Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Mercosul: que futuro?

A decisão do governo argentino de abandonar as negociações para a ratificação do Acordo de Livre-Comércio com a União Europeia, assinado no ano passado, deixou o Mercosul em xeque, pois, sem a assinatura de um dos quatro sócios – os demais são Brasil, Uruguai e Paraguai –, o tratado não terá validade. O governo argentino do novo presidente Alberto Fernández também não aprova as negociações para a assinatura de novos tratados de livre-comércio com a Coreia do Sul, Índia, Líbano e Cingapura, que vinham em andamento, sob a alegação de que, diante do caos mundial previsto em função da pandemia do coronavírus (covid-19), o melhor é aguardar para ver o tamanho da encrenca.

É o que se pode depreender do comunicado expedido pelo Ministério das Relações Exteriores daquele país, que prevê um “quadro desolador”, já que as organizações internacionais estimam queda do produto interno bruto (PIB) nos países mais desenvolvidos, uma queda repentina no comércio global de até 32% e “um impacto imprevisível na sociedade”. Em contrapartida, Brasil, Uruguai e Paraguai não admitem paralisar as negociações com aqueles países, já que há mecanismos legais que amparam a continuidade das tratativas sem a participação da Argentina.

Isso se dá porque, apesar dos insistentes alertas dos especialistas, o Mercosul não soube criar os mecanismos necessários para que o bloco blindasse a questão comercial da influência político-partidária, tanto de esquerda como de direita. Foi assim ao tempo em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve à frente do governo brasileiro por 13 anos e meio e está sendo agora com o presidente Alberto Fernández, peronista de centro-esquerda, que, desde que assumiu, sempre se mostrou contrário à participação argentina no Mercosul. 

Seja como for, sem a Argentina, o Mercosul nunca será o mesmo. E parece caminhar em direção a sua flexibilização. Se esse for o caminho, nada melhor que o governo brasileiro aproveite o momento para buscar maior acesso à inovação e às tecnologias das cadeias produtivas globais, o que só será possível a partir do relaxamento das regras que proíbem os parceiros do bloco de assinar acordos bilaterais sem a aprovação dos demais. Nesse caso, se Paraguai e Uruguai, que têm governos afinados com o governo brasileiro, concordarem, os três parceiros ficam livres para buscar um relacionamento comercial mais aberto com outras nações.

Obviamente, se o governo brasileiro tivesse à frente do Itamaraty um diplomata especializado em comércio exterior, a situação não teria chegado a esse ponto, já que a Argentina até 2019 constituía o terceiro mais importante parceiro comercial  do Brasil no mundo e o principal na América Latina, respondendo por 5% das exportações brasileiras, atrás somente de China e Estados Unidos. E não se pode jogar fora um mercado como esse por causa de questiúnculas político-ideológicas, ainda que aquele país esteja à beira de entrar em moratória.

É claro que, mesmo sem a Argentina, o Mercosul pode continuar e manter os acordos vigentes com Índia e Israel e ratificar os tratados com Palestina, Egito e a União Aduaneira de Países do Sul da África (Sacu), bem como levar a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), que reúne 13 países latino-americanos, a se tornar uma área de livre-comércio, o que equivale a dizer sem tarifas. O que se espera é que o governo brasileiro leve adiante esse processo com a participação do setor privado, pelo menos com consultas à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Já seria bastante. Milton Lourenço – Brasil


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Milton Lourenço é presidente do Grupo Fiorde (Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Exterior) e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional das Empresas Transitárias, Agentes de Cargas, Comissárias de Despachos e Operadores Intermodais (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Por um novo Mercosul

SÃO PAULO – Depois do fracasso nas negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) em 2004, para o qual contribuíram decisivamente os governos de Brasil e Argentina na época, o Mercosul continua mergulhado no isolacionismo que tem marcado a sua atuação desde a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991, que assinalou a sua fundação. Tanto que, 26 anos depois, o bloco só conseguiu assinar tratados mais amplos com economias pouco representativas, como Israel e Egito.

Agora, além do esperado desfecho para as conversações com a União Europeia (UE) que se arrastam desde 1999, o Mercosul, que representa 250 milhões de pessoas, prepara-se para firmar acordos com duas economias bastante poderosas, que poderão significar a redenção das nações combalidas que formam o bloco.

O primeiro dos acordos que se prevê, pois as negociações estão em estágio avançado, é com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), formada por Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Miamar, Singapura, Tailândia e Vietnã. Para se ter ideia da importância desse bloco, basta lembrar que representa 9% da população mundial, reunindo 650 milhões de pessoas. Mais: é responsável por 7% das exportações e 6% das importações mundiais.

A Asean, segundo maior parceiro comercial do Brasil na Ásia, com fluxo de comércio bilateral superior a US$ 16,5 bilhões, pode oferecer oportunidades de comércio, investimentos, desenvolvimento de infraestrutura, transferência de tecnologia, educação e turismo.

O outro acordo previsto é com o Canadá, que dispõe de um mercado de compras governamentais avaliado em US$ 246 bilhões, 57% maior do que o brasileiro. Já o Mercosul oferece oportunidades nos setores aereoespacial, ciências biológicas, infraestrutura, telecomunicações e tecnologia da informação, tecnologias limpas, mineração, petróleo e gás. Embora a corrente de comércio entre Brasil e Canadá esteja abaixo do potencial existente – US$ 4,2 bilhões em 2016 contra US$ 6,6 bilhões em 2011, o maior patamar atingido até hoje –, há grandes chances de se intensificar essas relações, já que o mercado canadense é o 10º maior importador do mundo, tendo importado US$ 436 bilhões em 2015.

Obviamente, esses acordos não representam alternativas para as negociações que se travam com a UE e a Aliança do Pacífico (México, Peru, Chile e Colômbia), mas devem ser buscados conjuntamente. As negociações com a UE, por enquanto, tropeçam em discussões sobre subsídios agrícolas do bloco europeu e disputas sobre barreiras tarifárias, além do acesso a produtos industrializados a determinados mercados.

Tampouco se deve descartar a possibilidade de reabertura de negociações para um acordo com os EUA, tarefa em que o governo argentino parece mais empenhado. Seja como for, não se pode deixar de reconhecer que a inclusão do Mercosul na economia mundial passa pela assinatura de acordos com blocos ou nações mais representativas. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br