Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Suíça – Inaugurada maior ponte pedestre do mundo

A mais longa ponte suspensa para pedestres no mundo foi inaugurada no cantão do Valais. Ela tem quase meio km de comprimento e fica a 85 metros de altura.



É emoção na certa! A ponte tem exatamente 494 metros de comprimento por 65 cm de largura e a 85 metros do solo. Ela fica na região de Zermatt, a mesma do Cervino, a montanha mais conhecida da Suíça. A única interdição da ponte é em caso de temporal porque ela pode atrair raios. In “Swissinfo” - Suíça

Mercosul - UE: boas perspectivas

SÃO PAULO – A carta de intenções que a União Europeia (UE) acaba de assinar com o Japão que prevê a formalização de um acordo de livre-comércio dá uma ideia do que poderá ser o tratado que o bloco europeu pretende assinar com o Mercosul, ainda que desde já se possa intuir que este não deverá ser tão amplo quanto prevêem as discussões dos europeus com a segunda maior economia da Ásia para a formalização do Japan-EU Free-Trade Agreement (Jefta).

Iniciadas em 1999, quatro anos depois da abertura de negociações com o Japão, as conversações da UE com o Mercosul foram interrompidas em 2004, em função da mudança de política conduzida pelo lulopetismo, que também serviu para levar ao fracasso as tratativas com os Estados Unidos para a formação da Área de Livre-Comércio das Américas  (Alca).

Como se sabe, o resultado disso foi a perda de espaço para os produtos manufaturados brasileiros no maior mercado consumidor do mundo, o que redundou em dificuldades para o parque fabril nacional e no fechamento de muitas vagas no mercado de trabalho. Em contrapartida, deu-se ênfase à aproximação com os Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul) e países subdesenvolvidos da África governados, na maioria, por ditadores.

As consequências dessa política desastrosa ainda podem ser conferidas em números atuais, que prevêem que a Argentina voltará em 2017 a ser o principal mercado para os bens industrializados brasileiros, superando os Estados Unidos, segundo previsão da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), com vendas ao redor de US$ 15 bilhões. Nada contra que a Argentina seja o maior importador de manufaturados brasileiros, mas a verdade é que os Estados Unidos poderiam estar importando pelo menos o dobro dos US$ 14 bilhões previstos para 2017, se a Alca tivesse sido criada ou pelo menos não tivesse ocorrido um distanciamento entre os dois países.

As negociações entre Mercosul e UE foram relançadas em 2010, quando as partes assumiram o compromisso de concluir um acordo com cobertura próxima a 90% do comércio birregional. Depois de muita conversa, em junho de 2017, em Montevidéu, os dois blocos confirmaram o interesse em avançar nas negociações, com vistas à conclusão de um acordo abrangente e equilibrado, que pode sair, quem sabe, na próxima reunião que está marcada para outubro, em Bruxelas.

Depois que o governo norte-americano retirou-se do Tratado de Livre-Comércio Transpacífico (TPP), assinado por 11 países da Ásia e do Pacífico, incluindo o Japão, o governo japonês buscou acelerar as negociações com os europeus. E o resultado é que o novo acordo deverá cobrir 99% dos temas da agenda de comércio bilateral, mas com o estabelecimento de um período de transição para proteger setores “sensíveis”, como o setor automotivo japonês, muito taxado na Europa, e o agronegócio europeu, que sobrevive graças a muitos subsídios.

Portanto, é possível que esse entendimento com o Japão em favor de um comércio aberto, sem demasiado protecionismo, encoraje, finalmente, os europeus a buscar um amplo acordo com o Mercosul. Já não é sem tempo. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Portugal - Navio quinhentista "praticamente intocado" na costa de Esposende

Arqueólogos chegaram primeiro que os caçadores de tesouros a um navio do século XVI, que será um dos mais importantes achados a nível mundial, pelas condições em que se encontra

Uma equipa de investigadores descobriu na costa de Esposende a localização exacta de um navio, provavelmente ibérico, do século XVI, que, desde 2014, vem fascinando a comunidade científica internacional. O estudo das centenas de peças encontradas na praia de Belinho ao longo destes anos, e que incluem objectos da carga e madeiras da embarcação, já deixava antever que se estava perante um achado muito importante para a arqueologia naval, mas a equipa envolvida acabou por ser surpreendida com muito mais do que isso. No fundo do mar, não muito longe da língua da maré, jaz um navio “praticamente intocado” de cerca de 30 metros de comprimento, protegido por uma camada de sedimentos.

Os banhistas que, por estes dias, se deleitam ao sol e arriscam um mergulho nas águas frias da praia de Belinho não imaginam que, há cerca de 500 anos, o mar atraiçoou um navio, afundando-o a poucos metros deles. Desconhece-se de onde vinha ou para onde ia, sabe-se algo, mas ainda pouco, sobre a carga que transportava e nada sobre o que aconteceu à sua tripulação, mas sabem os arqueólogos que, junto às rochas, na zona de rebentação das ondas, jaz o que resta desse naufrágio, situado, para já, num período entre 1520 e 1580, e do qual foram já recolhidas centenas de peças.

E o que ali está, visto, com os seus próprios olhos, pelo arqueólogo Alexandre Monteiro a 24 de Abril deste ano, num curto mergulho de uma hora e um quarto, e de novo esta semana que passou, não é pouco. “Estamos perante o primeiro naufrágio quinhentista em águas portuguesas a ser encontrado praticamente intocado desde a sua perda”, assinala, num artigo na revista Al-Madan de Julho, o quarteto que vem liderando a investigação, e que inclui Ana Almeida, arqueóloga da Câmara de Esposende, Ivone Magalhães, historiadora, da mesma instituição, e o arqueólogo Filipe Castro, que lidera o ShipLab da Universidade do Texas A&M. “A ser ibérico, tratar-se-á de um dos mais completos sítios desta tipologia e cronologia a ser encontrado a nível mundial”, alertam.

No mês passado, durante a cerimónia que assinalou o centenário do afundamento, na I Grande Guerra, do Roberto Ivens — um navio da armada portuguesa cuja localização descobriu, com Paulo Costa —, Alexandre Monteiro bem dizia ao primeiro-ministro que "o grande museu dos Descobrimentos portugueses e da Expansão — e que ainda não está feito — está todo no fundo do mar". Envolvido em vários projectos de arqueologia subaquática, este investigador do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa identificou parte do costado deste navio em quatro conjuntos de madeiras ainda articuladas entre si, viu quatro canhões, em ferro e em bronze, uma âncora, fragmentos de placas de chumbo que serviriam para protecção do casco e mais pratos em estanho semelhantes aos que vêm sendo recolhidos, na praia, desde 2014.

Esta semana, Alexandre Monteiro e Filipe Castro voltaram ao local, na companhia de John Sexton, um experiente instrutor de mergulho e fotógrafo subaquático a viver há alguns anos em Portugal, que voltou a captar imagens do sítio, bastante mais coberto, desta vez, por areia. Monteiro não tem dúvidas de que o que testemunhou em Abril, altura em que parte do madeirame estava bem à vista, foi uma excepção, o que explica, na sua perspectiva, a preservação deste navio naufragado a salvo da pilhagem mais ou menos organizada. “Se não estivesse habitualmente coberto, o sítio já teria sido saqueado”, afirma. Em todo o caso, com boa visibilidade, puderam fazer algumas medições e perceber que a operação de levantamento dos canhões vai ser complexa.

O grupo de investigadores, que envolve ainda uma equipa com submarinos autónomos do Laboratório de Sistemas e Tecnologia Subaquática (LSTS) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, chegou a programar para estes dias uma operação para retirar aquelas peças, mas o mar, que tem ditado o ritmo das descobertas em Belinho, fez-se difícil. Filipe Castro regressou assim aos EUA sem ver, fora de água, as colubrinas que, acredita, podem conter inscrições que ajudem a determinar o fabricante e o momento de fabrico, e a encurtar, dessa forma, a datação possível para este naufrágio do qual, para já, não encontraram registos.

“Este navio saiu de algum porto, e não chegou ao destino. Tem de haver, algures, um registo dessa viagem”, nota Ana Almeida. Alexandre Monteiro corrobora. Afinal, na investigação ao naufrágio do navio Nuestra Señora del Rosario (Tróia, Grândola, 1598) encontrou 600 páginas de documentação, oficial e até pessoal, em arquivos portugueses e espanhóis. E ninguém acredita que a perda de um navio que, pelas dimensões de algum do seu madeirame, teria cerca de 30 metros de eslora, da proa à popa, passasse despercebida.

Dentro deste período há o registo do afundamento do Nossa Senhora da Rosa, perdido em 1577 “através de Esposende”, quando carregava vinho e breu das Canárias para o porto de Vila do Conde, situado poucas milhas a sul, mas os investigadores que se debruçam sobre o naufrágio de Belinho consideram que não será essa a embarcação que encontraram, pois este “tem um porte bem maior do que a maioria dos navios que percorriam as rotas das Canárias, Madeira e Açores no século XVI”.

A equipa espera que, sob a camada de sedimentos, que Filipe Castro gostaria de limpar, com recurso a uma bomba de sucção, se houvesse recursos para isso, o navio de Belinho tenha muito mais a contar. Ao contrário do que acontecia em naufrágios perto da praia e de povoações, em que nem as madeiras resistiam aos actos de pilhagem — o que explica o uso de partes dos cascos nas casas mais antigas de Angra do Heroísmo, assinala Alexandre Monteiro —, esta embarcação parece ter resistido à cupidez dos seus, e dos nossos, contemporâneos. Que, podendo, nunca deixariam no mar colubrinas em bronze semelhantes à que foi encontrada no navio português Bom Jesus, descoberto em Oranjemund, na costa da Namíbia, e que têm mercado no sector das antiguidades.

“Se encontrássemos objectos pessoais, seria muito importante” para a investigação, assume o director do ShipLab, que desde 2015, através do projecto europeu ForSeaDiscovery, do qual faz parte com Alexandre Monteiro, participa no estudo dos achados arrojados à praia. O material encontrado já lhes dá água pela barba e abriu portas a vários projectos de investigação, como o de Adolfo Martins, que está a fazer doutoramento na Universidade de Gales Trinity Saint David sobre a morfologia das 80 peças de madeira recolhidas. Os seus anéis, analisados com recurso à dendrocronologia, permitiram excluir a hipótese de provirem de árvores do Norte da Europa, e as técnicas de construção naval são semelhantes às usadas por cá naquele período, mas é preciso mais informação para se poder confirmar a origem deste navio.

Sobre este naufrágio há imensas perguntas ainda sem resposta — e muitas perguntas por fazer —, mas, neste momento, uma das dificuldades é garantir uma equipa baseada no Norte do país, que consiga continuar, de perto e com maior regularidade, este projecto de investigação arqueológica que seria impossível sem o empenho da autarquia. Para lá dos elementos do município, e dos achadores, que vivem em Esposende, todos os que, até agora, participaram na recolha e estudo destes achados estão envolvidos em múltiplos projectos, em várias partes do mundo, e não é fácil mobilizá-los para Belinho, para situações de emergência ou, por exemplo, para uma campanha de mergulho, caso o mar o permita.

O mar tem sido o marca-passo desta investigação. Foi ele que denunciou o naufrágio, atirando despojos para a praia em 2014, mas esta semana não deixou que lhe levassem os canhões que guarda ciosamente, há cinco séculos. Aliás, uma tentativa de mergulho de Alexandre Monteiro ia correndo muito mal, no domingo passado. “O naufrágio de Belinho esteve quase a fazer a sua última vítima” dizia, já meio a brincar, passado este episódio em que se viu atirado contra as pedras, e se teve de livrar do cinto de lastro e das botijas de ar, antes de ser salvo por João Sá. O escultor que alertara, em 2014, as autoridades para a importância destes achados, que encontrara, com familiares, na praia, voltou a ser fulcral para esta história. Ou não fosse ela um exemplo de cooperação entre cidadãos e a comunidade científica. Abel Coentrão – Portugal in "Público"

domingo, 6 de agosto de 2017

Moçambique - Costa Neto canta Mandjolo
















Mandjolo
N'dyaka Mandjolo
Ke mbake
Nd'ya ka Mandjolo

Mandjolo
N'dyaka Mandjolo
Ke mbake
Nd'ya ka Mandjolo

Hantlissa pfana
U ta ndy kuma nddleleny

Hantlissa pfana
U ta ndy kuma nddleleny

Loku ndy sukaka pandeni, mine
Nkwakwanana
Y ngwavela kwapa ndlela
Ndy mu zinguiry, mine

Kodwa u suka Ximbanguine, muzay
N'kwakwanana
Y n'gwavela kwapa ndlela
U mu ndyndyndy wene

Loku ndy sukaka pandeni, mine
Nkwakwanana
Y ngwavela kwapa ndlela
Ndy mu zinguiry, mine

Kodwa u suka Ximbanguine, muzay
N'kwakwanana
Y n'gwavela kwapa ndlela
U mu ndyndyndy wene

Hantlissa pfana
U ta ndy kuma nddleleny

Hantlissa pfana
U ta ndy kuma nddleleny

Ka Zantaca va longolokylè
Ka Zithundu va longa psy djumba
Ku ta buya ny va ka Khatwany
Ndy lêlêtêlêny kôlê ka Tembe

Mandjolo
N'dyaka Mandjolo
Ke mbake
Nd'ya ka Mandjolo

Hantlissa pfana
U ta ndy kuma nddleleny

Hantlissa pfana
U ta ndy kuma nddleleny

A xinguila xy kwyni
Ndy ta kina xigubo
Ka mu khulu
N'davezitha

Na ndy tsimbi bedjwa, kwa nde
Ndy tlhanguela T'rapezulu

Ndy nhiketêny n'duku
N'dy ta vika ma tsôtsy
N'dlelêny, ka Madjuva

Mandjolo
N'dyaka Mandjolo
Ke mbake
Nd'ya ka Mandjolo

Ndy nhiketêny n'duku
N'dy ta vika ma tsôtsy
N'dlelêny, ka Madjuva

Mandjolo
N'dyaka Mandjolo
Ke mbake
Nd'ya ka Mandjolo


Costa Neto – Moçambique



Mandjolo

A música tem o dom de despertar sentimentos, dos melhores até piores. Na abordagem ao Mandjolo, não faço, senão, deixar-me levar por estes sentimentos, pela multiplicidade de espaços que o Mandjolo desperta em mim enquanto canção, e sem fugir claro, a algumas referência a letra da música que me foi gentilmente cedida, pelo próprio Costa Neto.

Para mim, a manifestação mais patente em Mandjolo é, precisamente de rebusque/resgate de imagens de infância, adolescência e espaço que viu nascer Costa Neto.

Há ali, uma espécie de cabra-cega de fixações de espaço, onde se confunde o artista e o homem, divididos entre dois oceanos; uma fixação da saudade pessoal e da terra que o viu nascer.

O enredo psicológico que o Costa traça, obriga-o a segurar o tempo e traz vivências de saudades daquele espaço concreto: Mandjolo, mas também de uma terra que é Moçambique e Maputo particularmente (desde Zitundo, Khatwany a Ka Tembe.)

O refrão, Mandjòlô, Nd'yàkaMandjòlô, Kèm'baku, Nd'yà ka Mandjòlô, (Mandjolo, vou a Mandjolo, irmão, vou a Mandjolo), mostra claramente, a sua ânsia em indicar a direcção da terra onde quer ir, para que rapidamente, o indiquem o caminho.

Nesta sua volta a casa, Costa, deliberadamente cria duas personagens: o do mu fana (rapaz) que tem de o acompanhar e outra, de um autóctone que o dá as coordenadas de como chegar e bem a Mandjolo (Kódwa u suka Ximbanguini, muzay, N’kwãkwãnana Y n'gwavela kwapa ndlela/ U mu ndyndyndy wénè) assim que saíres de Ximbanguini sobrinho é só seguires o caminho (siga em frente), para logo concluir que “você é um ndyndyndy.”

Esta passagem é fundamental para perceber o apego a terra por Costa, pois, logo que chega perto do autóctone e lhe pergunta por Mandjolo, o auctótone, pelas suas falas, apercebe-se logo, que aquele era um ndyndyndy.

Ora, o longo período de tempo que Costa vive na diáspora, o faria certamente perder a sua identidade com a terra que o viu nascer e consequentemente o traquejo da linguagem, mas não, logo que se pronuncia, há um reconhecimento conclusivo de quem ele é; “U mu ndyndyndy wéné”.

Concluiríamos daqui mesmo, que o Costa, nunca se desligou da sua terra, e mais, onde ele vive, vive a ânsia constante de poder pisar a sua terra e isto percebe-se no diálogo que tem com o mu fana, encarregue de o ajudar a chegar a casa, quando diz para aquele: Hantlissa mu pfana, U ta ndy kuma ndlêlêny! (se apresse rapaz que me encontras pelo caminho.)

Neste pedir para que o rapaz (mu fana) se apresse, chega a sugerir que o mesmo corra para rápido chegarem. É a ânsia, o desejo de rever a terra e logo, rever-se. É ele, a voltar ao mesmo tempo e parecendo que não, revê-se no miúdo que o acompanha e compreende naquela caminhada que não pode mais esperar, porque deu toda a sua alma, lágrimas, sobretudo alegria e força ao seu país: Moçambique.

Neste não querer adiar a viagem a Mandjolo, chega a sugerir que o entreguem o bastão para se defender dos bandidos a caminho de Madjuva (Ndy nhiketêny n’duku N’dy ta vika ma tsôtsy N'dlelêny, ka Madjuva), ficando assim claro, que na sua ânsia de querer chegar a terra, até predispõe-se a afastar os perigos pelos seus próprios meios.

Com Mandjolo, Costa nega-se a reconstruir a sua vida ouvida por terceiros; nesta caminhada, propõe-se ele próprio e por seus próprios olhos ir em busca do espaço e das pessoas que o viram nascer e crescer, mesmo que corra o perigo de se encontrar com os bandidos e com todas as consequências que dai podem advir.

Há aqui, uma ideia de identificação de pessoas e lugares e através desta, recuar no tempo e buscar o que é bom, o Xigubo por exemplo, que era dançado na casa do Régulo/chefe /autoridade local o N’davezitha, referenciado na música. (ao ouvir a música, nesta parte, ouve-se o ritmo de Xigubo.)

Costa esculpe no Xigubo, a dança que simboliza as demais da sua infância e juventude, e Mandjolo, como espaço onde se realizou o homem que fez o artista que ele é.

De facto, Mandjolo é pura projecção de si-próprio, da identidade psicológica, da auto afirmação que o faz justamente voltar a terra, para se encontrar consigo mesmo, dai que não se estranhe, que o Costa, seja tido por muitos, como o representante fiel da cultura moçambicana na diáspora, porque lá onde está, apenas vive o físico, porque o psicológico, está neste momento em Mandjolo, ou duvidam?

Há sim saudosismo em Mandjolo, há o fulgor de volta aos espaços, há um sentimento dominante de auto identificação, bem conseguidos pelo alcance estético da música.

E algo engraçado, sempre que escuto esta música, não sei porque magia, volto, as ruelas do meu bairro Polana Caniço, as velhas historias conseguidas por muito sacrifícios de quem as contava, ao inventar e refazer de histórias de vida, o arco-iris das aventuras de outiva de Bud Spencer e Trinita, das ideias envolventes de fugidas para a pista da ATCM e praia de Costa de Sol, das trepadas as árvores de amoras, no Clube (?) de Golfe da Polana (Caniço), do Castiguana maguidjana duro que empurrava a bola de chingufu a ameaçar todos que se faziam a sua frente, do M’bidji bidji, mandyndynde terrível a fisga, enfim, da minha malta da infância, sim, nós também éramos, como o Costa zinguirys, estes pássaros pequenotes que andam em grupos nas machambas e fazem ninhos com capim e flores.

E a ideia de Mandjolo, não será, senão a volta ao ninho floreado deste pássaro, desejoso, de se encontrar com o seu grupo.

Bem-haja o Costa Neto, por este seu apego à terra, por esta evocação a Mandjolo, que no fim ao cabo, é a evocação e construção dos espaços onde cada um de nós cresceu. Há sim, saudosismo puro e positivo em Mandjolo. Amosse Macamo – Moçambique in “modaskavalu.blogspot”  

Tua cantiga














Vamos aprender português, cantando


Quando te der saudade de mim
quando tua garganta apertar
basta dar um suspiro
que eu vou ligeiro
te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
e estrada afora te conduzir
basta soprar meu nome
com teu perfume
pra me atrair

Se as tuas noites não têm mais fim
se um desalmado te faz chorar
deixa cair um lenço
que eu te alcanço
em qualquer lugar

Quando teu coração suplicar
ou quando teu capricho exigir
largo mulher e filhos
e de joelhos
vou te seguir

Na nossa casa
serás rainha
serás cruel, talvez
vais fazer manha
me aperrear
e eu, sempre mais feliz

Silentemente
vou te deitar
na cama que arrumei
pisando em plumas
toda manhã
eu te despertarei

Quando te der saudade de mim
quando tua garganta apertar
basta dar um suspiro
que eu vou ligeiro
te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
e estrada afora te conduzir
basta soprar meu nome
com teu perfume
pra me atrair

Entre suspiros
pode outro nome
dos lábios te escapar
terei ciúme
até de mim
no espelho a te abraçar

Mas teu amante
sempre serei
mais do que hoje sou
ou estas rimas
não escrevi
nem ninguém nunca amou

Se as tuas noites não têm mais fim
se um desalmado te faz chorar
deixa cair um lenço
que eu te alcanço
em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
quando eu não estiver mais aqui
lembra-te, minha nega
desta cantiga
que fiz pra ti


Cristovão Bastos e Chico Buarque - Brasil



Galiza - Tés crianças, tés alternativas

Por volta da difusão social do galego são feitas cada ano uma miríade de campanhas institucionais e pessoais, surgem debates intensos mais ou menos emocionais, mais ou menos racionais e escrevem-se artigos que são comentados, em média, por mais pessoas que outros textos com temáticas diferentes. A língua move, é claro. Ora, toda esta ação empalidece perante uma pergunta: somos capazes de garantir a transmissão linguística de pais para filhos?

Na Galiza, a percentagem de pessoas que tem vontade manifesta de que os seus filhos falem o galego que elas falam é pequeno. A percentagem de aquelas que o conseguem é ainda menor. Possivelmente tu, que estás a ler este texto, tenhas vontade ou terás vontade no futuro.

Por que as crianças falam a língua que falam? Esta também é uma pergunta iniludível. Antes de eu ser pai achava que os progenitores eram a chave do cofre. Agora que sou pai e converso com pais, verifiquei que a chave são os iguais… os amigos e colegas. Por sua vez, os desenhos animados também têm um peso importante, não apenas polo tempo de exposição que implica como também polo valor que as crianças dão a umas personagens que nem sempre falam a língua da casa.

Em termos gerais, a melhor forma de facilitar que os miúdos conservem a língua com que foram educados polos pais é existir uma envolvente em galego, por outros palavras, um ambiente que, maioritariamente, se expresse na língua da Galiza. Um dos espaços imprescindíveis são as escolas e os infantários. Em média, uma criança passa lá 5 horas diárias de segunda a sexta-feira. Se somarmos as atividades extra-escolares ligadas ao centro ou os encontros com colegas da escola fora da mesma, a cifra torna-se ainda mais crucial. Na atualidade, este serviço é abordado polas escolas sementes nalgumas cidades e nas áreas rurais, nem todas, por muitos centros onde o galego é hegemónico entre as turmas. Ora, resta muito por fazer e a maioria das famílias estão desassistidas, escolarmente falando.

Outra área relevante, se atendemos ao número de horas e a influência que têm nas vidas dos miúdos, são os desenhos animados. Neste aspeto, há uma má e uma boa notícia. A notícia ruim é que os galegas e as galegas somos educados em que a nossa língua é local (enquanto o castelhano e internacional, não é?. Com esse esquema, os desenhos animados tornam-se numa tarefa impossível. Na TV existem dous canais 24 horas de programação infantil em castelhano, com as desenhos que todos querem ver e a TVG não oferece nada que se lhe poda comparar. Ora, falava também de uma boa notícia: podemos ser desobedientes e viver o galego como uma língua internacional (como o castelhano, enfim). Então o mapa muda e aparecem mil possibilidades trocando a TV polo computador/Internet de onde se podem obter as mesmas sérias que oferece a TV espanhola. Se o uso do audiovisual é feito desde o princípio em galego internacional, a Doutora Brinquedos ou Dora, a aventureira falam galego.

De facto, falam. No capítulo Peixe fora d´água, da versão brasileira de Dora, a aventureira, a nossa criança vai ouvir encher, buracos, balde, rocha vermelha, caranguejo, polvo, tartarugas, golfinhos. Na versão que nos oferece o sistema cultural espanhol vai ouvir llenar, agujeros, cubo, roca roja, cangrejo, pulpo, tortugas, delfines. Cada escolha implica uma forma diferente de estar no mundo. Onde queremos estar? Onde queremos que estejam os nossos filhos? Valentim Fagim – Galiza in “Portal Galego da Língua”


Valentim Fagim - Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.

sábado, 5 de agosto de 2017

Portugal - Madeira Multilingual School aposta na CPLP

A Madeira Multilingual School procura parcerias no continente e quer estar, nos próximos anos, em todos os países lusófonos. Educação multilingue é grande vantagem para os alunos, defende a diretora. Para além da Madeira, encontram-se já em funcionamento escolas em Cabo Verde, na cidade da Praia, e na Guine Equatorial, nas cidades de Malabo, Bata e Mongomo. O processo de expansão prossegue, estando prevista para breve a abertura de mais uma escola que estará localizada em Moçambique, na cidade de Maputo



Em entrevista ao Económico Madeira, Júlia Ladeira Santos, diretora da Madeira Multilingual School – International Sharing School e Vice-Presidente da Sharing Foundation, fala dos objetivos de crescimento desta escola internacional bilingue e de que forma procura diferenciar a sua oferta educativa.

Fale-nos um pouco sobre a Madeira Multilingual School – International Sharing School.

A Madeira Multilingual School – International Sharing School é a única escola internacional multilingue da ilha da Madeira. Foi fundada em 1980 por Susan Farrow, com a denominação de Escola Britânica da Madeira, porque era onde estudavam os filhos dos ingleses residentes na Madeira. Tinha igualmente alunos portugueses por isso a base de ensino foi sempre bilingue, tal como ainda acontece atualmente. Recebemos alunos dos nove meses aos 16 anos de qualquer nacionalidade, em que implementamos a aprendizagem do inglês e do português desde o início do percurso académico, saindo os alunos da nossa escola com o Ensino Básico completo e ainda a falarem fluentemente cinco línguas das sete que fazem parte do currículo, sendo o Português, o Inglês, o Alemão, o Mandarim e o Russo obrigatórias, e o Francês e o Espanhol optativas.

Qual a grande diferença no tipo de ensino que a escola promove?

Somos uma escola especial porque trabalhamos com turmas com um máximo de 17 alunos, permitindo assim um trabalho mais individualizado com cada um deles. O tempo dedicado ao aluno é um pilar chave no nosso ensino, permitindo uma maior adequação às caraterísticas de aprendizagem de cada pessoa. O sistema educativo aplicado na nossa escola prepara os alunos para o ensino superior internacional, através de aulas que incentivam a pensar de forma crítica e analítica sobre as mais diversas temáticas, respeitando sempres as diferenças de uma sociedade cada vez mais globalizada. Apostamos na abordagem multilinguística e multicultural do currículo, com uma forte componente de partilha de conhecimento que não conhece fronteiras geográficas. Esta nossa premissa reflete-se precisamente na composição do nosso grupo de alunos e ‘staff’, que atualmente alberga 17 nacionalidades distintas.

E porquê essa aposta numa educação multilingue?

Na sua génese a escola já era bilingue. Esta oferta garantia a possibilidade de ingressar tanto numa escola portuguesa como numa instituição de ensino de língua inglesa em qualquer parte do mundo. Desde a sua origem que se tem vindo a trabalhar para intensificar este modelo de educação multilingue, sendo hoje muito consistente, constando inclusivamente do programa curricular dos alunos o Mandarim, iniciando-se no PYP 1, o Alemão no PYP 3, e o Russo, desde o MYP 1. A par com a educação multilingue, temos uma base de atuação multicultural, pois temos mais de uma centena de alunos que representam 17 nacionalidades e sabemos como é essencial à construção da aprendizagem e crescimento individual a interligação cultural.

Atualmente a escola faz parte do Projeto Multilingual Schools da Sharing Foundation, um projeto de criação de escolas multilingues e multiculturais um pouco por todo o mundo.

O que significa para a Madeira Multilingual School fazer parte deste projeto da Sharing Foudation?

É um grande desafio que se enquadra na nossa filosofia. O projeto Escola Britânica da Madeira foi criado em 1980, tendo evoluído para Multilingual Schools em 2013, e internacionalizado em 2014. O projeto tem por objetivo principal difundir o ensino de excelência com elevada qualidade, que valorize e desenvolva competências para que os alunos sejam capazes de aprender, viver e trabalhar num mundo cada vez mais global.

Por seu lado, a nossa escola Madeira Multilingual School tem por objetivo oferecer uma educação internacional desde a creche até ao 9º ano. É isto que os pais dos nossos alunos sabem que encontram quando procuram a nossa instituição, aliado a um ambiente multicultural altamente enriquecedor e de onde resulta uma aprendizagem mais qualitativa e integrada.

Neste momento, qual é o grande objetivo do projeto Multilingual Schools da Sharing Foundation?

O objetivo deste projeto é desenvolver em todo o mundo uma rede de escolas internacionais, multiculturais e multilingues com o intuito de preparar as novas gerações para um mundo cada vez mais globalizado e com permanentes mudanças económicas, sociais, culturais e políticas. Num contexto mais amplo, este tipo de ensino trará no futuro um significativo impacto económico, além do que permitirá reforçar na base da sociedade uma educação cada vez mais integrativa e de visão ampla, para se compreender melhor o mundo, no seu todo e em todas as suas especificidades. É este o sentimento que nos move e que faz do Projeto Multilingual Schools da Sharing Foundation um grande agente de educação multicultural.

Para além da Madeira, onde estão situadas as instituições da Multilingual Schools?

Para além da Madeira, encontram-se já em funcionamento escolas em Cabo Verde, na cidade da Praia, e na Guine Equatorial, nas cidades de Malabo, Bata e Mongomo. O processo de expansão prossegue, estando prevista para breve a abertura de mais uma escola que estará localizada em Moçambique, na cidade de Maputo.

E em Portugal continental, está prevista a abertura de escolas?

É uma das nossas vontades. Estamos a trabalhar no sentido de concretizar esta ambição que nos permitirá reforçar o nosso âmbito de atuação a nível nacional. Neste momento, estamos focados em encontrar parceiros nas áreas de Lisboa, Porto ou Algarve, que nos possibilitem implementar novos projetos. Além disso, pretendemos nos próximos anos chegar a todos os países da CPLP, que representa um universo de mais de 350 milhões de habitantes. Este será um processo contínuo com uma reavaliação constante do projeto com base na experiência e perceção dos resultados de cada país. Esta revisão contínua dos resultados vai permitir ajustar o projeto em mercados estrangeiros e melhorar a nossa oferta educacional.

Acredita, portanto, que estar inserida neste projeto é uma mais-valia para os alunos.

Naturalmente que sim. As gerações futuras serão em breve inevitavelmente confrontadas com uma crescente necessidade de compreensão e maior capacidade de trabalhar com línguas e culturas diferentes. Esta exigência é já uma realidade em alguns setores empresariais, sendo fundamental estar preparado para o nosso mundo, cada vez mais global. A nossa metodologia de ensino vem precisamente contribuir para esta preparação e abrir o leque de oportunidades futuras. Graças a esta base e ao nosso posicionamento multicultural, a Madeira Multilingual School – International Sharing Foundation foi recentemente certificada como International Baccalaureate World School e, juntamente com a APEL – Associação Promotora do Ensino Livre, são a segunda escola a nível nacional a oferecer no mesmo campus os três diplomas, PYP, MYP e DP, internacionalmente certificados pela IBO – International Baccalaureate Organization.

Explique-nos o que é a International Baccalaureate Organization (IBO).

É uma organização educacional que oferece uma qualificação de reputação mundial para estudantes que querem um currículo amplo e desafiador e que os ajude a desenvolver todas as habilidades necessárias para o seu sucesso na vida académica e posteriormente na vida profissional. Fundado em 1969, disponibiliza quatros programas educacionais através de escolas autorizadas um pouco por todo o mundo. Estes programas abrangem alunos dos três aos 19 anos divididos da seguinte forma: Primary Years Programme (PYP) dos 3 aos 11 anos, Middle Years Programme (MYP) dos 11 aos 16 anos, Diploma Programme (DP) dos 16 aos 19 anos e ainda o Career Programme (CP), também para alunos dos 16 aos 19 anos, mas com uma oferta academicamente mais acessível do que o Diploma Programme. Atualmente existem 4.655 escolas IB espalhadas por 149 países com mais de cinco milhões de alunos e 50000 professores. Gabriel Antunes – Portugal in “Económico da Madeira”

Sobre esta temática o blogue “Baía da Lusofonia” abordou há precisamente três anos sobre a aprendizagem da língua portuguesa na Guiné Equatorial, leia aqui.