A mais longa ponte suspensa
para pedestres no mundo foi inaugurada no cantão do Valais. Ela tem quase meio
km de comprimento e fica a 85 metros de altura.
É emoção na certa! A ponte tem
exatamente 494 metros de comprimento por 65 cm de largura e a 85 metros do
solo. Ela fica na região de Zermatt, a mesma do Cervino, a montanha mais
conhecida da Suíça. A única interdição da ponte é em caso de temporal porque ela
pode atrair raios. In “Swissinfo” - Suíça
SÃO PAULO – A carta de intenções que
a União Europeia (UE) acaba de assinar com o Japão que prevê a formalização de
um acordo de livre-comércio dá uma ideia do que poderá ser o tratado que o
bloco europeu pretende assinar com o Mercosul, ainda que desde já se possa intuir
que este não deverá ser tão amplo quanto prevêem as discussões dos europeus com
a segunda maior economia da Ásia para a formalização do Japan-EU Free-Trade Agreement (Jefta).
Iniciadas em 1999, quatro anos depois
da abertura de negociações com o Japão, as conversações da UE com o Mercosul
foram interrompidas em 2004, em função da mudança de política conduzida pelo
lulopetismo, que também serviu para levar ao fracasso as tratativas com os
Estados Unidos para a formação da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca).
Como se sabe, o resultado disso foi a
perda de espaço para os produtos manufaturados brasileiros no maior mercado
consumidor do mundo, o que redundou em dificuldades para o parque fabril
nacional e no fechamento de muitas vagas no mercado de trabalho. Em
contrapartida, deu-se ênfase à aproximação com os Brics (Rússia, Índia, China e
África do Sul) e países subdesenvolvidos da África governados, na maioria, por
ditadores.
As consequências dessa política
desastrosa ainda podem ser conferidas em números atuais, que prevêem que a
Argentina voltará em 2017 a ser o principal mercado para os bens
industrializados brasileiros, superando os Estados Unidos, segundo previsão da
Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), com vendas ao redor de US$ 15
bilhões. Nada contra que a Argentina seja o maior importador de manufaturados
brasileiros, mas a verdade é que os Estados Unidos poderiam estar importando
pelo menos o dobro dos US$ 14 bilhões previstos para 2017, se a Alca tivesse
sido criada ou pelo menos não tivesse ocorrido um distanciamento entre os dois
países.
As negociações entre Mercosul e UE
foram relançadas em 2010, quando as partes assumiram o compromisso de concluir
um acordo com cobertura próxima a 90% do comércio birregional. Depois de muita
conversa, em junho de 2017, em Montevidéu, os dois blocos confirmaram o
interesse em avançar nas negociações, com vistas à conclusão de um acordo
abrangente e equilibrado, que pode sair, quem sabe, na próxima reunião que está
marcada para outubro, em Bruxelas.
Depois que o governo norte-americano
retirou-se do Tratado de Livre-Comércio Transpacífico (TPP), assinado por 11
países da Ásia e do Pacífico, incluindo o Japão, o governo japonês buscou
acelerar as negociações com os europeus. E o resultado é que o novo acordo
deverá cobrir 99% dos temas da agenda de comércio bilateral, mas com o estabelecimento
de um período de transição para proteger setores “sensíveis”, como o setor
automotivo japonês, muito taxado na Europa, e o agronegócio europeu, que
sobrevive graças a muitos subsídios.
Portanto, é possível que esse
entendimento com o Japão em favor de um comércio aberto, sem demasiado
protecionismo, encoraje, finalmente, os europeus a buscar um amplo acordo com o
Mercosul. Já não é sem tempo. Milton
Lourenço - Brasil
__________________________________________
Milton Lourenço é
presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos
Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo
(Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de
Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br
Arqueólogos
chegaram primeiro que os caçadores de tesouros a um navio do século XVI, que
será um dos mais importantes achados a nível mundial, pelas condições em que se
encontra
Uma equipa de investigadores
descobriu na costa de Esposende a localização exacta de um navio, provavelmente
ibérico, do século XVI, que, desde 2014, vem fascinando a comunidade científica
internacional. O estudo das centenas de peças encontradas na praia de Belinho
ao longo destes anos, e que incluem objectos da carga e madeiras da embarcação,
já deixava antever que se estava perante um achado muito importante para a
arqueologia naval, mas a equipa envolvida acabou por ser surpreendida com muito
mais do que isso. No fundo do mar, não muito longe da língua da maré, jaz um
navio “praticamente intocado” de cerca de 30 metros de comprimento, protegido
por uma camada de sedimentos.
Os banhistas que, por estes
dias, se deleitam ao sol e arriscam um mergulho nas águas frias da praia de
Belinho não imaginam que, há cerca de 500 anos, o mar atraiçoou um navio,
afundando-o a poucos metros deles. Desconhece-se de onde vinha ou para onde ia,
sabe-se algo, mas ainda pouco, sobre a carga que transportava e nada sobre o que
aconteceu à sua tripulação, mas sabem os arqueólogos que, junto às rochas, na
zona de rebentação das ondas, jaz o que resta desse naufrágio, situado, para
já, num período entre 1520 e 1580, e do qual foram já recolhidas centenas de
peças.
E o que ali está, visto, com
os seus próprios olhos, pelo arqueólogo Alexandre Monteiro a 24 de Abril deste
ano, num curto mergulho de uma hora e um quarto, e de novo esta semana que
passou, não é pouco. “Estamos perante o primeiro naufrágio quinhentista em
águas portuguesas a ser encontrado praticamente intocado desde a sua perda”,
assinala, num artigo na revista Al-Madan de Julho, o quarteto que vem liderando
a investigação, e que inclui Ana Almeida, arqueóloga da Câmara de Esposende,
Ivone Magalhães, historiadora, da mesma instituição, e o arqueólogo Filipe
Castro, que lidera o ShipLab da Universidade do Texas A&M. “A ser ibérico,
tratar-se-á de um dos mais completos sítios desta tipologia e cronologia a ser
encontrado a nível mundial”, alertam.
No mês passado, durante a
cerimónia que assinalou o centenário do afundamento, na I Grande Guerra, do
Roberto Ivens — um navio da armada portuguesa cuja localização descobriu, com
Paulo Costa —, Alexandre Monteiro bem dizia ao primeiro-ministro que "o
grande museu dos Descobrimentos portugueses e da Expansão — e que ainda não
está feito — está todo no fundo do mar". Envolvido em vários projectos de
arqueologia subaquática, este investigador do Instituto de Arqueologia e
Paleociências da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova
de Lisboa identificou parte do costado deste navio em quatro conjuntos de
madeiras ainda articuladas entre si, viu quatro canhões, em ferro e em bronze,
uma âncora, fragmentos de placas de chumbo que serviriam para protecção do
casco e mais pratos em estanho semelhantes aos que vêm sendo recolhidos, na
praia, desde 2014.
Esta semana, Alexandre
Monteiro e Filipe Castro voltaram ao local, na companhia de John Sexton, um
experiente instrutor de mergulho e fotógrafo subaquático a viver há alguns anos
em Portugal, que voltou a captar imagens do sítio, bastante mais coberto, desta
vez, por areia. Monteiro não tem dúvidas de que o que testemunhou em Abril,
altura em que parte do madeirame estava bem à vista, foi uma excepção, o que
explica, na sua perspectiva, a preservação deste navio naufragado a salvo da
pilhagem mais ou menos organizada. “Se não estivesse habitualmente coberto, o
sítio já teria sido saqueado”, afirma. Em todo o caso, com boa visibilidade,
puderam fazer algumas medições e perceber que a operação de levantamento dos
canhões vai ser complexa.
O grupo de investigadores, que
envolve ainda uma equipa com submarinos autónomos do Laboratório de Sistemas e
Tecnologia Subaquática (LSTS) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto,
chegou a programar para estes dias uma operação para retirar aquelas peças, mas
o mar, que tem ditado o ritmo das descobertas em Belinho, fez-se difícil.
Filipe Castro regressou assim aos EUA sem ver, fora de água, as colubrinas que,
acredita, podem conter inscrições que ajudem a determinar o fabricante e o
momento de fabrico, e a encurtar, dessa forma, a datação possível para este
naufrágio do qual, para já, não encontraram registos.
“Este navio saiu de algum
porto, e não chegou ao destino. Tem de haver, algures, um registo dessa
viagem”, nota Ana Almeida. Alexandre Monteiro corrobora. Afinal, na
investigação ao naufrágio do navio Nuestra Señora del Rosario (Tróia, Grândola,
1598) encontrou 600 páginas de documentação, oficial e até pessoal, em arquivos
portugueses e espanhóis. E ninguém acredita que a perda de um navio que, pelas
dimensões de algum do seu madeirame, teria cerca de 30 metros de eslora, da
proa à popa, passasse despercebida.
Dentro deste período há o
registo do afundamento do Nossa Senhora da Rosa, perdido em 1577 “através de
Esposende”, quando carregava vinho e breu das Canárias para o porto de Vila do
Conde, situado poucas milhas a sul, mas os investigadores que se debruçam sobre
o naufrágio de Belinho consideram que não será essa a embarcação que
encontraram, pois este “tem um porte bem maior do que a maioria dos navios que
percorriam as rotas das Canárias, Madeira e Açores no século XVI”.
A equipa espera que, sob a
camada de sedimentos, que Filipe Castro gostaria de limpar, com recurso a uma
bomba de sucção, se houvesse recursos para isso, o navio de Belinho tenha muito
mais a contar. Ao contrário do que acontecia em naufrágios perto da praia e de
povoações, em que nem as madeiras resistiam aos actos de pilhagem — o que
explica o uso de partes dos cascos nas casas mais antigas de Angra do Heroísmo,
assinala Alexandre Monteiro —, esta embarcação parece ter resistido à cupidez
dos seus, e dos nossos, contemporâneos. Que, podendo, nunca deixariam no mar
colubrinas em bronze semelhantes à que foi encontrada no navio português Bom
Jesus, descoberto em Oranjemund, na costa da Namíbia, e que têm mercado no
sector das antiguidades.
“Se encontrássemos objectos
pessoais, seria muito importante” para a investigação, assume o director do
ShipLab, que desde 2015, através do projecto europeu ForSeaDiscovery, do qual
faz parte com Alexandre Monteiro, participa no estudo dos achados arrojados à
praia. O material encontrado já lhes dá água pela barba e abriu portas a vários
projectos de investigação, como o de Adolfo Martins, que está a fazer
doutoramento na Universidade de Gales Trinity Saint David sobre a morfologia
das 80 peças de madeira recolhidas. Os seus anéis, analisados com recurso à
dendrocronologia, permitiram excluir a hipótese de provirem de árvores do Norte
da Europa, e as técnicas de construção naval são semelhantes às usadas por cá
naquele período, mas é preciso mais informação para se poder confirmar a origem
deste navio.
Sobre este naufrágio há
imensas perguntas ainda sem resposta — e muitas perguntas por fazer —, mas,
neste momento, uma das dificuldades é garantir uma equipa baseada no Norte do
país, que consiga continuar, de perto e com maior regularidade, este projecto
de investigação arqueológica que seria impossível sem o empenho da autarquia.
Para lá dos elementos do município, e dos achadores, que vivem em Esposende,
todos os que, até agora, participaram na recolha e estudo destes achados estão
envolvidos em múltiplos projectos, em várias partes do mundo, e não é fácil
mobilizá-los para Belinho, para situações de emergência ou, por exemplo, para
uma campanha de mergulho, caso o mar o permita.
O mar tem sido o marca-passo
desta investigação. Foi ele que denunciou o naufrágio, atirando despojos para a
praia em 2014, mas esta semana não deixou que lhe levassem os canhões que
guarda ciosamente, há cinco séculos. Aliás, uma tentativa de mergulho de
Alexandre Monteiro ia correndo muito mal, no domingo passado. “O naufrágio de
Belinho esteve quase a fazer a sua última vítima” dizia, já meio a brincar,
passado este episódio em que se viu atirado contra as pedras, e se teve de
livrar do cinto de lastro e das botijas de ar, antes de ser salvo por João Sá.
O escultor que alertara, em 2014, as autoridades para a importância destes
achados, que encontrara, com familiares, na praia, voltou a ser fulcral para
esta história. Ou não fosse ela um exemplo de cooperação entre cidadãos e a
comunidade científica. Abel Coentrão –
Portugal in "Público"
A música tem o dom de
despertar sentimentos, dos melhores até piores. Na abordagem ao Mandjolo, não
faço, senão, deixar-me levar por estes sentimentos, pela multiplicidade de
espaços que o Mandjolo desperta em mim enquanto canção, e sem fugir claro, a
algumas referência a letra da música que me foi gentilmente cedida, pelo
próprio Costa Neto.
Para mim, a manifestação mais
patente em Mandjolo é, precisamente de rebusque/resgate de imagens de infância,
adolescência e espaço que viu nascer Costa Neto.
Há ali, uma espécie de
cabra-cega de fixações de espaço, onde se confunde o artista e o homem,
divididos entre dois oceanos; uma fixação da saudade pessoal e da terra que o
viu nascer.
O enredo psicológico que o
Costa traça, obriga-o a segurar o tempo e traz vivências de saudades daquele
espaço concreto: Mandjolo, mas também de uma terra que é Moçambique e Maputo
particularmente (desde Zitundo, Khatwany a Ka Tembe.)
O refrão, Mandjòlô, Nd'yàkaMandjòlô, Kèm'baku, Nd'yà ka Mandjòlô, (Mandjolo,
vou a Mandjolo, irmão, vou a Mandjolo), mostra claramente, a sua ânsia em
indicar a direcção da terra onde quer ir, para que rapidamente, o indiquem o
caminho.
Nesta sua volta a casa, Costa,
deliberadamente cria duas personagens: o do mu fana (rapaz) que tem de o
acompanhar e outra, de um autóctone que o dá as coordenadas de como chegar e
bem a Mandjolo (Kódwa u suka
Ximbanguini, muzay, N’kwãkwãnana Y n'gwavela kwapa ndlela/ U mu ndyndyndy wénè)
assim que saíres de Ximbanguini sobrinho é só seguires o caminho (siga em
frente), para logo concluir que “você é um ndyndyndy.”
Esta passagem é fundamental
para perceber o apego a terra por Costa, pois, logo que chega perto do
autóctone e lhe pergunta por Mandjolo, o auctótone, pelas suas falas,
apercebe-se logo, que aquele era um ndyndyndy.
Ora, o longo período de tempo
que Costa vive na diáspora, o faria certamente perder a sua identidade com a
terra que o viu nascer e consequentemente o traquejo da linguagem, mas não,
logo que se pronuncia, há um reconhecimento conclusivo de quem ele é; “U mu ndyndyndy wéné”.
Concluiríamos daqui mesmo, que
o Costa, nunca se desligou da sua terra, e mais, onde ele vive, vive a ânsia
constante de poder pisar a sua terra e isto percebe-se no diálogo que tem com o
mu fana, encarregue de o ajudar a chegar a casa, quando diz para aquele: Hantlissa mu pfana, U ta ndy kuma ndlêlêny!
(se apresse rapaz que me encontras pelo caminho.)
Neste pedir para que o rapaz (mu fana) se apresse, chega a sugerir
que o mesmo corra para rápido chegarem. É a ânsia, o desejo de rever a terra e
logo, rever-se. É ele, a voltar ao mesmo tempo e parecendo que não, revê-se no
miúdo que o acompanha e compreende naquela caminhada que não pode mais esperar,
porque deu toda a sua alma, lágrimas, sobretudo alegria e força ao seu país:
Moçambique.
Neste não querer adiar a
viagem a Mandjolo, chega a sugerir que o entreguem o bastão para se defender
dos bandidos a caminho de Madjuva (Ndy
nhiketêny n’duku N’dy ta vika ma tsôtsy N'dlelêny, ka Madjuva), ficando
assim claro, que na sua ânsia de querer chegar a terra, até predispõe-se a
afastar os perigos pelos seus próprios meios.
Com Mandjolo, Costa nega-se a
reconstruir a sua vida ouvida por terceiros; nesta caminhada, propõe-se ele
próprio e por seus próprios olhos ir em busca do espaço e das pessoas que o
viram nascer e crescer, mesmo que corra o perigo de se encontrar com os
bandidos e com todas as consequências que dai podem advir.
Há aqui, uma ideia de
identificação de pessoas e lugares e através desta, recuar no tempo e buscar o
que é bom, o Xigubo por exemplo, que era dançado na casa do Régulo/chefe
/autoridade local o N’davezitha,
referenciado na música. (ao ouvir a música, nesta parte, ouve-se o ritmo de
Xigubo.)
Costa esculpe no Xigubo, a
dança que simboliza as demais da sua infância e juventude, e Mandjolo, como
espaço onde se realizou o homem que fez o artista que ele é.
De facto, Mandjolo é pura
projecção de si-próprio, da identidade psicológica, da auto afirmação que o faz
justamente voltar a terra, para se encontrar consigo mesmo, dai que não se
estranhe, que o Costa, seja tido por muitos, como o representante fiel da
cultura moçambicana na diáspora, porque lá onde está, apenas vive o físico,
porque o psicológico, está neste momento em Mandjolo, ou duvidam?
Há sim saudosismo em Mandjolo,
há o fulgor de volta aos espaços, há um sentimento dominante de auto identificação,
bem conseguidos pelo alcance estético da música.
E algo engraçado, sempre que
escuto esta música, não sei porque magia, volto, as ruelas do meu bairro Polana
Caniço, as velhas historias conseguidas por muito sacrifícios de quem as
contava, ao inventar e refazer de histórias de vida, o arco-iris das aventuras
de outiva de Bud Spencer e Trinita, das ideias envolventes de fugidas para a
pista da ATCM e praia de Costa de Sol, das trepadas as árvores de amoras, no
Clube (?) de Golfe da Polana (Caniço), do Castiguana maguidjana duro que
empurrava a bola de chingufu a ameaçar todos que se faziam a sua frente, do
M’bidji bidji, mandyndynde terrível a fisga, enfim, da minha malta da infância,
sim, nós também éramos, como o Costa zinguirys,
estes pássaros pequenotes que andam em grupos nas machambas e fazem ninhos com
capim e flores.
E a ideia de Mandjolo, não
será, senão a volta ao ninho floreado deste pássaro, desejoso, de se encontrar
com o seu grupo.
Bem-haja o Costa Neto, por
este seu apego à terra, por esta evocação a Mandjolo, que no fim ao cabo, é a
evocação e construção dos espaços onde cada um de nós cresceu. Há sim, saudosismo
puro e positivo em Mandjolo. Amosse
Macamo – Moçambique in “modaskavalu.blogspot”
Por volta da difusão social do
galego são feitas cada ano uma miríade de campanhas institucionais e pessoais,
surgem debates intensos mais ou menos emocionais, mais ou menos racionais e
escrevem-se artigos que são comentados, em média, por mais pessoas que outros
textos com temáticas diferentes. A língua move, é claro. Ora, toda esta ação
empalidece perante uma pergunta: somos capazes de garantir a transmissão
linguística de pais para filhos?
Na Galiza, a percentagem de
pessoas que tem vontade manifesta de que os seus filhos falem o galego que elas
falam é pequeno. A percentagem de aquelas que o conseguem é ainda menor.
Possivelmente tu, que estás a ler este texto, tenhas vontade ou terás vontade
no futuro.
Por que as crianças falam a
língua que falam? Esta também é uma pergunta iniludível. Antes de eu ser pai
achava que os progenitores eram a chave do cofre. Agora que sou pai e converso
com pais, verifiquei que a chave são os iguais… os amigos e colegas. Por sua
vez, os desenhos animados também têm um peso importante, não apenas polo tempo
de exposição que implica como também polo valor que as crianças dão a umas
personagens que nem sempre falam a língua da casa.
Em termos gerais, a melhor
forma de facilitar que os miúdos conservem a língua com que foram educados
polos pais é existir uma envolvente em galego, por outros palavras, um ambiente
que, maioritariamente, se expresse na língua da Galiza. Um dos espaços
imprescindíveis são as escolas e os infantários. Em média, uma criança passa lá
5 horas diárias de segunda a sexta-feira. Se somarmos as atividades
extra-escolares ligadas ao centro ou os encontros com colegas da escola fora da
mesma, a cifra torna-se ainda mais crucial. Na atualidade, este serviço é
abordado polas escolas sementes nalgumas cidades e nas áreas rurais, nem todas,
por muitos centros onde o galego é hegemónico entre as turmas. Ora, resta muito
por fazer e a maioria das famílias estão desassistidas, escolarmente falando.
Outra área relevante, se
atendemos ao número de horas e a influência que têm nas vidas dos miúdos, são
os desenhos animados. Neste aspeto, há uma má e uma boa notícia. A notícia ruim
é que os galegas e as galegas somos educados em que a nossa língua é local
(enquanto o castelhano e internacional, não é?. Com esse esquema, os desenhos
animados tornam-se numa tarefa impossível. Na TV existem dous canais 24 horas
de programação infantil em castelhano, com as desenhos que todos querem ver e a
TVG não oferece nada que se lhe poda comparar. Ora, falava também de uma boa
notícia: podemos ser desobedientes e viver o galego como uma língua
internacional (como o castelhano, enfim). Então o mapa muda e aparecem mil
possibilidades trocando a TV polo computador/Internet de onde se podem obter as
mesmas sérias que oferece a TV espanhola. Se o uso do audiovisual é feito desde
o princípio em galego internacional, a Doutora Brinquedos ou Dora, a
aventureira falam galego.
De facto, falam. No capítulo Peixe fora d´água, da versão brasileira
de Dora, a aventureira, a nossa criança vai ouvir encher, buracos, balde, rocha vermelha, caranguejo, polvo, tartarugas,
golfinhos. Na versão que nos oferece o sistema cultural espanhol vai ouvir llenar, agujeros, cubo, roca roja, cangrejo,
pulpo, tortugas, delfines. Cada escolha implica uma forma diferente de
estar no mundo. Onde queremos estar? Onde queremos que estejam os nossos
filhos? Valentim Fagim – Galiza in “Portal
Galego da Língua”
Valentim
Fagim - Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de
Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de
Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em
diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente
através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível,
Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho
associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social
A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15).
Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da
AGLP.
A
Madeira Multilingual School procura parcerias no continente e quer estar, nos
próximos anos, em todos os países lusófonos. Educação multilingue é grande
vantagem para os alunos, defende a diretora. Para além da Madeira, encontram-se
já em funcionamento escolas em Cabo Verde, na cidade da Praia, e na Guine
Equatorial, nas cidades de Malabo, Bata e Mongomo. O processo de expansão
prossegue, estando prevista para breve a abertura de mais uma escola que estará
localizada em Moçambique, na cidade de Maputo
Em entrevista ao Económico
Madeira, Júlia Ladeira Santos, diretora da Madeira Multilingual School –
International Sharing School e Vice-Presidente da Sharing Foundation, fala dos
objetivos de crescimento desta escola internacional bilingue e de que forma
procura diferenciar a sua oferta educativa.
Fale-nos
um pouco sobre a Madeira Multilingual School – International Sharing School.
A Madeira Multilingual School
– International Sharing School é a única escola internacional multilingue da
ilha da Madeira. Foi fundada em 1980 por Susan Farrow, com a denominação de
Escola Britânica da Madeira, porque era onde estudavam os filhos dos ingleses
residentes na Madeira. Tinha igualmente alunos portugueses por isso a base de
ensino foi sempre bilingue, tal como ainda acontece atualmente. Recebemos
alunos dos nove meses aos 16 anos de qualquer nacionalidade, em que
implementamos a aprendizagem do inglês e do português desde o início do
percurso académico, saindo os alunos da nossa escola com o Ensino Básico
completo e ainda a falarem fluentemente cinco línguas das sete que fazem parte
do currículo, sendo o Português, o Inglês, o Alemão, o Mandarim e o Russo
obrigatórias, e o Francês e o Espanhol optativas.
Qual
a grande diferença no tipo de ensino que a escola promove?
Somos uma escola especial
porque trabalhamos com turmas com um máximo de 17 alunos, permitindo assim um
trabalho mais individualizado com cada um deles. O tempo dedicado ao aluno é um
pilar chave no nosso ensino, permitindo uma maior adequação às caraterísticas
de aprendizagem de cada pessoa. O sistema educativo aplicado na nossa escola
prepara os alunos para o ensino superior internacional, através de aulas que
incentivam a pensar de forma crítica e analítica sobre as mais diversas
temáticas, respeitando sempres as diferenças de uma sociedade cada vez mais
globalizada. Apostamos na abordagem multilinguística e multicultural do currículo,
com uma forte componente de partilha de conhecimento que não conhece fronteiras
geográficas. Esta nossa premissa reflete-se precisamente na composição do nosso
grupo de alunos e ‘staff’, que atualmente alberga 17 nacionalidades distintas.
E
porquê essa aposta numa educação multilingue?
Na sua génese a escola já era
bilingue. Esta oferta garantia a possibilidade de ingressar tanto numa escola
portuguesa como numa instituição de ensino de língua inglesa em qualquer parte
do mundo. Desde a sua origem que se tem vindo a trabalhar para intensificar
este modelo de educação multilingue, sendo hoje muito consistente, constando
inclusivamente do programa curricular dos alunos o Mandarim, iniciando-se no
PYP 1, o Alemão no PYP 3, e o Russo, desde o MYP 1. A par com a educação
multilingue, temos uma base de atuação multicultural, pois temos mais de uma
centena de alunos que representam 17 nacionalidades e sabemos como é essencial
à construção da aprendizagem e crescimento individual a interligação cultural.
Atualmente a escola faz parte
do Projeto Multilingual Schools da Sharing Foundation, um projeto de criação de
escolas multilingues e multiculturais um pouco por todo o mundo.
O
que significa para a Madeira Multilingual School fazer parte deste projeto da
Sharing Foudation?
É um grande desafio que se
enquadra na nossa filosofia. O projeto Escola Britânica da Madeira foi criado
em 1980, tendo evoluído para Multilingual Schools em 2013, e internacionalizado
em 2014. O projeto tem por objetivo principal difundir o ensino de excelência
com elevada qualidade, que valorize e desenvolva competências para que os
alunos sejam capazes de aprender, viver e trabalhar num mundo cada vez mais
global.
Por seu lado, a nossa escola
Madeira Multilingual School tem por objetivo oferecer uma educação
internacional desde a creche até ao 9º ano. É isto que os pais dos nossos
alunos sabem que encontram quando procuram a nossa instituição, aliado a um
ambiente multicultural altamente enriquecedor e de onde resulta uma
aprendizagem mais qualitativa e integrada.
Neste
momento, qual é o grande objetivo do projeto Multilingual Schools da Sharing
Foundation?
O objetivo deste projeto é
desenvolver em todo o mundo uma rede de escolas internacionais, multiculturais
e multilingues com o intuito de preparar as novas gerações para um mundo cada
vez mais globalizado e com permanentes mudanças económicas, sociais, culturais
e políticas. Num contexto mais amplo, este tipo de ensino trará no futuro um
significativo impacto económico, além do que permitirá reforçar na base da
sociedade uma educação cada vez mais integrativa e de visão ampla, para se
compreender melhor o mundo, no seu todo e em todas as suas especificidades. É
este o sentimento que nos move e que faz do Projeto Multilingual Schools da Sharing
Foundation um grande agente de educação multicultural.
Para
além da Madeira, onde estão situadas as instituições da Multilingual Schools?
Para além da Madeira,
encontram-se já em funcionamento escolas em Cabo Verde, na cidade da Praia, e
na Guine Equatorial, nas cidades de Malabo, Bata e Mongomo. O processo de
expansão prossegue, estando prevista para breve a abertura de mais uma escola
que estará localizada em Moçambique, na cidade de Maputo.
E
em Portugal continental, está prevista a abertura de escolas?
É uma das nossas vontades.
Estamos a trabalhar no sentido de concretizar esta ambição que nos permitirá
reforçar o nosso âmbito de atuação a nível nacional. Neste momento, estamos
focados em encontrar parceiros nas áreas de Lisboa, Porto ou Algarve, que nos
possibilitem implementar novos projetos. Além disso, pretendemos nos próximos
anos chegar a todos os países da CPLP, que representa um universo de mais de
350 milhões de habitantes. Este será um processo contínuo com uma reavaliação
constante do projeto com base na experiência e perceção dos resultados de cada
país. Esta revisão contínua dos resultados vai permitir ajustar o projeto em
mercados estrangeiros e melhorar a nossa oferta educacional.
Acredita,
portanto, que estar inserida neste projeto é uma mais-valia para os alunos.
Naturalmente que sim. As
gerações futuras serão em breve inevitavelmente confrontadas com uma crescente
necessidade de compreensão e maior capacidade de trabalhar com línguas e
culturas diferentes. Esta exigência é já uma realidade em alguns setores
empresariais, sendo fundamental estar preparado para o nosso mundo, cada vez
mais global. A nossa metodologia de ensino vem precisamente contribuir para
esta preparação e abrir o leque de oportunidades futuras. Graças a esta base e
ao nosso posicionamento multicultural, a Madeira Multilingual School –
International Sharing Foundation foi recentemente certificada como
International Baccalaureate World School e, juntamente com a APEL – Associação
Promotora do Ensino Livre, são a segunda escola a nível nacional a oferecer no
mesmo campus os três diplomas, PYP, MYP e DP, internacionalmente certificados
pela IBO – International Baccalaureate Organization.
Explique-nos
o que é a International Baccalaureate Organization (IBO).
É uma organização educacional
que oferece uma qualificação de reputação mundial para estudantes que querem um
currículo amplo e desafiador e que os ajude a desenvolver todas as habilidades
necessárias para o seu sucesso na vida académica e posteriormente na vida profissional.
Fundado em 1969, disponibiliza quatros programas educacionais através de
escolas autorizadas um pouco por todo o mundo. Estes programas abrangem alunos
dos três aos 19 anos divididos da seguinte forma: Primary Years Programme (PYP)
dos 3 aos 11 anos, Middle Years Programme (MYP) dos 11 aos 16 anos, Diploma
Programme (DP) dos 16 aos 19 anos e ainda o Career Programme (CP), também para
alunos dos 16 aos 19 anos, mas com uma oferta academicamente mais acessível do
que o Diploma Programme. Atualmente existem 4.655 escolas IB espalhadas por 149
países com mais de cinco milhões de alunos e 50000 professores. Gabriel Antunes – Portugal in “Económico
da Madeira”
Sobre esta temática o blogue “Baía
da Lusofonia” abordou há precisamente três anos sobre a aprendizagem da língua
portuguesa na Guiné Equatorial, leia aqui.