Com mais de 60 mil volumes, a Biblioteca Oliveira Lima quer tornar-se mais conhecida em Portugal. Localizada na Catholic University of America, em Washington, a instituição conta com 102 anos de existência. “As pessoas não se dão conta da riqueza da biblioteca até entrarem e começarem a refletir sobre a importância deste acervo”, começa por dizer ao DN Duília de Mello, diretora da entidade
O
acervo foi reunido pelo diplomata brasileiro Manuel de Oliveira Lima
(1867-1928), um apaixonado pela história do Brasil e de Portugal. Para além de
livros, inclui periódicos, panfletos, mapas, folhetos, cerca de 700 manuscritos
e obras de arte. “Temos desde documentos históricos até pinturas notáveis do
século XIX. São documentos e livros raros, incluindo exemplares dos séculos XVI
e XVII, que refletem a ligação Brasil - Portugal. As pessoas ficam
verdadeiramente impressionadas quando conhecem a coleção”, destaca a diretora,
que é luso-descendente.
Entre
os itens contam-se cerca de três mil obras raras, além de crónicas da época dos
descobrimentos portugueses sobre a chegada ao território brasileiro. Com uma
aposta na digitalização, o objetivo é alargar o número de leitores, sobretudo
em Portugal. “Os portugueses utilizam muito pouco a biblioteca. É outro aspeto
que estamos a tentar melhorar, através da divulgação da Biblioteca em
Portugal”, explica. A instituição passou também a marcar presença nas redes
sociais, divulgando obras e curiosidades, com o objetivo de atrair mais
público.
Ao
mesmo tempo, a diretora considera que as humanidades, em geral, estão a perder
espaço na investigação. “Não é um problema específico da história
Brasil - Portugal, mas das humanidades em geral. O dever da Biblioteca Oliveira
Lima é não deixar cair no esquecimento a herança comum e dar a conhecer a
história dos dois países às novas gerações”, sublinha. “Só assim será possível
compreender o presente e refletir sobre o futuro de ambos os países, bem como o
seu papel na cultura global”, acrescenta.
O
livro mais antigo da biblioteca é também o preferido da diretora: Paesi
novamente retrovati, de 1507. “Relata as primeiras descrições europeias do
território brasileiro. Quando falamos de 1507, sentimos uma grande proximidade
às nossas origens, já que o Brasil tinha apenas sete anos de presença
portuguesa. É muito marcante para mim, como brasileira e descendente de
portugueses, ver, tocar e ler este livro, escrito em italiano. Não é uma obra
exclusivamente sobre o Brasil, mas inclui referências ao território, o que a
torna particularmente emocionante”, revela.
Segundo
Duília de Mello, nas visitas presenciais predominam investigadores
norte-americanos, mas há também brasileiros e poucos portugueses - um cenário
que a direção pretende alterar, a par do desafio de chegar às escolas.
“Gostaríamos de ser mais utilizados pelas escolas. Os alunos do ensino
secundário que realizam trabalhos de investigação poderiam recorrer mais à
coleção. Esse é um desafio que ainda não conseguimos superar”, afirma.
Como
em muitas instituições culturais, um dos principais obstáculos é a limitação de
recursos financeiros. “Temos recursos muito limitados, que são provavelmente o
maior problema da biblioteca. Com mais financiamento, poderíamos oferecer
bolsas de estudo, apoiar investigadores e divulgar melhor a coleção fora do
meio académico”, refere.
Apesar
do orçamento reduzido, a biblioteca mantém planos ambiciosos, incluindo
iniciativas em Portugal. “Estamos a desenvolver um projeto editorial com livros
de grande formato sobre a coleção, o que poderá aumentar a notoriedade da
biblioteca. Paralelamente, estamos a preparar eventos para apresentar peças do
acervo, tanto em Portugal como no Brasil. Os próximos anos serão fundamentais
para dar maior visibilidade à Biblioteca Oliveira Lima”, conclui.
Pode aceder gratuitamente ao acervo. Amanda Lima – Portugal in “Diário
de Notícias”
