Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 6 de abril de 2019

Espanha – Divulga manuscrito emblemático da literatura medieval portuguesa


O Ministério da Cultura de Espanha e a Polícia Nacional do país vizinho apresentaram em Madrid uma folha manuscrita restaurada do Livro da Montaria, redigido no século XV, na corte de D. João I de Portugal

Trata-se de um «fragmento» de uma obra «emblemática da literatura medieval portuguesa» e «fundamental» para o estudo da arte de caçar dessa época, explicou o diretor-geral das Belas-Artes espanholas, Román Fernández-Baca.

A «preciosa» folha manuscrita, que tinha sido roubada em 1995 e recuperada em 2014, foi «restaurada, estudada e digitalizada», e foi devolvida esta quinta-feira, 4 de abril, ao Arquivo Provincial de Lugo (Galiza).

O Livro da Montaria original está desde 1600 na biblioteca do colégio da Companhia de Jesus de Monforte de Lemos (concelho de Lugo).

Anteriormente, pensa-se que teria sido doada a essa instituição pelo cardeal Rodrigo de Castor Osório, filho da III Condessa de Lemos, com ligações à família real portuguesa.

Após a expulsão dos jesuítas de Espanha, no século XVIII, a obra desapareceu e foi considerada destruída.

O Livro da Montaria, escrito por iniciativa direta do rei João I, entre 1415 e 1433, descreve ensinamentos práticos sobre a arte da cavalaria e técnicas específicas para caçar diferentes presas, sobretudo o urso e o javali.

O livro só era conhecido através de testemunhos medievais, entre eles as referências feitas pelo filho e sucessor de João I, o rei Duarte, e pelos registos na sua biblioteca.

Até à recuperação deste manuscrito, considerava-se que havia apenas três exemplares do Livro da Montaria, todas elas cópias posteriores ao período medieval.

O mais antigo, datado de 1626 e feito a partir do livro a que pertence o fragmento hoje apresentado, está guardado na Fundação Oriente, em Lisboa.

Os dois posteriores foram elaborados em 1844 e em 1897 e estão, respetivamente, na Biblioteca Nacional de Lisboa e na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

«A montaria era muito importante naquela época, porque era uma forma de preparação para a guerra», explicou Severiano Hernández, subdiretor-geral dos Arquivos Estatais.

A investigação sobre a localização do Livro da Montaria foi iniciada em fevereiro de 2014, quando o Arquivo Provincial de Lugo localizou outros 24 «fragmentos» dessa obra que tinham sido «reutilizados» para proteger vários livros com atos ou escrituras notariais feitas em Monforte de Lemos, no século XVIII.

De acordo com o que foi explicado, sendo as folhas de pergaminho mais resistentes que o papel comum, os «fragmentos» do Livro da Montaria foram utilizados para embrulhar as escrituras notariais.

«A folha recuperada foi devolvida em 2014 pela família de uma pessoa que supostamente tinha subtraído o fragmento» em 1995, disse o comissário chefe da Unidade de Delinquência Especializada e Violenta (UDEV) da Polícia Nacional espanhola, Enrique Juárez.

Escrito entre 1415 e 1433, o livro tem 70 capítulos divididos por três volumes, e estava erradamente classificado como contendo um texto musical. In “Revista Port. Com” - Portugal

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Galiza - Encontro entre as dramaturxias galega e portuguesa

O Consello da Cultura Galega, o Camões, Centro Cultural Portugués en Vigo e a Escola Superior de Arte Dramática de Galicia poñen en marcha o programa Dramaturxias itinerantes / Dramaturgias itinerantes, que ten por obxectivo servir de ponte entre as escrituras teatrais galega e portuguesa para fomentar, a través do diálogo escénico, un mellor coñecemento mutuo que poida agromar en futuros traballos colectivos.

Nesta primavera de 2019 inaugúrase o ciclo en Galicia o ciclo, primeiro en Compostela e despois en Vigo, coas dramaturgas Patrícia Portela e Lina Pérez. Poderán escoitarse os seus textos orixinais nas voces de alumnado da ESAD e de parte do Grupo de Teatro Amador do Centro Cultural Português do Camões de Vigo “Eu.Experimento” ao tempo que haberá ocasión de departir coas dúas escritoras nun debate moderado por Afonso Becerra. Por volta do verán, a actividade terá continuidade en terras portuguesas.

As obras serán Escudos Humanos. Uma peça de acção con muitas palabras (2008) de Patrícia Portela, interpretada polo Grupo de Teatro Amador do Centro Cultural Português do Camões en Vigo, Eu.Experimento, dirixido por Vanesa Sotelo; e Os cans non comprenden a Kandinsky (2017) de Avelina Pérez –obra orixinalmente editada pola erregueté | Revista Galega de Teatro no seu número 91–, interpretada polo alumnado da ESAD de Vigo, dirixido por Nuria Montero, profesora e actriz.

Coma en anteriores encontros literarios –organizados en colaboración co Instituto Ramon Llull e o Instituto Etxepare-, o Consello da Cultura Galega publicará na súa web os textos dramatizados na xornada coa finalidade de seguir a estreitar os vencellos entre a cultura galega e a portuguesa, co teatro como aliado na construción dun espazo común e diverso no que existirmos e dende o que falar coas nosas propias voces.

A primeira sesión de Dramaturxias itinerantes / Dramaturgias itinerantes terá lugar o vindeiro luns, 8 de abril de 2019, ás 18:30, no Consello da Cultura Galega. O martes, 9 de abril, ás 16:30, esta sesión de lecturas dramatizadas repetirase na sede da Escola Superior de Arte Dramática de Galicia (ESAD), en Vigo. In “erregueté” - Galiza

segunda-feira, 18 de março de 2019

Península Ibérica – Linha ferroviária entre Porto e Vigo fica de fora do Corredor Atlântico

A ligação ferroviária entre Porto e Vigo não integrará o novo desenho do Corredor Atlântico, pelo que permanece fora da rede “core” da Rede Transeuropeia de Transportes (RTE-T)



O Parlamento Europeu, o Conselho e a Comissão Europeia chegaram a acordo sobre a integração da ligação ferroviária La Coruña, Vigo, Ourense e Leão no Corredor Atlântico da rede prioritária do transporte de mercadorias da União Europeia, tal como pretendido por Espanha.

Contudo, a ligação de Vigo ao Porto, desejada pelo porto viguês, não foi contemplada na revisão – e ampliação – do traçado do Corredor Atlântico.

Segundo o “Faro de Vigo”, a decisão comunitária não agradou à Xunta da Galiza, uma vez que deixa o porto de Vigo fora do corredor comunitário, com menor acesso a fundos de Bruxelas e menor visibilidade e competitividade para captar cargas no contexto internacional.

Sem integrar a rede “core” da RTE-T, os investimentos na ligação ferroviária entre Vigo e o Porto apenas poderão ser co-financiados num máximo de 50%, e isto por se tratar de um troço transfronteiriço.

A Linha do Minho, que liga o Porto à fronteira de Valença, está a ser modernizada e preparada para receber comboios de 750 metros de comprimento.

Com a integração da Galiza no Corredor Atlântico, na prática os carregadores do Norte de Portugal poderiam ter, a prazo, uma alternativa ao traçado nacional para chegarem à Europa além-Pirinéus. In “Transportes & Negócios” - Portugal

domingo, 13 de janeiro de 2019

Galiza - As Academias Galega e Brasileira asinan “estreitar lazos entre linguas irmás”

“Na Real Academia Galega hai conciencia de que a lingua galega forma parte dunha familia onde están os irmáns de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Mozambique. O galego forma parte dese proxecto internacional”. Con esta clareza saudou Víctor Freixanes, presidente da RAG, o acordo asinado co seu homólogo brasileiro, Marco Lucchesi



As Academias Galega e Brasileira das Letras rubricaron esta quinta feira un protocolo “para estreitar os lazos entre as dúas linguas irmás e o potencial da lusofonía”. “Abrimos as portas a potenciaren o intercambio de investigacións e manifestamos o interese de levaren a cabo outros proxectos de colaboración en distintos eidos”, expuxo a Academia Galega nun comunicado posterior á comparecencia conxunta de ambos os dous presidentes.

“Queremos estreitar a relación entre a área cultural lingüística brasileira e galega”, sinalou Víctor Freixanes. O documento presentado na sede da coruñesa rúa Tabernas servirá, segundo indica a institución galega, para “afondar en proxectos compartidos, unha liña na que xa traballan desde hai tempo membros da RAG desde os seus respectivos eidos”.

Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira das Letras, cualificou o acto de “histórico”. “Non podemos perder a raíz, porque se a perdemos, perderemos a tentativa de inscribirnos nunha comunidade de destino”, afirmou, “e a nosa comunidade de destino non é unha comunidade imperial, é unha comunidade que pasa polas linguas que nos pronunciaron”.

Lucchesi non deixou de se preonunciar sobre a política actual do seu país. “A cultura é o último bastión da república do Brasil e da democracia”, concluíu. In “Sermos Galiza” - Galiza

sábado, 29 de dezembro de 2018

Galiza - I Bienal Internacional de Mail Art Zeca Afonso



O que é o mail art?

Mail Art é a denominaçom que se emprega para designar umha atividade artística que utiliza como meio de expressom a distribuiçom postal. Estes envios postais podem ser desde mensagens, collages ou consignas até poemas, relatos curtos, pinturas, etc.

Este projecto pretende desembaraçar-se das vias tradicionais de distribuiçom da arte e fornecer umha possibilidade a artistas que tiverem interesse em dar a conhecer a sua obra através do formato postal. Um carácter crítico que pretende reduzir a influência das galerias e espaços mercantilizados e oferecer umha alternativa.

Na realidade, isto nom é umha iniciativa nova. Já em 1962 Ray Jonson funda em Nova Iorque a Correspondance School of Art que irá dar impulso a este movimento. De facto, a rede de intercambios chegou a ter um volume considerável, sobretudo porque se convertiu num meio de expressom das artistas feministas.

O que som as línguas minorizadas?

A temática eleita para a I Bienal Internacional de Mail Art Zeca Afonso, organizada pela Associaçom José Afonso Galiza, centra-se nas línguas minorizadas. Deve entender-se isto como um termo que faz referência a umha língua que sufriu marginaçom, persecuçom ou inclusive que estivo proibida em qualquer momento da história, o que implica um corte na sua utilizaçom e diversos problemas quanto à sua concepçom como elemento útil ou como identificador de umha realidade coletiva.

Línguas minorizadas e línguas minoritárias nom som o mesmo, já que estas últimas fam apenas referência a um número reduzido de utentes. As línguas minorizadas, no entanto, tenhem restringidas as suas possibilidades de uso social. Quer dizer, nom podem ser empregues como língua principal em usos concretos, em comparaçom às possibilidades de uso expansivas caraterísticas dumha língua dominante. Ademais, as línguas minorizadas costumam sofrer umha bilinguizaçom unilateral de quem as fala, o que significa que, na prática, estas pessoas tenhem no seu repertorio a língua própria e mais a dominante, mas, polo geral, nom no mesmo nível. A comunidade linguística minorizada converte-se desta maneira num subconjunto da dominante e portanto, faz parte, subordinada, da comunidade dominante e assim é percebida. As obras remetidas para a I Bienal Internacional de Mail Art Zeca Afonso deverám refletir qualquer aspeto desta realidade conflituosa. "Associaçom José Afonso" - Galiza

As pessoas interessadas em participar poderám enviar as suas obras até 15 de março de 2019 incluído. Para a admissom da obra será considerada a data do carimbo dos correios. 

A obra com a temática proposta de «línguas minorizadas» deverá ser enviada para o endereço postal da AJA Galiza:

Rua do Rego 6C 5D,
15895 Milhadoiro. Ames.
Galiza — Estado espanhol

O envio das obras significa a aceitaçom das seguintes


                                                              BASES:

1 - Participaçom. Poderám participar nesta bienal todas as pessoas que o desejarem, profissionais ou amadoras, desde que os seus trabalhos se ajustarem às presentes bases. Poderám participar com um máximo de três obras originais e com técnica livre.

2 - Tema. O tema das obras remetidas para esta I Bienal Internacional de Mail Art Zeca Afonso estará relacionado com o conflito das línguas minorizadas.

3 - Originalidade. As obras deverám ser originais ou reproduçom adaptada ao formato postal de obras originais. Todas as obras deverám estar livres de direitos de terceiras pessoas, assumindo esta responsabilidade a pessoa que envia a postal.

4 - Formato. O único formato admitido para este concurso será o postal, com um tamanho máximo de 15 x 9 cm (6 x 3,5 polegadas). O motivo desta restriçom é oferecer um melhor discurso expositivo nos distintos espaços destinados para isso.

5 - Limites. Não serám aceitadas obras sexistas, homofóbicas ou contra os valores democráticos, polo que a admissom das obras fica sujeita à valoraçom prévia por parte de membros da AJA Galiza.

6 - Dados da obra. No envio da obra, deverám ser indicadas a autoria, o título da obra, a técnica com que foi realizada e umha breve explicaçom, bem como o endereço postal e eletrónico do remetente. Também poderám ser indicadas referências aos perfis das/dos participantes nas redes sociais aos efeitos de identificaçom, conforme indicado no ponto 9 destas bases. No caso de enviar mais de umha obra, estes dados serám indicados para cada umha delas.

7 - Exibiçom. As obras poderám ser expostas em distintos espaços tanto físicos na Galiza e em Portugal, aproveitando a rede de que dispom a AJA Portugal, quanto virtuais, incluídos o website e as redes sociais de acordo com a necessidade de difundir a iniciativa. A informação referente aos locais e as datas de exposiçons, inauguraçons, etc. estará disponível no website da AJA Galiza (www.aja.gal) e também nos seus perfis das redes sociais.

8 - Digitalizaçom. As obras poderám ser digitalizadas e expostas no website da AJA Galiza assim como nos seus perfis das redes sociais, acreditando a autoria.

9 - Depósito e direitos. As obras ficarám em posse da Associaçom José Afonso Galiza, que passará a detentar a propriedade das mesmas ou das cópias remetidas, no seu caso, e que poderá utilizar posteriormente com fins culturais, artísticos ou publicitários, citando sempre a autoria e de acordo com a Lei de Propriedade Intelectual que for de aplicaçom.

10 - Aceitaçom das bases. Quem participar, aceita os requisitos expostos nesta convocatória, tanto nas bases quanto no referido ao endereço e prazo de envio. As obras que nom cumpram estas bases, nom serám consideradas para a Bienal.


A Associaçom José Afonso Galiza, organizadora da I Bienal Internacional de Mail Art Zeca Afonso, compromete-se ao seguinte:

1 - Quem participar receberá um certificado digital de participaçom, que será remetido através de correio electrónico e assinado pela pessoa responsável pela curaçom das exposiçons e pola presidência da AJA Galiza.

2 - A organizaçom terá um cuidado estrito na manipulçaom das obras recebidas, mas declina qualquer responsabilidade por perda, roturas, roubos ou quaisquer danos sofridos durante o envio, o traslado ou as diferentes exposiçons.

3 - A AJA Galiza difundirá, na medida das suas possibilidades, tanto as diferentes exposiçons, quanto as obras remetidas, bem como o conjunto da bienal, através da imprensa e das redes sociais.

4 - A exposiçom inaugural será realizada em Maio de 2019, ligada às celebraçons do Dia das Letras Galegas, que comemoram a literatura em língua galega.

5 - No final do período, a AJA Galiza editará um catálogo digital de todas as obras, que será remetido às pessoas participantes por correio eletrónico

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Galiza – Investigação da produção de polvo em aquicultura

Álvaro Roura: "Queremos criar polvo de aquicultura imitando a sua vida em liberdade"



Menos de dois meses depois de se conhecer o IEO e Pescanova terem conseguido completar o ciclo do polvo comum (Octopus vulgaris) em cativeiro, uma nova linha de investigação une-se à corrida do que seria um marco histórico na aquicultura na Galiza. O Instituto de Pesquisas Marítimas de Vigo e a Armadora Pereira anunciaram na passada segunda-feira que têm resultados "muito esperançosos" neste sentido. A tese de doutoramento de Álvaro Roura, dirigida por Ángel Guerra, Ángel González e Gabriel Rosón, serviu de estímulo a uma nova abordagem para acertar com a dieta da paralarva, um muro quase intransponível até agora para os cientistas. O artigo publicado no “Progress in Oceanography” junta-se, desta maneira, à corrida comercial para produzir o polvo da piscicultura e levá-lo ao mercado. Álvaro Roura responde a várias questões sobre esta investigação.

Como foi a pergunta que deu início a tudo isto?

Gosto muito de ecologia e respondo a perguntas básicas da vida destes animais. E pensar também como podemos abrir os nossos olhos para futuras aplicações. O da alimentação era uma das fases do conhecimento da vida do polvo em cativeiro que nos faltava aprofundar. Sabíamos como e quando os jovens iam para os estuários, mas não como viviam e comiam. E foi isso que estudámos e continuamos estudando.

O que foi feito na investigação?

Completei o meu período de pós-doutoramento na Austrália, e estudei as larvas do polvo e outros cefalópodes que se movem pelo oceano, como eles podem ir de um lugar para outro e o que comem. Fizemos uma série de campanhas oceanográficas e, pela primeira vez, capturámos larvas fora da plataforma continental. Isto nunca se conseguira até aquele momento. É um processo muito lento e muito difícil. Perto da costa há uma larva entre cada 200.000 animais, mas se sais para o oceano, há uma para cada quatro milhões de animais. Há que ver e procurar muitos animais para encontrar um. E foi um enorme esforço.

Com essas larvas, pudemos estudar a sua dieta. Realizámos técnicas de sequenciamento em massa com as quais obtivemos muitas informações sobre essa alimentação, identificando mais de 90 presas diferentes.

E com essa informação, ao terminar a estadia na Austrália, começámos a elaborar projectos para aplicar esse conhecimento à aquicultura, para ver se poderíamos resolver este grande problema. Tivemos a sorte de que a Armadora Pereira estivesse interessada no projecto e confiasse em mim. Fizemos um acordo de colaboração e fomos capazes de desenvolver esta hipótese, para ver se poderíamos usar a ecologia para criar polvos em cativeiro.

Conseguiu então superar o problema?

Passámos 18 meses com o projecto, desde abril do ano passado, e temos resultados muito promissores. Conseguimos reduzir a mortalidade, com sobrevivências, aos 60 dias, entre 20 e 30%. Isto é apenas o começo, porque não tínhamos experiência anterior em cultivo. Venho de investigar as larvas no oceano, não na aquicultura.

Como foi com a comida?

Já sabíamos que eles comem muitos crustáceos: caranguejos, camarões, gastrópodes, quetognatas, etc. Há uma parte que não podemos contar porque faz parte do acordo com a armadora. Mas podemos dizer que é feito de artemia, um alimento que é usado na aquicultura, com produtos como o sargo ou o robalo.

Aqui, a artemia é o veículo que pode ser enriquecido com muitas coisas, embora em si tenha pouco valor nutricional. Se fizermos isso rapidamente, antes que a digestão seja feita e expulse esses nutrientes, podemos ter a chave para alimentar as larvas de polvo.



Os resultados do IEO e Pescanova foram conhecidos recentemente. Tem este projecto algo em comum?

Colaboramos com o IEO, e temos artigos em comum, mas não tem nada a ver com isto. Mas esta linha de pesquisa concentra-se na vida das larvas em liberdade. Até agora, a aquicultura do polvo fez-se um pouco às cegas, mas a linha que desenvolvemos no Ecobiomar leva mais em conta a perspectiva ecológica. Queremos criar polvo de aquacultura, mas imitando e recriando a sua vida em liberdade.

O que falta agora?

Muito, porque o projecto apenas agora começou. As larvas são animais muito inteligentes, mas muito delicados. E em cada cultura aprendemos algo mais. O que falta é continuar melhorando e pensando em novas hipóteses baseadas na sua ecologia, e melhorando outros aspectos da sua ecologia. Falta bastante para ter dados suficientes para ver se é viável ou não começar a produzir, que é o objectivo final da armadora, porque vêem que isso pode levar à produção. Não precisa ser uma única chave. Podem ser muitas ao mesmo tempo, com afinações muito subtis, e em cada cultura estamos afinando e conhecendo mais pormenores. Manuel Rey – Galiza in “GCiencia”

domingo, 16 de dezembro de 2018

Negro Caravel


















Así che falín un día
camiñiño de San Lois,
todo oprimido de angustia,
todo ardente de pasión,
mentras que ti me escoitabas
depinicando unha frol,
porque eu non vise os teus ollos
que reflrexaban traiciós.

“Quixente tanto, meniña
tívenche tan grande amor,
que para mín eras lúa,
branca aurora e craro sol;
auga limpa en fresca fonte,
rosa do xardín de Dios,
alentiño do meu peito,
vida do meu corazón”

Dempois que si me dixeches,
en proba de teu amor,
décheme un caraveliño
que gardín no corazón.
¡Negro caravel maldito,
que me fireu de dolor!
Mais a pasar polo río,
¡o caravel afondou!…

“Quixente tanto, meniña
tívenche tan grande amor,
que para mín eras lúa,
branca aurora e craro sol;
auga limpa en fresca fonte,
rosa do xardín de Dios,
alentiño do meu peito,
vida do meu corazón”

Tan bo camiño ti leves
como o caravel levou.

Versos de: Rosalía de Castro – Galiza

Adaptado para a canção de Sabela – Galiza

Música: Rosa Cedrón e Cristina Pato - Galiza




Cravo negro

Assim te falei um dia
a caminho de São Luís,
todo oprimido de angústia,
todo ardente de paixão,
enquanto que tu me escutavas
desfolhando uma flor,
para que eu não visse nos teus olhos
que refletiam traição.

“Quis-te tanto, menina
tive tão grande amor,
que para mim eras a lua,
branca aurora e claro sol;
água limpa em fresca fonte,
rosa do jardim de Deus,
alento do meu peito,
vida do meu coração”

Depois me disseste,
que como prova do teu amor,
davas-me um cravinho
que guardei no coração.
¡Cravo negro maldito,
que me feriu de dor!
Mas ao passar pelo rio,
¡O cravo afundou! …

“Quis-te tanto, menina
tive tão grande amor,
que para mim eras a lua,
branca aurora e claro sol;
água limpa em fresca fonte,
rosa do jardim de Deus,
alento do meu peito,
vida do meu coração ”

Tão bom caminho te leve
como ao cravo levou.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Lusofonia - Constituída em Braga Rede da GaliLusofonia



No passado sábado, 24 de Novembro, celebrou-se, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva de Braga, a reunião de constituição da Rede da GaliLusofonia.

O presidente da Câmara Municipal de Braga, Ricardo Rio, inaugurou esta reunião, quem viu “com bons olhos este estreitar de laços entre as populações dos dois lados da fronteira, reforçando a identidade comum e as tradições da região, de forma a potenciar o talento que a mesma contém”. Também encorajou os assistentes a participarem ativamente na programação de Braga Capital Cultural do Eixo Atlântico 2020 e anunciou a geminação, aprovada no dia anterior, com Santiago de Compostela.

Continuou a reunião com uma ronda de apresentações onde se introduziu um breve debate sobre a língua portuguesa e as diferentes expressões que serviu para clarificar que, ainda que alguns a escrevam de forma diferente, é a mesma e isso é o que nos une.

Houve, também, uma visita guiada, com a Diretora da Biblioteca, que nos explicou as características documentais e as diversas funções sociais e educativas que desenvolve. Destacou um nutrido apartado de livros galegos fruto de doações oficiais, e que não está inserido na seção de livros estrangeiros.

O almoço, oferecido pela Câmara de Braga, no restaurante taberna Migaitas, foi muito cultural no gastronómico e nas parcerias que ali começaram a construir-se.

Na parte da tarde discutiram-se os aspectos puramente organizativos, nomeando uma gestora para esclarecer algumas questões legais sobre a melhor forma jurídica e também para fazer a redação dos estatutos, e a possibilidade de constituir a rede como Associação Internacional más ficou a dúvida do reconhecimento jurídico pleno nos dois estados. A gestora vai falar com um par de deputados europeus para esclarecer algumas dúvidas.

Criaram-se já algumas comissões (Difusão e Parcerias; Subsídios; Comunicação; Publicações) para ir avançando na elaboração dum plano de ação e atividades a curto, médio e longo prazo.

O Concelho de Cedeira propus celebrar lá uma reunião com motivo do Festival ‘Traz outro amigo também’, no segundo fim de semana de junho de 2019, mas antes deve celebrar-se a Assembleia para constituir formalmente a Rede.

A Rede vai estar presente no Festival Culturgal numa banca compartilhada com algumas destas organizações.

A AGAL esteve representada no encontro de Ponte Vedra polo seu vice-presidente, Carlos Quiroga, e em Braga polo secretário, Eliseu Mera.

A Rede da Galilusofonia, tem como objetivo juntar esforços, coordenar-se e cooperar na difusão de iniciativas encaminhadas a fomentar a nossa língua e cultura comuns no seu espaço natural, a Lusofonia, com grande potencial noutros campos como o económico e o institucional.

O projeto nasceu em Ponte Vedra, em Outubro passado, e é impulsionado por diferentes entidades galegas e portuguesas que partilham o objetivo comum de difundir a música e as artes e aproximar a língua e a cultura galegas da Lusofonia.

A Rede pretende concretizar os objetivos gerais em ações como estabelecimento de parcerias, o trabalho no reconhecimento e autenticação da língua e cultura comuns de forma multidirecional em todos os territórios, a inclusão de conteúdos curriculares em todos os sistemas educativos dos países de língua comum que evidenciem a história, língua e cultura comuns ou a recuperação, difusão e promoção do património cultural comum.

Nesta iniciativa estão presentes entidades galegas como a Associaçom Galega da Língua (AGAL), Escola Oficial de Idiomas de Santiago, Academia Galega da Língua Portuguesa, A Mesa pola normalización lingüística, Concelho de Ponte Areias, Concelho de Cedeira, Ponte nas Ondas ou Cantos na Maré. Na parte portuguesa participam TIN.BRA-Academia de Teatro (Braga), Associação José Afonso Portugal, Freguesia de Nogeiró, Castro Galaico Festival de Nogueiró, Livraria Traga Mundos ou Cantos d’Aqui. In “Portal Galego da Língua” - Galiza

sábado, 17 de novembro de 2018

Viagem a Nova Orleães a bordo do português

A viagem de hoje vai levar-nos ao coração da Amazónia, às ruas de Nova Orleães e à Galiza — e começa numa das fronteiras mais antigas do mundo.

Olhe para o mapa da Europa de 1300.



Qual é o único país com um aspecto reconhecível? Ali está, a um canto… Falo de Portugal. É certo que houve acertos no século XIX (e nem falo da subtracção de Olivença) — mas o aspecto global da fronteira é muito estável. Então se falarmos do troço norte dessa fronteira, estamos a falar de uma linha com muitos séculos de existência.

Chegar a Nova Orleães a bordo de um livro

Porque falei da nossa fronteira? A razão é pessoalíssima: foi precisamente no seu troço mais antigo e batido — aquela linha que nos separa da Galiza — que encenei as primeiras cenas (e as últimas) do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

Desta vez, não falo do livro para o divulgar entre os possíveis leitores — embora (espero que concorde) não venha mal ao mundo se confessar aqui o desejo de levar a Incrível História a mais leitores. Trago-o a este texto porque esse livro levou-me até Nova Orleães. Os livros servem mesmo para viajar…

Conto tudo.

Pois bem: o acaso que sempre ordena estas coisas pôs o livro nas mãos de Catherine V. Howard, tradutora norte-americana que trabalha com a nossa língua.

Ora, a Catherine faz parte da American Translators Association, uma associação muito activa de tradutores que, todos os anos, organiza uma conferência gigantesca numa cidade dos E.U.A. Este ano calhou a vez a Nova Orleães — diga-se que é já a 59.º edição da conferência.

A associação é tão grande que se organiza em divisões — e uma dessas divisões é a Portuguese Language Division. Por sugestão da Catherine, a divisão convidou-me há uns meses para ser o seu orador convidado deste ano — o que só tenho a agradecer. Uma viagem a Nova Orleães! Para falar da língua portuguesa!

Outubro chegou e lá parti eu para os Estados Unidos. Houve umas quantas peripécias pelo caminho, mas ficam para outro dia.

Nova Orleães é uma cidade que nos envolve fisicamente — e não falo (só) da música e do cheiro à boa comida daquela perigosa e saborosa urbe: falo, acima de tudo, da estrondosa humidade que nos faz andar pelas ruas como se estivéssemos a tomar um duche. Parece um horror, mas não é: a cidade vale muito a pena. Um dos lemas é, em francês: «Laissez les bons temps rouler». A animação geral esconde uma história complicada, que nos deu muita música, muita literatura e muito cinema.

Foi numa das ruas do Bairro Francês que conheci ao vivo, por fim, a Catherine e conversámos num interessantíssimo almoço. Ficaria horas a ouvi-la — soube que é antropóloga de formação e já fez investigação bem no coração da Amazónia, onde estudou as culturas e línguas de várias tribos indígenas.

Foi nesse almoço que a Catherine me contou a história dos Waiwai, uma tribo amazónia. A tribo vivia num território onde também cirandavam quatro outras tribos. Os Waiwai eram, de longe, os mais poderosos — as outras tribos caracterizavam-se pelas suas relações mais ou menos próximas com eles.

No que toca às línguas, Catherine contou-me que uma das tribos tinha uma língua muito parecida com a dos Waiwai — e estes reconheciam a parecença, chamando à outra língua uma língua-prima. Havia uma terceira tribo de língua também muito semelhante, mas que os Waiwai garantiam não compreender assim tão bem. Porquê? Porque as relações entre as duas tribos eram bem mais afastadas.

Não parece, mas esta história lembrou-me aquela fronteira muito antiga de que falámos. Já lá chegamos. Antes, falemos do português brasileiro.



Uma questão de proximidade

A apresentação que me levou à cidade do jazz aconteceu no sábado — e não vou reproduzi-la. Fica para quem lá esteve nessas duas horas, que incluíram telenovelas, desenhos animados e muita conversa. Foi uma apresentação pensada para tradutores — e espero ter sido divertida e útil.

Um dos temas principais foi a relação entre o português de Portugal e o português do Brasil. As ideias sobre essa relação vão desde aqueles clientes de tradução que estão convencidos de que basta criar um texto único para ser usado em Portugal e no Brasil (estão bem enganados) até aos tradutores de língua inglesa que estão convencidos ser impossível traduzir a partir do português de Portugal se tiverem aprendido português do Brasil (parece-me também um engano). Fora do mundo da tradução, temos gente que tenta impor unidades artificiais à força e outros que já dão por adquirido que estamos perante duas línguas separadas.

Como quase tudo o que se relaciona com as línguas, é complicado.

Tudo depende, na verdade, das nossas expectativas: se alguém achar que o português de Portugal e o português do Brasil são duas línguas separadas, ficará surpreendido com a facilidade com que um brasileiro lê este texto… Já quem não conhece as diferenças terá uma grande surpresa se for ouvir com atenção a língua que sai da boca das pessoas na rua numa cidade do interior do Brasil e numa vila do interior de Portugal. Tudo depende da situação e da perspectiva com que olhamos para a língua.

A linguagem humana tem tendência para divergir sempre que há um grupo que contacta mais entre si do que com o conjunto de falantes da língua — e isto é válido em vários níveis de aproximação. Assim, criam-se formas de falar diferentes de classe social para classe social; de terra para terra; até de família para família. Com um oceano no meio e uma separação política de 200 anos, seria praticamente impossível que Portugal e o Brasil não sentissem a língua a afastar-se — e há que contar ainda com a história atribulada do português no Brasil e as influências que a língua por lá sofreu.

As diferenças notam-se não tanto na norma, mas antes nas variedades mais populares da língua. Na escrita formal e na conversa entre gente urbana e com formação avançada, a comunicação faz-se quase sem escolhos. Mas nos registos mais informais e nas variedades regionais ou populares, as diferenças notam-se já de forma muito marcada.

As pirâmides da língua

Quis explicar isto de maneira um pouco mais visual (somos seres que gostam de ver, não é?). Assim, inventei esta espécie de pirâmide a duas dimensões (também conhecida como «triângulo»), que mostra o mapa social da língua — e isto é assim mesmo se olharmos apenas para o português de Portugal:



Os nomes de cada secção não seguem uma nomenclatura rigorosa; servem apenas para mostrar a ideia geral. A língua é um pouco mais uniforme na norma (lá em cima) e mais variada (e complexa, para dizer a verdade) nas suas realizações mais informais. Lá em cima, temos o português formal escrito, que tenta aproximar-se de forma cuidadosa da norma da língua. Logo abaixo, temos os casos em que falamos em público: o grau de formalidade será ligeiramente menor que o da escrita, mas não muito. Depois, os textos jornalísticos, que — sendo textos formais — já vão beber uma vez por outra à língua nos seus registos informais. Os textos de marketing também se aproximam da norma, mas quem os escreve olha frequentemente para o vocabulário e a sintaxe mais familiar. Enfim, podíamos continuar por aí fora… (Deixei o texto literário lá em baixo, junto das realizações populares da língua, o que poderá chocar alguns, mas fica para provar que esta pirâmide tem muitas formas de ser construída.)

Ora, no que toca ao português de Portugal e ao português do Brasil, o que temos são duas pirâmides já separadas — a proximidade do material linguístico é ainda inegável, mas a dinâmica social da língua segue em separado dos dois lados do Atlântico. Aquilo que é formal ou informal varia; o léxico também já tem as suas divergências; a sintaxe também já não é exactamente a mesma; e por aí fora. Entendemo-nos ao usar a norma, mas temos dificuldade em reconhecer a variedade interna do outro lado.

Se quisermos representar a situação visualmente, proponho esta imagem:










Os dois triângulos cor-de-laranja que estão no cimo serão os textos mais formais — no fundo, o uso da língua que mais se aproxima da norma. As duas normas (a brasileira e a portuguesa) não se sobrepõem, mas estão muito próximas. Já os textos menos formais, conversas de rua, registos populares e toda a realidade da língua um pouco (ou muito) afastada da norma — esses já estão bem mais distantes. A literatura — que parte da norma, mas tende a usar a língua toda — é um campo onde o jogo de aproximação e afastamento se vê de forma bastante nítida, com tudo o que tem de estranheza e delícia.

Estas duas pirâmides estão a afastar-se. A norma tende a seguir, ao seu ritmo mais lento, o resto da língua — se assim não for, chegamos a uma situação de diglossia, ou seja, de uso de duas línguas na mesma sociedade, uma delas nas situações formais e outra nas situações mais informais (tal como acontece na Suíça ou em cada um dos países árabes). Digamos que, nessas sociedades, a pirâmide se rasgou: a norma e a língua tal como usada na rua são já dois idiomas diferentes.

O Brasil estará um pouco mais próximo dessa situação do que Portugal — mas a norma brasileira também se mexe e não acredito que a pirâmide se rasgue. Por outro lado, ficará certamente mais distante da pirâmide deste lado do oceano…

Devemos ficar tristes com a situação?

Não acho. A verdade é que estes processos são inevitáveis e dificilmente se resolvem com engenharias linguísticas artificiais e pouco eficazes. Não que fosse impossível — afinal, os bascos uniram, através da criação de uma norma artificial, dialectos muito afastados na realidade. O exemplo basco é um entre muitos outros. Mas, repare-se: isso fez-se porque havia uma motivação política muito forte. No caso do português, não vejo motivação política ou social para tentar criar uma norma que volte a aproximar as variantes através do ensino e dos meios de comunicação. As duas sociedades não se vêem como parte de qualquer tipo de comunidade para lá da curiosa proximidade linguística — até a História comum é lida de forma bastante distinta. As duas variantes já respiram sozinhas, como irmãs que foram à sua vida, mas ainda são parecidas.

Portanto: fujamos de utopias linguísticas que pretendam aproximar à força a fala e a escrita de Portugal e do Brasil. Quanto a mim, o mais que farão é criar atrito e ainda mais afastamento.

No entanto, cada um de nós — como falantes da língua — ganha muito em aproveitar a proximidade que existe. Fico muito triste com o horror que algumas pessoas sentem em ler ou ouvir o português do outro lado — não há mal nenhum em abrir os olhos e os ouvidos à tal irmã que fugiu para o outro lado do oceano. Vivemos em continentes diferentes, temos já hábitos diferentes: mas ainda nos entendemos bem.

Há portugueses que têm um verdadeiro horror ao português do Brasil. É qualquer coisa que me ultrapassa, confesso… Sei que o Brasil também tem a sua conta de ideias erradas sobre o português do lado de cá — mas, enfim, custa-me mais o disparate nacional.

Uma surpresa galega

A apresentação teve uma surpresa. Mostrei como o galego e o português estão muito próximos. Não pude apresentar o galego falado e, por isso, mostrei dois textos: um de Manuel Rivas e outro de Teresa Moure.

Ao olhar para os textos (um deles na ortografia oficial e outro na ortografia reintegracionista), deu para perceber que o galego partilha com o português várias características: os artigos definidos, a queda do «n» e do «l» em certas posições, os diminutivos — e muito, muito mais.

Neste caso, a expectativa da maioria dos falantes vai no sentido de encontrar diferenças. Assim, a proximidade que existe é surpreendente: a língua dos galegos não parece tão distante da nossa como pensávamos…

Quando a nossa fronteira norte foi estabelecida, há tantos e tantos séculos, o material linguístico de um lado e do outro era muito semelhante. Depois da criação de Portugal, a linguagem das ruas transformou-se, a sul, na língua oficial do reino, com gramáticas, norma, uso na Corte — isto, claro, ao fim de alguns séculos, que o processo não foi nada rápido.

A norte do Minho, as pessoas continuaram a falar o que sempre falaram — mas, depois do florescimento literário medieval de que todos ouvimos falar na escola na forma das Cantigas de Amigo, a língua ficou nas ruas, com pouco uso escrito e formal.

Só no século XIX, o galego renasce como língua literária — mas note-se que nunca morreu. Esteve apenas a ser usado no lugar onde as línguas nascem, se desenvolvem e morrem: nas bocas dos falantes. Uma larguíssima maioria de galegos sempre usou o galego como a sua língua do dia-a-dia. Se aterrássemos numa rua galega do século XIX, seria difícil ouvirmos conversas entre galegos em castelhano.

Quanto ao uso oficial do galego, só o encontramos no final do século XX — precisamente quando o uso real, na rua, começou a diminuir. Hoje, o galego é uma das línguas oficiais da Galiza — mas já é usado por uma minoria da população.

A proximidade entre o português e o galego é um segredo bem guardado em Portugal — e mais ainda no Brasil. Muitos dos que me ouviam em Nova Orleães eram brasileiros — para muitos, foi uma boa surpresa saber dessa proximidade.

Expliquei brevemente que existem duas normas: o galego reintegracionista — defendido por quem usa a proximidade linguística para reintegrar o galego no mundo da língua portuguesa — e o galego oficial, ensinado nas escolas, usado nos meios de comunicação social e em muitos livros e que encontramos nas placas da estrada quando vamos à Galiza. Este galego oficial usa «ñ» e «ll» (e muitos «x»), enquanto o reintegracionista usa «nh» e «lh» (e o «j»/«g» onde a versão oficial usa o «x»). Mesmo dentro de cada campo, há variações, mas não vale a pena falar delas agora.

Para tentar mostrar de forma um pouco mais visual a relação entre o português e o galego, uso novamente as pirâmides.



















O desenho é uma simplificação, claro. Mas o que quero dizer com ele é que há uma maior proximidade entre as formas populares e informais do que entre as normas. Se a proximidade das normas brasileira e portuguesa podem levar-nos a pensar que a língua das ruas está mais próxima do que realmente está, no caso do galego, acontece o contrário: se olharmos para as normas, ficamos convencidos de que estão mais distantes do que realmente estão.

Contei, lá em Nova Orleães, a história do verbo «chincar», que conheço por ser uma palavra informal de Peniche com o significado de «tocar». Pois o José Ramom Pichel, um bom amigo galego, apontou-me para dicionários galegos antigos onde essa palavra aparece com o mesmo significado. Isto acontece muitas vezes: palavras populares de várias terras portuguesas estão também nos dicionários galegos.

Tudo isto para sublinhar esta palavra: proximidade. Uma proximidade que existe entre o português de Portugal e o português do Brasil — mas também entre o português e o galego. Uma proximidade que convive bem — se quisermos — com as nossas antigas e desejadas separações políticas. Afinal, somos um país antiquíssimo — para quê ter medo do que nos aproxima de outros povos?

Um reencontro galego-brasileiro

Ali, em Nova Orleães, cada um a falar no seu sabor do português, entendemo-nos — portugueses e brasileiros — sem grandes problemas. Pois, no intervalo da sessão, Rafa Lombardino — a presidente da Portuguese Language Division — foi buscar a Marta, uma amiga galega que estava na conferência, para ma apresentar.

A Marta ficou baralhada por saber que tínhamos estado a falar do galego — e também ficou surpreendida quando percebeu que todos nós, portugueses e brasileiros, conseguíamos entendê-la em galego, língua que nunca pensara utilizar numa conversa nos E.U.A.

A Rafa explicou-me então que conhecia a Marta há vários anos, mas que sempre conversaram em inglês ou espanhol — e que só naquele momento perceberam que podiam usar o português e o galego para comunicarem.

Na verdade, o problema da comunicação do galego e do português não é o afastamento linguístico das línguas ao longo de oito séculos — afastamento que existe, mas não impede a comunicação. O problema é mesmo a falta de conhecimento da tal proximidade e o nosso pouco hábito de ouvir e ler os galegos. Nós, portugueses, percebemos bem os brasileiros — isto acontece porque o português do Brasil está próximo, mas também porque estamos habituados a ouvi-lo. Já com os galegos, usamos — por culpa nossa e deles — o famoso portunhol, que esconde uma proximidade antiga e surpreendente.

No fundo, quando ouvimos outra pessoa a falar uma língua ou variedade que nos está próxima, a dificuldade estará mais na falta de hábito e, por vezes, numa certa reserva mental ou numa imagem do mundo onde essa proximidade não encaixa. Sempre aprendemos na escola que os brasileiros falam português. Com mais ou menos atrito, usamos o português para comunicar com eles. Também na escola, aprendemos que a Galiza é uma região de Espanha e que, em Espanha, a língua é o espanhol (mesmo que a professora nos tenha dito mais alguma coisa sobre o interessante assunto, nem tudo fica…). Daí vem a nossa dificuldade em ouvir o galego e a nossa tendência para enfiá-lo no saco do espanhol.

Tal como no caso dos Waiwai, a sensação de distância e proximidade — mesmo no que toca à língua — tem mais que ver com a maneira como encaixamos os outros povos na nossa imagem mental do mundo do que com uma real distância e proximidade cultural e linguística.

Disse há pouco que a divergência entre o português do Brasil e o português de Portugal não é nada que me tire o sono (fico bem mais preocupado com as atitudes pouco saudáveis que algumas pessoas demonstram para com a outra variante da língua). E não me tira o sono porque reparo como a língua se afasta muito devagarinho: afinal, os galegos e portugueses têm entre si uma das fronteiras mais antigas do mundo e as palavras que nos saem das bocas ainda estão muito próximas.

Hoje, com o travão das normas, que mudam bem mais devagar do que a língua à solta nas ruas, estou convencido de que nós, brasileiros e portugueses, temos ainda muitos séculos em que nos compreenderemos uns aos outros sem grande dificuldade — principalmente na escrita. As línguas mudam, mas mudam devagar…

Fico bem mais preocupado com este outro desenvolvimento na nossa família linguística: o galego está a ser substituído pelo castelhano. Tantos séculos depois, é precisamente agora que é oficial e reconhecido que o galego está a desaparecer. Isso é bem mais preocupante do que as diferenças entre o português dos dois lados do oceano. Porque nos há-de preocupar o desaparecimento de uma língua de Espanha? Ora, pela mesma razão por que dois irmãos, mesmo afastados por uma fronteira, continuam a preocupar-se um com o outro. Os verbos que desaparecem da boca dos galegos são os nossos, os artigos definidos que desaparecem da boca dos galegos são os nossos, aquela língua tem ainda muito de nosso… E, caso o galego acabe mesmo por desaparecer, perdemos a oportunidade de comunicar na nossa língua com outro povo.

Mas sobre isso já não falei em Nova Orleães — que havia muito mais para conversar. Mas fica aqui, neste texto, a lembrar como uma língua pode florescer num continente para onde foi levada há muito tempo e começar a morrer num dos territórios que a viu nascer. E nós, portugueses, nada temos a perder ao viajar, nem que seja através da literatura, pelos territórios por onde andam a cirandar as nossas velhas palavras — que às vezes até chegam, vejam lá bem, a Nova Orleães. Marco Neves – Portugal in “Certas Palavras”