Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Patuá. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Patuá. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de março de 2019

Macau - Português lança dicionário de crioulo da Região ameaçado de extinção

Macau, China -- O investigador português Raul Leal Gaião lançou hoje o dicionário do crioulo de Macau, o patuá, que está "gravemente ameaçado de extinção", segundo a Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

"O principal objetivo é dar, pelo menos, a conhecer, a revisitar e a tentar descobrir o crioulo, nomeadamente à comunidade macaense, já que neste momento praticamente ninguém [o] fala", sublinhou o autor à agência Lusa, em Macau, onde é apresentada a obra.

O dicionário é feito a partir de um levantamento dos escritos de José dos Santos Ferreira, mais conhecido por "Adé", macaense que viveu no século XX e escreveu em patuá.

"Chamei-lhe dicionário porque, de facto, tem normalmente exemplos ou abonações retirados desses textos e funciona exatamente como dicionário", explicou o investigador, que destacou ter utilizado ainda estudos anteriores, glossários, aos quais faz "referências constantes".

Raul Leal Gaião assegurou que a investigação traz algumas novidades e deu como exemplo o termo, 'catchi bachi', que os estudiosos não conseguiam detetar a origem.

"Significa uma coisa que já não presta e que não tem utilidade (...). É um termo espanhol, [nome de] uma terra de fronteira que fazia muito contrabando com Espanha", referiu, adiantando a hipótese de ter chegado a Macau a partir das Filipinas.



Há quase uma década, a UNESCO classificou o 'patuá', o crioulo português de Macau, como língua "gravemente ameaçada", o último patamar antes de uma língua se extinguir por completo.

De acordo com a linguista de Singapura Nala H. Lee, em declarações à Lusa no final de 2018, atualmente menos de 50 pessoas sabem falar 'patuá', usado apenas em "domínios específicos, como em cerimónias, músicas, orações ou em atividades domésticas".

Na mesma altura, o advogado Miguel de Senna Fernandes e responsável há 25 anos pelo grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, que se tem assumido como um veículo para a preservação do patuá, frisou que a situação em Macau difere em muito de Malaca e de Korlai, onde a comunidade lusodescendente "ainda faz muitos esforços" para manter os crioulos de influência portuguesa.

Raul Leal Gaião é licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, e em Ciências Literárias pela Universidade Nova de Lisboa, e mestre em Língua Portuguesa e Estudos Linguísticos pela Universidade de Macau. Investigador nas áreas da Lexicologia, Dialetologia e Crioulística, colaborou na redação do 'Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa' e do 'Dicionário Global da Língua Portuguesa'.

O lançamento da obra está inserido no programa do Festival Literário de Macau-Rota das Letras, fundado pelo jornal local em língua portuguesa Ponto Final, que se realiza desde 2011 e que termina no dia 24. In “Sapo Timor-Leste” com “Lusa”

domingo, 17 de março de 2019

Macau - O “rastro literário” deixado pelo “guardião da memória de Macau”

As obras de Henrique de Senna Fernandes dão ênfase à voz do personagem macaense, demarcam a sua identidade e espelham os “contrastes sócio-histórico-culturais que determinaram os rumos do povo de Macau”. Bruno Tateishi é o autor de uma tese em que dá como provado o contributo do espólio literário de Senna Fernandes que ainda hoje ajuda a delinear os “principais contornos da identidade étnica macaense”



Analisar a forma como o romance de Henrique de Senna Fernandes “orquestra a diversidade social de linguagens representadas artisticamente, recuperando memórias para forjar uma identidade macaense”, foi o objectivo a que se propôs Bruno Tateishi, autor de uma tese de doutoramento em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

“Assim, só poderemos fazer uma leitura precisa dos romances se os deslocarmos no tempo, visto que no seu tempo de publicação o projecto étnico macaense já havia se enfraquecido e a comunidade macaense já encontrara outros meios de sustentar a sua identidade”, sublinha Bruno Tateishi, no documento consultado pela Tribuna de Macau.

Henrique de Senna Fernandes é descrito pelo doutorando como um “guardião da memória de Macau”. Nascido em 1923, no seio de uma das “mais ilustres e tradicionais famílias macaenses”, o filho de Edmundo José e Maria Luíza ingressou no curso de Direito da Universidade de Coimbra onde terminou os estudos em 1952. Regressou a Macau para exercer advocacia e teve escritório próprio. Destacou-se também à docência, sendo professor e director da Escola Comercial Pedro Nolasco. Viria a falecer aos 86 anos, em Outubro de 2010, em Macau.

Senna Fernandes testemunhou “momentos de vital importância para a história de Macau”, como o impacto da Guerra do Pacífico na sociedade local e o período de transição, que culminaria na transferência de administração para a China. “Desse modo, acompanhou as mutações pelas quais passou o projecto étnico macaense, que aos poucos começava a se distanciar do ‘capital da portugalidade’”, observa o autor.

Assim, “tendo observado as metamorfoses identitárias sofridas pela sua comunidade, Senna Fernandes empenhou-se numa produção literária que retratasse o macaense”. Aliás, acrescenta, foi produtor de obra que “promovia o macaense de personagem secundário ao protagonista da acção discursiva”. “Neste sentido, o autor macaense, actuando como uma espécie de guardião da memória de Macau oferece um rastro literário cheio de cumplicidades e demarcações para a preservação e identificação da cultura macaense”, refere, citando Mónica Simas.

Do vasto espólio literário que deixou constam os romances “Amor e dedinhos de pé” (1986), “A trança feiticeira” (1993), “Os Dores” (2012) – este deixado incompleto -, e as colectâneas “Nam Van” (1978) e “Mong-Há” (1998) através dos quais “procura realizar uma intervenção que traga visibilidade ao macaense, nos seus processos de interculturalidade, tomando-o nuclearmente presente nos processos de significação que a literatura encerra”, acrescenta.

Colocando o foco nas duas primeiras obras, rapidamente se percebe que foram publicadas num espaço de tempo em que a administração de Macau estava prestes a ser assumida pela China. Os dois livros retratam períodos anteriores à época em que foram escritos pelo que “só poderemos fazer uma leitura precisa dos romances se os deslocarmos no tempo, visto que no seu tempo de publicação o projecto étnico macaense já se tinha enfraquecido e a comunidade macaense já tinha encontrado outros meios de sustentar a sua identidade”, observa o autor da tese.

Ademais, a “localização do macaense como protagonista da acção narrativa foi um dos factores decisivos” para ter seleccionado a “prosa literária de Henrique de Senna Fernandes para o estudo desta tese, podendo delinear, por meio dos discursos que emanam das obras, os principais contornos da identidade étnica macaense”.

Além disso, “podemos vislumbrar, através da sua escrita, todas as particularidades da sociedade que circunda os personagens”, muito embora esta exploração exaustiva da imagem do macaense não seja evidente no primeiro conto de Senna Fernandes, “A-chan, a tancareira” – vencedor do prémio Fialho de Almeida, dos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950, da UC.

“O conto retrata […] os encontros e desencontros que se desenrolavam numa Macau imersa num complexo fluxo de culturas que surgia por meio dos movimentos de diáspora ocasionados em decorrência da eclosão da Guerra do Pacífico”, analisa Bruno Tateishi.

A história de “Amor e dedinhos de pé

Falar da escrita de Henrique de Senna Fernandes, é também recordar a história de Chico Frontaria e Vitorina Vidal, em “Amor e dedinhos de pé” – que foi também adaptado para filme.

Como explica o doutorando, apesar de ter sido escrita na década de 80, a obra está “ambientada na primeira metade do século XX, em 1905” e representa um “período da história de Macau em que a administração portuguesa ainda mantinha controlo sobre o território e a geração declinante empenhava-se na manutenção de uma capital de ‘portugalidade’, que lhe garantia um forte laço com o governo luso e, consequentemente, maiores oportunidades de ascensão social”.

A obra narra a história das duas personagens principais cujas trajectórias coincidem, a todo o momento, com a vida social existente em Macau. “O romance está estruturado em quatro partes, contando com dois pequenos textos escritos pelo autor, situados respectivamente antes e depois da narrativa”, refere.

Mas, realça Bruno Tateishi, o primeiro ponto a ser considerado nesta análise é o prefácio de Senna Fernandes: “Para ser mais conforme com o ambiente, eu devia, em certos diálogos, redigi-los em patuá, isto é, no dialecto local, hoje em vias de total desaparecimento. Não o fiz, porque escrevendo sobretudo para o leitor lusófono em geral, não familiarizado com o dialecto, a sua leitura tornar-se-ia difícil e exaustiva para a compreensão, além de dispersar e fatigar o interesse sobre a trama”.

Em todo o caso, “é bem certo que o patuá – uma maravilha linguística – é mais doce e sugestivo ouvido do que lido, dada a impossibilidade de traduzir, em linguagem escrita, todas as nuances e inflexões de sotaque, em pronúncia e entonação, de tão surpreendentes efeitos. […] No entanto, aqui e ali, cedi à atracção, repetindo frases em patuá e noutras introduzi construção gramatical do português falado pelo macaense”, acrescentou o escritor.

Para Bruno Tateishi, ao ter sido seguido esta opção linguística, Senna Fernandes “deixa implícita a existência de outras línguas, como o chinês, e outras variedades linguísticas, como o português de Macau, e outros dialectos, como o patuá. O patuá, dessa forma, pode ser visto de forma mínima, em algumas situações informais”, aponta. “A nosso ver, este procedimento de apagamento acaba remetendo, ainda que essa não seja a intenção do autor, ao pensamento característico do macaense da época. Nesta perspectiva, o domínio da Língua Portuguesa era factor imprescindível para sustentar o projecto étnico macaense”, vinca. Aliás, sendo um lugar que “se encontrava sob administração portuguesa, possuir o domínio da Língua Portuguesa atribuía status social e profissional”, acrescenta o autor.

No documento, é ainda analisado o romance “A trança feiticeira” que “aborda justamente a complicada relação de chineses e macaenses em Macau durante o período da administração portuguesa, por meio da união do personagem macaense, Adozindo, e a personagem chinesa, A-Leng”.

De um modo geral, vinca, “Henrique de Senna Fernandes orienta o seu romance, bem como as vozes sociais orquestradas por ele, para forjar uma identidade macaense que ainda possuía como sustentáculo um projecto étnico calcado no ‘capital da portugalidade’”.

“As memórias de Senna Fernandes acabam por se coadunar com o retrato histórico da sociedade de Macau na composição dos romances, recuperando as suas vivências como macaense que presenciou eventos importantes que se reflectiram na história do território […], bem como no percurso da identidade étnica macaense”, acrescenta.

Assim, “poderemos tomar os romances de Henrique de Senna Fernandes como um importante registo de traços culturais que permitiram estabelecer um diálogo entre Macau e outras localidades da chamada ‘rede lusófona’”.

“Por meio da leitura e análise dos romances pudemos reafirmar a hipótese sustentada ao longo da nossa tese, asseverando que Henrique de Senna Fernandes faz jus ao seu título de ‘guardião da memória de Macau’, retratando, através da sua escrita, os contrastes sócio-histórico-culturais que determinaram os rumos do povo de Macau e, particularmente, dando ‘voz’ ao personagem macaense e demarcando a sua identidade”, remata. Catarina Almeida – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

sábado, 6 de outubro de 2018

Macau - A luta pela preservação dos crioulos de base portuguesa na Ásia

“Filhos” da expansão marítima portuguesa, foram vários os crioulos que se estenderam pela costa da Ásia e do Pacífico a partir do século XVI, deixando marcas incontornáveis da cultura portuguesa nestas regiões. Hoje, contam-se pelos dedos os que sobreviveram à condição do tempo, mas alguns linguistas insistem na importância de os preservar



Embora uns se destaquem, todos estes crioulos “estão em perigo”, defende, em declarações à Lusa, Hugo Cardoso, especialista nos crioulos de base portuguesa na Ásia meridional. O professor da Universidade de Lisboa recorda aqueles que conseguiram sobreviver a várias adversidades ao longo destes séculos e adverte para os riscos atuais.

Na Ásia meridional, os crioulos de base portuguesa foram falados em vários locais costeiros da Índia, Sri Lanka, Bangladesh e Birmânia, mas hoje a sua presença “é muito reduzida”, sobretudo o de Cananor, no sudoeste da Índia, destaca o investigador.

Nesta região, sobrevivem ainda os de Diu, Damão e Korlai, que vão passando entre gerações, e o do Sri Lanka – para onde Hugo Cardoso viajou em 2015 e onde se dedica, desde então, a estudar e a documentar.

Por outro lado, no sudeste asiático, sobrevive apenas o de Malaca, conhecido como ‘papiá kristang’ ou língua cristã. Naquela cidade e em locais onde a comunidade luso-asiática de Malaca se estabeleceu, nomeadamente em Kuala Lumpur e Singapura.

Já na Ásia oriental, o crioulo português de maior expressão, e aquele que subsiste ainda que em “estado de obsolescência”, é o de Macau.

Conhecido como ‘patuá’, este crioulo foi também transportado para locais como Hong Kong, Xangai e até mesmo Nagasáqui, no Japão, “em consequência da feitoria portuguesa que aí foi estabelecida”, realça.

O risco de extinção das “línguas de contacto”

Embora aproxime nações e mercados, a globalização é apontada por muitos especialistas como o principal ‘inimigo’ destas “línguas de contacto”. Descendente de imigrantes chineses no arquipélago malaio, a linguista Nala H. Lee dedica-se a estudar, entre outras, a sua língua de “herança” – o ‘Baba Malay’, o crioulo da Malásia e de Singapura.

Com apenas 2000 falantes, o Baba Malay é uma língua “ameaçada”, refere a linguista, que tem na “revitalização” da sua língua antepassada a principal missão. Para Lee, a “expansão das línguas dominantes como meio para o avanço socioeconómico” e a subsequente “marginalização de línguas menos dominantes” é a principal ameaça. Este receio é também partilhado por Cardoso.

Em Macau, por exemplo, Lee admite que a indústria do jogo pode ter comprometido várias tradições, à qual o ‘patuá’ também não conseguiu escapar. “A ameaça de extinção [das línguas] é global” e “o capitalismo é sempre um dos fatores de risco”, salienta.

O genocídio é outro dos fatores apontado pela linguista, embora este esteja mais presente nas comunidades indígenas, com o massacre dos povos tribais. A ONU já declarou 2019 como o ano das línguas indígenas, para “chamar a atenção sobre a grave perda de línguas indígenas e a necessidade urgente de conservá-las, revitalizá-las e promovê-las, além de adotar novas medidas [de proteção] a nível nacional e internacional”, escreve a organização.

O que também tem força suficiente para ditar o fim de uma língua são os desastres naturais, lembram os dois especialistas. Hugo Cardoso recorda o tsunami que devastou a costa do Oceano Índico em 2004, onde morreram mais de 230 000 pessoas.

“Estes desastres podem ditar o fim de uma língua”, defende, sobretudo quando as “comunidades são pequenas”. Por fim, a supressão cultural ou política. Em Macau, em particular, ”fruto da política centralista do Estado Novo”, o ‘patuá’ ficou visto como “um português mal falado”, recorda à Lusa o presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), Miguel de Senna Fernandes.

Macaense de gema, Senna Fernandes lembra o sofrimento trazido pelos professores que obrigavam os alunos a falar “bom português”.

“À custa desta mentalidade, sacrificou-se algo que era muito nosso, o ‘patuá’, porque “as circunstâncias sociais da altura assim o impunham, não havia maneira de dar volta” e “as pessoas desdenhavam mesmo aquela língua”, admite.

Seja como for, para o advogado foi esta mentalidade que ditou “a morte do ‘patuá’. Se “já no início do século XX se falava no declínio da língua, depois disto ficou ainda pior”, sublinha.

‘patuá’, o crioulo de Macau, está “gravemente ameaçado”

Há quase uma década, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) classificou o ‘patuá’, o crioulo português de Macau, como língua “gravemente ameaçada” – o último patamar antes da língua se extinguir por completo.

Miguel de Senna Fernandes vai ainda mais longe no lamento: o ‘patuá’ já não existe, pelo menos como veículo de comunicação do dia-a-dia.

Um assumido curioso do “maquista”, como lhe prefere chamar, pois defende que ‘patuá’ é um estrangeirismo”, o advogado realça que a situação em Macau difere em muito de Malaca e de Korlai, onde a comunidade lusodescendente “ainda faz muitos esforços” para manter estes crioulos de influência portuguesa.

“O que sustenta uma língua se não for o seu uso?” – questiona. De acordo com a linguista Nala H. Lee, hoje em dia menos de 50 pessoas sabem falar ‘patuá’, usado apenas em “domínios específicos, como em cerimónias, músicas, orações ou em atividades domésticas”.

A extinção destas línguas de contacto contribui, segundo Hugo Cardoso, para a perda da “identidade cultural”.

Lee acrescenta mais problemas: perde-se a diversidade linguística e até mesmo parte do conhecimento humano, pois há “tipos tradicionais de conhecimento que são codificados na língua”.

No sentido mais lato, a morte destas línguas “compromete a capacidade dos linguistas de compreenderem toda a gama do que é possível na linguagem e na cognição humanas”, sublinha.

Por sua vez, Senna Fernandes destaca a memória coletiva. “Perde-se algo que vem do passado, que tem profundidade e que marcou um certo tempo”, lamenta. É “uma pena se isto for relegado apenas para o passado”, diz, resignado.

Hugo Cardoso e Nala Lee admitem que a documentação é uma das “possíveis respostas” para a preservação das línguas, ou até mesmo para a revitalização. O professor lembra até um exemplo bem-sucedido: o hebraico, língua revitalizada entre os séculos XIX e XX a partir da documentação, e que é hoje uma língua do dia-a-dia.

A documentação, que passa pela recolha de dados linguísticos e pela gravação de conversas, é hoje em dia beneficiada pelas novas tecnologias.

Já para Miguel de Senna Fernandes, a solução pode passar pelo teatro ou “qualquer outra forma manifestação visual”.

O macaense é responsável há 25 anos pelo grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau (algo como doce língua de Macau).

“Sem as pessoas notarem, o teatro vem pôr em palco uma comunicação. Durante hora e meia, não há outra coisa senão aquilo, é um mundo fictício, mas em que se colocam em prática todos os instrumentos linguísticos”, acrescenta. É das poucas oportunidades, acredita, em que o ‘patuá’ abarca situações reais.

“As pessoas reagem, conversam normalmente, como se fosse uma língua do dia-a-dia (…) É dinâmico e capaz de atrair muita gente, até os mais jovens”. Por estas razões, tem sido um “veículo muito bom” para a preservação da língua e uma enorme “chamada de atenção”.

Para a peça do próximo ano, “um ano especial” que assinala os 20 anos da transferência do exercício de soberania de Macau de Portugal para a China, após 442 anos de domínio português, Senna Fernandes já definiu o tema: os macaenses. “No próximo ano marcam-se os 20 anos da RAEM e 30 anos do festival de artes, vai ser cómico, como é habitual, mas crítico”, garante.

Nala Lee espera que a promoção do ‘patuá’ não se fique pela produção cultural. Até porque, considera, a transmissão intergeracional só pode ser promovida se o idioma “continuar relevante para as gerações mais novas”.

O patuá na academia

Embora já não seja útil, é “fundamental que o ‘patuá’ tenha estatuto académico”, defende Senna Fernandes, uma sugestão que está a ser seguida por Alexandre Lebel, um dos jovens a quem o crioulo despertou interesse, de tal modo que é nesta língua que o estudante se debruça na sua dissertação.

“O objetivo é comparar a gramática do maquista [‘patuá’] com outras línguas crioulas de base portuguesa”, diz à Lusa.

Para o doutorando da Universidade de São José, o ‘patuá’ tem poucas hipóteses de ser preservado como língua viva, pois “já não existe transmissão intergeracional da língua e não há qualquer benefício em aprendê-la”.

O que o motivou Lebel a definir o maquista como tema central da sua tese de doutoramento foi a abertura à “diversidade cultural”, algo que gostava de ver partilhado por outros jovens.

“Infelizmente, corremos contra o relógio para reunir documentação, porque a língua está praticamente extinta”, lamenta.

E, mesmo que o ‘patuá’ permaneça vivo, “as pessoas vão aprendê-la como uma terceira ou até quarta língua”, considera. Na melhor das hipóteses, algumas expressões locais permanecerão, mas a própria “linguagem será diluída com o português padrão e o cantonês”.

Por isso, defende que não é preciso “salvar as línguas” – todas nascem, vivem e morrem – mas é preciso mudar a atitude da comunidade e estudá-las”, pois “todas contribuem para a diversidade cultural e oferecem diferentes pontos de vista”.

“Isso pode encorajar as pessoas a conectarem-se com a sua própria identidade cultural e a tornarem-se mais curiosas sobre outras culturas”, sublinha. Francisca Sottomayor – Macau in “Plataforma Macau” com “Lusa”

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Macau - “Úi di Galánti”, o doce linguajar de Carlos Coelho

“Néu-Néu” morreu no passado mês de Janeiro, mas nem por isso deixa de influenciar a comunidade macaense. Os textos que ficaram na memória dos macaenses foram recolhidos pelo Instituto Internacional de Macau e vão ser publicados para que o patuá não morra. O lançamento do livro “Úi di Galánti” acontece a 12 de Setembro, dia em que o actor faria 65 anos.

Foi no passado dia 19 de Janeiro que o professor e actor macaense Carlos Coelho morreu. O patuá ficou sem o seu “Néu-Néu”, um dos que mais preservaram este crioulo de base portuguesa. Para a posteridade ficaram os textos publicados pelo actor no Facebook e também os artigos publicados no portal do Partido Comes e Bebes, um grupo dedicado a manter a comunicação entre os portugueses de Macau. Para que não se percam na volatilidade da internet, o Instituto Internacional de Macau (IIM) recolheu os melhores escritos de Carlos Coelho e vai agora publicá-los num livro intitulado “Úi di Galánti”, que em português significa “muito extraordinário”. Esta compilação de textos de Carlos Coelho é lançada no Jardim de infância D. José da Costa Nunes, pelas 18 horas do dia 12 de Setembro, aproveitando o dia em que o homenageado faria 65 anos. Além do lançamento do livro, haverá ainda tempo para a visualização de um vídeo onde foram seleccionados alguns dos melhores momentos teatrais de “Néu-Néu”, recolhidos durante a sua participação em espectáculos da companhia Dóci Papiaçám di Macau.

“Carlos Coelho publicou vários textos em patuá durante a vida e, quando faleceu, o instituto achou por bem publicar um livro com os escritos que ficaram na memória da comunidade macaense”, justifica António Monteiro, do gabinete de comunicação do IIM, acrescentando que, “com a autorização da sua família, conseguimos recuperar os textos do Carlos Coelho”. “Quisemos aproveitar o dia 12 de Setembro, que é o aniversário do actor, para fazer a cerimónia de lançamento do livro e também para fazer uma homenagem ao autor dos textos com a divulgação de um vídeo com algumas das memórias de quando actuava com o grupo Dóci Papiaçám di Macau”, refere.



No livro agora editado com o apoio da Fundação Macau vão constar textos, todos eles em patuá, com algumas das tiradas mais memoráveis de Carlos Coelho, contando com o jargão menos próprio utilizado muitas vezes em ambiente descontraído entre a comunidade macaense, explica o responsável do IIM. “Será um reflexo do patuá entre os macaenses”, sublinha. Aqui, é também o crioulo macaense de base portuguesa que está em causa: “Este livro é também uma maneira de manter o patuá vivo. O público-alvo são as pessoas que ainda dominam o patuá, mas também queremos dar a conhecer o seu ‘doce linguajar’ a quem não o conhece. Queremos manter viva essa identidade”.

Nascido em Macau em 1953, Carlos Coelho, que era conhecido por ser um dos poucos falantes fluentes do patuá em Macau, fazia questão de o utilizar no dia-a-dia. Notabilizou-se também como professor do ensino básico e como membro de várias organizações macaenses, promovendo, ao longo da vida, encontros entre a comunidade macaense. Como actor, Carlos Coelho trabalhou no grupo “Dóci Papiaçam di Macau” durante a década de 1990. Mesmo depois da sua morte, “Carlos Coelho continua a influenciar a vida de Macau”, diz António Monteiro. “Ele tinha uma personalidade única, estava muito à vontade no teatro. Quando o víamos aparecer já sabíamos que íamos soltar uma gargalhada”, recorda o responsável do IIM. In “Ponto Final” – Macau

Para saber mais sobre Carlos Manuel Gracias Coelho aceda aqui.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Brasil – Livro sobre Patuá pode ser lançado em 2018 em França


O “Parlons Patuá di Macau” é um livro sobre o patuá, fruto da investigação do jornalista brasileiro Ozias Deodato Alves, a ser publicado pela editora francesa “L’Harmattan”. A investigação sobre o dialecto foi feita no tempo livre do autor, que se dedica ao estudo de idiomas minoritários. Em 2015, indicava à Tribuna de Macau que o livro deveria ser publicado ainda nesse ano. Superados os problemas inesperados, prevê agora que chegue às livrarias em 2018.



“Espero que o livro esteja à altura da formidável cultura macaense, cujo teatro cómico é um património da humanidade”, disse o autor em declarações à Tribuna de Macau. Foi através de Yuji Himoro, um estudante japonês de São Paulo, que o escritor soube da existência do patuá. “Tinha a mais absoluta e completa ignorância sobre o assunto. Movido pela curiosidade, iniciei a pesquisa”.

Em 2015 deslocou-se à cidade mais populosa do Brasil para conhecer a comunidade macaense aí residente. No ano seguinte acelerou a redacção para concluir o volume sobre o patuá, e terminou tudo em Fevereiro de 2017. Pelo meio, foram as novas tecnologias a permitir-lhe reunir o material para a publicação, visto que nunca se deslocou a Macau.

“Fiz várias entrevistas usando o Facebook. Entrevistei, por exemplo, a dona Maria João Ferreira, sobrinha do famoso poeta Adé, o pai do patuá, por ‘chat’”, explicou Ozias Deodato Alves.

Foi Maria João Ferreira quem lhe enviou artigos publicados em Portugal e Macau, bem como o apoiou com o cantonês. “Vale lembrar que há textos em patuá repleto de citações tanto em português lusitano como em inglês e em cantonês”, comentou. As redes sociais permitiram-lhe ainda o contacto com Carlos Coelho.

Da comunidade que vive no Brasil, recorreu a Rogério Luz, que mantém o blog “Crónicas Macaenses”, e Mariazinha Carvalho, uma autora de teatro cómico em patuá, bem como a Yolanda Ramos.

O livro é composto por cinco partes distintas, à semelhança das outras obras da colecção “Parlons”. Inicia-se com a história do povo que fala o idioma, passa por uma breve descrição gramatical da língua, por noções de conversação e aborda as diferentes formas culturais associadas ao idioma, como a literatura, música ou arte. Termina com léxico patuá-francês e vice-versa.

“O objectivo dos livros ‘Parlons’ não é ensinar a língua, apesar de que há volumes do ‘Parlons’ que são verdadeiros cursos completos, mas sim descrever o idioma e a cultura do povo falante do mesmo”, explicou Ozias Deodato Alves.

O autor explicou que o atraso na publicação do livro foi maioritariamente motivado pela necessidade de procurar um novo revisor. É agora o actual director da Aliança Francesa de Florianópolis que se encontra a fazer a revisão da obra, depois de o editor da colecção “Parlons” se ter afastado do projecto por motivos de saúde. “Mas acredito que tudo isso vai ser resolvido e o livro sairá neste ano de 2018”, estimou.

“Acredita-se que no Brasil só vivam por volta de 20 a 30 falantes do patuá. É uma língua em vias de extinção”, estimou Ozias Deodato Alves, lamentando que nos censos estatísticos de 2010 no Brasil não se tenha questionado a população em geral sobre os vários idiomas que falam. “Se tivesse feito tal pergunta à população em geral, teríamos hoje números exactos das aproximadamente 300 línguas minoritárias do Brasil”.

De acordo com o escritor, os números apontam para um total de 100 falantes de patuá, sendo que o mais fluente, que falava “como se fosse uma língua viva”, trata-se do “saudoso Carlos Coelho”, que faleceu em Janeiro.

O livro de Ozias Deodato Alves, que se auto-intitula de “refugiado linguístico”, terá um público diferente do esperado. Vai ser publicado em francês e não se prevê uma tradução para português.

“Ao contrário do Brasil, na França, quando a editora se interessa pela obra, ela banca os custos da publicação. E foi assim que eu, um cidadão que nunca foi, até ao presente momento da vida, à França, já publiquei cinco livros lá”, comentou. Salomé Fernandes – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Macau - Carlos Coelho: O “Último Moicano” da Língua Patuá di Macau

A História do último homem que falava o Patuá di Macau como se fosse uma língua viva do cotidiano



Recebi a notícia do falecimento do sr. Carlos Coelho, 64, ocorrido na passada sexta, (19/01/2018) em Macau, antiga possessão portuguesa no sul da China. Ele teve um mal súbito no banheiro (“casa de banho” em português de Portugal). Socorrido pelo filho, Carlos foi levado ao hospital, mas faleceu uma hora depois.

Quem foi Carlos Manuel Gracias Coelho? Era considerado o mais fluente falante de um idioma em vias de extinção: o Patuá di Macau, a língua crioula de base portuguesa com influência de diversos outros idiomas, entre os quais o cantonês.

Eu não o conheci pessoalmente. Eu aqui do Brasil e ele no outro lado do mundo, em Macau, mantínhamos contato pelo facebook. Foi através dessa extraordinária tecnologia que encurtou todas as distâncias, algo impensável até pouco tempo atrás (quem tem mais de 40 sabe exatamente do que estou falando) que o entrevistei para meu livro “Parlons Patuá di Macau”, concluído ano passado, mas ainda em fase de revisão para seu lançamento na França.

Cheguei a Carlos por indicação de Rogério Luz, o jornalista da comunidade macaense em São Paulo, aqui no Brasil.

Pesquisa

Em 2015, viajei a São Paulo ocasião em que conheci pessoal Rogério que mantém o blogue Cronicas Macaenses, com notícias e artigos sobre Macau, a famosa cidade que fora por cinco séculos a possessão portuguesa na China. Em 1999, a cidade foi devolvida à soberania chinesa.

Nascido em Macau, Rogério Luz imigrou para o Brasil na década de 1960 onde reside até hoje em São Paulo. No blogue em questão, Rogério reúne uma verdadeira biblioteca especializada de artigos, crônicas, fotos, filmagens, enfim, documentos dos mais diversos sobre a história de Macau e sua gente. O foco de seu blogue é a comunidade falante de português dessa cidade singular que exerceu por séculos o papel de grande entreposto comercial do ocidente com o oriente.

Na viagem de pesquisa, conheci a Casa de Macau, a escritora de peças de teatro cômicas, Mariazinha Carvalho e o casal Manuel e Yolanda Ramos. O objetivo da entrevista foi reunir dados sobre a língua Patuá di Macau, um raro crioulo de base portuguesa hoje falado por mais ou menos apenas 100 pessoas no mundo.

Sim, Macau tem 600 mil habitantes, destes apenas 8 mil são falantes de português numa região dominada pelo cantonês, como se chama o chinês do sul daquele país, diferente do mandarim, a língua oficial. Dos oito mil falantes de português na região, há por volta de apenas 100 falantes do crioulo, um idioma em que o português misturou-se com o cantonês, malaio, inglês, entre outras contribuições.

Na pesquisa, eis que cheguei a Carlos Coelho.

Resgate

Aqui não tem o objetivo de contar toda a história do patuá. Aguardo com ansiedade o término da revisão de meu livro e a publicação da obra pela editora L´Harmattan, com sede em Paris, França. Tenho um compromisso com todos os entrevistados. Por isso, peço-lhes desculpas antecipadas pela demora, mas vai sair. Tomara que dê tudo certo.

Mas em rápidas palavras, o patuá, que outrora foi muito falado, foi aos poucos extinguindo-se para chegar hoje a um número tão exíguo de falantes que, reunidos, cabem em apenas uma sala de aula sendo que parte deles vive no Brasil. Portanto, os falantes de patuá na própria cidade de Macau é menor ainda do que 100.

História

Nascido em 1953, Carlos passou toda sua existência em Macau. Filho de pai português e mãe macaense, Coelho pertencia à comunidade lusófona daquela cidade, isto é, os filhos e netos de portugueses com mulheres orientais. Trata-se de uma comunidade mestiça que adotou o idioma português e mantinha uma vida muito ligada à cultura portuguesa, mesmo a um quase planeta de distância.

Segundo Rogério Luz e a teatróloga Mariazinha Carvalho, da comunidade macaense de São Paulo, Carlos era uma autoridade em patuá, pois “falava fluentemente o dialecto como se fosse a língua do dia-a-dia.”

O patuá é uma língua quase morta, literalmente na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Não é mais uma língua comum nas ruas. Raros a falam (se é que falam). O motivo é simples: os falantes mais fluentes faleceram. Encontrar alguém com quem conversar em crioulo tornou-se raridade tanto na Macau dos dias de hoje como também entre a comunidade de imigrantes macaenses que se estabeleceram em São Paulo.

Carlos era um apaixonado pelo patuá que, para ele, carregava todo o espírito da antiga cidade de Macau, uma “ilha de Português” dentro da China, onde o Ocidente fundiu-se com o Oriente formando uma dialética da região que não é nem Portugal nem a China, mas um novo mundo e uma nova cultura chamada “macaense”.

OBS: Macau não é uma ilha, mas uma península.

Aprendizado

Segundo contou-me Carlos, em nossa entrevista via facebook, o patuá já estava em vias de extinção na década de 1960. O avançar dos anos ao longo das décadas de 1970 e 1980 foi colocando paulatinamente no caixão cada um dos falantes que ainda podiam papear em crioulo com total fluência e com os quais o jovem Carlos, ao contrário do desprezo geral, aperfeiçoava-se no conhecimento da língua.

Sim, Carlos interessou-se pelo idioma que infelizmente sofria preconceito. O patuá era considerado um “português mal falado”. Tanto é que a mãe de Carlos, dª Adolfina Gracias, proibia-o de se expressar nessa língua. Isso estendia-se na escola. Segundo Carlos, os professores ralhavam com os alunos flagrados usando o crioulo alegando que, se continuassem assim, jamais iriam aprender a falar bem o português. Era exatamente o mesmo argumento de sua mãe.

Apesar de ser falante do patuá, a mãe de Carlos só conversava em português com ele e seu irmão.

Carlos teve o primeiro contato com o crioulo com sua avó materna, Maria Cecília Gracias, falecida quando ele era bem jovem. Coelho evitava falar patuá na presença de sua mãe, mas foi aprendendo o idioma porque seus tios Luís Gracias (Tio Lolô) e Maria Gracias da Luz, além de seu primo Tarcísio Gracias da Luz (o Chicho-Gordo) e a tia de sua mãe, Ana Maria Gracias Chan (Chat-Ku ou Auntie Annie), com os quais tinha frequente contato, falavam o citado idioma.

O crioulo nunca foi ensinado nas escolas de Macau. O desprezo não permitia sequer que o idioma aparecesse numa página ou numa coluna nos jornais lusófonos daquela cidade.

Se tivesse um curso, uma escola ou algum grupo de estudos do patuá, Carlos certamente frequentaria, mas não havia. Então, para aperfeiçoar-se no idioma, Coelho passou a procurar as “nhonhas”, ou seja, aquelas senhoras idosas que falavam o idioma fluentemente.

“Quando tinha a oportunidade e quando as ocasiões proporcionavam a oportunidade, eu falava com as poucas senhoras macaenses que ainda viviam. Então para mim era como um grande acontecimento e uma grande festa. Vibrava por dentro e adorava que a conversa nunca mais acabasse. Na conversa utilizava o patuá que aprendera, e ao mesmo tempo aprendia mais termos que já não me lembrava ou que nunca tinha aprendido. Ia assim acrescentando mais palavras ao que já sabia deste dialecto. Adorava ler os livros e artigos em patuá do autor José dos Santos Ferreira (Tio Adé) que tive o prazer de conhecer pessoalmente quando ainda criança e depois já quando era crescido”, contou.

Carlos mencionou José dos Santos Ferreira (1919-1993), o poeta Adé. Trata-se do “Pai do Patuá”. Adé passou a publicar livros escrevendo poesias e crônicas nesse idioma advogando a ideia de que o crioulo é uma língua tão bela quanto o português e que pode ser preservada e cultuada artisticamente, pois contém a “Alma Profunda de Macau”.

Carlos foi influenciado por Adé como também muitos macaenses, que antes viravam o nariz para esse idioma, passaram a ter olhos mais compreensíveis e menos preconceituosos com relação ao crioulo após conhecerem a obra do mencionado poeta.

Mas isso não foi suficiente para salvar o idioma. “Triste é saber que com o passar dos tempos esse dialecto aos poucos irá cada vez sendo menos falado”, dizia Coelho.

Permanecendo

Em dezembro de 1966, Carlos, na época um adolescente de 13 anos, foi testemunha de uma grande onda de imigração de cidadãos macaenses que partiram para o Brasil, Estados Unidos, Canadá e Austrália.

O que provocou essa onda foi tanto a possibilidade de uma invasão militar da China, na época governada pelos comunistas de Mao Tse-Tung (1893-1976) como também a falta de empregos e crise econômica na região.

A família de Carlos permaneceu e Macau aos poucos melhorou e transformou-se numa próspera cidade.

Difundindo o idioma

Na década de 1990, Carlos ingressou no grupo de teatro Doçi Papiaçam di Macau (trad.: “Doce falar de Macau”, o título de um famoso poema de Adé.

Por causa de sua fluência fora do comum, tornou-se ator. Atuou por certo tempo e depois desligou-se.

Para manter a língua, Coelho passou a publicar crônicas em patuá usando a tecnologia da Internet. Se antigamente a difusão dava-se por livros e jornais, Coelho via no facebook a sua “editora”.

E assim Carlos contribuiu para manter viva a língua.

A notícia de seu falecimento deixou-me com pesar no coração. Em primeiro lugar, por ele em vida não ter visto o livro no qual dediquei um importante capítulo para registrar sua história e zelo pelo idioma, além de toda uma sorte de contribuições. Carlos explicou-me detalhes culturais, sociológicos e antropológicos de Macau, cidade que não conheço pessoalmente. Com o livro, queria dar-lhe alegria, sem dizer que seria uma sorte de agradecimento.

Em segundo, por ele se tratar do “Último Moicano”, isto é, parodiando o título do famoso romance de Fenimore Cooper (1789-1851), por ser talvez o último que falava o patuá “como se fosse uma língua do dia-a-dia”.  Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018. Quem sabe, junto com Carlos, foi também a data da morte do “Doçi Papiaçam di Macau” (refiro-me não ao grupo de teatro, mas sim a como o poetá Adé referiu-se ao idioma).

Não existe língua “bonita”, “feia”, “rica” ou “pobre” ou o adjetivo que seja. Todas as línguas expressam a universalidade da vida. O que leva uma língua à riqueza é seus falantes.

Carlos Coelho fez sua parte.

Qui bom conhecê vôs. Que Deus o proteja e que os anjos iluminem seu caminho! Descanse em Paz! Ozias Alves Jr – Brasil in “JB Foco”

Para ler os escritos de Carlos Coelho em Patuá de Macau colecionados por Ozias Alves Jr aceda aqui


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Macau - Projecto educativo de formação contínua em Patuá






























A Universidade de São José (USJ) criou um curso de formação contínua em Patuá que será ministrado pelo director da Faculdade de Humanidades, Alan Baxter, e tem início agendado para Março. Trata-se de um projecto educativo já antes pensado e que, segundo o linguista, “faz todo o sentido” que seja instituído por qualquer instituição de ensino superior local no âmbito do currículo académico de determinados cursos.

“Criei um curso direccionado e pensado para a comunidade porque é fundamental reforçar a consciência e o conhecimento da cultura e da língua do patuá. Mesmo para as pessoas que já tenham tido algum contacto com a língua”, sublinhou Alan Baxter ao Jornal Tribuna de Macau.

O curso abordará vários aspectos do crioulo português de Macau por meio de comentários e análise de textos veiculados em patuá nos séculos XIX e XX. “Vamos começar pelos versos tradicionais que hoje em dia toda a gente conhece, depois passamos para as cartas satíricas que foram enviadas aos jornais no século XIX, e há também alguns textos que têm características um pouco mais autênticas”, explicou Alan Baxter.

Outros materiais a serem estudados compreendem peças de teatro do século XX, desde teatro de Macau ao de Hong Kong, e os contos do poeta e grande defensor do patuá, José dos Santos Ferreira, também conhecido por Adé.

Para o docente e autor deste curso, os materiais em questão permitirão aos participantes conhecer as “estruturas básicas da língua, as características mais salientes em termos de vocabulário e estruturas sintáticas”, a par da “história e desenvolvimento da língua”. “Vamos contemplar alguns aspectos socioculturais presentes naqueles textos que reflectem, por exemplo, a culinária, tradições, casamentos bem como outras descrições que dizem respeito ao ambiente sócio-histórico mais amplo de Macau do século XX”, acrescentou o linguista.

Com 20 horas de formação, ao longo de oito sessões, as aulas decorrerão na USJ todas as quartas-feiras, das 18:30 às 21:00. Além disso, e uma das “vantagens” do curso prende-se com o facto de não ter quaisquer restrições em termos de participação. “O curso abrange toda a comunidade, qualquer pessoa pode inscrever-se, nomeadamente alunos da Universidade”, explicou.

Para já, as aulas serão leccionadas por Alan Baxter embora não esteja excluída a hipótese de mobilizar alguns convidados. “Tenho em mente dois, mas eventualmente poderá haver mais dependendo da disponibilidade”, disse sem avançar com mais detalhes.

Aquilo que ainda está numa fase embrionária, embora o docente admita estar disponível para abrir o curso no próximo semestre, poderá ser um primeiro passo para algo maior. Para Alan Baxter esta formação contínua em Patuá poderá ser o “começo de uma sequência”. “Vamos ver de que forma a comunidade aceita e se interessa”, apontou.

Embora a componente de avaliação não seja a principal finalidade com esta formação, o docente revelou que haverá espaço reservado durante as aulas para a realização de exercícios. “Haverá também trabalhos de casa que poderão indicar até que ponto a pessoa adquiriu conhecimentos, mas esse não é o principal objectivo”, disse Alan Baxter.

As inscrições estão abertas até ao final deste mês, e poderão ser feitas no “website” da USJ, com um custo de 1.800 patacas. As aulas serão ministradas em Português, sendo que as explicações em inglês poderão ser fornecidas de acordo com as necessidades dos participantes.

Uma iniciativa que faltava

Para o presidente da Associação dos Macaenses (ADM), Miguel de Senna Fernandes, há muito que era necessário que uma “estrutura académica suportasse a divulgação do Patuá”. Nesse sentido, sublinhou, este novo curso promovido pelo professor Alan Baxter é “uma notícia muito bem-vinda”.

“Durante todos estes anos, o Grupo Dóci Papiáçam lutou por isto só que muitas vezes a própria disponibilidade não permitiu fazer”, disse Miguel de Senna Fernandes ao Jornal Tribuna de Macau.

Embora não esteja a par do conteúdo daquele curso da USJ, nem da forma como será realizado, o presidente da ADM ressalva que os “contornos da língua” devem ser tidos em conta. “Tudo depende de como as coisas serão dadas e do que se está a falar mas há que esclarecer que Patuá é este porque sempre foi uma língua de base oral. Por isso, há que situar no tempo e perceber quais são os limites da língua”, destacou.

“No fundo, é importante para aumentar a consciência para a importância do Patuá. Há mais de 20 anos que andamos a lutar por isto, justamente para aumentar a consciencialização”, destacou.

“Apesar desta língua não ser usada diariamente é muito importante para quem se identifica como macaenses. São sempre iniciativas de louvar e aplaudo desde logo esta iniciativa do professor Alan Baxter”, vincou Miguel de Senna Fernandes.

Em Setembro do ano passado, o presidente da ADM já tinha demonstrado vontade em alterar o sistema ortográfico do Patuá de modo a que o contacto com a língua seja mais claro e, de certo modo, mais correcto. Esta ideia, assegurou, “ainda está de pé” mas continua pendente de “disponibilidade”.

No entanto, há outras ideias que poderão entretanto avançar. Segundo explicou, a geração mais nova que também integra o grupo de teatro que dirige está a pensar, já desde finais do ano passado, numa espécie de workshop sobre o crioulo.

A ideia partiu de Elisabela Larrea, investigadora e realizadora de Macau, também autora do blogue “Bela Maquista”, pensado como veículo de difusão da cultura macaense. Segundo Miguel de Senna Fernandes, a ADM terá todo o gosto em apoiar esta iniciativa que ainda está numa fase de construção e estruturação, mas que deverá ser divulgada depois dos próximos espectáculos dos Dóci Papiaçám di Macau, marcados para 19 e 20 de Maio. Catarina Almeida – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”