Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 21 de março de 2019

Internacional - Astrolábio reconhecido pelo Guiness como o mais velho do mundo é português


Um astrolábio recuperado no local do naufrágio de uma nau da armada portuguesa participante na segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1502-1503, foi classificado pelo livro "Guinness World Records" como o mais velho do mundo



Resgatado ao fundo do mar Arábico, ao largo da costa de Omã, por arqueólogos britânicos em 2016, o instrumento de navegação pertencente à nau "Esmeralda", naufragada em 1503, foi também autenticado por investigadores como o único astrolábio de disco sólido com uma proveniência verificável e o único exemplar decorado com um símbolo nacional: o brasão real de Portugal.

O fino disco de 175 milímetros de diâmetro e apenas 344 gramas foi analisado por uma equipa de investigadores que viajou até Mascate, Omã, em novembro de 2016, para fazer imagens 'laser' de uma seleção dos mais importantes artefactos recuperados no local do naufrágio da nau portuguesa.

O processo científico de autenticação do disco como sendo um astrolábio, realizado por meio de imagens 'laser', foi descrito num trabalho publicado terça-feira no International Journal of Nautical Archaeology por David Mearns e Jason Warnett, da empresa Blue Water Recoveries, e Mark Williams, do departamento de investigação WMG da Universidade de Warwick, no Reino Unido.

Os investigadores creem que o astrolábio Sodré que agora entrou para o "Livro Guinness dos Recordes Mundiais" foi feito entre 1496 e 1501.

Como o mais antigo astrolábio autenticado, preenche uma lacuna cronológica no desenvolvimento destes instrumentos icónicos e pensa-se ter sido um instrumento de transição entre o astrolábio planisférico clássico e o astrolábio de roda aberta, que começou a ser usado algum tempo antes de 1517.

Os astrolábios são considerados o mais raro e mais valioso dos artefactos encontrados em locais de naufrágios antigos, existindo apenas 104 exemplares em todo o mundo. In “Visão” - Portugal

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

África do Sul - Navio negreiro português classificado como património nacional

Classificação coincide com nova exposição sobre o São José Paquete de África, um dos primeiros a fazer a ligação Moçambique-Brasil. Estima-se que 212 escravos tenham morrido neste naufrágio ocorrido a 27 de Dezembro de 1794 nas imediações do Cabo da Boa Esperança



Os destroços do navio negreiro português São José, que naufragou ao largo da Cidade do Cabo em 1794, causando a morte a mais de 200 escravos, foram declarados este mês património nacional da África do Sul. Este sítio arqueológico subaquático, a que correspondem aqueles que serão eventualmente os primeiros vestígios alguma vez encontrados de um navio que se afundou ainda com escravos africanos a bordo, está agora classificado e é motivo de uma nova exposição.

O São José Paquete de África transportava 512 negros acorrentados. Vinha de Lisboa, de onde saiu em Abril de 1794, e passou por Moçambique para carregar escravos. Em Dezembro, encetava uma viagem que se previa que durasse perto de quatro meses, rumo ao Brasil, onde os escravos eram esperados como mão-de-obra forçada nas plantações de cana-de-açúcar. Mas a difícil travessia do Cabo da Boa Esperança revelar-se-ia fatal. Fará precisamente 224 anos esta quinta-feira, 27 de Dezembro, que o navio encontrou um rochedo e se estilhaçou, a cerca de 50 metros da costa, na zona de Clifton, perto da Cidade do Cabo. O comandante, o português Manuel João Perreira (irmão do proprietário do barco, António Perreira), e a tripulação sobreviveram, mas estima-se que 212 pessoas — metade dos escravos — terão morrido afogadas. Os escravos sobreviventes foram depois vendidos na Cidade do Cabo.

Durante mais de dois séculos, o navio esteve submerso. Os caçadores de tesouros que primeiro encontraram os seus destroços, há cerca de 30 anos, identificaram-no inicialmente como um navio holandês, mas em 2015, depois de uma investigação dos arqueólogos do projecto Slave Wrecks Project, concluiu-se que se tratava do navio português São José Paquete de África.

Um dos elementos essenciais para a sua identificação foram as barras de ferro com que o navio saíra de Portugal e que serviam de lastro ou contrapeso, conforme a carga humana variável. A informação constava do manifesto de carga do São José depositado no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa.

A classificação oficializada no início do mês coincidiu com a inauguração de uma exposição no Museu Iziko, da Cidade do Cabo. Unshackled History: The Wreck of the Slave Ship, São José, 1794 exibe alguns artefactos recuperados do fundo do mar, incluindo, além das referidas barras de ferro, grilhetas e correntes usadas para prender os moçambicanos escravizados, que estavam cobertas por sedimentos e areia.

Se não tivesse naufragado pelo caminho, o São José Paquete de África teria cumprido uma das primeiras viagens de tráfico humano entre Moçambique e o Brasil, rota que se tornaria frequente e estaria activa durante mais de um século. “Estima-se que mais de 400 mil pessoas da costa oriental africana tenham feito essa viagem entre 1800 e 1865. Transportadas em condições desumanas em viagens que demoravam dois a três meses, muitas não sobreviveram à viagem”, recorda o museu sul-africano.

A mostra conta ainda com uma simulação interactiva do local do naufrágio e dos respectivos destroços, uma ferramenta desenvolvida pelo Museu Smithsonian de História e Cultura Afro-Americana, que acolheu já uma exposição sobre o navio português e que está intimamente associada ao projecto – não sem algumas críticas pela sua preponderância sobre a do país africano. De acordo com a South African Broadcasting Corporation, o United States Ambassador’s Fund for Cultural Preservation doou cerca de 420 mil euros para a investigação do Slave Wrecks Project em 2016.

“Portugal foi pioneiro no tráfico transatlântico. Mais de 40% dos escravos foram levados em navios portugueses, um valor superior ao de qualquer outro país – Espanha, Grã-Bretanha, França, Holanda”, lembrava em 2016 ao Público o antropólogo Stephen Lubkemann, coordenador internacional do Slave Wrecks Project.



Um naufrágio coloca sempre algumas questões sobre a titularidade do património – no caso, o navio é português, as vítimas são moçambicanas, os destroços foram encontrados em águas sul-africanas. Esta classificação pela África do Sul visa, independentemente disso, contar a história do São José e das suas vítimas. “Era uma nota de rodapé na História”, comentou à emissora pública sul-africana o arqueólogo marinho Jaco Boshoff, envolvido na coordenação da exposição.

“Dar memória à história do São José num contexto global é um projecto significativo e notável”, destaca em comunicado Rooksana Omar, presidente do Museu Iziko. “É mais do que história africana, americana, moçambicana ou europeia. É uma história sobre as nossas histórias partilhadas.” Joana Cardoso – Portugal in "Público"

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Portugal - Arqueologia subaquática: segredos escondidos no estuário do Tejo

As águas do Tejo continuam a esconder segredos. Em Outubro deste ano, dois mariscadores detectaram destroços de embarcações naufragadas à beira de Lisboa. A carga e as circunstâncias inusitadas do achado sublinham a necessidade de retomar o debate sobre o achador fortuito e a arqueologia



Na manhã do dia 20 de Outubro, Pedro Patacas e Sandro Pinto, dois mariscadores profissionais, concentravam a sua atenção nas águas próximas da Cova do Vapor. Sem encomendas específicas de marisco para esse dia, dedicavam-se à tarefa de que mais gostam – a prospecção de novas zonas de captura, potencialmente ricas em navalheira ou amêijoa.

Com mais de duas décadas de trabalho no mar, os dois homens mergulham com facilidade e aguentam a carga dura de quatro a seis horas diárias de batalha subaquática com as correntes, o frio e os obstáculos da actividade. “Não nos queixamos”, sorri Pedro Patacas, antigo fuzileiro e vice-campeão nacional de caça submarina. “É a vida que escolhemos.”

De Sines ao Tejo, os dois mariscadores conhecem bem as águas e os fundos e, ocasionalmente, tropeçam em mais do que marisco. As descobertas fortuitas são comuns para quem opera no mar e esta dupla já acumulara a experiência – não gratificante – de ter participado na descoberta de um destroço no Sado, cujo anúncio à tutela coincidiu com a rápida rapina de tudo o que havia para transportar do fundo do mar. “Não gostámos desse processo”, resume o mergulhador. “Sentimo-nos usados.”

Nas águas da Cova do Vapor, não pensavam seguramente em arqueologia quando o sonar topo de gama da sua embarcação mostrou uma mancha compacta do que pareciam ser ruínas de pedra. “No ecrã, eram pedras, pedras sobre pedras. Não era igual a nada que antes tivéssemos presenciado”, acrescenta Sandro Pinto. Só havia uma maneira de deslindar o mistério e teria de ser rápida.

A zona do destroço só é acessível ao mergulho durante o estofo da maré, quando as águas enchem ou vazam aquela área. “Quando a água começa a entrar, é quase impossível trabalhar ali, mesmo à escassa profundidade a que estávamos”, diz Pedro Patacas. Naquela manhã, o Tejo começava a vazar. Saltando para a água, os dois mariscadores tiraram a limpo as manchas do sonar. A dez metros de profundidade, viram barris. Centenas deles. Amontoados como se ainda estivessem arrumados no porão de carga do navio que os transportou.

Fechados com aros de madeira, com diferentes tipologias e dimensões, constituíam uma perspectiva inesperada para o fundo. Continham os vestígios da última viagem de uma embarcação por enquanto só identificada como Tejo B.

Por norma, na história trágica dos naufrágios, os acidentes são violentos, produzindo naturalmente mais estragos nas estruturas de madeira. No fundo arenoso, parcialmente assoreados mas já colonizados por crustáceos e algas, os barris pareciam arrumados, como se tivessem planado até ao fundo. “Não conheço mais nenhum caso igual no mundo”, diz o arqueólogo Alexandre Monteiro, o investigador ao qual os dois achadores fortuitos comunicaram de imediato a descoberta.

As surpresas ainda não tinham terminado. Com a maré a vazar e sempre com o farol do Bugio como referência, os dois mariscadores escolheram outro local de mergulho. Navegavam há alguns minutos quando o sonar identificou a figura clássica de um navio – a forma de charuto no monitor era inconfundível. Repetida a cena, de novo na água, Pedro Patacas e Sandro Pinto completaram a saga de um dia especial, mergulhando no destroço agora conhecido como Tejo A. “Nunca nos tinha acontecido tal coisa”, lembram os mergulhadores. Avistaram de imediato um canhão, um cepo, outras estruturas de madeira e até dois pratos de estanho.

Regressados à margem após esta montanha-russa de emoções em menos de 12 horas, comunicaram o achado à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), candidatando-se portanto ao reconhecimento da autoria da descoberta e à eventual recompensa correspondente ao valor que seja atribuído aos materiais depositados no fundo, caso a DGPC confirme a excepcionalidade do achado e comprove que o mesmo nunca antes fora identificado.



“Do ponto de vista histórico, não surpreende nada”, diz o arqueólogo Jorge Freire, coordenador do projecto de Carta Arqueológica Subaquática de Cascais e o investigador que tomou em mãos os passos seguintes após a comunicação do achado à tutela. “No Tejo, navega-se há muitos séculos e o estuário é exigente. Há dezenas de registos de naufrágios nestas águas em todas as épocas, mas é muito prematuro apontar já datações ou outros elementos de avaliação sem uma escavação científica rigorosa.”

Nos dias subsequentes à informação, Alexandre Monteiro e outros investigadores produziram um parecer técnico-científico sobre o Tejo A e o Tejo B, fazendo um rápido levantamento fotográfico e em filme das suas observações. Para tal, foi importante a colaboração da Estrutura de Missão de Extensão da Plataforma Continental e dos investigadores do ShipLab da Universidade do Texas, que se prontificaram a realizar um modelo preliminar do sítio arqueológico com base no filme captado por Flávio Biscaia, do Instituto Politécnico de Tomar.

Enquanto decorre a avaliação do mérito do auto de achado entretanto recebido, que se junta a cerca de uma dezena de processos idênticos remetidos em 2017 para a tutela, Jorge Freire, explorador emergente da National Geographic Society, reflecte sobre as tarefas que se seguem. Apesar do enigma dos barris do Tejo B, é o destroço a norte do Bugio que exige mais cuidado: o rio é quase como um ser vivo, com dinamismo e humores próprios e o destroço do Tejo A está maltratado. “Talvez seja necessário reenterrá-lo ou realizar uma intervenção directa profunda a breve prazo que permita salvaguardar a integridade da estrutura, pois ela está fragilizada”, diz. Por coincidência, o projecto de investigação do arqueólogo cobre precisamente a faixa entre Almada e Cascais, num levantamento cuidadoso do património cultural ali submerso.

“Não é segredo que Portugal viola neste momento a Convenção da UNESCO de salvaguarda do património cultural submerso”, explica Jorge Freire. “Não existem meios para produzir investigação continuada nesta área, nem para garantir a protecção dos sítios conhecidos. Por isso, de facto, o país viola a convenção que subscreveu.” Desse ponto de vista, a informação nova que tem chegado à tutela e que tem vindo a preencher a carta arqueológica submarina do país tem sido produzida com contributos de achadores fortuitos que, de norte a sul, vão comunicando o que encontram. “São eles que estão no mar todo o ano. Boa parte dos achados que conhecemos, mesmo em Cascais (de longe, o município com mais trabalho nesta área), resulta de informação dos achadores.” O que vale por dizer que a maneira como este e outros dossiers forem geridos afectará as comunicações futuras.



Como um antepassado longínquo e já extinto, o fecho da golada do Tejo tem vindo a ser esquecido, à excepção de algumas comunicações especializadas e da memória oral das populações piscatórias de Almada e da Trafaria. No entanto, quando se analisa o plano hidrográfico que o engenheiro Francisco Pereira da Silva realizou em 1879, representando a barra do porto de Lisboa, verifica-se que a configuração do rio não coincide com a que hoje conhecemos. Entre a Trafaria e o farol do Bugio, está assinalada nas cartas de época uma língua de areia consolidada, que faria a ponte terrestre, com variações semanais de percurso, entre o farol e a costa. “Os pescadores de Almada lembram até que se rezava missa no farol do Bugio e as pessoas iam a pé”, adianta o arqueólogo Francisco Silva, do Centro de Arqueologia de Almada.

Na década de 1940, removeram-se grandes quantidades de areia deste ponto para realizar os aterros de Belém e Algés, na outra margem.

A dinâmica do rio – e o ponto onde se localiza um dos destroços agora identificados – foi modificada para sempre. “O Tejo é traiçoeiro”, diz Jorge Freire. “Tem baixios, correntes fortes e súbitas.” O rio cobrou a sua quota de acidentes, interrompendo abruptamente viagens sempre que um descuido de navegação desrespeitou a sua sensibilidade. Estas línguas de areia em mutação sugerem igualmente uma explicação para o desconhecimento de destroços tão próximos da capital – a exposição pode ser recente, dependente de dinâmicas súbitas. Como lembra Pedro Patacas, “entre o primeiro mergulho e a segunda viagem que fizemos ao Tejo B já com os arqueólogos, notámos diferenças. Parecia que a areia tinha coberto novamente alguns barris”.

Entre os investigadores que participaram no primeiro relatório técnico estava um corpo invulgar num projecto arqueológico – o biólogo Gonçalo Calado mergulhou igualmente e esteve atento a outras facetas dos destroços. Uma estrutura submersa de madeira ou de ferro constitui um refúgio inesperado para organismos aquáticos – providencia refúgio e áreas susceptíveis de colonização. Ao mesmo tempo, “as comunidades instaladas – vivas ou já mortas – podem dar pistas sobre se o destroço fica ou ficou fora do sedimento durante algum tempo”, explica o investigador. “Não creio que possamos ajudar na datação do navio”, mas, através da comparação entre marcas de povoamento, é possível perceber quais estiveram soterradas pela areia e quais sustentam comunidades bem instaladas de substratos fixos.

Noutras ocasiões, o próprio naufrágio provoca condições de propágulo para novas espécies.

O caso clássico ocorreu em 1868 quando um navio carregado de ostras portuguesas naufragou na costa francesa, “dando origem a uma população selvagem desta espécie na baía de Arcachon, que ainda hoje persiste. Neste caso, seria muita sorte termos este tipo de pistas, mas pode ser que algum dia, em algum destroço, as possamos encontrar.”

No dia 19 de Julho deste ano, cem anos depois do afundamento do caça-minas Roberto Ivens nas proximidades do Bugio durante a Grande Guerra [ver edição de Abril de 2016], realizou-se uma cerimónia de homenagem aos mortos em combate nesse naufrágio trágico. A bordo, entre familiares das vítimas e altos dignitários, o primeiro-ministro António Costa saudou os esforços da equipa de investigação que localizara os destroços do caça-minas e anunciou o caminho “a percorrer na salvaguarda do património histórico que jaz no fundo do mar”.

Sem suspeitar que se encontrava poucos metros acima de um novo destroço, com barris enigmáticos no fundo, António Costa acrescentou: “Ao Estado, cabe agora a responsabilidade de agir e encontrar os mecanismos de cooperação e as parcerias indispensáveis para satisfazer este desiderato. Desde logo, mapear com exactidão os vestígios arqueológicos de que há conhecimento.” Os destroços do Tejo A e do Tejo B serão, de alguma maneira, a prova de fogo dessa vontade. Gonçalo Rosa – Portugal in "National Geographic"

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Portugal - Navio quinhentista "praticamente intocado" na costa de Esposende

Arqueólogos chegaram primeiro que os caçadores de tesouros a um navio do século XVI, que será um dos mais importantes achados a nível mundial, pelas condições em que se encontra

Uma equipa de investigadores descobriu na costa de Esposende a localização exacta de um navio, provavelmente ibérico, do século XVI, que, desde 2014, vem fascinando a comunidade científica internacional. O estudo das centenas de peças encontradas na praia de Belinho ao longo destes anos, e que incluem objectos da carga e madeiras da embarcação, já deixava antever que se estava perante um achado muito importante para a arqueologia naval, mas a equipa envolvida acabou por ser surpreendida com muito mais do que isso. No fundo do mar, não muito longe da língua da maré, jaz um navio “praticamente intocado” de cerca de 30 metros de comprimento, protegido por uma camada de sedimentos.

Os banhistas que, por estes dias, se deleitam ao sol e arriscam um mergulho nas águas frias da praia de Belinho não imaginam que, há cerca de 500 anos, o mar atraiçoou um navio, afundando-o a poucos metros deles. Desconhece-se de onde vinha ou para onde ia, sabe-se algo, mas ainda pouco, sobre a carga que transportava e nada sobre o que aconteceu à sua tripulação, mas sabem os arqueólogos que, junto às rochas, na zona de rebentação das ondas, jaz o que resta desse naufrágio, situado, para já, num período entre 1520 e 1580, e do qual foram já recolhidas centenas de peças.

E o que ali está, visto, com os seus próprios olhos, pelo arqueólogo Alexandre Monteiro a 24 de Abril deste ano, num curto mergulho de uma hora e um quarto, e de novo esta semana que passou, não é pouco. “Estamos perante o primeiro naufrágio quinhentista em águas portuguesas a ser encontrado praticamente intocado desde a sua perda”, assinala, num artigo na revista Al-Madan de Julho, o quarteto que vem liderando a investigação, e que inclui Ana Almeida, arqueóloga da Câmara de Esposende, Ivone Magalhães, historiadora, da mesma instituição, e o arqueólogo Filipe Castro, que lidera o ShipLab da Universidade do Texas A&M. “A ser ibérico, tratar-se-á de um dos mais completos sítios desta tipologia e cronologia a ser encontrado a nível mundial”, alertam.

No mês passado, durante a cerimónia que assinalou o centenário do afundamento, na I Grande Guerra, do Roberto Ivens — um navio da armada portuguesa cuja localização descobriu, com Paulo Costa —, Alexandre Monteiro bem dizia ao primeiro-ministro que "o grande museu dos Descobrimentos portugueses e da Expansão — e que ainda não está feito — está todo no fundo do mar". Envolvido em vários projectos de arqueologia subaquática, este investigador do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa identificou parte do costado deste navio em quatro conjuntos de madeiras ainda articuladas entre si, viu quatro canhões, em ferro e em bronze, uma âncora, fragmentos de placas de chumbo que serviriam para protecção do casco e mais pratos em estanho semelhantes aos que vêm sendo recolhidos, na praia, desde 2014.

Esta semana, Alexandre Monteiro e Filipe Castro voltaram ao local, na companhia de John Sexton, um experiente instrutor de mergulho e fotógrafo subaquático a viver há alguns anos em Portugal, que voltou a captar imagens do sítio, bastante mais coberto, desta vez, por areia. Monteiro não tem dúvidas de que o que testemunhou em Abril, altura em que parte do madeirame estava bem à vista, foi uma excepção, o que explica, na sua perspectiva, a preservação deste navio naufragado a salvo da pilhagem mais ou menos organizada. “Se não estivesse habitualmente coberto, o sítio já teria sido saqueado”, afirma. Em todo o caso, com boa visibilidade, puderam fazer algumas medições e perceber que a operação de levantamento dos canhões vai ser complexa.

O grupo de investigadores, que envolve ainda uma equipa com submarinos autónomos do Laboratório de Sistemas e Tecnologia Subaquática (LSTS) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, chegou a programar para estes dias uma operação para retirar aquelas peças, mas o mar, que tem ditado o ritmo das descobertas em Belinho, fez-se difícil. Filipe Castro regressou assim aos EUA sem ver, fora de água, as colubrinas que, acredita, podem conter inscrições que ajudem a determinar o fabricante e o momento de fabrico, e a encurtar, dessa forma, a datação possível para este naufrágio do qual, para já, não encontraram registos.

“Este navio saiu de algum porto, e não chegou ao destino. Tem de haver, algures, um registo dessa viagem”, nota Ana Almeida. Alexandre Monteiro corrobora. Afinal, na investigação ao naufrágio do navio Nuestra Señora del Rosario (Tróia, Grândola, 1598) encontrou 600 páginas de documentação, oficial e até pessoal, em arquivos portugueses e espanhóis. E ninguém acredita que a perda de um navio que, pelas dimensões de algum do seu madeirame, teria cerca de 30 metros de eslora, da proa à popa, passasse despercebida.

Dentro deste período há o registo do afundamento do Nossa Senhora da Rosa, perdido em 1577 “através de Esposende”, quando carregava vinho e breu das Canárias para o porto de Vila do Conde, situado poucas milhas a sul, mas os investigadores que se debruçam sobre o naufrágio de Belinho consideram que não será essa a embarcação que encontraram, pois este “tem um porte bem maior do que a maioria dos navios que percorriam as rotas das Canárias, Madeira e Açores no século XVI”.

A equipa espera que, sob a camada de sedimentos, que Filipe Castro gostaria de limpar, com recurso a uma bomba de sucção, se houvesse recursos para isso, o navio de Belinho tenha muito mais a contar. Ao contrário do que acontecia em naufrágios perto da praia e de povoações, em que nem as madeiras resistiam aos actos de pilhagem — o que explica o uso de partes dos cascos nas casas mais antigas de Angra do Heroísmo, assinala Alexandre Monteiro —, esta embarcação parece ter resistido à cupidez dos seus, e dos nossos, contemporâneos. Que, podendo, nunca deixariam no mar colubrinas em bronze semelhantes à que foi encontrada no navio português Bom Jesus, descoberto em Oranjemund, na costa da Namíbia, e que têm mercado no sector das antiguidades.

“Se encontrássemos objectos pessoais, seria muito importante” para a investigação, assume o director do ShipLab, que desde 2015, através do projecto europeu ForSeaDiscovery, do qual faz parte com Alexandre Monteiro, participa no estudo dos achados arrojados à praia. O material encontrado já lhes dá água pela barba e abriu portas a vários projectos de investigação, como o de Adolfo Martins, que está a fazer doutoramento na Universidade de Gales Trinity Saint David sobre a morfologia das 80 peças de madeira recolhidas. Os seus anéis, analisados com recurso à dendrocronologia, permitiram excluir a hipótese de provirem de árvores do Norte da Europa, e as técnicas de construção naval são semelhantes às usadas por cá naquele período, mas é preciso mais informação para se poder confirmar a origem deste navio.

Sobre este naufrágio há imensas perguntas ainda sem resposta — e muitas perguntas por fazer —, mas, neste momento, uma das dificuldades é garantir uma equipa baseada no Norte do país, que consiga continuar, de perto e com maior regularidade, este projecto de investigação arqueológica que seria impossível sem o empenho da autarquia. Para lá dos elementos do município, e dos achadores, que vivem em Esposende, todos os que, até agora, participaram na recolha e estudo destes achados estão envolvidos em múltiplos projectos, em várias partes do mundo, e não é fácil mobilizá-los para Belinho, para situações de emergência ou, por exemplo, para uma campanha de mergulho, caso o mar o permita.

O mar tem sido o marca-passo desta investigação. Foi ele que denunciou o naufrágio, atirando despojos para a praia em 2014, mas esta semana não deixou que lhe levassem os canhões que guarda ciosamente, há cinco séculos. Aliás, uma tentativa de mergulho de Alexandre Monteiro ia correndo muito mal, no domingo passado. “O naufrágio de Belinho esteve quase a fazer a sua última vítima” dizia, já meio a brincar, passado este episódio em que se viu atirado contra as pedras, e se teve de livrar do cinto de lastro e das botijas de ar, antes de ser salvo por João Sá. O escultor que alertara, em 2014, as autoridades para a importância destes achados, que encontrara, com familiares, na praia, voltou a ser fulcral para esta história. Ou não fosse ela um exemplo de cooperação entre cidadãos e a comunidade científica. Abel Coentrão – Portugal in "Público"