Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Amílcar Cabral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amílcar Cabral. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 5 de maio de 2026

Guiné-Bissau - Faculdade de Direito de Bissau acolhe reflexões sobre Amílcar Cabral no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa

Bissau - A Faculdade de Direito de Bissau acolheu, segunda-feira, uma palestra dedicada à figura de Amílcar Cabral, no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se assinala hoje, 05 de Maio.


Segundo a página oficial de Facebook da Casa das Letras e Artes Vasco Cabral, consultada hoje pela ANG, o evento decorreu sob o lema “Amílcar Cabral também era poeta, a palavra antes das armas”, e a sessão reuniu diversas personalidades do meio literário e diplomático sob coordenação do  escritor cabo-verdiano Germano Almeida.

Entre os participantes destacam-se a escritora guineense Odete Costa Semedo, a escritora portuguesa Manuela Ribeiro e o Embaixador de Cabo Verde na Guiné-Bissau Camilo Leitão de Graça.

Durante o encontro, Manuela Ribeiro procedeu à leitura de excertos de textos de Amílcar Cabral, evidenciando a sua dimensão literária e humanista, frequentemente ofuscada pelo seu papel na luta de libertação.

Na sua intervenção, Germano Almeida sublinhou a importância da palavra como instrumento de consciência, mobilização e construção de identidade, defendendo que o pensamento e a escrita antecederam a ação armada na formação da visão revolucionária de Cabral.

O escritor destacou a atualidade das ideias de Amílcar, sobretudo, no que se refere à promoção de uma cidadania crítica e à valorização da cultura.

Por sua vez, Odete Costa Semedo defendeu a necessidade de resgatar e valorizar a vertente literária de Amílcar Cabral no contexto guineense, propondo a sua integração nos sistemas educativo e cultural do país.

O embaixador Camilo Leitão de Graça enalteceu a iniciativa, considerando-a um reforço dos laços históricos e culturais entre a Guiné-Bissau e Cabo Verde, países unidos pelo legado e pensamento de Cabral.

Segundo os promotores, a palestra tornou-se num  espaço de diálogo entre literatura, história e política, reafirmando o papel da língua portuguesa como veículo de memória, identidade e reflexão critica no espaço lusófono. In “Agência de Notícias da Guiné”


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Portugal - “Meteorizações” de Filipa César em Serralves reflecte sobre ecos coloniais da Guiné-Bissau

Os elementos água, terra, ar e fogo são o fio condutor de “Meteorizações”, a primeira exposição antológica de Filipa César inaugurada em Serralves, Porto, convocando o passado colonial da Guiné-Bissau e ecos no presente.


“Tínhamos de encontrar uma forma de organizar todas estas obras e pensámos em organizá-las através dos elementos [água, terra, ar, fogo]”, explicou Filipa César, durante uma visita à imprensa, sobre a sua primeira grande exposição antológica no Museu de Serralves, no Porto.

Na primeira sala da exposição, “Meteorizações” é dedicada à água e o visitante é envolvido em sons de água a correr que Filipa César explica ser o fluxo do Rio Trancoso a entrelaçar-se com vozes das gentes das “escolas do mangal”. As “escolas do mangal” são espaços que promovem a educação ambiental e o desenvolvimento comunitário focado na protecção e restauração dos mangais na Guiné-Bissau.

“A sala da água convoca muitos fluxos, desde os passadores através do Rio Trancoso, como as escolas do mangal na Guiné-Bissau, como também um excerto de um filme com Marinho de Pina [contador de histórias guineense], sobre os conflitos que nós [Filipa e Pina] tínhamos nos processos destes trabalhos colaborativos”, descreve a artista nascida em 1975.

O percurso da exposição leva o visitante a uma nova sala que convoca o elemento Terra. É naquele espaço que aparecem, por exemplo, imagens de Amílcar Cabral (1924-1973) noutro filme. Amílcar Cabral, político e agrónomo nascido em Bafatá, na Guiné, sob domínio colonial português, liderou a luta pela libertação e independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

“Interessava-se muito pelo solo como um corpo histórico”, afirmou a artista sobre o co-fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde.

O título da exposição – “Meteorizações” – remete para uma noção oriunda da geologia, reinterpretada por Amílcar Cabral, que entende a terra “como um produto de forças naturais e de dinâmicas históricas e políticas em permanente mutação”, lê-se no dossiê de imprensa.

“Foi a partir daí que desenvolvi muitos textos de pesquisas, filmes que partem desse princípio comum de um solo como um corpo inscrito e a que chamei de agropoética, que é essa relação de pesquisa, mas o solo como um ponto de partida para pensar as possibilidade e as condições da terra em relação à humanidade que a habita”, acrescenta Filipa César.

Filipa César tem vindo a investigar a prática de cinema militante e a agropoética do movimento de libertação africano na Guiné-Bissau – ou seja, no contexto dos movimentos políticos e sociais que lutaram pela descolonização da África -, através da produção de oficinas, textos, filmes, performances, publicações e encontros comunitários.

O percurso da exposição tem duas outras salas. Na dedicada ao ar, “aos pensamentos e ideias”, há uma colecção de tecelagem e várias questões sobre os ‘panu di pinti’, tecido tradicional da Guiné-Bissau feito à mão.

O ‘panu di pinti’ “inscreve muitas questões que nos ligam e que trazem a questão do crioulo como um local de encontro, de união e de transformação e não um espaço de separação”, sublinha Filipa César.

Há também a sala dedicada ao elemento fogo, onde é possível ver um filme e uma instalação que exploram como as tecnologias ópticas de design militar e colonial – desde as lentes Fresnel dos faróis até aos sistemas globais de navegação por satélite – informam e são informadas pelos modelos ocidentais de conhecimento, adoptando uma abordagem crítica às ideologias por trás do desenvolvimento desses instrumentos de orientação e vigilância.

Todo o percurso expositivo tem filmes, diversos livros (alguns foram proibidos em Portugal durante a ditadura de Salazar), documentos e materiais inéditos, desde obras iniciais como “The Embassy” (2011), até produções mais recentes da artista.

A exposição antológica revela um processo contínuo de investigação ao longo dos últimos 15 anos, contou Filipa César, destacando que não é só feita por si, mas em colaboração com investigadores, cineastas e comunidades locais, incluindo uma estreita colaboração com o realizador guineense Sana na N´Hada, que filmou a guerrilha e foi responsável do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual da Guiné-Bissau.

É uma exposição que “constrói relações transversais entre diferentes tempos, suportes e contextos”, convidando “o público a pensar criticamente o passado colonial e os seus efeitos no presente”.

O texto de apresentação destaca “filmes, objectos e documentos que evocam eventos históricos como a desobediência antifascista portuguesa e a resistência anticolonial guineense”, num percurso que atravessa “arquivos audiovisuais do período das lutas de libertação, reflexões sobre o mangal, políticas da óptica e da tecelagem, e o pensamento agropoético de Amílcar Cabral”.

A exposição, produzida pela Fundação de Serralves, tem curadoria de Inês Grosso, curadora-chefe do Museu, e de Paula Nascimento. A mostra inclui ainda uma publicação inédita, com ‘design’ de Bárbara Says e coordenação de Amarante Abramovici, reunindo um arquivo de ensaios, conversas, correspondência que acompanhou o processo de pesquisa dos últimos 15 anos.

Filipa César é cineasta, educadora e organizadora comunitária e, desde 2011, tem vindo a investigar colectivamente a prática de cinema militante.

A exposição “Meteorizações” vai ficar patente em Serralves até 31 de Maio. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Guiné Equatorial - A Fundação Obiang Nguema Mbasogo–Amílcar Cabral ativa a sua agenda comemorativa de 2026 com ênfase em educação e cultura

Para marcar o 53º aniversário da morte de Amílcar Cabral, registada a 20 de janeiro de 1973, a Fundação Cultural Obiang Nguema Mbasogo–Amílcar Cabral iniciou o planeamento do seu programa anual de atividades educacionais e culturais, que ocorrerá em meados de janeiro de 2026

A Fundação, uma organização privada sem fins lucrativos, procura homenagear Amílcar Cabral, renomado ideólogo da revolução e libertação africana, disseminando o seu legado intelectual, político e cultural, que continua a inspirar novas gerações dentro e fora do continente.

No último sábado, 10 de janeiro, Rufino Ndong Esono Nchama, fundador da Fundação, presidiu a uma reunião preparatória com membros da organização para coordenar eventos comemorativos e definir as principais linhas de ação. Durante a sessão, foi enfatizada a importância de fortalecer os aspectos educacionais e de treino das atividades planeadas.

Entre as ações planeadas está a doação de mais de mil livros em inglês para diversos centros educacionais do país, com o objetivo de promover a leitura e o aprendizado de idiomas entre os jovens.

Além disso, a agenda inclui encontros de reflexão, palestras de capacitação e atos simbólicos nos dias 15 e 16 de janeiro, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o legado de Cabral e fortalecer a consciência histórica e cultural na sociedade da Guiné Equatorial.

Rufino Ndong Esono Nchama expressou a sua gratidão pela colaboração de todas as pessoas e entidades envolvidas, enfatizando a intenção da Fundação de dar um papel mais ativo aos jovens, considerados essenciais para garantir a continuidade e a projeção futura da instituição. Feliciano Ava – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”


sábado, 19 de julho de 2025

Cabo Verde - IIolanda Pereira lança álbum “Essência na voz”

Mindelo - A cantora e artista luso-cabo-verdiana IIolanda Pereira lançou nas plataformas digitais o seu mais novo álbum “Essência na voz”,  com a intenção de transmitir através da música a essência do poder da voz e da espiritualidade.


O trabalho apresentado na sexta-feira, 18, surge após o lançamento do single “Iolanda”, no passado mês de Março.

O “Essência na voz”, de acordo com informações da assessoria da cantora, nasce da intencionalidade da artista de, através da música, transmitir a essência do poder da voz, da espiritualidade e da força da canção que se conecta com os instrumentos musicais.

Ilolanda Pereira, segundo a mesma fonte, mantém reverência à sua ancestralidade, mas pretende também passar mensagens de respeito à natureza e protecção do planeta Terra, temas abordados designadamente nas canções “Terra na voz” e “Água fresca”.

Além de poemas da sua autoria, constam do disco canções de Zeca Afonso, de Amílcar Cabral & Jorge Fernandes Monteiro (Jotamont), João Carlos Silva (Jotacê) & Anísio Rodrigues, Mário Laginha, Paulino Vieira, Mário Lúcio Sousa e João Bosco, com o qual gravou um dueto especial.

Ainda, destaca-se a participação de renomados músicos como Bernardo Moreira, no contrabaixo e na produção musical, João Moreira, no trompete, e Luiz Avellar no piano e no adufe.

Este projecto musical é composto por oito temas e propõe, através dos sotaques do jazz, da linguagem sutil das sonoridades rítmicas tradicionais de Cabo Verde, da personalidade identitária da música portuguesa e brasileira, criar partilhas e pontes de conectividade e liberdade entre géneros e ritmos musicais.

A cantora que iniciou a sua carreira em 1998, tem percorrido diferentes festivais, em vários continentes, levando a música cabo-verdiana e as sonoridades do jazz. In “Inforpress” – Cabo Verde


sábado, 19 de abril de 2025

Cabo Verde – Do bairro de Lém-Cachorro a Macau: Jovem poeta cabo-verdiano traduz para português obra da maior poetisa chinesa

Zerbo Freire, pseudónimo do poeta e tradutor cabo-verdiano Rivaldo Mendes Freire Tavares, é o organizador em língua portuguesa de “O peso do Outono sobre o coração – Antologia da poesia lírica de Li Qingzhao”, tida como a mais importante poetisa chinesa de todos os tempos. Apresentado na XIV edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras 2025, Zerbo espera poder apresentar esse seu trabalho em Cabo Verde, juntamente com outras obras, nomeadamente, a tradução de poemas de Amílcar Cabral para o chinês



Das ruas do bairro do Lém Cachorro, cidade da Praia, ilha de Santiago, às salas de aula de Macau, Zerbo Freire diz que sempre foi um amante da escrita poética, que começou em ritmos de rap, aos 15 anos. Em 2017, quando embarcou para estudar “Ensino da Língua Chinesa como Língua Estrangeira”, pelo Instituto Politécnico de Macau, levou consigo um diário com poemas escritos em crioulo, que foram posteriormente traduzidos em português e resultaram na sua primeira obra poética.

Actualmente é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de Macau e doutorando em Estudos Literários e Interculturais nesta mesma instituição. Em 2022, no âmbito da II Semana de Cultura Chinesa realizada pelo jornal Hoje Macau, apresentou a tradução Quadras Chinesas, a primeira tradução directa de poesia chinesa feito por um cabo-verdiano.

“O peso do outono sobre o coração”

Sobre o seu mais recente trabalho, a tradução para o português de “O peso do outono sobre o coração – Antologia da poesia lírica de Li Qingzhao”, diz que começou a traduzir essa poetisa em Outono de 2022, como parte da sua dissertação de mestrado e logo ganhou gosto pela obra dessa autora.

Volvidos apenas três anos, diz que esta tradução, obra que já foi apresentada na XIV edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras 2025, no passado dia 29 de Março, foi o “cumprir” da proposta que fez na conclusão do relatório de mestrado.

“Uma contribuição relevante”

“O meu livro é um dos poucos ou o único trabalho científico sobre a tradução de Li Qingzhao poesia lírica em português”, afirma, ressalvando que a mesma autora (1084-cerca de 1155), é considerada, “por muitos críticos e tradutores chineses e ocidentais, como sendo a maior poeta da vertente feminina da literatura chinesa”.

“Li Qingzhao é um nome que atrai geral aclamação, é considerada, por muitos críticos e tradutores chineses e ocidentais, a maior poeta da vertente feminina da literatura chinesa. Na língua portuguesa, porém, não tínhamos nenhuma antologia dedicada totalmente à sua obra. Por isso mesmo, decidi dar este pequeno contributo”, afirma o nosso entrevistado.

Zerbo diz que neste momento o que o inspira mais a escrever são as traduções que vai fazendo e que esse exercício acaba por o instigar a “re imaginar outras vivências, muitas vezes bem distantes dos nossos dias; para mim, isto é prazeroso e inspirador, simplesmente”.

Tradução de Amílcar Cabral para o chinês

O entrevistado do A Nação avançou que pretende, ainda neste ano de 2025, apresentar “O peso do outono sobre o coração – Antologia da poesia lírica de Li Qingzhao” em Cabo Verde, porquanto, apesar de saber que na UNI-CV existe o curso de licenciatura em Estudos Chineses, “pouco ou quase nada é publicado sobre a poesia chinesa” e diz que ele próprio, poeta e tradutor, “não conhece tradutores cabo-verdianos da poesia chinesa”.

Avançou ainda que neste mês de Abril tem “uma série de palestras” na Universidade de Macau e Universidade da Cidade de Macau, em comemoração dos 49 anos da cooperação entre Cabo Verde-China.

Quanto aos planos futuros diz que tem em curso “um livro simples sobre as canções tradicionais de Cabo Verde”, juntamente com uma colega chinesa. “Escolhemos dez canções cabo-verdianas para comentar e traduzir para o português e chinês e que provavelmente será apresentado no próximo ano, em comemoração dos 50 anos das relações entre Cabo Verde e China”.

Confessou igualmente que está a traduzir a poesia do líder da Revolução Chinesa, Mao Zedong, para o português e do líder da luta pela Independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, Amílcar Cabral, para o chinês.  “Espero poder publicar estas duas obras no ano que vem, 2026, em Cabo Verde”, afirma.

O seu mais recente livro, “O peso do outono sobre o coração – Antologia da poesia lírica de Li Qingzhao”, tem selo da editora Livros do Meio. Tiago Ribeiro – Cabo Verde in “A Nação”


sábado, 8 de março de 2025

Portugal - Lisboa acolhe lançamento do livro de Carlos Reis sobre a independência de Cabo Verde

Lisboa – O lançamento do livro “Da luta pela independência de Cabo Verde às saudades do futuro”, de Carlos Reis, acontece na quinta-feira, 13, no Grémio Literário de Lisboa, com apresentação de Ângela Coutinho e Mário Matos.



A obra, de acordo com a Rosa de Porcelana Editora, pretende evocar “figuras e momentos cruciais” do processo de luta pela independência de Cabo Verde, destacando o papel de Amílcar Cabral.

Na obra, o autor quis enaltecer a visão estratégica e capacidade diplomática de Amílcar Cabral, bem como a solidariedade com outras colónias portuguesas e o próprio povo português.

Carlos Reis, combatente da liberdade da Pátria, integrou o Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e desempenhou diversas funções no período da independência, incluindo os cargos de ministro da Justiça e Assuntos Sociais no Governo de transição e ministro da Educação e Cultura após a independência.

Ele foi também embaixador de Cabo Verde em Portugal e outros países europeus, membro fundador da Associação dos Combatentes da Liberdade da Pátria e seu presidente, por três vezes, membro fundador da Fundação Amílcar Cabral e da Fundação Esperança António Mascarenhas Monteiro.       

Além desse novo livro, Carlos Reis já publicou “A educação em Cabo Verde: um outro olhar” (2019) e vários artigos sobre cultura, cidadania e a luta independentista cabo-verdiana.

A sessão de lançamento do livro que tem a égide da Rosa de Porcelana Editora está agendada para as 18:00. In “Inforpress” – Cabo Verde


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

UCCLA - Comemoração do 1.º aniversário da Casa da Cultura da Guiné-Bissau

A UCCLA vai acolher, no dia 25 de janeiro, as celebrações do 1.º aniversário da Casa da Cultura da Guiné-Bissau (CCGB), das 15h30 às 19h30. Não falte!



O programa inclui momentos de animação cultural, intervenções institucionais e comunicações dedicadas à importância da cultura e da identidade guineense. A agenda do Centenário de Amílcar Cabral 2025 será também apresentada oficialmente, revelando as atividades e iniciativas previstas para celebrar este marco.

Outro momento especial será o lançamento do livro biográfico em banda desenhada "100 Cabral - A Epopeia de um Simples Africano", da autoria de Fernando Júlio e Braima Mané, com uma conversa com autores e convidados que irão partilhar reflexões sobre o impacto de Amílcar Cabral na história da Guiné-Bissau e de África.

No encerramento das comemorações, haverá um momento de convívio, onde poderá saborear os sabores tradicionais da Guiné-Bissau, acompanhado de música, venda de livros e outros produtos tradicionais.

A entrada é gratuita, mas sujeita a inscrição prévia em www.tuduticket.com

O evento será uma oportunidade para partilhar a história e os objetivos da CCGB, promover a riqueza da cultura guineense e fortalecer laços com a comunidade.

Junte-se a nós para celebrar este marco especial e contribuir para a valorização da cultura e da identidade guineense. Esperamos por si!

Programação

Livro "100 Cabral - A Epopeia de um Simples Africano"


terça-feira, 17 de setembro de 2024

Cabo Verde - Djam Neguin estreia o espetáculo "AMI.LCAR"

O artista multidisciplinar Djam Neguin estreia em Cabo Verde o seu mais recente espetáculo, "AMI.LCAR", As apresentações ocorrerão em dose dupla: no Mindelo, no dia 18 de setembro, às 21h, e na Cidade da Praia, no dia 20 de setembro, às 20h30, no Auditório.


Sinopse

"AMI.LCAR" é uma criação inspirada na vida e obra de Amílcar Cabral, um dos maiores líderes de todos os tempos. Através de um exercício que visa expandir o legado do pensador, Djam Neguin recria episódios da sua existência e ideologia emancipatória, anticolonial e ecológica. Utilizando dispositivos multimédia e inteligência artificial, o espetáculo faz uma reflexão entre o real e o virtual, o humano e o pós-humano.

O espetáculo está inserido nas comemorações do centenário de Amílcar Cabral e reflete o entusiasmo do artista em compartilhar a sua obra artística com o público cabo-verdiano.

Os bilhetes custam 500$ comprados antecipadamente.

Além das apresentações em Cabo Verde, Djam Neguin almeja levar "AMI.LCAR" a outras ilhas e municípios, com planos de futuras apresentações na diáspora em 2025, mas isso só sucede com o interesse das entidades de cultura.

Paralelamente, o artista estará presente com seu short film "Xindzuti", que estreará no Festival Internacional de Dança da Almada, no dia 19 de setembro. Logo depois, Djam apresentará o espetáculo "Na-Ná" no Festival Internacional de Dança Contemporânea de Évora, depois 27 de setembro.

Após a digressão em Cabo Verde, o artista seguirá para a Guiné-Bissau, com planos de uma segunda tournée pelo Brasil, Portugal e Espanha. Djam Neguin Shows – Cabo Verde




quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Guiné-Bissau - Investigador Sumaila Jaló diz ser necessário resgatar o pensamento revolucionário de Cabral para as lutas de hoje

Bissau - O investigador guineense, Sumaila Jaló, participou na mesa redonda sobre Cabral e a Juventude: um debate inter-geracional

O estudante em doutoramento no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra afirma ser preciso "resgatar o pensamento revolucionário de Amílcar Cabral - enquanto ideologia progressista - para as lutas de hoje".

RFI: Amílcar Cabral teve uma relação profunda com a juventude, tanto no contexto do movimento de libertação como em termos de inspiração política e ideológica. Esta relação entre o legado de Cabral e a juventude ainda existe?

Sumaila Jaló: Existe há uma transdimensão em que podemos falar dessa relação de Cabral com a juventude. Uma primeira dimensão que é a dimensão da ausência, que consiste nas tentativas de apagamento do legado da luta e da acção revolucionária de Amílcar Cabral e dos seus camaradas no espaço público, tanto no sistema educativo como no espaço dos partidos políticos para a mobilização pública. No próprio PAIGC que ele ajudou a fundar que, a partir do golpe de 14 de Novembro de 1980, se desligou com a sua base ideológica fundadora, pan africanista, socialista e que pugna pelo progresso do povo realizado pela mobilização do próprio povo, mas também uma tentativa muito actual de certos poderes políticos identificados no caso da Guiné-Bissau, que decretam a celebração do Dia da Independência a 16 de Novembro, dia das Forças Armadas e não 24 de Setembro, que é o dia da proclamação unilateral histórica da independência da Guiné-Bissau. Uma tentativa de militarização do poder, mas também, muito recentemente, através de um despacho que impede a fixação de cartazes no espaço público para a celebração do centenário. Primeiro esta ausência, depois a presença na cultura em toda a sua dimensão na produção cultural. A figura de Cabral e o legado da luta aparece e a partir da produção cultural que a juventude se conecta com o legado de Amílcar Cabral. Através disso, os movimentos sociais que, tanto na Guiné-Bissau como em Cabo Verde, assim como nas suas diásporas, se mobilizam com base no pensamento revolucionário de Amílcar Cabral, para a transformação. Finalmente, há uma dinâmica de resgate da figura de Cabral.

O que eu acredito é que essa dinâmica de resgate não seja no sentido de salvar o pensamento do Cabral, porque isso está salvo, 51 anos depois do seu assassinato, nós ainda falamos de Cabral e celebramos Cabral e o seu pensamento. O que nós precisamos é um resgate para o pensamento revolucionário de Cabral enquanto ideologia progressista e de transformação da realidade que nos sirva para as lutas de hoje, as lutas para a emancipação do povo guineense e cabo-verdiano, mas sobretudo para a construção de uma nova vida na paz e na dignidade em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em África e para toda a Humanidade.

E porque é que acontece esse distanciamento entre as classes políticas, com a sociedade civil e este legado de Amílcar Cabral?

Este desligar de entidades políticas, particularmente partidos políticos com as bases populares que mobilizam deu-se primeiro, como o próprio PAIGC, que é um movimento revolucionário de massas na sua origem. Mas a transição de sistema de partido único para a liberalização económica e depois para a abertura política. Não estou a dizer que estas aberturas não deviam ter acontecido, mas não são motivos para um partido dessa dimensão esvaziar do seu espaço o pensamento comprometido com a transformação dessas massas populares. O que aconteceu foi o aburguesamento das lideranças desses partidos políticos que repeliu a sua relação com as massas populares e essa desconexão começou a gerar desconfianças desse próprio povo que alimentou o surgimento do PAIGC com esta estrutura. Esta dinâmica se alastrou para todos os outros partidos criados com a abertura democrática: Em vez de o partido ser uma instituição ao serviço da população, o partido passou a transformar-se em entidades que se servem do erário público produzido pela população e pela massa popular.

Amílcar Cabral defendia a educação política dos jovens. Acreditava que o futuro da África dependia da formação das novas gerações conscientes e preparadas, muitos jovens foram educados pela visão de autodeterminação e igualdade. O que é que aconteceu a estes jovens? Onde é que estão estes jovens hoje? E o que é que fizeram pelo país?

Há duas questões aqui: Quando o PAIGC e o resto dos outros partidos políticos se transformaram em espécies de castas para incorporar interesses pessoais e não interesses colectivos, quadros até formados por esses partidos, na linha progressista de servir para a transformação da realidade, para o benefício de todos. Quadros que não se inscreveram na lógica de instrumentalização do partido para agendas particulares tinham duas possibilidades ou continuar e acomodar-se na destruição da base ideológica fundadora do PAIGC, por um lado, dos outros partidos que queriam ser alternativas ou então vão fora do partido político. O que acontece? Por um lado, há uma fuga de quadros, aqueles que recusaram acomodar se no sistema para não ser cúmplice da destruição do nosso país, na Guiné-Bissau, também em Cabo Verde encontrou outros refúgios fora dos nossos países.

Mas há aqueles outros que se acomodaram nos espaços das ONG ou arranjaram outra forma de sobrevivência, mais uma vez, para não fazerem parte do sistema a destruir o país. Só que nenhuma dessas opções funciona como alternativa a esses lugares de mobilização política. O que nós devemos começar a pensar em fazer é criar alternativas de todas as dimensões, tanto no espaço político quanto no espaço social e de mobilização cultural. Três dimensões fundamentais para construção de qualquer sociedade no mundo, disputarmos esses espaços, afirmarmos nos nesses espaços com novas agendas viradas para o progresso. O progresso nada mais é do que trabalhar colectivamente, consentir sacrifícios que são indispensáveis, consentir para a melhoria das nossas vidas. Porque a luta de libertação, o legado de Amílcar Cabral e dos seus companheiros, se continuar só no domínio teórico e não for concretizado no domínio da transformação da vida das populações, não serve para nada que não seja teoria e que não encontra a prática que transforme a realidade das nossas mobilizações.

Este legado de Amílcar Cabral foi esquecido pelos nossos representantes?

Foi. Primeiro porque o pensamento de Amílcar Cabral é sólido e é um pensamento que não dialoga bem com demagogia, que não dialoga bem com traição, que não dialoga bem com corrupção, que não dialoga bem como mentir ao povo. É um legado assente em princípios éticos, morais e de compromisso patriótico que as actuais lideranças políticas não têm na sua gramática política. Por isso, não estão interessados em conhecer Amílcar Cabral.

Amílcar Cabral e o seu pensamento inquietam. Amílcar Cabral e o seu pensamento fazem-nos perguntar onde estamos e por onde vamos caminhando. Lideranças políticas interessadas em construir castas, em consolidar burguesias para a captura do erário público, para interesses localizados e não colectivos, nunca estarão interessados na afirmação e consolidação do pensamento cabralista nas nossas sociedades. Por isso é que esse pensamento é repelido através de decretos e através de despachos que o pretendem apagar do espaço público. Mas isso é impossível porque, mesmo que existam mais do que esses decretos, o pensamento de Cabral que já se consolidou 50 anos na academia, na cultura, nos movimentos sociais e mesmo nesses partidos políticos, apesar de uma lógica instrumentalizada e demagoga.

Amílcar Cabral tornou-se um símbolo de luta contra o colonialismo e a opressão. Nos últimos 50 anos surgiram líderes que foram ou são vistos hoje como mentores ou guias pelos mais jovens?

Não têm surgido muitos. Há líderes que nós podemos reconhecer que tenham feito esforço em Cabo Verde e também para a África. Nós devemos reconhecer a força, a resistência e a longevidade do compromisso patriótico do comandante Pedro Pires é um exemplo. Apesar de todas as dificuldades com que se confrontou no contexto em que foi primeiro-ministro de Cabo Verde e Presidente da República, manteve o vínculo com os valores da luta de construir o bem-estar dos nossos povos. Ensinou-nos a pensar na nossa unidade, que é um legado histórico, mesmo que essa unidade não exista numa dimensão binacional.

No caso da Guiné-Bissau, nós tivemos Presidentes da República, como o Luís Cabral, que herdou uma linha, se esforçou a afirmar nos primeiros anos da independência. Depois houve três Presidentes da República, a quais eu tenho muito respeito na Guiné-Bissau.

Malam Bacai Sanhá pelo seu carácter. Em tempos em que tipos de liderança que tivemos na altura não só se divorciaram destes princípios éticos e morais, mas se desafiaram com o próprio povo. Se nós olharmos para todos os Presidentes da República na Guiné-Bissau, podemos olhar para esta figura de Malam Bacai Sanhá como aquele que não teve muito tempo na Presidência, mas que nos ensinou a construir paz, estabilidade, mesmo que seja a fogo e ferro. Temos o Serifo Nhamadjo e o Henrique Rosa, que mesmo no caso do Serifo Nhamadjo, tendo sido Presidente num contexto de golpe de Estado e tenha havido muitas interpretações dessa altura. A forma como foi Presidente da República.  Estamos a falar de um Presidente que chegou à Presidência da República através de um golpe de Estado, mas que teve um desempenho ético e moral de larga dimensão, melhor que a situação actual. São exemplos que não são perfeitos, exemplos criticáveis, mas exemplos aos quais nós podemos olhar para fazer melhor, sobretudo melhor, no sentido que eles não conseguiram, no sentido de recuperar o pensamento cabralista enquanto base ideológica para olhar para a realidade, compreender a realidade e transformar a realidade para o nosso bem-estar. In “Agência de Notícias da Guiné” – Guiné-Bissau com “RFI”


Cabo Verde - Centenário de Amílcar Cabral: “É a uma figura a respeitar, mas não com a dimensão que se fala”

Muito mito, pouco rigor. Nestes 100 anos do nascimento de Amílcar Cabral, podemos resumir assim as palavras do politólogo, professor universitário e um dos poucos cabo-verdianos que escreveu sobre o antigo líder do PAIGC [Amílcar Cabral – Um Outro Olhar]. Por outro lado, defende, trazer para a contemporaneidade as ideias de Cabral não faz qualquer sentido


Amílcar Cabral nasceu há 100 anos. Figura marcante da luta pela independência e do nacionalismo guineense e cabo-verdiano, o fundador do PAIGC acabou assassinado por elementos do próprio partido e passou a ter o estatuto de lenda, com o mito a confundir-se com a realidade e muitas vezes a ultrapassá-la.

“O sistema de ensino foi a principal vítima dos 15 anos do Partido Unido em Cabo Verde”, diz ao Expresso das Ilhas Daniel dos Santos. “Por isso, é natural que as academias, a elite nova e pensante, escreva num tom panegírico. Isto só mostra a qualidade das elites que temos”.

“O sistema de ensino daquele tempo ainda vigora no nosso sistema de ensino”, continua o professor universitário. “Não se fala da democracia, mas fala-se da independência, dos heróis da independência. Os heróis da democracia são, pura e simplesmente, marginalizados e ignorados pela historiografia cabo-verdiana da actualidade. Eu acho que se deve discutir Cabral, se deve celebrar Cabral, mas sem colocá-lo no patamar que ele não tem”.

A academia engajada

Entre 1963 e 2020 foram publicados 450 trabalhos científicos sobre Cabral – do Egipto à Suécia, da Austrália ao Japão. E em Cabo Verde?

“Em Cabo Verde, praticamente, não existem. Eu não os conheço”, assegura Daniel dos Santos. “O que há são pequenos artigos publicados, aqui e ali, em revistas, mas em revistas da Fundação Amílcar Cabral, da Uni-CV, mais nada. A forma como se fazem esses trabalhos pode não atrair muitos investigadores. Quando um investigador estrangeiro vem a Cabo Verde, por exemplo, dá-se-lhe balizas: contacta esta pessoa, não contactes estes. Não é esta a perspectiva de isenção que se quer ao abordar estudos sobre Amílcar Cabral”.

Esta idolatria da academia sobre a figura, segundo o politólogo, retira discernimento, distanciamento e, acima de tudo, credibilidade científica. “Quando leio artigos de académicos, de historiadores, que passam por cima de acontecimentos que não abonam a favor de Amílcar Cabral, ignoram-nos pura e simplesmente. Quem perde é a ciência. Quem perde é a história. Mas insistem porque são assalariados da Fundação Amílcar Cabral”.

“Toda a gente conhece esses investigadores. São pagos, têm bolsas. Se não são bolsas da Fundação Amílcar Cabral, são de outras organizações. Dinheiro não lhes falta”, refere.

“As universidades devem demarcar-se das orientações que recebem dos políticos, da Fundação Amílcar Cabral e do próprio PAICV, para, de vez, abraçarem uma investigação séria que retrate Amílcar Cabral tal como ele é. Um homem com virtudes, sim, com defeitos, sim, sem o maltratar e colocando-o no lugar da história que ele conquistou por mérito próprio e com a própria vida. Não é fazendo propaganda panegírica e canonizando-o por todos os lados e em todos os sítios que se resolve esse problema”.

“Em Cabo Verde não se estuda Cabral de uma forma séria, independente e imparcial. A ideologia que sustenta o mito continua bem viva e influente” - Daniel dos Santos

A ideologia cabralista

É quando se quer contextualizar Amílcar Cabral que, entende Daniel dos Santos, começam as dificuldades. As ideias de Cabral não são aplicáveis actualmente em Cabo Verde e segundo o académico, pouco ou nada se aproveita do pensamento de Amílcar Cabral. “O regime político que foi implantado em Cabo Verde no período pós-colonial, é um regime que saiu da cabeça de Amílcar Cabral. E basta lermos a última mensagem que ele endereçou aos povos da Guiné e de Cabo Verde, em que ele desenhava um esboço do Estado a implantar em Cabo Verde e na Guiné com a independência: um regime de partido único, à frente do qual deveriam estar os melhores filhos da Guiné e de Cabo Verde. Uma ditadura”.

“Cabral tinha um projeto libertador? Certo! Mas para libertar o quê? Para libertar quem? Cabo Verde não foi libertado pela Guerra da Independência na Guiné. Quem libertou Cabo Verde foi o Movimento dos Capitães de Abril. Isto é indiscutível. Só que depois entregaram Cabo Verde ao PAIGC que instituiu um regime da mesma igualha que o Estado Novo”, afirma o docente universitário.

“O PAIGC limitou-se a substituir um partido único português por um partido único autóctone. Sei que isto é o que muita gente não quer ouvir, não quer mostrar, mas é verdade. Não estou a inventar rigorosamente nada”.

“Hoje, Cabo Verde é um país que está nos antípodas do pensamento político de Amílcar Cabral. É um país democrático, que não tem nada a ver com o regime político pensado por Amílcar Cabral”, reitera Daniel dos Santos.

A luta começa

A insurreição armada nos PALOP inicia-se em Angola, em 1961, com a formação de três movimentos de libertação – FNLA, MPLA e UNITA –, estende-se à Guiné-Bissau com o PAIGC e a Moçambique com a FRELIMO.

A estas insurreições armadas, Salazar respondeu com a deslocação de milhares de soldados para as colónias, o que provocou o isolamento português a nível internacional e uma crescente oposição interna contra a guerra colonial, que vem culminar com a queda da ditadura no dia 25 de Abril de 1974.

Amílcar Cabral explicou a ideologia que o guiava a um grupo de intelectuais, em Londres, em 1971: “nós acreditamos que uma luta como a nossa é impossível sem ideologia. (...) Partir das realidades do nosso próprio país para a criação de uma ideologia para a luta não implica que se pretenda ser um Marx ou um Lenine, ou qualquer outro grande ideólogo, mas é simplesmente uma parte necessária da luta. Confesso que não conhecíamos suficientemente bem estes teóricos quando começámos. Nós não os conhecíamos nem metade do que os conhecemos agora! Nós tivemos necessidade de conhecê-los, como disse, a fim de julgarmos em que medida podíamos aproveitar a sua experiência para ajudar a nossa situação – mas não necessariamente para aplicar a ideologia cegamente, só porque ela é uma ideologia muito boa. Este é o nosso ponto de vista. Mas a ideologia é importante na Guiné. (...) Não queremos que o nosso povo seja mais explorado. O nosso desejo de desenvolver o nosso país com justiça social e com o poder nas mãos do povo é a nossa base ideológica. Nunca mais queremos ver um grupo ou uma classe de pessoas explorar ou dominar o trabalho do nosso povo. Esta é a nossa base. Se se quiser chamar a isso marxismo, chame-se marxismo”.

Um humanista radical? Não!

Recentemente, Portugal tem sido o país de onde parte a maior parte da efabulação à volta de Amílcar Cabral: quando um colóquio de académicos que decorreu em Lisboa, no ano passado, recuperou os obituários dos jornais internacionais após o assassinato, os adjectivos sucederam-se – o pacifista que teve de pegar em armas, o rebelde gentil, o diplomata combatente, o guerrilheiro moderado. Segundo Daniel dos Santos, estão aqui vários exemplos do branqueamento da imagem do antigo líder do PAIGC.

“Amílcar Cabral pacifista? Não foi. Humanista? Não foi. Obrigado a responder à violência colonialista com a violência revolucionária? Não foi”, sublinha o politólogo. “Acho que a melhor via para Amílcar Cabral sobreviver, inclusive ao próprio partido que fundou, era ter apostado na diplomacia, na propaganda, para lutar contra o colonialismo português na Guiné. Houve guineenses, como Eliseu Turpin, uma das figuras importantes do nacionalismo guineense, e um dos putativos seis fundadores do PAIGC em 56, que nunca quis ir a Conakry participar na luta armada. O Rafael Barbosa também não foi. São pessoas que não acreditaram na via armada para a libertação da Guiné”.

“Cabral é um pequeno burguês revolucionário, que apostou na violência como resposta ao regime colonial, porque o colonialismo é em si um estado de violência permanente. Mas mesmo depois da morte de Cabral violência não acabou na Guiné”, diz Daniel dos Santos.

“Amílcar Cabral tinha um discurso violento. Quando Lumumba foi assassinado, Amílcar Cabral escreveu um texto [pode ser consultado na página da Fundação Mário Soares – www.casacomum.org]. Em que ele escrevia que era um traidor e que merecia ser morto todo o guineense ou cabo-verdiano que dissesse que era português”, reforça o professor universitário.

“Veja-se também as séries de execuções que se registaram na Guiné. A cultura de fuzilamento que o próprio Cabral introduziu no PAIGC, como técnica de resolver problemas políticos. Portanto, acho que podemos apresentar Cabral, como um combatente anti-imperialista, um anticolonialista, um diplomata exímio, um grande propagandista, mas não um pacifista”, afirma o académico.

Guiné vs Cabo Verde

Idolatrado em Cabo Verde, quase esquecido na Guiné-Bissau, onde a fotografia saiu das notas e o nome abandonou a toponímia. Para visitar o mausoléu, na fortaleza José de Amura, em Bissau, é preciso pedir autorização aos militares.

“Em Cabo Verde, a aura do Amílcar Cabral ficou. Nas escolas primárias, nas escolas secundárias, na comunicação social”, explica Daniel dos Santos. “Mas, Amílcar Cabral não é uma figura do Estado, é uma figura partidária. A Fundação Amílcar Cabral e o PAICV têm muita dificuldade em lidar com essa verdade”.

“Os efeitos da acção do PAIGC e de Amílcar Cabral na Guiné foram mais no âmbito militar do que político. Em Cabo Verde são meramente políticos. A população não sofreu tanto fisicamente como sofreu na Guiné. Isto acaba por explicar alguma coisa que seja muito diferente do caso da Guiné e do caso do Cabo Verde. São processos históricos completamente diferentes”.

“Em Cabo Verde não houve violência, não houve luta armada. Na Guiné houve”, continua o professor universitário. “Quais são os efeitos desta guerra na consciência do guineense? E os das atrocidades que o PAIGC cometeu? De 1974 a 1980, cerca de 500 guineenses foram torturados e assassinados a sangue-frio, sem julgamento”.

“Mesmo em Cabo Verde”, diz o politólogo, “sou professor, lido com os jovens. Os jovens não querem saber do Amílcar Cabral. Os jovens querem ver os seus problemas resolvidos. Sim, dizem que é um herói. Mas isso é mais o resultado da grande intensidade propagandista que foi levada a cabo nas escolas”.

“Amílcar Cabral é uma figura a respeitar, mas não é com a dimensão que se fala”, conclui Daniel dos Santos. “No fim, Amílcar Cabral não passa de um homem, de um político, que foi amado e que foi odiado”. Jorge Montezinho – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


Portugal - Lançamento do livro sobre o lado mais íntimo de Cabral celebra centenário do líder revolucionário

Lisboa – O livro “Cartas de Amílcar Cabral a Ana Maria: Entre mim e ti, aconteceu amor” foi lançado hoje, em Lisboa, revelando o lado mais íntimo do líder da luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.


Sob a chancela de Imprensa Nacional e a Rosa de Porcelana Editora, o livro é organizado por Ndira Cabral, filha mais nova de Amílcar Cabral, Filinto Elísio e Márcia Souto, e livro traz uma colectânea de cartas trocadas entre Amílcar Cabral e sua esposa, Ana Maria, com um texto introdutório e notas de Ângela Benoliel Coutinho.

Ndira Cabral frisou a importância e a honra de estar a partilhar a vida amorosa dos seus pais, justificando que colaborar na feitura da obra foi para ela um dos maiores desafios emocionais de todos os tempos.

“Antes de ser um combatente, existe o Amílcar e esse livro devolveu-me o meu pai, porque quando ele foi assassinado eu tinha 3 anos, por isso, foi-me roubado o pai. Mas o camarada Cabral soube conquistar o seu lugar, tendo eu vivido a sua ausência e a presença dele de forma constante. Este livro devolveu o meu pai que tinha perdido para o mundo”, disse emocionada.

Nesse dia que se assinala o seu centenário, 12 de Setembro, é lançado o livro, conforme Márcia Souto, em declarações à Inforpress, que é uma obra que “revela o lado mais íntimo do líder da luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde”, tendo destacado o significado de dar vida a esse importante registo histórico e pessoal de Cabral.

“Desde 2016, tivemos a grata surpresa e honra de ter em mãos as ‘Cartas inéditas de Cabral, Maria Helena’, sua primeira esposa e, em 2018, publicamos os ‘Postais escritos para Ana Maria’, sua segunda esposa e viúva. Agora, no quadro do centenário, fomos novamente confiados, em coedição com a Imprensa Nacional Casa da Moeda, para publicar este livro”, destacou Márcia Souto.

Para ela, as cartas, embora íntimas, oferecem um vislumbre profundo sobre quem era Amílcar Cabral, para além do líder revolucionário, ressaltando a importância desse aspecto.

“Elas demonstram muito da coerência de quem ele era. Este livro vem na senda da continuidade de mostrar o homem por trás do líder, revelando que ele não era apenas um grande estrategista político, mas também esposo, pai e membro de família”, frisou.

O livro também contou com a colaboração de Ndira Cabral, com notas e introdução da historiadora Ângela Coutinho”.

O lançamento do livro é uma das muitas actividades comemorativas do centenário de Amílcar Cabral que estão sendo realizadas em Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal e outros países, por isso, Márcia Souto destacou a importância dessas celebrações globais.

“O centenário está sendo comemorado em vários continentes, e isso vem reforçar a projecção internacional de Amílcar Cabral, uma personalidade que já é bastante conhecida, mas que ainda merece ser mais reconhecida”, sustentou.

O lançamento do livro “Cartas de Amílcar Cabral a Ana Maria: Entre mim e ti, aconteceu amor” teve lugar no Auditório da Torre do Tombo, em Lisboa” e fez parte da programação do primeiro Encontro de Artistas e Escritores Guineenses, promovido pela Casa da Cultura da Guiné-Bissau (CCGB), integrando nas celebrações do centenário de nascimento de Amílcar Cabral. In “Inforpress” – Cabo Verde


Cabo Verde - Vera Duarte destaca Amílcar Cabral no seu centenário como um pensador e um visionário

Cidade da Praia – A escritora Vera Duarte destacou hoje a figura de Amílcar Cabral como um "pensador e um visionário" que pensou coisas para além do seu tempo.


"É um líder, ao reunir todos os combatentes da pátria, tanto de Cabo Verde como da Guiné-Bissau para a luta pela independência desses dois países", disse, Vera Duarte, em entrevista à Inforpress, no âmbito do centenário de Cabral que se assinala hoje, 12 de Setembro.

Considerou que para ele a luta de libertação "não era apenas" conquistar a independência, mas sim conquistar a independência e tirar o povo do sofrimento e ajudá-los a se tornarem cada vez mais cultos, ou seja, a emancipação dos povos era uma das prioridades dele.

Acrescentou que no quesito cultura Amílcar Cabral trabalhou "muito bem" sobretudo a questão da identidade dos homens e mulheres de Cabo Verde e Guiné-Bissau, por considerar que a participação das mulheres na luta poderia ser importante e disse entender que a luta pela libertação, liderada por Cabral é, em si, um acto de cultura.

"Ele lutou para combater a submissão e a alienação dos povos coloniais. Esta é a maior dimensão ética da batalha dele, pois mostrou a sua luta, apesar de estarmos sob domínios coloniais", frisou.

Lembrou que Amílcar Cabral, enquanto homem da Cultura, foi fundador e colaborador da criação da Academia dos escritores e das actividades culturais quando estudava no liceu em São Vicente. Aos 15 anos publicou o seu primeiro caderno de poesia “nos intervalos da arte da minerva e quando cupido acerta no alvo".

"Ao longo dos tempos ele publicou vários pequenos cadernos de poesia, mas acredita-se que ainda há alguns que não foram publicados”, sublinhou.

A escritora lembrou, igualmente, o discurso que ele fez no dia 08 de Março de 1969, nas zonas libertadas sobre a emancipação da mulher, pelo direito à vida, ao trabalho, à dignidade e a ser considerado companheiro na luta.

"Ele é um testemunho que influenciou e inspirou o pensamento de várias pessoas no mundo para a tomada de posições com os seus discursos. Actualmente muitas universidades do mundo estudam o pensamento dele", disse.

Por outro lado, destacou também que a língua portuguesa que, segundo Cabral, “é uma das ‘melhores coisas’ que os portugueses deixaram”, referindo que a língua não é senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros, é um meio para falar, para exprimir as realidades da vida e do mundo.

A mesma fonte mencionou um conjunto de pensamentos deste combatente, como a luta pelos direitos da mulher tanto a nível da educação, quanto à participação e ser dirigente de qualquer sector.

"Devemos a Amílcar Cabral o reconhecimento eterno por nos ter tirado das colónias", concluiu.

Amílcar Cabral, filho do professor Juvenal Lopes Cabral (cabo-verdiano de ascendência guineense) e de Iva Pinhel Évora (nascida na ilha de Santiago, Cabo Verde), nasceu a 12 de Setembro de 1924, em Bafatá, na então Guiné portuguesa (hoje Guiné-Bissau) e foi assassinado a 20 de Janeiro de 1973, em Conacri, República da Guiné.

As comemorações do centenário do nascimento de Amílcar Lopes Cabral, um político, agrónomo e referenciado como um “teórico marxista”, têm sido marcadas por diversos eventos académicos, culturais, políticos, desportivos, sociais em várias partes do mundo. In “Inforpress” – Cabo Verde

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Cabo Verde - Celebrar o centenário de Amílcar Cabral prestigia o país e a sua afirmação internacional afirma Pedro Pires

Cidade da Praia – O comandante Pedro Pires considerou que a celebração do centenário de Amílcar Cabral devia ter uma participação inclusiva das autoridades oficiais, já que o evento prestigia o país e abre perspectivas renovadas para a sua afirmação internacional.


A constatação foi feita na manhã de hoje pelo também presidente da Fundação Amílcar Cabral durante a sua intervenção no painel “Literatura e liberdade: em homenagem ao centenário do nascimento de Amílcar Cabral”, no âmbito do XII edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que decorre de hoje a domingo, 08, na cidade da Praia.

Pedro Pires, que lamentou a “tímida participação” das autoridades oficiais na celebração do centenário de Amílcar Cabral, apontou que o evento tem granjeado “uma ampla adesão” internacional e participação de personalidades, intelectuais, instituições académicas e de associações populares dos mais diversos países e origens culturais e sociais, graças a cooperação desenvolvida com instituições nacionais e internacionais.

Para Pedro Pires, os impactos múltiplos deste evento constituem uma “importante mais-valia” que prestigia o país, valoriza as suas instituições académicas, abre perspectivas renovadas à sua afirmação internacional e contribui para o incremento da autoestima e, igualmente, para o reforço da coesão nacional.

“Além disso, esta dimensão imaterial pode constituir um valor simbólico que impulsiona a confiança e o estímulo ao esforço quotidiano, individual e colectivo que estamos chamados a prosseguir em apoio à consolidação da nossa independência e da salvaguarda da soberania do nosso Estado, dois constituintes fundamentais para que a nossa libertação continue a fazer sentido e a ter significado”, considerou.

Os resultados conseguidos dentro e fora do país, continuou a mesma fonte, não seriam possíveis sem a apropriação patriótica e comprometida do centenário e da memória da Amílcar Cabral pela sociedade civil cabo-verdiana, e sem a participação “empenhada e entusiástica” da maioria das instituições académicas, culturais, profissionais, escolares e juvenis.

“Com efeito, a nossa sociedade civil tem operado como seu sustentáculo de maior valia, particularmente em cooperação com a timidez dos sinais da participação das autoridades oficiais, nesse aspecto, é de justiça relevar a acção em lugar da participação nacional na construção do sucesso da celebração do centenário”, apontou.

Segundo o presidente da Fundação Amílcar Cabral, os trabalhos realizados por historiadores, investigadores e politólogos revelam que a memória de Cabral tem feito um “percurso consistente” da ultrapassagem dessa “ameaça ideológica etnocêntrica, neocolonial e anti-histórica”.

Considerou ainda que a figura de Amílcar Cabral tem vindo a distinguir-se e a confirmar-se universalmente como pensador, teórico, estratega e símbolo das lutas de libertação política, social e cultural das sociedades e povos ainda oprimidos e neocolonizados, reafirmando igualmente o seu lugar cimeiro no processo libertador e reformador africano e universal.

Para Pedro Pires, Amílcar Cabral personificava uma liderança “pedagógica, transformadora e motivadora”, que colocava a responsabilidade do colonizado no foco do longo e complexo processo libertador, ao se transformar em sujeito activo da sua própria libertação política, social e cultural.

“Estamos confiantes de que a ampla e abrangente celebração em curso das comemorações do Centenário proporcionará mais oportunidades, argumentos e fundamentos históricos para a confirmação e a consolidação do lugar histórico de Amílcar Cabral e do seu pensamento fecundo e inovador em todo o processo de libertação das antigas colónias africanas portuguesas em particular dos povos africanos no geral”, sintetizou.

Promovida pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e pela Câmara Municipal da Praia (CMP) e com o apoio da Empresa de Mobilidade e Estacionamento da Praia (EMEP), a edição deste ano presta uma dupla homenagem ao centenário do nascimento de Amílcar Cabral e ao quinto centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões. In “Inforpress” – Cabo Verde

domingo, 1 de setembro de 2024

XII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa na cidade da Praia

"Literatura, Liberdade e Inclusão" é o tema que irá assinalar a XII edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa que decorrerá na cidade da Praia, de 5 a 8 de setembro, na Biblioteca Nacional de Cabo Verde e no Hotel Trópico.


A abertura oficial contará com a intervenção do Presidente da República de Cabo Verde, José Maria Neves, e o encerramento do ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Augusto Veiga.

A edição deste ano prestará homenagem ao centenário do nascimento de Amílcar Cabral e ao V centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões.

Esta edição contará com a participação dos seguintes escritores:

Angola e Macau - Jorge Arrimar;

Brasil - Domício Proença Filho (vídeo) e Fernanda Ribeiro (vencedora do Prémio de Revelação Literária UCCLA-CMLisboa - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa 2024);

Cabo Verde - António Correia e Silva, Arménio Vieira, Augusta Teixeira, Cheila Delgado, Comandante Pedro Pires, Daniel Mendes, Germano Almeida, José Luiz Tavares, Mário Lúcio, Nardi Sousa, Paulo Veríssimo e Vera Duarte;

Galiza - Alfredo Ferreiro Salgueiro;

Guiné-Bissau - Tony Tcheka;

Moçambique - Luís Carlos Patraquim;

Portugal - Inês Barata Raposo, Isabel Alçada (vídeo), José Pires Laranjeira e Rita Marnoto;

São Tomé e Príncipe - Olinda Beja;

Timor-Leste - Luís Cardoso.

Programa do XII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

O Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP) é uma iniciativa da UCCLA e da Câmara Municipal da Praia (CMP), em parceria com a Empresa de Mobilidade e Estacionamento da Praia (EMEP).

Poderá consultar as edições anteriores aqui. UCCLA