Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 19 de maio de 2020

Ferrovias: um projeto para o Brasil

Com 8,5 milhões de km2 de extensão territorial, pouco menor que toda a Europa e atrás também de Rússia (17 milhões de km2), Canadá (9,9 milhões km2), Estados Unidos (9,8 milhões km2) e China (9,5 km2), é inadmissível que o Brasil disponha de uma rede ferroviária tão precária. Tornou-se lugar comum atribuir ao governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) a culpa pela opção radical em favor das rodovias para o transporte tanto de cargas como de passageiros, mas, desde então, pouco se fez para se reverter essa tendência que obriga o País a desperdiçar muitos recursos. Basta ver que a malha ferroviária permanece há praticamente um século com a mesma extensão, de 29 mil quilômetros, inferior até mesmo à da vizinha Argentina, que dispõe de 34 mil quilômetros para um território que equivale a um terço do espaço brasileiro.

À guisa de comparação, é de se lembrar que os Estados Unidos contam com uma rede ferroviária de 226 mil quilômetros, a mais extensa do mundo, a Rússia com uma de 87 mil quilômetros e a China com uma de 86 mil. Mas o pior é que a rede rodoviária brasileira também é precária em muitos lugares. Um exemplo é a região noroeste do Rio Grande do Sul, Estado considerado desenvolvido, onde abundam estradas de chão e rodovias mal asfaltadas, sem acostamento.

Obviamente, a prioridade para a expansão da rede ferroviária deveria ser o interior do País, já que se trata de um transporte mais rápido, mais barato e menos poluente. Já no litoral, onde mais de 80% da economia do País estão localizados a menos de 500 quilômetros da costa, o modal mais viável seria o transporte por cabotagem, que constitui a opção mais eficiente para distâncias acima de mil quilômetros. Para tanto, porém, seria necessário ampliar as conexões ferroviárias aos portos a fim de que atendam com maior eficiência às necessidades da logística para exportação e suprimento do mercado interno.

Como os cofres públicos parecem  um tanto esvaziados, depois que muitos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foram canalizados para obras de infraestrutura em países da América Latina e África, para revitalizar a malha ferroviária, o governo optou pelo sistema de concessão à iniciativa privada, que, como se sabe, só investe em ferrovias que despertam maior interesse. E ainda assim com extremo receio porque as concessões ferroviárias no Brasil duram apenas 30 anos, enquanto nos Estados Unidos esse prazo se estende a 60 ou 70 anos. Para piorar, cerca de 22 mil quilômetros de um total de 29 mil das ferrovias brasileiras foram construídos com bitola métrica, método considerado ultrapassado, que não pode mais ser aproveitado.

Isso significa que cabe mesmo à União colocar em prática um grande projeto de investimentos em infraestrutura, já que há pelo menos 30 anos não se vê no País nenhum tipo de planejamento estratégico. Segundo dados oficiais, em 2019, foram investidos apenas 1,87% do Produto Interno Bruto (PIB) em obras de infraestrutura, quando o ideal seria que fossem investidos por ano pelo menos 4,2% do PIB durante duas décadas para que seja alcançado um estágio satisfatório.

Dentro desses investimentos, seria necessária a implantação de pelo menos mais 10 mil quilômetros de ferrovias para atender à demanda reprimida. Como se sabe, hoje, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a rede ferroviária representa apenas 15% da estrutura de transportes, enquanto o modal rodoviário é responsável por 65%. Mudar a matriz do transporte no Brasil é desafio para os próximos 30 anos. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional das Empresas Transitárias, Agentes de Cargas, Comissárias de Despachos e Operadores Intermodais (ACTC). 
E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br


quinta-feira, 30 de abril de 2020

Mercosul: que futuro?

A decisão do governo argentino de abandonar as negociações para a ratificação do Acordo de Livre-Comércio com a União Europeia, assinado no ano passado, deixou o Mercosul em xeque, pois, sem a assinatura de um dos quatro sócios – os demais são Brasil, Uruguai e Paraguai –, o tratado não terá validade. O governo argentino do novo presidente Alberto Fernández também não aprova as negociações para a assinatura de novos tratados de livre-comércio com a Coreia do Sul, Índia, Líbano e Cingapura, que vinham em andamento, sob a alegação de que, diante do caos mundial previsto em função da pandemia do coronavírus (covid-19), o melhor é aguardar para ver o tamanho da encrenca.

É o que se pode depreender do comunicado expedido pelo Ministério das Relações Exteriores daquele país, que prevê um “quadro desolador”, já que as organizações internacionais estimam queda do produto interno bruto (PIB) nos países mais desenvolvidos, uma queda repentina no comércio global de até 32% e “um impacto imprevisível na sociedade”. Em contrapartida, Brasil, Uruguai e Paraguai não admitem paralisar as negociações com aqueles países, já que há mecanismos legais que amparam a continuidade das tratativas sem a participação da Argentina.

Isso se dá porque, apesar dos insistentes alertas dos especialistas, o Mercosul não soube criar os mecanismos necessários para que o bloco blindasse a questão comercial da influência político-partidária, tanto de esquerda como de direita. Foi assim ao tempo em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve à frente do governo brasileiro por 13 anos e meio e está sendo agora com o presidente Alberto Fernández, peronista de centro-esquerda, que, desde que assumiu, sempre se mostrou contrário à participação argentina no Mercosul. 

Seja como for, sem a Argentina, o Mercosul nunca será o mesmo. E parece caminhar em direção a sua flexibilização. Se esse for o caminho, nada melhor que o governo brasileiro aproveite o momento para buscar maior acesso à inovação e às tecnologias das cadeias produtivas globais, o que só será possível a partir do relaxamento das regras que proíbem os parceiros do bloco de assinar acordos bilaterais sem a aprovação dos demais. Nesse caso, se Paraguai e Uruguai, que têm governos afinados com o governo brasileiro, concordarem, os três parceiros ficam livres para buscar um relacionamento comercial mais aberto com outras nações.

Obviamente, se o governo brasileiro tivesse à frente do Itamaraty um diplomata especializado em comércio exterior, a situação não teria chegado a esse ponto, já que a Argentina até 2019 constituía o terceiro mais importante parceiro comercial  do Brasil no mundo e o principal na América Latina, respondendo por 5% das exportações brasileiras, atrás somente de China e Estados Unidos. E não se pode jogar fora um mercado como esse por causa de questiúnculas político-ideológicas, ainda que aquele país esteja à beira de entrar em moratória.

É claro que, mesmo sem a Argentina, o Mercosul pode continuar e manter os acordos vigentes com Índia e Israel e ratificar os tratados com Palestina, Egito e a União Aduaneira de Países do Sul da África (Sacu), bem como levar a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), que reúne 13 países latino-americanos, a se tornar uma área de livre-comércio, o que equivale a dizer sem tarifas. O que se espera é que o governo brasileiro leve adiante esse processo com a participação do setor privado, pelo menos com consultas à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Já seria bastante. Milton Lourenço – Brasil


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Milton Lourenço é presidente do Grupo Fiorde (Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Exterior) e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional das Empresas Transitárias, Agentes de Cargas, Comissárias de Despachos e Operadores Intermodais (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

sexta-feira, 13 de março de 2020

Brasil - Uma nova política de comércio exterior, é preciso!

Enquanto o caos dominava o cenário mundial com reflexos devastadores no mercado brasileiro, com a Bolsa de Valores de São Paulo chegando a cair mais de 10%, obrigando operadores a suspender os negócios e acionar o chamado circuit braker para maior reflexão sobre o momento, o presidente Jair Bolsonaro passeava, sim, passeava nos Estados Unidos, para jantar na mansão do presidente  Donald Trump. Mas, afinal, o que o presidente foi fazer nos Estados Unidos? Jantar com Trump? Para quê?

Certamente, para ouvir que ele já ajudou muito o Brasil ao não aumentar a tarifa sobre alguns produtos brasileiros, mas que, em pouco tempo, esse privilégio deverá acabar. Realmente, não pode ser esse um dos motivos que levam um chefe de Estado a se sujeitar a viajar até os Estados Unidos, simplesmente para participar de um jantar no resort luxuoso de Trump, em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida. Sinceramente, o Brasil não merecia ter o seu mandatário submetido a esse tipo de constrangimento. Tristes tempos para a nossa diplomacia.

É de se lembrar também que, à época, o nosso ministro da Defesa visitou instalações militares norte-americanas, mas, ao que se saiba, de prático, nada trouxe, a não ser a geração de imagens para a imprensa. Sem contar que, com uma agenda "tão importante" nos Estados Unidos, o presidente ainda teve tempo para visitar o atelier do artista Romero Britto, que, como se sabe, pretende pintar um quadro com a figura do ilustríssimo mandatário, além de projetar outro com a primeira-dama. Dizer o quê?

A total falta de noção e respeito pelo mandato de presidente do Brasil é tão explícita que só pode ser explicada pelo despreparo para o exercício do cargo, o que se tem confirmado com uma sucessão de atos absurdos, como, por exemplo, levar um humorista que o imita para responder às perguntas dos jornalistas que fazem a cobertura dos atos do governo federal. De fato, ficou difícil separar o criador da criatura, pois são duas faces da mesma moeda.

Nesse cenário desolador, agravado pela epidemia de coronavírus, qualquer esperança, ainda que tênue,  acaba por se esvair, à medida que a economia chinesa está em desaceleração, provocando também retração nas vendas brasileiras para aquele país, enquanto a intenção de incrementar as exportações para o mercado norte-americano não passa de um sonho de noite de verão, aliás, como se pôde sentir pela quantidade e qualidade dos empresários que participaram da última palestra do presidente Bolsonaro em Miami. Até porque os chineses, para dar continuidade aos negócios com os norte-americanos, terão de importar mais produtos made in USA, inclusive no mesmo segmento da pauta de exportações brasileiras, que inclui grãos, carnes e minério e ferro.  

Dessa maneira, o comércio exterior brasileiro continua em compasso de espera, o que não acontecia há alguns anos, implicando em desaquecimento da economia com os resultados que se vê, como níveis absurdos de desemprego e falta de perspectivas para aqueles jovens que chegam agora ao mercado de trabalho.  Em outras palavras: o que era esperança transformou-se em preocupação, com os índices de crescimento agora revistos para baixo, não só por organismos internacionais como também pelos próprios setores econômicos brasileiros.

Diante disso, as perspectivas para as operações de comércio exterior, já tão reduzidas nos últimos anos, quando havia um clima de até euforia com a possibilidade de reaquecimento, chegam agora a patamares ainda piores. Para se reverter esse quadro, portanto, é preciso rever a atual política (?) de comércio exterior totalmente, ou seja, em suas premissas e diretrizes básicas, e não apenas em seus pormenores, em especial em relação aos produtos industrializados, sob pena de o País voltar a funcionar apenas como fornecedor de matérias-primas, tal como era até o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945). Milton Lourenço - Brasil


Milton Lourenço é presidente do Grupo Fiorde, constituído pelas empresas Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Exterior (trading company), todas com matriz em São Paulo e filiais em vários Estados brasileiros. E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

terça-feira, 9 de julho de 2019

Industrializados: Brasil perde espaço

SÃO PAULO – Dados levantados pela Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) mostram que as exportações de produtos manufaturados vêm caindo mês a mês, o que deixa claro que é preciso que haja de imediato uma reação por parte do governo e do empresariado para que essa tendência seja revertida e o parque fabril  não entre numa crise irreversível. Obviamente, a assinatura do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) trouxe boas perspectivas, mas não se pode deixar de levar em conta que a sua efetiva aplicação depende da aprovação do parlamento de cada nação envolvida, o que vai demandar pelo menos de dois a três anos para que o comércio com taxas de importação reduzidas entre em vigor.

Segundo o Ministério da Economia, no primeiro trimestre de 2019, as exportações chegaram a US$ 19,4 bilhões, o que representou 9,86% a menos em relação ao mesmo período de 2018. Como lembrou o presidente da AEB, José Augusto de Castro, o Brasil vem perdendo espaço para si mesmo, por causa da falta de reformas, da burocracia e de investimentos em infraestrutura, o que tem deixado o produto nacional sem condições de competitividade até mesmo em mercados tradicionais como a Argentina e os EUA.

Outro dado apontado pela AEB mostra que, segundo levantamento do Observatório de Complexidade Econômica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (OEC/MIT, na sigla em inglês), em 2000, 60,2% da pauta de exportações do Brasil para a maior economia do mundo eram compostos por máquinas, equipamentos e meios de transporte, mas que, em 2017, esse percentual caiu para 23,9%. Sintomaticamente, esse movimento coincidiu com a ascensão da China como grande fornecedor dos norte-americanos. Pois bem, em 2000, 7,5% das importações norte-americanas tiveram origem no país asiático. Já em 2017 esse percentual saltou para 22%.

No mesmo período, segundo a AEB, a participação brasileira nas importações norte-americanas permaneceu estável em 1,2%. Na Argentina, porém, o mercado para as máquinas brasileiras vem diminuindo ao longo do tempo. Em 2010, por exemplo, as vendas para a Argentina eram responsáveis por 19% da pauta de exportações. Em 2017, no entanto, esse percentual caiu para 13%, devido à entrada maciça de produtos chineses.

Segundo o levantamento do OEC/MIT, em 2000, eles eram responsáveis por 4,6% das importações argentinas, índice que, em 2017, subiu para 19%, enquanto, no mesmo período, a participação brasileira evoluiu apenas de 25% para 27%. Mas não foi só na Argentina: na verdade, a China vem ocupando não só o espaço dos produtos industrializados brasileiros em outros mercados como o de outros países. Basta ver que, entre 2008 e 2017, o país asiático tirou a liderança da UE no mercado internacional, segundo dados do Banco Mundial. Em 2008, a China tinha 11,1% do mercado, passando para 16% em 2017.

Seja como for, não se pode culpar a China por ocupar esse espaço, que vem sendo preenchido também por outros países asiáticos e pela Índia. Se o Brasil hoje enfrenta essa pouca procura por seus produtos industrializados culpa cabe aos seus governantes que não entenderam como importante era a inserção do País nas correntes de comércio.

Basta lembrar que o México tem tratados de livre-comércio com os EUA e Canadá (Nafta 2.0) e com a UE, além de outros onze com várias nações, enquanto a Índia tem nove tratados. Já o Chile assinou em 2002 acordo de livre-comércio com a UE e, em 2004, com os EUA e tem tratados com Panamá, China, Canadá, México, Coreia do Sul, América Central, Austrália, Peru e Turquia.

Mas só recentemente o Brasil, o principal parceiro do Chile na América Latina, assinou tratado de livre-comércio com o país andino, acordo que ainda carece de regulamentação. Em outras palavras: tudo isso explica a razão pela qual os produtos industrializados brasileiros vêm perdendo espaço no mundo. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional das Empresas Transitárias, Agentes de Cargas, Comissárias de Despachos e Operadores Intermodais (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

terça-feira, 26 de abril de 2016

Internacional - Comércio mundial à espera do TFA

SÃO PAULO – Da parte do Brasil, já nada impede que o Acordo de Facilitação do Comércio (Trade Facilitation Agreement, TFA, na sigla em inglês), da Organização Mundial do Comércio (OMC), entre em funcionamento, depois da assinatura de carta da ratificação pela presidente Dilma Rousseff, ao final de março. Mas, para que o acordo entre vigor, é preciso que dois terços dos membros da OMC, ou seja, 108 países, venham a ratificar o acordo.

Firmado em Bali, na Indonésia, durante a Conferência Ministerial de dezembro de 2013, o tratado, que visa à desburocratização do comércio exterior e à eliminação de barreiras administrativas, já é considerado histórico por ser o primeiro acordo comercial global em 20 anos. Seu texto prevê medidas voltadas à modernização da administração aduaneira, bem como rapidez e simplificação de procedimentos relacionados ao comércio exterior.  

Como se sabe, na maioria das nações, os trâmites aduaneiros são complexos e pouco transparentes, representando barreiras não-tarifárias ao comércio. Se o TFA sair mesmo do papel, os governos terão à disposição os meios mais eficazes de combate à corrupção, além de condições de colocar em prática medidas que contribuam para a redução de custos operacionais, inclusive para os setores privados.

Analisando-se o acordo, percebe-se que sua primeira seção dispõe sobre medidas para acelerar a movimentação, liberação e o desembaraço de bens, inclusive de mercadorias em trânsito. Já a segunda seção é constituída por normas de tratamento especial que permitem aos países em desenvolvimento e menos desenvolvidos determinar o momento em que farão a implementação de regras específicas do FTA em seus ordenamentos jurídicos. Por fim, a última seção contém normas que estabelecem um comitê permanente sobre facilitação do comércio na OMC e exigem que os membros da organização tenham um comitê nacional para facilitar a coordenação interna e implementação das disposições do acordo.

Com o TFA, a OMC prevê uma redução de 14,3% nos custos do comércio global. Mais: estima que haja um aumento de até US$ 1 trilhão nas exportações globais anuais. Segundo a OMC, o acordo vai permitir que as exportações dos países em desenvolvimento cresçam anualmente entre US$ 170 bilhões e US$ 730 bilhões. Já os países desenvolvidos verão suas exportações crescerem em até US$ 580 bilhões por ano. Ou seja, o acordo deverá impulsionar em 2,7% a alta das exportações mundiais por ano, provocando um acréscimo de 0,5% no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global.

Com tantos benefícios previstos, não se entende por que se demora tanto para que o tratado entre efetivamente em vigor. Afinal, já lá se vão quase dois anos e meio desde a reunião em Bali que criou o TFA. A última contagem, conforme se pode constatar no site da OMC (www.wto.org), mostra que, com a adesão da Índia e da Rússia, a 22 de abril de 2016, até agora, 77 dos 162 membros ratificaram o acordo. Quer dizer, ainda faltam 31. Nesse ritmo, talvez ao final de 2017 seja alcançado o número mínimo. Até lá, haja paciência... Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site:www.fiorde.com.br

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Brasil - O exemplo deve vir de cima

SÃO PAULO – Apesar dos veementes apelos que faz à sociedade para suportar os custos do ajuste fiscal, não se vê por parte do governo federal nenhuma iniciativa que transmita a certeza de que pretende cortar os gastos supérfluos e excessivos que, se no mandato passado garantiram a reeleição da presidente e atenderam a interesses políticos, por outro lado, causaram um rombo profundo nas contas públicas e provocaram a atual crise de governabilidade.

Nem mesmo a anunciada redução do número de ministérios chega a convencer como medida de austeridade, pois se sabe que tudo pode não passar de mera realocação de órgãos e cargos dentro das pastas remanescentes. Tampouco se vê por parte das duas casas do Congresso qualquer iniciativa para cortar gastos como se as verbas de gabinete que consomem com assessorias, combustíveis, viagens aéreas e alugueis de apartamentos não saíssem do Orçamento da União.

Em compensação, não têm faltado medidas que comprometem o funcionamento do setor produtivo. Basta ver que a sobrevalorização do dólar, que já superou com folga a casa dos R$ 4,00, vem causando estragos nas empresas importadoras de máquinas e equipamentos, que viram cair em 25% o faturamento até agosto. Com o câmbio nesse nível estratosférico e a economia nacional em baixa atividade, não há investimentos na indústria e o desemprego só faz crescer. Como não vislumbram qualquer possibilidade de melhora por enquanto, os investidores preferem aguardar tempos menos bicudos.

Do mesmo modo, a indústria química sente os efeitos da decisão do governo federal de cortar importantes estímulos à competitividade, reduzindo alíquotas de programas como o Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários (Reintegra) e o Regime Especial da Indústria Química (Reiq). Como se sabe, a alíquota do Reintegra, programa que devolvia aos empresários uma parte dos valores recolhidos como tributo nas exportações de produtos manufaturados, por meio de créditos do PIS/Cofins, que seria de 1% em 2016, passou a ser de apenas 0,1%. Já o Reiq, incentivo que prevê a redução na alíquota do PIS/Cofins para compra de matérias-primas do setor químico, foi reduzido em 50% no próximo ano e extinto em 2017. Com isso, o governo espera economizar R$ 2,8 bilhões.

Em compensação, o produto químico nacional perdeu qualquer possibilidade de competição com o estrangeiro, o que pode levar ao fechamento de várias indústrias. É de se lembrar que, no período de 1990 a 2012, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), 1.710 unidades industriais foram fechadas e 447 produtos deixaram de ser fabricados. Se isso ocorreu num período que hoje é incensado como de grande prosperidade no País, não é difícil imaginar o que vem por aí. Até porque, em 2014, o setor químico já acumulou um déficit comercial de US$ 31,2 bilhões.

Portanto, se o momento é de extrema gravidade, o que se espera é que o exemplo de austeridade venha de cima. E que o governo (em todos os níveis) também faça a sua parte. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Brasil - CPLP: um novo mercado comum

SÃO PAULO – A realização em Lisboa, em junho, do primeiro fórum organizado pela União dos Exportadores da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) marcou o nascimento de um mercado comum que, apesar de todas as dificuldades que se apresentam para viabilizá-lo, surge como o terceiro maior bloco mundial a nível econômico, levando-se em conta o Produto Interno Bruto (PIB) de cada parceiro, a população e número de consumidores. Basta ver que o bloco representa um PIB agregado superior a US$ 2,5 bilhões e mais de um milhão de empresas.

Além dos mercados internos, é de se levar em conta as diferentes regiões econômicas que estão associadas aos nove países-membros da CPLP (Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Timor-Leste), num total de 86 nações, o que equivale a um universo superior a 260 milhões de consumidores para um mercado potencial de 1,8 bilhão de habitantes, o que se traduz em número impensável de negócios.

Esse mercado já existia em potencial, mas faltava um organismo que pudesse viabilizar, estimular e promover esse intercâmbio. E, ao que parece, esse será o papel da União dos Exportadores e da Confederação Empresarial da CPLP, que nasceram depois da primeira reunião de chefes de Estado realizada, em 2014, em Díli, capital do Timor-Leste. Em função desses esforços, acaba de ser constituída oficialmente a União de Bancos, Seguradoras e Instituições Financeiras da CPLP (UBSIF-CPLP), que representa um passo decisivo para a cooperação financeira entre as nações do bloco.

Entre os países-membros da CPLP, Brasil e Portugal estão num estágio mais avançado de desenvolvimento, enquanto os países africanos e o Timor-Leste, se estão em fase embrionária, apresentam muitos recursos naturais e oferecem igualmente muitas oportunidades. Seja como for, o fato de se poder usar o português como o idioma nos negócios representa uma economia significativa nos custos, o que estimula a competitividade dos produtos.

É de se ressaltar que o fórum realizado em Lisboa permitiu que mais de 1.500 homens de negócios ali reunidos pudessem conhecer a situação empresarial de cada país, suas carências, seu sistema financeiro e jurídico e outras peculiaridades. Além disso, conheceram também os instrumentos que a CPLP criou para ajudá-los a fazer negócios, como, por exemplo, a marca CPLP, que conta com o portal Connect CPLP. Desde então, a marca CPLP começa a servir como um selo de qualidade reconhecido a nível mundial para produtos dos países-membros.

Existe também o Observatório da CPLP, que exibe os projetos de cada Estado-membro e as licitações que serão abertas. Dessa maneira, o sonho de José Aparecido de Oliveira (1929-2007), idealizador e fundador da CPLP à época em que comandava a Embaixada do Brasil em Lisboa entre 1992 e 1994, começa a se tornar realidade. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Brasil - Concorrência desleal

SÃO PAULO – Em regime presidencialista, cabe ao governo a iniciativa de resolver questões fundamentais. É o caso da chamada guerra fiscal que é caracterizada pela disputa entre os Estados pela atração de novos empreendimentos que possam estimular o desenvolvimento econômico e a consequente oferta de empregos.

Essa disputa é travada mediante concessão, à revelia da lei, de incentivos relacionados ao Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), além de incentivos financeiros e fiscais, como empréstimos subsidiados de longo prazo, concessão de terrenos, redução do Imposto sobre Serviços (ISS) pelas prefeituras, prazo mais dilatado para o pagamento de impostos e outras vantagens que vêm prejudicando as já deterioradas condições financeiras de muitos Estados.

Hoje, no Senado, discutem-se emendas ao projeto de lei nº 130/2014-complementar, que permite aos Estados e ao Distrito Federal a legalização de incentivos fiscais questionados em ações no Supremo Tribunal Federal (STF). Essas emendas já foram rejeitadas pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). É de se lembrar que substitutivo apresentado pelo senador Luiz Henrique (PMDB-SC) ao projeto original da senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), aprovado pela CAE em 4 de novembro, permite aos Estados e ao Distrito Federal a celebração de convênios para a remissão (perdão) dos créditos tributários decorrentes de incentivos instituídos em desacordo com a Constituição. Ao mesmo tempo, faculta a recriação desses benefícios. Atualmente, qualquer convênio com esse objetivo requer a adesão dos 27 secretários estaduais de Fazenda, ou seja, a aprovação do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).

Como o projeto ainda precisa ser aprovado pelo plenário do Senado e da Câmara dos Deputados, espera-se que ainda haja tempo para que o assunto seja discutido e reavaliado pela equipe econômica do novo governo. Afinal, o que se tem hoje é uma “colcha de retalhos” que está longe do que o País realmente necessita em termos de tributação. E que acabará por perpetuar um sistema em que só ganham os Estados mais poderosos, capazes de suportar o ônus das renúncias fiscais e ainda assegurar condições razoáveis de produção.

Sem contar que, hoje, esses benefícios fiscais punem exatamente aquelas fábricas tradicionais, que se instalaram nos Estados em épocas em que não vigoravam esses incentivos. E têm de concorrer em desigualdade de condições com as indústrias que se instalam agora beneficiadas com uma série de incentivos fiscais.

Portanto, para que se coloque fim a essa série de distorções e injustiças, que estabelecem uma concorrência desleal entre as empresas, é de se esperar que o novo governo disponha de um projeto de desenvolvimento industrial, que tenha por objetivo corrigir principalmente a atual sistemática de tributação das transações estaduais. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Brasil - Por um nova política industrial

SÃO PAULO – Os números de 2014 continuam a mostrar o fraco desempenho do comércio exterior brasileiro, resultado de uma política industrial adotada nos últimos 12 anos que precisa ser revista urgentemente. Caso contrário, o País corre o risco de entrar numa situação irreversível de degeneração econômica, que pode trazer consequências sociais imprevisíveis.

A título de exemplo, pode-se lembrar que, de acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações de automóveis recuaram 41,8% em comparação com 2013. Houve uma queda de 15,3% na produção e de 7,1% nas vendas, ainda que o governo tenha contemplado o setor com uma redução de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Como o mercado interno não apresenta a capacidade de absorção de outros anos e a Argentina passa por uma situação crítica, as perspectivas não são animadoras. Resultado: a indústria automotiva está com uma capacidade de produção superior à demanda que os mercados interno e externo podem oferecer.

No setor de máquinas agrícolas, o panorama não é diferente. De acordo com a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), em 2014, o mercado doméstico absorveu 68,5 mil unidades, o que representou uma queda de 17,4% em relação a 2013. A entidade atribui a retração ao fato de o governo ter restringido as regras da Agência Especial de Financiamento Industrial (Finame), subsidiária do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para a compra de máquinas agrícolas pelas pequenas e médias empresas. Além disso, a crise argentina contribuiu para a queda nas exportações: 13,4 mil unidades vendidas em 2014 contra 15,6 mil em 2013, um recuo de 12,2%.

Essa falta de apoio às pequenas e médias empresas também se reflete nas exportações de uma forma geral. Dados do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostram que as pequenas exportadoras representam apenas 1% do volume exportado, embora em número cheguem a 62% do total. Essa participação só poderá aumentar se houver maiores facilidades de acesso às linhas de crédito, além de uma redução das garantias exigidas pelos bancos para financiamento.

Numa demonstração clara de reconhecimento dos males provocados pela cegueira ideológica que caracterizou os últimos três governos, a presidente Dilma Rousseff já acertou uma visita a Washington em 2015 com o objetivo de “reabrir” o maior mercado do planeta aos produtos brasileiros. Isso poderá beneficiar especialmente o segmento de manufaturados menos sofisticados, que vêm exportando cada vez mais. É de lembrar que, em 2014, os Estados Unidos passaram a ocupar, pela primeira vez, desde 2009, o lugar de principal destino das exportações brasileiras de manufaturados.

Já os manufaturados com maior valor agregado têm dificuldades para encontrar mercado, principalmente em razão de sua falta de competitividade, como reconheceu o novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, ao lembrar que em 30 anos a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 25% para 14%. Talvez para não causar constrangimentos, evitou fazer a mesma avaliação em relação aos últimos 12 anos. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Brasil - OMC: balanço de 20 anos

SÃO PAULO – A Organização Mundial do Comércio (OMC), entidade com sede em Genebra e hoje dirigida pelo diplomata brasileiro Roberto Azevêdo,  chega a 2015, ano em que completa 20 anos de atuação, com um desafio pela frente: encontrar uma forma mais eficiente de operar, convencendo seus países-membros de que constitui ainda o melhor instrumento para conectar os mercados e promover  o desenvolvimento do comércio mundial.

Para tanto, deveria não só procurar estimular a transferência de tecnologia para países menos desenvolvidos a fim de que estes possam aumentar sua produtividade e atrair investimentos externos como tratar de concluir a Rodada Doha, com a implementação do conjunto de decisões adotadas em dezembro de 2013 em Bali, na Indonésia, que buscam a revitalização do comércio mundial. Como se sabe, o acordo deveria ter sido ratificado em julho de 2014, não fosse a oposição da Índia que só ao final de novembro concordou em assinar o tratado, depois de obter algumas garantias.

Se a OMC não conseguir cumprir essas metas, certamente, o mundo haverá de regredir ao modelo que havia no século 18, quando as regiões menos desenvolvidas serviam apenas como fornecedoras de matérias-primas para os países mais desenvolvidos. Se àquela época esse esquema funcionou, hoje, constitui uma bomba de efeito retardado que poderá levar em breves anos o mundo a uma situação explosiva.

É de se lembrar que o Brasil teve papel importante na Rodada do Uruguai (1986-1994), que culminou com a criação da entidade a 1º de janeiro de 1995 depois da assinatura do acordo de Marrakech, no Marrocos, em substituição ao Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), que começou em 1948. E que a OMC nasceu com o objetivo de fornecer uma estrutura para negociação e formalização de acordos comerciais, além de estabelecer um processo de resolução de conflitos, eliminando restrições ao comércio internacional e outras medidas que perturbem a concorrência e as relações comerciais.

Seu principal objetivo hoje seria concluir a Rodada Doha, que, lançada em 2001, foi marcada por vários pontos de discórdia que têm impedido o desenvolvimento de novas negociações. Como resultado desse impasse, tem sido registrado um número significativo de acordos de livre comércio bilaterais.

Organizações da sociedade civil brasileira e do mundo comemoraram o colapso das negociações da Rodada de Doha, a pretexto de que a liberalização do comércio de bens industriais e serviços por parte dos países do Sul, em troca da abertura de mercados no Norte para exportações agrícolas, cristalizariam um modelo em que os países em desenvolvimento continuariam como exportadores de commodities agrícolas e os países desenvolvidos como fornecedores de tecnologia e bens e serviços de maior valor agregado.

Mas, pelo que se vê hoje, não foi necessária nenhuma Rodada Doha para se chegar a esse patamar: segundo dados da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), em 2014, apenas 20% das exportações brasileiras foram de produtos manufaturados e 80% de commodities. Portanto, se a OMC precisa de uma razão de existir, essa será a de evitar o agravamento dessa tendência. Milton Lourenço – Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Brasil - Comércio exterior: é hora de reagir

SÃO PAULO – Se preciso é esgrimir números para mostrar o desastre que foi a política de comércio exterior do governo que se encerrou em 2014, aqui vão alguns dados da Organização Mundial de Comércio (OMC), entidade que tem sede em Genebra e hoje é comandada pelo diplomata brasileiro Roberto Azevêdo: em 2011, o Brasil alcançou seu melhor desempenho em meio século, obtendo 1,41% das exportações mundiais, mas, desde então, só desceu a ladeira – 1,33% em 2012, 1,32% em 2013 e 1,22% em 2014. Com isso, retornou ao patamar de 2008.

Obviamente, muitos fatores explicam essa derrocada, desde entraves e obstáculos colocados por uma infraestrutura logística interna deficiente e arcaica, até uma persistente burocracia promovida pela atuação de 17 órgãos governamentais no desempenho do comércio exterior. Sem contar que, basicamente, foram fatores externos que impulsionaram o resultado obtido em 2011, como a explosiva elevação das cotações dos produtos primários (commodities) em razão de uma considerável procura no mercado internacional por este tipo de mercadoria (minério de ferro, carvão, petróleo bruto, sal, açúcar, café, soja, alumínio, cobre, arroz, trigo e outras). É de se lembrar que mercadorias agrícolas (soft commodities) são bens cultivados, enquanto as mercadorias pesadas (hard commodities) são bens extraídos ou minerados.

Olhando-se por este prisma, como diria o conselheiro Acácio, o governo estaria isento de quaisquer responsabilidades ou culpas pela ascensão e queda da participação brasileira no comércio exterior. Mas não é bem assim. Esgrimindo-se dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), vê-se que, a partir do ano de 2000, teve início uma constante queda da participação dos produtos manufaturados na pauta de exportação do País.

Naquele ano, a participação dos manufaturados era de 59%, enquanto a das commodities chegava a 38,2%. Em 2013, já havia uma total inversão dos índices: 38,4% de manufaturados contra 59,2% de commodities. Isto porque o MDIC rotulou como manufaturados produtos como açúcar refinado, suco de laranja, etanol, óleos combustíveis e café solúvel, ainda que sejam comercializados como commodities. Em 2014, segundo dados da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), as exportações nacionais de manufaturados na pauta mundial ficaram em torno de 20%, ocupando a 33ª posição no ranking global. Enquanto isso, as exportações de commodities chegaram a 80%.

Se atingimos esse ponto, a par do cenário econômico mundial, foi porque o governo não só não fez sua parte no sentido de incentivar a produção e exportação de manufaturados como contribuiu decisivamente para a redução do mercado, ao isolar o País comercialmente, limitando sua participação praticamente ao Mercosul, sem assinar novos acordos bilaterais ou regionais.

Além disso, ao priorizar a orientação Sul-Sul, abandonou o diálogo Sul-Norte (especialmente com Estados Unidos, Canadá e México), permitindo a perda de mercados significativos para os manufaturados. Diante desse diagnóstico, o que se espera é que o governo que assume reveja esses erros flagrantes. É hora de reagir. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Brasil - Estratégia equivocada

SÃO PAULO – A opção adotada no início da década passada pelo governo Lula de diminuir a corrente de comércio (exportações/importações) com os Estados Unidos, a pretexto de reduzir uma possível dependência, mostrou-se mais uma vez equivocada. Até porque a ideologização do comércio nunca foi um caminho seguro, como bem sabem os asiáticos que fazem todos os esforços para vender seus produtos para o maior mercado do planeta.

Como sabe todo bom comerciante, melhor vender para quem pode pagar em dia do que ficar com o produto na prateleira ou vendê-lo para quem poderá ter problemas na hora de honrar o compromisso. Mesmo assim, a diplomacia comercial brasileira preferiu desdenhar o mercado norte-americano, adotando a chamada estratégia Sul-Sul que privilegiava mercados emergentes e as nações que ficam na parte inferior do mapa mundi. Como se uma estratégia implicasse necessariamente o abandono de outra...

O resultado disso é que, pelo terceiro ano consecutivo, as exportações brasileiras para a África estão em queda. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), de janeiro a setembro de 2014, o Brasil vendeu US$ 7 bilhões em mercadorias para a região contra US$ 8,7 bilhões no mesmo período em 2011, o que significa um decréscimo de 20%.

Uma das regiões com maior potencial de crescimento no mundo, a África passou a absorver maior quantidade de produtos nacionais a partir de 2003, quando o governo a escolheu como prioritária em sua política comercial, mas, desde 2011, as vendas registram queda. E isso não se dá porque a África tem importado menos do mundo. É que tem preferido optar por outros fornecedores, provavelmente em busca de preços mais competitivos e condições de pagamento mais favoráveis.

E não deveria ser assim porque, afinal, a África, em cujos principais países começa a aflorar uma classe média, busca essencialmente mercadorias em que o Brasil é competitivo, ou seja, produtos agrícolas, como soja e açúcar. É verdade que, apesar de toda a retórica do governo no início dessa estratégia comercial que se mostrou com muita frente e pouco fundo, a África tem presença modesta na pauta exportadora do Brasil (5%), mas isso não quer dizer que o seu potencial deve ser menosprezado.

Urge, portanto, uma retomada de estratégia que coloque o Brasil como fornecedor também de produtos manufaturados.  É certo que sempre se levantam incertezas quando se tenta aprofundar o relacionamento com determinados países africanos, alguns vivendo ainda conflitos internos. Mas a partir da disposição de se transformar a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em bloco econômico, podem surgir oportunidades para a intensificação desse intercâmbio. Nesse sentido, o MDIC deveria procurar formalizar o acordo de investimentos que vem sendo negociado com Angola e Moçambique desde o ano passado que, com certeza, dará maior segurança a quem pretende fazer negócios naquele continente. Milton Lourenço

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

sábado, 4 de outubro de 2014

Brasil - Mercosul: novos rumos

SÃO PAULO – Criado há quase 24 anos – mais precisamente a 26 de março de 1991 –, depois da assinatura pelos presidentes do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai do Tratado de Assunção, que constitui, na verdade, a ata de sua fundação, o Mercosul ainda causa grande apreensão a industriais, exportadores, importadores e formuladores da política de comércio exterior, todos preocupados com os seus rumos. De alcance regional, o acordo apresentou resultados animadores em seus primeiros anos: basta ver que, em 1998, os demais países do Mercosul absorveram 17% das exportações brasileiras. Mas depois entrou numa fase de retrocesso.

Em 2005, aquela fatia representava apenas 9,9% e o Mercosul seguia um caminho que poderia levá-lo ao definhamento completo. Talvez por isso, em 2006, buscou-se um “novo Mercosul” com o ingresso da Venezuela, à época comandada pelo presidente Hugo Chávez (1954-2013), o que só se efetivou em 2012. Mas, transformado em fórum ideológico pelos governos do Brasil, Argentina e Venezuela, o Mercosul não se abriu para negociações com vistas à formalização de outros acordos comerciais. Nem avançou nas reformas e na abertura econômica.

Hoje, é senso comum que o Mercosul deve passar por uma flexibilização, sem que haja rompimento entre os parceiros. Até porque a sua sobrevivência ainda é importante para o comércio e a economia dos seus sócios.  Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), entre 1991 e 2013, o fluxo de comércio entre os sócios do Mercosul aumentou 800% e o Brasil registrou saldo comercial com o bloco de aproximadamente US$ 80 bilhões, valendo-se principalmente da diversidade de sua pauta de exportação.

Essa flexibilização vai exigir o apoio dos setores industriais, que tradicionalmente sempre se opuseram à liberalização tarifária para os produtos importados.  É de lembrar que o Mercosul já firmou acordo com Chile, Colômbia e Peru para levar a tarifa a zero até 2019, mas ainda estuda a possibilidade de antecipar essa medida de desgravação, o que poderá estimular ainda mais o comércio sul-americano, que vem crescendo sobremaneira.

Se o esforço der certo, o Brasil, com certeza, ampliará seus mercados, com a criação de uma zona sul-americana de livre comércio, inclusive com a adesão da Bolívia ao acordo. Pena que o México, que forma com Chile, Peru e Colômbia a Aliança do Pacífico, não tenha sido incluído nas negociações, o que ampliaria o espectro do tratado. Seja como for, não se pode imaginar que a ampliação do Mercosul resolverá todos os problemas do País na área de comércio exterior.

É preciso recuperar o tempo perdido com a assinatura de tratados com outros países ou blocos, independente do Mercosul, que, aliás, não impede os seus parceiros de buscar isoladamente outros acordos. E seguir o exemplo de Colômbia e México. Só o México possui 12 acordos com o total de 44 países e regiões. Já a Colômbia tem tratados de livre comércio com Estados Unidos, Canadá e China e pode levar seus produtos a esses mercados com preços melhores do que os dos países do Mercosul. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Brasil - Porto de Santos: novos tempos

SÃO PAULO – A eficiência dos terminais de contêineres do Porto de Santos aumentou muito desde o segundo semestre de 2013, quando entraram em operação dois megaempreendimentos, Embraport e Brasil Terminal Portuário (BTP), que ampliaram a oferta de espaço. Até então, o Tecon-Santos, da Santos Brasil, o maior terminal de uso público de contêineres do País, fazia o que estava ao seu alcance, o que já não era pouco, mas não conseguia atender plenamente à demanda.

Inaugurado em julho de 2013, o terminal da Embraport, que tem como acionistas a Odebrecht (66,7%) e a DP World (33,3%), recebeu investimentos de R$ 2,3 bilhões, enquanto o da BTP, parceria das empresas europeias Terminal Investment Limited (TIL) e APM Terminals, investiu R$ 2 bilhões, tendo começado a operar em agosto do ano passado.

Em função disso, já se diz que a produtividade dos terminais de contêineres no maior porto brasileiro está entre as mais altas do mundo. E que seus números de movimentação por hora – principal indicador de eficiência – teriam ultrapassado os de grandes complexos portuários do mundo, como o de Roterdã, na Holanda, e o de Hamburgo, na Alemanha, aproximando-se dos portos chineses. É o que garante levantamento recente da empresa alemã de transporte marítimo Hamburg Sud, que leva em conta o desempenho na operação dos navios da classe Cap San, com até 9,6 mil TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) e 335 metros de comprimento.

Para confirmar esses números, é preciso, porém, aguardar o levantamento para 2014 do JOC Group (Journal of Commerce), empresa norte-americana que fornece dados globais de inteligência nas áreas de comércio, transporte e logística, o JOC Port Productivity Data, até aqui considerado o mais confiável ranking mundial no segmento. Em 2013, de acordo com esse ranking, os portos chineses de Tianjin, Qingdao e Ningbo foram considerados os mais produtivos. Os três terminais mais produtivos foram APM Terminals Yokohama, Tianjin Port Pacific International Container Terminal e Ningbo Beilun Second Terminal. No topo do levantamento, o porto de Tianjin registrou 130 movimentos por hora, o de Quingdao, 126, e o de Ningbo, 120.

Para se ter um termo de comparação, é de lembrar que, antes da entrada em funcionamento daqueles dois terminais, a produtividade em Santos estava em torno de 60 contêineres por hora, abaixo da média mundial, que é de 80 por hora. Roterdã, por exemplo, registra uma média de 86 por hora e o de Hamburgo, 81 por hora, conforme o 2013 JOC Port Productivity Data.  No continente americano, os mais produtivos foram os portos de Balboa, no Panamá, com 91movimentos por hora, e de Long Beach, com 88, e de Los Angeles, com 87, nos Estados Unidos.

Com a entrada em operação daqueles novos terminais, Santos ampliou sua capacidade, alcançando em 2014 até agora a média de 104 movimentos por hora, marca que não só se situa acima da média global como ultrapassa as médias que Roterdã, Hamburgo, Balboa, Long Beach, Los Angeles e outros portos alcançaram em 2013. Milton Lourenço – Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

sábado, 27 de setembro de 2014

Brasil - EUA: mais negócios

SÃO PAULO –  Os Estados Unidos constituíram, durante muitos anos, o principal mercado para os produtos brasileiros, até que foram suplantados  nos últimos tempos pela China. A diferença é que, enquanto o Brasil exporta para os Estados Unidos produtos manufaturados de elevado conteúdo tecnológico, como aviões, além de ferro-liga, petróleo em bruto, café em grão e pastas químicas, para o mercado chinês seguem apenas produtos básicos, especialmente minério de ferro e soja.

Mesmo assim, as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos continuam em alta, já que as trocas entre as duas nações chegam perto de US$ 60 bilhões por ano, ainda que pudessem estar hoje num patamar ainda maior. É de lembrar que os Estados Unidos são os maiores investidores externos no Brasil – cerca de US$ 12 bilhões em 2012 e US$ 9 bilhões em 2013.

Mais: o Brasil é o oitavo maior parceiro comercial dos Estados Unidos, tendo gerado, nos últimos três anos, raros superávits comerciais para aquele país. Afinal, sendo o maior mercado do planeta, o natural é que os Estados Unidos comprem mais do que vendam para os seus parceiros. Se isso não se dá, algo de errado há. Até porque o Brasil como economia está longe de se comparar com a nação norte-americana.

Em 2013, houve um crescimento de 76% nas exportações brasileiras para a maior economia do mundo, mas essa tendência não foi suficiente para frear o déficit comercial. Se na primeira metade de 2009 o Brasil importou US$ 2,49 bilhões mais do que exportou, nos primeiros seis meses de 2014 o saldo negativo subiu para US$ 4,73 bilhões, com a exportação dos EUA crescendo 80%. O déficit brasileiro com os Estados Unidos só não foi maior porque houve um crescimento na venda de petróleo em bruto, que depois retorna para aqui em forma de gasolina e diesel. Ora, esta é uma típica relação subalterna que já deveria ter sido superada.

Seja como for, esses números poderiam ter sido mais robustos. Basta ver que, em 2012, o comércio com os Estados Unidos representava 23,8% do total do que o Brasil exportava. Se tivesse sido mantido esse percentual, hoje a corrente de comércio entre os dois países estaria em torno de US$ 100 bilhões. O pior ano, nos últimos tempos, foi o de 2013, quando as exportações do Brasil para o mercado norte-americano caíram para o nível em que estavam em 2006, US$ 24,3 bilhões.

Com o chamado custo Brasil tirando a competitividade do produto nacional, está cada vez mais difícil vender não só para os Estados Unidos como para a União Europeia. De modo geral, o produto manufaturado brasileiro vem perdendo espaço para competidores chineses, inclusive na América Latina, o que inclui os parceiros do Mercosul, apesar das vantagens logísticas.

É verdade que o trabalho da agência oficial Apex-Brasil abriu espaço em mercados não-tradicionais, como o Oriente Médio, África, Oceania e Ásia Central, mas esse esforço foi insuficiente para reverter uma tendência de estagnação ou mesmo de queda nas exportações de manufaturados. Para piorar, houve um incremento nas políticas protecionistas dos países ricos. Os Estados Unidos, por exemplo, para sair da crise iniciada em 2008, trataram de aumentar suas exportações.

Enfrentar (e mudar) esse quadro desfavorável será o principal desafio do próximo governo na área de comércio exterior. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.