Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 29 de dezembro de 2018

Mercosul na rota de uma crise

SÃO PAULO – Se o Mercosul nunca teve poder de fogo para negociar um acordo de livre-comércio com a União Europeia (UE), pois não dispõe de tratado de grande amplitude com outro bloco, a partir de agora é que não terá cacife para dar continuidade a negociações que já duram mais de duas décadas. Provavelmente em concordância com integrantes da nova administração federal, o governo Temer, em fim de mandato, decidiu reduzir de 16% para 0% as alíquotas de importação para 41 bens de informática e telecomunicações, além de promover o mesmo corte para 535 bens de capital.

Com isso, é de se imaginar que o Mercosul não só está com os dias contados como a indústria brasileira também, pois, afinal, pressionada pelas despesas do chamado custo Brasil – infraestrutura logística deficiente, carga tributária excessiva, juros altos e burocracia aduaneira –, com a redução unilateral das tarifas para os produtos importados, não terá preço competitivo para os seus manufaturados no mercado externo e tampouco no interno.

A decisão da Secretaria Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex), publicada no Diário Oficial da União (DOU), de 11 de dezembro de 2018, coloca por terra também todo o esforço, tempo e recursos gastos pelo governo nas negociações com a UE, pois, a partir de agora, o Brasil, principal parceiro do Mercosul, se já reduziu por sua própria conta as tarifas para tantos produtos, pouco terá a oferecer aos europeus em troca de possíveis concessões.

Na verdade, a impressão que se tinha até aqui é que o Mercosul já havia cedido à UE mais do que devia e estava apenas à espera de um gesto de boa vontade por parte dos negociadores europeus. Como se sabe, os maiores obstáculos estariam no setor agrícola, onde os europeus, especialmente os franceses, não querem ceder em seu espaço um milímetro sequer para produtos sul-americanos, como carne, etanol, açúcar e arroz, impondo cotas mais baixas que as oferecidas anteriormente.

Diante disso, ao Mercosul, se sobreviver às intenções do novo governo brasileiro, só restará buscar acordos com outros parceiros, como a Coreia do Sul, o Canadá e o México, que já vinham sendo discutidos. E, quem sabe, um acordo mais amplo com os Estados Unidos, que poderia funcionar como um meio de pressão sobre os europeus com vistas a uma retomada das negociações com o Mercosul, pois, afinal, com a livre entrada de produtos norte-americanos nos mercados sul-americanos, a UE teria de oferecer mais vantagens para preservar a sua fatia.  

O problema é que, hoje, com a saída do Reino Unido do bloco, o chamado Brexit, e a impopularidade do presidente Emmanuel Macron e o ativismo dos “coletes amarelos” na França, a UE não tem condições políticas para ceder em suas negociações com o Mercosul. Pelo contrário. Essas circunstâncias aliadas à recente decisão do governo Temer de reduzir de forma unilateral tarifas de produtos, sem objetivar nenhuma compensação por parte de outros parceiros, colocaram o Mercosul na rota de uma crise que poderá ser fatal para a sua sobrevivência. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Brasil - Comércio exterior: que política?

SÃO PAULO – O governo que assume a partir de 1º de janeiro de 2019 ainda não anunciou as diretrizes que deverão nortear a sua futura política de comércio exterior, mas as declarações que escaparam de prováveis gestores de um futuro superministério da Economia até agora não permitem esperar com otimismo a formulação dessa nova orientação para o setor. O que se espera desses formuladores é que tenham bom senso para evitar maiores problemas para o País no cenário internacional, o que significa manter o Brasil neutro na guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Como exemplo da eficácia dessa política de neutralidade, é de se lembrar que a Alemanha, país-membro na União Europeia com papel de liderança no grupo, tem excelentes relações com Washington, Pequim e Taiwan. Na verdade, a futura política de comércio exterior, a exemplo daquela que é seguida pelo atual governo, deveria blindar a questão comercial da influência político-partidária, pois isso só tem produzido resultados frustrantes.

Como exemplo, basta recordar o que ocorreu à época dos governos petistas (2003/2016) que privilegiaram as relações comerciais com nações cujos governos eram alinhados a sua ideologia, com enormes prejuízos para os cofres do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Outra iniciativa do atual governo que deve ser mantida é o bom relacionamento com o Chile que deve culminar com a assinatura nos próximos dias de um acordo de livre-comércio, que inclui temas de natureza não tarifária, como comércio de serviços, comércio eletrônico, telecomunicações, medidas sanitárias e fitossanitárias, pequenas empresas, normas técnicas de produtos e propriedade intelectual.

Esse acordo deverá favorecer uma aproximação do Mercosul com a Aliança do Pacífico, formada por Chile, Peru, Colômbia e México, e também com a Parceria Transpacífico (Trans-Pacific Partnership – TPP), que inclui Chile, Brunei, Nova Zelândia, Cingapura, Austrália, Canadá, Japão, México, Peru e Vietnã, depois da saída dos Estados Unidos em janeiro de 2017.  Afinal, no âmbito do Mercosul, é preciso ainda derrubar algumas barreiras tarifárias e não-tarifárias entre o Brasil e os países sul-americanos banhados pelo Oceano Pacífico.

Para fortalecer essa futura política de comércio exterior, também seria útil que os industriais brasileiros deixassem de lado uma visão limitada a questões tarifárias, aderindo a atual tendência que levou países desenvolvidos e emergentes a buscar acordos bilaterais, regionais e inter-regionais, como provam os cerca de 400 tratados assinados nos últimos doze anos, sem a participação do Brasil.

Só assim o País conseguirá sua integração com o resto do planeta, especialmente com aquelas economias mais dinâmicas que vão favorecer o acesso à inovação e à tecnologia a partir da importação de equipamentos que estimularão a produção de manufaturados. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Brasil - México: o futuro em jogo

SÃO PAULO – Como o governo brasileiro em 2005, ao lado do argentino, boicotou a formação do Acordo de Livre-Comércio das Américas (Alca), o País agora não dispõe de um fórum comercial adequado para se defender das consequências que podem resultar da renegociação do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta), especialmente para as exportações brasileiras com destino ao México. Sem contar que essa renegociação entre Estados Unidos e México deverá afetar negativamente as tratativas que o governo brasileiro estava desenvolvendo, por intermédio do Mercosul, com o governo mexicano.

Embora a sua participação nas exportações totais do Brasil seja reduzida, em torno de 1,8%, aquele país constitui um mercado atraente para os produtos manufaturados, que merece ser preservado, ainda mais numa situação como a de agora em que cresce o fenômeno da desindustrialização e, ao mesmo tempo, aumenta a participação de commodities agrícolas e minerais na pauta exportadora. Segundo dados da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), as vendas de produtos primários no primeiro semestre cresceram 10,6% em relação ao mesmo período de 2017, enquanto as de manufaturados subiram apenas 6,6%. Para piorar o quadro, as vendas de bens semimanufaturados caíram 1,4%.

Cerca de 20% dos produtos manufaturados que o Brasil exporta para o México estão no setor automotivo, entre motores, partes e peças, mas essa participação pode ser reduzida se ficar decidido que aquele país terá de elevar o seu conteúdo regional mínimo, de 62,5% para 75%, para a venda de automóveis sem tarifas aos Estados Unidos e Canadá, além da obrigatoriedade de que alguns insumos de aço e alumínio para a indústria automotiva sejam comprados daqueles países.

A política comercial do governo de Donald Trump que dá ênfase ao protecionismo também pode afetar o setor agrícola brasileiro, se a União Europeia tiver de fazer concessões nessa área para os Estados Unidos, o que fatalmente levará o bloco europeu a recuar diante das demandas do Mercosul. Nesse caso, as vendas de commodities, que vêm crescendo de maneira significativa, também podem sofrer um impacto negativo.

Obviamente, ninguém defende um freio nas vendas de commodities, até porque esse segmento vem garantindo superávits na balança comercial, mas o que não pode ocorrer é que o País volte a ser apenas um fornecedor de matérias-primas, como ao tempo do Brasil colonial.

Portanto, o que se espera é que o governo que sair das urnas crie, a partir de janeiro de 2019, condições, inclusive com uma diplomacia comercial mais incisiva que abra mercados, para que o parque fabril brasileiro não seja sucateado ou até mesmo desativado. Até porque os produtos manufaturados, além de agregar valor, redundam na criação de empregos, o que acaba por estimular o mercado interno e faz com que o País cresça. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Brasil - Pagando por erros passados

SÃO PAULO – Dados da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) mostram que as exportações de produtos manufaturados dos últimos três anos são menores do que aquelas que o País registrou em 2007. Naquele ano, foram exportados US$ 83,9 bilhões, ao passo que em 2017 as vendas chegaram a US$ 80,2 bilhões, em 2016 a US$ 73,9 bilhões e em 2015 a US$ 72,8 bilhões. O pior é que não há esperança de que esse quadro irá se alterar em 2018, mesmo porque o volume de negócios até o meio do ano caiu 33,3%, sinalizando uma tendência que pode resultar em declínio da atividade industrial e maior capacidade ociosa.

Como se recorda, esse declínio começou em função da crise econômica que começou em 2008 nos EUA, sintomaticamente depois que o governo brasileiro da época, com o apoio da Argentina, bateu de frente com o governo norte-americano nas negociações para a formação da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca), passando a dar prioridade a um hipotético eixo de poder chamado Sul-Sul, ao lado de Índia e África do Sul, que em termos práticos poucos resultados ofereceu.

Se a Alca estivesse em vigência, provavelmente, as vendas para o mercado norte-americano continuariam em ascensão, apesar da concorrência chinesa, pois contariam com vantagens-extras como benefícios fiscais. Como exemplo, pode-se citar o México, que hoje destina para os EUA 80% de suas exportações, favorecido pelo Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), também integrado pelo Canadá. É de se ressaltar que 90% das vendas do México para o exterior são de produtos industrializados.

Já o Brasil, uma década depois, embora seja a oitava economia mundial, continua estacionado na 25ª colocação no ranking mundial, com uma participação no comércio do planeta que pouco ultrapassa 1%. Em função disso, embora tenha apresentado superávits em sua balança comercial, o País vem perdendo mercado para seus produtos industrializados, inclusive na Argentina, que tradicionalmente sempre foi o principal comprador de produtos manufaturados brasileiros. Dessa maneira, tornou-se basicamente um exportador de commodities, cujos preços são balizados por cotações do mercado internacional, além de não contarem com nenhum valor agregado e produzirem poucos empregos.

Para piorar, está prevista para 2018/2019 uma queda nos preços internacionais das commodities, o que deverá agravar ainda mais o cenário. Até julho, o superávit comercial acumulado, por exemplo, ficou em torno de US$ 33,9 bilhões, registrando uma queda de 16% em relação ao mesmo período de 2017.

Reverter esse quadro de desindustrialização não será fácil porque, ainda que o País, por intermédio do Mercosul, venha a assinar acordos comerciais com a União Europeia e com a Aliança do Pacífico, a questão fundamental é o chamado custo Brasil, ou seja, aqueles fatores internos que impedem o produto manufaturado de competir internacionalmente. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Brasil - Desindustrialização em marcha

SÃO PAULO – Quem acompanha as oscilações da pauta mundial das exportações sabe que o Brasil, nos últimos tempos, tem perdido espaço nas vendas de manufaturados, apesar dos esforços da Apex-Brasil, agência de promoção comercial do Ministério da Indústria e Comércio Exterior (MDIC), para divulgar e reforçar a imagem do produto nacional no exterior por meio de participação de empresas em feiras e simpósios no País e lá fora.

Ainda bem que as exportações de commodities têm evoluído de maneira significativa, pois pelo menos mantém em certo equilíbrio a balança comercial. Pior seria se também tivessem entrado em faixa descendente, até porque o Brasil não tem a menor influência em suas cotações. Hoje, apenas 20% das vendas brasileiras ao exterior são de manufaturados, o que permite ao Brasil uma participação modesta de 1,3% nas exportações mundiais.

Obviamente, melhor seria se fosse o inverso, pois são os manufaturados que agregam valor e criam empregos, estimulando o mercado interno. Mas isso não se dá, entre outras razões, por causa dos elevados custos que incidem sobre o manufaturado nacional. E não são apenas os impostos que recaem diretamente sobre o produto nacional que tiram o poder de competição de seu preço.

Isso ocorre até mesmo onde não se imagina que haja perdas. É o caso do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), que incide sobre o combustível dos navios que operam nas linhas domésticas. A princípio, a cabotagem nada tem a ver com o mercado internacional, mas isto não passa de um ledo engano.

Explica-se: as empresas armadoras, em função da necessidade de alcançar competitividade, têm construído navios cada vez maiores e formado joint ventures que permitem o transporte de cargas de um número cada vez maior de armadores. Acontece que, no Brasil, em razão das conhecidas deficiências de infraestrutura, há poucos portos preparados para receber esses megacargueiros. Assim, alguns portos, como o de Santos, mesmo com suas deficiências de calado, são erigidos hub ports. E muitas indústrias localizadas fora da região Sudeste são obrigadas a recorrer a um transporte doméstico de grandes distâncias, o que acaba por encarecer em demasia o produto.

O mesmo problema se dá também na importação. Ou seja, o produto chega ao porto de Santos e precisa ser transportado para outros Estados por navios de cabotagem, pois para longas distâncias o caminhão torna-se quase inviável. Sem contar a precariedade de algumas estradas. Ocorre, porém, que, enquanto o ICMS no combustível dos navios de longo curso é zerado, na cabotagem é cobrado.

Isso também tem contribuído para que a quantidade de empresas exportadoras sofra queda ano a ano, enquanto cresce de forma acelerada o número de empresas importadoras. Em outras palavras: o Brasil importa cada vez mais produtos manufaturados, reforçando o fenômeno da desindustrialização e suas consequências trágicas, como o fechamento de postos de trabalho. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Brasil - OMC: a derrota anunciada

SÃO PAULO – Não deixa de ser curioso que, num momento em que a Organização Mundial do Comércio (OMC), com sede em Genebra, é dirigida pelo diplomata brasileiro Roberto de Azevêdo, o Brasil corra o risco de ser condenado por adotar programas industriais protecionistas que são nitidamente contrários às normas aceitas pelo comércio internacional. Obviamente, nada disso ocorre por empenho do diplomata que, agora no primeiro ano de seu segundo mandato à frente do organismo, tem a obrigação de defender os princípios que regem a entidade, cuja existência sempre foi a de evitar uma escalada protecionista no mundo.

Diga-se, de passagem, que, se a condenação do Brasil vier a se confirmar – fato de que ninguém duvida –, culpa cabe exclusivamente à maneira equivocada como a política comercial externa foi desenvolvida nos 13 anos e meio de lulopetismo. Primeiro, foi a maneira sibilina como o governo brasileiro se comportou nas negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta em 1994 pelo governo norte-americano, trabalhando nos bastidores com os governos argentino e venezuelano para a inviabilização daquele possível bloco econômico, o que se deu em novembro de 2004.

O que os líderes dos países sul-americanos diziam é que, com a Alca, a indústria norte-americana iria oferecer produtos a preços mais baixos no continente latino-americano, levando ao fechamento de fábricas e ao desemprego. O que se viu, porém, é que, com o fracasso da Alca, os produtos manufaturados brasileiros perderam espaço no mercado norte-americano, o maior do mundo, o que, de fato, tem resultado no fechamento de indústrias e contribuído para o aumento do desemprego no País.

Agora, vê-se que a condenação do Brasil é resultado também daquela política equivocada, pois o processo da OMC é contra sete programas industriais que foram criados quase todos durante o período petista, levando em conta critérios de política industrial anacrônicos, que estabeleceram incentivos fiscais da ordem de R$ 25 bilhões para alguns setores privilegiados, sem que se conheçam até hoje os benefícios que tenham produzido.

Excessivamente protegidos, alguns setores industriais não têm investido em inovação, o que só tem contribuído para a perda de competitividade do manufaturado brasileiro. Com isso, o produto nacional tem-se limitado a encontrar espaço em mercados próximos.

Para piorar, essas políticas de incentivos fiscais têm contribuído para tornar mais nebulosas as relações entre as empresas e o governo, pois a busca de favores fiscais naturalmente passa por relações promíscuas entre empresários (ou seus prepostos) e aqueles que podem ajudar a que sejam concedidos, como têm mostrado as várias etapas da Operação Lava Jato. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Brasil - Prioridade para os manufaturados

SÃO PAULO – No ano de 2000, a participação dos produtos manufaturados nas exportações era de 59% e a das commodities, de 38%. Hoje, estes índices se inverteram completamente, passando a ser de 38% para manufaturados e de 60% para commodities, que são matérias-primas, que agregam pouco valor e geram poucos empregos. Os números só não são mais dramáticos porque a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), classifica como produtos industrializados os manufaturados e semimanufaturados, que incluem açúcar refinado, suco de laranja, etanol, óleos combustíveis, café solúvel e outros.

Tudo isso pode ser considerado resultado da chamada Cooperação Sul-Sul adotada pelos últimos governos populistas, que estabeleceram prioridade para o comércio com países em desenvolvimento da América Latina, Caribe, África e Ásia, abandonando o diálogo Sul-Norte, especialmente com Estados Unidos e União Europeia, o que redundou em perda de mercados para os manufaturados. Além disso, a insistência em fazer do Mercosul um fórum de debates políticos transformou o bloco numa camisa de força que impediu o País de negociar acordos comerciais bilaterais ou regionais mais amplos, provocando o seu  isolamento comercial.

Em conseqüência disso, o Brasil tem hoje uma participação no comércio mundial inferior a 1%, quando, em 2011, esse índice era de 1,41%, o maior patamar já alcançado. Mais: na década de 1980, o Brasil estava na frente de países como a China, Índia, México e Coreia do Sul na corrente de comércio internacional. Mas, hoje, essas nações estão à frente do Brasil: a China, por exemplo, responde por 13,80% de tudo o que se compra e vende no planeta; a Coreia do Sul, por 3,18%; o México, por 2,31%; e a Índia, por 1,6%.

Se não fosse a explosão de preços das commodities, a participação do País no comércio mundial seria ainda menos representativa, talvez ao redor de 0,5%. Como não tem qualquer controle sobre os preços ou quantidades decommodities no mercado mundial, o Brasil vive uma situação de extrema vulnerabilidade em sua corrente de comércio, ainda que, por sua extensão territorial, por seu agronegócio e por suas reservas minerais, esteja destinado a se tornar sempre um país exportador de peso.

Diante disso, urge que o País adote sem demora uma política de industrialização mais efetiva que estimule a recuperação da participação dos produtos manufaturados na pauta de exportação, sem deixar de manter ou elevar os atuais volumes de exportação de commodities. Para tanto, é fundamental recuperar a competitividade perdida pelos produtos manufaturados a partir de 2007, o que passa pela reforma do atual sistema tributário, que onera e adiciona custo ao produto durante o processo industrial, e por mais investimentos em sua infraestrutura de transporte. Afinal, sem custos de logística competitivos, as exportações de manufaturados continuarão a alcançar apenas os mercados próximos. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Brasil - Comércio exterior: novo ciclo virtuoso

SÃO PAULO – Se a irresponsabilidade com que os homens públicos vêm tratando as questões políticas no Brasil de hoje não abortar o reaquecimento da economia, tudo indica que o País entrará nos próximos meses em novo ciclo virtuoso. É o que se pode prever depois de se analisar alguns dados que dão sinais de uma recuperação econômica para breve.

Um desses dados é o crescimento mensal de 3,5% na produção de bens de capital ou bens de produção, que são aqueles bens que servem para a produção de outros, especialmente de consumo, como máquinas, equipamentos, materiais de construção e instalações industriais. Essa foi a taxa obtida nos primeiros cinco meses do ano em comparação com idêntico período de 2016, mesmo com uma ociosidade de 25% nas fábricas. 

Outro dado que emite sinais de otimismo é que as exportações de manufaturados têm contribuído para a reativação da indústria. De janeiro a junho, houve um crescimento de 10,1% em relação ao mesmo período do ano passado, pela média diária, com vendas de US$ 37,7 bilhões. Os semimanufaturados cresceram mais ainda: 17,5%, com uma receita no semestre de US$ 15 bilhões.

No porto de Santos, responsável pela movimentação de 27,6% do comércio exterior brasileiro, os dados não são menos otimistas. O movimento de cargas de exportação apresentou uma variação de 7% entre os anos de 2015 e 2016, enquanto na importação foi de 5,15%, segundo dados da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). Em função disso, o fluxo de navios atracados tem crescido dia após dia, com uma variação de 8,2%.

Tudo isso tem estimulado investimentos em terminais e compras de equipamentos para a ampliação dos serviços operacionais no porto. Na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), os processos em análise prevêem investimentos por parte dos terminais da ordem de R$ 900 milhões. Ou seja, a cada dia, cresce a presença da tecnologia. Basta ver que há 20 anos um navio de 500 contêineres exigia em média três dias em operação de carga ou descarga e, hoje, apenas duas horas.

Por parte da Codesp, estão previstos para os próximos anos investimentos de R$ 7 bilhões para atender à demanda de carga até o ano de 2024, quando o porto deverá alcançar a marca de 230 milhões de toneladas em movimentação. Além disso, as obras de expansão do porto nas ilhas de Barnabé e Bagres deverão consumir mais R$ 4,8 bilhões em investimentos.

Diante desses números, o que se pode esperar é que, depois de uma longa e dura fase de recuo, há de vir por aí um tempo de crescimento. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Brasil – Aviões da Embraer “voam” para os Estados Unidos

Brasília – Ao contrário da China, que concentra as importações do Brasil em produtos básicos de menor valor agregado, os Estados Unidos são hoje um dos principais mercados para os produtos industrializados brasileiros e em especial para os aviões fabricados pela Embraer. De janeiro a maio, 55,6% de um total de US$ 10,584 bilhões exportados para os Estados Unidos envolveram o embarque de manufaturados.

As aeronaves, com uma receita de US$ 943 milhões, responderam por 8,9% das vendas totais aos americanos no período. Os dados são do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

Em relação a poucos países o Brasil tem um intercâmbio comercial tão fortemente marcado por uma participação efetiva das categorias de produtos por valor agregado. Com uma alta de 83,9% em comparação com os cinco primeiros meses de 2016, as vendas dos produtos primários totalizaram US$ 1,89 bilhão, com uma participação de 17,9% no volume exportado. Em relação aos semimanufaturados, a receita atingiu a cifra de US$ 1,97 bilhão, com alta de 39,6% e participação de 18,6% nas exportações para os americanos. Por outro lado, as vendas de bens industrializados somaram US$ 5,88 bilhões, com uma alta de 85% e participação de 55,6% nos embarques totais. Finalmente, as chamadas operações especiais geraram receita no montante de US$ 835 milhões, equivalentes a uma fatia de 7,89% do total exportado.

De janeiro a maio, o petróleo foi o principal produto da pauta exportadora para os Estados Unidos. Em comparação com igual período de 2016, as vendas cresceram 258,5% para US$ 1,08 bilhão e responderam por 10% das vendas para a maior economia do planeta.

Outros produtos em destaque nas exportações foram os semimanufaturados de ferro ou aços (US$ 811 milhões e participação de 7,7%), café cru em grãos (US$ 376 milhões e 3,6% de participação) e celulose (US$ 333 milhões, correspondentes a 3,2% das vendas totais para os Estados Unidos no período). Ana Dib – Brasil in “Comex do Brasil”

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Brasil - EUA: maior intercâmbio

SÃO PAULO – Em 2016, nenhum país ou mesmo bloco importou tantos produtos industrializados do Brasil quanto os EUA, como mostram dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC): foram US$ 14,2 bilhões, o que equivale a uma alta de 2,9% em comparação com 2015. A importação de produtos de maior valor agregado teve uma participação de 61,3% de um total de US$ 23,1 bilhões exportados pelas empresas brasileiras para o mercado norte-americano.

De tudo o que foi negociado em 2016 com os EUA, os embarques de aeronaves corresponderam a 13%. Para se ter uma ideia da importância dos EUA para a indústria brasileira, basta dizer que a União Europeia (UE) importou US$ 12,6 bilhões em produtos manufaturados brasileiros, ou seja, US$ 1,6 bilhão a menos que o volume importado pelos norte-americanos. Hoje, o Brasil é o 12º país no ranking de exportações americanas e 17º em importações. 

Mais: os EUA são o segundo maior exportador do mundo e o primeiro importador. Das 50 principais multinacionais do planeta, 30 têm matriz nos EUA. Daquelas 50, as 11 principais são dos EUA. Por isso, não se pode levar em conta quando o presidente Donald Trump anuncia a intenção de adotar medidas de restrição a produtos de outros países porque os EUA não podem ser protecionistas pela simples razão de que iriam perder muito dinheiro.

Aparentemente, o que o presidente Trump quer são negociações mais equilibradas para reduzir o déficit comercial dos EUA com algumas nações. Mas esse não é o caso do Brasil. Em 2016, o Brasil registrou US$ 23,8 bilhões em importações dos EUA, gerando um déficit de US$ 646 milhões. No ano anterior, o déficit foi ainda maior, de US$ 2,4 bilhões.

Desses números, o Estado de São Paulo é responsável por 33% das exportações brasileiras e por 45% das importações, tendo acumulado em 2016 um déficit de US$ 2,4 bilhões e, em 2015, de US$ 3,5 bilhões. Ou seja, o Brasil segue na contramão do mundo, acumulando, desde 2007, déficits na relação comercial com os EUA, como se fosse um país desenvolvido em sua relação com um parceiro em desenvolvimento.

Em 2017, ao que tudo indica, a Argentina deverá voltar a ocupar a liderança no ranking dos países que mais importam produtos manufaturados brasileiros, superando os EUA, país que em 2014 desbancou exatamente os argentinos dessa posição. Pela primeira vez em três anos, no primeiro quadrimestre, a Argentina foi o país que mais importou bens industrializados brasileiros com as compras totalizando US$ 4,7 bilhões.

Obviamente, nada se tem contra esse incremento comercial com a Argentina. Pelo contrário. O que urge é que haja por parte do governo federal ações mais efetivas no sentido de melhorar a infraestrutura nacional, reduzindo o custo Brasil, para que o produto manufaturado brasileiro tenha condições de se colocar no mercado norte-americano de maneira mais competitiva. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Brasil - Argentina: boas perspectivas

SÃO PAULO – Nunca as relações entre Brasil e Argentina estiveram tão bem como agora, ao menos na questão dos números. Afinal, ao que tudo indica, neste ano de 2017, a Argentina voltará a ocupar a liderança no ranking dos países que mais importam produtos manufaturados brasileiros, desbancando os EUA, que ocupavam o primeiro lugar desde 2014, quando desalojaram exatamente os argentinos. Pela primeira vez em três anos, no primeiro quadrimestre, a Argentina foi o país que mais importou produtos industrializados brasileiros com compras que chegaram a US$ 4,7 bilhões.

Mas não é só. O mais importante é que 91,7% de todas as exportações para a Argentina foram de bens industrializados, o maior percentual obtido pelo Brasil com qualquer outro de seus parceiros comerciais. Basta ver que em relação aos EUA os produtos manufaturados responderam por 55% dos embarques brasileiros totais no quadrimestre. Destaque-se ainda que, em 2016, a soma das exportações e importações entre os dois países atingiu US$ 22,5 bilhões, com superávit de US$ 4,3 bilhões para o Brasil.

Isso se dá num momento em que a Argentina ainda continua como um país fechado, com a pressão tributária mais elevada da região, inclusive superior à do Brasil, com um alto gasto público e um problema fiscal assustador, em que as empresas locais têm poucas possibilidades de exportar, o que impede que a relação comercial entre os dois países seja ainda mais intensa. A título de exemplo, é de se lembrar que as exportações argentinas representam apenas 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Foi provavelmente em função disso que o governo de Mauricio Macri, que não chega a ano e meio, assumiu uma agenda de maior internacionalização que o anterior, procurando aproximar-se da Aliança do Pacífico (México, Peru, Chile e Colômbia), por meio do Mercosul, além de tentar destravar o projetado acordo Mercosul-União Europeia. Já o governo de Michel Temer encontra-se mais focado no plano doméstico com as reformas trabalhista e da Previdência e, agora, diante de uma crise política sem precedentes que pode afetar a recuperação econômica registrada nos últimos meses.

Nos dados elaborados pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) relativos ao período de janeiro a abril, percebe-se que as exportações de automóveis para a Argentina somaram US$ 1,4 bilhão, com uma alta de 34,5% em comparação com idêntico período de 2016. Com esse aumento, as vendas totais de manufaturados para o país vizinho registraram uma expansão de 24,6% no período.

Além dos automóveis, os argentinos aumentaram as importações de veículos de carga, que somaram US$ 586 milhões (alta de 121,4% e participação de 11% nas exportações totais), partes e peças para automóveis no total de US$ 300 milhões (elevação de 6,0% e uma participação de 5,8% nas vendas totais para a Argentina) e demais produtos manufaturados, que geraram receita no montante de US$ 187 milhões, com alta de 10,7% e participação de 3,5% nas exportações brasileiras para aquele país.

É de se destacar ainda que as exportações de manufaturados para a Argentina registraram um aumento de 24,6%, percentual bem superior aos aumentos nas vendas de produtos de maior valor agregado para outros destinos importantes, como o México (aumento de 15,5%) e a Colômbia (alta de 16,2%). Embora a situação de Brasil e Argentina seja hoje muito distinta, a perspectiva que se abre é de que as relações comerciais entre os dois países têm ainda muito a crescer, em função da proximidade e dos baixos custos logísticos em comparação com outros mercados. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Brasil - O mercado chinês, hoje

SÃO PAULO – O cenário econômico chinês está passando por enormes transformações desde a crise mundial de 2008, quando o governo local decidiu criar um mercado interno forte para reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos e à União Europeia. Mas isso não significa que seu grande mercado esteja fechado ou que não haja oportunidades para empresas estrangeiras. Pelo contrário. A China ainda enfrenta graves problemas de abastecimento e necessita não só de alimentos como de uma grande quantidade de bens duráveis. Além disso, não são poucos aqueles que se tornaram milionários na China pretensamente comunista e que, agora, sentem-se ávidos por comprar produtos de grife ou de luxo.

Em outras palavras: a China quer mudar seu modelo econômico, que estava centrado nas manufaturas para exportação, na mão de obra barata, no câmbio desvalorizado e nos grandes investimentos estatais na indústria e em obras de infraestrutura, como estradas e aeroportos. Agora, o seu foco é o de construir uma economia de consumo interno e de serviços. Como a sua população é imensa e o país não reúne condições de sozinho abastecer esse grande mercado consumidor, está claro que, hoje, muitas oportunidades para empresas estrangeiras começam a surgir por lá.

Mas, antes de tudo, obviamente, o exportador brasileiro deve fazer uma pesquisa de mercado, pois os chineses têm hábitos bem diferentes daqueles exercitados pelos ocidentais, o que pode inviabilizar a exportação de muitos produtos. Ao mesmo tempo, os asiáticos, de um modo geral, demonstram muito interesse em conhecer os hábitos de consumo do Ocidente, o que significa que podem se abrir para novas experiências.

Por exemplo: é milenar o hábito chinês de consumir chá, o que significa que haveria poucas chances de exportar café para lá. Mas, como os chineses estão se ocidentalizando, não custaria muito uma tentativa de buscar espaço para o café brasileiro. Ou ainda de vender produtos semipreparados, já que os chineses, a exemplo dos ocidentais, têm cada vez menos tempo para ficar na cozinha.

Outro mercado na China em crescimento é o de carne bovina. Como o mercado é bastante reduzido, o governo chinês está empenhado em subsidiar a produção local, que é estimada em 3 milhões de toneladas por ano. Sabe-se que o consumo per capita é de apenas 5 quilos por pessoa anualmente, mas, levando-se em conta o número de consumidores chineses, basta imaginar que o aumento desse índice para 6 quilos já equivalerá a uma drástica mudança no mercado mundial. E, se os fornecedores brasileiros participarem dessa mudança, está claro o que isso pode significar no sentido de revitalizar a economia nacional. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Brasil - Mais acordos, a saída

SÃO PAULO – Pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostrou que a ampla maioria dos empresários brasileiros que trabalham com exportações quer que o País assine acordos comerciais com Estados Unidos e União Europeia. A mesma pesquisa identificou que, para esses empresários, os principais obstáculos a uma inserção maior do produto nacional no mercado internacional estão no custo do transporte, nas tarifas cobradas por portos e aeroportos e na baixa eficiência governamental no apoio à superação de barreiras.

Dessas propostas, a mais viável hoje seria a assinatura de um acordo comercial mais amplo com os Estados Unidos, que, ainda que não estabelecesse o livre-comércio, permitisse ao produto manufaturado brasileiro recuperar o espaço perdido no mercado norte-americano, principalmente em função da política equivocada desenvolvida pelo Itamaraty desde 2003 que priorizou o relacionamento Sul-Sul, entre países subdesenvolvidos, a pretexto de minimizar possível dependência do País em relação a Washington.

Já o acordo com a União Europeia depende basicamente do Mercosul, que atravessa uma etapa extremamente conturbada, também em função da atuação atrabiliária dos últimos três governos, que preferiram transformar o bloco  num fórum de debates políticos e ideológicos, em vez de um organismo voltado apenas para o aspecto comercial. Em razão disso, o Brasil, hoje, depende basicamente do Mercosul para desovar seus produtos manufaturados, especialmente de Argentina e Venezuela. Praticamente, 80% dos produtos nacionais enviados para esses países vizinhos são manufaturados.

Portanto, se o Mercosul colocar por terra a cláusula que obriga os parceiros a assinar conjuntamente acordos com outras nações e blocos, tanto Argentina como Venezuela podem, por exemplo, firmar tratados com a China que possibilitarão a entrada de manufaturados com os quais os produtos brasileiros não poderão competir. Sem contar que o Mercosul está, praticamente, sem comando, desde que o Uruguai deixou em julho a presidência pro tempore.

Se a relação com a Venezuela passa por contratempos diplomáticos, com a Argentina voltou aos bons tempos, depois da ascensão de Mauricio Macri à presidência daquele país, como prova a recente assinatura de acordos para facilitar o comércio bilateral e reduzir a burocracia. Na América do Sul, o Brasil tem acordo de preferências tarifárias com o Peru, ou seja, não se trata de acordo de livre-comércio nem de união aduaneira. Por isso, o Peru se sentiu livre para assinar acordos mais amplos com Estados Unidos, Japão e Austrália, que acabaram por tornar irrelevantes as vantagens tarifárias que os produtos brasileiros poderiam desfrutar.

Com a União Europeia, as negociações, que se arrastam desde 1998, encontram-se à espera de análise das listas de produtos passíveis de desoneração que cada bloco apresentou em maio de 2016. Mas, a princípio, não se espera muito, a não ser novas rodadas de negociação.  Mais avançadas estão as relações entre o Mercosul e a European Free Trade Association (Efta), área de livre-comércio formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, que, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), encontram-se em fase de conclusão. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site:www.fiorde.com.br

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Uma saída para o Brasil

SÃO PAULO – Entre os 15 maiores exportadores, 14 têm suas pautas de exportação concentradas em produtos manufaturados. O Brasil não está incluído nesse seleto grupo, ocupando apenas a 25ª colocação no ranking de 2015 elaborado pela Organização Mundial do Comércio (OMC), embora tenha o 9º Produto Interno Bruto (PIB) do planeta, o que mostra que teria tudo para estar entre os 15 maiores. O fato triste nessa constatação é que, até o final de 2016, de acordo com os resultados do primeiro semestre, o País deverá cair para a 29ª colocação.

O Brasil, a exemplo do que ocorria à época colonial, ainda é visto (e assim atua) como grande fornecedor de matérias-primas. Mas com o parque industrial de que dispõe – pouco inferior ao da Coréia do Sul –, a tendência seria que fosse também grande provedor de produtos manufaturados, o que não significa que teria de deixar de continuar sendo fornecedor de commodities. No entanto, a Coréia do Sul, que está em 14º no ranking dos maiores exportadores, pouco fornece matéria-prima aos seus compradores, mas vende seis vezes mais produtos manufaturados que o Brasil.

Depois de 13 anos de má administração que levou a economia nacional ao fundo do poço, até a nossa condição de provedor de commodities está ameaçada porque o fornecimento de matéria-prima está perdendo competitividade não só porque a China não vem mantendo seu crescimento em níveis elevados como as despesas provocadas por uma infraestrutura defasada e deficiente pesam cada vez mais sobre o custo do frete.

Hoje, por exemplo, o custo do frete sobre a soja exportada representa mais de 25% do valor do produto, mas há mercadorias, como o milho, em que esse custo ultrapassa a barreira dos 50%. Como as cotações de commodities continuam a oscilar e baixar, muitos produtos podem se tornar inviáveis economicamente.

Diante disso, como as obras de infraestrutura logística seguem em ritmo lento, a saída seria que as commodities exportadas viessem a passar por um processo de industrialização ou pelo menos de agregação de valores. Mas, desde já, essa possibilidade se torna inexequível com o atual sistema tributário, que adiciona e onera custo ao produto durante o processamento industrial.

Obviamente, nas atuais circunstâncias, o que menos as autoridades fazendárias querem ouvir são sugestões de medidas que possam reduzir a arrecadação tributária. Mas a verdade é que um modelo que desonerasse o produto exportado, eliminando compensações, acúmulos de crédito ou de ressarcimento aos exportadores, haveria de estimular a economia, a tal ponto que a importação também aumentaria porque o País cresceria como um todo, especialmente com a criação de empregos e a ativação do mercado interno. E, a médio prazo, a arrecadação tributária cresceria normalmente apenas em função do crescimento da própria economia. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Brasil - Comércio exterior: agenda pragmática

SÃO PAULO – Depois de 13 anos, quatro meses e 12 dias em que a política externa não passou de retórica vazia, quase sempre sustentada por recursos saídos dos cofres do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar projetos de infraestrutura em outros países, o governo parece, de fato, empenhado em encontrar caminhos para recuperar o largo espaço perdido pelos produtos brasileiros nos mercados internacionais.

Um desses caminhos passa pelo fortalecimento do Mercosul, que precisa deixar de ser um fórum de debates políticos para se tornar aquilo para o qual foi criado em 1991, ou seja, uma união aduaneira com regras e compromissos a serem cumpridos por todos os parceiros. Um bom encaminhamento nesse sentido seria a assinatura de um acordo no âmbito do Mercosul para o setor automotivo.

Afinal, só com o bloco fortalecido, haverá condições de se negociar soberanamente com Estados Unidos e União Europeia, sem entregar as joias da casa em troca de bijuterias. Sem deixar de negociar também um acordo à parte com o Reino Unido, que, desde o dia 24 de junho, deixou de integrar a União Europeia.

É preciso ainda levar adiante a recente pretensão brasileira de participar das negociações para o Tratado Internacional de Comércio e Serviços (Tisa, na sigla em inglês), no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), rompendo com o isolamento a que o País se entregou nos últimos anos, limitado a raros acordos com economias pouco representativas. Praticamente ignorado pelos governos anteriores, o setor mundial de serviços movimenta mais de US$ 4 trilhões por ano.

Ao mesmo tempo, é necessário criar condições internas para reduzir os entraves e as deficiências que fizeram os manufaturados brasileiros perderem competitividade. Essa débâcle do produto industrializado pode ser mensurada em números: em 2000, a participação dos manufaturados nas exportações nacionais era de 50% e das commodities, 38%. Hoje, as commodities representam mais de 60%, índice que poderia ser maior se produtos como açúcar refinado, suco de laranja, etanol, óleos combustíveis e café solúvel não fossem classificados como manufaturados, embora sejam comercializados como commodities.

Obviamente, essa agenda pragmática passa pela adoção de um novo modelo que desonere o produto exportado, ao longo de toda a cadeia produtiva, o que só será possível com a reforma do atual sistema tributário, tornando-o moderno, simples e competitivo, o que significa isonomia ampla no trato das isenções, em vez de benefícios só para os favoritos da casa. Enfim, com a ampliação das exportações de manufaturados, fatalmente, crescerão as importações, estimulando a geração de empregos. Milton Lourenço – Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br