Análise mundial desde 1980 - que conta com a participação de investigadores da Universidade de Coimbra - revela desaceleração histórica na Europa Ocidental, incluindo Portugal, mas alerta para o aumento do problema em regiões desfavorecidas
Um estudo internacional publicado na
revista Nature, que conta com o contributo de investigadores da
Universidade de Coimbra (UC), revela que a evolução da obesidade a nível global
mostra sinais de estabilização e até de possível inversão em vários países de
elevado rendimento, após décadas de crescimento acelerado.
A investigação, liderada pelo NCD Risk Factor
Collaboration (NCD-RisC) em parceria com a Imperial College London, analisou a
evolução da obesidade em 200 países e territórios entre 1980 e 2024, com base
numa das mais abrangentes bases de dados epidemiológicos alguma vez reunidas
nesta área, integrando informação proveniente de milhares de estudos
populacionais e de centenas de milhões de participantes.
Os resultados mostram que, após um aumento rápido e
sustentado da prevalência da obesidade ao longo das últimas décadas do século
XX, observa-se um abrandamento claro desse crescimento na maioria dos países de
elevado rendimento. Em diversos contextos, verifica-se mesmo uma estabilização
das taxas e, em alguns casos, sinais de diminuição, particularmente entre
crianças e adolescentes, com reflexos posteriores nas populações adultas. Entre
os países onde estas tendências são mais evidentes incluem-se alguns exemplos
da Europa Ocidental, como Portugal, França e Itália.
Segundo os autores, estes padrões sugerem que a ideia de
uma “epidemia global de obesidade” pode ser uma simplificação excessiva, na
medida em que esconde trajetórias muito distintas entre países e regiões,
influenciadas por fatores sociais, económicos e, em particular, pela
disponibilidade e acessibilidade a alimentos saudáveis.
Apesar destes sinais encorajadores em alguns contextos, o
estudo sublinha que a obesidade continua a aumentar de forma consistente em
muitos países de baixo e médio rendimento, com especial incidência em várias
regiões de África, Ásia, América Latina e em ilhas do Pacífico e das Caraíbas,
evidenciando uma forte desigualdade global na evolução deste problema de saúde
pública.
Para o professor Majid Ezzati, coordenador do estudo no
Imperial College London, os resultados demonstram que “o aumento da obesidade
não é inevitável e pode ser travado, ou mesmo invertido, através de políticas
adequadas”. Ainda assim, o investigador alerta que os níveis atuais permanecem
elevados e que as desigualdades entre regiões continuam a ser muito
significativas.
Na mesma linha, Aristides Machado-Rodrigues, co-autor do
estudo e investigador do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS)
da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e
docente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da UC, sublinha
que “analisar não apenas a prevalência, mas também a velocidade de mudança da
obesidade ao longo do tempo, permite identificar com maior precisão os
contextos onde são necessárias intervenções mais urgentes, nomeadamente através
de políticas públicas robustas nas áreas da saúde e da alimentação, capazes de
acompanhar as transições económicas, tecnológicas e nutricionais em curso”.
O trabalho contou ainda com a participação de outros
docentes e investigadores da UC, nomeadamente Cristina Padez e Daniela
Rodrigues, da FCTUC, Helena Nogueira, da Faculdade de Letras, e Luísa Macieira,
Lélita Santos e Anabela Mota-Pinto, da Faculdade de Medicina. Universidade
de Coimbra - Portugal
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