Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 8 de agosto de 2026

Itália - Antiga domus é revelada sob obra de restauração em Roma

Um projeto de restauração de rotina no Monte Célio, em Roma, levou à descoberta de um antigo edifício romano decorado com mosaicos, afrescos e tetos pintados. Arqueólogos descobriram oito cómodos que datam do século II d.C.


O que começou como um projeto de engenharia de rotina no Monte Célio, em Roma, transformou-se numa das descobertas arqueológicas mais significativas da cidade nos últimos tempos.

Arquitetos que reforçavam uma antiga muralha romana na Villa Celimontana descobriram inesperadamente os restos de um grande edifício da época romana, decorado com mosaicos elaborados, afrescos e tetos pintados. Os arqueólogos identificaram até agora oito cómodos, cinco dos quais foram totalmente escavados, enquanto vários outros se estendem para além da área de escavação atual.

A arqueóloga-chefe Simona Moretta disse que a equipa esperava encontrar vestígios antigos, dada a localização do sítio arqueológico próximo ao Fórum Romano, mas não em tal escala.

"Estando no coração da Roma antiga, a um passo do Fórum Romano, a possibilidade de haver algo antigo ali era algo que certamente havíamos considerado, mas não com esta importância. Encontrámos um edifício com cinco cómodos completos, além de outros oito cómodos cujas paredes se estendem até à área da seção de escavação, mas que não pudemos escavar. Trata-se, portanto, de um edifício bastante grande, especialmente com valiosas decorações de superfície, pois, em particular, no cómodo 'V', sobrepusemos dois mosaicos – um do século III d.C. e o inferior, por sua vez, do século II d.C."

As equipas de escavação estão agora a limpar e catalogar centenas de artefactos, incluindo fragmentos de mármore, cerâmica, mosaicos e gesso pintado. Os restauradores também estão a reconstruir um teto ricamente decorado, recuperado em grandes seções.

Moretta afirmou que a preservação do teto superou as expectativas.

"Também temos alguns fragmentos de afrescos e, especialmente no mosaico mais recente que encontrámos nesta sala, encontrámos partes da pintura do teto em grande escala, que conseguimos examinar com a ajuda de excelentes restauradores."

Ela acrescentou: "Agora, guardamos tudo e depois será reconstruído. Acho que teremos mais de 50% da sala inteira. Um teto lindo, pintado com círculos vermelhos e azuis e molduras de estuque branco com dentículos."

A descoberta obrigou os engenheiros a expandir o que havia sido originalmente planeado como um projeto de estabilização simples. A arquiteta Alessandra Centroni, diretora de obras, afirmou que a escavação rapidamente se tornou muito mais extensa do que o previsto.

"Obviamente, sendo esta uma descoberta excepcional, aprofundamos a escavação que não estava planeada para esta entidade, mas fomos gradualmente mais fundo, precisamente para tentar entender o que tínhamos diante de nós, em suma, o que estávamos a descobrir."

Segundo Daniela Porro, Superintendente Especial de Roma para Arqueologia, o complexo data do século II d.C. e foi posteriormente modificado durante o século III.

"Existem oito salas, das quais cinco foram completamente escavadas e três parcialmente escavadas, as quais, no entanto, revelaram uma decoração de grande valor com mosaicos no piso. Uma dessas salas possui um belo mosaico geométrico, cujo centro apresenta um emblema representando um golfinho e peixes ao redor de uma cratera."

Os investigadores ainda não determinaram a função original do edifício. A sua decoração refinada sugere que ele pode ter pertencido a uma família romana influente, embora outra possibilidade seja que tenha servido como quartel ligado ao antigo corpo de bombeiros da cidade.

Porro afirmou que serão necessárias mais pesquisas antes que se possa chegar a conclusões definitivas.

"Poderia ter sido uma domus pertencente a uma família importante, que teria uma decoração tão elegante, ou também poderiam ser quartéis ligados ao corpo de bombeiros da Roma antiga. E sobre este ponto, os estudos ainda estão em andamento e certamente acabarão por nos revelar algo mais."

A escavação faz parte dos trabalhos de restauração financiados pelo Plano Nacional de Recuperação e Resiliência (PNRR) da Itália, com o apoio da União Europeia. Os arqueólogos esperam que as escavações e os trabalhos de conservação em andamento forneçam novas informações sobre a história da Roma Antiga. Euronews.culture



quarta-feira, 15 de julho de 2026

Cabo Verde - Arqueólogos redescobrem um dos primeiros hospitais do Atlântico

Cidade Velha – Arqueólogos estão a escavar uma encosta da Cidade Velha, primeira capital de Cabo Verde, e a devolver à luz do dia as ruínas de um dos hospitais pioneiros no Atlântico, com cerca de 500 anos.


"Será mesmo um dos primeiros", admite André Teixeira, arqueólogo da Universidade Nova de Lisboa, que colabora com o Instituto do Património Cultural (IPC) cabo-verdiano.

O espaço “aparece em documentação desde finais do século XV, portanto, entre 30 a 40 anos após a descoberta de Cabo Verde”, em 1460.

“Desde o início da expansão além-mar que se percebe que é preciso haver espaços de assistência. Esta é uma dessas primeiras experiências. Cabo Verde é, a muitos títulos, um espaço de experimentação” nas rotas portuguesas da época, refere.

Os trabalhos já duram há ano e meio e a redescoberta levou as autoridades a redesenhar o projeto de requalificação daquela zona da cidade classificada como Património Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, em inglês).

Num projecto com apoio do Banco Mundial, as ruínas do complexo da Misericórdia vão acolher o primeiro núcleo museológico da Cidade Velha, a 10 quilómetros da cidade da Praia, com muitas histórias para contar.

Por exemplo, André Teixeira mostra à Lusa os restos de um cachimbo que se supõe tenha sido usado no antigo hospital, encontrado no subsolo, ao lado de pedaços de porcelanas.

“O fumo para aliviar as dores não é inédito nestes contextos hospitalares”, descreve.

Um dos membros da equipa, num trabalho minucioso, continua a picar o chão e bate em alguma coisa: devagar e com ajuda de uma escova, surge do meio da terra mais um pedaço de cerâmica – certamente de produção local, aponta André.

Tem sinais de ter ido ao lume e há ossos de galinha desenterrados mesmo ao lado, naquilo que pode ter sido uma cozinha ou refeitório no rés-do-chão do antigo hospital.

A equipa vai “removendo a montanha e as estruturas vão emergindo”, acrescenta.

O edifício, incrustado numa encosta rochosa que os séculos se encarregaram de cobrir com terra, teria um primeiro andar com enfermarias (nota-se o nível do chão) e terá sido abandonado no século XIX, reflexo da mudança da capital para a cidade da Praia.

Com o tempo, acabou por ficar soterrado, tal como a base da antiga Igreja da Misericórdia, cuja nave central está à vista, mas das paredes restam apenas vestígios, alguns com pedaços de azulejos pintados junto ao chão, com as variações de cor a testemunhar a passagem do tempo.

A torre sineira – que era o único pedaço do complexo que estava à superfície –, continua de pé e completa o quadro, juntamente com as capelas laterais e o que se julga ter sido a residência do bispo, com um pavimento e escadaria preservados, acima do complexo.

“Este espaço funcionou como Sé de Cabo Verde durante mais de um século, enquanto não era concluída a construção da catedral, lá no alto”, detalha André Teixeira.

Há “uma grande presença religiosa, central, como era tradição, a igreja, em comunicação com o hospital”, evocando “a dupla função das misericórdias, a assistência social e na saúde”.

Em fevereiro de 2025, numa fase inicial das prospeções, André Teixeira dizia à Lusa, no mesmo local, que ainda só se vislumbrava “a ponta do iceberg”.

Havia “o topo de dois murinhos” e “não se via mais nada”, recorda, mas o resultado surpreendeu a equipa da Nova e do IPC.

“Só víamos pequenas estruturas do complexo da Misericórdia, mas agora, depois de várias campanhas de escavação, estamos a descobrir uma estrutura monumental, com maior dimensão do que pensávamos”, refere à Lusa Jaylson Monteiro, arqueólogo do IPC.

A prazo, “tudo vai estar completamente diferente: há um projeto de arquitetura finalizado, vai haver um espaço musealizado e uma estrutura de proteção, para evitar degradação por chuvas ou intempéries. Isto vai ter outra imagem”, diz.

O objectivo é enriquecer o roteiro de visita da Cidade Velha, com a preservação do património aliada ao usufruto dos residentes e ao turismo – motor da economia cabo-verdiana e em crescimento nos últimos anos, fruto do aumento de ligações aéreas com a Europa. In “Inforpress” – Cabo Verde com “Lusa”


domingo, 5 de julho de 2026

Portugal - Arqueólogos descobrem novas gravuras com mais de 23 mil anos no Vale do Côa

Arqueólogos da Fundação Côa Parque puseram a descoberto novas gravuras do período Solutrense, com mais de 23.000 anos, no sítio do Fariseu, que abrem uma nova janela de investigação no Vale do Côa, disse um dos investigadores


O período Solutrense corresponde a um estágio cultural do Paleolítico superior, característico da Europa Ocidental, nomeadamente da Península Ibérica, aproximadamente situado entre os 20.000 anos a.C. e os 15.000 a.C..

Em declarações à agência Lusa, o coordenador científico da Fundação Côa Parque, Thierry Aubry, explicou que as novas descobertas foram feitas na chamada “Rocha 9” do Sítio do Fariseu, no Parque Arqueológico do Vale do Côa, onde o trabalho começou em 2020 e onde foi descoberto o maior auroque do mundo picotado no xisto há mais de 23.000 anos e que dão continuidade artística a este painel em xisto do Paleolítico Superior.

“Após descoberta do maior auroque do mundo em 2020, houve uma acumulação de sedimentos devido às cheias no rio [Côa], ao longo dos últimos seis anos, e agora, com novos trabalhos de prospeção arqueológica, foram colocadas a descoberto novas gravuras que representam bois, vitelos, cervas, cavalos, cabras, entre outros, que ainda não estão totalmente identificados, correspondentes à época do Solutrense”, indicou o também arqueólogo.

Nem o calor intenso que se faz sentir no Vale do Côa demoveu os investigadores de fazer estas novas descobertas, nesta rocha que fica a cerca de 50 metros do rio Côa, “um dos locais mais fascinantes deste sítio arqueológico devido ao seu potencial pré-histórico e científico”.

“Decidimos remover todos os sedimentos que se acumularam em torno desta rocha, para manter a integralidade dos motivos gravados. Não se pode correr o risco de se perderem, em caso de outras cheias. E assim apareceram novas gravuras que estavam por baixo da camada de terra, que de imediato despertaram a atenção”, explicou Thierry Aubry.

Os arqueólogos descobriram duas novas gravuras completas e algumas que ainda é preciso estudar, elevando para 40 o número de gravações na chamada “Rocha 9″ do Sítio do Fariseu, a qual tem cerca de 10 metros de comprimento.

O Sítio do Fariseu é um dos núcleos de arte rupestre mais singular e importantes no Vale do Côa, na região de Vila Nova de Foz Côa, no distrito da Guarda, e ficou “mundialmente famoso” pela descoberta, em 2020, de uma enorme gravura paleolítica com cerca de 23.000 anos e 3,5 metros de comprimento, que representa um auroque (boi selvagem).

A chamada “Rocha 09” do Fariseu representa um dos principais núcleos de arte rupestre no Parque Arqueológico do Vale do Côa, classificado como Monumento Nacional, e inscrito na Lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Segundo Thierry Aubry, há neste momento capacidade para se afirmar que há uma homogeneidade estilística, porque havia dúvidas antes da remoção de sedimentos. A nova descoberta mostra uma cena do quotidiano dos grandes bovinos no Vale do Côa, há 23.000 anos, o que o arqueólogo classificou como “muito interessante”.

“Neste momento podemos ver uma associação entre um auroque fêmea e uma jovem cria repetidas várias vezes na mesma rocha. Há também argumentos do ponto de vista técnico, onde, ao que parece, foi utilizado o mesmo tipo de ferramenta para fazer estas novas gravuras”, descreveu o investigador.

Para o arqueólogo, este local é um dos quatro abertos a visitas e, devido às semelhanças e técnicas utilizadas, é mais fácil mostrar ao público todas as cenas da fauna selvagem picotadas neste painel.

“Aqui encontramos utensílios utilizados para fazer as gravações na rocha de xisto, mas não encontramos vestígios de ocupação nesta fase do Solutrense e que está fora da área do acampamento”, explicou.

Para já, no âmbito de uma tese de doutoramento em curso, estão a ser investigadas as camadas geológicas próximas deste local, a 50 metros do rio Côa, o que permitirá desenvolver novas sondagens.

“A grande limitação em termos de prolongamento das sondagens são as cheias que acontecem ciclicamente no rio Côa devido às descargas na barragem do Pocinho, e só com a remoção das duas ensecadeiras do Côa, que ficaram após o abandono da construção da barragem, se pode seguir em frente”, sublinhou Thierry Aubry.

Por seu lado, o presidente da Fundação Côa Parque, João Paulo Sousa, disse que este ano já foram descobertas 60 novas gravuras rupestres, no Parque Arqueológico.

“Passados 30 anos da sua classificação, o Vale do Côa continua a surpreender pelas suas novas descobertas e uma história que continua a ser narrada através da investigação e de parcerias que a Fundação tem vindo a desenvolver. Quanto mais dedicação dermos ao Côa, mais descobertas teremos”, afirmou o responsável.

Quando da criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa, em agosto de 1996, foram identificadas 190 rochas com arte rupestre.

Atualmente, e segundo o presidente da Fundação Côa Parque, há 1600 rochas identificadas, repartidas por 104 sítios arqueológicos, num total de mais de 15.650 motivos, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, executadas há cerca de 30 mil anos, num ciclo artístico de arte rupestre que nunca foi interrompido.

A Arte do Côa foi classificada como Monumento Nacional em 1997 e, em 1998, como Património Mundial pela UNESCO.

Como uma imensa galeria ao ar livre, o Parque Arqueológico do Vale do Côa ocupa 20 mil hectares de terreno que estão distribuídos pelos concelhos Vila Nova de Foz Côa, Mêda, Pinhel e Figueira de Castelo Rodrigo, no distrito da Guarda, a que se junta o concelho de Torre de Moncorvo, no distrito de Bragança, com manifestações de arte rupestre. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Vietname - Tufão expõe naufrágio centenário perto de porto de Hoi Na

A forte erosão costeira provocada pelo tufão “Kalmaegi” expôs um naufrágio centenário no Vietname, oferecendo uma pequena oportunidade para resgatar o que os especialistas consideram ser uma descoberta de grande importância histórica e com enorme valor patrimonial.


Descoberto inicialmente em 2023 ao largo da costa de Hoi An, o navio de pelo menos 17,4 metros – cujo casco de madeira maciça resistiu a centenas de anos de mar agitado quase intacto – foi novamente submerso antes que as autoridades o pudessem recuperar.

Os especialistas ainda não dataram o naufrágio, mas as descobertas preliminares sugerem que foi construído entre os séculos XIV e XVI – época em que Hoi An, Património Mundial da UNESCO, era o centro de um próspero comércio regional de seda, cerâmica e especiarias.

“Estamos a preparar-nos para solicitar uma autorização de escavação de emergência”, disse Pham Phu Ngoc, director do Centro de Preservação do Património Cultural Mundial de Hoi An, à AFP, após o naufrágio ter ressurgido com a passagem do tufão “Kalmaegi” na semana passada.

“A descoberta deste navio antigo é uma clara evidência do importante papel histórico de Hoi An no comércio regional”, afirmou o mesmo responsável, acrescentando que desta vez foram expostas mais partes da embarcação, “o que nos poderá fornecer mais informações”.

Uma equipa de especialistas do centro de preservação de Hoi An, da Universidade de Ciências Sociais e Humanas da cidade de Ho Chi Minh e de um museu local examinou os destroços em 2024. Além da estimativa aproximada da idade, descobriram que a estrutura era feita de “madeira durável e de alta resistência” e reforçada com materiais impermeabilizantes para selar as juntas.

“A estrutura do navio sugere que era capaz de realizar viagens de longa distância, provavelmente utilizado para comércio marítimo ou operações navais”, indicou o Centro de Preservação do Património Cultural Mundial de Hoi An num comunicado anterior. A relíquia corre o risco de “deterioração grave sem acções de conservação imediatas”, devido à severa erosão costeira e frequente exposição do navio a condições meteorológicas adversas, advertiu.

Os destroços ainda eram claramente visíveis na segunda-feira, com multidões reunidas na praia para observar a impressionante estrutura esquelética do navio. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “AFP”


domingo, 2 de novembro de 2025

Coreia do Sul – Descoberto túmulo do século IV talvez do Reino de Silla

Pela primeira vez, foram encontrados restos mortais de um comandante militar do Reino de Silla (57 a.C.-935 d.C.), juntamente com fragmentos da sua coroa de bronze dourado, armadura e capacete, num avanço significativo no estudo do antigo reino coreano. Os artefactos foram descobertos no primeiro túmulo exterior, datado dos séculos IV e V, sob um túmulo real em Hwangnam-dong, Gyeongju.


A escavação, liderada pelo Serviço de Património da Coreia (KHS) em parceria com a cidade de Gyeongju, desenterrou os artefactos do sítio arqueológico nº 120 de Hwangnam-dong, uma grande câmara tumular de madeira coberta por pedra e terra. Abaixo dele, os arqueólogos confirmaram a existência de um antigo túmulo exterior, onde o esqueleto do comandante foi encontrado juntamente com uma espada longa, marcando presumivelmente o seu estatuto militar de elite.

“Este é um momento raro, mostrando ao público um conjunto completo de armadura de comandante, tanto para homem como para cavalo”, disse o administrador do KHS, Huh Min, numa conferência de imprensa no local.

“É uma oportunidade inestimável para testemunhar uma realidade histórica – até os dentes do comandante foram encontrados”, destacou.

A inauguração está programada para coincidir com a Cimeira de Cooperação Económica Ásia-Pacífico de 2025, e o local do enterro e os artefactos estão abertos ao público.

A câmara principal do túmulo exterior nº 1 de Hwangnam-dong acolhia os restos mortais e as armas do comandante, enquanto uma câmara adjacente continha um esqueleto, provavelmente de um camareiro que serviu de perto o comandante durante a sua vida e foi enterrado ao seu lado num sacrifício de vassalo.

A descoberta incluiu também um raro exemplar de armadura de cavalo – apenas o segundo do género encontrado num túmulo de Silla – oferecendo uma imagem mais clara da cavalaria pesada e da organização militar de Silla no século V.

“Analisando o desgaste dos dentes, estimamos que o comandante tivesse cerca de 30 anos”, disse o investigador Lee Min-hyung, que trabalha com o Instituto de Investigação do Património Cultural de Silla. “Traços de uma figura humana também foram detectados acima da sela do cavalo, embora existam apenas vestígios ténues”, revelou.


O conjunto de armadura fornece informações importantes sobre a hierarquia militar. Os investigadores observaram que a parte inferior da armadura era feita de couro – um design diferente de uma descoberta semelhante de 2009 – reflectindo o estatuto e a funcionalidade.

“Este é apenas o segundo conjunto de armadura de Silla confirmado até agora”, disse um investigador, acrescentando que “os componentes de couro sugerem tentativas de tornar a armadura mais leve, ao mesmo tempo que indicam o estatuto extremamente elevado do utilizador – provavelmente um dos principais comandantes da sua época”.

Significativamente, os fragmentos de coroa de bronze dourado no túmulo podem ser os mais antigos do género já encontrados no período Silla. Os elementos decorativos na coroa assemelham-se aos de Goguryeo (37 a.C.- 668 d.C.), sugerindo intercâmbios culturais ou influência entre os dois reinos.

“Quando escavámos o túmulo de Hwangnamdaechong anteriormente, foram encontrados brincos que se acredita terem sido feitos em Goguryeo no local do enterro da rainha”, disse o investigador Kim Hun-suk, do Instituto Nacional de Investigação do Património Cultural de Gyeongju.

“Agora, padrões semelhantes aparecem nesta coroa, indicando ainda mais a influência de Goguryeo sobre Silla durante o período de construção do túmulo”, apontou.

A descoberta lança uma nova luz sobre a transição das práticas funerárias em Silla, de caixões de madeira para túmulos mais complexos, cobertos de pedra, oferecendo raros insights arqueológicos sobre a elite dominante do início de Silla. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”




segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Egipto - Revela vestígios de cidade submersa com mais de 2000 anos

O Egipto apresentou, este fim-de-semana, vestígios de uma cidade submersa em frente à costa de Alexandria, que incluem edifícios, tumbas, tanques para peixes e um cais, todos com mais de 2000 anos de antiguidade.


Segundo as autoridades, o sítio, localizado na baía de Abu Qir, pode corresponder a uma extensão da antiga cidade de Canopo, importante centro da dinastia ptolemaica – que governou o Egipto por quase três séculos – e, posteriormente, do Império Romano, que permaneceu ali por aproximadamente 600 anos.

Com o tempo, uma série de terramotos e o aumento do nível do mar submergiram a cidade e o porto vizinho de Heracleion.

Agora, este fim-de-semana, grandes guindastes retiraram várias estátuas. “Há muitos elementos debaixo de água, mas o que podemos recuperar é limitado; são apenas peças seleccionadas de acordo com critérios rigorosos”, declarou o ministro de Turismo e Antiguidades, Sherif Fathi.

“O restante permanecerá como parte integral de nosso património subaquático”, acrescentou.

As descobertas incluem edifícios de pedra calcária que teriam servido como locais de culto, casas ou estruturas comerciais e artesanais.

Também foram identificados depósitos e tanques escavados na rocha, destinados tanto à aquicultura quanto ao armazenamento de água para consumo doméstico.

Entre as peças mais notáveis estão estátuas reais e esfinges anteriores ao período romano, incluindo uma parcialmente preservada de Ramsés II.

Foram encontrados, ainda, um navio mercante, âncoras de pedra e inclusivamente, um guindaste portuário no local onde ficava um cais de 125 metros, utilizado como porto para embarcações menores durante as épocas romana e bizantina.

Sítio de grande riqueza arqueológica, Alexandria está actualmente ameaçada pelas mesmas águas que submergiram Canopo e Heracleion.

A cidade costeira afunda mais de três milímetros por ano e está entre as áreas mais vulneráveis às alterações climáticas e ao aumento do nível do mar.

Mesmo no cenário mais optimista elaborado pela ONU, um terço de Alexandria estará submerso ou inabitável em 2050, o que será um desastre para o que ainda resta da cidade fundada, em 331 a.c., por um dos grandes generais de sempre, o grego Alexandre Magno. Esta cidade que foi construída num pedaço de terra já ocupado por uma pequena aldeia egípcia entre o Mar Mediterrâneo e o Lago Mareotis (Lago Mariout) está a sofrer as alterações climáticas de forma intensa.

Para quem não saiba, ainda hoje são lugares icónicos a sua grande Biblioteca, a maior do mundo antigo, e o Farol de Alexandria (Pharos), uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, sendo certo que as Catacumbas de Kom El Shoqafa são hoje consideradas uma das Sete Maravilhas da Idade Média. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Rússia – Arqueólogos explicaram por que os habitantes da antiga Quersoneso morreram em massa

O subúrbio ao sul da antiga Táurida Quersoneso, que fica no território da moderna Sebastopol, permaneceu em silêncio por muitos séculos. Mas, de 2020 a 2023, começaram aqui os trabalhos arqueológicos, que tornaram-se os maiores da história da arqueologia russa.


Ao longo de quatro anos de trabalho intenso, cientistas desenterraram uma quantidade impressionante de evidências do passado – mais de 6,5 milhões de artefactos. Este volume de achados superou tudo o que havia sido descoberto no último século e meio de estudo da antiga cidade.

E, em meio a esta incrível riqueza histórica, os ossos de sepulturas antigas revelaram-se especialmente "eloquentes". Eles contaram aos investigadores uma história dramática das vidas e mortes dos moradores da cidade durante o período romano.

Duas cidades: viva e morta

A escala das escavações no subúrbio ao sul de Quersoneso é impressionante. Arqueólogos descobriram não apenas sepulturas individuais, mas vastas seções de uma antiga necrópole. Pode-se dizer que os cientistas se encontraram numa enorme cidade dos mortos, que existia paralelamente à cidade dos vivos.

No entanto, as descobertas não se limitavam à morte. Elas também testemunhavam vividamente o alto padrão de vida e a infraestrutura desenvolvida de Quersoneso na época romana. Ao lado das estruturas funerárias, foram descobertos os restos de oficinas de cerâmica, onde eram criados pratos para as necessidades e rituais do dia a dia, cisternas para armazenar água – um recurso vital na árida Crimeia – e outros objetos económicos.

Os cientistas estavam particularmente interessados nas criptas. Esses túmulos subterrâneos de pedra, destinados a múltiplos sepultamentos, tornaram-se verdadeiras cápsulas do tempo. Alguns deles foram usados por vários séculos, e nas suas profundezas escuras repousavam os restos mortais de dezenas, às vezes centenas, de pessoas.

“No total, mais de 30 dessas criptas foram descobertas, cada uma delas transformando-se num tesouro inestimável para os investigadores.” — Investigador sénior do Instituto de História da Cultura Material da Academia Russa de Ciências, Viktor Vakhoneyev.

Foram esses sepultamentos coletivos que forneceram material único para a reconstrução não apenas dos ritos funerários, mas também da própria vida, das doenças e das causas de morte dos antigos Quersoneses. As criptas acabaram-se revelando uma espécie de arquivo, só que, em vez de papéis, eram armazenados ossos, contendo uma crónica química dos anos vividos.

O que os esqueletos disseram?

Uma pesquisa liderada por Alexey Kasparov, chefe do laboratório de tecnologia arqueológica do Instituto de Culturas Materiais da Academia Russa de Ciências, produziu resultados sensacionais e, ao mesmo tempo, trágicos. Os cientistas utilizaram o método de análise isotópica de carbono no tecido ósseo. Esse método complexo permite determinar com alta precisão a época do ano em que uma pessoa morreu, com base nas mudanças sazonais na sua dieta e metabolismo, que são registradas na composição química dos ossos.

Os resultados da análise foram inequívocos e inesperados. A maioria dos habitantes de Quersoneso não morreu no inverno, devido a geadas severas e falta de alimentos, nem no verão quente, quando as infecções intestinais são frequentes. O pico de mortalidade ocorreu na entressafra – primavera e outono, bem como no final do inverno. O menor número de mortes ocorreu no verão.

Esse padrão sazonal claro tornou-se a chave para desvendar a principal causa de mortalidade. Os cientistas chegaram à conclusão de que, muito provavelmente, a população da antiga Quersoneso foi dizimada em massa por infecções respiratórias comuns: resfriados, gripes e pneumonias.

“Essa descoberta sugere que a causa da morte pode ter sido resfriados, que são mais comuns fora de temporada.” — Kasparov.

No período romano, ao qual pertencem os principais sepultamentos estudados, a medicina, apesar das conhecidas conquistas de Galeno e Hipócrates, permaneceu num nível primitivo para a grande maioria das pessoas. Não havia compreensão da natureza dos vírus e bactérias, nem antibióticos, nem antipiréticos ou anti-inflamatórios eficazes no sentido moderno. Mesmo uma infecção relativamente leve do trato respiratório superior poderia facilmente evoluir para pneumonia grave ou causar complicações com as quais o corpo não conseguia lidar. Crianças, idosos e pessoas debilitadas pela desnutrição ou outras doenças eram especialmente vulneráveis. As opções de tratamento eram extremamente limitadas, baseando-se principalmente em ervas, sangrias e encantamentos. O corpo era deixado sozinho com a infecção, e o resultado era frequentemente fatal.

De acordo com as estatísticas, a expectativa de vida média no Império Romano, nos melhores tempos, raramente ultrapassava 25-30 anos, e a alta mortalidade infantil e adolescente por infecções era uma das principais razões para isso.

Carne para os senhores, papas para os servos

Mas os ossos não revelaram apenas as causas da morte. Os cientistas realizaram outro tipo de análise química, estudando isótopos de nitrogénio. Vale ressaltar que este método é uma ferramenta poderosa para reconstruir a dieta de povos antigos. Diferentes tipos de alimentos (vegetais, carnes, laticínios, frutos do mar) deixam "assinaturas" específicas na forma da proporção de isótopos estáveis de nitrogénio-15 e nitrogénio-14 no colágeno ósseo.

Os resultados da análise de nitrogénio nos restos mortais das criptas de Quersoneso pintaram um quadro de desigualdade social característico da sociedade antiga. Descobriu-se que os hábitos alimentares dos habitantes de Quersoneso variavam muito dependendo do seu status social. Além disso, essas diferenças eram visíveis até mesmo dentro da mesma cripta!

No mesmo túmulo familiar ou de clã, podiam ser enterrados tanto representantes de famílias nobres e ricas quanto os seus parentes menos abastados ou, provavelmente, servos. A dieta dos primeiros era rica em carne e, possivelmente, outros produtos valiosos disponíveis para a elite (peixe, vinho, azeite, iguarias importadas). A assinatura isotópica dos seus ossos indicava um alto nível de consumo de proteínas animais.

Ao lado deles estavam os restos mortais de pessoas cuja dieta era muito mais modesta e baseada principalmente em alimentos vegetais – cereais, pão, vegetais, leguminosas. Isso indica pertencimento a estratos sociais mais baixos ou uma posição de dependência (servos, escravos).

A base da dieta das classes mais pobres do Império Romano eram as leguminosas. Este era o nome de uma papa espessa ou ensopada feita de espelta, cevada ou feijão. Às vezes, adicionavam-se vegetais e uma quantidade muito pequena de azeite ou peixe salgado. Como se costuma dizer, para realçar o cheiro.

No entanto, os investigadores enfatizam um ponto muito importante. Apesar da óbvia estratificação social na nutrição, não foram encontrados sinais de fome crónica ou pobreza extrema que levasse à exaustão. Mesmo os habitantes mais pobres de Quersoneso, a julgar pelos ossos, recebiam calorias suficientes para o funcionamento normal do corpo. Isso indica um suprimento relativamente estável de alimentos para a cidade, pelo menos para sua população permanente durante o período estudado.


Conclusão

A necrópole do subúrbio sul de Quersoneso, em Táurida, é um objeto verdadeiramente único, pois o seu valor não se limita à era romana. Muitas criptas escavadas na antiguidade foram reutilizadas séculos depois. Isso já na Idade Média, quando novos habitantes viviam nas ruínas da antiga cidade greco-romana.

A impressionante continuidade aponta para o significado sagrado especial deste lugar para as pessoas por mais de dois milénios. Quersoneso Táurico está incluído na Lista do Património Mundial da UNESCO. É um exemplo único de uma colónia grega, onde o plano urbano foi preservado quase intacto. Ao mesmo tempo, as camadas arqueológicas de Quersoneso (século V a.C. - século XV d.C.) distinguem-se pela sua preservação verdadeiramente excepcional. Denis Petrovsky – Rússia in “VSLUKH”






sábado, 9 de agosto de 2025

Espanha - 'Exploração extrema': arqueólogos encontram sinais de canibalismo de guerra de há 5700 anos

Nas profundezas da Caverna El Mirador, no norte da Espanha, investigadores descobriram evidências assustadoras de canibalismo humano que datam de cerca de 5700 anos


As colinas de Atapuerca, em Burgos, Espanha, são há muito tempo um tesouro para os cientistas. No entanto, a sua mais recente revelação expande os limites do que pensávamos saber sobre o nosso passado pré-histórico.

Datados de aproximadamente 5700 anos, restos de esqueletos encontrados na caverna El Mirador apresentam sinais assustadores de canibalismo: marcas de corte precisas, queima controlada, evidências de cozimento e até marcas de mordidas humanas.

Segundo Antonio Rodríguez-Hidalgo, investigador do Instituto de Arqueologia de Mérida (IAM-CSIC) e coautor do estudo publicado na Scientific Reports, embora os exemplos registados de canibalismo pré-histórico sejam “relativamente poucos”, na Península Ibérica Neolítica a prática era “mais frequente do que parece” e “integrada à cultura” da época.

Onze vítimas de “exploração extrema”

A descoberta inclui os restos mortais de 11 indivíduos — entre eles crianças — submetidos ao que especialistas descrevem como “exploração extrema” dos corpos.

Um exemplo assustador: o fêmur de uma criança, deliberadamente atingido para libertar a medula, revelando não apenas brutalidade, mas habilidade.

Pesquisadores acreditam que o massacre foi um episódio de canibalismo de guerra, muito mais do que um simples ato de matar. Para os nossos ancestrais, tratava-se de apagar um inimigo tanto do reino físico quanto do espiritual. Acreditava-se que consumir a carne destruía completamente a alma, eliminando qualquer vestígio do adversário.

O facto de todos os 11 terem morrido ao mesmo tempo descarta a possibilidade de ritos funerários de longo prazo e, sem sinais de fome ou clima rigoroso, o canibalismo de sobrevivência está fora de questão.

“Se está a comer alguém do seu próprio grupo, geralmente você procura apenas o que é necessário para sobreviver”, explica Rodríguez-Hidalgo.

Em vez disso, o uso exaustivo dos corpos encontrados em El Mirador sugere que as vítimas não pertenciam ao mesmo grupo social dos seus agressores, mas eram inimigos que precisavam de ser completamente eliminados.

Esta descoberta desafia a imagem antiga das sociedades neolíticas como comunidades agrícolas pacíficas, demonstrando que elas também "resolviam conflitos violentamente".

No entanto, como ressalta o investigador, isso não implica que os seres humanos sejam geneticamente predispostos à guerra: "Não é que a guerra esteja nos nossos genes, mas sim que o que costumamos fazer, e conseguimos fazer, é evitá-la com ferramentas como a diplomacia ou a política".

Atapuerca: A capital do canibalismo

O sítio arqueológico de Atapuerca consolidou-se nas últimas três décadas como o epicentro mundial do estudo do canibalismo pré-histórico. Como brinca Rodríguez-Hidalgo: "Atapuerca é como se fosse a capital do canibalismo" em nível científico.

As descobertas relacionadas à antropofagia neste sítio arqueológico abrangem um período de tempo extraordinário. A descoberta mais antiga data de quase um milhão de anos, constituindo o primeiro caso documentado de canibalismo na história da evolução humana.

Mais recentemente, há pouco mais de uma semana, a mesma equipa de investigação anunciou a descoberta de evidências de antropofagia infantil há mais de 850.000 anos. Casos também foram documentados na Idade do Bronze, há cerca de 4000 anos.

A produtividade excepcional de Atapuerca neste campo de estudo não é coincidência. Grande parte deste sucesso deve-se ao trabalho de uma equipa dedicada liderada por Palmira Saladié, do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES), cuja experiência permite identificar marcas ósseas subtis que outros investigadores poderiam não perceber.

Meio século de descobertas revolucionárias

A história moderna de Atapuerca começou muito antes de se tornar uma referência mundial em paleoantropologia. Em 1863, Felipe de Ariño e Ramón Inclán publicaram a descoberta de restos humanos pré-históricos em Cueva Ciega, marcando os primeiros sinais da riqueza arqueológica da região. No entanto, só mais de um século depois é que o capítulo científico moderno do sítio começaria de facto.

A alteração ocorreu em 1976, quando Emiliano Aguirre começou a trabalhar na Serra de Atapuerca, onde concebeu o projeto como uma pedreira multidisciplinar de investigadores com uma missão de longo prazo. Naquele mesmo ano, o grupo de espeleologia liderado por Trinidad Torres realizou escavações em busca de fósseis de urso, e o que encontraram foi uma mandíbula humana notavelmente completa na Sima de los Huesos.

A primeira descoberta de um fóssil humano foi feita em 1976 por Trinidad Torres, que na época fazia a sua tese de doutorado sobre ursos pré-históricos, e foi então que Emiliano Aguirre assumiu o desafio de formar uma equipa de pesquisa.

A década de 1990 marcou um ponto de virada para Atapuerca. Em 1992, a descoberta de restos mortais humanos no sítio arqueológico de Sima de los Huesos atraiu grande atenção científica e pública para a região. Dois anos depois, arqueólogos desenterraram fósseis com mais de 900.000 anos, pertencentes a uma espécie recém-identificada, o Homo antecessor. Essa descoberta transformou a nossa compreensão da evolução humana na Europa, revelando um grupo de hominídeos que viveu antes dos neandertais e dos humanos modernos.

O reconhecimento internacional veio logo. Em 2000, a UNESCO declarou os sítios de Atapuerca Património da Humanidade, consolidando o seu status como um dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo. Emiliano Aguirre foi agraciado com o Prémio Príncipe das Astúrias de Pesquisa Técnica e Científica em 1998, em reconhecimento a décadas de trabalho pioneiro.

Descobertas notáveis continuaram no século XXI. Durante a temporada de escavações de 2022, investigadores desenterraram um fragmento facial e parte de uma mandíbula de Homo affinis erectus, datados de cerca de 1,2 milhão de anos atrás — os restos humanos mais antigos já encontrados no local. Euronews.com


segunda-feira, 7 de julho de 2025

Peru - Arqueólogos descobrem cidade com 3500 anos

Arqueólogos anunciaram a descoberta de uma cidade antiga na província de Barranca, no norte do Peru


Acredita-se que a cidade de 3500 anos, chamada Peñico, serviu como um importante centro comercial que ligava as primeiras comunidades da costa do Pacífico com aquelas que viviam nas montanhas dos Andes e na bacia amazónica

Localizado a cerca de 200 km ao norte de Lima, este sítio fica a cerca de 600 metros acima do nível do mar e acredita-se que tenha sido fundada entre 1800 e 1500 a.C. — mais ou menos na mesma época em que as primeiras civilizações floresciam no Médio Oriente e na Ásia.

Citados pela BBC, investigadores dizem que a descoberta esclarece o que aconteceu com a civilização mais antiga das Américas, a Caral.

Imagens recolhidas com drones divulgadas pelos investigadores mostram uma estrutura circular num terraço na encosta do centro da cidade, cercada por restos de construções de pedra e barro.

Oito anos de pesquisa no local revelaram 18 estruturas, incluindo templos cerimoniais e complexos residenciais.

Em edifícios do local, os investigadores descobriram objetos cerimoniais, esculturas de argila de figuras humanas e animais e colares feitos de contas e conchas.

Peñico está situada perto de onde Caral, reconhecida como a civilização mais antiga conhecida nas Américas, foi fundada há 5000 anos, por volta de 3000 a.C., no vale de Supe, no Peru.

Caral possui 32 monumentos, incluindo grandes estruturas piramidais, agricultura de irrigação sofisticada e assentamentos urbanos. Acredita-se que se tenha desenvolvido isoladamente de outras civilizações antigas semelhantes na Índia, Egito, Suméria e China.

A investigadora Ruth Shady, arqueóloga que liderou a investigação sobre Peñico e a escavação de Caral na década de 1990, revelou, citada pela agência de notícias Reuters, que a descoberta foi importante para entender o que aconteceu com a civilização Caral depois desta ser dizimada pelas alterações climáticas.

A comunidade de Peñico estava "situada num local estratégico para o comércio, para trocas com sociedades do litoral, das terras altas e da selva", acrescentou Shady.

O Peru abriga muitas das descobertas arqueológicas mais significativas das Américas, incluindo a cidadela inca de Machu Picchu, nos Andes, e as misteriosas Linhas de Nazca, esculpidas no deserto ao longo da costa central. In “MadreMedia Sapo” - Portugal


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Itália - Pompeia, surge uma sala com afresco com iniciação aos mistérios e procissão de Dionísio

É uma “megalografia” muito rara do século I. a.C, como a famosa Vila dos Mistérios



Mais de 100 anos após a descoberta da Vila dos Mistérios, um grande novo afresco lança luz sobre os mistérios de Dionísio no mundo clássico. Num grande salão de banquetes, escavado nas últimas semanas na área central de Pompeia, na ínsula 10 da Regio IX,  surgiu um friso de dimensões quase em tamanho real, ou seja, uma “megalografia”  (do grego “grande pintura” - ciclo de pinturas com grandes figuras), que percorre três lados da sala; a quarta era aberta para o jardim.

O friso mostra a procissão de Dionísio, deus do vinho:  bacantes   representadas  como dançarinas,  mas também como  caçadoras  ferozes,  com uma cabra abatida sobre os ombros ou com uma espada e as entranhas de um animal nas mãos;  jovens sátiros  com orelhas pontudas  tocando flauta dupla,  enquanto  outro realiza um sacrifício de vinho  (libação) em estilo acrobático, despejando um jato de vinho de um chifre (usado para beber) sobre o ombro em uma patera (taça baixa).  No centro da composição está uma mulher com um velho Sileno segurando uma tocha: ela é uma iniciando, ou seja, uma mulher mortal que, por meio de um ritual noturno, está prestes a ser iniciada nos mistérios de Dionísio, o deus que morre e renasce, prometendo o mesmo aos seus seguidores.

Um detalhe curioso é que todas as figuras do friso estão representadas em pedestais, como se fossem estátuas, ao mesmo tempo em que os seus movimentos, aparência e vestimenta as fazem parecer muito vivas.



Os arqueólogos nomearam a casa com o friso de “casa de Thiasos”, em referência à procissão de Dionísio. Na antiguidade existia uma série de cultos, incluindo o de Dionísio, que eram acessíveis apenas àqueles que realizavam um ritual de iniciação, como sugere o friso de Pompeia. Esses cultos eram chamados de “misteriosos” porque somente os iniciados podiam conhecer os seus segredos. Elas eram frequentemente associadas à promessa de uma vida nova e feliz, seja neste mundo ou na vida após a morte.

O friso descoberto em Pompeia pode ser atribuído ao Segundo Estilo de pintura pompeiana,  que remonta ao século I. a.C. Mais precisamente, o friso pode ser datado dos anos 40-30 a.C. Isso significa que na época da erupção do Vesúvio, que enterrou Pompeia em 79 d.C. sob lapilli e cinzas, o friso dionisíaco já tinha cerca de um século de idade.  

O único outro exemplo de um megalograma com representações de rituais semelhantes é o friso chamado “dos Mistérios” na vila de mesmo nome, do lado de fora dos portões de Pompeia, também no Segundo Estilo Pompeiano.

O novo friso encontrado em Pompeia, em comparação com a Vila dos Mistérios, acrescenta outro tema ao imaginário dos rituais iniciáticos de Dionísio: a caça, que é evocada não apenas pelas caçadoras bacantes, mas também por um segundo friso menor que corre acima daquele com as bacantes e sátiros: aqui são representados animais vivos e mortos, incluindo um cervo e um javali recém-estripado, galos, vários pássaros, mas também peixes e moluscos.

“Em 100 anos, hoje será vivenciado como histórico, porque a descoberta que estamos a mostrar é histórica”, declarou o Ministro da Cultura Alessandro Giuli. “O megalograma encontrado na insula 10 de Regio IX abre outra janela para os rituais dos mistérios de Dionísio. Este é um documento histórico excepcional e, juntamente com o da Vila dos Mistérios, constitui um exemplo único do género, fazendo de Pompeia um testemunho extraordinário de um aspecto da vida nos tempos clássicos do Mediterrâneo que é amplamente desconhecido.



Tudo isso torna importante e preciosa a retomada das atividades de escavação em Pompeia, que o Governo apoia fortemente e para a qual, recentemente, destinou 33 milhões de euros para trabalhos de escavação, manutenção programada, restauração e valorização deste local e da área circundante. Vivemos um momento importante para a arqueologia italiana e mundial, que também registou um forte aumento de visitantes, a partir deste Parque Arqueológico: mais de 4 milhões e 87 mil visitantes em 2023 e 4 milhões e 177 mil unidades em 2024”.

A caça às Bacantes de Dionísio – explica o diretor do Parque Arqueológico de Pompéia,  Gabriel Zuchtriegel,  coautor de um primeiro estudo da nova descoberta publicado no E-Journal degli Scavi di Pompei –  partindo das 'Bacantes' de Eurípides de 405 a.C., uma das tragédias mais queridas da antiguidade, torna-se uma metáfora para uma vida desenfreada, extática, que visa 'algo diferente, grande e visível', como diz o coro do texto de Eurípides. Para os antigos, a bacante expressava o lado selvagem e indomável das mulheres; a mulher que abandona seus filhos, sua casa e sua cidade, que deixa a ordem masculina, para dançar livremente, ir caçar e comer carne crua nas montanhas e nas florestas; em suma, o oposto da mulher 'bonita', que emula Vénus, deusa do amor e do casamento, a mulher que se olha no espelho, que 'se embeleza'. Tanto o friso da Casa de Tiaso quanto o dos Mistérios mostram a mulher suspensa, oscilando entre esses dois extremos, duas modalidades de ser feminino naquela época. São afrescos com um significado profundamente religioso, mas aqui tinham a função de adornar espaços para banquetes e festas… um pouco como quando encontramos uma cópia da Criação de Adão de Michelangelo na parede de um restaurante italiano em Nova York, para criar um pouco de atmosfera. Por trás dessas pinturas maravilhosas, com seu jogo com a ilusão e a realidade, podemos ver os sinais de uma crise religiosa que afetava o mundo antigo, mas também podemos compreender a grandeza de um ritual que remonta a um mundo arcaico, pelo menos ao segundo milênio a.C., ao Dionísio dos povos micênicos e cretenses, que também era chamado de Zagreu, senhor dos animais selvagens.

O ambiente do Thiasos dionisíaco ficará visível ao público imediatamente como parte das visitas ao canteiro de obras, que já começaram desde o início da escavação dos vários ambientes gradualmente investigados.

As investigações no chamado Regio IX de Pompeia — um dos nove distritos em que o sítio está dividido — começaram em fevereiro de 2023, numa área que se estende por aproximadamente 3200 m2, quase um quarteirão inteiro da antiga cidade enterrada em 79 d.C. pelo Vesúvio. Hoje o canteiro de obras encontra-se na sua fase final, que inclui as últimas intervenções de segurança, ao final das quais um projeto de valorização permitirá também um uso futuro permanente da área por todos os visitantes.

O projeto “Escavação, segurança e restauração da Insula 10 Regio IX” foi realizado com o objetivo de reconectar-se com o tecido urbano da Via di Nola e reduzir os riscos associados às alterações climáticas. 

A escavação, na qual foram identificados mais de 50 novos cómodos distribuídos por uma superfície de mais de 1500 m2, revelou  duas casas-átrio, já parcialmente investigadas no século XIX, construídas no período samnita e transformadas em oficinas de produção no século I d.C.:  uma fullônica (lavanderia) e uma padaria com forno, com espaços para as mós e salas para o processamento de produtos alimentícios a serem distribuídos na cidade.  

Ao sul destas duas casas-oficina, surgiram algumas salas de estar pertencentes a uma grande domus.   Entre estas, além da grande sala com cenas dionisíacas, um salão negro  com cenas da saga troiana;  um santuário de fundo azul  com as quatro estações e alegorias da agricultura e do pastoreio e um grande distrito termal . A entrada, a área do átrio e grande parte do peristilo (jardim com colunatas) permanecem inexplorados. In “Parque Arqueológico de Pompeia” - Itália 


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Reino Unido - Arqueólogos descobrem extraordinária basílica romana de 2000 anos sob zona de escritórios em Londres

Os achados escavados em Londres consistem nas fundações de calcário de Kent de uma enorme basílica romana de dois andares, onde autoridades teriam tomado importantes decisões políticas e legais



Arqueólogos fizeram uma descoberta extraordinária sob um prédio de escritórios em Londres: os restos da primeira basílica romana da cidade.

Foi descrito como uma das descobertas arqueológicas mais significativas da capital nos últimos anos.

Datada de quase 2000 anos, no final dos anos 70 ou início dos anos 80 d.C., a basílica fazia parte do fórum romano, o centro administrativo e social de Londinium.

"A importância deste local é que a basílica romana realmente era o centro comercial, social e económico de Londres", explica Andrew Henderson-Schwartz, chefe de impacto público do MOLA (Museu de Arqueologia de Londres), numa conversa com a Euronews Culture.

"É onde você iria para tomar grandes decisões de negócios e grandes negócios. É onde você iria para ter disputas resolvidas por um magistrado. É onde você iria para ter discussões sobre o tipo de decisões que poderiam afetar as mudanças que estavam acontecendo tanto na Londres romana quanto na Grã-Bretanha romana mais ampla."

O que foi descoberto até agora foram as fundações notavelmente intactas de um edifício de dois andares, quase do tamanho de uma piscina olímpica.

Construída entre 78 e 84 d.C., a estrutura foi erguida apenas algumas décadas depois que as tropas romanas invadiram a Grã-Bretanha e cerca de 20 anos após a destruição de Londinium pelas forças da rainha guerreira celta Boudicca.

Além das paredes, as escavações também revelaram vários artefatos, incluindo uma telha estampada com a marca de um oficial da cidade antiga.

A construtora, Hertshten Properties, proprietária do local e detentora da permissão de planeamento para uma nova torre de escritórios, comprometeu-se a incorporar os vestígios antigos no design do edifício e exibi-los num centro de visitantes público.

A exposição deverá ter um piso de vidro, permitindo que os visitantes vejam as paredes da basílica abaixo, e também incluirá espaço para barracas de comida e mercados.

"Acho que é importante preservar o passado. Obviamente, Londres é uma cidade em rápido desenvolvimento, e é ótimo que estejamos crescendo tão rapidamente com tanto desenvolvimento a acontecer. Mas ter estes elos tangíveis com o passado nos ajuda a lembrar de onde viemos e nos dá uma sensação de conexão com aqueles que vieram antes de nós", diz Henderson-Schwartz.

Com mais escavações no horizonte, a equipa arqueológica espera responder a várias perguntas, como por que o fórum original foi usado apenas por 20 anos antes de ser substituído por um muito maior, que continuou a servir a cidade até ao colapso do domínio romano, três séculos depois. Euronews.culture