Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Patuá. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Patuá. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Macau - Paula Carion quer levar a língua crioula a novos públicos em oficina de Patuá

A Associação de Estudantes Luso-Macaense (AELM) organiza este sábado, 8 de Agosto, um workshop dedicado ao Patuá, o crioulo que resulta do encontro de Portugal com a Ásia. A sessão, que terá lugar no Instituto Internacional de Macau, entre as 16h e as 18h, será conduzida por Paula Carion, vice-presidente da Associação dos Jovens Macaenses e membro dos Dóci Papiaçám di Macau, grupo de teatro em Patuá. O objectivo é sensibilizar a comunidade para a importância de uma língua que, apesar de reconhecida como património cultural imaterial, continua a ser desconhecida para muitos


As línguas só se mantém vivas enquanto houver quem as fale, quem as ouça e quem as ensine. Uma convicção que traz Paula Carion, figura recorrente no âmbito cultural macaense, a realizar mais um workshop dedicado ao Patuá, o crioulo de Macau que, desde 2021, integra a lista representativa do património cultural imaterial nacional da China. O evento, organizado pela Associação de Estudantes Luso-Macaense (AELM) e com a coorganização da Associação dos Jovens Macaenses, do Instituto Internacional de Macau (IIM) e dos Dóci Papiaçám di Macau, terá lugar este sábado, dia 8 de Agosto, nas instalações do IMM.

Em conversa com o Ponto Final, Paula Carion explica que este é o décimo workshop que realiza desde 2023, após ter passado por escolas, associações e até pela Universidade Chinesa de Hong Kong. O formato é interactivo e divide-se em duas partes: a primeira é uma introdução ao povo macaense, à sua cultura e à língua crioula; já a segunda aborda as festividades de Macau que mantêm influência da cultura portuguesa, tais como o teatro e o Chá Gordo.

A oradora diz que o público-alvo inclui membros da AELM, estudantes que frequentam ou frequentaram cursos relacionados com o português. Mas não só, também está aberto a todos os que manifestem interesse pela cultura macaense. A inscrição tem um custo simbólico de 30 patacas, e cerca de 30 participantes já garantiram lugar.

Quando questionada sobre a importância deste fenómeno linguístico de Macau, Paula Carion diz que o Patuá não deve ser apenas observado como um património exclusivo da comunidade macaense, mas como um “producto de Macau”. A sua preservação, defende Carion, “deve ser tão importante como a preservação, por exemplo, das Ruínas de São Paulo ou do Templo da Barra”. O objectivo do workshop, sublinha, não é ensinar a língua de forma exaustiva, mas sim sensibilizar a comunidade para a sua existência e valor cultural. “Espero que, através da apresentação, o público se interesse mais pelo Patuá e procure mais respostas para as suas questões”, afirma.

Já quanto à importância do reconhecimento do teatro em Patuá como património cultural imaterial nacional, Carion mostra-se pragmática. “O meu objectivo é começar aqui em Macau. Só quando mais pessoas locais estiverem mais familiarizadas com o Patuá é que poderemos promovê-lo na China ou mesmo no estrangeiro”. A oradora alerta ainda para o risco de desinformação, numa altura em que a língua continua a evoluir e a distanciar-se do crioulo original que chegou a Macau há três séculos.

O workshop é também uma oportunidade para sonhar. Carion confessa que descobriu recentemente que o Papiamento, um crioulo muito semelhante ao Patuá, foi reconhecido como língua oficial em Aruba, Bonaire e Curaçau. Embora saiba que um cenário semelhante para Macau seja improvável, admite que “se um dia, mesmo que seja um pequeno grupo de pessoas, pudesse conversar diariamente em Patuá, isso seria provavelmente o realizar de um sonho”.

O workshop “História de Macau – Workshop de Patuá” realiza-se no dia 8 de Agosto, das 16h às 18h, nas instalações do IIM.  As vagas são limitadas, pelo que se aconselha a visitar a página oficial do IMM para marcar presença mediante o pagamento. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Macau - Patuá esteve em foco no Fórum das Línguas Chinesa e Portuguesa

A Universidade de Macau (UM) realizou recentemente o segundo Fórum Internacional das Línguas Chinesa e Portuguesa, onde se reuniram especialistas e académicos provenientes de países de língua portuguesa, do Interior da China e de Macau para “um intenso intercâmbio académico nas áreas da literatura, linguística, intercâmbio cultural, estudos de tradução e ensino de língua”. Ao longo dos dois dias, o programa incluiu cinco sessões livres e três conferências.


A cerimónia inaugural contou com a presença do académico português Raul Gaião, que aproveitou para apresentar os três volumes da sua mais recente obra, “Papiá Nôsso Lingu, Dicionário de Patuá di Macau”. Para a UM, a publicação “constitui não só um contributo académico de relevo, mas também um importante esforço de sistematização e de preservação do patuá macaense, património linguístico singular que reflecte a herança multicultural de Macau”.

As sessões de partilha foram conduzidas por académicos e estudantes distinguidos do Departamento de Português, incluindo o vencedor do “Prémio Fernão Mendes Pinto” do ano passado, Lu Chunhui, a vencedora do “Prémio Académico Henrique de Senna Fernandes” de 2023, Carla Lopes, e as estudantes premiadas no Concurso Internacional de Contos do Dia Mundial da Língua Portuguesa deste ano, Li Renlan e Wang Siyi.

Já nas conferências, participaram o professor Rui Pereira, da Universidade de Coimbra, a professora Xu Yixing, da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, e a professora Min Xuefei, da Universidade de Pequim. Os temas abordados abrangeram a linguística e o ensino do português, a inteligência artificial aplicada ao ensino de línguas e os estudos de literatura em língua portuguesa, tendo oferecido “reflexões de grande actualidade e profundidade”, de acordo com a UM.

Segundo a instituição universitária, o fórum assume-se como “uma plataforma privilegiada de diálogo académico, contribuindo para reforçar a compreensão mútua entre as línguas e culturas chinesa e portuguesa, bem como para promover a partilha de conhecimento e a construção de novas perspectivas”. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


terça-feira, 26 de maio de 2026

Macau - Teatro em patuá conseguiu “envolver o público”

Caiu o pano de mais um espectáculo em patuá, interpretado pelo grupo Dóci Papiaçám di Macau, e o dramaturgo e encenador já pensa na próxima edição. Levantando um pouco o véu daquilo que poderá ser satirizado em 2026, Miguel de Senna Fernandes disse ao Jornal Tribuna de Macau que a ideia é dar continuidade aos temas relacionados com “os novos ventos” do desenvolvimento do território. O responsável mostra-se satisfeito com a actuação das pessoas em palco, “que conseguiram envolver o público”, destacando a simbiose entre os mais velhos e as novas gerações. Por outro lado, confirmou a este jornal que o Instituto Cultural pediu que fosse retirada “uma expressão”, tendo o grupo feito uma rectificação


Casa cheia no sábado à noite e plateia com menos gente no domingo à tarde constituem o balanço da adesão do público a mais um ano de espectáculo em patuá, interpretado pelo grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, que teve por palco o Grande Auditório do Centro Cultural.

Incluída no programa do Festival e Artes, a peça de quase duas horas e meia de duração, com legendas em português, inglês e chinês, abordou o ambiente socioeconómico de Macau com muito humor e sátira social.

O enredo girou em torno de duas irmãs que assumiram o restaurante do pai (o estabelecimento “Glorioso”) após a sua morte. “E Agora Como? (E agora?)” reflectiu o impacto do fecho de casinos-satélite e as dificuldades do pequeno comércio.

O dramaturgo e encenador mostra-se “muito satisfeito”, porque as pessoas em palco “conseguiram envolver o público, que é o mais importante”, disse ao Jornal Tribuna de Macau. Miguel de Senna Fernandes afirma que “todos os anos a experiência se repete, sendo uma confirmação do esforço comum”, adiantando que “cada participante teve oportunidade de, por si e juntamente com os outros, realizar algo de pessoal, uma vez que há sempre espaço para alguma criatividade dentro do guião, o qual permite essa liberdade”.

Como todos os anos acontece, houve algumas revelações, como foi o caso de Eduardo, de apenas 11 anos de idade, que teve a responsabilidade de apresentar a peça. E é nestas novas gerações que o mentor do espectáculo aposta, sem nunca descurar os mais velhos, já veteranos nestas andanças.

“O Doçi Papiaçám não é aquela escola tradicional de teatro, mas também é uma escola em que se aprende a estar em palco”, salienta, acrescentando que “enfrentar o palco é psicológico e treina-se”. Para o encenador, que há 33 anos fundou o grupo, “quem tem experiência de palco tem experiência da vida, sendo isto uma oportunidade fantástica de auto-estima e de auto-afirmação”. Por isso, nota, “queremos apostar nas novas gerações para dar continuidade ao espectáculo e ao próprio patuá, como língua”.

Referindo-se à tecnologia utilizada, desta feita com algumas imagens geradas através de Inteligência Artificial, diz que esta ferramenta “tem de ser aproveitada, uma vez que está ao nosso dispor e permite muitas vezes dar azo a que nós possamos realizar algo que nós idealizámos e não iríamos conseguir pelas nossas próprias mãos”.

No entanto, na peça deste ano, notou-se que os momentos musicais foram escassos, ao contrário de espectáculos anteriores. “Reconheço que deveria haver mais”, admitiu, afirmando que, “o que houve foi conseguido em tempo recorde pela Joana Freitas e pela Agurtzane Cordeiro que quiseram arriscar, tendo resultado bem”. Para o ano, revela, “vou apostar mais na música e nas canções, porque é de facto importante, posso mesmo dizer insubstituível”.

E por falar na edição de 2026, Miguel de Senna Fernandes diz já ter algumas ideias, com o tema a andar provavelmente à volta dos “novos ventos” da RAEM. “Para onde é que se vai hoje em dia quando se quer desenvolver Macau?”, questiona, dando um exemplo: Hengqin.

Aponta o mês de Setembro para começar a definir a história da peça. “Mas terá sempre a ver com os novos ventos do desenvolvimento do território”, expressa.

O responsável do grupo Dóci Papiaçam di Macau congratula-se pelo apoio dado pelo Instituto Cultural (IC). “A presidente, Leong Wai Man, esteve na plateia e no final foi aos bastidores apresentar cumprimentos, o que é um sinal de que podemos contar com o seu apoio e de facto não nos podemos queixar de nada ao longo destes anos”, menciona.

Sobre a obrigação de apresentação, à “priori”, do guião do espectáculo ao IC, o dramaturgo desvaloriza algumas rectificações feitas pontualmente. “Falaram comigo e nós retirámos uma expressão, apenas isso, mas nós compreendemos e aceitamos”, conclui.

Relativamente ao programa do Festival de Artes, outro espectáculo teatral estará em cena nos próximos dias 29 e 30 de Maio, sexta-feira e sábado, às 20h00, no Grande Auditório do IC. “Divina Comédia” terá interpretação do grupo italiano NoGravity. Vítor Rebelo – Macau 


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Macau - Coro Papiaçám leva a Portugal “Lisboa Antiga” em patuá

O grupo coral dos Dóci Papiaçám di Macau vai actuar a 8 e 10 de Outubro em Lisboa, a convite da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. O coro interpretará cerca de uma dezena de temas, quase todos em patuá. Apenas um é uma adaptação do clássico da Amália Rodrigues, “Lisboa Antiga”, da autoria do poeta macaense Adé, na qual “será feito um arranjo”, segundo referiu ao Jornal Tribuna de Macau Miguel de Senna Fernandes. Está também prevista uma actuação na Casa de Macau em Portugal



Cerca de uma dezena de composições em patuá farão parte do repertório do Coro do Dóci Papiaçám di Macau numa deslocação a Portugal, a convite da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. O grupo será integrado por 14 elementos, 12 cantores, um regente e um técnico.

A actuação oficial do coro irá processar-se em duas sessões. A primeira, no dia 8 de Outubro, acontecerá no Palácio de São Bento, edifício-sede da Assembleia da República Portuguesa, e a segunda, a 10, no Paço Municipal de Lisboa, por ocasião do encerramento do Plenário das Comunidades portuguesas.

Para além destes dois dias, o Coro dos Dóci Papiaçám di Macau deverá igualmente, ainda que a nível particular, exibir-se na Casa de Macau em Lisboa no dia 9. “Estamos a combinar com eles para podermos fazer lá uma sessão, aproveitando assim a nossa presença na capital portuguesa e assim conviver e cantar na Casa de Macau”, disse ao Jornal Tribuna de Macau Miguel de Senna Fernandes, ao comentar uma notícia divulgada pela TDM.

No repertório do coro para esta deslocação, vão ser cantadas, pela primeira vez, cerca de 10 trechos, dois deles com letra do poeta macaense José dos Santos Ferreira, conhecido por Adé, falecido em 1993. Uma dessas interpretações é “Lisboa Antiga”, de Amália Rodrigues, que Adé compôs em patuá.

“Vamos fazer um arranjo e, portanto, será uma canção em português e patuá”, referiu o responsável pelo grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, que fará também parte dos elementos que cantam, já que a regência caberá a José Basto da Silva.

O grupo tem habitualmente 20 elementos – foi esse o número da última actuação, no Natal de 2023 – mas Miguel de Senna Fernandes lamenta que nem todos possam integrar a comitiva nesta viagem a Lisboa. “Tenho pena de deixar algumas pessoas de fora, sem desprimor por ninguém, mas isso só acontece por limitações de orçamento da parte da organização”, explicou.

O Coro dos Dóci Papiaçám di Macau regressa assim a Lisboa 25 anos depois de ali ter actuado. “Foi em 1999 e por isso deixa-me satisfeito este convite para voltarmos a Portugal com o coro”, salientou Miguel de Senna Fernandes. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


terça-feira, 7 de maio de 2024

Macau - Humor, música e palco cheio: Está de volta a sátira dos Dóci Papiaçám

Os Dóci Papiaçám di Macau estão de volta. Este sábado e domingo, pelas 20h, sobe ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau o espectáculo intitulado “Unga Istrêla ta vem”. O enredo tem a ver com uma disputa entre duas professoras e uma ‘junket’ que tenta rentabilizar a situação. Em palco estará um dos maiores elencos de sempre do espectáculo, adiantou Miguel de Senna Fernandes ao Ponto Final. Sobre o pedido das autoridades para verem o guião de antemão, o fundador do grupo indicou que não houve qualquer interferência e afirmou: “A sociedade moderna tem de ter capacidade de aceitar o humor”


Está de regresso o espectáculo de teatro em patuá dos Dóci Papiaçám di Macau. Este fim-de-semana, dias 11 e 12 de Maio, pelas 20h, “Unga Istrêla ta vem” sobe ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau.

Este ano, a história gira em torno de uma disputa entre duas professoras e de uma aposta organizada por uma ‘junket’ na miséria, explica ao Ponto Final Miguel de Senna Fernandes, fundador e encenador do grupo de teatro: Délia, uma professora humilde e envergonhada que tem um defeito na fala, é acossada por Elvira, uma professora conhecida e ‘bully’. Um despique entre as duas é aproveitado por Giselda, a tal ‘junket’ que precisa de dinheiro rápido, dada a situação actual de fragilidade dos promotores de jogo em Macau. “A aposta está no sangue da população de Macau”, comenta o encenador.

Este ano, há 21 actores em palco: “É um dos maiores elencos de sempre”. Entre os actores, o destaque vai para a forte presença juvenil em palco. Há cinco crianças, entre os 9 e 11 anos. “Elas portam-se lindamente, eu fico absolutamente maravilhado com aquilo que elas fazem”, diz Miguel de Senna Fernandes.

A música, tal como nos espectáculos anteriores, estará também em destaque. Ainda não é um musical, mas para lá caminha, confidencia Senna Fernandes. Este ano, a peça vai incorporar seis temas da autoria do próprio fundador dos Dóci. Os vídeos humorísticos apresentados no intervalo, realizados por Sérgio Perez, também se mantêm este ano.

“Não há razões para temer o humor dos Dóci Papiaçám”

Em Março, depois da apresentação do programa do Festival de Artes de Macau – no qual o espectáculo dos Dóci Papiaçám di Macau está integrado – ficou a saber-se que, este ano, as autoridades exigiram ver os guiões dos espectáculos em antemão. Na altura, Miguel de Senna Fernandes mostrou-se descontente com a situação, assinalando que esta era uma situação inédita desde que começaram a apresentar o teatro em patuá.

Agora, o encenador indicou que, depois disso, a comissão de avaliação dos espectáculos não disse mais nada e, portanto, não exigiu nenhuma alteração à peça dos Dóci.

“Compreendo que os espectáculos são subsidiados pelo Governo e que o Governo quer minimamente saber quais são os conteúdos. Eu compreendo isto. [Porém], a entidade competente que convida tem de saber de antemão o que é que pode esperar”, diz, acrescentando: “A questão de fundo é a capacidade de humor e de aceitar o humor. Qualquer sociedade precisa de humor. A sociedade moderna tem de ter capacidade de aceitar o humor”. Em conclusão, atirou: “Não há razões para temer o humor dos Dóci Papiaçám”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


quarta-feira, 10 de abril de 2024

Macau - Cartões de estudo do patuá editados em livro

A macaense Elisabela Larrea vai lançar um livro que contém cartões de estudo do patuá, numa publicação que oferece, para além de ilustrações, também um audiovisual para facilitar a aprendizagem da língua em perigo de extinção, segundo a UNESCO. O livro é da responsabilidade editorial do Instituto Internacional de Macau


“Unchinho di Língu Maquista: Cartões de Estudo do Patuá” é um livro da autoria da macaense Elisabela Larrea, que será lançado no Pavilhão Desportivo do Tap Seac, no próximo dia 20, editado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM). Para além do patuá, a publicação inclui a tradução para as línguas chinesa, portuguesa e inglesa.

Passados sete anos desde a criação do primeiro cartão de estudo em inglês foram reunidos e compilados os vários cartões efectuados (com diversas palavras em patuá) e que se encontram agora incluídos neste livro, que tem como principal objectivo, segundo o IIM, “proporcionar uma forma de aprendizagem do crioulo de base portuguesa de Macau, através de ilustrações simples e em trilíngue”.

Para além das ilustrações disponíveis, a edição, que conta com o patrocínio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura, inclui ainda acesso às redes sociais como as plataformas YouTube, Facebook e Instagram (através de códigos QR), com aprendizagem em audiovisual, facilitando ainda mais o conhecimento de uma língua que se encontra actualmente em perigo de extinção, conforme a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

No texto de divulgação, lê-se que “a comunidade macaense tem procurado salvaguardar a língua com trabalhos de documentação de estudo, em publicações, na promoção e no ensino e na música”, sem esquecer o teatro em patuá do grupo dos Dóci Papiaçám di Macau, reconhecido pela RAEM e pela República Popular da China como património intangível.

Contactada pela Tribuna de Macau, Elisabela Larrea disse que o projecto começou por ser um passatempo. “Mas, pouco a pouco, tornou-se numa paixão minha, sobretudo com as muitas mensagens de incentivo e interesse que me foram enviadas de todo o mundo, incluindo de estudantes da China continental”, explicou.

A macaense salienta que decidiu oferecer este livro como um presente para o IIM, bem como para todos aqueles que se interessam por patuá. “Este não é um livro de ensino de línguas, mas uma compilação de ‘flashcards’ com breves explicações, incluindo também uma breve história da comunidade e do patuá, uma espécie de forma de atrair o interesse das pessoas para saberem mais”, destaca.

Elisabela Larrea é doutorada em Comunicação, investigadora da cultura macaense e tem desenvolvido grande interesse pela história e culturas de Macau. Desde 2004 dedica-se ao trabalho de preservação e promoção da cultura macaense através da arte, documentários, filmes, palestras públicas e investigação académica. Actualmente é presidente da Associação de Estudos Macaenses.

A sessão de lançamento do livro é aberta ao público e vai estar integrada na Feira do Livro da Primavera 2024, com a apresentação da autora, no Pavilhão do Tap Seac.

Os desafios do bilinguismo nas crianças em debate na FRC

A Associação dos Jovens Macaenses promove, no dia 16 de Abril, terça-feira, pelas 18h30 na Fundação Rui Cunha, um seminário sobre “Atraso Linguístico em Macau: Criar uma criança bilingue: Mitos e Desafios”. A iniciativa, que conta com a colaboração da Associação dos Médicos de Língua Portuguesa de Macau, terá como oradoras a pediatra Joana Morgado Bento e a terapeuta da fala Zélia Almeida. O objectivo é falar sobre as preocupações que provoca nos pais a proeminência da língua inglesa nos seus filhos. “As oradoras estão particularmente preocupadas que em Macau, caso um ou ambos os pais sejam ocidentais, isso possa transmitir um factor de risco para o diagnóstico de atraso de linguagem, quando comparado com crianças nos países ocidentais e no resto do mundo”, refere um comunicado da organização. No seminário serão discutidos casos clínicos, bem como avaliação, tratamento, prognóstico e prevenção do atraso da linguagem nas crianças. A sessão falada em inglês é aberta ao público. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”



terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Macau - Músico Gabriel lança “Epifania”, EP de músicas em patuá

São sete faixas que falam sobre amor e outras reflexões acerca da sociedade, e são principalmente cantadas em patuá. Delfino Azinheira Gabriel continua a lutar pela promoção deste património intangível de Macau


O macaense Delfino Azinheira Gabriel, com nome artístico Gabriel, vai lançar no próximo dia 20 de Dezembro “Epifania”, um EP de sete faixas com canções em patuá, álbum que estará disponível na Livraria Portuguesa, Livraria Pin-To e Universal Gallery, e nas principais plataformas digitais. Neste álbum a solo, o músico canta, faz beatbox, toca handpan e guitarras acústica e eléctrica. O álbum conta ainda com a prestação do violinista Iat U Hong e a colaboração da esposa do cantor, Delora Sinha, que também canta na faixa “Dessã Vai-Ia”.

Ao Ponto Final, o criativo revelou que o projecto começou a ganhar forma há três anos, depois de este ter decidido recorrer à música e outras formas de arte para promover o patuá. Das sete faixas, quatro são em patuá, duas são instrumentais e mais centradas no handpan, e uma faixa é em língua portuguesa. Para escrever as letras, contou com o apoio de Isabela Larrea e Paula Carion. “No início, escrevi a música em português e depois tentei traduzir para patuá, e pedi às minhas amigas para fazerem a revisão e me darem ideias. É que a sonoridade do patuá, apesar de ser similar ao português, tem algumas diferenças. Tive muita ajuda delas”, disse.

O álbum, que foi produzido e gravado no estúdio de Matias Leong, é uma fusão de música electrónica, pop, reggae, e sonoridades ‘new age’. “Tento não me posicionar num estilo musical específico, porque a música que eu oiço também abrange vários estilos”. As suas composições vão encaixando naturalmente em diversos estilos, esclareceu. Do mesmo modo, o handpan também se vai adaptando a estas sonoridades. “O handpan é para mim um instrumento muito espiritual. Eu tenho vários, mas o primeiro que comprei é o meu bebé. Acho que é um instrumento muito versátil, utilizado para música para yoga, e relaxamento. Neste EP tentei juntar o som do handpan a música electrónica e reggae, e criei conexões com outros instrumentos”.

O álbum chama-se “Epifania” porque o autor quis chamar a atenção para a sociedade, o amor, e a compreensão de certos acontecimentos que lhe foram como que revelados, como uma epifania. “Por exemplo, tenho uma música chamada ‘Telele’, que explora a utilização diária do telemóvel. O refrão pergunta se o telefone é Deus que nos liga, ou nos separa. O telefone foi feito para tornar a vida mais conveniente, e conectar as pessoas, mas agora reparamos que é uma coisa que está a cortar a comunicação directa entre as pessoas”. É sobre este tipo de questões que músicas como “Maresol”, “Normal Novo”, “Sonho” ou “Unchinho di Céu” procuram reflectir.  Dando ainda como exemplo “Delora”, uma canção que escreveu para as suas duas filhas, Delfino Gabriel diz que esta é “uma canção que fala sobre o amor de pai, da entrega incondicional de amor, vida e tempo”.

Depois do lançamento do EP nas três livrarias da cidade e nas plataformas digitais, fica pendente um concerto, que em princípio acontecerá no início do ano que vem, já que esta altura do ano está repleta de “jantaradas, e muitos convívios, e não sobra muito tempo para preparar uma coisa como deve de ser”, confessou o músico.

Aqueles que já ouviram o EP, continuam a encorajar o macaense. “O patuá já não é um crioulo que se fale no dia-a-dia, e cada vez menos gente tem acesso a este valor intangível que se encontra em Macau. Não só a comunidade macaense, como também a portuguesa e a chinesa, e até os estudantes estrangeiros, quando sabem que existe este crioulo, ficam muito curiosos, por isso acho que isto é para continuar”. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”

Macau - Instituto Internacional promove sessão de apresentação do patuá

Elisabela Larrea esteve na passada sexta-feira, dia 15, nas instalações do Instituto Internacional de Macau (IIM) para dar a conhecer a história da cultura macaense e do patuá, numa iniciativa acolhida pelos membros da comunidade chinesa presentes. Houve ainda lugar para a leitura de cantilenas, ‘lenga-lenga’ e canções antigas pelas macaenses Ângela Ramos e Mariana Pereira


Dirigida principalmente ao público chinês, o Instituto Internacional de Macau (IIM) realizou no dia 15 de Dezembro, nas suas instalações, uma sessão dedicada à divulgação do patuá e à compreensão da cultura macaense. A iniciativa apoiada pela Fundação Macau contou com a colaboração da Associação de Estudos da Cultura Macaense (MACRA). A responsável pela apresentação, a macaense Elisabela Larrea, focou-se na história da cultura macaense, abordando ainda a origem do patuá.

Na sessão, houve ainda lugar para a leitura de excertos em patuá, pelas macaenses Ângela Ramos e Mariana Pereira, de uma edição publicada pelo IIM intitulada “Cantar de Macau”, com cantilenas, ‘lenga-lenga’ e canções originais que, de acordo com os organizadores, fazem parte do “legado macaense que hoje poucos se lembram”. Grande parte destes textos foram retirados da obra “Ta-ssi-yang kuo”, de João Feliciano Marques Pereira, escrita entre 1899 e 1900.

Os jovens presentes da sessão ficaram curiosos depois de alguns terem tido a primeira oportunidade no contacto com crioulo de origem portuguesa de Macau, referiu a organização. Recordando que o patuá é promovido sob forma de teatro através das iniciativas do grupo dos Dóci Papiaçám di Macau e também pela Associação dos Jovens

Macaenses (AJM) junto das escolas luso-chinesas, o IIM expressou em nota enviada à nossa redacção a sua convicção de que a divulgação do patuá sob forma de diferentes sessões destinadas às comunidades da cidade “pode intensificar e atrair o interesse desta língua em risco de vias de extinção”.

Durante a sessão, António Monteiro, secretário-geral do IIM, promoveu ainda a recente colaboração com Elisabela Larrea, na sua obra que será publicada até ao fim deste ano: “Unchinho di Língu Maquista” – Cartões de estudo do Patuá” é um álbum com uma selecção dos cartões de estudo ou “flashcards” em patuá. Este trabalho tem sido desenvolvido por Larrea nos últimos anos e com as palavras mais emblemáticas do crioulo traduzidas em três línguas, juntamente com uma ligação de acesso às redes sociais, que inclui material áudio para a pronúncia das palavras em patuá. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”  


domingo, 17 de dezembro de 2023

Macau - Natal cantado em patuá para despertar curiosidade sobre o crioulo macaense

Macau voltou a ouvir músicas de Natal em patuá, para despertar curiosidade sobre este crioulo de base portuguesa e em risco de extinção, disseram à Lusa membros do coro do grupo Dóci Papiaçam


“Hoje estamos todos um bocado roucos”, avisou Elisabela Larrea antes da atuação no Bazar de Natal no Largo da Sé, referindo-se com um sorriso à vaga de frio que fez as temperaturas caírem 14 graus Celsius no espaço de um dia.

“O coro é uma excelente maneira de trazer alegria às pessoas. A música consegue transmitir sentimentos e a cultura macaense baseia-se na alegria, na diversão e no espírito de estar em grupo”, disse a académica.

O patuá foi criado ao longo dos últimos 400 anos pelos macaenses, uma comunidade euro-asiática com muitos lusodescendentes e raízes em Macau.

Considerado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como “gravemente ameaçado”, o nível antes da extinção, este crioulo foi desaparecendo devido à obrigatoriedade de aprendizagem do português nas escolas, imposta pela administração portuguesa.

A atuação do coro foi uma forma de “apresentar o patuá a diferentes pessoas de diferentes raízes culturais e linguísticas”, disse Larrea, perante a presença de muitos turistas vindo da China continental.

“As pessoas terão pelo menos curiosidade em saber quem somos e porque parecemos diferentes”, disse a presidente da Associação de Estudos da Cultura Macaense.

O coro nasceu do Dóci Papiaçam di Macau, mais conhecido por ser o único grupo ativo de teatro em patuá, que recebeu formalmente em junho a distinção como património cultural imaterial da China, dois anos depois do anúncio oficial.

“No teatro até temos números musicais, mas é uma abordagem diferente para apresentar e promover a língua. Estamos na rua, para além do momento, a demonstrar a riqueza do patuá”, sublinhou Larrea.

Além de duas canções com letra do poeta macaense José dos Santos Ferreira, mais conhecido por Adé (1919-1993), o restante reportório foi escrito por Miguel Senna Fernandes, encenador do Dóci Papiaçam, grupo que este ano celebra 30 anos de existência.

A primeira atuação do coro foi a 19 de dezembro de 1998, um ano antes da transição da administração de Macau, de Portugal para a China e a segunda durante a Missa do Galo de 2000. “Depois jurámos para nunca mais”, admitiu à Lusa Fernandes, com uma risada.

Mas o coro foi mesmo reativado em 2020, “não só para contribuir para o espírito de Natal, mas também dar mais dinâmica” à comunidade, disse o presidente da Associação dos Macaenses, já depois da atuação.

“A reação foi realmente muito boa. Este ano apareceu mais gente e o público é diferente, há muitos turistas, curiosos, mas também muitas pessoas que costumam estar a ajudar nas coisas da diocese”, sublinhou Fernandes.

Antes da segunda atuação do dia, a acompanhar uma missa em português, na Igreja de São Domingos, o líder do Dóci Papiaçam disse que o coro é uma forma de haver “mais intervenção, mais gente ainda” em Macau a interessar-se pelo patuá.

O elemento mais novo do coro tem 16 anos e Fernandes disse esperar que “haja mais vozes, mais jovens que possam cantar e interpretar, porque parece que não, mas os coros têm uma dinâmica fantástica”. In “MadreMedia” – Portugal com “Lusa”


segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Macau - Dóci Papiaçám di Macau trinta anos a trazer o patuá para o palco

O 30º aniversário dos Dóci Papiaçám di Macau, grupo de teatro exclusivamente em patuá, celebrou-se na semana passada, mas a festa faz-se dia 1 de Dezembro com um jantar que reúne antigos e actuais colaboradores. Os desafios continuam a ser o financiamento e a necessidade de uma sede, mas a renovação do grupo, com novos actores, parece estar garantida


O Festival Internacional de Artes de Macau integra todos os anos um espectáculo muito especial para as comunidades macaense e portuguesa. A habitual peça dos Dóci Papiaçám di Macau, grupo que há 30 anos faz teatro em patuá, o dialecto em vias de extinção da comunidade macaense, todos os anos atrai muito público para o Centro Cultural de Macau (CCM).

Numa altura em que o dialecto macaense praticamente não tem falantes em Macau e no mundo, o trabalho deste grupo revela-se fundamental para manter viva um linguajar tradicional. Alvo de muitos trabalhos académicos, precisamente pelo papel que têm na preservação de uma característica cultural da comunidade, os Dóci Papiaçám di Macau, sempre com Miguel de Senna Fernandes como dramaturgo, tem-se mantido ao longo dos anos enfrentando desafios permanentes. Em 30 anos, o grupo nunca conseguiu ter sede própria, ensaiando na Escola Portuguesa de Macau. Relativamente ao financiamento, o apoio do Instituto Cultural não tem faltado, mas é sempre pouco tendo em conta os custos de uma produção teatral. E, por último, o desafio da sobrevivência, sendo que neste campo os Dóci têm provado ser resistentes: mantém actores mais antigos, que ajudaram a fundar o grupo, mas conseguiram atrair novos actores, até oriundos da comunidade portuguesa.

O jornalista João Picanço foi um deles. Nunca tinha ouvido falar do patuá ou visto uma peça, mas fez a sua primeira peça com os Dóci em 2018. Hoje já é uma voz e um rosto característico do grupo.

“Ser um dos jovens actores do grupo para mim é muito gratificante, porque quem me convidou, o Miguel de Senna Fernandes, poderia ter convidado outras pessoas. Tenho um passado ligado ao teatro amador e confesso que estava à espera de encontrar o mesmo, mas a verdade é que não foi nada disso que encontrei”, começou por dizer ao HM. “Fiquei muito surpreendido quando percebi o que estava em causa. O primeiro espectáculo em que participei foi também o primeiro que vi. Acho que o nível da produção não envergonha ninguém, muito pelo contrário, dada a natureza do grupo. O que me trouxe responsabilidade”, adiantou.

João Picanço recorda que muitos dizem que os Dóci continuam a fazer teatro “por carolice”, para não deixar morrer um dialecto que busca influência da língua portuguesa e de outros idiomas, mas o jornalista entende que está muito mais em causa.

“O patuá é um pedaço importante da cultura macaense, sendo a língua é um pedaço importante de qualquer cultura ou povo. Mas acho que é um pouco superficial encarar [o projecto] como algo feito por carolice. Aquilo é para os macaenses, principalmente. Os Dóci representam, de facto, uma importante conquista para a comunidade, e isso tem sido reconhecido apesar de todos os tumultos e medos, sobretudo o medo do fim do patuá. Há uma grande verdade nas pessoas que trabalham ali, e isso é algo muito bonito.”

A experiência em palco

Ao contrário de João Picanço, Sónia Palmer é uma das actrizes mais antigas, tendo sido uma das fundadoras do grupo. Ao HM, diz que já foram tantas as personagens que interpretou que nem consegue dizer quais foram as mais desafiantes. “Foi tudo mais difícil no princípio [com a preparação das personagens], mas agora é mais fácil”, disse.

“O facto de o nosso grupo fazer 30 anos é algo bastante significativo para o trabalho que temos feito, é sinal de que temos feito coisas boas. Mas para um grupo continuar no activo durante tanto tempo é preciso um grande esforço por parte de todas as pessoas”, confessou.

Sónia Palmer revela que a celebração dos 30 anos acontece dia 1 de Dezembro com um jantar para o qual foram convidadas “todas as pessoas que participam ou participaram no grupo, tanto nas peças como nos bastidores”.

Olhando para o presente, a colaboradora e actriz, membro da comunidade macaense, assume que o maior desafio continua a ser a falta de uma sede. “Todos os anos temos de pedir um sítio emprestado para ensaiarmos. Felizmente que a Escola Portuguesa de Macau nos tem ajudado. Falta-nos ainda financiamento, porque para fazer uma peça é preciso muito dinheiro.”

O senhor dramaturgo

Miguel de Senna Fernandes, o grande dinamizador dos Dóci e autor de todas as peças, escreveu nas redes sociais um texto sobre o aniversário, lembrando os primórdios do projecto.

“Hoje, há trinta anos, estávamos com os nervos em franja, com o coração e suor nas mãos, nos bastidores do vetusto Teatro D. Pedro V, então recém-renovado. O tempo não andava e cada minuto parecia horas. Na plateia figurariam gente de peso. O então Governador General Rocha Vieira, o Dr. Carlos Monjardino, a Dr.ª Anabela Ritchie e outras figuras de vulto. Tudo em torno da visita do então Presidente da República Portuguesa, Mário Soares, com uma peça escrita em sua homenagem.”

A peça em causa foi “Olâ Pisidente!” e acabou por “marcar o início de uma aventura que não se esperava”. “Julgo termos cumprido o que, com o tempo, passou a esperar-se de nós”, escreveu ainda.

Ao HM, Miguel de Senna Fernandes confessa que gostaria de encontrar novos dramaturgos para as peças dos Dóci. “Há novas pessoas que vão aparecendo, mas é fundamental que haja mais pessoas a escrever. Quando comecei, tinha os mais veteranos no patuá diziam como se escreviam algumas palavras, como a Fernanda Robarts, a minha professora ‘de facto’. Dizia-me que havia expressões demasiado portuguesas, que não se podia escrever assim. Esse é agora o meu papel. Haver mais pessoas a escrever vai valorizar [o nosso projecto].”

Outro sonho de Miguel de Senna Fernandes, que preside também à Associação dos Macaenses, é levar as peças dos Dóci a Lisboa e até à China, com as devidas adaptações. “O meu sonho é levar o espectáculo para Lisboa e para o continente. Gostaria muito de voltar a Lisboa e representar para a comunidade macaense em Lisboa, que é forte. Mas não temos ainda contactos feitos. Há que utilizar uma fórmula que funcione em palco, em Lisboa, e com algumas adaptações na China.”

Em Portugal, destaca, “há uma comunidade macaense, mas também temos os portugueses que viveram em Macau e que conhecem os Dóci. Fazia todo o sentido levar lá o espectáculo. Não há nenhum sítio pensado, nem contactos ainda feitos com nenhuma entidade. Para isso é preciso fazer um projecto. Veremos se o projecto do próximo ano possa dar azo a isso. Lisboa está na calha, não sei com que dinheiro, mas não custa nada tentar”, salientou.

Miguel de Senna Fernandes diz que o grande desafio para o futuro do grupo é “manter o interesse das pessoas no palco e da própria assistência”. “Este binómio tem de funcionar sempre para que isto tenha sucesso. Da nossa parte estamos sempre motivados e falamos também da motivação de gente nova que queira participar e manter esta chama, a apetência para estar em palco e representar em patuá.”

Uma das forças motrizes do grupo promete não deixar os Dóci tão depressa. “Os actores mais veteranos são fundamentais para que a comédia em palco se desenvolva. Já não são os actores da primeira linha, mas estão na retaguarda para dar o suporte fundamental para que a comédia funcione. Estamos sempre em família. Mas tem havido sangue novo, de uma geração que não tem uma tradição com o patuá. Acham muito interessante e ficam deslumbrados com o projecto, mas depois começam a ter a noção da importância das coisas. São essas pessoas novas que precisamos de cativar”, rematou. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau”


quinta-feira, 20 de julho de 2023

Macau - Associação promove teatro em patuá para jovens na escola portuguesa

A Associação de Estudos da Cultura Macaense organiza este sábado, na Escola Portuguesa, um workshop de teatro em patuá destinado a jovens dos 8 aos 19 anos, divididos em dois níveis consoante o escalão etário. Esta é a primeira grande actividade da recém-formada associação, presidida por Elisabela Larrea. A responsável diz que o objectivo é divulgar aquela língua e a cultura macaense e no futuro fazer outros eventos, para crianças ou adultos, de música ou literatura, mas sempre com o patuá como foco principal. A associação já iniciou a exibição de “podcasts” no Facebook, abordando temas como o “significado cultural por trás do minchi” ou a “história do arraial de São João”


O patuá vai estar em foco este sábado na Escola Portuguesa de Macau (EPM), num workshop organizado pela Associação de Estudos da Cultura Macaense (MACRA na sigla em inglês), destinado a jovens e dividido em dois escalões etários. Um entre os 8 e os 12 anos de idade, das 14:30 às 16:30, e outro para mais velhos, entre os 13 e os 19 anos, das 16:45 às 18:45. Ambas as sessões serão ministradas em cantonês, mas com apoio da língua inglesa, “porque queremos abranger todas as comunidades, ou seja, todos os que querem saber mais sobre o patuá e a cultura macaense”, referiu a presidente da MACRA ao Jornal Tribuna de Macau.

O evento conta com o apoio de alguns elementos do grupo Dóci Papiaçám di Macau que “tanto tem divulgado o patuá ao longo dos anos”, destaca Elisabela Larrea.

Esta é a primeira grande actividade da associação fundada oficialmente em Novembro de 2022 e que na prática começou a funcionar em Janeiro deste ano, com o intuito de “continuar a fazer a promoção do patuá”.

O tema do workshop é “Learn Patuá via Theatre” (“Aprender Patuá via Teatro”), porque “queremos promover mais o teatro”, frisou a líder da associação. Mas, acentuou, a MACRA pretende “estender a divulgação do patuá à música ou à literatura, tanto para crianças como para adultos”.

Até agora, no seu curto percurso, a Associação de Estudos da Cultura Macaense fez dois “podcasts”, vídeos colocados no Facebook e versando diversos assuntos de interesse para a comunidade macaense. O primeiro teve como tema “Minchi: com ou sem ovo”, não no sentido de falar da receita propriamente dita, mas analisando o significado cultural que se encontra por detrás deste prato tanto do agrado dos macaenses e não só. “É uma forma de falar também de identidade”, declara Elisabela Larrea.

O segundo “podcast” foi sobre o “Arraial de São João” e a sua história, uma vez que se trata de uma das mais importantes festas da comunidade macaense.

As sessões são faladas em várias línguas, conforme os intervenientes, em cantonês, português ou inglês, “porque também aqui queremos abranger todos e até às vezes é tudo misturado, reflectindo de facto a maneira de falar da comunidade”, destaca a presidente da MACRA, garantindo que estes “podcasts” vão continuar, “provavelmente depois das férias, porque há muitas pessoas que se ausentam de Macau nesta altura”. A história do hóquei em campo e da Tuna Macaense serão os próximos temas. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sexta-feira, 30 de junho de 2023

Macau - Teatro em patuá recebe distinção como património cultural da China

O teatro em patuá vai receber oficialmente esta sexta-feira a distinção como património cultural imaterial da China, dois anos depois do anúncio. O encenador do grupo teatral Dóci Papiaçam di Macau, Miguel de Senna Fernandes, disse à Lusa que o atraso se deveu às dificuldades acrescidas de viajar para a China continental durante a pandemia. A entrega da placa vai acontecer durante uma cerimónia de inauguração de uma exposição de património cultural da província de Hainan, uma ilha no sul da China. “Podia ter sido com um bocadinho mais de distinção”, lamentou Senna Fernandes. “Fomos um bocado enxertados [na cerimónia] e depois vão ouvir bocas, mas já estão habituados”, disse com um sorriso o macaense, referindo-se às comédias levadas a cena pelo Dóci Papiaçam, que ridicularizam e criticam os problemas sociais de Macau. Senna Fernandes destacou que, para além do valor simbólico e do reconhecimento do trabalho local, a inclusão na lista de património cultural imaterial da China é importante ao nível da preservação e proteção do teatro e do próprio patuá.


Considerado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como “gravemente ameaçado”, o nível antes da extinção, o patuá, criado por imigrantes lusos em Macau ao longo dos últimos 400 anos, foi desaparecendo devido à obrigatoriedade de aprendizagem do português nas escolas, imposta pela administração portuguesa. “Tem que haver uma maneira diferente de ver o teatro”, defendeu Senna Fernandes, sublinhando que assegurar uma sede para o grupo Dóci Papiaçam di Macau é uma das prioridades. “É preciso reconhecer a necessidade de ter um lugar para colocar as coisas. Temos o guarda-roupa todo espalhado pela casa das pessoas. É ridículo ainda estarmos assim 30 anos depois. Não cabe na cabeça de ninguém”, disse o encenador.

Os Dóci Papiaçám di Macau, “único teatro activo” neste crioulo, nasceu a 30 de Outubro de 1993, ano da morte do poeta macaense José dos Santos Ferreira (Adé) e por ocasião da visita do então Presidente português Mário Soares a Macau e da reabertura, após obras de recuperação, do D. Pedro V, primeiro teatro de estilo ocidental na China. A entrega da placa vai acontecer numa cerimónia em que será também assinalada a inclusão na Lista de Património Cultural Imaterial Nacional chinês da gastronomia macaense e das crenças e costumes de Tou Tei, uma divindade chinesa. In “Ponto Final” - Macau com “Lusa”


terça-feira, 9 de maio de 2023

UCCLA - Espetáculo solidário de Macau

Terá lugar no dia 12 de maio, às 20 horas, um espetáculo solidário de afetos e memórias de Macau com música, poesia e tributo ao Patuá Macaísta, no auditório da UCCLA. Haverá a atuação do duo “A outra Banda”, por Carlos Piteira e Jaime Mota, e amigos.

A entrada é livre mas sujeita a marcação para o email anabela.simao@uccla.pt. Como se trata de uma ação solidária, poderá dar o seu donativo para a Casa de Macau através do NIB 0035.0125.0000 0500.5306.4 da CGD



.


quarta-feira, 3 de maio de 2023

Macau - "Patuá", foi criado pelos imigrantes portugueses e está ameaçado de extinção

O encenador do "único teatro ativo" em patuá, que este ano celebra 30 anos de existência, considera que Portugal deve "investir mais no estudo" deste crioulo de Macau, de base portuguesa e em risco de extinção


“Portugal pode até dar-nos respostas a muitas questões que muitas vezes nós não conhecemos. Como é que linguisticamente determinada forma de expressão apareceu, por exemplo”, disse à Lusa Miguel de Senna Fernandes, responsável pela companhia de teatro Dóci Papiaçám di Macau (Doce falar de Macau).

A língua crioula de Macau, preservada sobretudo através deste grupo de atores amadores, que levam a palco uma peça por ano, sofreu forte influência da língua portuguesa. “Se não chega a 80%, é 70% do português”, notou o também presidente da Associação dos Macaenses.

“Há muita coisa que vem naturalmente de outras influências, do malaio, do concanim, mas o grosso, por exemplo, na formação de verbos, é muito de português (…). Do cantonês, existe uma grande influência também, não na grafia, mas no aspeto semântico”, explicou.

Considerado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como “gravemente ameaçado”, o nível antes da extinção, o patuá foi criado por imigrantes portugueses em Macau ao longo dos últimos 400 anos, e foi desaparecendo devido à obrigação de aprendizagem do português nas escolas, imposta pela administração portuguesa.

Miguel de Senna Fernandes não sabe quantas pessoas dominam o crioulo, no pequeno território chinês ou na diáspora, mas admite serem “muito poucos”. Sustenta que o patuá “tem o seu valor”, conferindo à comunidade macaense uma “dimensão de tradição, uma dimensão de profundidade em termos históricos e em termos de vivência”.

O termo macaense é comummente utilizado para fazer referência a esta comunidade euro-asiática, sendo a maioria dos membros lusodescendentes, com raízes em Macau.

“Há que saber o que somos nós, que passado temos. (…) Não nos podemos esquecer de onde viemos. E o patuá está numa situação de alguma contradição. Quando falamos de língua, é necessário que a língua tenha dignidade quando é utilizada. E a contradição está em que ninguém fala patuá”, notou.

Portugal, considerou ainda Senna Fernandes, “pode sempre fazer mais”, seja através da Casa de Macau, do Centro Científico e Cultural de Macau – “que está a fazer um bom trabalho” – ou “de uma comunidade macaense falante de patuá” a residir no território: “E por que não a partir daí reconstruir ou pelo menos preservá-lo?”.

“Seria ridículo falar num museu de línguas, mas é quase como isto, uma espécie de um salão, um engenho museológico”, apontou.

Referindo que “começam agora a existir muitas iniciativas” em Macau para “fomentar o patuá fora dos Doçi”, nomeadamente através da Associação de Jovens Macaenses e da recém-criada Associação de Estudos da Cultura Macaense, Senna Fernandes declarou que tem ainda um projeto pessoal: “Há 30 anos que ando para escrever e não publiquei nada, mas eu vou fazê-lo”, frisou, observando que “até este momento o único patuá que se vê [publicado] é do Adé”, como era conhecido o poeta macaense José dos Santos Ferreira (1919-1993).

“Eu vou fazê-lo porque é uma outra interpretação do patuá”, disse.

A China incluiu em 2021 na lista de património cultural imaterial nacional o Teatro em Patuá.

O grupo Dóci Papiaçám di Macau, “único teatro ativo” neste crioulo, nasceu a 30 de outubro de 1993, ano da morte de Adé e por ocasião da visita do então Presidente português Mário Soares a Macau e da reabertura, após obras de recuperação, do D. Pedro V, primeiro teatro de estilo ocidental na China.

Miguel de Senna Fernandes integrou o projeto desde esse primeiro momento, levando à cena a peça “Olâ Pisidénte” (Ver o Presidente), apresentando “ao Presidente da República as preocupações” da comunidade macaense: a integração nos quadros de Portugal, após a transferência de administração do território para a China, em 1999, e questões relacionadas com a nacionalidade.

“O grupo tem sido um bom divulgador da própria língua”, sublinhou o encenador ao fazer um balanço de três décadas de trabalho. “O teatro é uma maneira fantástica de aprender qualquer língua”.

Este ano, o dramaturgo traz ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau, entre 26 e 28 deste mês, o retrato de uma cidade livre da pandemia. Macau livrou-se das restrições anti-pandémicas, mas não da sátira dos Doçi. Com “Chachau-Lalau di Carnaval” (Oh, que arraial), é criado um novo programa de revitalização dos bairros no território e um quarteirão é selecionado como experiência piloto. Aí terá lugar um arraial. Ou melhor, um carnaval.

“Macau quer ser um sítio alegre e arranja sempre esse subterfúgio do arraial ou do carnaval, como queiram chamar. É carnaval para aqui, carnaval para acolá. A palavra carnaval entra até nos pedidos dos subsídios, é a coisa mais louca que pode haver”, comenta.

A peça, que volta a contar este ano com vários números musicais e trabalhos em vídeo, é interpretada em patuá, com momentos em português e cantonês. Pela primeira vez, vai escutar-se mandarim, pela voz de uma personagem que chega do interior da China, “mas que rapidamente começa a falar cantonês”.

Senna Fernandes chama a atenção para “uma nova realidade” em Macau.

“Fala-se tanto da Grande Baía e eu continuo sem saber o que é isto, há que integrar este elemento numa outra forma numa peça em patuá”, complementou, referindo-se ao projeto de Pequim que tem como objetivo criar uma metrópole mundial a partir de Macau, Hong Kong e nove cidades da província de Guangdong, com mais de 60 milhões de habitantes.

“Independentemente do que as pessoas possam pensar, o mandarim é uma língua que não é de Macau (…) mas, claro, por razões oficiais, por razões de Estado, e tudo mais, é óbvio e é legítimo que se espere que a comunidade também fale a língua nacional”, disse. In “Sapo 24” com “MadreMedia / Lusa”


sexta-feira, 21 de abril de 2023

Macau - Um bairro de macaenses em peça do patuá

A pouco mais de um mês da estreia, a Tribuna de Macau foi assistir a um dos ensaios do grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, que este ano apresenta a sátira “Oh, Que Arraial”, no Centro Cultural de Macau. A história passa-se num bairro de macaenses, o qual o Governo pretende revitalizar para atrair turistas. O grande drama começa quando a artista convidada não é de Macau. Miguel de Senna Fernandes, encenador e dramaturgo, disse a este jornal que a peça pretende mostrar o conflito existente entre o bairro não querer perder as suas características, mas precisar de gente de fora para se desenvolver. Revelou ainda que pela primeira vez se vai falar mandarim. Como já tem sido habitual, haverá também muita música à mistura. “A peça tem condições para ser um espectáculo engraçado”, observou Senna Fernandes


Um bairro macaense em plena época pós-pandémica – onde as brigas e intrigas não vão faltar, até porque há um café bastante frequentado pelos fregueses – e um plano do Governo para revitalizar os bairros antigos vão cruzar-se na peça “Oh, Que Arraial”, dos Dóci Papiaçám di Macau. O espectáculo vai subir ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), no final de Maio (dias 26, 27 e 28). A pouco mais de um mês da estreia, os ensaios estão a correr bem, como disse Miguel de Senna Fernandes, apontando que o próprio bairro vai funcionar como “actor principal”.

“A ideia da peça assenta numa experiência-piloto do Governo de revitalização dos bairros antigos para atracção de turistas. Certo é que vai haver um bairro dos macaenses e interessa às autoridades que participem nesta revitalização – e isso terá sempre de ser com um carnaval”, explicou o encenador ao Jornal Tribuna de Macau. Fechar o bairro, instalar tendas de comes e bebes, e montar um palco para actuações são os objectivos das autoridades – ainda que na peça nada disto vá ser visível.

A notícia é recebida com muito bom agrado e todos se prontificam para aderir à festa, oferecendo-se para actuações diversas. Todavia, para atrair o maior número de pessoas e para o espanto do bairro, é contratado um artista de fora para abrilhantar a festa. “A artista principal vem de fora, como não poderia deixar de ser, e, portanto, há todo um drama em relação a este aspecto”, conta Miguel, acrescentando que o café da D. Rosália é onde se vão encontrar os vários membros da comunidade para comentar tudo e mais alguma coisa.

“Mano”, a personagem interpretada por Armando Ritchie, vai ser um dos fregueses “assíduos” do café. “Vai haver cenas hilariantes, vai ser uma comédia muito interessante”, conta o actor que começou a fazer teatro no Brasil e que desde 2012 integra os Dóci Papiaçám di Macau.

Também Sónia Palma, uma veterana e aliás fundadora do grupo de teatro em patuá, vai encarnar uma das clientes do café, uma “personagem pequena”, disse. “Vai ser um típico café de bairro em que as pessoas falam das coisas do dia-a-dia e às vezes de outras que aconteceram no passado”. “Há sempre intrigas”, acrescentou, entre risos.

Mandarim pela “primeira vez”

A artista convidada pelo Governo para actuar no Carnaval a decorrer no bairro dos macaenses não é local, como conta Helena Leong, que pela segunda vez participa no teatro em patuá. “Vou ser uma cantora da China. E vou falar mandarim no início, pelo que as pessoas não vão perceber nada do que digo, vai haver muitas confusões e coisas engraçadas a acontecer”, explicou a actriz, acrescentando que depois começa a falar cantonês, mas não “da forma correcta”.

Esta é uma das novidades da peça de teatro deste ano: a introdução do mandarim. “Vou levar uma pancada por causa disto. É a primeira vez que vamos ouvir mandarim na nossa peça, é só um cheirinho. A personagem depois começa a falar cantonense, mas com um sotaque muito forte do Continente”, referiu o dramaturgo.

“Tudo isto para dizer que isto é uma zona cantonense e não nos podemos esquecer disso. Culturalmente, é zona de Cantão e a cultura cantonense tem muito que ver com os macaenses. Os macaenses não têm tradição nenhuma de mandarim”, prosseguiu Miguel de Senna Fernandes, reiterando que o sotaque carregado com que a personagem encarnada por Helena Leong vai falar é assim de forma “intencional”.

Fazendo a ponte entre a ficção e a realidade, Miguel de Senna Fernandes defendeu que Macau tem de se abrir, e a própria comunidade macaense também: “Há muitos Velhos do Restelo aqui entre nós, a sociedade é assim. Temos de abrir para todo o lado, mas obviamente as portas do Continente estão aqui ao lado”.

No meio de tudo isto, aparece um português “faz-tudo”, porque está “à rasca e precisa de emprego”. É a personagem à qual João Picanço vai dar forma. “Sou um cidadão português que vem para Macau numa altura em que os portugueses estão a sair, portanto não podemos dizer que seja o português com melhor sentido de orientação”, afirmou, acrescentando que é provavelmente isso que dará “alguma graça” a “Maurício”.

A participar no teatro há já alguns anos, o jovem português disse ainda estar “muito interessado” em perceber como é que a personagem e a peça em si se vai desenvolver. “Digo isto porque os papéis que desempenhei anteriormente eram bastante sérios e este é muito mais ingénuo. É uma experiência nova e estou muito entusiasmado”, contou. Por outro lado, João Picanço vai também cantar pela primeira vez.

Música, maestro

Miguel de Senna Fernandes contou à Tribuna de Macau que este ano a peça de teatro vai contar com uma série de músicas às quais o próprio deu forma. “Fiz aí umas cinco ou seis músicas, que ainda tenho de produzir. Vai haver músicas em patuá, claro, depois uma em português e outra em chinês”, apontou. Este ano, há também um pequeno grupo de jovens interessados nesta missão de preservar o patuá que vão cantar algumas destas canções.

Também “Susana”, uma personagem interpretada por Agurtzane Azpiazu, e que namora com o filho da dona da tasca, o “Tito”, vai cantar em patuá. Agurtzane Azpiazu actuou pela primeira vez com os Dóci Papiaçám em 1999, tinha 15 anos. Em 2019 regressou ao território e desde então tem feito parte do elenco.

A jovem desvendou depois uma pouco sobre a personagem que lhe calhou desta vez: “A Susana é famosa e tem uma revista. Além disso namora com o Tito, um homem que não quer trabalhar, não quer fazer nada. E é aquela namorada chata que quer obrigá-lo a fazer alguma coisa. Sei que ele canta bem, então quero puxar por ele”, revelou.

Miguel de Senna Fernandes diz que “a peça tem condições para ser um espectáculo engraçado”. “As bocas que mandamos são para todos, até para nós próprios”, apontou, frisando que a mensagem que se pretende passar: o conflito entre manter as “características” e, por outro lado, de “haver a necessidade de ter pessoas de fora”. “Só isso é que faz andar o bairro, caso contrário, nunca mais sai do mesmo sítio”, defendeu.

Os bilhetes para a peça já estão à venda. Além do espectáculo, este ano haverá ainda, na Sala de Conferências do CCM, uma exposição fotográfica intitulada “Dóci Papiaçám di Macau – 30 anos no palco da multiculturalidade”.

O teatro em patuá, uma arte performativa única apresentada pela comunidade macaense, foi inscrito na Lista Nacional de Itens Representativos do Património Cultural Intangível da China em 2021. O patuá é um crioulo de Macau com origem na língua portuguesa antiga, combinada com malaio, espanhol, concanim, inglês e cantonense. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”