Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 20 de março de 2026

Macau - Luís Gonzaga Gomes, uma “figura incontornável” do diálogo cultural luso-chinês

Faz precisamente hoje 50 anos que faleceu Luís Gonzaga Gomes, figura multifacetada da sociedade e cultura de Macau no século XX. Ao longo da sua vida, o reputado sinólogo em língua portuguesa, também professor, escritor, jornalista e poliglota, contribuiu para o enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês


Assinalando a efeméride, o Jornal Tribuna de Macau registou alguns testemunhos sobre o ilustre macaense. “Foi um defensor do ensino da língua chinesa nas escolas de Macau”, realça João Guedes, jornalista e investigador. “Admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de arte e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica”, confessa Jorge Rangel, aluno. “Difícil era adivinhar a sabedoria gigante que estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais do que as palavras”, frisa Beatriz Basto da Silva, historiadora. “E eu que viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro também o extraordinário Luís Gonzaga”, destaca José Carlos Canoa, professor.

Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907 e faleceu a 20 de Março de 1976, portanto há exactamente meio século. Figura multifacetada da sociedade e cultura local no século XX, foi professor, tradutor, filólogo, escritor, investigador, historiador, etnógrafo, sinólogo, jornalista, bibliotecário e arquivista, museólogo e coleccionador de arte. Ocupou vários cargos, entre os quais o de conservador do Museu Luís de Camões, director da publicação Arquivos de Macau, director-bibliotecário da Biblioteca Central de Macau e presidente da Comissão Administrativa do Leal Senado.

Para além disso, desempenhou funções em organismos da sociedade civil, nomeadamente presidente do Rotary Clube, secretário do Círculo de Cultura Musical e do Círculo Cultural e também director da Emissora de Macau, correspondente da Agência ANI, e chefe de redacção e administrador da revista Renascimento.

Luís Gonzaga Gomes começou a escrever aos 14 anos, quando frequentava o Liceu de Macau, onde foi aluno de Camilo Pessanha e colaborou no jornal A Academia. Deu aulas no ensino primário durante 24 anos, ao mesmo tempo que aprofundou os seus conhecimentos da língua chinesa.

Ao longo da vida, trabalhou muito no sentido do enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês, efectuando traduções e compilações, com destaque para uma tradução de “Os Lusíadas” contados às crianças.

Um conjunto de artigos com mais de 30 volumes publicados e cerca de duas dezenas de jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu, “atestam bem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou de contribuir para o intercâmbio cultural luso-chinês”, como mencionou a antiga professora macaense Graciete Batalha no prefácio do livro Macau Factos e Lendas.

Segundo testemunhos da época, um dos quais relatado pelo Padre Manuel Teixeira, que com ele privou, “além da sua actividade profissional, nos tempos livres, Luís Gonzaga Gomes representou Macau em jogos de ténis diante de Hong Kong, tocou violino, participou como cantor em concertos e programas de rádio e adaptou e foi actor em peças radiofónicas”.

No entanto, era conhecido por ser uma pessoa solitária, dedicada aos seus trabalhos de investigação. “Ele foi o melhor e o mais prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra, mas tão modesto que se escondia no pó dos Arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento”. “Era um verdadeiro anacoreta”, escreveu Manuel Teixeira.

Reconhecimento menor do que merecia

O nome de Luís Gonzaga Gomes foi dado a uma rua de Macau situada na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, conhecida pela sua localização central perto do Jardim das Artes e da Universidade Politécnica. O ilustre macaense viu também o seu nome atribuído à Escola Secundária Luso-Chinesa, a qual ostenta a imagem do escritor à entrada do edifício localizado na Avenida Sidónio Pais, perto da Praça do Tap Seac.

Em 1977, terá sido colocado o seu busto numa sala do extinto Museu Luís de Camões e, em 1984, outro seria erguido no Jardim de S. Francisco de onde seria por sua vez retirado.

“Ambas as obras tinham sido esculpidas por Oseo Acconci, artista italiano que emparceirava então com Luís Gonzaga Gomes no restrito universo da cultura local do pós-guerra”, diz o jornalista e investigador João Guedes.

Em jeito de introdução, faz referência aos cinco anos da “Guerra do Pacífico”, durante os quais Macau se viu envolvido “numa vertigem festiva e exuberante tão extemporânea quanto contrastava com o drama bélico em que se submergia a província de Guangdong”. Porém, essa vertigem, assinala, “não era o culminar de um século de desenvolvimento por vezes frenético, mas sempre febril, mas antes o limiar de um inexorável percurso descendente que perdurou por décadas exaurindo-se lentamente na crise”.

De um “brilhante” entreposto entre a China e o Ocidente que tinha sido, Macau “deixava-se agora afogar no marasmo e no cansaço em que o filósofo francês Bernard Henry Levy o iria encontrar quando visitou a cidade e as ilhas vinte anos mais tarde, em finais dos anos setenta do século, mergulhado na lassidão”, descreve.

A cultura, “uma das áreas universalmente sempre mais afectadas pelas crises, não ficou de fora e também embarcou na procura de outros mundos”. Os que ficaram, sublinha João Guedes, “não foram muitos”. Entre eles contava-se Luís Gonzaga Gomes, que, embora “capaz de muito nas áreas das letras e da cultura em geral, era-lhe, porém, impossível carregar sozinho sobre os ombros tão despovoado universo”.

Por isso “o que viria a fazer, e foi muito, dispersou-o talvez demais, o que contribuiu, sem dúvida, para que o reconhecimento da posteridade fosse menor do que deveria ter sido e não maior do que merecia”, admite.

Defensor do ensino da língua chinesa

Citando alguns excertos de um artigo publicado pelo professor Fernando Ulisses Mendonça Serafim, o produtor de programas sobre História de Macau, emitidos na televisão local, refere que a posição de director do Arquivo Histórico que Luís Gonzaga Gomes assumiu, terá contribuído para a unanimidade dos estudiosos da historiografia do território o considerarem figura incontornável “para quem pretendia criar alguma reconstituição da aventura portuguesa em Macau, sem avaliar o quanto foi importante para a visualização das mazelas da Macau do seu tempo, bem como para a leitura desse riquíssimo espaço de interacção entre as culturas chinesa e portuguesa”.

O mesmo académico brasileiro afirmou também que Luís Gonzaga Gomes foi um intelectual cujo rigor ajudou a estabelecer uma identidade macaense em termos documentais e científicos. Coligiu algumas “lendas e narrativas” correntes na Macau do seu tempo, “trabalho que terá evidenciado o quanto o mito, representado por tais narrativas, pode ter auxiliado na fixação identitária”.

João Guedes destaca a toponímia de Macau, “que dedicou nome a Luís Gonzaga Gomes numa via pública da cidade”, e também a criação de um prémio escolar, para além da escola com o seu nome.

Depois de tudo isto, expressa, “resta ainda assinalar que, ao longo da sua vida, foi um defensor do ensino da língua chinesa nas escolas de Macau, conceito pioneiro que desencadeava então notórios preconceitos e acesos debates”.

Concluindo, interroga-se: “Depois de tudo, qual a razão da pequenina constelação do universo da cultura de Macau ter relegado Luís Gonzaga Gomes para as luzes de menor grandeza de imerecida segunda fila?”.

Reservado, mas com diálogo “enriquecedor”

O Jornal Tribuna de Macau ouviu outras histórias, acontecimentos e testemunhos pessoais contados por investigadores e também por um aluno de Luís Gonzaga Gomes.

“Conheci-o pessoalmente quando, ainda aluno da Escola Primária Oficial, ia duas ou três vezes por semana à sua residência, para as lições de violino que recebia da sua irmã, professora Margarida Gomes”, começou por dizer Jorge Rangel. “Antes e depois das lições, procurava, sempre que possível, falar com ele e admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de arte chinesa e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica”, contou.

O actual presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), em cuja sede se pode encontrar a sala Luís Gonzaga Gomes, lembra os tempos em que era aluno do sinólogo no liceu. “Embora reservado, pude manter com ele um diálogo sempre interessante e enriquecedor, sobre Macau, a arte e a cultura chinesa, a música e, sentindo nele momentos raros de visível entusiasmo, sobre o movimento rotário internacional e sobre os projectos que desenvolveu abnegadamente em variados organismos locais”.

Já na universidade, em Portugal e no estrangeiro, Jorge Rangel continuou a contactá-lo, “trocando alguma correspondência e publicações e visitando-o durante as férias”.

O antigo membro do Governo local salienta que, depois de cumprido o seu serviço militar nos Açores e na então Guiné Portuguesa, regressou a Macau em 1975, meses antes do falecimento de Luís Gonzaga Gomes. “Pude participar nas homenagens que lhe foram prestadas, pelo Governo, pelo Leal Senado e pelo Rotary Clube, de que fomos ambos presidentes”, frisou.

Oito anos depois, a 20 de Março de 1984, o antigo deputado da Assembleia Legislativa (AL) teve “o privilégio de presidir à instalação do busto de Luís Gonzaga Gomes no Jardim de S. Francisco e fazer o elogio, juntamente com a professora Graciete Batalha, daquele que foi um dos mais insignes filhos desta terra”.

Também como responsável pela Educação e Cultura no mandato do Governador Almeida e Costa, Jorge Rangel recorda que Luís Gonzaga Gomes interveio “decisivamente” no lançamento do ensino secundário luso-chinês e na criação da Escola Luso-Chinesa que ostenta o seu nome. Mais tarde, já no âmbito do IIM, coordenou sessões de apresentação de obras republicadas de Luís Gonzaga Gomes ou de trabalhos sobre a sua vida e obra.

Para além disso, “envolvi-me, muito empenhadamente, em 2007, nos actos comemorativos do centenário do seu nascimento, quando foram realizadas várias sessões evocativas, reactivado o cenáculo que ostenta o seu nome e inaugurado um salão com o seu nome na sede do IIM, onde funciona presentemente o Centro de Estudos da Diáspora e da Identidade Macaense”, menciona.

Jorge Rangel considera importante que Macau, os organismos culturais e as associações macaenses continuem a promover uma ampla divulgação da sua obra junto das novas gerações. “Recordá-lo-ei sempre, com saudade e admiração”, vinca.

Anonimato como “zona de conforto”

Beatriz Basto da Silva fala também do contacto pessoal e profissional que manteve com a figura que agora é lembrada por altura do meio século desde o seu falecimento. “A figura de Luís Gonzaga Gomes ficou-me gravada nos poucos anos que tive ocasião de com ele privar em Macau (1970-1976)”, confessa.

A historiadora nota que o ilustre macaense ficou conhecido entre os seus amigos e conterrâneos por ser poliglota, investigador, escritor, melómano, professor. “Mas talvez esses amigos não possuam um cartão de visita seu, recebido em troca do meu quando nos conhecemos”. “Guardo-o com estima”, enfatiza.

A antiga deputada na AL considera que Luís Gonzaga Gomes “era uma pessoa discreta no trato, como se o anonimato fosse para ele uma zona de conforto”, adiantando que “difícil era adivinhar a sabedoria gigante que estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais do que as palavras”, sendo na solidão que “rompia fronteiras e viajava pelo mundo”.

A música era, apenas e só, admitida como sua companhia. “Estudava, escrevia o fruto das suas investigações, correspondia-se em várias línguas com especialistas das mais variadas áreas, consultava catálogos para encomendar aquilo que, na sua modéstia, lhe falecia”, apontou.

Quando Beatriz Basto da Silva aceitou, “por motivos vários”, assumir a missão de dirigir o Arquivo Histórico, criado em 1979, contou com a “presença tutelar” do professor António da Silva Rego, “sem o qual me sentiria, como diz Virgílio na ‘E-neida’, a nadar sozinha no imenso abismo”. Mas, o “erudito professor achara tudo simples, tudo se foi fazendo e a obra cresceu”, revela.

Não contando com instalações apropriadas, foi cedido o salão enorme da Mansão de Sir Robert Ho Tung onde outrora Luís Gonzaga Gomes, como presidente do Círculo de Cultura Musical, organizava concertos.

Como eco desses “gloriosos tempos” restava o piano, solitário, num canto do estrado/palco e o vazio que foi sendo preenchido com estantes metálicas que foram acomodando as caixas com documentos e os fundos arquivísticos solicitados aos diversos serviços. “Alguns vinham cobertos de poeira sedimentada pela humidade onde tinham estado esquecidos, ou meio-desfeitos pela formiga branca, pedindo urgente desinfestação”, recorda.

Àquelas acomodações provisórias, acrescenta, sucedeu um novo edifício, entretanto recuperado no Tap Seac, e só nessa altura foi entregue ao espólio e à guarda do Arquivo a rica biblioteca pessoal de Luís Gonzaga Gomes. “As peças eram tão numerosas que numa primeira impressão, necessariamente sincrónica, só percebemos que se abria uma luz intensa para o estudo da História de Macau”, sustenta a investigadora.

Sob o título de “Bibliografia Macaense”, o escritor publicara em 1973, na Imprensa Nacional de Macau, a obra que serviria de “Bíblia” para identificar o acervo recém-chegado. “Um verdadeiro tratado indispensável para acompanhar a documentação arquivística: fundos, tratados nacionais e internacionais, documentos avulsos, enfim, ficou claro que o Arquivo só existia com aquela Biblioteca e que esta era um verdadeiro ‘farol’ para o Arquivo”, afirma Beatriz Basto da Silva.

Assinala também que foram atribuídas cotas, verificadas que a maioria das entradas na “Biblioteca Macaense” correspondia fisicamente aos livros da colecção particular que “tínhamos em nossas mãos” e que o “insigne macaense tratou com mestria de documentar este legado”.

Esta experiência pessoal, observa, “só é partilhada porque a vivenciei”, sendo “um profundo preito de homenagem a Luís Gonzaga Gomes, um macaense ímpar que ocupou a tão breve (68 anos) vida fazendo render com generosidade os seus eclécticos talentos”.

Obra lega uma visão de Macau e suas gentes

Antes de falar de Luís Gonzaga Gomes, José Carlos Canoa, docente de português no Instituto Português do Oriente, em Macau, revelou ao JTM que uma das razões que o trouxe para o território, “foi vir no encalço do rasto de Luís de Camões”, adiantando que tinha iniciado em 2017 um projecto de investigação sobre um comentador da obra do Poeta.

Entretanto, como editor do “Luís de Camões – Directório de Camonística” “conheci em Lisboa Eduardo Ribeiro, estimado nesta região e principal investigador da ‘verdade historiográfica’ de ‘Camões em Macau’ (2012, 2.ª ed. 2020), mais do que provada nos seus estudos”, salientou.

“Como também estava em contacto com um familiar aqui a leccionar na academia e com quem diariamente conversava sobre a recepção da obra camoniana, foi sem hesitações que fiz as malas e apanhei o avião”, relata.

Nos primeiros dias, “com reiteradas romagens ao jardim da Gruta de Camões, de dia e à noite, ao percorrer os ‘diversos mirantinhos que estão ligados entre si por um complexo labirinto de apertados arruamentos cobertos de limugem que sobem, descem e se encurvam em espreguiçadas rampas, ou se entretêm no jogo de xadrez ou se deixam inebriar pela capitosa fragrância que dimana de mil e uma variedades de flores e de plantas que ali proliferam com exultadora exuberância’ (descrição de Luís Gonzaga Gomes na lenda de ‘A rocha dos cinco metais’), não me surpreenderia nada, então, se me cruzasse com o próprio santo do lugar, o compositor de Os Lusíadas”.

José Carlos Canoa esperava “reconhecê-lo a cada esquina dos arruamentos mais antigos”. Daí em diante, prossegue, todas as ‘curiosidades de Macau antiga’ e as ‘efemérides da história de Macau’ como o 10 de Junho, me iriam remeter para ou materializar a presença de Camões”. “É aí que surge o sortilégio da obra escrita, posteriormente também da vida, de Luís Gonzaga Gomes”, conta.

Este outro Luís, “cujo nome e também o do seu pai (Francisco Xavier) está representado numa das estátuas de bronze de santos jesuítas na fachada das Ruínas de São Paulo, viria a ser o meu cicerone ideal”. “Para descobrir mais acerca de Camões e para ir conhecendo aos poucos Macau”, reflecte.

“Além de ter redigido o ‘Vocabulário cantonense-português, português-cantonense’, de ter consagrado muito do seu precioso tempo ao ‘Catálogo dos manuscritos de Macau’ e à ‘Bibliografia macaense’”, o incansável cronista das “páginas da história de Macau é ainda uma figura charneira para portugueses arribados à região” como o próprio José Carlos Canoa. “Através de Luís Gonzaga Gomes somos introduzidos no universo de ‘Contos chineses’, Lendas chinesas de Macau, Festividades chinesas, Arte chinesa, enfim, nos relatos breves das chinesices de uma civilização antiquíssima”.

Mormente, prossegue, “a obra de Luís Gonzaga Gomes lega-nos uma visão de Macau e das suas gentes em prosa breve, de espantoso fulgor colorido e visual, em muito semelhante ao universo reconfigurado nos romances de Henrique de Senna Fernandes e à rimada e informada poesia de J. J. Monteiro”. “Três distintos escritores, um mesmo amor: Macau”.

Na sua perspectiva, Luís Gonzaga Gomes é, pois, “um excelente anfitrião de Macau, recebendo-nos como outrora Lourenço Pereira Marques acolhera os seus visitantes e amigos na propriedade onde está a Gruta de Camões, na colina do Patane”.

Do mesmo modo, esta “extraordinária figura da vida cultural macaense”, que nas décadas de 60 e 70 foi conservador do Museu Luís de Camões (aberto ao público em 1960), sócio fundador do Instituto Luís de Camões e principal director do meio de comunicação desse Instituto, o “Boletim do Instituto Luís de Camões”, irá ser o meu objecto de interesse e entusiamo nos estudos camonianos em Macau”, referiu ainda o docente.

Aproximação ao poeta Luís Vaz de Camões

José Carlos Canoa recorda a tradução para o cantonês de “Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo”, considerando-a “uma referência pioneira na aproximação à obra do poeta português pela cultura chinesa”.

O membro da Rede Camões na Ásia & África lembra também que, em 1972, Luís Gonzaga Gomes publicou no número especial da revista Garcia de Orta um número comemorativo do 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, “o seu mais interessante texto camoniano: “Representação iconográfica da gruta de Camões de Macau”, estudo que continua e amplia um seu anterior publicado na revista Mosaico (“Camões em Macau”).

A abordagem de Luís Gonzaga Gomes “acontece no domínio da história da arte”, assinala, destacando que, no artigo da revista, “inventaria e descreve a iconografia camoniana em Macau, pois desde o séc. XVIII que ‘a fama e a beleza do sítio onde está situada a Gruta de Camões inspiraram vários artistas’”. “E eu que viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro também o extraordinário Luís Gonzaga”, expressa.

Em Junho deste ano, o professor do IPOR estará presente em Lisboa na “IX Reunião Internacional de Camonistas: O tempo de Camões, Camões no nosso tempo” promovida pela Estrutura de Missão para as Comemorações dos 500 anos do Nascimento de Camões. “Levarei comigo Luís Gonzaga Gomes, o seu estudo iconográfico sobre a Gruta de Camões – e com ele, Macau”, garante.

A terminar, revela que o professor Vítor Serrão divulgou recentemente nas redes sociais uma nova gravura da Gruta de Camões. Nela está representada uma cena em que uma figura humana está sentada no habitual banco de pedra junto à gruta. Frequentemente são figuras chinesas que lá se encontram sentadas em repouso. Agora, acentua, “o imprevisto é ser o próprio Camões sentado a ler junto aos penedos que o seu talento de poeta afamou”.

Para os mais românticos, ele está “com saudades da pátria, medita na gruta, interrompendo a escrita.” Esta “efabulação é mais uma representação iconográfica do lugar, criada nos finais do século XIX, que oferecemos agora à memória de Luís Gonzaga Gomes, o camonista que mais escreveu sobre este tema”, conclui.

Aluno de Pessanha e Silva Mendes

Tendo crescido no seio de uma família muito ligada à cultura, Luís Gonzaga Gomes (conhecido por Inho Gomes ou, simplesmente, Inho, entre parentes e amigos) foi, desde muito cedo, “influenciado por todo aquele ambiente familiar que o rodeava”, pode ler-se no livro Baixa do Monte, publicado por Manuel Basílio.

O investigador macaense escreve que, terminado o ensino primário, Gonzaga Gomes prosseguiu os seus estudos no Liceu, onde teve, como professores, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, José da Costa Nunes, Mateus António de Lima e outros distintos docentes e, por isso, recebeu sólida formação académica.

“Apesar de ter concluído o 7º ano do Liceu com boas notas, não seguiu para o ensino superior, tendo passado o resto da vida como um verdadeiro autodidacta em várias matérias e línguas, designadamente a língua chinesa”, salienta Manuel Basílio.

Segundo a sua investigação, “não restam dúvidas de que Luís Gonzaga Gomes foi um homem erudito”. No entanto, “sempre foi um indivíduo muito reservado, de poucas palavras, por isso, convivia com poucas pessoas e deve ter passado dias difíceis ou amargurados, nos últimos anos da sua vida, vivendo com muita angústia, à medida que os dias iam passando, pois, a ideia da morte perseguia-o”, constata.

Também António Aresta, professor e investigador, destaca no seu livro Figuras de Jade a obra de Luís Gonzaga Gomes. “Pela vastidão e amplitude dos seus interesses intelectuais, artísticos, musicais, linguísticos ou historiográficos, ele pode ser considerado como um homem do renascimento, não obstante a sua personalidade demandar recato, simplicidade e algum gosto ascético”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Notícias de Macau”




segunda-feira, 12 de maio de 2025

Macau - Livro de Manuel Viseu Basílio sobre Baixa do Monte reeditado em língua chinesa

O livro “Histórias e Memórias – Baixa do Monte e Arredores”, da autoria de Manuel Viseu Basílio e que versa sobre a história daquela zona geográfica específica no centro da cidade, vai ter também uma versão em língua chinesa. Esta reedição vai ser apresentada no dia 19 de Maio na sede da APOMAC

Vai ser lançada uma edição em língua chinesa do livro “Histórias e Memórias – Baixa do Monte e Arredores”, da autoria de Manuel Viseu Basílio. A versão chinesa do livro, cuja edição portuguesa tinha sido lançada em Outubro de 2023, vai ser apresentada no dia 19 de Maio, na sede da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC). A apresentação do livro será feita por Lok Po, director do Jornal Ou Mun, que também escreve o prefácio.

Em comunicado, a APOMAC diz que, depois de ter sido lançado em português, Manuel Basílio foi desafiado a editar também uma versão em língua chinesa, “dado o interesse que poderá haver junto da comunidade chinesa na divulgação de um dos períodos mais marcantes da história de Macau”.

O livro versa sobre a “integração da população chinesa na chamada ‘cidade cristã’, dando assim início à miscigenação efectiva das culturas ocidental e oriental, com a remoção da barreira criada pela velha muralha e portas da cidade, passando todos a viver em harmonia como vizinhos”, descreve a nota de imprensa.

A Baixa do Monte, a que o livro se refere, é a zona Sul da Colina do Monte, que vai desde a fortaleza às proximidades da Rua da Palha, de São Domingos e de Pedro Nolasco da Silva. Esta era uma zona onde outrora viveram muitas famílias portuguesas e macaenses.

A investigação para o livro foi feita com base em dados relativos a diversas famílias que viveram naquela zona entre os meados do século XIX e a segunda metade do século XX. Além de referências a famílias macaenses ou portuguesas, o livro apresenta biografias de algumas individualidades que viveram na Baixa do Monte, nomeadamente negociantes chineses.

No que respeita à toponímia, o autor aborda algumas designações algo curiosas ou enigmáticas a várias vias públicas da Baixa do Monte, tais como Calçada das Verdades e Rua de Santa Filomena. Manuel Viseu Basílio faz ainda uma breve descrição sobre o templo de Na Tcha, junto da Calçada das Verdades, bem como as festividades em honra daquela deusa. Por fim, o investigador também faz um breve resumo da história de alguns edifícios que existiram e outros que ainda existem situados na zona limítrofe da Baixa do Monte, como é o caso do Teatro Capitol.

Os temas abordados neste livro não se restringem a vias públicas ou à toponímia daquela zona, incluindo também memórias, vivências, usos e costumes, bem como histórias baseadas na história de Macau, descreve a APOMAC. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


quinta-feira, 8 de maio de 2025

Macau - Exposição “Poesia no Jardim” celebra a língua portuguesa

É inaugurada amanhã a exposição “Poesia no Jardim”, uma iniciativa no âmbito do Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se celebrou na passada segunda-feira. A exposição, organizada pelo IPOR, com apoio da Casa de Portugal e do Fórum de Macau, estará patente até ao fim de Maio no parque de Seac Pai Van. A exposição será constituída por 11 painéis próprios para ambiente externo. Cada um dos dez quadros individuais representará um poema de um dos nove países de língua oficial portuguesa, existindo um no qual estará representado um poeta da RAEM.



O texto do poema figurará na sua língua original e na sua versão traduzida para chinês, em caracteres tradicionais e simplificados. Será também incluída uma breve biografia do escritor nas duas línguas e figurará igualmente um código QR com um ficheiro áudio onde se poderá ouvir uma declamação do poema e outros dois códigos QR com a versão áudio em chinês, um em mandarim e outro em cantonês.

Terminado o período de exibição no jardim, os painéis serão convertidos numa exposição itinerante que será exibida em instituições de ensino superior e não superior da RAEM e da República Popular da China, bem como em países da Lusofonia que estejam interessadas em acolhê-la. “Com este projecto pretende-se transformar um jardim de Macau numa galeria de literatura ao ar livre, acessível a toda a população dando a conhecer, assim, a obra poética de autores dos nove países e da região onde o português é uma das línguas oficiais”, indica o comunicado divulgado pelo IPOR. “Poesia no Jardim” procura “levar a poesia em língua portuguesa ao encontro da população da RAEM e dos seus visitantes”.

A exposição tem como objectivos principais “divulgar autores contemporâneos dos países de língua portuguesa e a sua obra, dinamizar o espaço público de Macau de uma forma criativa, apelar interesse pela leitura, pelo livro e pela língua portuguesa, valorizar o pluricentrismo da língua portuguesa e as suas variantes, e também prestar o devido reconhecimento aos tradutores da língua chinesa e da língua portuguesa”, diz a organização. In “Ponto Final” - Macau


quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Macau - O passado, presente e futuro da língua portuguesa

Língua oficial da RAEM a par com o chinês, o português, e mais concretamente a sua utilização no território, tem tido altos e baixos, sendo difícil traçar uma evolução linear. Certo é que hoje ensina-se mais língua portuguesa do que antigamente, e a ideia geral é de que, no ensino, o Governo tem desempenhado o seu papel de preservação do português. Porém, no dia-a-dia há ainda “dificuldades”, sobretudo no acesso a determinados serviços. O uso da língua deveria ser reforçado, por exemplo, em áreas como o Direito e Saúde, consideram as figuras ouvidas pelo Jornal Tribuna de Macau. Quanto ao futuro, há esperanças de que seja dada maior atenção à Língua de Camões



O ensino da língua portuguesa na RAEM “tem tido uma boa evolução” nos últimos 25 anos – desde logo pelo número de escolas que hoje ensinam o português e pelo número de alunos que vem frequentando cursos, quer sejam de ensino superior ou não. Contudo, “o efeito ainda se sente muito pouco” na vida quotidiana. Apesar disso, a ideia geral é de que o Governo tem desempenhado o seu papel de preservação do português, ainda que haja quem considere que podia ser feito mais.

Vincando que em algumas áreas, como a do ensino, “tem havido um trabalho proactivo do Governo da RAEM”, a presidente do Instituto Português do Oriente (IPOR), Patrícia Ribeiro, observa que, “no que respeita à língua portuguesa como veículo de comunicação entre pessoas e organizações, temos vindo a registar um decréscimo que pode estar relacionado com o diminuir da comunidade portuguesa e o aumento do número de cidadãos de outras nacionalidades não falantes da língua”.

Patrícia Ribeiro dá conta de que “cada vez mais escolas do ensino não superior – este ano mais quatro – incluem a língua portuguesa nos seus currículos” e, quanto à formação contínua de funcionários públicos, “registou-se uma maior diversificação das áreas específicas de aprendizagem, envolvendo outros sectores de actividade”. Além disso, “para a população em geral verificou-se um crescente dinamismo, com o Governo da RAEM a promover projectos para incentivo à população no envolvimento em actividades [culturais e lúdicas] em língua portuguesa”.

Dados oficiais cedidos pelo IPOR revelam que, no ano passado, a instituição contou com perto de 3800 formandos, contra cerca de 700 em 1999/2000. Entre 2012 e o ano passado, a média foi de cerca de 4200 alunos por ano.

“Noutras esferas, no entanto, existe um declínio do uso da língua como veículo de comunicação por parte de algumas entidades governamentais que até recentemente procuravam redigir documentação usando as duas línguas oficiais da RAEM”, nota a presidente do IPOR, acrescentando: “Pese embora nem todas as áreas de actuação mostrem o mesmo empenho na preservação da língua, no cômputo geral o Governo da RAEM tem cumprido o seu papel”.

Também a presidente da Casa de Portugal – que há mais de 15 anos premeia anualmente os melhores alunos em Português – refere que “nunca se ensinou tanto Português como actualmente”, segundo os dados que lhe vão chegando. “Depois na vida do dia-a-dia, o resultado disso acho que ainda se sente muito pouco. Quando se vai a um serviço ou quando se interage com alguma entidade, há uma grande dificuldade”, acrescenta Amélia António, dizendo ter a sensação de que as pessoas sabem um bocadinho de português, mas “têm ainda receio” de falar.

“Penso que poderia ser feito um pouco mais [por parte do Governo], porque este esforço do ensino não é suficiente. Se se fizesse um esforço um bocadinho maior por garantir o uso da língua nos serviços, se isso até fosse um factor de valorização dos trabalhadores, eventualmente viam-se mais resultados”, defende Amélia António. Na sua perspectiva, poderá haver duas razões para um “certo retraimento” de alguns funcionários em falar português: “Uma é a falta de confiança no conhecimento e, portanto, há algum receio de falar mal; outro é o receio de serem olhados de forma diferente, ou seja, em vez de serem valorizados serem olhados de forma crítica”.

Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), que detém o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, começou por dizer que “não há uma evolução linear do tratamento da língua ao longo dos anos”, acrescentando que “há muitas vertentes”.

Recordando que no princípio da RAEM havia magistrados que se “recusavam fazer traduções para Português porque o Chinês era língua oficial”, o também vice-presidente da Fundação Escola Portuguesa de Macau (FEPM) refere que “houve um primeiro momento de alguma dúvida sobre o estatuto da língua portuguesa”. “Mas, mais tarde, reafirmou-se que era língua oficial e devia ser respeitada como tal”, prosseguiu.

A evolução da língua portuguesa “teve muito a ver com o ressurgir do interesse pela aprendizagem da língua”, considera o líder associativo, acrescentando que desde o mandato do primeiro Chefe do Executivo, Edmund Ho, se tem reiterado a importância da presença portuguesa em Macau. “Na prática, isso veio fomentar também a defesa da própria língua”, disse. De uma coisa Miguel de Senna Fernandes está certo: “Hoje em dia, há mais gente que, não falando português, está a aprender a língua, do que durante a Administração portuguesa”.

“A RAEM em várias instâncias, vários momentos, vários contextos, valorizou sempre a língua portuguesa, e o ensino da língua. Acho que o Governo tem cumprido o seu papel”, defendeu Senna Fernandes.

Chegado ao território em 2022 para assumir a direcção do Departamento de Português da Universidade de Macau (UM), João Veloso considera que “para qualquer linguista, Macau é um lugar de júbilo, devido à convivência entre um número tão elevado e tão diversificado de línguas num espaço geográfico tão pequeno, mas culturalmente e socialmente tão diverso”. “A evolução do português neste território tão especial resulta da interacção da língua e dos seus falantes dentro de um xadrez linguístico e cultural muito rico em que o português é uma peça que se move em várias direcções num equilíbrio dinâmico”, descreveu.

João Veloso aponta que é “inegável” que o espaço social de circulação do português como língua de interacção quotidiana é hoje menor, “por razões óbvias”. “Mas, os cenários em que actualmente o português se entrecruza com outras línguas nas escolas, na administração pública, nos negócios, na criação cultural e artística, no turismo, na justiça, na economia, extravasando os limites mais tradicionais da comunidade macaense e da comunidade portuguesa, é uma prova de vida desta língua”, observou.

Em linha com o que disseram Patrícia Ribeiro, Amélia António e Miguel de Senna Fernandes, também o docente destaca que, “mesmo que o número de falantes nativos da língua seja hoje mais baixo do que no passado, o aumento estável do número de pessoas que estudam português num número muito grande de instituições é a melhor demonstração da importância do português em Macau”.

O Departamento que dirige oferece cinco cursos próprios em português – uma licenciatura, dois mestrados e dois doutoramentos -, assegurando ainda o ensino da língua aos alunos de Direito, além de disponibilizar duas disciplinas opcionais de língua portuguesa que podem ser frequentadas por qualquer aluno de qualquer curso. Somando todos os alunos que, por qualquer uma destas vias, acedem ao ensino da língua, só na UM contam-se cerca de 1200 alunos por ano, tendo em conta os dados de 2023. Isto sem contar com “algumas centenas” de alunos que frequentam o Curso de Verão e com os cursos intensivos destinados a diferentes públicos, por exemplo para o Corpo de Polícia de Segurança Pública, Bombeiros e pessoal especializado da Administração Pública.

“Se hoje o português continua a ter uma presença forte em Macau – e só por má vontade podemos negar uma evidência como esta -, isso deve-se em grande parte ao facto de o Governo nunca ter abdicado das suas obrigações relativamente à preservação da língua em Macau e continuar a assumir um papel de liderança objectiva na preservação da língua na RAEM”, acrescentou João Veloso.



Saúde e Direito requerem reforço do uso da língua

Miguel de Senna Fernandes, contudo, alerta que “o sentido do uso da língua é muito afectado pela diminuição da comunidade portuguesa”. “Porque uma língua não é só aprender a gramática e tudo mais, é preciso utilizá-la”, frisou. Reconhecendo que é “difícil” fazer a preservação da língua num território onde a cultura chinesa é dominante, o vice-presidente da FEPM vinca que “não chega” fazer cumprir a utilização das duas línguas oficiais em tudo o que seja oficial.

Questionado sobre quais as áreas em que seria importante reforçar o uso do português, o representante da comunidade macaense foi peremptório: Direito e Medicina.

Opinião idêntica tem Amélia António. A advogada vinca que “é muito importante” fortalecer o uso da língua nos serviços públicos, “porque há muita gente que não domina a língua chinesa e que, portanto, tem necessidade de recorrer ao português para tratar de seus assuntos”. “Nos hospitais é imprescindível, porque (…) é uma área onde as pessoas estão particularmente frágeis, onde sentem mais receio, onde têm a necessidade de saber que são entendidas e de entender o que se lhes diz. Portanto, eu acho que os hospitais é um sítio muito importante onde faz muita falta o reforço da língua”, disse.

Na mesma linha, Patrícia Ribeiro refere que há “sectores-chave” da administração onde se deveria intensificar o uso do Português, “como na saúde, nas forças de segurança, na área jurídica, nos serviços de migração ou de identificação”. Na sua visão, esse reforço pode ser “muito facilmente implementado, pois todos os anos, entre outras medidas, o Governo promove um conjunto de cursos, nomeadamente com o apoio do IPOR no âmbito de um protocolo de colaboração, para incentivar a formação contínua em Língua Portuguesa junto dos funcionários públicos”.

A dirigente do IPOR recorre aos números para ilustrar: tendo em conta os últimos seis anos, foram formados, em média, cerca de 800 profissionais por ano. “Podemos assim concluir que, considerando estes números e as várias áreas em que o ensino de língua portuguesa é ministrado, existem mais falantes do que a percepção que existe nos dá a entender”, acrescenta.

João Veloso, por sua vez, acredita que seria importante intensificar o uso da Língua de Camões em actividades culturais, nomeadamente as destinadas a um público mais jovem e mais distante do “mainstream”. O director do Departamento de Português da UM explicou depois que costuma frequentar as sessões da Cinemateca Paixão: “Tirando as sessões inseridas em ciclos dedicados à produção cinematográfica em língua portuguesa, o português tem sido, por regra, um grande ausente. Pelo menos, esta é a impressão que eu tenho: os filmes não são legendados em português, os materiais promocionais em português são escassos ou nulos, nos debates o português nunca é utilizado”, apontou.

O docente apontou também que há alguns pequenos bares, estúdios, livrarias alternativas, que têm uma agenda cultural “muito activa e muito interessante”, mas onde a presença da língua portuguesa “é muito pouco expressiva”. “Tenho a certeza absoluta de que se houvesse algumas actividades programadas que promovessem o uso do português, essas iniciativas teriam um grande sucesso e contribuiriam para alargar significativamente o espaço social da língua portuguesa em Macau”, acrescentou.

Esperança no futuro

Sempre optimista, a presidente da Casa de Portugal diz ter “alguma esperança em termos de futuro”. “Porque penso que este ensino, de uma forma tão vasta, acaba por dar algum fruto”, acrescenta. “E outra coisa que eu penso que também cria esperanças é perceber que há muitos pais que não dominam o português e que fazem um grande esforço para que os filhos, paralelamente à aprendizagem do chinês e do inglês, aprendam português”, observou Amélia António. “Há nitidamente uma preocupação nos pais mais jovens de que os filhos tenham um conhecimento linguístico mais alargado. Isso também é bom”, reiterou.

A Casa de Portugal tem vindo a premiar os melhores alunos em língua portuguesa, um prémio “simbólico”, de 3000 patacas, que normalmente é entregue a seis estudantes do ensino não superior e superior. A indicação dos alunos – um de língua materna portuguesa e outro de língua materna chinesa – é feita pela Escola Portuguesa e pelos Serviços de Educação. “É um prémio pequenino, mas é um estímulo para aqueles que se esforçam e acaba também por ser um estímulo para os outros colegas”, vincou a líder associativa, apontando que a Casa gostaria de premiar mais estudantes, mas é impossível em termos financeiros.

Na sua visão, “se o que Pequim anuncia como missão de Macau continuar a ser defendida, forçosamente terá de ser dado espaço para o fortalecimento do português, que, assim, provavelmente se poderá manter depois de 2049”. A também advogada frisou que “há muitos factores” a ter em conta e lembrou que a língua também tem uma grande ligação ao sistema jurídico. De qualquer das formas, sublinhou: “Penso que há todo o interesse [em manter o português], porque é cada vez uma das línguas mais faladas no mundo e acho que é uma mais-valia para a China ter uma área do seu país capaz de corresponder a essa realidade”.

Disso mesmo dá também conta João Veloso. “Há uma série de estatísticas prospectivas fiáveis que dão o crescimento do português a nível mundial como um cenário praticamente certo. Se ainda houver mundo daqui a 20 ou 30 anos, as previsões dizem que o português será então uma língua com uma presença muito mais forte a nível global. Tendo em atenção esse dado e a importância que a China concede à memória e aos laços construídos durante séculos, nada faz prever que o português corra sério risco de extinção em Macau”, sublinhou.

O docente não tem “qualquer dúvida” de que a língua, enquanto objecto de estudo, marca identitária cultural, memória histórica se manterá. “Mesmo que, subindo a Rua do Campo, não ouçamos falar português com a frequência de outros tempos, em cada dia que passa em Macau há milhares de alunos que têm aulas de português ou em português, há documentos a serem impressos em língua Portuguesa, e as escolas e universidades, assim como instituições como o IPOR, têm um papel fundamental nesse uso diário que é vital – que é imprescindível – para a continuação do português e da sua importância neste canto do mundo”, prosseguiu.

Patrícia Ribeiro, por seu turno, frisa que, até 19 de Dezembro de 2049, a certeza que há é a de que “a língua portuguesa continuará a ser uma das línguas oficiais”. “Depois dessa data, a esperança é que a língua portuguesa permaneça de alguma forma em Macau, mais que não seja pelo seu valor histórico”, vincou. Até lá, garantiu, o IPOR “tudo fará para manter a sua intensa e significativa actividade, procurando assim preservar a presença portuguesa na RAEM, fomentar as relações de cooperação”.

Miguel de Senna Fernandes lamenta que o português “continue a ser encarado como uma língua estrangeira”, apesar de ter “mais estatuto” que as restantes, por ser língua oficial na RAEM. Mas, olhando para o futuro, diz-se também esperançado. E até quanto a um futuro mais próximo. “Há uma esperança. E agora é mesmo esperar para ver. O que é que novo Chefe do Executivo vai fazer? A comunidade portuguesa tem muita esperança de que haja um novo tratamento da língua portuguesa levado a cabo pelo novo líder da RAEM”, apontou. Sam Hou Fai, antigo presidente do Tribunal de Última Instância, vai tomar posse dia 20 de Dezembro. É o primeiro Chefe do Executivo que não nasceu em Macau e o primeiro também que sabe português.

Quanto ao período pós-2049, Senna Fernandes disse apenas que “quando as coisas são úteis, não se destroem”. “Depende muito da utilidade que o próprio português terá. Mas estou certo que sim”, concluiu. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Portugal - Instituto Confúcio na Universidade do Porto celebra cinco anos "muito frutuosos"

O 5.º aniversário do Instituto Confúcio na Universidade do Porto foi comemorado no dia 7 de dezembro, no Instituto Pernambuco Porto



Desde a sua fundação, em 2019, o Instituto Confúcio na Universidade do Porto já ensinou mandarim a mais de 250 pessoas, para além de ter difundido a cultura chinesa através de dezenas de atividades abertas à população. Números que traduzem uma colaboração “frutuosa” e que foram celebrados, no passado dia 7 de dezembro, durante a sessão comemorativa do quinto aniversário daquele Instituto, realizada no Instituto Pernambuco Porto.

Resultado de uma parceria entre a Universidade do Porto e a Guangdong University of Foreign Studies, o Instituto Confúcio na U.Porto foi inaugurado em maio de 2019, com o propósito de alargar os horizontes culturais dos estudantes e estreitar as relações de cooperação entre a Universidade e a China.

Além da realização de cursos de língua e cultura chinesa, o Instituto promove várias atividades relacionadas com a cultura luso-chinesa junto da população, incluindo sessões de cinema, exposições de arte, feiras do livro, cursos de culinária, de caligrafia, de dança e artes marciais.

“Ao fim de cinco anos muito frutuosos, podemos dizer que passámos a primeira infância. Criaram-se as estruturas e estabilizámos o corpo docente e um conjunto de mecanismos que nos vão permitir consolidar esta relação cultural e educativa”, destaca Sónia Valente Rodrigues, Pró-Reitora da U.Porto responsável pelos pelouros da Inovação Pedagógica, Melhoria Contínua e Promoção da Língua Portuguesa e representante da Universidade na direção do Instituto Confúcio.

Olhando para o passado, mas também para o futuro, Sónia Valente Rodrigues lembra que “a cidade e a Universidade do Porto sempre foram voltadas para internacionalização, sendo que esta relação com a Ásia e, especificamente, com a China, é ancestral”. Nesse sentido, “é muito importante para nós manter estas relações que vêm de longe, mas que se mantêm prósperas para o futuro”, projeta.

O Reitor da U.Porto, António de Sousa Pereira, foi uma das várias personalidades que marcaram presença na sessão comemorativa dos cinco anos do Instituto Confúcio na U.Porto. Presente esteve também o Embaixador da China em Portugal, Zhao Bentang, que atribuiu recentemente à Universidade o “Prémio de Contribuição para os Intercâmbios Humanísticos Sino-Portugueses”.

Durante o evento, foi ainda lançado o novo portal do Instituto Confúcio na U.Porto. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Macau - Ser ou não ser bilingue, eis a questão da RAEM

Na última edição do Plataforma Talks, um bilingue natural, e outro por interesse profissional, partilharam a mesma tese: sendo “oficial”, a língua portuguesa é também “estratégica” e “identitária”. Calvin Chui subscreve essa de Miguel de Senna Fernandes; com ressalvas: é preciso “promover – não impor” a língua portuguesa em Macau; mas “os portugueses também deviam aprender chinês”



“Quando falamos de bilinguismo, falamos do português, no contexto de uma cidade em que a língua dominante é o chinês”. A partir daí, resume Miguel de Senna Fernandes, há várias consequências para o estatuto legal, político e social da língua. Por um lado, “se não tem uso, deixa de ser oficial”; por outro, tem valor “estratégico”, para que “a China desenvolva as relações com os Países de Língua Portuguesa”, e “identitário”, no sentido histórico e cultural.

Calvin Chui aprendeu português “por necessidade”; estudou Direito em Portugal, o que lhe permite ter um conhecimento “mais profundo dos códigos”. Adquiriu a língua pela sua “visão económica”; razão pela qual elogia as bolsas atribuídas a estudantes que queiram ir para Portugal. “Não sei se tem a mesma eficácia que antes, mas é muito importante”.

Senna Fernandes aponta Chui como “bom exemplo; vive a língua porque precisa”. Mas também como “prova da política de bolsas que o Governo tem implementado”. Contudo, “o bilinguismo é muito mais do que isso”. A plataforma, argumenta, “indica-nos que a RAEM não quer uma visão simplista; quer cidadãos que vivam a língua, que tenham consciência do português como língua própria de Macau”. Para Senna Fernandes “a única visão prática e viável é assumir que o português não vem de Portugal, Brasil ou África; sempre se falou em Macau, há que assumir esse passado linguístico”.

O bilinguismo está lavrado na Lei Básica; logo, “devemos respeitar essa regra e promover o português como língua oficial”, comenta Calvin Chui. Nesse sentido, “o uso diário nos tribunais, na Função Pública, na escola… deve ser encorajado”. Contudo, “não pode ser imposto”, ressalva, lembrando o outro lado do espelho: “Os portugueses também deviam aprender o chinês; o respeito tem de ser mútuo”.

“Absolutamente necessário”

O inglês será “mais cool”, mais atrativo para gerações rendidas ao mundo digital; mas, em Macau, o português “é estratégico”, insiste Senna Fernandes, abordando dimensões diferentes. “Quando falamos da plataforma, é um instrumento político-económico, de Estado a Estado. Faz-se sentir na sociedade civil? Não! No nosso dia a dia não a sentimos, mas no plano oficial é absolutamente necessário; senão estamos mal! Não vamos comunicar em inglês com os Países de Língua Portuguesa”. Senna Fernandes concorda com Calvin Chui na tese de que “não pode ser imposto”; mas defende que “o português tem de ser assumido como língua da RAEM. O que mexe com cultura leva tempo; mas já estamos aqui há tantos séculos; já esperamos tanto… e a RAEM tem tudo a ganhar”, conclui.

Aprender português “não é fácil”; ambos concordam. Mas há “cada vez mais cidadãos de etnia chinesa que falam português”. Calvin Chui lembra que a DSEJ garante subsídios a escolas que incluam a disciplina de português, o que “é positivo, porque aumenta a atratividade do ensino e da aprendizagem”; processo que vê em três fases: “Primeiro conhecer a língua; depois utilizá-la; mais tarde ver que o seu valor não é só económico, mas cultural e humano. Aí aprofundam a aprendizagem e querem partilhar isso com outras pessoas”.

Senna Fernandes quer ver mais compromisso oficial: “Uma coisa é ter dinheiro, outra é mostrar vontade política; e essa não se vê. Não sei se por estigmas do passado – não queria ir por aí – mas existiu sempre um obstáculo; quando se fala de português qualquer coisa parece que não flui”. Considera por isso que “a RAEM pode fazer muito mais”; e se “houver complexos há que despir isso completamente”; criando “modelos sociais” para uso da língua. “Não vou utilizar a palavra herói, mas as referências são muito importantes. Há que criar algo mais profundo; ter olhos de ver e não ficar pelos programas de estudo; é muito mais do que mandar toda a gente estudar para Portugal”.

“Promover – não impor”

Calvin Chui já admitiu, por hipótese, que o bilinguismo fosse imposto; mas, “pensando melhor”, prefere uma abordagem “suave, indireta, mais bem aceite pela população”. Senna Fernandes concorda, inclinando-se para incentivos relevantes: “Quem der provas de falar chinês e português e queira estabelecer-se em Macau pode ver-lhe atribuído mais um ponto” na análise do direito de residência; quiçá no acesso à Função Pública. “Desde que não se prejudique quem não fala português; a discussão é como incentivar a falar mais português – quem não fala tem de ser respeitado”. A História, essa, “tem de fazer parte da identidade disto”, frisa Senna Fernandes. “Já é cliché falar de edifícios antigos, do pastel de nata, e de outras coisas portuguesas. E a língua, não pode ser identitária? É perfeitamente possível a RAEM assumi-la como sua”, conclui.

Calvin Chui gostou de ver o futuro Chefe do Executivo responder a jornalistas portugueses, “primeiro em português; e depois, por respeito à maioria da população, em chinês”. Um “bom sinal”; como Sam Hou Fai aprendeu português em Coimbra, “pode ter tendência para promover mais o bilinguismo”. Sobre a aprendizagem do chinês por parte da comunidade portuguesa residente, Senna Fernandes sugere que as dificuldades colocadas por uma língua ideográfica sejam contornadas com a oralidade: “Nós, macaenses, aprendemos a falar cantonês sem saber escrever; só depois adquirimos a escrita. Mas o facto de falarmos tornou a coisa muito mais simples”. Paulo Rego – Macau in “Plataforma” 


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Portugal - Universidade do Porto intensifica relações com a China

A Universidade do Porto foi uma das 44 instituições do ensino superior que estiveram em Macau para promover o intercâmbio entre academias chinesas e dos países de língua portuguesa


A educação, como o horizonte, não tem fronteiras. E foi seguindo o preceito de um ancestral provérbio chinês que uma comitiva da Universidade do Porto, liderada pelo Reitor, António de Sousa Pereira, marcou presença na terceira edição do Fórum de Reitores de Instituições de Ensino Superior da China e dos Países de Língua Portuguesa, que decorreu em Macau.
Durante dois dias (30 e 31 de outubro), este encontro, promovido pela Aliança para a Formação de Quadros Bilingues Qualificados nas Línguas Chinesa e Portuguesa, juntou representantes de 44 instituições do ensino superior do interior da China, de Macau e dos países de Língua Portuguesa (incluindo a Guiné Equatorial). Constituiu, por isso, uma oportunidade privilegiada para o estreitamento das relações com o vasto mundo académico chinês.
O programa do evento focou-se igualmente no fortalecimento do ensino do idioma luso no território chinês, a fim de intensificar a cooperação no domínio da educação e da investigação científica e tecnológica.
Acompanhado pela Pró-Reitora Sónia Valente Rodrigues, responsável pelos pelouros da Inovação Pedagógica, Melhoria Contínua e Promoção da Língua Portuguesa, e pelo administrador da U.Porto, João Carlos Ribeiro, António de Sousa Pereira ficou também a conhecer alguns progressos da academia macaense na área da Inteligência Artificial, bem como um pioneiro sistema automático de tradução de Português para Chinês que tem estado a ser desenvolvido pelo Centro de Computação da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.
A Aliança para a Formação de Quadros Bilingues Qualificados nas Línguas Chinesa e Portuguesa, que promove o fórum, é composta pela Universidade de Macau, pela Universidade Politécnica de Macau, pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, pela Universidade da Cidade de Macau e pela Universidade de São José.
No seguimento da sua participação no fórum, o Reitor da U.Porto visitou também a Guangdong University for Foreign Studies, em Cantão, com a qual a U.Porto estabeleceu um protocolo que permitiu a criação, em 2019, do Instituto Confúcio do Porto.
Refira-se ainda que uma segunda comitiva da Universidade do Porto, liderada pela Vice-Reitora Maria Joana de Carvalho, responsável pelo pelouro das Relações Internacionais, está na China para participar na China Educational Expo (CEE 2024), a maior feira de recrutamento de estudantes daquele país. Universidade do Porto – Portugal



sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Brasil - Cooperação tecnológica com a China precisa de aposta em línguas

Um dirigente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) assumiu ontem que a cooperação tecnológica com a China “é fundamental” para o Brasil, mas que é necessário reforçar o estudo das línguas portuguesa e chinesa

“Temos muito interesse em aumentar as relações tecnológicas com a China e para isso nós precisamos de uma comunicação mais efetiva”, disse o vice-reitor para a Graduação da Unicamp, Ivan Felizardo Contrera Toro, à Lusa, à margem do 3.º Fórum dos reitores das instituições do ensino superior da China e dos países de língua portuguesa, que se realizou em Macau.

Apesar da Unicamp, no sudeste brasileiro, oferecer cursos de língua chinesa e receber alunos da China para programas de português, “há muito que melhorar, que acrescentar e expandir essa relação”, notou o responsável.

Dos 20 mil alunos de graduação e 16 mil de estudos pós-graduados da Universidade Estadual de Campinas, “muito poucos” têm a possibilidade de ir para a China, acrescentou, salientando que também “muito poucos alunos chineses vão para o Brasil”. É este intercâmbio de estudantes e professores, em áreas como “línguas, educação e tecnologia”, que o memorando de entendimento, agora assinado entre a universidade brasileira e a Universidade da Cidade de Macau, pretende reforçar. “Ainda temos algumas etapas legais a fazer, mas será de extrema importância para a minha universidade e espero também que para o intercâmbio entre a língua portuguesa e chinesa no Brasil e na China”, referiu.

No que diz respeito à cooperação na área da tecnologia, o dirigente afirmou que tem sido feito trabalho nas áreas da Indústria Química, Informática, “principalmente Inteligência Artificial”. Mas Toro, que é cirurgião torácico, disse acreditar que na área médica, onde ainda não há trabalho conjunto, há “um futuro muito grande a percorrer”, seja “no trabalho com robôs de ajuda médica, que a China está desenvolvendo”, ou na conceção de medicação. “A China é um país que tem um desenvolvimento extremamente importante, mas principalmente nós podemos caminhar muito no desenvolvimento sustentável, numa cultura de relações que levem à paz. O Brasil e a China têm um papel muito grande e esse papel tem que ser iniciado pelas universidades”, disse, salientando que o trabalho de Brasília com Pequim no setor tecnológico “é fundamental”.

O vice-reitor da Unicamp afirmou ainda que Macau desempenha “um papel enorme” na aproximação entre Brasil e China, sendo a organização de eventos como este Fórum “extremamente importante” para a universidade. “A oportunidade de existir um pedaço da China que tenha a língua portuguesa como uma das línguas principais é fundamental e vai ser de grande valia para nós”, disse aos jornalistas.

Pequim estabeleceu em 2003 Macau como plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial entre a China e os países de língua portuguesa e, nesse mesmo ano, criou o Fórum de Macau. Além da China, o organismo integra nove países de língua portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”



segunda-feira, 4 de março de 2024

Macau - Director da Escola Portuguesa de Macau quer melhorar proficiência do português e mandarim

A abertura de mais uma turma de 1º ano a partir de Setembro e uma melhoria na qualidade de ensino do mandarim foram algumas das novidades anunciadas por Acácio de Brito, director da Escola Portuguesa de Macau (EPM), que no sábado passado realizou o seu habitual dia aberto


“Estamos no limite da capacidade de receber alunos, mas tomámos uma decisão estratégica de ter mais uma turma do 1º ano, que no ano passado não foi possível”, partilhou o director da Escola Portuguesa de Macau (EPM), Acácio de Brito à Rádio Macau no último sábado, dia de portas abertas da instituição. Nos seus planos está também a vontade de melhorar a capacidade de aprendizagem da língua portuguesa e do mandarim, com o lançamento de um novo programa para aumentar a proficiência das duas línguas oficiais do território. A decisão procura ir ao encontro das necessidades dos alunos que frequentam aquele estabelecimento de ensino. “Temos aqui muitos alunos que são de origem chinesa e que não falam português, e temos alunos de origem portuguesa e que não falam mandarim”. A importância de dominar as duas línguas, sublinhou, prende-se com a própria identidade da escola, que é “uma escola portuguesa em Macau, e uma escola portuguesa na China”.

As actividades do dia aberto da EPM incluíram um momento cultural no átrio do estabelecimento de ensino, seguida de uma visita educativa à horta biológica localizada no pátio do recinto. O resto da manhã foi preenchido com actividades desportivas e um workshop de “Arte e Movimento”, possibilitando-se aos encarregados de educação e famílias visitas aos laboratórios de biologia, física e química, e ainda às salas de música e do 1º ciclo. O dia aberto permitia igualmente que se ficasse a conhecer os serviços de psicologia e orientação escolar e outros departamentos da escola.

Jorge Neto Valente, presidente da Fundação Escola Portuguesa de Macau, à Rádio Macau abordou os mesmos planos anunciados por Acácio de Brito, classificando-os de “ambiciosos”, planos esses que elevarão a escola a ser “única”, no sentido de ir para além do mero ensino da língua portuguesa. “Uma escola de língua e cultura portuguesa na China, onde convivemos com a língua e cultura chinesa”. Admitindo ainda a necessidade de ampliação das instalações da escola, problema de fundo que “há anos que se discute”, mas sem solução encontrada, justificou o impasse pelo facto de que estas “são obras de vulto, e que exigem grande ponderação”, e elevados meios financeiros. Até lá, o responsável garantiu que se vai procurar investir na “qualidade de vida” do interior e estética do espaço, melhorando “tudo o que seja possível melhorar”.

Também presente no dia aberto esteve o cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong. Em declarações à Rádio Macau, Alexandre Leitão assegurou que tem acompanhado a situação da escola desde que assumiu o mandato, competência que referiu ser inerente ao cargo. Este acrescentou que sabe que a escola é “crítica na afirmação da presença portuguesa e na preservação de uma identidade especial”, herança do período da administração portuguesa e que a seu ver é “essencial valorizar em todos os planos, incluindo o económico”.

Reiterando a perspectiva de Neto Valente, o dignatário defendeu a importância da divulgação não apenas da língua, mas sobretudo da cultura portuguesa, mencionando que naquela instituição escolar, embora haja domínio da língua de Camões, há muitas vezes falta de conhecimento da cultura portuguesa e da lusofonia. “Penso que é algo que temos de trabalhar com urgência, e é decisivo”, alertou, “porque a cultura ajuda a dominar melhor a língua, tal como a língua ajuda a compreender melhor a cultura, e esta interacção é essencial”. Leitão acredita que é necessário haver também uma maior interactividade com as várias comunidades do território e com a região envolvente, destacando a importância de os jovens conhecerem “o meio em que vivem e crescem”. Quanto ao domínio do chinês, Alexandre Leitão sublinhou que esta mais-valia também servirá no futuro como forma de difusão das culturas lusófonas e macaense.

Ao mesmo meio de comunicação social, Filipe Figueiredo, presidente da Associação de Pais da EPM, defendeu ter as mesmas prioridades referidas por Acácio de Brito e Jorge Neto Valente, sublinhando a competência bilingue de português e chinês na escola como um “interlocutor privilegiado do Governo nesta dinamização do bilinguismo”. A proficiência em particular do mandarim, diz, é “um assunto importante de ser tratado”, já que este tem verificado que alunos da EPM que frequentam aulas de chinês desde a primária, ao chegarem ao 7.º ano acabam por optar por outras línguas como o francês, por questões de maior facilidade, partilhou. “Também se nota que os alunos que vão aprendendo mandarim não conseguem ter uma conversa. Há dificuldades no ensino que é preciso colmatar”, partilhou. Filipe Figueiredo abordou ainda a questão da sobrecarga dos alunos do 12.º ano, que têm um número mais elevado de disciplinas comparativamente com os colegas de escolas em Portugal, partilhando que estes saem prejudicados no cálculo das médias e no acesso às universidades devido àquela discrepância. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 26 de maio de 2023

Macau e Portugal assinam protocolo de cooperação no domínio dos arquivos

Macau e Portugal comprometeram-se a divulgar a coleção das “Chapas Sínicas”, um conjunto de documentos em língua chinesa classificadas como Memória do Mundo da UNESCO, no âmbito de um protocolo no domínio dos arquivos assinado esta quinta-feira em Lisboa


As “Chapas Sínicas” são compostas por mais de 3600 documentos, incluindo mais de 1500 ofícios escritos em língua chinesa, cinco livros de cópias traduzidas para português das cartas mantidas pelo Leal Senado de Macau e quatro volumes de documentos diversos.

Encontram-se na coleção Documentos em Chinês, constituída por documentos oficiais e privados datados a partir de meados do século XVIII até meados do século XIX.

Promover e divulgar “de forma mais abrangente” esta coleção em Macau, Portugal e na China é uma das áreas de cooperação contemplada no memorando de entendimento assinado hoje entre o Ministério da Cultura português e o Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China no domínio dos arquivos.

Trata-se de um documento que pretende “contribuir de forma eficaz para o reforço e o desenvolvimento da cooperação cultural e científica” entre Macau e Portugal.

Entre as várias áreas abrangidas está a “promoção recíproca de exposições sobre laços históricos, patrimoniais e culturais, numa base não lucrativa, constantes dos acervos arquivísticos detidos pelos arquivos sob a égide de cada um dos signatários”, bem como a “troca de informação, estudos e publicações em áreas afins à arquivística”.

Está igualmente contemplada, entre outras iniciativas, o aprofundamento da “investigação sobre documentação relativa a Macau posterior a 1886”.

O diretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Biblioteca, Silvestre Lacerda, um dos signatários do memorando, assinado na Torre do Tombo, sublinhou o trabalho que juntou Macau e Portugal na candidatura das “Chapas Sínicas” à Memória do Mundo da UNESCO, que resultaria nesta classificação em 2017, como um bom exemplo da cooperação nesta área.

Por seu lado, a presidente do Instituto Cultural de Macau, Leong Wai Man, também identificou os “bons resultados” das “boas relações” entre Macau e Portugal no domínio dos arquivos.

A presidir à assinatura do memorando, a secretária de Estado da Cultura portuguesa, Isabel Cordeiro, recordou “a história de alianças e de relações de cooperação” entre Portugal, a China e Macau.

“Há uma edificação do património [físico], mas também de amizade”, indicou.

Para Isabel Cordeiro, as obras e os projetos evidenciam o “espírito de diálogo e cooperação” entre Macau e Portugal. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo