Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 10 de abril de 2024

Macau - Cartões de estudo do patuá editados em livro

A macaense Elisabela Larrea vai lançar um livro que contém cartões de estudo do patuá, numa publicação que oferece, para além de ilustrações, também um audiovisual para facilitar a aprendizagem da língua em perigo de extinção, segundo a UNESCO. O livro é da responsabilidade editorial do Instituto Internacional de Macau


“Unchinho di Língu Maquista: Cartões de Estudo do Patuá” é um livro da autoria da macaense Elisabela Larrea, que será lançado no Pavilhão Desportivo do Tap Seac, no próximo dia 20, editado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM). Para além do patuá, a publicação inclui a tradução para as línguas chinesa, portuguesa e inglesa.

Passados sete anos desde a criação do primeiro cartão de estudo em inglês foram reunidos e compilados os vários cartões efectuados (com diversas palavras em patuá) e que se encontram agora incluídos neste livro, que tem como principal objectivo, segundo o IIM, “proporcionar uma forma de aprendizagem do crioulo de base portuguesa de Macau, através de ilustrações simples e em trilíngue”.

Para além das ilustrações disponíveis, a edição, que conta com o patrocínio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura, inclui ainda acesso às redes sociais como as plataformas YouTube, Facebook e Instagram (através de códigos QR), com aprendizagem em audiovisual, facilitando ainda mais o conhecimento de uma língua que se encontra actualmente em perigo de extinção, conforme a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

No texto de divulgação, lê-se que “a comunidade macaense tem procurado salvaguardar a língua com trabalhos de documentação de estudo, em publicações, na promoção e no ensino e na música”, sem esquecer o teatro em patuá do grupo dos Dóci Papiaçám di Macau, reconhecido pela RAEM e pela República Popular da China como património intangível.

Contactada pela Tribuna de Macau, Elisabela Larrea disse que o projecto começou por ser um passatempo. “Mas, pouco a pouco, tornou-se numa paixão minha, sobretudo com as muitas mensagens de incentivo e interesse que me foram enviadas de todo o mundo, incluindo de estudantes da China continental”, explicou.

A macaense salienta que decidiu oferecer este livro como um presente para o IIM, bem como para todos aqueles que se interessam por patuá. “Este não é um livro de ensino de línguas, mas uma compilação de ‘flashcards’ com breves explicações, incluindo também uma breve história da comunidade e do patuá, uma espécie de forma de atrair o interesse das pessoas para saberem mais”, destaca.

Elisabela Larrea é doutorada em Comunicação, investigadora da cultura macaense e tem desenvolvido grande interesse pela história e culturas de Macau. Desde 2004 dedica-se ao trabalho de preservação e promoção da cultura macaense através da arte, documentários, filmes, palestras públicas e investigação académica. Actualmente é presidente da Associação de Estudos Macaenses.

A sessão de lançamento do livro é aberta ao público e vai estar integrada na Feira do Livro da Primavera 2024, com a apresentação da autora, no Pavilhão do Tap Seac.

Os desafios do bilinguismo nas crianças em debate na FRC

A Associação dos Jovens Macaenses promove, no dia 16 de Abril, terça-feira, pelas 18h30 na Fundação Rui Cunha, um seminário sobre “Atraso Linguístico em Macau: Criar uma criança bilingue: Mitos e Desafios”. A iniciativa, que conta com a colaboração da Associação dos Médicos de Língua Portuguesa de Macau, terá como oradoras a pediatra Joana Morgado Bento e a terapeuta da fala Zélia Almeida. O objectivo é falar sobre as preocupações que provoca nos pais a proeminência da língua inglesa nos seus filhos. “As oradoras estão particularmente preocupadas que em Macau, caso um ou ambos os pais sejam ocidentais, isso possa transmitir um factor de risco para o diagnóstico de atraso de linguagem, quando comparado com crianças nos países ocidentais e no resto do mundo”, refere um comunicado da organização. No seminário serão discutidos casos clínicos, bem como avaliação, tratamento, prognóstico e prevenção do atraso da linguagem nas crianças. A sessão falada em inglês é aberta ao público. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”



domingo, 17 de dezembro de 2023

Macau - Natal cantado em patuá para despertar curiosidade sobre o crioulo macaense

Macau voltou a ouvir músicas de Natal em patuá, para despertar curiosidade sobre este crioulo de base portuguesa e em risco de extinção, disseram à Lusa membros do coro do grupo Dóci Papiaçam


“Hoje estamos todos um bocado roucos”, avisou Elisabela Larrea antes da atuação no Bazar de Natal no Largo da Sé, referindo-se com um sorriso à vaga de frio que fez as temperaturas caírem 14 graus Celsius no espaço de um dia.

“O coro é uma excelente maneira de trazer alegria às pessoas. A música consegue transmitir sentimentos e a cultura macaense baseia-se na alegria, na diversão e no espírito de estar em grupo”, disse a académica.

O patuá foi criado ao longo dos últimos 400 anos pelos macaenses, uma comunidade euro-asiática com muitos lusodescendentes e raízes em Macau.

Considerado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como “gravemente ameaçado”, o nível antes da extinção, este crioulo foi desaparecendo devido à obrigatoriedade de aprendizagem do português nas escolas, imposta pela administração portuguesa.

A atuação do coro foi uma forma de “apresentar o patuá a diferentes pessoas de diferentes raízes culturais e linguísticas”, disse Larrea, perante a presença de muitos turistas vindo da China continental.

“As pessoas terão pelo menos curiosidade em saber quem somos e porque parecemos diferentes”, disse a presidente da Associação de Estudos da Cultura Macaense.

O coro nasceu do Dóci Papiaçam di Macau, mais conhecido por ser o único grupo ativo de teatro em patuá, que recebeu formalmente em junho a distinção como património cultural imaterial da China, dois anos depois do anúncio oficial.

“No teatro até temos números musicais, mas é uma abordagem diferente para apresentar e promover a língua. Estamos na rua, para além do momento, a demonstrar a riqueza do patuá”, sublinhou Larrea.

Além de duas canções com letra do poeta macaense José dos Santos Ferreira, mais conhecido por Adé (1919-1993), o restante reportório foi escrito por Miguel Senna Fernandes, encenador do Dóci Papiaçam, grupo que este ano celebra 30 anos de existência.

A primeira atuação do coro foi a 19 de dezembro de 1998, um ano antes da transição da administração de Macau, de Portugal para a China e a segunda durante a Missa do Galo de 2000. “Depois jurámos para nunca mais”, admitiu à Lusa Fernandes, com uma risada.

Mas o coro foi mesmo reativado em 2020, “não só para contribuir para o espírito de Natal, mas também dar mais dinâmica” à comunidade, disse o presidente da Associação dos Macaenses, já depois da atuação.

“A reação foi realmente muito boa. Este ano apareceu mais gente e o público é diferente, há muitos turistas, curiosos, mas também muitas pessoas que costumam estar a ajudar nas coisas da diocese”, sublinhou Fernandes.

Antes da segunda atuação do dia, a acompanhar uma missa em português, na Igreja de São Domingos, o líder do Dóci Papiaçam disse que o coro é uma forma de haver “mais intervenção, mais gente ainda” em Macau a interessar-se pelo patuá.

O elemento mais novo do coro tem 16 anos e Fernandes disse esperar que “haja mais vozes, mais jovens que possam cantar e interpretar, porque parece que não, mas os coros têm uma dinâmica fantástica”. In “MadreMedia” – Portugal com “Lusa”


segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Macau - Dóci Papiaçám di Macau trinta anos a trazer o patuá para o palco

O 30º aniversário dos Dóci Papiaçám di Macau, grupo de teatro exclusivamente em patuá, celebrou-se na semana passada, mas a festa faz-se dia 1 de Dezembro com um jantar que reúne antigos e actuais colaboradores. Os desafios continuam a ser o financiamento e a necessidade de uma sede, mas a renovação do grupo, com novos actores, parece estar garantida


O Festival Internacional de Artes de Macau integra todos os anos um espectáculo muito especial para as comunidades macaense e portuguesa. A habitual peça dos Dóci Papiaçám di Macau, grupo que há 30 anos faz teatro em patuá, o dialecto em vias de extinção da comunidade macaense, todos os anos atrai muito público para o Centro Cultural de Macau (CCM).

Numa altura em que o dialecto macaense praticamente não tem falantes em Macau e no mundo, o trabalho deste grupo revela-se fundamental para manter viva um linguajar tradicional. Alvo de muitos trabalhos académicos, precisamente pelo papel que têm na preservação de uma característica cultural da comunidade, os Dóci Papiaçám di Macau, sempre com Miguel de Senna Fernandes como dramaturgo, tem-se mantido ao longo dos anos enfrentando desafios permanentes. Em 30 anos, o grupo nunca conseguiu ter sede própria, ensaiando na Escola Portuguesa de Macau. Relativamente ao financiamento, o apoio do Instituto Cultural não tem faltado, mas é sempre pouco tendo em conta os custos de uma produção teatral. E, por último, o desafio da sobrevivência, sendo que neste campo os Dóci têm provado ser resistentes: mantém actores mais antigos, que ajudaram a fundar o grupo, mas conseguiram atrair novos actores, até oriundos da comunidade portuguesa.

O jornalista João Picanço foi um deles. Nunca tinha ouvido falar do patuá ou visto uma peça, mas fez a sua primeira peça com os Dóci em 2018. Hoje já é uma voz e um rosto característico do grupo.

“Ser um dos jovens actores do grupo para mim é muito gratificante, porque quem me convidou, o Miguel de Senna Fernandes, poderia ter convidado outras pessoas. Tenho um passado ligado ao teatro amador e confesso que estava à espera de encontrar o mesmo, mas a verdade é que não foi nada disso que encontrei”, começou por dizer ao HM. “Fiquei muito surpreendido quando percebi o que estava em causa. O primeiro espectáculo em que participei foi também o primeiro que vi. Acho que o nível da produção não envergonha ninguém, muito pelo contrário, dada a natureza do grupo. O que me trouxe responsabilidade”, adiantou.

João Picanço recorda que muitos dizem que os Dóci continuam a fazer teatro “por carolice”, para não deixar morrer um dialecto que busca influência da língua portuguesa e de outros idiomas, mas o jornalista entende que está muito mais em causa.

“O patuá é um pedaço importante da cultura macaense, sendo a língua é um pedaço importante de qualquer cultura ou povo. Mas acho que é um pouco superficial encarar [o projecto] como algo feito por carolice. Aquilo é para os macaenses, principalmente. Os Dóci representam, de facto, uma importante conquista para a comunidade, e isso tem sido reconhecido apesar de todos os tumultos e medos, sobretudo o medo do fim do patuá. Há uma grande verdade nas pessoas que trabalham ali, e isso é algo muito bonito.”

A experiência em palco

Ao contrário de João Picanço, Sónia Palmer é uma das actrizes mais antigas, tendo sido uma das fundadoras do grupo. Ao HM, diz que já foram tantas as personagens que interpretou que nem consegue dizer quais foram as mais desafiantes. “Foi tudo mais difícil no princípio [com a preparação das personagens], mas agora é mais fácil”, disse.

“O facto de o nosso grupo fazer 30 anos é algo bastante significativo para o trabalho que temos feito, é sinal de que temos feito coisas boas. Mas para um grupo continuar no activo durante tanto tempo é preciso um grande esforço por parte de todas as pessoas”, confessou.

Sónia Palmer revela que a celebração dos 30 anos acontece dia 1 de Dezembro com um jantar para o qual foram convidadas “todas as pessoas que participam ou participaram no grupo, tanto nas peças como nos bastidores”.

Olhando para o presente, a colaboradora e actriz, membro da comunidade macaense, assume que o maior desafio continua a ser a falta de uma sede. “Todos os anos temos de pedir um sítio emprestado para ensaiarmos. Felizmente que a Escola Portuguesa de Macau nos tem ajudado. Falta-nos ainda financiamento, porque para fazer uma peça é preciso muito dinheiro.”

O senhor dramaturgo

Miguel de Senna Fernandes, o grande dinamizador dos Dóci e autor de todas as peças, escreveu nas redes sociais um texto sobre o aniversário, lembrando os primórdios do projecto.

“Hoje, há trinta anos, estávamos com os nervos em franja, com o coração e suor nas mãos, nos bastidores do vetusto Teatro D. Pedro V, então recém-renovado. O tempo não andava e cada minuto parecia horas. Na plateia figurariam gente de peso. O então Governador General Rocha Vieira, o Dr. Carlos Monjardino, a Dr.ª Anabela Ritchie e outras figuras de vulto. Tudo em torno da visita do então Presidente da República Portuguesa, Mário Soares, com uma peça escrita em sua homenagem.”

A peça em causa foi “Olâ Pisidente!” e acabou por “marcar o início de uma aventura que não se esperava”. “Julgo termos cumprido o que, com o tempo, passou a esperar-se de nós”, escreveu ainda.

Ao HM, Miguel de Senna Fernandes confessa que gostaria de encontrar novos dramaturgos para as peças dos Dóci. “Há novas pessoas que vão aparecendo, mas é fundamental que haja mais pessoas a escrever. Quando comecei, tinha os mais veteranos no patuá diziam como se escreviam algumas palavras, como a Fernanda Robarts, a minha professora ‘de facto’. Dizia-me que havia expressões demasiado portuguesas, que não se podia escrever assim. Esse é agora o meu papel. Haver mais pessoas a escrever vai valorizar [o nosso projecto].”

Outro sonho de Miguel de Senna Fernandes, que preside também à Associação dos Macaenses, é levar as peças dos Dóci a Lisboa e até à China, com as devidas adaptações. “O meu sonho é levar o espectáculo para Lisboa e para o continente. Gostaria muito de voltar a Lisboa e representar para a comunidade macaense em Lisboa, que é forte. Mas não temos ainda contactos feitos. Há que utilizar uma fórmula que funcione em palco, em Lisboa, e com algumas adaptações na China.”

Em Portugal, destaca, “há uma comunidade macaense, mas também temos os portugueses que viveram em Macau e que conhecem os Dóci. Fazia todo o sentido levar lá o espectáculo. Não há nenhum sítio pensado, nem contactos ainda feitos com nenhuma entidade. Para isso é preciso fazer um projecto. Veremos se o projecto do próximo ano possa dar azo a isso. Lisboa está na calha, não sei com que dinheiro, mas não custa nada tentar”, salientou.

Miguel de Senna Fernandes diz que o grande desafio para o futuro do grupo é “manter o interesse das pessoas no palco e da própria assistência”. “Este binómio tem de funcionar sempre para que isto tenha sucesso. Da nossa parte estamos sempre motivados e falamos também da motivação de gente nova que queira participar e manter esta chama, a apetência para estar em palco e representar em patuá.”

Uma das forças motrizes do grupo promete não deixar os Dóci tão depressa. “Os actores mais veteranos são fundamentais para que a comédia em palco se desenvolva. Já não são os actores da primeira linha, mas estão na retaguarda para dar o suporte fundamental para que a comédia funcione. Estamos sempre em família. Mas tem havido sangue novo, de uma geração que não tem uma tradição com o patuá. Acham muito interessante e ficam deslumbrados com o projecto, mas depois começam a ter a noção da importância das coisas. São essas pessoas novas que precisamos de cativar”, rematou. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau”


quarta-feira, 3 de maio de 2023

Macau - "Patuá", foi criado pelos imigrantes portugueses e está ameaçado de extinção

O encenador do "único teatro ativo" em patuá, que este ano celebra 30 anos de existência, considera que Portugal deve "investir mais no estudo" deste crioulo de Macau, de base portuguesa e em risco de extinção


“Portugal pode até dar-nos respostas a muitas questões que muitas vezes nós não conhecemos. Como é que linguisticamente determinada forma de expressão apareceu, por exemplo”, disse à Lusa Miguel de Senna Fernandes, responsável pela companhia de teatro Dóci Papiaçám di Macau (Doce falar de Macau).

A língua crioula de Macau, preservada sobretudo através deste grupo de atores amadores, que levam a palco uma peça por ano, sofreu forte influência da língua portuguesa. “Se não chega a 80%, é 70% do português”, notou o também presidente da Associação dos Macaenses.

“Há muita coisa que vem naturalmente de outras influências, do malaio, do concanim, mas o grosso, por exemplo, na formação de verbos, é muito de português (…). Do cantonês, existe uma grande influência também, não na grafia, mas no aspeto semântico”, explicou.

Considerado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como “gravemente ameaçado”, o nível antes da extinção, o patuá foi criado por imigrantes portugueses em Macau ao longo dos últimos 400 anos, e foi desaparecendo devido à obrigação de aprendizagem do português nas escolas, imposta pela administração portuguesa.

Miguel de Senna Fernandes não sabe quantas pessoas dominam o crioulo, no pequeno território chinês ou na diáspora, mas admite serem “muito poucos”. Sustenta que o patuá “tem o seu valor”, conferindo à comunidade macaense uma “dimensão de tradição, uma dimensão de profundidade em termos históricos e em termos de vivência”.

O termo macaense é comummente utilizado para fazer referência a esta comunidade euro-asiática, sendo a maioria dos membros lusodescendentes, com raízes em Macau.

“Há que saber o que somos nós, que passado temos. (…) Não nos podemos esquecer de onde viemos. E o patuá está numa situação de alguma contradição. Quando falamos de língua, é necessário que a língua tenha dignidade quando é utilizada. E a contradição está em que ninguém fala patuá”, notou.

Portugal, considerou ainda Senna Fernandes, “pode sempre fazer mais”, seja através da Casa de Macau, do Centro Científico e Cultural de Macau – “que está a fazer um bom trabalho” – ou “de uma comunidade macaense falante de patuá” a residir no território: “E por que não a partir daí reconstruir ou pelo menos preservá-lo?”.

“Seria ridículo falar num museu de línguas, mas é quase como isto, uma espécie de um salão, um engenho museológico”, apontou.

Referindo que “começam agora a existir muitas iniciativas” em Macau para “fomentar o patuá fora dos Doçi”, nomeadamente através da Associação de Jovens Macaenses e da recém-criada Associação de Estudos da Cultura Macaense, Senna Fernandes declarou que tem ainda um projeto pessoal: “Há 30 anos que ando para escrever e não publiquei nada, mas eu vou fazê-lo”, frisou, observando que “até este momento o único patuá que se vê [publicado] é do Adé”, como era conhecido o poeta macaense José dos Santos Ferreira (1919-1993).

“Eu vou fazê-lo porque é uma outra interpretação do patuá”, disse.

A China incluiu em 2021 na lista de património cultural imaterial nacional o Teatro em Patuá.

O grupo Dóci Papiaçám di Macau, “único teatro ativo” neste crioulo, nasceu a 30 de outubro de 1993, ano da morte de Adé e por ocasião da visita do então Presidente português Mário Soares a Macau e da reabertura, após obras de recuperação, do D. Pedro V, primeiro teatro de estilo ocidental na China.

Miguel de Senna Fernandes integrou o projeto desde esse primeiro momento, levando à cena a peça “Olâ Pisidénte” (Ver o Presidente), apresentando “ao Presidente da República as preocupações” da comunidade macaense: a integração nos quadros de Portugal, após a transferência de administração do território para a China, em 1999, e questões relacionadas com a nacionalidade.

“O grupo tem sido um bom divulgador da própria língua”, sublinhou o encenador ao fazer um balanço de três décadas de trabalho. “O teatro é uma maneira fantástica de aprender qualquer língua”.

Este ano, o dramaturgo traz ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau, entre 26 e 28 deste mês, o retrato de uma cidade livre da pandemia. Macau livrou-se das restrições anti-pandémicas, mas não da sátira dos Doçi. Com “Chachau-Lalau di Carnaval” (Oh, que arraial), é criado um novo programa de revitalização dos bairros no território e um quarteirão é selecionado como experiência piloto. Aí terá lugar um arraial. Ou melhor, um carnaval.

“Macau quer ser um sítio alegre e arranja sempre esse subterfúgio do arraial ou do carnaval, como queiram chamar. É carnaval para aqui, carnaval para acolá. A palavra carnaval entra até nos pedidos dos subsídios, é a coisa mais louca que pode haver”, comenta.

A peça, que volta a contar este ano com vários números musicais e trabalhos em vídeo, é interpretada em patuá, com momentos em português e cantonês. Pela primeira vez, vai escutar-se mandarim, pela voz de uma personagem que chega do interior da China, “mas que rapidamente começa a falar cantonês”.

Senna Fernandes chama a atenção para “uma nova realidade” em Macau.

“Fala-se tanto da Grande Baía e eu continuo sem saber o que é isto, há que integrar este elemento numa outra forma numa peça em patuá”, complementou, referindo-se ao projeto de Pequim que tem como objetivo criar uma metrópole mundial a partir de Macau, Hong Kong e nove cidades da província de Guangdong, com mais de 60 milhões de habitantes.

“Independentemente do que as pessoas possam pensar, o mandarim é uma língua que não é de Macau (…) mas, claro, por razões oficiais, por razões de Estado, e tudo mais, é óbvio e é legítimo que se espere que a comunidade também fale a língua nacional”, disse. In “Sapo 24” com “MadreMedia / Lusa”


sábado, 25 de março de 2023

Macau - Associação de Estudos Macaenses quer divulgar patuá junto dos jovens

É uma das mais recentes associações criadas em Macau e por isso, em menos de cinco meses de existência, “há ainda pouco trabalho” para mostrar, segundo a presidente, Elisabela Larrea. Mas, a Associação de Estudos da Cultura Macaense tem planos a curto prazo e, para o Verão, está previsto o início de uma parceria com o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, para realizar workshops de divulgação do patuá junto de crianças e jovens. Em Maio tenciona também produzir “podcasts” para interagir melhor com a comunidade, assim como reforçar a informação nas redes sociais “para chegar ao maior número possível de pessoas” e, mais tarde, criar um arquivo oral da cultura macaense


Com poucos meses de existência, depois de ter sido fundada em pleno final de pandemia, em Novembro do ano passado, a Associação de Estudos da Cultura Macaense tem ainda pouco a mostrar relativamente ao seu curto trabalho, naquele que é um dos principais objectivos: a divulgação da cultura macaense e o apoio às associações já existentes.

Elisabela Larrea é a presidente da associação, cuja sigla é MACRA (“Macanese Culture Research Association”). Ao Jornal Tribuna de Macau, aquela dirigente fez um balanço do pouco tempo de trabalho efectuado até agora pela sua equipa, salientando que “é preciso primeiro planear as nossas actividades para curto prazo, recolher equipamentos, o que leva algum tempo e só em Janeiro é que na prática começámos a trabalhar, depois de realizada a Assembleia Geral”.

A associação tem sete elementos inseridos neste projecto “e todos estão empenhados em ajudar a divulgar a nossa cultura, mas para isso teremos de explorar bem a forma como o iremos fazer”. E uma das principais prioridades é chegar o mais possível a diferentes comunidades, “promovendo a cultura macaense, que não é conhecida por todos, uma vez que muitas pessoas não falam português”.

A ideia é por isso divulgar a cultura e os objectivos da associação em forma trilingue, ou seja, em português, chinês e inglês, “porque é assim que os macaenses falam”.

A MACRA tem projectos para este primeiro ano de trabalho, a maioria dos quais para interagir com as pessoas, usando as redes sociais e criando “podcasts”, em inglês e chinês, “porque há muita gente que não domina a língua portuguesa”, convidando figuras da cultura macaense a divulgarem as suas experiências. “As pessoas precisam de saber mais sobre a história da nossa cultura, da comida, do patuá, entre outros aspectos”, salienta a investigadora.

Dar apoio a outras associações

Para este ano de 2023, a MACRA tem previsto um projecto de parceria com o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, destinado à aprendizagem do patuá por parte dos mais novos.

“Queremos começar a organizar workshops no Verão, para que as crianças e os jovens possam aprender o patuá como um teatro. Tencionamos fazer aos fins-de-semana”, revela a líder associativa, para quem várias associações já estão a fazer muito trabalho, a reunir convidados e organizar festas, o que “é muito importante”. “Por isso queremos partilhar opiniões, porque ninguém consegue fazer tudo sozinho”, acentua.

Dar esse apoio às instituições já existentes foi a grande razão para a fundação da MACRA. “Sabemos que podemos contribuir, dando palestras, seminários, ou outras actividades, porque temos gente a trabalhar connosco que pode ajudar”. Algumas instituições foram já contactadas, diz Elisabela Larrea, como a Associação dos Jovens Macaenses ou o Instituto para os Assuntos Municipais, “no sentido de planearmos actividades em conjunto para este primeiro ano do nosso trabalho”.

Existe ainda alguma confusão de nomes e objectivos de associações ligadas à cultura macaense, pelo que “é importante esta primeira fase das nossas actividades, explicar às pessoas quem somos, o que pretendemos”, comenta a presidente da MACRA.

Quanto a subsídios, “nada”. “É tudo para já do nosso bolso”, garante, explicando que a associação irá fazer primeiro o seu trabalho “e então mais tarde pedir apoios oficiais”.

Elisabela Larrea, nascida em Itália e a viver em Macau desde os dois anos de idade, filha de pai espanhol, do País Basco, que jogou pelota basca no território na segunda metade dos anos 70, e mãe macaense, termina a conversa com este jornal, explicando, em traços gerais, o que é para si ser macaense: “É ter amor pela sua cultura, pela sua terra e pela sua comunidade”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sexta-feira, 10 de março de 2023

Macau - Dóci papiaçám di macau já ensaia sátira “oh, que arraial!”

Uma crítica divertida, em jeito de revista, vai dar corpo a mais uma peça teatral do grupo Dóci Papiaçám di Macau, a ser exibido ao público em finais de Maio, encerrando a 33ª edição do Festival de Artes de Macau com uma versão ampliada e inédita de três espectáculos. “Oh, Que Arraial!” é o nome do espectáculo, que, segundo Miguel de Senna Fernandes, constitui uma sátira sobre o regresso do território a uma “vida normal”, depois de terem terminado as restrições da pandemia. “O autêntico carnaval que tem pautado a atribuição de subsídios às associações, por exemplo, merece uma sátira como esta”, diz o director do grupo


Está levantado o véu sobre o tema do próximo espectáculo do Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau, que este ano encerrará o Festival de Artes de Macau, em finais de Maio, naquela que será a 33ª edição do evento.

A peça teatral apresenta o nome em português de “Oh, Que Arraial!” e em patuá “Chau-Chau La-Lau Di Carnaval”, numa alusão ao momento do território no regresso à normalidade, com a chegada de muitos turistas, ultrapassada que está a fase negra da pandemia, que praticamente fez parar a economia local. Esta realidade será abordada durante as cerca de duas horas de duração do espectáculo, que já está a ser preparado há duas semanas e que terá lugar no Grande Auditório do Centro Cultural de Macau.

A sinopse, numa versão mais curta do texto original, todo ele escrito por Miguel de Senna Fernandes, refere que “Macau na era pós pandemia volta a abrir as portas para os turistas”. E acrescenta: “Num novo programa cultural de revitalização dos bairros, o nosso bairro é seleccionado como experiência piloto, onde terá lugar um arraial, a culminar com um espectáculo de variedades”.

No texto, escrito pelo criador da peça de teatro, lê-se ainda que “a notícia é recebida com muito agrado e todos se prontificam para aderir à festa, oferecendo-se para actuações diversas. Todavia, para atrair o maior número de pessoas, e para espanto do bairro, é contratado um artista de fora para abrilhantar a festa”.

Miguel de Senna Fernandes vai mais longe ao considerar que tudo o que se está a passar em Macau é um autêntico carnaval, ou arraial, “no bom sentido”. “Por um lado é a chegada dos turistas, por outro o crescimento da economia” e, a nível interno, “uma espécie de carnaval, com a dificuldade das associações em obter subsídios e a depararem-se com os critérios agora adoptados pelo Governo, que só apoia carnavais para atrair turistas”.

“E porque não fazer uma peça aludindo a este momento de Macau?” – pensou o director dos Dóci Papiaçám di Macau, para quem “o carnaval ou o arraial, é tudo festivo e que, diga-se, não está errado e não deixa de ser hilariante”.

“Vai ser engraçado e penso que o público vai gostar, porque há margem para muita piada”, assegurou Miguel de Senna Fernandes ao Jornal Tribuna de Macau.

Trata-se de uma peça tipo “revista”, onde serão inseridos momentos com música, “por isso, é mesmo um teatro revisteiro”. “Não é um musical tradicional, não temos condições para isso, mas é uma forma de entretenimento”, explicou.

Recorde-se que, na edição do ano passado do Festival de Artes, o grupo Dóci Papiaçám di Macau apresentou a peça “Lorcha di Amor” (Cruzeiro do Amor). Os dois espectáculos protagonizados em 2022 voltaram a conquistar o público local, sendo que, entre a assistência, destacaram-se personalidades como o director do Gabinete de Ligação do Governo Central, o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China na RAEM, a Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, o Secretário para os Transportes e Obras Públicas e a presidente do Instituto Cultural.

Peça será exibida durante três dias

A introdução de trechos musicais tem sido adoptada já há quatro ou cinco anos, algo que “tem sido bem recebido pelo público”. Desta vez, os espectadores terão igualmente a possibilidade de assistir a alguns vídeos, adiantou ainda o líder do núcleo de divulgação do patuá.

O espectáculo vai ser exibido durante três dias, no fim-de-semana de 26, 27 e 28 de Maio, o que nunca havia acontecido desde que o grupo iniciou a produção de peças de teatro, há 30 anos. Além disso, desta feita acontecerá não no meio do Festival de Artes de Macau, mas no dia de encerramento, “a nosso pedido, porque assim temos mais tempo para preparar”, revelou Miguel de Senna Fernandes.

Os ensaios de “Oh, Que Arraial!” estão na fase de acerto das primeiras cenas, que, para o autor do guião, “são fundamentais”. O advogado e escritor, que foi o responsável por todos os textos das peças de teatro do grupo desde o arranque em 1993, volta a escrever diálogos para todos os participantes que estarão em palco, cerca de 16.

A partir de 1993, só se registaram duas interrupções nos espectáculos levados à cena, uma em 1998 e outra em 2020, neste último caso devido à pandemia, quando “já tínhamos uma história a meio”, relembra Miguel de Senna Fernandes.

O grupo Dóci Papiaçám di Macau completa assim 30 anos de existência e de produção de espectáculos, e a nova peça será por isso a grande aposta em termos de comemorações do aniversário.

Miguel de Senna Fernandes recorda a primeira actuação do grupo: “Estreámos a 30 de Outubro de 1993 e nessa altura foi apenas um mero apontamento, integrado na inauguração do Teatro D. Pedro V, porque o grande cartaz era a presença do cantor português Fernando Tordo”.

A assistir àquele espectáculo esteve o então Presidente português, Mário Soares, além de outras individualidades, entre as quais o Governador Rocha Vieira. A peça intitulada “Olâ Pisidente” em patuá (“Ver o Presidente”, em português), foi apresentada precisamente em honra do Chefe de Estado de Portugal.

No que diz respeito a outros eventos que acontecerão neste ano de aniversário do grupo, está agendada uma festa, “com um jantar comemorativo, onde haverá certamente um palco e muita gente que quererá participar, mas ainda não sabemos em que termos”, adiantou o líder dos Dóci Papiaçám di Macau.

Miguel de Senna Fernandes confessou ainda que será um ano complicado a nível pessoal: “Tenho igualmente as celebrações do centenário do meu pai e não vai ser fácil gerir tudo isto, mas faço com todo o gosto”. Vitor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


quarta-feira, 8 de março de 2023

Macau - Religião e vínculo entre Portugal e a Região moldaram poesia de Adé

A poesia macaense de José dos Santos Ferreira, mais conhecido como Adé, transmite harmoniosamente o vínculo entre Portugal e Macau. Segundo um estudo levado a cabo por Pedro D’Alte, da Universidade Politécnica de Macau, Adé “é uma das vozes mais marcantes da comunidade macaense”


A “pátria lusa, o fervor religioso cristão, a justeza e a harmonia do vínculo Portugal-Macau” são temas que inspiraram a poesia em língua portuguesa de José dos Santos Ferreira, comummente conhecido como Adé. Segundo um estudo de Pedro D’Alte, da Universidade Politécnica de Macau, “a ameaça à tríade destacada cria um conflito interno no poeta e os versos começam a funcionar como profecias de quanto Macau perderá em termos sociais e culturais com a diluição da administração lusa”.

O poeta, nascido em Macau, com “alma portuguesa”, utilizou o crioulo português de Macau e, também, a língua portuguesa para poetizar, “de forma harmoniosa, um modo de sentir muito particular destas duas geografias e dos seus sortilégios”, explica o autor.

A reflexão sobre o futuro de Macau adensa-se com “a certeza do pathos” (“que se estende sobre todos os seres humanos, como um manto”) e da “inevitabilidade”, que “maximizam o quadro de denúncia sobre os costumes que vão emergindo e que estão completamente desenquadrados da matriz dos costumes sino-portugueses”, lê-se no artigo.

Segundo Pedro D’Alte, José dos Santos Ferreira “foi um legítimo defensor da identidade macaense, produzindo os seus artefactos literários num curioso caminho dialéctico entre a língua portuguesa e o patuá”.

As particularidades do patuá, que via a sua utilização na oralidade restrita a uma franja populacional com ausência de educação formal, nomeadamente às mulheres (cujo domínio da língua portuguesa não era comum), “não afastaram o poeta da invenção literária com recurso a este crioulo português, muito pelo contrário”, escreve o académico.

O motivo que justifica a escrita de textos poéticos em língua portuguesa é a tentativa de preservação para a posteridade de um registo “interessante” do crioulo português, “que ele admitia ter desaparecido quase completamente de Macau”, como explica o investigador, citando outros autores.

“Poema na língu maquista”

A obra literária escolhida para o centro da análise da poética de Adé, por parte de Pedro D’Alte, foi “Poema na Língu Maquista”, que engloba a co-presença das duas línguas na obra, ainda que com “clara exaltação do patuá como língua primária e criação estético-literária”. “O argumento é visível, desde logo, no título e no posicionamento secundário da língua portuguesa que é relegada para o final da colectânea”, elucida o pesquisador.

Segundo o estudo, ainda que a poética de Adé não tenha uma intenção declarada de ser cantada, esse potencial é explorado. A título de exemplo “flagrante” surge o grupo Dóci Papiaçám di Macau, que utilizando as letras de Adé, exibe a “virtuosidade da vertente oral Maquista”, nomeadamente através da música “Macau sim assi”, que estabelece relação com a composição “Lisboa é assim”, de João Nobre.

Esta referência à literatura oral e à canção, como explica o investigador, tem outra razão de ser. Quem ler a poesia em patuá de José dos Santos Ferreira denota “uma certa primazia na oralidade sobre a escrita”. O código escrito é jovem e, em variadas situações, “ambíguo”, tendo sido o próprio Adé um dos maiores contribuidores para a sua utilização.

A carga oral está presente na poesia em Maquista, em que a maioria das palavras deriva do português, contudo, como explicam outros autores citados pelo investigador, só em alguns casos é que a correspondência fonética é total. Na grande parte dos casos a pronúncia das palavras em Maquista é diferente da pronúncia em Português.

“Tal concorre para que o jogo sonoro criado nas duas línguas seja amplamente diferente. A língua maquista exibe-se mais aberta e simétrica no escanção do verso e na sua componente rítmica. Por seu turno, o idioma luso surge mais comprimido e regrado com sons fechados e com menor possibilidade de elisões sonoras entre os vocábulos que compõem o verso”, refere Pedro D’Alte, notando ainda que estas características literárias transmitem a sensação ao leitor de um acesso a dois poemas inteiramente diferentes.

“Adentrando na produção em língua portuguesa, do ponto de vista temático, Macau assume-se como eixo transversal da poética de José dos Santos Ferreira”. A cidade agrega diferentes coordenadas, quer como espaço, quer como personagem, ou ainda como “emblema de um tempo que não existe, mas que se sonha cristalizado”, e como “fonte ideológica de matriz portuguesa e assumidamente cristã”.

Um destino traçado

A inevitabilidade do destino, a perda irremissível, com a transferência de soberania em 1999, levam a uma “hiperbolização de Macau como terra amada, abeirada a um paraíso terreno e pleno”. A recusa em aceitar o desfecho, presente em algumas das composições de Adé, num contexto de perda, levam a um matriz sofrido dos versos, que “é a face visível da angústia, da separação, do fecho”.

Neste caso, a carga emotiva, modelada no interior do poeta e exteriorizada posteriormente em alguns elementos da sua obra, é explicitada pelo confronto entre partes diametralmente opostas e que são portadas no binómio luz versus escuridão. “Trata-se de um desassossego interno que extravasa para uma dimensão física e comportamental”. Isso acontece porque, “progressivamente, a cidade se revela antropomorfizada e se assume como personagem”. A solução para a “disforia” que se torna evidente em situações como “o perigo de andar às escuras”, “a iminência da queda”, “a face triste”, “a ausência de alegria no movimento” e “o frio no corpo” está, frequentemente, na religião trazida por Portugal. Essa resolução positiva “apenas é possível pelo messianismo cristão”.

A aproximação do fim da administração portuguesa de Macau levou a que na poesia de José dos Santos Ferreira houvesse um “estado de ânimo que toma feições de temor das sequelas anti-cristãs e anti-portuguesas”, lê-se no estudo, que referencia outros autores.

“A singularidade da reacção poética de José dos Santos Ferreira reside na dimensão atribuída aos seus alicerces de tradicional mundividência lusíada – o fervor da fé cristã e o fervor do patriotismo imperial”.

A melancolia de um “período algo nefelibata, mas comum, de história e de identidade, entretecendo pátria e mátria, Portugal e Macau e, com estes, todo um universo de experiência lusa que se compadece ou que se deve compadecer pela erosão do império português e, claro está, pelo seu iminente apagamento”, estão presentes também na obra de Adé. “Há uma certa continuidade ideológica e que é reveladora de um estatuto especial para Macau”.

José Inocêncio dos Santos Ferreira, filho de pai português e de mãe macaense, nasceu em Macau a 28 de Julho de 1919. Foi funcionário público, desempenhando as funções de chefe de secretaria do Liceu Nacional Infante D. Henrique. Reformou-se em 1964. Após a aposentação, foi indicado como secretário-geral da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau. Paralelamente, porque falante de várias línguas como a portuguesa, a chinesa e a inglesa, conciliou actividades docentes a alunos chineses. É ainda de destacar a colaboração jornalística com o China Mail de Hong Kong, o Diário de Notícias em Portugal, ou O Clarim de Macau.

Foi fundador e dirigente de várias associações de desporto e, simultaneamente, dedicou-se à filantropia, tendo sido presidente do Rotary Club e membro da Mesa Directora da Santa Casa da Misericórdia de Macau. Em Setembro de 1979, foi agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique e, já na década de 80, recebeu a Medalha de Mérito Cultural pelo Governo de Macau. A mesma tutela presta-lhe homenagem ao erguer uma estátua no Jardim das Artes, no coração de Macau, em zona nobre da cidade.

Faleceu no dia 24 de Março de 1993, em Hong Kong, aos 73 anos de idade. Susana Martinho – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”



quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Macau - Jovens macaenses promovem sessão de patuá para crianças

“Brincâ cô Patuá” é um workshop desenhado por Teresinha Gabriel em coordenação com Paula Carion e que vai ser promovido pela Associação dos Jovens Macaenses. António Monteiro explicou à Tribuna de Macau que a associação pretende aproximar a nova geração do patuá, e explicar a sua importância para Macau e para a comunidade macaense


A Associação dos Jovens Macaenses (AJM) vai promover a realização de um workshop dedicado ao patuá, intitulado “Brincâ cô Patuá”. O presidente da associação, António Monteiro, explicou que o objectivo é “fazer com que a nova geração consiga ter um contacto mais profundo com o patuá” – e para isso, nada melhor que fazê-lo com recurso a actividades dinâmicas.

“Achámos engraçado fazê-lo através de jogos com as palavras, e frases, para pelo menos terem um conhecimento auditivo, terem uma aproximação com o dialecto. Porque as crianças ouvem o chinês, português ou inglês, mas como parte da identidade, a velha geração cresceu a falar patuá com os avós, e agora com a associação podíamos tentar forçar um bocado essa ligação porque ainda temos gente que conhece o patuá”, afirmou em declarações ao Jornal Tribuna de Macau.

Sublinhando que o patuá está bastante bem preservado e promovido, António Monteiro defendeu que a aprendizagem do dialecto é importante, mesmo que, ressalvou, a ideia não seja que as pessoas um dia venham a falar este crioulo. O objectivo é também dar a conhecer o seu valor e importância para Macau e para a comunidade macaense.

Segundo explicou, o workshop – que vai decorrer a partir das 15h00 do próximo sábado, no auditório do Instituto Internacional de Macau – conta com a coordenação de Paula Carion, também ligada à AJM e aos Dóci Papiaçám di Macau; e com tutoria de Teresinha Gabriel, que tem base de formação na área da Educação e está ligada ao Centro de Explicação e Educação “Lekka”, tendo também lançado não há muito tempo um livro para crianças em chinês, português e patuá. “Poder ter alguém que fale patuá e alguém que sabe como leccionar e ensinar através de jogos é um bom começo”, apontou.

O público-alvo são crianças com conhecimento da língua portuguesa, entre os 6 e os 12 anos. António Monteiro explicou depois que sendo o patuá um crioulo de base portuguesa seria difícil crianças que não conhecem a língua compreenderem a mensagem, daí a actividade ser desenhada para este grupo específico.

Através de um primeiro contacto com frases ou palavras, a ideia é que estas possam eventualmente ser usadas no quotidiano por esta nova geração. A actividade – desenhada por Teresa Gabriel, em coordenação com Paula Carion – inclui jogos de palavras que têm de ser adivinhadas através de gestos corporais, dinâmicas em que as partes do corpo devem ser ditas em patuá, e partilhas de conhecimento através de desenhos sobre palavras no crioulo de Macau.

António Monteiro disse a este jornal que a continuidade deste tipo de actividades vai depender da adesão e também do feedback dos participantes. As inscrições encontram-se ainda abertas, com limitação de participação, podendo ser enviado um email à AJM através de:

a.jovens.macaenses@gmail.com. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Portugal - Patuá volta a ter oficina promovida pelo Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa

Depois de ter promovido uma oficina de Patuá, durante 32 sessões entre Maio e Outubro, o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) volta a promover o crioulo macaense de raiz marcadamente portuguesa – dialecto enquanto língua minoritária decretada pela UNESCO, em risco de extinção –com mais uma oficina.

No próximo dia 11 de Novembro, sexta-feira, entre as 10h e as 13h (horário em Portugal), nas instalações do CCCM será ministrada uma oficina com apresentação e introdução de Joaquim Ng Pereira.

O programa engloba um primeiro painel de poesia em Patuá recitado pelos formandos, com temas do poeta macaense José dos Santos Ferreira (Adé), com acompanhamento musical do duo “A Outra Banda” composto por Carlos Piteira e Jaime Mota. Será ainda interpretado o tema “Bastiana” e outros temas, não divulgados pelo comunicado de imprensa enviado pelo CCCM às redacções. O segundo painel de poesia, também recitado pelos formandos, será acompanhado à viola apenas por Carlos Piteira.

Haverá ainda lugar a uma leitura de um teatrinho em Patuá, texto original de dois formandos – Maria Helena Carmo e Raúl Gaião – interpretado pelos alunos da Oficina da Língua Patuá.

Joaquim Ng Pereira nasceu em Macau e é filho de pai português e mãe chinesa. É licenciado em Ciências da Comunicação e Cultura e mestre em Programação e Gestão Cultural, ambos obtidos na Universidade Lusófona, em Lisboa. O tema da sua dissertação de mestrado teve incidência sobre o Museu de Macau do CCCM. É sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, como membro da Comissão das Migrações, onde promove encontros cuja temática tem sido sobre Macau, Portugal e os macaenses. A sua vocação tem sido a promoção e divulgação do Patuá e da cultura macaense. In “Ponto Final” - Macau

 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Portugal - Centro Científico e Cultural de Macau promove oficina de Patuá

Curso será ministrado em quatro meses por Joaquim Ng Pereira e Sara Roncon Leotte e pretende ser “um conjunto de aulas vivas com a finalidade de sensibilizar para a questão da preservação do ‘Dóci Papiaçam di Macau’, crioulo macaense de raiz marcadamente portuguesa que se pretende dinamizar, no sentido de melhorar a posição mundial do dialecto enquanto língua minoritária decretada pela UNESCO, em risco de extinção”. Ao todo serão 32 sessões, entre Maio e Outubro

O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) vai apostar numa oficina de Patuá. Durante quatro meses, e atendendo à posição mundial do dialecto enquanto língua minoritária decretada pela UNESCO e em risco de extinção, o CCCM pretende promover “um conjunto de aulas vivas com a finalidade de sensibilizar para a questão da preservação do ‘Dóci Papiaçam di Macau’, o crioulo macaense de raiz marcadamente portuguesa que se pretende dinamizar, contribuindo assim para a preservação de uma componente integrante da singular história e cultura macaense”, pode ler-se na página do curso.

Joaquim Ng Pereira e Sara Roncon Leotte são os responsáveis pela planificação e pelas aulas dadas durante o curso que tem a duração de quatro meses. “Será feita uma abordagem do Patuá macaense na sua vertente mais artística, tendo como veículo falante, os textos contidos em obras de José dos Santos Ferreira (Adé) e de Miguel de Senna Fernandes, ilustres macaenses e grandes promotores do Patuá”, refere ainda o CCCM, que acrescenta ainda que “serão ainda consideradas componentes práticas de divulgação deste crioulo, como a declamação e representação protagonizadas pelos participantes, tendo como objectivo a afirmação do Patuá como língua nativa de Macau com origem identitária na língua portuguesa”.

O curso, que tem um custo de 40 euros por mês, começa no dia 30 de Abril com uma introdução ao Patuá (neste dia a entrada é livre). Segue de 2 a 30 de Maio com oficinas dedicadas ao enquadramento histórico, económico e social de Macau, bem como sobre as origens do Patuá. Entre 2 e 30 de Junho, haverá lugar a ensino e compreensão dos fonemas, dicção e formas de falar o Patuá. No mesmo hiato temporal, far-se-á a introdução à poesia no dialecto. Por fim, e depois de uma pausa de férias durante os meses de Julho e Agosto, a oficina volta de 1 de Setembro a 31 de Outubro com conteúdos relacionados com o ensino de Patuá com declamação na sua vertente poética.

Ao todo serão 32 sessões, entre Maio e Outubro, de segunda-feira a quinta-feira, das 17h30 às 20h nas instalações do CCCM, em Lisboa, Portugal, mas com opção de assistência online. O curso, leccionado igualmente em português, arrancará se existirem de 8 a 25 inscrições, e a idade mínima de participação são os seis anos.

Joaquim Ng Pereira nasceu em Macau e é filho de pai português e mãe chinesa. É licenciado em Ciências da Comunicação e Cultura e mestre em Programação e Gestão Cultural, ambos obtidos na Universidade Lusófona, em Lisboa. O tema da sua dissertação de mestrado teve incidência sobre o Museu de Macau do CCCM. É sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, como membro da Comissão das Migrações, onde promove encontros cuja temática tem sido sobre Macau, Portugal e os macaenses. A sua vocação tem sido a promoção e divulgação do Patuá e da cultura macaense.

Sara Roncon Leotte é licenciada em Relações Lusófonas e Língua Portuguesa pelo Instituto Politécnico de Bragança, tendo defendido o Relatório de Estágio intitulado “Perspectivas sobre o ensino das línguas (Português, Chinês e Patuá): a criação de Oficinas de Língua no CCCM”. A temática das relações sinólogas, com incidência em Macau e na preservação do Patuá, constitui o seu primeiro trabalho na área. Actualmente, é estagiária na Escola Profissional Prática Universal (EPPU) de Bragança, no gabinete de ERASMUS e no gabinete dinamizador de Qualidade. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


quarta-feira, 20 de março de 2013

Patuá


Língu di gente antigo di Macau
Lô disparecê tamên. Qui saiám!
Nga dia, mas quanto áno, 
Quiança lô priguntá co pai-mai
Qui cuza sä afinal
Dóci papiaçam di Macau?

Crioulo macaense de origem portuguesa - Macau

Para ouvir patuá aceda aqui