade com o seu invento que, no dia 5 (ou 8) de
agosto de 1709, na Casa das Índias, subiu cerca de quatro metros, antes de se
despenhar. Como diz Daniel Pires, o aparente insucesso da “Passarola” despertou
o sarcasmo e a injúria de uma sociedade atrasada, provinciana, na maior parte
analfabeta, que cultivava a intolerância, sem levar em conta que aquela havia
sido a primeira vez que um objeto mais leve que o ar havia empreendido uma ascensão
ao espaço.
Em razão disso, aquele jovem de 23 anos
teve de abandonar o seu projeto, mas não desistiu de buscar respostas
científicas e, em 1710, publicou uma obra relevante para a navegação. Depois,
para fugir à opressão em Lisboa, viveu três anos entre Londres, Haia e Paris,
onde teve o apoio de seu irmão e discípulo Alexandre de Gusmão (1695-1753), que
depois tornar-se-ia diplomata e teria papel crucial nas negociações, pelo
Império português, do Tratado de Madrid, assinado com a Espanha em 1750, que
definiu os limites entre os domínios de ambas as potências coloniais na América
do Sul e na Ásia.
Em 1717, o inventor regressaria a Portugal
e teria a oportunidade de concluir um doutoramento em Cânones, em 1719, quando
então seria convidado a atuar como assessor do rei D. João V, especialmente
sobre assuntos científicos. Teve a oportunidade de ajudar na criação da
Academia dos Anônimos, da Academia Portuguesa e da Academia Real da História
Portuguesa. E desenvolveu experiências para aumentar a produção de moinhos
hidráulicos e a fabricação de carvão com terra artificial, além de atuar como
conselheiro régio, decodificando documentos de nações inimigas. Apesar disso,
em 1724, voltaria a ser vítima de perseguições encetadas pela Inquisição, o que
o obrigou a fugir para o exterior, morrendo em situação de miséria, sozinho,
doente, em Toledo, na Espanha, em 1724.
III
Entre os papeis inéditos de Bartolomeu de
Gusmão, está um documento de 1723, originalmente redigido em latim, que
estabelece as características de um sextante sofisticado que o sacerdote havia
solicitado a D. Luís da Cunha (1662-1749), embaixador em Paris, que comprasse
naquela cidade, para atender à pretensão do rei D. João V de desenvolver a arte
de navegação. Esse documento consta do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, mas,
até agora, havia passado despercebido pelos biógrafos.
Há outra uma carta de Bartolomeu de Gusmão
a D. Luís da Cunha esclarecendo, com exatidão, o que pretendia, além de mais
uma em que o sacerdote pedia àquele nobre que obtivesse uma planta do
Observatório Astronômico de Paris, pois pretendia construir em Portugal uma
instituição semelhante. Esse projeto, porém, seria adiado em razão da trágica morte
de Bartolomeu de Gusmão e só em 1799 seria fundado o Observatório Astronômico
da Universidade de Coimbra.
Além dessa extensa documentação oficial, a
obra traz correspondência privada do religioso, como uma carta de fevereiro de
1720 em que ele pede ao rei autorização para se matricular no curso de Cânones
fora do prazo estipulado, “por ter estado ocupado na redação de alegações, em
defesa dos interesses régios”. É possível ainda ler o extenso sermão “Ecce
Filius Tuus” em que o religioso faz uma descrição do nascimento
do reino de Portugal, bem como o “Sermão da Paixão”, a ele atribuído, que
consta do arquivo da Biblioteca da Ajuda, além de um terceiro texto sacro. Em
todos, constata-se o profundo conhecimento que o orador tinha do conteúdo dos
Santos Evangelhos. Para Daniel Pires, os três sermões “refletem capacidade
argumentativa, convicção e um pensamento lógico linear”, cuja metodologia “é
igualmente digna de registro”, com destaque para o “Sermão da Paixão”, “um
texto literário de fino quilate”.
É de se destacar ainda a atuação de
Bartolomeu de Gusmão como filósofo, especialmente a partir da leitura de dois
textos dessa natureza. Num deles, de caráter biográfico, como diz Daniel Pires,
o filósofo “insurge-se contra a arrogância daqueles que, movidos pela inveja e
para esconder a sua ignorância, menorizam ou desprezam as pessoas que se
distinguem pela inovação intelectual, pelos princípios éticos e pelo seu
idealismo”.
Como observa o historiador, esse texto
teria sido redigido na sequência da ascensão da “Passarola”, que, na verdade,
só na aparência teria sido um insucesso. E acrescenta: “Recorde-se que surgiram
então comentários mordazes, prosas e poemas satíricos, quase sempre anônimos,
como é próprio da falta de deontologia. Na verdade, este ensaio é o corolário
da observação do meio intelectual português de então, estreito e anêmico”.
IV
Doutor em Cultura Portuguesa pela
Universidade de Lisboa, Daniel Pires (1951) é mais conhecido por suas pesquisas
sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), sua paixão literária, o
que o levou a ser cofundador, em 1999, em Setúbal, do Centro de Estudos
Bocageanos, instituição que dirige desde então, além de defender tese de
doutoramento a respeito da obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra
completa de Bocage, publicada pela editora Edições
Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007.
É autor de outros livros sobre o poeta e
coordenador e editor de vários trabalhos de divulgação da produção bocageana. Recentemente,
publicou O essencial sobre Manuel Maria de
Barbosa du Bocage (Lisboa, IN-CM, 2023), biografia
sucinta, que abriga os principais aspectos de uma existência marcada por
acontecimentos inauditos que não impediram o poeta de construir uma obra
marcante na história da literatura de língua portuguesa.
Nascido em Lisboa, Daniel Pires é licenciado
em Filologia Germânica e já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi
professor em Setúbal. Foi leitor de Português nas universidades de Glasgow,
Macau e Goa e professor cooperante em São Tomé e Príncipe e Moçambique. Em Macau, viveu entre 1987 e 1990 e lá atuou
na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a
cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.
Tem realizado numerosas atividades, como
colóquios, conferências, visitas guiadas e exposições, e desenvolvido intensa
atividade editorial, tendo editado já dezenas de livros. É editor de Obras
completas de Bocage (Lisboa, IN-CM, 2016-2018, 3 volumes,
4 tomos) e autor de Bocage ou o elogio da inquietude
(Lisboa, IN-CM, 2019) e Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro
de Estudos Bocageanos, 2000).
Organizou e publicou a brochura da Exposição
biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de
nascimento e dos 190 anos da morte
de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca
Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de
uma pasta com 15 belos cartões postais (sépia) sobre Bocage na prisão
(Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 1999), além de fazer parte das
comissões que organizaram as comemorações do bicentenário da morte de Bocage,
em 2005, e as comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, em 2015.
Publicou ainda o Dicionário da
imprensa periódica literária portuguesa no século
XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes. Colaborou no Dicionário de História
de Portugal e no Dicionário de Fernando Pessoa
e é autor do Dicionário da imprensa de Macau
do século XIX, trabalho iniciado em 1990 em que descreve
todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os
jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), saíram
simultaneamente em Macau e em Cantão, e do Dicionário de imprensa
periódica do Antigo Regime em Portugal
(Lisboa, Theya Editores, 2024).
É autor de A imagem e o
verbo – Fotobiografia de Camilo Pessanha
(Instituto Cultural do governo da Região Administrativa Especial de
Macau/Instituto Português do Oriente, 2005), além de artigos sobre esse poeta
nascido em Coimbra em 1867 e que, a partir de 1894, viveu em Macau, onde morreu
em 1926. Escreveu também trabalhos sobre o poeta Wenceslau de Moraes
(1854-1929). E organizou Camões pequeno
– Obra completa de Francisco Álvares da
Nóbrega (2024), que reúne produções desse poeta madeirense nascido em
1773, em Machico, e falecido em 1806, em Lisboa.
É autor também de Padre Gabriel Malagrida – o último condenado ao fogo da Inquisição (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2012), Marquês de Pombal, o Terramoto de 1755 e o Padre Malagrida (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2013) e Raul Proença: o caso da biblioteca (Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988), que contou com organização, estudos e notas de Daniel Pires e José Carlos González. Adelto Gonçalves - Brasil
____________________________
Obra de Bartolomeu de Gusmão, de Daniel Pires. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 22,50 euros, 271 páginas, 2025. Site da editora: www.imprensanacional.pt E-mail: editorial.apoiocliente@incm.pt E-mail do autor: danielbrspires@outlook.pt
__________________________________
Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola
e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1999), Barcelona brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os vira-latas da madrugada
(José Olympio Editora, 1981; LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o
poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019),
entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on
Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na
Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
Sem comentários:
Enviar um comentário