Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 29 de março de 2024

Angola - Parque Fotovoltaico de Saurimo vai ser inaugurado

O Ministério da Energia e Águas (MINEA) inaugura, na próxima terça-feira, o Parque Fotovoltaico de Saurimo, na província da Lunda-Sul, que vai ter uma potência instalada de 26,13 megawatts (MW)


De acordo com um comunicado do MINEA, o parque vai garantir electricidade verde e abastecer mais de 170 mil famílias e uma poupança de mais de 19 milhões de litros de combustível por ano.

O objectivo do Governo, identificado no Plano "Energia Angola 2025”, é diversificar a matriz energética do país e que este tenha cerca de 60 por cento da sua população rural com acesso à electricidade.

Orçado em 38,8 milhões de euros, a empreitada comporta um total de 44850 painéis solares e vai produzir mais de 49000 MWh/ano. De forma a escoar esta energia, será construída uma linha de média tensão de 15 kV que interligará o parque solar ao posto de seccionamento que estará preparado para as futuras ligações dos postos de Tchicumina e Nhama, bem como a interligação da linha da Hidrochicapa.

Além de uma poupança de mais de 19 milhões de litros de combustível por ano, esta solução vai evitar emissões de mais de 68 mil toneladas de Dióxido de Carbono (CO2) por ano.

O Parque Fotovoltaico de Saurimo faz parte de um conjunto de sete, com uma capacidade total de 370 MWp, nas províncias de Benguela, Huambo, Bié, Lunda-Norte (Lucapa) e Moxico (Luena), que deverão estar operacionais até ao final deste ano.

No seu conjunto, os sete parques solares foram desenvolvidos por um consórcio internacional composto pelas empresas Sun Africa e MCA, estando esta última com a componente de engenharia. Isso vai permitir fornecer electricidade renovável e limpa a 2,4 milhões de angolanos, contribuindo ainda para a redução anual de emissões poluentes de cerca de um milhão de toneladas de CO2.

Os parques solares permitem, também, eliminar a necessidade de consumo de cerca de 1,4 milhões de litros de gasóleo em geradores e produção térmica, com efeitos fortemente poluentes, o que permitirá uma poupança muito significativa nos gastos com importação de combustíveis. In “Jornal de Angola” - Angola




Portugal - Universidades de Macau e Aveiro assinam acordos em várias áreas

Uma visita à Universidade de Aveiro foi mais uma paragem da deslocação a Portugal de uma delegação de instituições de ensino superior de Macau e representantes dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude. O encontro serviu para assinar um protocolo de colaboração e discutir assuntos da cooperação, da promoção de projectos de intercâmbio e troca de estudantes, assim como de colaboração na área da investigação científica


A cooperação entre instituições do ensino superior de Macau e de Portugal foi o tema base do encontro que uma comitiva do território, composta por dirigentes de universidades e representantes da Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), fez à Universidade de Aveiro. Na reunião, foram discutidos assuntos relacionados com o intercâmbio entre as instituições de ambos os lados, bem como a promoção de projectos de cooperação, de troca de estudantes e do intercâmbio académico na área da investigação científica.

De entre as principais áreas disciplinares, a Universidade de Aveiro destaca-se na engenharia electrotécnica e electrónica, ciência dos materiais, ciências do ambiente, entre outras, ocupando o 344º lugar do ranking mundial das universidades e leccionando para 14 000 alunos.

Durante o encontro, o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e reitor da Universidade de Aveiro, Paulo Jorge Ferreira, fez uma apresentação sobre a situação do desenvolvimento da internacionalização da instituição, a situação geral da cooperação com as empresas, as vantagens das áreas disciplinares e o seu modelo de gestão.

Ao mesmo tempo, sob o testemunho do subdirector da DSEDJ, Teng Sio Hong, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, a Universidade da Cidade de Macau, a Universidade de São José e o Instituto de Enfermagem Kiang Wu assinaram acordos de cooperação com a Universidade de Aveiro. O objectivo é reforçar a cooperação em várias áreas, nomeadamente de intercâmbio académico entre as instituições de ensino superior de Macau e de Portugal, e de promoção de projectos de intercâmbio e de troca de estudantes.

Antes, já outros protocolos haviam sido rubricados, como a parceria entre a Universidade Politécnica de Macau e o Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, para reforço nos domínios da ciência, da cultura e da educação, e o acordo entre a Universidade da Cidade de Macau e a Universidade Lusófona no âmbito do desenvolvimento de novos projectos de cooperação entre as duas universidades, nas áreas da docência, disciplinares e de formação de quadros qualificados.

Em nota enviada às redacções, a DSEDJ revela que “coordena, de forma contínua, a integração de recursos das instituições de ensino superior”, promovendo o intercâmbio e a cooperação entre as instituições de ensino superior de Macau e de Portugal, “com vista a auxiliar na formação dos quadros qualificados necessários” para o desenvolvimento da estratégia de diversificação adequada “1+4” de Macau. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

Alemanha - Associação que promove a língua portuguesa em Munique comemora 30 anos

A associação portuguesa “Lusofonia”, criada em 1993 na cidade alemã de Munique, pretende mostrar, através de diversos eventos, que vão desde debates a concertos, a diversidade cultural dos vários países de língua portuguesa


Mais de três décadas depois de começar a organizar as primeiras iniciativas, a diversidade continua a ser a grande preocupação e o objetivo da fundadora Luísa Costa Hölzl, que até se arrepende de não ter utilizado o plural de “Lusofonia” quando batizou a associação.

“Estou arrependida de não nos chamarmos ‘lusofonias’ no plural. A palavra lusofonia tem um eco imperial, continua a ter uma marca colonial, como se tivesse substituído a ideia de império. Não queremos isso de todo, recusamos totalmente”, apontou, em declarações à Lusa.

“O nosso objetivo sempre foi uma diversidade a vários níveis. Diversidade do lado dos países de origem dos artistas que trazemos. E os formatos, as próprias áreas artísticas, desde concertos, performance, conversas, debates, leituras, exposições de arte, ou eventos em que misturamos vários formatos”, acrescentou.

A associação começou a dar os primeiros passos em 1993 com o escritor Mia Couto. Foi o primeiro evento que contou com uma leitura e música moçambicana. Seguiram-se várias iniciativas que foram dando mais força a este trabalho.

“Em 1998, Portugal foi o país convidado da Feira do Livro de Frankfurt. Foi uma ocasião fantástica para montar uma programação bastante pormenorizada porque tivemos vários escritores que foram a Frankfurt e depois vieram até Munique. Tivemos um serão de lírica, poesia, com a edição de uma revista literária”, indicou Luísa Costa Hölzl.

O estatuto de associação cultural só foi concretizado em 2009, mas, mesmo assim, o grupo, de portugueses, alemães e brasileiros, continuou a ser pequeno.

“Somos meia dúzia de sócios”, detalhou a fundadora, nascida em Lisboa, e a viver em Munique, onde é professora de português na Universidade Ludwig-Maximilians desde 2000 e na Münchner Volkshochschule desde 1988.

“A nossa ideia foi sempre cooperarmos com outras instituições. Não fazemos nada sozinhos”, destacou, sublinhando ser também esse um dos aspetos principais da associação que coopera, muitas vezes, promovendo eventos através da newsletter.

Uma das últimas iniciativas organizada pela “Lusofonia” foi um concerto da cantora cabo-verdiana Lura. Para os dias 02 e 03 de maio estão programados vários eventos que comemoram os 50 anos do 25 de Abril, como uma exposição fotográfica, um debate político e momentos musicais.

“Procuramos sempre datas que sejam significativas, efemérides. Por exemplo, vamos seguramente ler poesia de Alexandre O’Neill, porque se celebram cem anos do seu nascimento em 2024”, exemplificou, lamentando que nem sempre seja fácil chegar a toda a comunidade lusófona.

“Não queremos ser chatos”, ri Luísa Costa Hölzl, enquanto explica a escolha de formatos diferentes para que o público, maioritariamente alemão, goste. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


França - Programa dos 106 anos da Batalha de La Lys

As quatro cerimónias que assinalam o 106.º aniversário da Batalha de la Lys, homenageando os soldados do Corpo Expedicionário Português (CEP) e as enfermeiras da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) que participaram na Grande Guerra em França, terão lugar no dia 13 de abril, em Richebourg e La Couture, e no dia 14 em Boulogne-sur-Mer e Ambleteuse


De acordo com um comunicado enviado pela embaixada ao Bom Dia, o embaixador de Portugal em França, José Augusto Duarte, presidirá às cerimónias em nome do Estado Português e será acompanhado pelo prefeito de Pas-de-Calais, Jacques Billant, pelo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas Portuguesas, José Nunes da Fonseca, pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Francesas, Thierry Burkhard, pelo cônsul-geral de Portugal em Paris, Carlos Oliveira, pelos presidentes das Câmaras de Richebourg, La Couture, Boulogne-sur-Mer e Ambleteuse, pelo presidente da Liga dos Combatentes Portugueses, Tenente-General Joaquim Chito Rodrigues, pelo vice-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, Tenente-General Marco Serronha, e por uma delegação de militares das Forças Armadas Portuguesas na Bélgica

O programa começa às 10h45 de sábado no Cemitério Militar Português em Richebourg e continua às 12h15 junto ao Monumento aos Mortos em La Couture, incluindo honras militares à chegada das entidades, deposição de coroas de flores, hinos nacionais, leitura de um poema por alunos das escolas Marcel Lejosne e Sacré-Cœur, canto por um coro de jovens de La Couture e um Porto de honra oferecido a todos os convidados em La Couture.

Após o almoço de convívio (inscrição por correio eletrónico em lacouturecc@orange.fr), haverá uma missa às 16h00 na igreja católica de Saint-Pierre em La Couture.

As celebrações recomeçam no domingo, às 9h50, no cemitério oriental de Boulogne-sur-Mer, seguidas de uma comemoração religiosa às 11h00, diante da Cruz de Cristo no cemitério de Ambleteuse, e prosseguem com uma homenagem aos combatentes do CEP e às enfermeiras da CVP às 12h00, em frente ao monumento da Cruz Vermelha Portuguesa em Ambleteuse, incluindo discursos, deposição de coroas de flores, com a ajuda das crianças do Conselho Municipal da Juventude, homenagens aos mortos, hinos nacionais e saudação aos porta-estandartes. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo

quinta-feira, 28 de março de 2024

Brasil - Michelle Bolsonaro para presidente? Ou para vice?

O que estaria pensando o governador Tarcísio de Freitas, diante da platéia repleta de bolsonaristas enfeitiçados pelo charme de Michèlle Bolsonaro no Teatro Municipal de São Paulo, diante do risco da esposa do ex-presidente inelegível, convertida numa sacerdotisa evangélica, lhe tomar a esperada candidatura à presidência contra Lula em 2026?

Pior ainda para Tarcísio, sondagens eleitorais feitas pelo PL e PP confirmam não existir outra alternativa senão Michelle em termos de popularidade e preferência dentro do eleitorado evangélico e de extrema-direita. Além disso, Michelle tem força e carisma próprios, enquanto Tarcísio só existe apoiado em Bolsonaro.

A última esperança de Tarcísio talvez seja essa: a de Bolsonaro proibir à esposa ir além da pretendida candidatura a senatoria. Neste caso, Michelle, mesmo picada pela mosca azul da ambição, teria de pensar duas vezes antes de se rebelar, pois foi ela mesma quem construiu sua imagem de esposa fiel e obediente, segundo os preceitos da Bíblia. Em todo o caso, seria estranho os partidos e os grupos dos machões anti-feministas escolherem uma mulher, de rosto e corpo bons para capa de revista, como candidata ideal à presidência.

E seriam essas as únicas razões capazes de impedir ao Brasil ter uma presidenta, quando já houve a Dilma e mesmo uma Eva na Argentina? Não! Existe outra muito mais difícil de suplantar: como reagiriam os filhos de Bolsonaro, eles que sempre se imaginaram serem os herdeiros do pai Bolsonaro e donos dessa dinastia?

Uma solução para descartar Michelle seria a de convencer Bolsonaro de partir para o exílio. Num país bem distante como a Hungria, deveria estar acompanhado de sua esposa, como manda o figurino evangélico. Caso Michelle divorciasse por não saber fazer um bom goulashe, não teria mais o apoio do eleitorado evangélico. Entretanto, essa hipótese, que parecia unir a família Bolsonaro, foi destruída pelo vazamento do vídeo de segurança da embaixada magiar em Brasília, no qual se via o ex-presidente chegar de cafeteira e travesseiro com a intenção de testar o quarto de hóspede do embaixador.

Mas alguém poderia lembrar uma outra hipótese, levantada por um canal youtube de esquerda, diante do sucesso do show montado em plena avenida Paulista pelo pastor Silas Malafaia: seria o lançamento da dobradinha Malafaia, para presidente, e Michelle, para vice-presidente. Mesmo sem sondagem feita, seria a fórmula capaz de agradar a todos, até aos filhos de Bolsonaro. A supremacia do machismo continuaria assegurada com alguém batalhador e guerreiro como um rei Daví e, na vice-presidência, Michelle seria uma espécie de dama de honra, mesmo porque sem formação política e econômica poderia ser uma catástrofe como presidenta. Ou Tarcísio presidente com Michelle vice?.

60 anos depois, alguém se lembra do Golpe de 1964?

Esquece isso! Foi esse o pedido do presidente Lula ao ministro Sílvio Almeida, dos Direitos Humanos, para evitar confrontos e choques com os militares? Em todo o caso, o ministro não teve outra opção senão a de cancelar o ato, destinado a relembrar 60 anos depois, no Museu da República, em Brasília, as vítimas das perseguições desencadeadas pelos golpistas de 1964.

E por que motivo? Para evitar tensões com os militares, em nome de uma apaziguação e para que a data seja tratada com serenidade. Em contrapartida, destacou a imprensa, o governo espera também silêncio por parte das Forças Armadas em relação ao 31 de março, sem leitura da ordem do dia com referências a essa data e sem comemorações.

E essa boa intenção lulista tem chance de ser seguida?

Dentro dos quartéis, sem dúvida não haverá, mas do lado de fora, de maneira independente e à paisana ou de pijama não se pode garantir, mesmo porque Bolsonaro pedia e dava grande destaque ao 31 de Março, na esperança de provocar um novo golpe, durante ou ao fim de seu mandato.

É o caso do almoço patrocinado pelo Clube Militar do Rio de Janeiro, ocorrido nesta quarta-feira, dia 27, cujo anúncio dizia: "para relembrar os 60 anos do Movimento Democrático de 31 de Março de 1964. O anfitrião foi o general Maynard Marques de Santa Rosa, na reserva há 14 anos, exonerado por Lula da chefia do Departamento Geral de Pessoal do Exército por críticas à Comissão Nacional da Verdade, encarregada de averiguar os crimes cometidos nos 21 anos da ditadura militar.

E, por ser domingo a data dos 60 anos do Golpe em 1964, é mais do que certo, haverá comemorações veladas ou ostensivas em muitas igrejas e congregações evangélicas e neopentecostais. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
 

Malásia - É um dos homens mais influentes da Ásia e tem nome português

Anthony Francis Fernandes, empresário de 60 anos, é malaio, o seu pai de Goa, a sua mãe indo-asiático-portuguesa (do povo Kristang) e, tal como muitos dos seus conterrâneos, carrega no nome o peso da herança que Portugal deixou na Ásia. Neste momento é dono de um dos grupos mais influentes daquele continente que detém, por exemplo, uma das maiores companhias aéreas low-cost do mundo

Em 2001, Anthony Francis Fernandes – também conhecido por Tony Fernandes – fundou a Tune Aire, empresa ligada ao setor da aviação que, mais tarde, adquiriu a Air Asia e a transformou numa das mais prósperas companhias aéreas do continente asiático.

Mais tarde criou o Tune Group, consórcio com tentáculos nos setores de hotelaria, telecomunicações, serviços financeiros, desporto, indústria criativa e linhas aéreas.

Além disto, o milionário foi também acionista maioritário dos Queens Park Rangers, em Inglaterra, e entre 2010 e 2014 liderou a Team Lotus, equipa de Fórmula 1 que depois alterou o nome para Caterham F1 Team.

A nível académico, Fernandes estudou na The Alice Smith School, em Kuala Lumpur e entre 1976 e 1983 foi aluno do Epsom College, no Reino Unido, de onde saiu para a London School of Economics e se graduou em Contabilidade. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Eduardo Fontes: poesia em tempos de covid-19

Poeta, que sobreviveu a muito custo à pandemia, arranca versos da tragédia e mostra que é possível fazer poesia mesmo em situações de desafio

                                                                                         

                                                          I

Autor de vastíssima obra, que inclui 24 obras publicadas e mais três por publicar, Eduardo Fontes (1947), poeta cearense bastante conhecido no Nordeste, talvez porque em seus versos nada herméticos e extremamente líricos sempre se mostrou muito preocupado em exaltar suas origens, está de novo no mercado com um livro de poemas, escrito entre os anos de 2020 e 2022, como resultado da reclusão forçada pela incidência da pandemia de coronavírus (covid-19), que também o atingiu, mas da qual a muito custo escapou. Por isso, dedica a obra às vítimas da pandemia, “sobreviventes da hecatombe, tratada como mimimi”, mas que matou mais de 700 mil pessoas no Brasil.

O título, A poesia nos tempos da Covid (Fortaleza, RDE Editora, 2024), faz lembrar e constitui uma homenagem a O amor nos tempos de cólera (1985), do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), como reconhece o próprio autor. Como seria previsível, a simplicidade que faz evocar os menestréis nordestinos está mais uma vez presente nesta obra, mas, como assinalou o poeta Anderson Braga Horta, ao analisar seu livro anterior, Poemas de amor e êxtase (2022), a composição de seus versos tornou-se “mais direta, precisa, enxuta”. É o que se pode constatar neste excerto do poema “Variações sobre o amor” em que diz:

(...) Amor dos poetas e ascetas / Que cantam nos seus versos, / Aquele desejo de estar perto / De suas musas esbeltas... / E nos tempos da cruel Covid / Quantos perderam / O amor de suas vidas, / O amor-companheiro, / O amor-entrega, / O amor-desejo, / O amor-certeza, / O amor-amante, / O amor-irmão, / O amor-papai, / O amor-mamãe, / O amor da vovó, / O amor do vovô, / O amor-órfão / À procura de quem lhe dê a mão... / O amor dos noivos / Que se queriam em comunhão / E que foram levados num batel / E viraram estrelas  no céu!...”

 

                                                         II

No texto de apresentação que escreveu para a sua própria obra, Fontes diz que esteve entre as primeiras vítimas do mortal vírus e que chegou a um ponto em que os médicos só lhe davam dez por cento de vida. Mas, felizmente, sobreviveu para atuar, através da poesia, como testemunha de um tempo em que a imprevidência, a falta de vacinas e o deboche oficial estiveram presentes nos lares e em todos os quadrantes do País. E ele mesmo se questiona: como enxergar poesia em tais condições? E responde: “Sim, é possível, pois, em todas as situações de desafio e de sofrimento pelas quais passam as pessoas, existe sempre no fim do túnel a luz da Esperança, e mesmo contida é possível conciliar amor e dor, alegria e tristeza, solidão e comunhão, saudade e presença”.

Se poesia é emoção e pensamento, o poeta não deixa de olhar o futuro e clamar aos que o leem que esqueçam aqueles que só contribuíram, com seu negativismo, para que o mal crescesse por todo o País. É o que se sente no poema “O Sol volta a brilhar”:

“(,,.) Vamos sepultar / Os arautos da morte / E da maldade, / Os que não sabem chorar / Nem se indignar dos próprios atos!... / Vamos esquecer / Os salvadores da Pátria / Que nada salvam, / Além dos próprios bolsos!... /Vamos lavá-los nas águas / do Rio do Esquecimento / Para que Creonte os leve / Para o Nada na sua barca!...” 

Por isso, sem abandonar o lirismo telúrico que se tornou também marca tanto de seus breves como de seus mais extensos poemas, Fontes trata de extrair da vida poesia, fundindo o pictórico e o sonoro, mesmo que o mundo lhe seja adverso. Poeta da emoção, procura pensar por imagens, como se vê no poema “A Poesia”:

(...) A Poesia não morre, / Mesmo na morte, / Pois a Poesia é alma, / É perfume suave, / Brisa que perpassa / Pela manhã e à tarde!... / É estrela solitária / Que se mostra no céu, / Lembrando a pessoa amada!... / É o cantar dos pássaros, / O farfalhar do vento / Nas árvores, / É a Lua no céu / A pratear a mata! / É o mar / A se espreguiçar na areia / Da praia, / É a flor a se entreabrir / Por mãos invisíveis!... / É toda a beleza / Que existe / No ar, no mar, no espaço, / De graça, / Sem cobrar taxa!...”

 

                                                         III

Nascido em Fortaleza, filho e netos de poetas, Eduardo Fontes, bacharel em Direito e em Administração, trabalhou como analista de controle externo do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e administrador no Tribunal de Contas dos Municípios, no Ceará. Conciliando com as atividades de servidor público, atuou anos a fio em órgãos de imprensa do Ceará como redator e repórter, tendo acumulado vários prêmios. Como membro da Associação Cearense de Imprensa (ACI), recebeu, em sessão solene, medalha alusiva aos 50 anos de sócio efetivo da entidade.

É autor de Exaltação à vida (poesia, 1967), livro de estreia; O alpinista (poesia, 1970); O Lagamar que eu conheci (ensaio, 1974); Vitrais (poesia, 1979); O teatro de Carlos Câmara (1982); As pouco lembradas igrejas de Fortaleza (história, Prêmio João Brígido, 1983); Pequena história do Tribunal de Contas do Ceará, em parceria com Antônio de Pádua Saraiva Câmara (1985); Cantos do outono (poesia, 1995); Rua da Saudade (poesia, 1998); Pelas mãos da poesia (2000); Na esquina da vida (crônicas, 2007); Cancioneiro de mim (poesia, 2012)|; Último trem para Pasárgada (poesia, 2013); Relicário da saudade (poesia, 2014); O baile das palavras (poesia, 2015); Ciranda poética (2018); Devaneios (poesia, 2017); Jesus, Senhor da Vida e Rei do Universo (poesia, 2017); Poemas das bodas de ouro matrimoniais (2019); O teatro da vida (contos, 2021); Poemas de amor e êxtase (2022); e Contos fantásticos e outros contos (2023), entre outros.

Membro fundador da Academia Fortalezense de Letras, participou do grupo Sin de Literatura que, na década de 1960, sacudiu o movimento artístico-cultural de Fortaleza. É cronista do Diário do Nordeste, de Fortaleza. Adelto Gonçalves – Brasil

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A poesia nos tempos da Covid, de Eduardo Fontes. Fortaleza: RDE Editora, 108 páginas, 2024. E-mail da editora: rds1048@gmail.com E-mail do autor: eduardohumbertofontes@gmail.com

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Adelto Gonçalves é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br