Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Um refúgio imaginário de liberdade

Em novo livro, Silas Corrêa Leite reconstitui na imaginação o que teria sido uma colônia secreta de imigrantes perto dos Campos Gerais do Paraná

                                                                                   

                                                    I

Talvez o mais profícuo e produtivo dos escritores brasileiros contemporâneos, Silas Corrêa Leite (1952) publicou, entre suas obras mais recentes, o romance Porto Garcia: no quarto escuro de meu ego sem respostas (Ouro Preto-MG, Caravana Grupo Editorial, 2025), em que volta às origens, reconstituindo e recuperando histórias de uma colônia secreta que teria existido perto dos Campos Gerais do Paraná, uma região no Centro-Leste do Estado, famosa por suas paisagens de campos nativos, relevo de arenito, forte agronegócio e rica herança do tropeirismo.

Como sugere o subtítulo que reproduz uma frase de uma música de sucesso da cantora e compositora Roberta Miranda, conhecida como Rainha do Sertanejo, Silas Corrêa Leite, nascido em Monte  Alegre-PR, hoje Telêmaco Borba, cidade localizada nos Campos Gerais, e criado em Itararé, na divisa entre São Paulo e Paraná,  surpreende com histórias que ouviu e viveu em seu tempo de juventude, buscando o que definiu como “Pasárgada ao Sul do Equador”, referindo-se ao nome da antiga cidade persa que levou o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) a idealizá-la como refúgio imaginário de liberdade. E que o autor define como “um lugar feito paraíso tropical, onde se tenta fugir de um mundo conturbado, para um recanto em que se plantando tudo dá”.

 

                                                   II

São narrativas dentro de narrativas, inspiradas no universo mágico de As mil e uma noites, clássico literário que não possui um único autor ou compositor, mas é uma coletânea de contos folclóricos de origens indiana, persa e árabe, reunidos ao longo dos séculos por narradores anônimos, que exploraram temas como amor, coragem, mistério, sabedoria e destino. E que levaram o autor a buscar a possível localização dessa cidade imaginária entre Cerro Azul, recanto mais ou menos perto de Sengés, no Noroeste do Paraná, adjunto ao Vale do Ribeira, já em território paulista, e “a mais de três horas de viagem dificultosa” de Itararé, beirando os cânions dos Campos Gerais.

Segundo o autor, teria sido o local em que se fixaram as primeiras levas de imigrantes europeus, especialmente polacos, “fugindo do anarquismo ou mesmo do fascismo”, que desembarcaram no porto de Santos e seguiram em carroças e depois pela estrada de ferro Sorocabana, chegando a Itararé, mas depois, “bem depois, sabe-se lá como, vagando, sondando, com síndrome de fugas e de se esconderem de ser o que eram, sapeando que fosse, deram naqueles ermos sem eira e nem beira”. Como diz o autor:

“O lugarejo era feito assim um recanto perdido de nunca se achar, mas que, territorialmente, era especial. Enorme e fértil extensa planície de terras com larguezas de quilômetros. Lugar bonito demais. Que se firmou com aquela gente simples e branquela. Em seguida, os contínuos descendentes dos imigrantes, e outros novos chegando atiçados com a novidade do que seria uma terra prometida (...).

 

                                                   III

Com um estilo solto, em que não faltam muitas expressões populares, Silas Corrêa Leite constrói um romance-raiz, focado em gestos simples do cotidiano, mas que foge aos padrões tradicionais, sem personagens marcantes, no qual se sobrepõem testemunhos de antigos moradores daquele burgo nascente, como se lê às páginas 179/180:

“Pois bem, lembrei ainda que, em Porto Garcia, simulacro que seja desse aventado paraíso moreno tropical tão sonhado, os habitantes de raças, etnias, credos e culturas díspares professavam várias ideias de religiões resumidas num único culto ecumênico só, com sincretismo. Mistura de rezas, orações, cantorias. E sem falsas imagens, sem falsos milagres, sem falsos santos, sem falsos concílios, sem idolatrias vis, sem a materialização da era do declínio do cristianismo ortodoxo puro. Em tese, aboliram o preceito da propriedade individual, pois tudo era cooperativamente comunitário, e todos consumiam do bom e do melhor com fartura e sustância (...).

Neste romance atípico, o autor não deixa, inclusive, de se fazer historiador e pesquisador, ao discorrer sobre o nascimento de Porto Garcia, lembrando que “ali teria havido um forte movimento de colonização, desde o distante 1853, quando então a província do Paraná foi emancipada de São Paulo”. E criada na ocasião uma colônia agrícola na região, bancada pela princesa Isabel Cristina (1846-1921), filha do imperador Dom Pedro II (1825-1891), onde se alocaram também “alguns sobreviventes de malocas de tribos indígenas dizimadas por antigos jagunços e mineradores”. E também “bastardos filhos espúrios de bandeirantes bandidos, mais alguns afrodescendentes fugidios de quilombos e senzalas que, finalmente, eram livres e felizes”. E “alguns bugres pobres coitados escapulidos da guerra do Contestado, se somando à polacaiada em sua maioria alegre, festiva e pacífica, justa e ridente”.

A rigor, trata-se de um romance que se pretende epopeia, procurando reconstituir o que teria sido o nascimento e florescimento de um logradouro para além do seu tempo histórico. E que, de certa maneira, reconstitui também o que foi a formação do povo brasileiro, originário de múltiplas etnias, que não europeias. Para tanto, o autor recorre a uma linguagem inovadora, carregada de neologismos, palavras de múltiplo sentido. E, dessa forma, procura recontar a história de Porto Garcia.

Dentro desse cadeirão étnico, ressalta a história exemplar do negro Reinaldo, “filho de pai de descendentes de judeu-português-holandês, e por parte de mãe de negro de origem ancestral angolana e mistura com índio guarani”. Um preto forte, esmerado nos estudos, que se formou em Direito, atuando como advogado, chegando a ser jurista com mestrado, doutorado, professor universitário, concursado em universidade pública, mas que nunca chegou a ser juiz, “que era seu sonho pessoal”, vítima do preconceito de uma alta corte que nunca “poderia deixar algum negro ser doutor, ser desembargador”, principalmente “se não se vendesse de mala, cuia, cartola e toga para uma branca e podre elite corrupta”. E que, resignado e triste, já descasado, deixou os pais velhinhos em Porto Garcia e “converteu-se ao neoevangelismo luterano numa cidade do chamado Grande ABC paulista”, tornando-se um pregador, “verdadeiro missionário de envergadura cristã, pescador de almas”.

 

                                                   IV

Além de contista e romancista, com mais de 30 livros publicados, Silas Corrêa Leite é poeta, letrista, professor, bibliotecário, desenhista, jornalista, ensaísta, blogueiro e membro da União Brasileira de Escritores (UBE).  Começou a escrever aos 16 anos, passando a produzir crônicas para o jornal O Guarani, de Itararé, tendo apenas o curso primário. Foi garçom num botequim e aprendiz de marceneiro, além de engraxate, boia-fria e vendedor de doce de groselha. Ainda em Itararé, foi aprovado num concurso para locutor na Rádio Clube local.

Em 1970, migrou para São Paulo, onde morou em pensões, cortiços, passou fome e dormiu na rua.  Já empregado, formou-se em Direito e Geografia, sendo especialista em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de ter cursado pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação, curso este que fez na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). É professor de Geografia e atuou como professor na rede pública e em escolas privadas na cidade de São Paulo.

Venceu alguns concursos com seus romances, artigos, poemas, letras de blues, pensagens (pensamentos-mensagens) e críticas literárias. Ganhou o Concurso Lygia Fagundes Telles para Professor-Escritor, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Foi pesquisador e bolsista em Culturas Juvenis pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores e premiado em outros concursos, como os promovidos pela Fundação Petrobrás, Biblioteca Mário de Andrade, Instituto Piaget (Portugal) e União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro.

Lançou Campo de trigo com corvos (Jaraguá do Sul-SC, Design Editora, 2007); Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora, 2013); Tibete, de quando você não quiser ser gente (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2017); Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial, 2018); O Marceneiro – a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu, 2019),  O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019); e Desjardim –  muito além do farol do final do mundo (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2023).

Nos últimos tempos, lançou Transpenumbra do Armagedon (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021); Cavalos selvagens, romance imaginativo (Curitiba, Kotter Editorial/Taubaté, Letra Selvagem, 2021); A Coisa: muito além do coração selvagem da vida (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2021); Lampejos (Belo Horizonte, Sangre Editorial, 2019); Leitmotiv: a longa estrada de fogueiras da cor de laranja: diário da paixão secreta de Anne Frank (Curitiba, Kotter Editorial, 2023), Vaca profana: microcontos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); e H2Opus (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023).

É autor ainda de Bendito Filhoromance sobre a infância do Menino Jesus (Araraquara-SP, Opera Editorial, 2023); Alucilâminas: poemas plathônicos, versos atemporais da redoma de vidro de Sylvia Plath (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); Ensaios gerais:  compêndio de críticas lítero-culturais (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2024); Alfa & Betoda poética das palavrashistorial poético das letras (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2024); Rua Frida Kahlo (São Paulo, Editora Calêndula, 2024); O ano em que faremos contato com o elo perdido (São Paulo, Namíbia Editora, 2024); e O sequestro do sonho (São Paulo, Editora Calêndula, 2024). É autor do primeiro livro interativo da rede mundial de computadores, o e-book O rinoceronte de Clarice (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2024), que foi tema de teses de mestrado e doutorado na Universidade Brasília (UnB) e na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Publicou também Porta-lapsos, poemas (São Paulo, Editora All-Print, 2005); O Homem que virou cerveja, crônicas (São Paulo, Giz Editorial, 2009); e Favela stories, contos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2022). Seus trabalhos constam em mais de cem antologias, inclusive no exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de Treton, Itália, e Christmas Anthology, de Ohio/EUA. Adelto Gonçalves - Brasil

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Porto Garcia: no quarto escuro de meu ego sem respostas, de Silas Corrêa Leite. Ouro Preto-MG, Caravana Grupo Editorial, 209 págs., R$ 80,00, 2025.  E-mails do autor: poesilas@terra.com.br; poesilas@gmail.com.  Sites do autor: www.poetasilascorrealeite.com.br; www. silascorrealeite.com

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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e  doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Silas Corrêa Leite e a ficção fantástica

Primeiro livro interativo da rede mundial de computadores, “O rinoceronte de Clarice”, que reúne contos com três finais diferentes, ganha, enfim, a esperada edição impressa

                                                                                   

                                                       I

Finalmente, chegou às livrarias e aos sites de vendas o e-book O rinoceronte de Clarice (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2024), de Silas Corrêa Leite, obra virtual que abriga onze contos fantásticos, com três finais para cada ficção: um final feliz, um de tragédia e um terceiro surrealista e politicamente incorreto. Obra pioneira e por muito tempo única no gênero, de vanguarda, tem sido um sucesso em downloads e acessos na internet, desde quando lançada em janeiro de 1998, o que valeu ao autor convites para entrevistas em programas de televisão e elogios em veículos da grande mídia impressa, pois já é considerada o primeiro livro interativo da rede mundial de computadores. 

Por seu ineditismo, mereceu ser estudada na tese de doutoramento “O livro depois do livro: a experiência literária hipertextual em Giselle Beiguelman”, de Luciana Cristina Lourenço da Silva, apresentada à Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Esta tese estuda a obra de Giselle Beiguelman (1962), artista, curadora, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (USP) e pioneira no campo da arte digital e no uso da internet e da inteligência artificial.  Além desta obra e de O rinoceronte de Clarice, a tese enfoca Miséria e grandeza do amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), e, a partir da semiótica do filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), procura entender como a literatura se encaixa neste processo e como este interfere na construção de uma leitura de fruição estética ativa em ambiente virtual.

 

                                                 II

Escritos numa linguagem direta, sem rodeios, própria para quem não tem tempo nem paciência para enfrentar a letra impressa, estes contos reproduzem com simplicidade flagrantes da vida, como se descobre logo ao se ler a primeira ficção, “Carmen”, que conta a história de uma pobre  mulher, que vivia de uma parca pensão pública, depois de uma trajetória simplória como professora de ensino primário num colégio municipal da pacata cidade de Itararé, na divisa entre os Estados de São Paulo e  Paraná, e “ficou encostada, de favor, na biblioteca-livraria da escola, até ser aposentada com laudo provisório de meio esquizofrênica”. 

Levara uma existência sozinha no mundo, até que conheceu “uma amiga perdida como ela”, conhecida como Vida, mulher “de muitos amantes, casados, solteiros, jovens, velhos, todos tristes”. O final desse relacionamento, porém, não se adianta aqui não estragar a surpresa da leitura, até porque haverá três finais opcionais à espera do leitor, que, enfim, poderá escolher o seu preferido. 

Ambientado na bucólica Itararé, como os demais, o conto que dá título ao livro conta a história de outra mulher que não quis perdoar um relacionamento extraconjugal do marido, “um executivo da área de informática, que, além de cinquentão e bonito, era bem apessoado e de família rica”. E teve de enfrentar a solidão e muitas dificuldades, “nau frágil à deriva na vida, a casa abandonada, os amigos do casal, afastados, a minguada pensão do pai das crianças que chegava com atraso, os filhos que não via direito, a sogra contra ela, alegando que poderia perdoar e manter o lar-doce-lar”.

Tudo isso a jogaria na dependência de remédios para dormir e, depois, de drogas, o que a levaria a ter alucinações, como a ver um rinoceronte dentro de casa, até que, um dia, ao rebuscar gavetas, descobriu uma arma esquecida pelo ex-marido. O resultado não se conta aqui até porque o autor oferece três finais diferentes, cada qual à escolha do leitor.

 

                                                III

Outro conto que atrai o leitor desde logo é “Pródigo”, relato extenso, com mais de 40 páginas, inspirado na parábola bíblica que consta do Santo Evangelho Segundo Lucas, capítulo 15, versículo 11. Aqui, os gêmeos Abel e Caim acabam por virar inimigos mortais, a partir do beneplácito do pai deles, um português-judeu originário de Coimbra, que viera sem nada e erguera uma fortuna, a ponto de morar numa mansão perto da Avenida Paulista, agitado centro econômico da cidade de São Paulo.

Enquanto Abel esforçava-se para ajudar o pai em seu crescimento econômico, já que sempre havia sido “um bom menino, correto, trabalhador, apegado e ordeiro, guardião da moral e dos bons costumes do clã”, Caim, desde cedo, tratara de convencer o genitor a lhe passar uma parte da fortuna que haveria de desperdiçar em farras, como um “bon vivant, bagunceiro, metido a poeta moderno, meio artista também e com forçada panca de carente”.

Depois da morte dos pais, o irmão pródigo metido à besta continuaria a gastar de maneira adoidada “o que recebera de herança imerecida”, a ponto de Abel colocar um detetive profissional de confiança para vigiá-lo e descobrir uma vida extremamente irregular: “bordéis de homossexuais, bancos de drogas com dependência de todos os tipos, inclusive heroína, saunas mistas com muita bebida importada, viagens compradas, até boates fechava e mandava chamar os amigos do alheio, feito um babaquara marajá do dianho”.

O resultado desse embate o leitor terá, obviamente, mais adiante com a leitura do desfecho, que, com os demais, oferece três conclusões opcionais. Seja como for, o que resulta deste conto que se aproxima de uma novela é uma narrativa feita de turbulências da alma, pois permeada de paixões avassaladoras da vontade. Por isso, o leitor não haverá de se arrepender por conhecê-lo, a exemplo dos demais contos aqui reunidos.

 

                                                         IV

Nascido em Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, no Paraná, morador em São Paulo-SP desde 1970, Silas Corrêa Leite (1952), além de contista e romancista, é poeta, letrista, professor, bibliotecário, desenhista, jornalista, ensaísta, blogueiro e membro da União Brasileira de Escritores (UBE).  Começou a escrever ainda muito jovem em jornais do Interior de São Paulo, tendo apenas o curso primário, quando era garçom num botequim na cidade de Itararé. Mudou-se para São Paulo, formou-se em Direito e Geografia, fez especialização em Educação na Universidade Mackenzie e extensão universitária em Literatura na Comunicação na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Atuou como professor na rede pública e em escolas privadas na cidade de São Paulo.

Venceu alguns concursos com seus romances, artigos, poemas e letras de blues. Foi premiado no Concurso Lygia Fagundes Telles para Professor Escritor, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Lançou Campo de trigo com corvos (Jaraguá do Sul-SC, Design Editora, 2007); Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora, 2013); Tibete, de quando você não quiser ser gente (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2017); Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial, 2018); O Marceneiro – a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu, 2019),  O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019); e Desjardim –  muito além do farol do final do mundo (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2023).

Nos últimos tempos, lançou Transpenumbra do Armagedon (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021); Cavalos selvagens, romance imaginativo (Curitiba, Kotter Editorial/Taubaté, Letra Selvagem, 2021); A Coisa: muito além do coração selvagem da vida (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2021); Lampejos (Belo Horizonte, Sangre Editorial, 2019); Leitmotiv: a longa estrada de fogueiras da cor de laranja: diário da paixão secreta de Anne Frank (Curitiba, Kotter Editorial, 2023), Vaca profana: microcontos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); H2Opus (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023), Bendito Filhoromance sobre a infância do Menino Jesus (Araraquara-SP, Opera Editorial, 2023); Alucilâminas (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); Ensaios geraiscompêndio de críticas lítero-culturais (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2024); Alfa & Betoda poética das palavrashistorial poético das letras (São Paulo, Editora Cajuína, 2024); Rua Frida Kahlo (São Paulo, Editora Calêndula, 2024); O ano em que faremos contato com o elo perdido (São Paulo, Namíbia Editora, 2024); e O sequestro do sonho (São Paulo, Editora Calêndula, 2024).

É autor ainda de Porta-lapsos, poemas (São Paulo, Editora All-Print, 2005); O Homem que virou cerveja, crônicas (São Paulo, Giz Editorial, 2009); e Favela stories, contos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2022). Seus trabalhos constam de mais de cem antologias, inclusive no exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de Treton, Itália, e Christmas Anthology, de Ohio/EUA. Adelto Gonçalves - Brasil

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O rinoceronte de Clarice, de Silas Corrêa Leite. Rio de Janeiro, Editora Autografia, 260 págs., R$ 24,90 (Amazon), 2024. Site: www.autografia.com.br   E-mails do autor: poesilas@terra.com.br; poesilas@gmail.com.  Sites do autor: www.poetasilascorrealeite.com.br; www. silascorrealeite.com

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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e  doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Silas Corrêa Leite: poesia com raízes populares

Em novo livro, o poeta exercita a arte dos limeriques e recupera aforismos e ditados tradicionais               

             I

Ao contrário do haikai, um tipo de poema de origem japonesa, mas muito popularizado no Brasil e exercitado por grandes nomes como Guilherme de Almeida (1890-1969), Paulo Leminski (1944-1989) e Millor Fernandes (1923-2012), o limerique, poema de forma fixa composto por cinco versos, com a primeira, a segunda e a quinta linhas terminando com a mesma rima, ainda é pouco conhecido entre os leitores de língua portuguesa. Trata-se de uma forma poética que, a rigor, não oferece muita poesia, mas que flerta com o humorismo e a irreverência, sendo utilizado para se contar uma piada ou uma boutade, de maneira criativa e concisa, ou seja, uma tirada espirituosa. Ou repetir um aforismo, explicitando uma regra ou princípio de alcance moral. 

Historicamente, o limerique tem sua origem na literatura inglesa e popularizou-se por lá no século XIX, tendo ganhado adeptos em outras partes do mundo. Supõe-se que tenha sido inspirado na cidade de Limerick, na Irlanda, onde esse estilo de poesia era frequentemente utilizado e foi desenvolvido pelo poeta inglês Edward Lear (1812-1888).   No Brasil, entre os seus mais conhecidos cultores estão Sousândrade (1833-1902), Clarice Lispector (1920-1977), Tatiana Belinski (1919-2013) e alguns poetas neoconcretistas. 

Depois de exercitar outros gêneros, Silas Corrêa Leite, autor de vasta obra publicada, apresenta agora Limeriques brasileirinhos (São Paulo, Editora Calêndula, 2024), que reúne mais de uma centena de “poemetos tropicais” ou “poemas mirins”, que não seguem necessariamente as normas fixas dessa modalidade poética e que, por isso mesmo, são chamados de “brasileirinhos”, como observa o poeta na introdução que escreveu para o seu livro. Ele lembra que foram “muitos deles trabalhados em salas de aula, para crianças, em processos didático-pedagógicos para alunos, jovens, enfim, disparates poéticos para mentes brilhantes, provocadoras, sonhadoras, criadoras e cheias de contentices e brincadeiras”.


                  II

Um bom exemplo do que se lê acima é o poemeto “Solidão sem fio”: 

  Era tão solitária, mas tão solitária, coitada / Que ligava para si mesma no número do celular / Só para ter alguma esperança ao escutar / A mensagem de sua própria voz gravada / E assim pelo menos se sentir acompanhada.

Outro legítimo limerique é este que leva como o título a sua primeira frase: 

   Era um menino sisudo / Sem eira nem beira, sem lar /Queira ser poeta, ser tudo / Tentando sua vida salvar / Alma de lã, coração de veludo.

Mas, poeta experiente, acostumado a refazer poemetos históricos, recorrer a trocadilhos, a ditos populares, o autor, como se disse, optou por abrasileirar o gênero, criando peças diferenciadas, ou seja, textos curtos e sucintos em que faz uma releitura das peças tradicionais, trabalhando as cantilenas, as invencionices, criando pequenos poemas que são quase haikais, trovinhas, quadras, tercetos, sem perder o bom humor tupiniquim. 

Entre as quadras, há algumas muito criativas e que repetem comentários que o leitor, com certeza, costuma ouvir no dia a dia. Eis um exemplo: 

  O médico / Olha para a cara da gente / Como se o doente / Fosse ele. 

Segue outro exemplo: 

   Arrisco saltar / Sem rede de proteção / E o pior risco mesmo assim / É quando eu me caio em mim.

Em poemas mais longos, a criatividade e o lirismo estão igualmente presentes. É o que se vê aqui em “Peter Pan, o poema”: 

   Metade do que sou é criança / A outra metade é adulto / Quem é meio Peter Pan não cansa / De sonhar máscara e vulto / Eu queria ser um super-herói / Mas ser humano é mesmo assim / Ser um simples mortal dói / Onde está o pó de pirimpimpim? / Metade de mim é menino / A outra metade é vã / Eu queria o meu destino / O mesmo de Peter Pan / Eu brincava com a vida / No ápice da minha infância / Imitando um Pinóquio / Escrevendo com elegância / Mas minto que vou levando / Essa triste vida ruim / Quem não sabe, vivo voando / Para um outro Eu de mim / Metade de mim escorro / A outra sonho ser Tarzan / Já que não posso ser Zorro / Eu queria ser Peter Pan.

Ou ainda em “Livro aberto”, poema em que se define como artesão do verso:

    Sou um eterno aprendiz. / Essa é a minha maior e melhor liberdade. / Sou poeta. / Essa é a minha maior rebeldia. / Estou aqui de passagem, / Essa é a minha melhor poesia. 


                    III

Nascido em Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, no Paraná, Silas Corrêa Leite, além de poeta e romancista, é contista, letrista, professor, bibliotecário, desenhista, jornalista, ensaísta, blogueiro, conselheiro diplomado em Direitos Humanos e membro da União Brasileira de Escritores (UBE). Venceu alguns concursos com seus romances, artigos, poemas e letras de blues, como o Concurso de Contos Paulo Leminski (UniOeste-PR), Concurso Lygia Fagundes Telles para Professor Escritor, da Secretaria de Educação do governo do Estado de São Paulo, Prêmio Biblioteca Mário de Andrade de São Paulo (gestão Marilena Chauí, Secretaria de Cultura), Prêmio Instituto Piaget (poesia infantojuvenil) e Prêmio Ficções Simetria (microcontos), os dois últimos em Portugal, entre outros.

Lançou Campo de trigo com corvos (Jaraguá do Sul-SC, Design Editora, 2007); Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora, 2013); Tibete, de quando você não quiser ser gente (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2017); Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial, 2018); O Marceneiro – a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu, 2019),  O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019); e Desjardim –  muito além do farol do final do mundo (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2023), entre outros.

Nos últimos tempos, lançou Transpenumbra do Armagedon (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021); Cavalos selvagens, romance imaginativo (Curitiba/Taubaté, Kotter Editorial/Letra Selvagem, 2021); A Coisa: muito além do coração selvagem da vida (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2021); Lampejos (Belo Horizonte, Sangre Editorial, 2019); Leitmotiv: a longa estrada de fogueiras da cor de laranja: diário da paixão secreta de Anne Frank (Curitiba, Kotter Editorial, 2023), Vaca profana: microcontos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); e Alucilâminas (São Paulo, Editora Cajuína, 2023). 

É autor ainda de Porta-lapsos, poemas (São Paulo, Editora All-Print, 2005); O Homem que virou cerveja, crônicas (São Paulo, Giz Editorial, 2009); Favela stories, contos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2022), e Rua Frida Kahlo, crônicas (São Paulo, Editora Calêndula, 2024). Seus trabalhos constam de mais de cem antologias, inclusive no exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de Treton, Itália, e Christmas Anthology, de Ohio/EUA. 

É autor do primeiro livro interativo da Internet, o e-book O rinoceronte de Clarice, que virou tema de dissertação de mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e de tese de doutoramento na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e foi recomendado como leitura obrigatória no mestrado de Ciência da Linguagem na Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), de São Paulo-SP. É criador do Estatuto do Poeta, traduzido para o inglês, francês, espanhol e russo. Adelto Gonçalves - Brasil

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Limeriques brasileirinhos, de Silas Corrêa Leite. São Paulo, Editora Calêndula, 128 páginas, R$ 68,00, 2024. Site: www.editoracalendula.com.br  E-mail: editora@editoracalendula.com.br  E-mail do autor: poesilas@terra.com.br Site do autor: www.poetasilascorrealeite.com.br

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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e  doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Lard, editor, 2024), lançado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Silas Corrêa Leite e a voz que vem das ruas

Nova obra do escritor reúne 33 crônicas que reconstituem o cotidiano dos mais humildes

                                                                    

                                                 I

Escritor profícuo e multifacetado, Silas Corrêa Leite tem se destacado também como cronista, com vários livros publicados nesse gênero que, embora de origem gaulesa, adquiriu naturalização brasileira, mais especificamente carioca, ao ser desenvolvido especialmente por João do Rio (1881-1921), Rubem Braga (1913-1990), Raquel de Queiroz (1910-2003), Fernando Sabino (1923-2004), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Henrique Pongetti (1898-1979), Paulo Mendes Campos (1922-1991), Sérgio Porto (1923-1968), Carlos Heitor Cony (1926-2018) e tantos outros, como assinalou o professor Massaud Moisés (1928-2018) em A Criação Literáriaprosa II (São Paulo, Editora Cultrix, 2015, pp. 102/103).

Se a crônica hoje, tal qual as resenhas ou recensões de livros, sobrevive, já desvinculada da publicação em jornais impressos diários que estão com morte decretada, é graças à veiculação em sites literários cultuados por alguns poucos mais letrados que escaparam da massificação dos últimos tempos que, praticamente, só tem produzido trogloditas capazes apenas de gritar, agredir e depredar bens culturais. Silas Corrêa Leite é ainda um desses poucos que exercitam o gênero, publicando suas crônicas em veículos digitais.

Rua Frida Kahlo (São Paulo, Editora Calêndula, 2024), seu último livro, reúne 33 desses textos, nos quais ele mantém a recriação do cotidiano por meio da fantasia, destacando flagrantes da vida real, sem deixar de lado o tom de reportagem, em que recupera a voz que vem das ruas, reproduzindo muitas das frases que são ouvidas no convívio diário ou até exercitadas, ainda que de maneira tosca, nas chamadas redes sociais. 

Como bem destacou no prefácio para esta obra o escritor Luiz Eduardo de Carvalho, se o professor, sociólogo e crítico Antônio Candido (1928-2017) talvez tenha sido um tanto excessivo ao qualificar a crônica como um gênero literário “ao rés do chão”, o eclético Silas Corrêa Leite aqui trata de reverter essa pecha, pois brinda o leitor com textos perpassados por reflexão e ironia que, “se efêmeros nas redes socais, lançam-se à durabilidade da qual nem eles próprios suspeitavam”.

 

                                                II

Na crônica que abre o livro, “Beladona e seus vários maridos”, com bastante humor, o autor traça o perfil de uma professora que sofria de libido acentuada e, depois de se casar e se descasar quatro vezes, não mais “quis alguém pra envelhecer ao seu lado” e saiu “jogando em todas as posições de ataque no time do amor”, o que equivalia a prevaricar com “os seis ex e alguns possíveis retornos de quase futuros”.

Na crônica seguinte, continua com o tema dos relacionamentos extraconjugais para, mais adiante, no texto “Curandeirismo do João Mulher”, recuperar algumas de suas lembranças de Itararé, cidade onde cresceu, na divisa entre os estados de São Paulo e Paraná, para traçar o perfil de um tipo popularesco, meio homem, meio mulher, que passa a atuar como curandeiro, sem deixar de ajudar alguns necessitados. Trata-se de uma crônica que avança no terreno do conto, ocupando dez páginas, e que mostra o preconceito de uma sociedade conservadora diante de alguém que foge aos padrões estabelecidos.  

Na crônica “A voz da filha que não há”, lê-se a história de um professor de uma escola da periferia de São Paulo que, sem filhos, vive a fugaz experiência de uma paternidade que nunca teve, ao receber o telefonema de uma aluna que o chama de pai. “Eu poderia ter desligado, claro. Xingado a voz pela falta de educação, pelo erro, por não saber o número direito, estar gastando ficha, por ter discado errado. Mas adorei aquele momento”, diz o que seria uma espécie de alter ego do autor, reconhecendo que haveria de carregar para sempre em seu íntimo aquele momento: “(...) lembrarei aquela voz da filha que não tive me chamando maravilhosamente de PAI”.

Outra crônica que se avizinha de uma confissão do autor é aquela que leva o título “Milagres acontecem (não dá para explicar)” em que o cronista rememora os seus primeiros anos na grande cidade de São Paulo, à época recém-chegado de Itararé para viver numa pensão, sem emprego, sem dinheiro para estudar, sem futuro, passando necessidade, até que encontra na rua uma alma caridosa que lhe mataria a fome. E que o marcaria para sempre, pois, tempos depois, quando já estava empregado e estudava à noite, ao decidir procurá-la para ao menos conhecer o seu nome, saberia por meio do filho dela que já morrera. E fazia pouco tempo. Chamava-se Dona Maria.

 

                                                III

Já a última crônica, que dá título ao livro, é uma singela homenagem à Frida Kahlo (1907-1954), pintora mexicana, que foi casada com o pintor mexicano Diego Rivera (1886-1957) e teve um caso amoroso com Leon Trotsky (1879-1940), escritor e um dos líderes da Revolução Russa de 1917, mas que passou para a História por sua genialidade como artista e por seus autorretratos e obras inspiradas na natureza.

Na verdade, o texto recupera a história de vida de um solteirão, bem estudado, bancário, cinquentão, nascido em Itararé, morador à rua Pica-pau, no bairro do Morumbi, na zona oeste de São Paulo, em meio a ricas vivendas cercadas por cinturões de miséria, que, certa vez, perdeu a fleugma e saiu, madrugada adentro, raspando as placas das ruas, mudando-as para rua Frida Kahlo, rua Sylvia Plath, rua Clarice Lispector, rua Elza Soares, rua Elis Regina e outras, “todas com nomes de femininas mentes brilhantes que ele amava loucamente como fã e admirador”.

Até que foi detido e levado para uma delegacia de polícia e teve de pagar fiança para ser solto e sumir das redondezas. O cronista acrescenta que todas as placas foram repintadas e recuperaram seus nomes originais, exceto aquela que recebera o nome de Frida Kahlo, que restou numa “pracinha abandonada pelos podres poderes públicos”.

Como se pode perceber, as crônicas de Silas Corrêa Leite oscilam entre a poesia e o conto, constituindo uma poetização do cotidiano, sem a pretensão de se tornarem obras literárias, porque fugazes, efêmeras. Nem por isso perderá tempo quem tiver a ventura de lê-las. Pelo contrário.

 

                                                         IV

Nascido em Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, no Paraná, morador em São Paulo-SP desde 1970, Silas Corrêa Leite (1952), além de contista e romancista, é poeta, letrista, professor, bibliotecário, desenhista, jornalista, ensaísta, blogueiro e membro da União Brasileira de Escritores (UBE). Venceu alguns concursos com seus romances, artigos, poemas e letras de blues. Foi premiado no Concurso Lygia Fagundes Telles para Professor Escritor, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Lançou Campo de trigo com corvos (Jaraguá do Sul-SC, Design Editora, 2007); Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora, 2013); Tibete, de quando você não quiser ser gente (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2017); Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial, 2018); O Marceneiro – a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu, 2019),  O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019); e Desjardim –  muito além do farol do final do mundo (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2023).

Nos últimos tempos, lançou Transpenumbra do Armagedon (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021); Cavalos selvagens, romance imaginativo (Curitiba/Taubaté, Kotter Editorial/Letra Selvagem, 2021); A Coisa: muito além do coração selvagem da vida (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2021); Lampejos (Belo Horizonte, Sangre Editorial, 2019); Leitmotiv: a longa estrada de fogueiras da cor de laranja: diário da paixão secreta de Anne Frank (Curitiba, Kotter Editorial, 2023), Vaca profana: microcontos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); H2Opus (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023), Bendito Filhoromance sobre a infância do Menino Jesus (Araraquara-SP, Opera Editorial, 2023); Alucilâminas (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); Ensaios geraiscompêndio de críticas lítero-culturais (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2024); e Alfa & Betoda poética das palavrashistorial poético das letras (São Paulo, Editora Cajuína, 2024).

É autor ainda de Porta-lapsos, poemas (São Paulo, Editora All-Print, 2005); O Homem que virou cerveja, crônicas (São Paulo, Giz Editorial, 2009); e Favela stories, contos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2022). Seus trabalhos constam de mais de cem antologias, inclusive no exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de Treton, Itália, e Christmas Anthology, de Ohio/EUA. Adelto Gonçalves - Brasil

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Rua Frida Kahlo, crônicas, de Silas Corrêa Leite, com prefácio de Luiz Eduardo de Carvalho. São Paulo, Editora Calêndula, 154 págs., R$ 90,00, 2024. Site: www.editoracalendula.com.br   E-mail do autor: poesilas@terra.com.br Site do autor: www.poetasilascorrealeite.com.br

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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e  doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br



sábado, 23 de março de 2024

Uma visão da literatura brasileira de hoje

Nova obra de Silas Corrêa Leite, “Ensaios Gerais”, reúne resenhas e breves ensaios que valorizam os autores nacionais

                                                                                   

                                                             I

O romancista, contista, poeta e ensaísta Silas Corrêa Leite acaba de reunir em livro resenhas, críticas literárias, artigos e breves ensaios publicados nas duas últimas décadas em jornais, revistas e sites, direcionados especialmente às obras de autores brasileiros, entre os que já fazem parte da história da literatura nacional e outros, mais jovens, que ainda buscam o reconhecimento da crítica e dos historiadores, sem deixar de analisar também alguns clássicos da literatura mundial. O resultado está em Ensaios Gerais: compêndio de críticas lítero-culturais, lançado pela Caravana Grupo Editorial, de Belo Horizonte, editora que, em seu início, chamava-se Sangre Editorial e produzia apenas formatos artesanais, costurados manualmente, em sua oficina de Buenos Aires.

O autor, que revela ter iniciado seu trabalho como crítico com a análise de um romance pseudopolicial do músico Tony Bellotto, dividiu sua obra em três partes. Na primeira, estão resenhas dedicadas a obras publicadas pela Editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP, do romancista e editor Nicodemos Sena, entre as quais se destacam Selva trágica, de Hernâni Donato, Sal da Terra, de Caio Porfírio Carneiro, Ventos gemedores, de Cyro Mattos, A maldição de Ondina, do luso-moçambicano António Cabrita, Tratado de anjos afogados, de Marcelo Ariel, O homem deserto sob o sol, de Edivaldo de Jesus Teixeira, e Gente pobre, de Dostoievski (tradução de Luis Avelima).

A segunda parte reúne críticas variadas, que incluem textos sobre Angústia, de Graciliano Ramos, e Memória de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez, entre outros. Já na terceira parte, a mais extensa, estão recensões de obras de autores clássicos como Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar, de poetas como Oleg Almeida, Nicolas Behr e Solivan Brugnara e até do clássico Escritores Brasileiros do Século XX, da professora, ensaísta e crítica literária Nelly Novaes Coelho (1922-2017), entre outras.

 

                                                         II

A propósito de 2024 marcar os 40 anos da tragédia da vila Socó, em Cubatão-SP, é de se destacar a resenha dedicada aos versos que inspiraram o poeta cubatense Marcelo Ariel e fazem parte do livro Tratado de anjos afogados. Vila Socó, que, certamente, homenageava uma cidade bíblica da planície de Judá (Ver 1Reis 4:10), era um aglomerado de palafitas levantado em região de mangue que foi destruído por um incêndio que matou pelo menos 93 pessoas, provocado por vazamento de combustível de uma tubulação que ligava uma refinaria da Petrobras ao terminal da Alemoa, em Santos-SP.

Silas Corrêa Leite observa que, “em meio ao monturo, Marcelo Ariel vaza poemas-lágrimas, poemas duros, tristes, contundentes, assustadoras lascas de seu meio”, acrescentando que, em seus versos, “os perdidos nas estrofes sujas da mais descarnada vida são literalmente revivificados”. Ao final, define: “Marcelo Ariel escreve poemas como quem recupera, com sua placa mãe de captura em alta sensibilidade, os suspiros dos sentenciados; como ainda um pior castigo-condenação do que ter que existir”.

Já num ensaio mais longo, de dez páginas, comenta Peregrinações amazônicas: História, Mitologia e Literatura, do professor Fábio Lucas, definindo-o como “obra-prima, um dos melhores livros de literatura brasileira de todos os tempos”. E confessa que saiu “da leitura da obra como se tivesse saído de uma universidade, de um curso de pós, especialização, extensão”. É de se lembrar que o livro analisa obras de autores clássicos como Euclides da Cunha, Benedito Nunes e Ferreira Gullar e vários ligados diretamente às regiões amazônica, norte e nordeste, como Márcio Souza, Benedito Nunes, Lindanor Celina, João de Jesus Paes Loureiro, Nicodemos Sena, Nauro Machado e Clauder Arcanjo, entre outros. 

Obras de outros poetas de fora do eixo Rio-São Paulo também são discutidas e analisadas por Silas Corrêa Leite. Entre esses, estão o cuiabano Nicolas Behr. “poeta marginal, poeta mimeógrafo, poeta xerox, poeta com unhas e acnes, cunhas e carnes, com larvas poéticas e lavras, com seu poetar bem-brasília em formas, cortes, curvas e rasgos neoexistencialistas”; e o bielo-russo naturalizado brasileiro Oleg Almeida, com seus “poemas hiperbóreos que são as lágrimas hedônicas-tropicais”.

Enfim, quem se dispuser a ler este livro de Silas Corrêa Leite, com certeza, para seguir o exemplo citado pelo próprio autor, terá a oportunidade de fazer informalmente um curso de pós-graduação em literatura brasileira.

 

                                                         III

Nascido em Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, no Paraná, Silas Corrêa Leite (1952), além de contista e romancista, é poeta, letrista, professor, bibliotecário, desenhista, jornalista, ensaísta, blogueiro e membro da União Brasileira de Escritores (UBE).

Dono de vastíssima obra publicada, é autor de Campo de trigo com corvos (Jaraguá do Sul-SC, Design Editora, 2007); Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora, 2013); Tibete, de quando você não quiser ser gente (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2017); Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial, 2018); O Marceneiro – a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu, 2019), e O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019);

Nos últimos tempos, lançou Transpenumbra do Armagedon (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021); Cavalos selvagens, romance imaginativo (Curitiba/Taubaté, Kotter Editorial/Letra Selvagem, 2021); A Coisa: muito além do coração selvagem da vida (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2021); Lampejos (Belo Horizonte, Sangre Editorial, 2019); Leitmotiv: a longa estrada de fogueiras da cor de laranja: diário da paixão secreta de Anne Frank (Curitiba, Kotter Editorial, 2023), Vaca profana: microcontos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023),  Alucilâminas (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023), Desjardim: muito além do farol do fim do mundo (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2023) e H2 Opus, poemas (São Paulo, Editora Cajuína, 2023).

É autor ainda de Porta-lapsos, poemas (São Paulo, Editora All-Print, 2005); O Homem que virou cerveja, crônicas (São Paulo, Giz Editorial, 2009); e Favela stories, contos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2022). Seus trabalhos constam de mais de cem antologias, inclusive no exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de Treton, Itália, e Christmas Anthology, de Ohio/EUA.

É autor do primeiro livro interativo da Internet, o e-book O rinoceronte de Clarice, que virou tema de dissertação de mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e de tese de doutoramento na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). É criador do Estatuto do Poeta, traduzido para o inglês, francês, espanhol e russo. Adelto Gonçalves - Brasil 

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Ensaios Gerais: compêndio de críticas lítero-culturais, de Silas Corrêa Leite. Belo Horizonte: Editora Caravana, 316 págs., R$ 60,00, 2023. Site: www.caravanagrupoeditorial.com.br  E-mail: caravanagrupoeditorial@gmail.com  E-mail do autor: poesilas@terra.com.br Site do autor: www.poetasilascorrealeite.com.br­­­­­­­­­­­­

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br