Andrew Stow estaria “muito orgulhoso” por ver o pastel que criou tornar-se património intangível de Macau, mas a irmã disse à Lusa que não há planos para expandir o negócio, que vende até 48 mil pastéis por dia
A vida do britânico, que chegou a
Macau para trabalhar como farmacêutico industrial em 1979, mudou por completo
em 1988, após casar com Margaret Wong, que atualmente ainda gere a pastelaria
“Café e Nata”, criada por ambos.
Foi durante a lua-de-mel que Stow (1955-2006) provou pela
primeira vez um “pastel de Belém” ao balcão de uma das confeitarias mais
famosas de Portugal e ponto de paragem obrigatório de quem visita a capital.
Andrew “viu a loucura em Lisboa para beber uma bica com
um pastel de nata e pensou ‘Porque é que isto não existe em Macau’?”, recorda
Eileen Stow, que gere o negócio desde a morte súbita do irmão, aos 51 anos.
O pastel de nata “aparecia ocasionalmente no ‘buffet’” do
antigo hotel Hyatt, na Taipa, onde Andrew chegou a trabalhar, “mas não havia
nada disponível, na rua, todos os dias”, diz a irmã.
Foi então que um “lunático britânico”, como classifica
Eileen, entre risos, abriu a loja Lord Stow’s no coração da pitoresca vila de
Coloane, em 1989, onde tentou criar a sua própria versão do pastel de nata.
Andrew “era o tipo de pessoa que nunca queria copiar
nada, não conseguia perceber porque é que alguém quereria só replicar uma
receita. Ele sempre achou que, se és criativo, tens de colocar o teu toque”,
diz a irmã.
Eileen recorda que a reação dos portugueses foi que o
resultado “não era bem um pastel de nata”, ao que Andrew respondeu: ” É isto
que eu vendo, não comprem se não gostarem”.
Os pasteleiros da Lord Stow’s acharam que “estava
queimado por cima, nenhum chinês o iria comprar”, diz a irmã, mas os turistas
renderam-se ao pastel que ficou conhecido em chinês como “tarte de ovo de
estilo português”.
Em outubro passado, o Governo de Macau inscreveu 12
manifestações, incluindo o pastel inventado por Andrew e a dança folclórica
portuguesa na Lista do Património Cultural Intangível do território.
Eileen diz que o irmão teria ficado “muito orgulhoso”,
porque “adorava Macau”. “Se Andrew tivesse uma bola de cristal e soubesse o
sucesso que ia ter, ter-lhe-ia chamado tarte de ovo de Macau”, acrescenta.
Mas a distinção não muda os planos para manter o tamanho
da operação, que atualmente vende em média “entre 35 e 38 mil pastéis por dia”,
chegando a 48 mil no período do Ano Novo Lunar, diz Eileen.
O pastel de nata tem sido reinventado um pouco por toda a
Ásia, tendo chegado mesmo, através de Margaret, ex-mulher de Andrew, aos
balcões da cadeia de “fast-food” norte-americana Kentucky Fried Chicken (KFC)
na China continental.
No final da década de 90, Andrew e Eileen, que se mudou
para Macau em 1993 para ajudar a gerir o sucesso da Lord Stow’s, decidiram
apostar no ‘franchise’ em Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul e Tailândia. Mas a
ambição de uma expansão alargada perdeu-se devido às muitas “imitações” das
tartes de ovo, mantendo actualmente uma presença apenas no Japão e Filipinas.
Foi na vizinha região de Hong Kong que a febre dos
pastéis atingiu o auge: “criando aquilo a que costumávamos chamar, em tom de
brincadeira, a guerra das tortas de ovo”, recorda Eileen. “Havia pessoas de
carteira na mão a entrar na nossa pastelaria para literalmente subornar a nossa
equipa. Isso é um livro que irei escrever um dia, depois de passar a negócio à
Audrey [filha de Andrew]”, diz a empresária.
O território esteve mais de quatro séculos, até 1999, sob
administração portuguesa, mas Eileen não estranha ter sido um inglês a promover
o pastel de nata na Ásia.
Antigamente, sublinha a empresária, “a maioria dos
portugueses vinha para cá como funcionários públicos de alto nível, não vinham
abrir um pequeno negócio e ficar em Macau”. “Há uma atitude muito diferente no
pensamento dos portugueses agora que os casinos estão cá e o turismo disparou”,
acrescenta Eileen. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”
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