Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Portugal – Universidade do Porto presta homenagem a Sacadura Cabral e Gago Coutinho

Os dois aviadores e Honoris Causa da Universidade vão ser homenageados a 5 e 7 de dezembro, no âmbito das Comemorações do Centenário da Travessia Aérea do Atlântico Sul


Corria a tarde de 5 de dezembro de 1922 quando a “sala nobre” da Universidade, por proposta da Faculdade Técnica, atual Faculdade de Engenharia (FEUP), se “engalanou” para homenagear os aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho que, meses antes, haviam protagonizado a primeira ligação aérea entre a Europa e a América do Sul. Um momento que, precisamente 100 anos depois, será recordado numa das várias iniciativas que integram as comemorações do Centenário da primeira travessia aérea do Atlântico Sul (100TAAS), promovidas pela Marinha e pela Força Aérea Portuguesa.

A primeira ligação aérea entre a Europa e a América do Sul, que partiu de Lisboa a 30 de março de 1922 e terminou no Rio de Janeiro a 17 de junho, recorreu a métodos inovadores para a navegação aérea astronómica. Desenvolvido por portugueses, este conjunto de inovações transformou-se num marco que trouxe visibilidade ao País.

Foi precisamente o valor científico dos instrumentos e métodos criados por Artur de Sacadura Freire Cabral e Carlos Viegas Gago Coutinho que levou a Universidade do Porto a conceder-lhes, a 5 de dezembro de 1922, o grau de doutores Honoris Causa. Prestava-se assim a “primeira homenagem científica” aos dois marinheiros aviadores, como recordaria no dia seguinte O Primeiro de Janeiro.

É então este o momento – que pode ser revisitado na recentemente inaugurada Galeria de Retratos de Doutores Honoris Causa da U.Porto – que vai ser assinalado este dia 5 de dezembro com uma tertúlia na Casa Comum (à Reitoria) da U.Porto, marcada para as 18h00.

Nesta sessão, Henrique Henriques-Mateus, historiador da aeronáutica e membro da Comissão Histórico-Cultural da Força Aérea Portuguesa; Mário Correia, piloto aviador, conservador e autor do livro A Grande Aventura (2022) e Isabel Morujão, professora de literatura da Faculdade de Letras da U.Porto (FLUP), sentam-se à mesma mesa para uma conversa moderada por António Mimoso e Carvalho, piloto aviador e membro da Comissão Histórico-Cultural da Força Aérea Portuguesa.

Dois dias depois, dia 7 de dezembro, pelas 15h00, a homenagem faz-se no Salão Nobre da Reitoria, a U.Porto. Após a abertura, Henrique Henriques-Mateus fará o elogio dos doutorados (Honoris causa), a que se seguirá uma conferência sobre A Travessia Aérea do Atlântico Sul, pelo Comandante Costa Canas e uma intervenção do Tenente-General Rafael Martins (Presidente da Comissão Histórico-Cultural da Força Aérea). O encerramento da cerimónia caberá ao Reitor da U.Porto.

Às 17h00, será inaugurada nas arcadas do edifício da Reitoria a exposição Cem Anos da Travessia Aérea do Atlântico Sul, com apresentação e visita orientada pelo Coronel Mouta Raposo, diretor do Museu do Ar. Trata-se de uma exposição itinerante, composta por 18 painéis em estrutura de alumínio que ocupam cerca de 20 metros. Ficará patente ao público durante uma semana.

No mesmo dia, mas às 21h30, o Auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto acolhe um concerto da Banda de Música da Força Aérea. A entrada é livre. Universidade do Porto - Portugal


sábado, 18 de junho de 2022

100 anos: Gago Coutinho e Sacadura Cabral, símbolos da audácia portuguesa


Neste 17 de junho, o Presidente de Portugal evocou os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, “símbolos de determinação, coragem, audácia e engenho do povo português”, por ocasião do centenário da primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul.

Em nota da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa recordou que “há precisamente 100 anos concluía-se, na cidade do Rio de Janeiro, a heroica e atribulada Travessia Aérea do Atlântico Sul”.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral, os protagonistas de uma “odisseia”, assim descreveu o chefe de Estado, “são e serão heróis” da História de Portugal e são “símbolos de determinação, coragem, audácia e engenho do povo português”.

Em 17 de junho de 1922 os dois aviadores concluíram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, que tinha começado em Belém (Lisboa) no dia 30 de março desse ano.

Das três aeronaves utilizadas pelos aviadores, apenas o “Santa Cruz” – construído em madeira e forrado a tela – sobreviveu, estando exposto no Museu da Marinha. Os seus antecessores estão no fundo do Oceano Atlântico.

No Brasil

A Embaixada de Portugal em Brasília também recordou os portugueses na data de 17 de Junho de 1922, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, lembrando que eventos irão celebrar o feito.

“Portugal e o Brasil ficaram também, a partir desse dia, ligados por um abraço aéreo. A inédita travessia, uma notável e percursora proeza de navegação aérea, foi uma homenagem ao primeiro Centenário da Independência do Brasil. 100 anos depois, quando o Brasil celebra o Bi-centenário da sua Independência, os dois navegadores aéreos portugueses serão devidamente homenageados no Rio de Janeiro, em ações de grande visibilidade promovidas pelas autoridades brasileiras e portuguesas” informou a Embaixada.

Em julho, o presidente de Portugal passará por SP, Rio de Janeiro e Brasília. No Rio de Janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa vai participar nas comemorações do centenário da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, em agenda ainda a ser divulgada.


História

Um marco para a navegação aérea mundial completa 100 anos em 2022. De 30 de março a 17 de junho de 1922, os aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral empreenderam a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul. Partindo do Rio Tejo, em Lisboa, a aeronave batizada por Lusitânia, um hidroavião monomotor especialmente concebido para a ocasião, realizou o primeiro voo ligando Portugal ao Brasil, repetindo, assim, pelo ar, a viagem marítima do navegador português Pedro Álvares Cabral, alguns séculos antes.

Ao todo, a missão aérea durou 62 horas e 26 minutos, percorrendo cerca de 8300 quilômetros, fazendo escalas em Las Palmas, Gando, São Vicente, São Tiago, Penedos de São Pedro e São Paulo, Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Porto Seguro, Vitória e, por fim, Rio de Janeiro, que na época era a capital brasileira.

A viagem representou uma inestimável contribuição para a aviação, já que até então viagens de longas distâncias dificultava a manutenção do rumo. Para vencer o obstáculo, a dupla encontrou, com genialidade, uma solução inédita. Após intensos estudos e seus conhecimentos em geografia e cartografia, o Almirante Gago Coutinho aperfeiçoou o sextante náutico, adaptando-o à aviação. Em parceria com Sacadura Cabral, desenvolveu um equipamento denominado “Corretor de Rumos”, que permitia plotar a deriva do avião e calcular o rumo verdadeiro, com excelente precisão.

O início do projeto da Travessia Aérea do Atlântico Sul teve lugar em 1919, por ocasião da visita do Presidente do Brasil a Portugal, quando Sacadura Cabral lançou a ideia de comemorar o primeiro centenário da independência do Brasil.

No ano seguinte, em 1920, Sacadura Cabral encontrava-se na Inglaterra, adquirindo material para a Aviação Naval portuguesa e relacionando os tipos de aeronaves consideradas ideais para a realização da travessia do Atlântico. Desta maneira, sua escolha apontou o fabricante inglês Fairey, construtor do avião F III-D.

A empresa Fairey, inclusive, já dispunha do projeto de um hidroavião com características semelhantes a que Sacadura Cabral procurava, ou seja, o F III-D, modificado, adaptado a uma viagem transoceânica, com a envergadura das asas aumentada e depósitos suplementares de combustível nos flutuadores principais. Sacadura Cabral acompanhou a construção e modificação do avião, que, após difíceis experiências e reajustamentos, ficou pronto quase no final do ano de 1921. As informações são da Força Aérea Brasileira. In “Mundo Lusíada” - Brasil


 

terça-feira, 31 de maio de 2022

A viagem dos veleiros portugueses na travessia histórica do Atlântico Sul


No ano em que o Brasil completa o bicentenário de sua independência, também é comemorado o centenário da primeira travessia do Atlântico Sul feita por hidroavião. Esse feito foi alcançado, em 1922, por dois oficiais da Marinha portuguesa, o Almirante Gago Coutinho e o Capitão de Mar e Guerra Sacadura Cabral.

O grupo de velejadores portugueses que decidiu repetir o percurso, visitando os mesmos pontos da expedição realizada há cem anos, partiu de Lisboa em 3 de abril, e já passou pelas Ilhas Canárias e Las Palmas, na Espanha, e Cabo Verde antes de chegar ao Brasil.

“A Expedição Lusitânia é uma iniciativa nossa, enquanto sociedade civil, para homenagear a epopeia desses homens, por meio da qual estamos fazendo, pelo mar, exatamente o mesmo trajeto, parando nos mesmos locais e procurando ser o mais fiel possível”, contou o Comandante português José Mesquita, no Brasil.

Em Pernambuco, a expedição passou pelo Arquipélago de São Pedro e São Paulo na quinta-feira do dia 12, e foi recebida pelo Navio-Patrulha (NPa) “Guaíba” e pelos residentes da estação científica das ilhas. O navio partiu da Base Naval de Natal (RN) para apoiar a equipe da estação e receber os velejadores, segundo a Marinha do Brasil.

Há cem anos, o arquipélago tornou-se parte importante do itinerário dos oficiais portugueses, pois, ao serem surpreendidos por condições climáticas adversas no caminho para Fernando de Noronha, sua aeronave foi avariada e tiveram que aguardar apoio no arquipélago brasileiro situado no meio do Oceano Atlântico.

O comandante José Mesquita relatou, em seu diário de bordo, como foi a experiência de chegar às ilhas. “Às 8h30 chegamos a São Pedro e São Paulo. Ver o Navio-Patrulha ‘Guaíba’ à nossa espera e a aproximação da frota ao navio foi um momento de extrema emoção. Depois, durante o dia, as emoções sucederam-se porque para além de nos terem reabastecido, o comandante do Guaíba veio a bordo do Anixa 2”.

De seguida, a expedição “Lusitânia”, composta por 13 pessoas em 6 veleiros, chegou dia 16 de maio no Arquipélago de Fernando de Noronha (PE), onde promoveu palestras sobre o centenário da travessia de Coutinho e Cabral e sobre a preservação dos oceanos.

No dia 18, o comandante do veleiro Anixa 2 ministrou palestra no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, como parte da Ação Cívico-Social (ACiSo) promovida pela Marinha do Brasil no arquipélago.


Mesquita declarou que além da recriação da travessia de Coutinho e Cabral, os seis veleiros carregam em seus cascos a mensagem “Salve os Oceanos – Salve a Humanidade”. “É uma mensagem de sensibilização ambiental para falar dos problemas gravíssimos que os Oceanos têm e das práticas de vida que os cidadãos têm que começar a adotar para termos um planeta no futuro para os nossos filhos e netos. Pelos lugares onde passamos, procuramos transmitir essa mensagem também por meio de palestras, como a que estamos realizando em Fernando de Noronha”, completa.

Após Fernando de Noronha, a expedição partiu para Recife (PE), e deve passar ainda em Salvador (BA) e Vitória (ES) antes de chegar ao seu destino final, o Rio de Janeiro (RJ).

Também no Recife, a Fundação Joaquim Nabuco e o Gabinete Português de Leitura de Pernambuco inauguraram a exposição “Travessia – 100 anos de uma epopeia nos céus do Atlântico Sul”, na última quinta-feira na sede do Gabinete, para marcar o feito.

Em 30 de março de 1922 deu-se início à primeira travessia aérea do Atlântico Sul, protagonizada pelo Almirante Gago Coutinho e pelo Comandante Sacadura Cabral a bordo do hidroavião Fairey III, batizado “Lusitânia”, tendo como destino final o Rio de Janeiro.

Foi uma viagem bastante atribulada, na qual foram utilizadas três aeronaves. Depois de percorridas 4527 milhas em 62 horas e 26 minutos sobre o Oceano, os heroicos oficiais foram recebidos em festa pela população do Rio de Janeiro, a 17 de junho de 1922. Mais sobre atividades comemorativas estão aquiIn “Mundo Lusíada” - Brasil




 

quarta-feira, 30 de março de 2022

Projectos cabo-verdiano e português divulgam Travessia Aérea Atlântico Sul de há 100 anos


Lisboa – O projecto “Travessia 100”, de Cabo Verde, e o projecto “Lusitânia 100”, de Portugal, têm trabalhado de forma coordenada para a divulgação da Travessia Aérea do Atlântico Sul, que completa hoje, 30 de Março, 100 anos. 

Para celebrar o centenário da Travessia Aérea do Atlântico Sul, que se iniciou a 30 de Março de 1922, entre Portugal, passando por Cabo Verde, até o Brasil, o projecto de Cabo Verde, coordenado pelo jornalista, empreendedor e investigador sociocultural, Ildo Fortes, e de Portugal, coordenado pela Associação Lusitânia 100, prestou uma homenagem aos dois pilotos que efectuaram a travessia, hoje, no Monumento da Travessia em Belém, Lisboa. 

A viagem, efectuada há um século pelos oficiais da Marinha Portuguesa, o comandante Artur Sacadura Freire Cabral e o almirante Carlos Viegas Gago Coutinho, teve início a 30 de Março e terminou a 17 de Junho de 1922, no Rio de Janeiro (Brasil).

Em declarações à Inforpress, Ildo Fortes explicou que objectivos comuns dos dois projectos são a divulgação da travessia de 1922, dos seus intervenientes e dos “profundos impactos” sobre os respectivos países”.

O coordenador do projecto lembrou que em 2021 foram também organizadas, conjuntamente, cerimónias públicas evocativas do 99º aniversário da partida de Lisboa (30 de Março), e da chegada a Cabo Verde, 05 de Abril, em São Vicente, e 17 de Abril, em Santiago (Calheta de São Martinho), para, no dia e 18 de Abril, partirem para o Brasil, numa “etapa mais difícil”.

“No quadro da divulgação da travessia teremos ainda aulas abertas nas universidades, escolas secundárias e básicas para explicar aos mais jovens a importância desse acontecimento histórico para Cabo Verde”, contou Ildo Fortes.

A mesma fonte indicou que deve começar no dia 05 de Abril um programa semanal, na Rádio de Cabo Verde (RCV), fruto de parceria com a empresa RTC para a divulgação da parceria. 

Por ter sido a primeira ligação aérea entre a Europa e a América do Sul, tendo os aviadores passado por Cabo Verde, Canárias (Espanha) e Brasil, ficou sempre imortalizada, também pela utilização de um método inovador de navegação aérea desenvolvido pelos portugueses. 

“Tratando-se de um acontecimento marcante para Cabo Verde, os órgãos públicos da comunicação social, a RTC e a Agência Inforpress, têm sido parceiras importantes, a Embaixada de Cabo Verde, em Lisboa, e o gabinete do secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, que têm dado um grande apoio institucional para implementação do projecto junto das autoridades portuguesas e cabo-verdianas”, frisou.   

As actividades comemorativas promovidas pela Marinha e a Força Aérea portuguesas da viagem a bordo do hidroavião Fairey III, batizado “Lusitânia”, e que percorreu 4.527 milhas em 62 horas e 26 minutos sobre o Oceano, começaram desde Janeiro e abarcam exposição itinerante, cerimónia militar, desfile aeronaval, palestras, conferências, teatro e concertos.

Para hoje, dia em que se assinala os 100 anos da primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul levada a cabo por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, houve uma largada simbólica junto à Torre de Belém e ao Monumento Lusitânia e, no Centro Cultural de Belém, realizou-se um concerto pela banda de música da Força Aérea portuguesa. 

No dia 31 Março, no Museu do Ar, em Pêro Pinheiro, está programada a entrega aos capitães dos veleiros de uma moeda comemorativa, cunhada pela Casa da Moeda de Portugal, bem como o lançamento de uma emissão filatélica e de um livro institucional sobre a primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul. 

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) inscreveu o Relatório da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul, no Registo da Memória do Mundo, a 27 de Julho de 2011, que a partir desta data é considerado Património da Humanidade. In “Inforpress” – Cabo Verde


 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Angola - Introdução de espécies e o seu impacto na biodiversidade marinha local, a situação angolana

O que são espécies introduzidas?

A diversidade nas comunidades locais é o resultado de processos históricos, regionais e locais que afectam a extinção, especiação e dispersão de espécies que, por sua vez, determinarão as biotas e os domínios biogeográficos regionais. No entanto, desde o início das grandes rotas interoceânicas e transoceânicas, a humanidade tem mudado significativamente a distribuição de espécies e os padrões biogeográficos, introduzindo organismos além da sua distribuição nativa. Espécies introduzidas (ou exóticas) são aquelas que foram transportadas, intencionalmente ou não através de meios mediados por humanos, para regiões onde elas não existiam anteriormente

Segundo as definições adoptadas pela Convenção Internacional sobre Diversidade Biológica, se a espécie introduzida consegue reproduzir-se e gerar descendentes férteis, com alta probabilidade de sobreviver no novo habitat, ela é considerada estabelecida. Caso a espécie estabelecida expanda a sua distribuição no novo habitat, ameaçando a diversidade biológica nativa, ela passa a ser considerada uma espécie introduzida invasora.


Impactos das espécies marinhas introduzidas

Uma vez no novo habitat, as espécies marinhas introduzidas podem dispersar-se para substratos naturais e artificiais, causar impactos ecológicos e socioeconómicos em: biodiversidade (ex. redução na riqueza de espécies), habitats (ex. perda de habitat), interacções bióticas (ex. competição por recursos ou espaço), genéticos (ex. alteração na pool de genes por hibridização), turismo (ex. redução de actividades turísticas), pesca (ex. redução da abundância de espécies comerciais), aquicultura (ex. redução na qualidade dos produtos), embarcações-amarrações (ex. aumento do custo de manutenção como resultado da presença de organismos incrustantes), etc.

A bioinvasão é reconhecida como a segunda principal causa de perda de biodiversidade, impactando os serviços ecossistémicos. Portanto, o conhecimento desses eventos é de extrema importância para o desenvolvimento de políticas públicas nacionais e os seus efeitos negativos, podem ser motivo de especial preocupação em regiões do mundo onde o estado de conhecimento da biota marinha é relativamente pobre, pois podem promover a perda da biota nativa antes mesmo antes de ser conhecida pela ciência.

Baías como áreas de interesse

A maior parte do comércio mundial ocorre por transporte marítimo entre portos, concentrados em baías e estuários, criando oportunidades para transferências de espécies associadas a cascos de navios e materiais de lastro. Além disso, as baías são focos para muitas outras actividades conhecidas por transferir organismos, como aquacultura, pesca e recreação ao ar livre. As condições hidrológicas e ambientais locais modificadas permitem fornecer protecção aos barcos, mas por sua vez criam condições favoráveis para a chegada de espécies introduzidas.

As baías e os serviços ecossistémicos que nelas existem, como as marinas, são pontos focais ideais para a detecção precoce dessas espécies, o que pode ser um aspecto essencial para uma potencial erradicação e um manejo efectivo, fornecendo igualmente um excelente ambiente para experimentos para testar teorias sobre mecanismos subjacentes ao processo de invasão, especialmente durante as fases de assentamento e estabelecimento.

Espécies introduzidas encontradas em uma marina de Luanda

A situação no Atlântico Sul - O caso de Angola

Estudos do Atlântico Sul que descrevem espécies introduzidas estão, na sua maioria, restritos às costas argentina, brasileira e sul-africana. Dentre os estudos mais importantes, foram relatadas mais de 75 espécies introduzidas na região ao largo do Uruguai e da Argentina; 42 espécies introduzidas de invertebrados bentónicos associadas a incrustações em cascos de embarcações na costa brasileira e 95 espécies introduzidas para a África do Sul.

Considerando este grande número de espécies introduzidas reportadas e o intenso tráfico de escravos que ligaram os continentes americano e africano desde o século XVI, é esperado que a pouco conhecida costa ocidental tropical de África esteja exposta à intensa introdução de espécies introduzidas. No entanto, as mesmas são desconhecidas ou relatadas, na sua maioria, em revistas locais ou na literatura cinzenta.

Angola possui vários portos internacionais e marinas, com uma história de navegação de mais de 500 anos, iniciada pela chegada dos primeiros colonos europeus e intensificada por um forte tráfico de escravos. No entanto, o conhecimento sobre a fauna nativa e introduzida da costa angolana é escasso, impedindo uma melhor compreensão da distribuição das espécies para o Atlântico Sudeste. A falta de avaliação ecológica e estudos das espécies introduzidas marinhas em Angola criou uma lacuna em relação à sua distribuição actual e impacto nas comunidades nativas.

Recentemente, deu-se o início à investigação em bioinvasões marinhas ao longo da costa angolana, concretamente em invertebrados marinhos, com os primeiros estudos a serem realizados nas baías de Luanda e do Lobito. Dos estudos efectuados nas duas baías, foram identificadas 21 espécies introduzidas, das quais 13 espécies são relatadas pela primeira vez em águas angolanas. A maior parte das espécies introduzidas tem origem no hemisfério norte, uma consequência da principal via de introdução, que foi provavelmente a proveniente do Atlântico Norte/Mar Mediterrâneo durante a colonização portuguesa, apesar de também ter-se verificado introduções vindas da Ásia, sendo que as mesmas poderão ter-se dado mais

recentemente, com o aumento de trocas comerciais entre Angola e China nos últimos 10 anos. Várias espécies causadoras de perdas ecológicas e económicas em habitats costeiros em todo o mundo, foram registadas para a região, sendo mandatória a existência de estratégias de manejo de espécies introduzidas em águas angolanas.

Espécies introduzidas encontradas em placas de colonização

O futuro

Certamente subestima-se a diversidade de espécies introduzidas e, desta forma, avaliações regulares e rigorosas, especialmente em relação a outros táxons ainda não mencionados, e monitoramento das espécies marinhas introduzidas ajudarão a entender melhor os vectores, rotas e o tempo das introduções, bem como o papel dos portos e marinas como fontes de invasões marinhas ao longo desta costa. Torna-se assim decisivo o estudo das bioinvasões marinhas na costa tropical ocidental de África no geral, e em Angola em particular, por razões tanto económicas como ecológicas, mas sobretudo para se ter uma imagem global da situação e seleccionar acções para a conservação dos habitats marinhos. Lueji Pestana – Angola in “Novo Jornal”

Lueji Pestana - Professora Auxiliar do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto

 


domingo, 25 de abril de 2021

Cabo Verde - São Vicente recorda os “aviadores” que há cem anos iam a caminho do Brasil

O hidroavião “Lusitânia”, de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, fez história em abril de 1922 ao ligar o Atlântico, mas a passagem dos “aviadores” por São Vicente permanece na memória daquela ilha cabo-verdiana, que prepara as comemorações do centenário


“Foi o primeiro voo que Cabo Verde recebeu”, começou por contar à Lusa o engenheiro civil cabo-verdiano Carlos Monteiro, responsável em São Vicente pelas comemorações do centenário da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, preparadas em conjunto com a associação Lusitânia 100, fundada em Portugal em 2013 com a finalidade de divulgar aquela viagem histórica.

No final do dia 05 de abril de 1922, o hidroavião Fairey III D Mkll – o primeiro de três usados naquela histórica travessia - amarou na baía do Mindelo, ilha de São Vicente, depois de uma viagem de 10 horas e 43 minutos para percorrer 1572 quilómetros, desde as Canárias, que tinham sido a primeira paragem após a saída de Belém, Lisboa, em 30 de março.

Aos comandos seguiam Gago Coutinho, experiente cartógrafo da Marinha, e Sacadura Cabral, piloto com larga experiência, conhecimentos complementares e tidos como decisivos para o sucesso da viagem.

“Vendo esse circuito, os quilómetros que foram feitos - no total cerca de 8300 -, a uma velocidade média de 143 quilómetros por hora, dá uma ideia das dificuldades”, recordou Carlos Monteiro.

Segundo os relatos da altura, os dois aviadores portugueses foram recebidos, triunfantes, pela população de São Vicente.

As autoridades municipais do Mindelo mandaram mesmo construir no local onde aportaram um padrão – destruído na década de 1980 e edificado outro cerca de dez anos depois – e a poucas dezenas de metros um obelisco numa praça, a que deram o nome de Gago Coutinho, o qual ficou conhecido como “O Pássaro”, ainda hoje ponto obrigatório de passagem de quem chega a São Vicente.

“Muita gente apareceu aqui para ver. Foi algo de extrema importância (…) Está na memória coletiva de São Vicente e de Cabo Verde em geral”, explicou, apontando ao local onde São Vicente entrou para a história da aviação.

Com o imponente obelisco de fundo, aquela área, junto à baía do Mindelo ficou mesmo conhecida como a “avenida dos aviadores”, tal foi a importância do feito dos dois, recebidos em 06 de abril de 1922 na Câmara Municipal da cidade, que se reuniu em sessão solene para os homenagear publicamente.

Em São Vicente, Gago Coutinho e Sacadura Cabral permaneceram mais de dez dias, em reparações do hidroavião "Lusitânia". A etapa seguinte foi curta, até à Praia, ilha de Santiago, e aconteceu em 17 de abril, com 315 quilómetros percorridos em pouco mais de duas horas. Pouco mais do dobro do tempo das ligações aéreas atuais, praticamente cem anos depois.

“O avião esteve cá, aportou nesta zona, e ainda tentaram ir a Santo Antão [ilha vizinha de São Vicente]. Foram de barco analisar e chegaram à conclusão que não. Foram para a Praia”, recordou Carlos Monteiro que, aos 65 anos, já reformado, se tornou num entusiasta desta aventura. A mesma que conheceu pela primeira vez, na escola, sem então lhe passar pela cabeça que estaria na organização do centenário da viagem, quase seis décadas depois.

“Não imaginava. De facto, na escola, estudei, como todos nós, e na altura já achava um feito interessante, um feito único, que acabou por levar Cabo Verde à história, ao pontapé de saída da aviação. E agora estou cá, deste lado, abraçando este projeto”, brincou.

O 99.º aniversário da chegada dos aviadores ao Mindelo já foi assinalado na cidade em 05 de abril - e na Praia em 17 de abril – com a colocação de uma coroa de flores com as cores das bandeiras dos quatro países ligados pela viagem (Portugal, Espanha, Cabo Verde e Brasil) junto ao padrão na baía.

Contudo, foi apenas o “pontapé de saída” para a preparação das comemorações do centenário, em abril de 2022.

“Estamos a congregar esforços para fazer algo conjunto, Portugal e Cabo Verde, logicamente envolvendo as Canárias, Espanha, e o Brasil (…) Em Cabo Verde queremos envolver a população, a ideia é desenvolver várias atividades, essencialmente ao nível do mar, dos desportos náuticos, alguns espetáculos e cultura”, explicou Carlos Monteiro, que foi diretor de aviação na vertente de abastecimento, pelo que sempre se teve o “bichinho” dos aviões.

No arquipélago, o programa das comemorações do centenário, no Mindelo e na Praia, foi batizado de “Cabo Verde: Os caminhos da História” e tem três vertentes: Educação, cultura e cidadania, envolvendo entidades públicas e privadas locais, incluindo conferências internacionais a dinamizar conjuntamente com as universidades cabo-verdianas.

Os dois aviadores deixaram a ilha de Santiago em 18 de abril de 1922 para a o troço mais longo da viagem. Levaram 11 horas e 21 minutos para percorrer os 1682 quilómetros até amarar no arquipélago de São Pedro e São Paulo, um conjunto de pequenos ilhéus rochosos do estado brasileiro de Pernambuco, mas ainda a quase 1000 quilómetros da costa continental.

Ali trocaram para o Fairey N.º 16, batizado de “Pátria”, mas este sofreu uma avaria no motor em 04 de maio, na viagem a caminho do arquipélago de Fernão de Noronha, e os aviadores foram forçados a amarar de emergência.

Já no terceiro hidroavião, o Fairey N.º 17, batizado "Santa Cruz", Gago Coutinho e Sacadura Cabral chegaram ao Rio de Janeiro em 17 de junho de 1922, o destino final.

“Teve grande impacto não só em termos de Portugal, mas também no mundo e logicamente em Cabo Verde (…) Acabou por nos introduzir no seio da aviação civil, teve uma grande importância para Cabo Verde”, reconheceu Carlos Monteiro. In “Expresso das Ilhas” – Cabo Verde com “Lusa”


quarta-feira, 12 de junho de 2019

Brasil - Expedição vai estudar o Oceano Atlântico Sul

Navio com pesquisadores zarpa nesta semana do Porto de Santos



Uma equipe de 19 pesquisadores vai embarcar em uma expedição a bordo do navio oceanográfico Alpha Crucis, no Porto de Santos, para estudar os impactos da poluição global e das mudanças climáticas no Oceano Atlântico Sul. A embarcação pertence ao Instituto Oceanográfico (IO), da Universidade de São Paulo (USP). O grupo deixa o complexo marítimo na sexta-feira e retorna dia 28.

Segundo a diretora do IO, Elisabete de Santis Braga da Graça Saraiva, entender os danos do efeito estufa no mar ajuda a antecipar soluções a essa questão. As análises também servem para compreender as mudanças climáticas que atingem, principalmente, as populações que vivem em áreas costeiras, onde está grande parte do território da Baixada Santista.

Apesar dos estudos oceânicos terem ganhado maior destaque a partir de 2003, só em 2011, com início do projeto South Atlantic Meridional (Samoc), passou-se a observar mais de perto o Atlântico Sul.

Agora, a expedição conhecida como Sambar, que complementa o projeto Samoc, fará sua segunda viagem para acompanhar a variação da corrente meridional de circulação da água.

“A obtenção de dados no mesmo lugar nos permite analisar os efeitos do impacto global sobre a economia azul (que reúne as atividades relacionadas aos oceanos e a seus recursos), impactos na área costeira e atividade portuária, como a presença de ventos extremos, ressacas e aumento do nível do mar”, explicou a diretora.

O grupo é formado por professores, estudantes e técnicos brasileiros e estrangeiros. E se deslocará até um ponto do oceano entre o Brasil, Argentina e Uruguai.

Elisabete conta que a equipe vai para alto-mar para “medir correntes marítimas e temperaturas, usamos telemetria, imagens de satélite, equipamentos de fundeio – são lançados no mar e recuperados no ano seguinte –, analisamos dados a mais de 4 mil metros de profundidade para avaliar a circulação profunda”.

A pesquisadora diz que cada nível de água se movimenta de forma diferente e, a cada pequena mudança, é percebido o efeito da poluição. “Não analisamos só a circulação da água. Observamos o oxigênio, os nutrientes, propriedades químicas e o carbono”, conta.

Não se espera notar um aquecimento nas águas mais profundas, pois é algo que não deve ocorrer, diz a professora. De acordo com ela, uma maior temperatura registrada até mil metros ainda não é tão preocupante, porém alerta: “Temos que prever para melhorar as medidas de mitigação (para aliviar os danos), antes de atingir graus de perigo”.

Oceano é radiador

A pesquisadora destaca a importância do oceano no controle da poluição. “É um grande radiador para a distribuição de calor da terra”.

Mas, devido ao grande volume de gases, ele está sobrecarregado. “A queima indiscriminada de combustíveis gera o gás carbônico e o efeito estufa retém o calor do sol. Esses gases envelopam a Terra e fazem troca com a água. O mar absorve o CO2 tentando aliviar a atmosfera, mas as águas superficiais se aquecem e as correntes mudam seu percurso, o que causa reflexos, novamente, como aumento de ressacas, erosão, aumento do nível do mar”.

Elisabete conta que a expedição é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e conta com o apoio da Marinha do Brasil, da Capitania dos Portos de São Paulo e da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp, a Autoridade Portuária de Santos). Matheus Müller – Brasil in “A Tribuna”

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Brasil – Estaleiro Atlântico Sul conclui primeiro navio Aframax construído no país



Pernambuco entra para a história da navegação marítima como o primeiro estado brasileiro a construir um navio petroleiro Aframax. Com investimento no valor de R$ 250 milhões, o petroleiro Castro Alves de 248 metros de extensão que carrega até 120 mil toneladas, foi construído no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), instalado no Complexo Industrial Portuário de Suape. A embarcação foi financiada pelo Fundo da Marinha Mercante do Brasil. Para conferir de perto a grandiosidade do investimento, o ministro dos Transportes, Portos e Aviação Civil, Valter Casimiro, visitou o EAS na manhã desta segunda-feira (23/04), na companhia do governador Paulo Câmara, do presidente do Complexo Industrial Portuário de Suape, Marcos Baptista, e, dos deputados federais Tadeu Alencar e Betinho Gomes. A visita também foi acompanhada pela imprensa pernambucana.

Harro Burmann, presidente do EAS, explicou durante a visita que o Castro Alves será entregue ainda este mês. “Hoje posso dizer que esse navio visitado tem uma margem bruta de R$ 120 milhões de reais. No passado, a cada navio que se entregava se perdia um navio. Temos um navio com qualidade indiscutível e dentro do custo e prazo planejado. Também não podemos esquecer o mais importante: feito por brasileiros”, comemorou Burmann, que, luta para atrair novas encomendas para o EAS.

Paulo Câmara garantiu o apoio a manutenção do empreendimento. “Estamos juntos do estaleiro desde o início. Sabemos da importância da indústria e temos aqui um estaleiro de nível mundial, fruto da aposta em Pernambuco e da mão de obra pernambucana. É uma luta que estamos juntos. O ministro conheceu o empreendimento e sai sensibilizado. Nosso estaleiro dá conta do recado e é importantíssimo para a geração de emprego no estado e renda no Brasil”, afirmou.

Para o ministro Casimiro, o setor merece toda atenção da pasta e esta ação é uma indicação de um começo de recuperação. “Temos a consciência de que o momento da indústria naval é bastante desafiador e exigirá ações estruturantes. Sendo assim, o Ministério dos Transportes está empenhado em resgatar o setor. Por isso, estamos mantendo um diálogo com o Governo Federal para formular políticas que dinamizem o segmento”, reforçou.



O Castro Alves é o 11º navio fabricado no empreendimento. Restam, portanto, apenas quatro embarcações da Transpetro para serem finalizadas no EAS. Burmann apresentou o Aframax como a prova de que o empreendimento tem capacidade para receber novas encomendas. Ele articula até uma visita da diretoria da Petrobras ao EAS e ao Castro Alves. “Só a estatal deve contratar 80 plataformas, 160 navios aliviadores e 50 navios de cabotagem nos próximos 25 anos para atender à demanda do pré-sal”, detalha.

Entre 2010 e 2017, o Fundo da Marinha Mercante (FMM) já financiou a construção de 510 embarcações em estaleiros brasileiros. Só em Pernambuco, foram 2 estaleiros e 23 embarcações. Entre os navios, os modelos Aframax e PLSV (Pipe Laying Support Vessel) tiveram 90% dos seus custos financiados pelo FMM, sendo o restante pela Transpetro e outro pela Dofcon, totalizando R$ 1,25 bilhão. Para o ministro, esses equipamentos mostram a importância do Fundo com a construção naval brasileira, que certamente será reaquecida com a estabilidade econômica do país.

60 ANOS FMM – O Fundo é gerenciado pelo Ministério dos Transportes e seus recursos são destinados ao financiamento para projetos de embarcações e estaleiros. Ele foi constituído em abril de 1958 e está completando 60 anos em 2018. Jéssica Lima – Brasil In “Suape”

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Brasil - Ilha da Trindade, um paraíso da biodiversidade no Atlântico Sul

Em pleno Atlântico Sul, um paredão rochoso demarca a fronteira leste do Brasil – é a Ilha da Trindade, um paraíso de rica biodiversidade, sob vigilância da Marinha, que atrai cientistas de todo o país e onde a vegetação se recupera após ter sido devastada por cabras.

Situada a 1.167 quilômetros da costa de Vitoria (ES) e com apenas 10 km2, a ilha – que forma um arquipélago com a vizinha Martim Vaz - é considerada estratégica pela localização, entre os litorais brasileiro e africano.

“Estar em Trindade representa um grande trunfo para o Brasil, pois a ilha pode rapidamente se transformar em um posto de apoio de ações militares”, explica à AFP o capitão-de-fragata Mauro Medeiros Santos, 48 anos, há 29 na Marinha, ao se despedir do comando do Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (Poit).

Saindo do Rio de Janeiro, foram três dias de viagem a bordo do navio patrulha oceânico APA, da Marinha do Brasil, até chegar à ilha.

O mar é a única via para acessar este território isolado - helicópteros não têm autonomia para voar até lá, onde tampouco há pistas para aviões.

Fator cabra

À primeira visita, o relevo acidentado e rochoso de Trindade disfarça a vegetação, que já foi de florestas, e hoje, predominantemente rasteira, se recupera do desmatamento provocado por cabras e outros animais introduzidos pelo Homem há mais de 300 anos. “Aqui [as cabras] foram introduzidas em 1700 pelo Edmond Halley, o mesmo do cometa Halley. Foi nessa época que ele pegou as cabras de Santa Helena [n.r: território britânico no Atlântico Sul onde Napoleão Bonaparte morreu no exílio, em 1821], pôs num navio e largou em Trindade”, explica à AFP Anabele Stefânia Gomes, 30 anos, doutoranda em botânica pela Universidade de Brasília (UnB).

“Era uma tradição das grandes navegações deixar animais, como cabras e porcos, quando se chegava a uma ilha remota como Trindade para as pessoas terem algo para comer”, completa Bruno Santos Rabelo, 26 anos, também doutorando em botânica pela UnB. Sem predadores, os animais se reproduziram descontroladamente e consumiram a vegetação, afetando cursos d’água e a fauna, como as tartarugas marinhas, cujos ovos também comiam.

Após expedição à ilha, cientistas do Museu Nacional do Rio de Janeiro recomendaram a remoção das cerca de 800 cabras, 600 ovelhas e outras centenas de porcos.

A operação começou em 1994 e os animais foram abatidos a tiros devido à sua adaptação e capacidade de ocultação na ilha. A última cabra foi eliminada em 2005. Dez anos depois, Trindade se recupera.

“Na minha primeira missão, em 1994, encontrei a ilha devastada. [Hoje] acredito que a cobertura vegetal está em franca regeneração. Temos acompanhado isso por terra e em imagens de satélite. A água em alguns córregos aumentou.

Deixando a natureza seguir seu curso, há resultados notórios mesmo sem nova intervenção", afirma à AFP o doutor Ruy Valka Alves, professor do Departamento de Botânica do Museu Nacional, que fez mais de 20 missões na ilha.

Rica biodiversidade

Trindade também é local de reprodução de diferentes espécies de aves marinhas e é abundante em corais e peixes, em crustáceos (entre eles o caranguejo-amarelo, ameaçado de extinção) e abriga a segunda maior colônia de tartarugas-verdes do Atlântico Sul.

Tanta biodiversidade atrai cientistas de todo o país. Desde que foi inaugurada, em 2011, a Estação Científica da Ilha da Trindade (ECIT) recebeu cerca de 500 pesquisadores, que permanecem ali entre três dias e dois meses, realizando estudos ambientais selecionados pelo programa PROTRINDADE.

Desde 1982, o projeto Tamar de preservação das tartarugas marinhas monitora as populações de tartarugas-verdes nas praias de Trindade, que recebem anualmente 3.600 ninhos. A desova ocorre entre dezembro e julho.

Na última temporada reprodutiva (2014/2015), houve mais de 1.300 desovas e nasceram mais de 134 mil filhotes.

O estudante de biologia Uriel Rodrigues, de 27 anos, e a oceanógrafa Fernanda Alves, de 28, são voluntários do Tamar e estão na ilha pela primeira vez.

“Amo conservação e sempre que posso dedico um tempo a este trabalho. Escolhi as tartarugas porque são animais impressionantes, de uma imponência e, ao mesmo tempo, uma fragilidade incomuns”, diz Fernanda.

“Há algo de místico em ver uma tartaruga, que é um animal pré-histórico, desovar”, completa Uriel, que abandonou a carreira em marketing em São Paulo para se dedicar às tartarugas marinhas. Trindade abriga, ainda, a única estação meteorológica do Brasil instalada em uma ilha oceânica, que contribui para a previsão do tempo em todo o mundo.

“Os dados da ilha da Trindade são de grande importância para a meteorologia aeronáutica e a navegação marítima”, explica à AFP o meteorologista Antonio Marcos Vianna, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“Os dados são inseridos num sistema de telecomunicações da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o que permite que cheguem, em tempo quase real, aos serviços meteorológicos oficiais dos países-membros da OMM, onde são empregados na previsão do tempo”, continua.

Território disputado

Formada por erupções vulcânicas há 3 milhões de anos, a ilha da Trindade está ligada ao território continental brasileiro por uma cadeia de montanhas submersa. Inaugurado em 1957, o Poit assegura a presença permanente de cerca de 30 militares que executam tarefas que permitem a vigilância e a manutenção das atividades e da infraestrutura na ilha.

A cada dois meses, navios da Marinha abastecem e levam novos militares e pesquisadores. Os militares ficam ali entre dois e quatro meses, quando são substituídos.

Trindade foi descoberta em 1501 pelo navegador português João da Nova, mas o primeiro desembarque só teria ocorrido em 1700, quando o astrônomo britânico Edmond Halley – que descobriu o cometa Halley em 1705 - tentou apossar-se da ilha em nome da Inglaterra.

O ato foi refutado diplomaticamente e a ilha passou a pertencer ao Brasil no final do século XIX. In “Swissinfo” - Suíça

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Brasil - Assina contrato para explorar minério no Atlântico Sul

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) assinou na passada segunda-feira, 09 de Novembro de 2015, o primeiro contrato para a exploração mineral no Atlântico Sul. O acordo foi firmado exclusivamente com a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (Isba), vinculada a Organização das Nações Unidas (ONU), que regulamenta a exploração nos oceanos. O contrato permite ao Brasil explorar ferro, manganês e cobalto, por 15 anos, em águas internacionais.

Primeiro país do Hemisfério Sul a ter autorização para pesquisar em áreas internacionais, o Brasil pretende explorar economicamente uma área de 3 mil quilômetros quadrados (km²), em uma região conhecida como Alto Rio Grande, distante 1.500 km do Rio de Janeiro. O local é uma elevação submarina situada em águas internacionais, no oeste do Atlântico Sul.

Nos últimos cinco anos, foram investidos cerca de R$ 60 milhões em pesquisas no Atlântico Sul com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento. Para desenvolver o plano de trabalho previsto são necessários investimentos da ordem de US$ 11 milhões.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil, a iniciativa estimulará o desenvolvimento científico e a criação de um parque capaz de estudar novas tecnologias e equipamentos de ponta. O projeto envolve universidades e a cooperação internacional. O contrato inclui o compromisso brasileiro de oferecer treinamento para que técnicos possam atuar na exploração em águas profundas, nos países em desenvolvimento. Karine Melo – Brasil in “Agência Brasil”

domingo, 23 de agosto de 2015

Brasil - Uma frota para a CPLP

Adelto Gonçalves
O governo federal anunciou a compra do navio Siroco, de fabricação francesa, a pretexto de recompor uma lacuna na Marinha do Brasil. Embarcação usada, o Siroco, que deverá ser rebatizado como NAM (Navio Anfíbio Multipropósito) Bahia, terá de passar por um período de manutenção antes de entrar em serviço. Com grande capacidade anfíbia e de transporte, o navio pode ser utilizado em situação de apoio à comunidade nacional e internacional, em casos de ajuda humanitária, como o fez durante o terremoto que devastou o Haiti em 2010.



Siroco
Para garantir a compra do navio, o Brasil participou de uma concorrência que contou com a presença de Portugal, que desistiu de sua compra, provavelmente em razão dos altos valores em jogo. Nada contra que a Marinha do Brasil aumente sua capacidade operacional e anfíbia, mas é preciso ver que se trata de um navio usado, que foi incorporado em 1998 pela Marinha francesa.

Diante disso, parece que está mais do que na hora de Brasil, Portugal e seus parceiros na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) – Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Timor Leste – começarem a pensar na criação de uma indústria naval que os sirva, produzindo primeiro navios de guerra e, depois, os de carga.

Provavelmente, os recursos que o Brasil aplicou na compra do navio usado e os que Portugal pretendia investir com o mesmo fim seriam suficientes para viabilizar o negócio ou estimular a iniciativa privada das nove nações da CPLP a participar desse empreendimento, com cada país-membro encarregando-se da produção de diversos componentes. Além disso, como sétima maior economia do mundo, o Brasil já deveria ter deixado para trás esse papel de receptáculo da sucata dos países do Primeiro Mundo.

É de se ressaltar também que a defesa do Atlântico Sul é um problema que afeta todos os membros da CPLP. Portanto, esses países, se tiverem uma indústria naval comum, em vez de comprarem navios de guerra usados, poderão fabricá-los de acordo com suas necessidades e com tecnologia mais moderna. É de se acrescentar ainda que primeiro a Guiné Equatorial e, ultimamente, Angola vêm procurando preparar suas marinhas para o combate à pirataria marítima na região do Golfo da Guiné.

Aliás, esta não é uma ideia que tenha saído agora da disputa comercial entre Brasil e Portugal por um navio usado, mas uma sugestão antiga do professor e ex-embaixador português Adriano Moreira, que propôs não só a criação de um organismo de segurança da CPLP à semelhança da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para o combate à pirataria e tráfico de drogas no Atlântico-Sul como uma frota comercial comum, já que todos são países marítimos.

É verdade que, de antemão, há dificuldades jurídicas, sem contar a instabilidade política que, de vez em quando, afeta um dos países-membros da CPLP, como é o caso da Guiné-Bissau neste momento. Mas parece claro que a criação de uma indústria naval e de uma frota comercial no âmbito da CPLP só trará benefícios para os seus países-membros. Adelto Gonçalves – Brasil


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Adelto Gonçalves, jornalista especializado em comércio exterior, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Brasil – A outra Amazônia, a azul

O gigante Brasil (8,5 milhões de km²), para o bem ou para o mal, está distante, geograficamente, dos grandes mercados e conflitos. Talvez por isso carece de um pensamento estratégico e deixa para amanhã o que deveria ter sido feito ontem. O país se dá ao luxo de ser inconsequente, porque está longe dos grandes problemas e da dura concorrência que afeta outras nações.

Está ou estava? Sim, porque já não se encontra mais tão distante das disputas globais. O Atlântico Sul, para muitos, é apenas a nossa grande praia de 7,5 mil quilômetros, um "Oceano tranquilo". Poucos lembram da Guerra das Malvinas, mas, mesmo assim, o planeta se tornou uma "aldeia global" e o Atlântico Sul agora é uma região estratégica na geopolítica mundial.

Do lado brasileiro, nossa Amazônia Azul (expressão cunhada pela Marinha), com uma superfície de 4,5 milhões de quilômetros quadrados, contém gigantescas reservas de petróleo do pré-sal, e novos lençóis foram descobertos no litoral argentino, próximo às Malvinas. Do lado africano, a faixa de petróleo explorável do Golfo da Guiné se expande sem cessar. Mas também há reservas de gás, minérios raros e pesca abundante. E ambas margens tiveram grande crescimento econômico nas últimas décadas, com mercados consumidores gerando fluxos transatlânticos. E o tráfego marítimo de cargas, que apenas o cruza ligando outros continentes, conheceu notável expansão.

A competição econômico-estratégica global entre Estados Unidos e China encontrou um ponto nevrálgico no Atlântico Sul. Os EUA estão se desengajando do incontrolável e oneroso Oriente Médio e encontram aqui o petróleo de que necessitam, numa região sem ameaças e com custo de transporte muito baixo pela proximidade. As compras americanas criarão reciprocidades econômicas e políticas na região, daí a retomada das relações com a América do Sul e com a África.

Isso pode ser vantajoso para o Brasil, se tiver uma visão estratégica, pois o mapa mostra ilhas britânicas espalhadas pelo centro do Oceano, com vasta zona exclusiva e há projetos de fora da região visando "securitizá-lo" contra supostas ameaças. Se o Brasil não levar a sério a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (criada com nações das duas margens em 1986 e legitimada pela ONU), nem construir uma defesa naval moderna, a riqueza da Amazônia Azul pode mudar de mãos e o Oceano pode deixar de ser tranquilo. Não há mais espaços vazios no mapa. Paulo Visentini – Brasil in “Zero Hora”

Paulo Fagundes Visentini é historiador, professor titular de Relações Internacionais da Ufrgs.