Num congresso online de homenagem à vida e obra de Rodrigo Leal de Carvalho, falou-se sobre aquele que é considerado um dos grandes ficcionistas do território pelos investigadores da área. E mencionou-se que a literatura de Macau é pouco valorizada, tornando-se difícil encontrar os livros da península asiática
Com a literatura de Macau, em língua
portuguesa, a ter pouco destaque fora da região, é difícil ter acesso às obras
dos escritores do território, como Rodrigo Leal de Carvalho. Os investigadores
Dora Gago, Lola Xavier, David Brookshaw, Mónica Simas e Pedro d’Alte, em
conjunto com o editor do autor, Rogério Beltrão Coelho, juntaram-se online
num congresso, no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau,
projecto impulsionado pelo historiador Rogério Miguel Puga, para discutir a
obra e a vida do ficcionista do território.
O programa começou com a apresentação de Dois Olhares
sobre a Obra de Rodrigo Leal de Carvalho, de Dora Gago e Anabela Freitas. “É o
único livro que fala só sobre Rodrigo Leal de Carvalho — permite compreender
melhor, valorizar e dar mais visibilidade à literatura de Macau em língua
portuguesa”, divulgando e estudando a obra deste ficcionista. Trata-se de um
livro que Lola Xavier, professora da Universidade Politécnica de Macau,
considera particularmente importante, dado que as literaturas africanas e de Macau
“continuam a ser vistas como periféricas”, havendo, por isso, pouca informação.
Rodrigo Leal de Carvalho era juiz e viveu grande parte da
sua vida em Macau, referindo-se a esta como como a sua “pátria de adopção”,
conforme citado no livro de Dora Gago e Anabela Freitas, numa entrevista. Com o
maior número de romances escritos sobre Macau, a sua obra retrata o território,
no século XX, e “quase todos os livros têm uma fundamentação real” ou são
inspirados em cenas verdadeiras, “manipuladas, em alguns casos, ao interesse
romanesco” da história, reflecte Lola Xavier.
A professora da Universidade Politécnica de Macau
identifica algumas das características da escrita e temáticas encontradas na
obra de Rodrigo Leal de Carvalho, como a visão positiva em relação aos
macaenses, o retrato da mulher gentil e feminina, o território como espaço de
encontro de culturas e a miscigenação.
O magistrado “discreto”, que não aceitava críticas
O editor do romancista, Rogério Beltrão Coelho,
responsável pela Livros do Oriente, conheceu-o, pela primeira vez, em 1992, e
quis publicá-lo. “Entre hesitações do autor e ultrapassada a vontade de usar um
pseudónimo”, em Janeiro de 1993, nasce o Requiem por Irina Ostrakoff.
“Estávamos perante um romance histórico, romance-saga ou romance psicológico,
no qual eram interceptados factos históricos, tudo com uma rara qualidade
literária”, descreve o editor, esclarecendo que se tratava de um apelo à
situação dolorosa dos refugiados. Um livro que lhe valeria, no ano seguinte, um
prémio do Instituto Português do Oriente, vindo, posteriormente, a ser
traduzido para chinês e para búlgaro.
Nos títulos que se seguiram, nota-se a “ligação visceral
a Macau, que é sempre apaixonada e irónica, sem deixar de exercer a crítica”.
Elogiando a sua capacidade de recriar ambientes, usando uma linguagem moderna,
Beltrão Coelho destaca o “levantamento das personagens” e a análise
psicológica.
Como temperamento, Beltrão Coelho descreve-o como
discreto, tanto que nunca ninguém pensou que pudesse ser autor de Requiem
por Irina Ostrakoff, dado o comportamento “conservador, tímido e
reservado”. Por isso, no dia do lançamento, havia muita curiosidade e
expectativa, tratando-se este “do mais concorrido lançamento de sempre de um
livro em Macau”, com 300 pessoas a acorrerem.
Nos outros títulos, que sempre contaram com uma larga
presença de pessoas nos seus lançamentos, mantinha sempre “a preocupação com o
estatuto de magistrado discreto” e era exigente com a discrição das capas. “Ia
tendo um colapso quando apresentei a capa do Romance de Yolanda”, que
era apelativa, mas, receoso do que os seus pares iriam dizer, viria a sair “com
outra bela capa inofensiva”.
Em 2007, lançou As Rosas Brancas do Surrey, o seu
último livro, em que a “escrita retoma a tradição de folhetim”, numa
colaboração entre o jornal Ponto Final e a Livros do Oriente.
Na última Feira do Livro em que se cruzou com o autor,
Leal de Carvalho chegou a falar com Beltrão Coelho sobre um enredo para um
futuro romance. “Passados anos ainda insisti, mas sem resposta e, recentemente,
perguntei junto da família por um romance inédito”, declara. Mas disso não há
conhecimento.
No fim da apresentação, Beltrão Coelho, deixa a pergunta
no ar. “Não será Leal De Carvalho o mais importante escritor que se refere ao
Extremo Oriente”, na senda de um Rudyard Kipling ou de um Somerset Maugham?
Descrevendo-o ainda como um homem “teimoso”, com
dificuldade em aceitar comentários, refere que tinha muitos amigos em Macau,
deixando uma “obra notável”. “As pessoas de Macau viam nele as histórias que
eles próprios conheciam e que estavam ali relatadas”, diz, esclarecendo que
muito do que era escrito tinha por inspiração pessoas ou eventos nos quais
esbarrou, no decurso do trabalho como magistrado. “No caso da Irina, aconteceu
quando foi preciso dar vazão ao seu espólio”, recorda.
As características literárias
Pedro d’Alte, docente na Universidade Politécnica de
Macau, destacou a importância de Rodrigo Leal de Carvalho, identificando-o como
o autor do território com mais romances editados.
Como principais características, o professor refere que
as obras demonstram “contornos de comunicação intercultural”, havendo, ao longo
dos seus livros, muitas vezes, “várias explicações sobre questões de linguagem,
com a presença de frases ou expressões em cantonense ou mandarim e inglês, que
contribuem para criar uma esfera de exotismo”.
Além disso, destaca o investigador, Leal de Carvalho
inclui, na sua obra, personagens femininas densas que contribuem para a
construção da história local, com um narrador confiável.
Falta, porém, “contrariar a redoma literária”, diz,
referindo-se ao desconhecimento generalizado que existe sobre a literatura de
Macau. “Enquanto não tivermos estas obras a serem estudadas para exame,
dificilmente vamos cumprir o propósito lusófono, pelo menos naquilo que têm de
mais positivo”, diz.
Fernandes e Carvalho: o duopólio da ficção literária
David Brookshaw, professor da Universidade de Bristol,
recorda que conheceu Leal de Carvalho em 1999, identificando-o como “um dos
romancistas mais prolíficos de Macau”, a par de Henrique de Senna Fernandes”.
Para o investigador britânico, os dois autores constituíam “o duopólio da
ficção literária” naquele território.
Entre as principais diferenças entre ambos, Brookshaw
destacou as fontes. “Para Fernandes, as fontes situavam-se no romantismo de
meados de século XIX, enquanto, para Carvalho, no realismo que se seguiu”, diz.
Além disso, Fernandes defendia a identidade macaense,
revelando uma noção da “futura família com visões mais progressistas”, enquanto
mantinha “um valor moral permanente por eventos históricos” e Carvalho
“inspirava-se nos grandes escritores do realismo e no estudo do sistema
patriarcal contra um pano de fundo em que as suas personagens eram vítimas de
grandes eventos históricos”. No fundo, “a manutenção da família patriarcal
produtiva, embora mais liberal, de Fernandes, transforma-se na família desintegrada
de Carvalho.”
Por outro lado, a professora brasileira Mónica Simas
reflecte ainda sobre as personagens comuns nos vários romances do autor,
contribuindo para o cruzamento de histórias. “É como se o escritor estivesse a
prolongar a sua estada e chegada através de uma única narração”, diz.
Já Dora Gago optou por abordar as identidades
transplantadas na obra deste escritor, neste congresso. “O conceito de
identidade transplantada implica um sujeito arrancado do seu contexto de
origem, que se tenta reescrever no espaço”, esclarece. “Macau sob administração
portuguesa é um espaço paradoxal — um enclave colonial na China e refúgio de
milhares de deslocados”, afirma, acrescentando: “Nos romances, Macau é porto de
abrigo, território de marginalidade social e laboratório de convivência e
multiculturalidade.”
Organizado pelo Centro de Humanidades (CHAM) e Centro de
Estudos Ingleses, de Tradução e Anglo-Portugueses da Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e pela Universidade de Veneza
– Ca’Foscari, este congresso online, de homenagem ao romancista e juiz,
Rodrigo Leal e Carvalho, que morreu, no dia 24 de Janeiro, aos 93 anos,
insere-se no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, promovido
por Rogério Miguel Puga. Luciana Leitão – Macau in “Ponto
Final”
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