Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 14 de maio de 2024

C. R. Boxer, um historiador como poucos

Obra de Kenneth Maxwell reconstitui a saga do estudioso inglês que desvendou  a vida colonial no Brasil e foi acusado de traidor em seu país

                                                                      

                                                         I

O livro Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world (Kenneth Maxwell sobre tendências globais: um historiador do século 18 olha para o mundo contemporâneo), publicado em 2023, em  Londres, por Robbin Laird, editor (Second Line of Defense), acaba de ganhar edição em capa dura (hardcover) acrescida de prefácio deste articulista, de um artigo de dezembro de 2023 (“The new historical era seen from space: the case of the Middle East”) e de mais dois instigantes ensaios de 2001 (“Trap and blank check: a cautionary note about Bush and Afghanistan” e “The C. R. Boxer affair: heroes, traitors, and the Manchester Guardian”.

Dentro do limitado espaço que oferece uma resenha e por sua inegável importância para os estudos da História do Brasil, vai-se destacar aqui apenas o ensaio dedicado ao historiador britânico Charles Ralph Boxer (1904-2000), grande conhecedor da história colonial de Portugal e Holanda. Em linhas gerais, o que se pode adiantar é que Boxer foi educado no Wellington College e no Royal Military College, em Sandhurst, tendo sido tenente no regimento do Lincolnshire de 1923 a 1947.

Serviu na Irlanda do Norte e, de 1930 a 1933, foi tradutor no Japão alocado ao Regimento de Infantaria nº 38 com base em Nara. Em 1933, formou-se como intérprete oficial da língua japonesa. Removido em 1936 para Hong Kong, que à época era colônia britânica, serviu como oficial nas tropas britânicas na China, em serviços de inteligência. Ferido em ação durante o ataque japonês a Hong Kong, em 8 de dezembro de 1941, foi levado pelos japoneses como prisioneiro de guerra e mantido em cativeiro até 1945, tendo sido torturado.

Mesmo assim, quando libertado, ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), retornou ao Japão como membro da Comissão Britânica no Extremo Oriente em 1946-1947. Durante sua carreira militar, publicou mais de 80 livros e opúsculos sobre a história do Oriente, sobretudo dos séculos XVI e XVII. Como major do Exército, aposentou-se em 1947, quando o King's College, de Londres, ofereceu-lhe a cadeira Camões de Português, cargo em que permaneceu até 1967. Nesse período, a Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres o nomeou seu primeiro professor de História do Extremo Oriente, tendo servido no cargo de 1951 a 1953.           

Ao se aposentar em 1967 da Universidade de Londres, aceitou o posto de professor visitante na Universidade de Indiana, onde serviu ainda como conselheiro na Lilly Library. De 1969 a 1972, foi responsável pela cadeira de História da Expansão Europeia no Ultramar na Universidade de Yale. Era um poliglota, pois, além do inglês, falava com fluência os idiomas japonês, chinês, português, espanhol e holandês.

 

                                                         II

Definido por Américo Jacobina Lacombe (1909-1993) como “o maior representante da cultura inglesa interessada pelo mundo de língua portuguesa”, Boxer é autor do notável Salvador de e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686 (São Paulo, Companhia Editora Nacional/Editora da Universidade de São Paulo-Edusp, 1973, tradução de Olivério de Oliveira Pinto), publicado em 1952 em Londres. Essa obra, como anteviu Lacombe, tem servido como modelo de construção para muitos historiadores brasileiros, “pelo método, pela exatidão e pela arte que lhe dá um tom de leitura palpitante”.

É de se lembrar que Salvador Correia de Sá e Benevides (1602-1686) foi um militar do império ultramarino português que, durante a Guerra da Restauração (1640-1668), a serviço do reino de Portugal, destacou-se no comando da frota que, em 1647, reconquistou Angola e São Tomé e Príncipe, terminando a ocupação holandesa. Foi por três vezes governador da capitania do Rio de Janeiro.

Além dessa, há pelo menos mais duas obras de sua autoria fundamentais para a compreensão da construção do Brasil: Os holandeses no Brasil, 1624-1654 (Companhia Editora Nacional, 1961)  e A idade de ouro do Brasilas dores do crescimento de uma sociedade colonial  (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1963).

O que poucos sabem é da vida desdita que Boxer levou e que Maxwell levanta em seu instigante ensaio, começando por chamá-lo de herói, no seu melhor sentido, definição que passa longe das celebridades do esporte e do cinema ou da TV. E que, segundo o historiador, teria sido vítima de “antigos ressentimentos, fofocas e ciúmes de um mundo pós-colonial que agora trabalha para violar a reputação de um indivíduo verdadeiramente complexo e notável”.

Faz Maxwell essa observação a propósto de um artigo assinado pelo professor Hywel Williams (1953), membro do Parlamento britânico, e publicado a 24 de fevereiro de 2001 no jornal The Guardian, de Londres, em que o articulista reconhece Boxer como “um bom soldado e brilhante historiador”, que, no entanto, “pode ter sido um traidor que entregou seus antigos companheiros num campo de prisioneiros administrado por japoneses em Hong Kong, de uma forma que minou todo o sistema de inteligência britânico no Sudeste Asiático”. 

Para Williams, Boxer teria pertencido a uma geração de intelectuais britânicos que “haviam abraçado o comunismo marxista de modelo soviético”. E por isso teria sido “um exemplo espetacular de tentação em tempo de guerra”. Enfim, um intelectual que, por sua formação marxista, teria funcionado como espião contra os interesses ocidentais.

No mesmo The Guardian, tradicional jornal fundado em 1821 e considerado a mais forte voz liberal  da Grã-Bretanha, observa Maxwell, deu-se em 10 de março de 2001 a publicação de um artigo em que o historiador  norte-americano Dauril Alden (1926) refutava as insinuações e acusações de Williams, observando que, longe de ser o responsável pelo prolongamento da Segunda Guerra, Boxer foi quem disse que não poderia haver erro maior do que considerar que os militares japoneses não estavam profundamente enraizados na China. “Foram o Ministério da Guerra e o Ministério das Relações Exteriores britânicos que ignoraram e subestimaram o risco”, garantiu.

Coincidentemente, Alden acabara de escrever uma biografia de Boxer que logo seria publicada pela Fundação Oriente, em Lisboa, com o título Charles R. BoxerUma vida incomum, soldado, historiador, professor, colecionador, viajante. Segundo Maxwell, o professor Alden é um “meticuloso estudioso da velha escola para a qual uma documentação sólida é o núcleo dos estudos históricos”.

Levando isso em conta, o jornal, segundo Maxwell, teria até removido o artigo de Williams de seu site, tornando-o inacessível, uma forma de reconhecer que não deveria ter publicado aquele texto com difamações e acusações infundadas ou sem comprovação documental contra a honra “do mais honrado dos homens”, um estudioso que, para gerações de historiadores de países de língua portuguesa, era considerado “um verdadeiro colosso”.

 

                                                        III

De fato, como lembra Maxwell, Boxer escreveu, em mais de 350 publicações, textos da mais alta erudição sobre as guerras navais no Golfo Pérsico no século XVI, as tribulações das rotas marítimas entre Europa e Ásia, traçou um brilhante panorama do Brasil à época das descobertas do ouro e da expansão das fronteiras no século XVII, “magnífica síntese da história colonial de Portugal e Holanda, bem como estudos comparativos sobre instituições municipais e sobre raça e relações sociais na Ásia, África e América do Sul”. Para o historiador, o trabalho de Boxer sobre a vida e obra de Salvador Correia de Sá e Benevides é um de seus melhores livros, pois conta “o papel decisivo que ele teve na titânica luta entre os poderes ibéricos e os holandeses pela hegemonia no Atlântico Sul no século XVII”.

Maxwell lembra ainda que, quando das guerras coloniais de Portugal na África, Boxer contestou a propaganda “luso-tropicalista” difundida pela ditadura de António de Oliveira Salazar (1889-1970), com base nas ideias do pensador brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987), para quem “o colonizador português não tinha preconceitos raciais”. Por isso, Boxer foi também sistematicamente difamado pelo regime salazarista.

 

                                                        IV

Da vida privada de Boxer, Maxwell lembra que ele teve em Hong Kong, em 1940, um affair com a jornalista norte-americana Emily Hahn (1905-1997) que se tornou um dos romances mais conhecidos do século XX. A essa época, porém, Boxer já era casado, desde 1939, com Ursula Tulloch (1910-1996). Divorciaram-se em 1947. Emily Hahn foi por 70 anos uma das mais produtivas colaboradoras do jornal The NewYorker e publicou 52 livros e centenas de artigos, reportagens e poemas. Seu affair com Boxer está contado em seu livro China to me: a partial autobiography (1944).  

Segundo Williams, o casal teria “colaborado” com os japoneses, o que para Maxwell “não passaria de um esforço de imaginação”. Para Williams, Emily Hahn teria sido “uma feminista e simpatizante do comunismo”, o que reforçaria a acusação de que Boxer poderia ter atuado como agente duplo soviético dentro do governo britânico. Com Emily Hahn, o historiador teve um casamento duradouro e duas filhas.

Maxwell lembra que Boxer sempre se recusou a escrever a sua autobiografia, apesar dos obstáculos e lances curiosos que teve de superar em sua existência, especialmentre como prisioneiro de guerra. Recusou também várias homenagens e condecorações, embora nunca tenha deixado de atender a convites para conferências. Em 1989, a convite de Maxwell, concedeu entrevista aos alunos do Camões Center na Universidade de Colúmbia, quando afirmou que amava o Japão, apesar da vida perigosa que levara e dos percalços que tivera de enfrentar com os japoneses em Hong Kong: “Quando você é jovem, tem dinheiro e busca a luxúria como uma águia, você sempre o faz”, acrescentou.

Para Maxwell, Boxer, que enfrentou três anos de cativeiro, tortura e solidão, não foi traidor nem herói, mas uma “pessoa com uma integridade feita de granito”. E que poderia ser definido com uma palavra: stickler, termo que pode ser entendido como aplicável a “uma pessoa tenaz e persistente, que sempre esteve em busca da verdade”. E que Boxer atribui a Salvador de Sá na abertura de seu livro sobre o navegador, a quem chama de “um velho e notável stickler”.

 

                                                         V


Kenneth Maxwell (1941) foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos, da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho de Relações Exteriores, em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Colúmbia e Kansas.

Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa na Universidade de Colúmbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador regular da revista New York Review of Books, foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S.Paulo e é colunista mensal de O Globo desde 2015.

É autor do clássico A Devassa da Devassa (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1977), lançado em 1973 na Inglaterra com o título Conflicts and Conspiracies: Brazil and Portugal, 1750-1808 (Cambridge University Press), seu primeiro livro. Publicou também Marquês de Pombal - Paradoxo do Iluminismo (1996), A Construção da Democracia em Portugal (1999), Naked Tropics: essays on empire and other rogues (2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Editora Paz e Terra, 1999) e Mais malandros e outros - ensaios tropicais (Editora Paz e Terra, 2005), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world, de Kenneth Maxwell, edição em inglês (hardcover), com prefácio (foreword) de Adelto Gonçalves. Londres: Robbin Laird, editor/Second Line of Defense, 443 páginas, US$ 24,95 (Amazon), 2023. E-mail do autor: krobertmaxwell@gmail.com 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos-SP, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br.


domingo, 11 de fevereiro de 2024

Uma visão do Brasil contemporâneo

Novo livro do historiador inglês Kenneth Maxwell analisa os caminhos percorridos pelo País nos últimos 12 anos

                                                                                 

                                                          I

O livro Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world (Kenneth Maxwell sobre tendências globais: um historiador do século 18 olha para o mundo contemporâneo), publicado por Second Line of Defense e organizado e editado por Robbin Laird, reúne ensaios que saíram à luz de 2011 a 2023. Conhecedor profundo da história do Brasil e de Portugal no século XVIII e autor do clássico A Devassa da Devassa (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1977), lançado em 1973 na Inglaterra com o título Conflicts and Conspiracies: Brazil and Portugal, 1750 -1808 (Cambridge University Press), seu primeiro livro, Maxwell, embora seu trabalho basicamente enfoque o século XVIII português, tem acompanhado detidamente a evolução política tanto em Portugal como no Brasil nos últimos tempos.



Seus textos apresentam uma perspectiva abrangente sobre o mundo moderno e fornecem uma visão da desordem que se constata no planeta nos dias de hoje, mas especialmente se detêm sobre os caminhos que a democracia no Brasil vem percorrendo desde o fim do regime militar (1964-1985).    

 

                                     

                                                          II

Os oito ensaios de abertura, de 2011-2012, abordam a controversa questão sobre a compra pelo governo Dilma Roussef (2011-2014) de aviões caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), que era disputada pela empresa francesa Dassault, pela norte-americana Boieng e pela sueca Saab. A Dassault tentava vender os caças Rafale, enquanto a Boieng oferecia os modelos F-18 e a Saab os Gripen, que, afinal, foram os escolhidos. É um assunto que, até hoje, rende controvérsias e que foi ressuscitado já agora no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando se especulou que a Marinha queria usar o dinheiro gasto com a compra do novo avião presidencial para adquirir caças F-18 da Boeing. A Marinha, porém, informou que não tinha nenhum interesse na transação.

Já  em ensaio de 2013 o articulista questiona a necessidade que o governo norte-americano encontrou à época, durante o mandato de Barack Obama, de espionar e-mails  e comunicados dos presidentes do México, Enrique Peña Nieto, e do Brasil, Dilma Roussef, azedando as relações entre países considerados aliados. A justificativa, lembra Maxwell, era a ameaça de terrorismo. “Mas é Dilma Roussef terrorista? Era Lula? Era Peña Nieto?”, questionou, observando que a “estupidez tem suas consequências”. E condenou o “insaciável apetite dos Estado Unidos por espionar não apenas terroristas em potencial, mas também autoridades de países aliados”.

Diante disso, não significa ir muito longe imaginar que o governo norte-americano tenha estado por trás das maquinações que acabaram por levar ao impeachment da presidente Dilma Roussef em 2016 e, quem sabe, nas articulações que levaram à eleição no Brasil de um governo nazifascista em pleno século 21.  

Em outro ensaio de 2014, o articulista observa que Dilma Roussef, ao contrário de seu antecessor, Lula, sempre teve muitos problemas de relacionamento com os assuntos mundiais. E recorda que Edward Snowdon, antigo diretor da Nacional Security Agency (NSA), agência norte-americana de segurança com funções relacionadas com a inteligência, revelou que a entidade havia espionado os celulares e as comunicações de vários líderes mundiais, como Angela Merkel, chanceler da Alemanha de 2005 a 2021 e líder de um partido de centro-direita. E até de funcionários de alto escalão da Petrobrás, que, como se sabe, foram acusados de comprar uma refinaria em Pasadena, no Texas, por um preço extremamente alto, com todos os sinais de corrupção (widespread embezzlement).

Mais adiante, em artigo de 2016, Maxwell lembra que o Partido dos Trabalhadores (PT) não inventou a corrupção no Brasil e que, tradicionalmente, há envolvimento corrupto entre empresários, políticos e dirigentes de empresas estatais, em prejuízo do interesse público. E que o Brasil não é o país mais corrupto do mundo, lembrando que Rússia, China e África do Sul, “só para ficarmos com os países do Brics, são certamente bastante competitivos no ranking mundial da corrupção”.

 

  

                                                         III

Já em ensaio de 2017, Maxwell escreve, de maneira premonitória, que, “num mundo interdisciplinar a nível global, as crises numa parte não só têm impactos noutros lugares, mas podem ter um conjunto imprevisto de impactos”. E antecipa quais seriam as conclusões do relatório do governo dos Estados Unidos divulgado em 2023, “que provou, sem sombra de dúvida, que havia conluio entre a campanha de Bill Clinton e a administração Obama ao acusar falsamente Donald Trump de conluio com os russos”. Em outro ensaio, discute a crise política no Brasil que acabaria por favorecer a ascensão de um político completamente desqualificado para o ato de governar.

Nos ensaios de 2018, o foco, obviamente, foi a eleição presidencial no Brasil que culminou com a escolha de Jair Bolsonaro, a quem o ensaísta definiu como o Donald Trump brasileiro, conhecido por “suas explosões homofóbicas, racistas, que incitam à violência, misantrópicas e sexistas (bem como por sua falta de conquistas legislativas)”. E por defender a ditadura militar e seus métodos nada civilizados, que incluíam tortura e desaparecimento de adversários políticos.

Nos ensaios de 2019, Maxwell continuou a comentar os atos administrativos do governo Bolsonaro, sem deixar de analisar as consequências da saída do Reino Unido da União Europeia, decisão política que ficou conhecida como Brexit. Já os textos de 2020 ocuparam-se majoritariamente do fenômeno provocado pela pandemia causada pelo Coronavírus (Covid-19) e da situação econômica do Pais, que se agravara nos cinco anos anteriores, com uma recessão que chega até os dias hoje, com o crescimento do número de moradores de rua.

O articulista lembra que, em 2017, o desemprego chegara a 13,70%, caindo para 11,20% em 2019, equivalente a 12  milhões de desempregados numa população de 210 milhões, o que, obviamente, como argumenta, é resultado da má distribuição de renda no País, onde 1% dos brasileiros mais ricos controlam 28,3% da riqueza nacional e 10% dos mais ricos ficam com 41,9% da riqueza. “Apenas o Catar tem pior distribuição de riqueza, com 29%”, acrescenta.

Nos ensaios mais recentes, de 2021, 2022 e 2023, faz incursões no tema de sua especialidade, o século XVIII português, aproveitando para apresentar dados que podem vir a fazer parte de uma futura biografia de Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (1774-1823), jornalista e diplomata, criador do Correio Braziliense, jornal publicado em Londres, cuja primeira edição é de junho de 1808.

Dos primeiros meses do governo Lula, em ensaio de abril de 2023, Maxwell, por fim, destaca a atuação internacional do presidente brasileiro, com viagens aos Estados Unidos, China – principais parceiros econômicos do Brasil –, Egito e Emirados Árabes, que ajudaram a criar o slogan “Brazil is Back” (O Brasil está de volta) para reforçar o posição do País como emergente no sistema internacional.

 

    

                                                         IV

Kenneth Maxwell foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos (DRCLAS), da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Columbia e Kansas.

Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa em Columbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador regular da New York Review of Books e foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S.Paulo e é colunista mensal do O Globo desde 2015.

Foi ainda Herodotus fellow no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e Guggenheim fellow e membro do Conselho de Administração da The Tinker Foundation, Inc. e do Conselho Consultivo da Fundação Luso-Americana. Também é membro dos Conselhos Consultivos da Brazil Foundation e da Human Rights Watch/Americas. Fez  bacharelado e mestrado no St. John's College, Cambridge University, e mestrado e doutorado na Universidade de Princeton. É colaborador regular do site Second Line of Defense (www.sldinfo.com).

Publicou também Marquês de Pombal - Paradoxo do Iluminismo (1996), A Construção da Democracia em Portugal (1999), Naked Tropics: essays on empire and other rogues (2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Editora Paz e Terra, 1999) e Mais malandros e outros - ensaios tropicais (Editora Paz e Terra, 2005), entre outros. Em maio de 2004, renunciou ao cargo de diretor de Estudos Latino-Americanos do Conselho de Relações Exteriores de Nova York por ter criticado Henry Kissinger (1923-2023), ex-secretário de estado dos Estados Unidos (1973-1977), em resenha de livro sobre o golpe de Estado encabeçado por Augusto Pinochet (1915-2006), no Chile, em 1973, e de não ter tido uma resposta publicada na revista Foreign Affairs.

Já Robbin F. Laird, editor de Second Line of Defense, é analista de assuntos globais na área de defesa e segurança. Tem trabalhado para instituições do governo norte-americano, como Center for Naval Analyses e Institute for Defense Analyses. É autor de mais de 30 livros na área de defesa e segurança internacional. Só em 2023 publicou nove livros, entre os quais French Defense Policy Under Macron: 2017-2021 (editor), The Obama Administration Confronts Global Change (editor) e My Fifth Generation Journey: 2004-2018. Frequentemente, escreve artigos e dá declarações sobre o tema para a imprensa internacional e participa ou conduz entrevistas na TV com líderes políticos na Europa. Adelto Gonçalves - Brasil 

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Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world, de Robbin Laird, editor, edição em inglês. Londres: Second Line of Defense, 407 páginas, R$ 24,99 (Amazon), 2023. E-mail do autor: krobertmaxwell@gmail.com                                                                           

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br.