Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Portos: planejar é fundamental

Independente dos problemas jurídicos e ambientais que podem advir da insistência do governo federal em licitar novos terminais no Porto de Santos que ficam contíguos à zona urbana, não se pode deixar de reconhecer o seu esforço para aumentar a capacidade de movimentação do complexo portuário. Prevê-se que o Porto receberá R$ 1,39 bilhão em investimentos com o arrendamento de 11 instalações portuárias em 20 áreas previstas.

De fato, não há mais o que esperar, pois o Porto cresce em movimentação a cada ano: foram 105 milhões de toneladas em 2012 e, provavelmente, serão 114 milhões em 2013. Segundo cálculos oficiais, o investimento esperado de R$ 1,39 bilhão – a ser feito pela iniciativa privada, ou seja, pelos arrendatários – servirá para aumentar em 27 milhões de toneladas a capacidade de movimentação. Ou seja: levando-se em conta o crescimento atual, a meta de 132 milhões de toneladas será alcançada antes do final de 2015. Não parece muito.

É de observar que o Porto hoje já opera com 100% de sua capacidade, o que se reflete nas intermináveis filas de caminhões na Via Anchieta e vias de acesso ao cais e em demorados procedimentos burocráticos. Segundo o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), o padrão norte-americano – de que o Porto de Houston é o melhor exemplo – prevê que um porto deve operar com 65% de sua capacidade máxima para não gerar transtornos.

Como se vê, o Porto de Santos está longe desse padrão, pois, segundo dados da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), responde por 95% da movimentação da produção de suco de laranja, 84% de carne bovina, 70% de café em grão, 69% de álcool etílico, 64% de café em grão, 63% de açúcar de cana e 47% de milho.

Em outras palavras: não dá para crescer muito mais, ainda que haja maiores investimentos. Portanto, é preciso pensar urgentemente na especialização de cargas e na distribuição de cargas para outros portos do País, dando prioridade a produtos de maior valor agregado. Obviamente, para que isso ocorra, o governo federal tem de tornar atraentes outros portos, especialmente das regiões Norte e Nordeste, que, por uma questão geográfica, estão mais próximos do Hemisfério Norte e poderão usufruir das transformações que deverão ocorrer nas rotas dos grandes navios a partir da entrada em funcionamento do novo Canal do Panamá em 2014.

Para tanto, é imprescindível não só melhorar a malha viária nacional como pensar em plataformas multimodais, sem considerar a segregação de ferrovias e rodovias, além de estimular o estabelecimento de uma rede de silos no interior do País para armazenar a produção agrícola, de modo que só possa ser encaminhada aos portos depois do devido agendamento da carga com o terminal portuário. O País e o seu comércio exterior não podem continuar a crescer aos solavancos. Planejar é fundamental. Mauro Dias - Brasil

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Mauro Lourenço Dias, engenheiro eletrônico, é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Gás natural em Cabo Delgado

Uma centena de empresas moçambicanas já prestam serviços à ANADARKO

Cerca de 100 empresas moçambicanas já estão a prestar serviços à multinacional petrolífera norte-americana Anadarko, que projecta investir cerca de 15 mil milhões de dólares na exploração do gás natural, na província de Cabo Delgado, segundo foi dado a conhecer, esta quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013, em Maputo, no decurso do Business Breakfast sobre Conteúdo Local.

Imagem: Geo ExPro


O encontro, promovido pela CTA-Confederação das Associações Económicas de Moçambique, em parceria com a Anadarko, insere-se no âmbito de uma série de seminários, que visam a promoção de oportunidades de investimentos em Moçambique e desenvolvimento de fornecedores no sector do Petróleo, Gás e Minas.

Eduardo Macuácua, director adjunto da CTA explicou a propósito que "as grandes empresas que estão envolvidas na exploração de minerais e hidrocarbonetos contêm políticas internas de envolvimento de empresas moçambicanas e comunidades locais, no entanto, o que nós estamos a fazer, como CTA, é promover uma série de encontros para a transmissão de informações concisas sobre os requisitos necessários para participar na cadeia de fornecimento de bens e serviços das multinacionais".

Acrescentou que, "a CTA, por iniciativa própria, levou a cabo um projecto de legislação sobre Conteúdo Local, que vai permitir que se defina claramente a participação das empresas e comunidades locais nos grandes projectos, porque acreditamos que não há desenvolvimento que exclua as comunidades locais".

O director adjunto da CTA avançou ainda que cerca de 98 por cento das empresas moçambicanas são de pequeno e médio porte e precisam de se capacitar, para além de conhecer melhor este ramo industrial que é novo, daí que a CTA tem vindo a encorajar os parceiros e o Governo para investir na sua capacitação.

Por sua vez, Alcido Mausse, director de Assuntos Sociais e Governamentais da Anadarko Moçambique, referiu que "os requisitos exigidos pelas multinacionais podem parecer pesados, mas, no nosso caso vertente, ainda não estão claramente todos definidos".

"Apenas definimos o básico e indispensável, como por exemplo ser uma empresa moçambicana, registada e que tenha conhecimento do sector", indicou, realçando que "as três companhias que vão construir os complexos de liquefacção de gás na costa moçambicana é que vão determinar os requisitos pormenorizados das empresas por subcontratar".

Refira-se que a Anadarko prevê iniciar, em 2014, a primeira fase do projecto, que compreende a construção de infra-estruturas básicas, acomodação, abertura de acessos, dragagem, provisão de serviços essenciais, como água, saneamento, melhoria de estradas, entre outros, de modo a que em 2018 possa arrancar com a exploração do Gás Natural Liquefeito. Olá Moçambique - Moçambique

A hora da estrela

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula
disse sim a outra molécula e nasceu a vida.

A hora da estrela, Clarice Lispector (1977)

Quando em 1925 Cecília Payne demonstrou que as estrelas eram compostas principalmente de hidrogénio e que podiam ser classificadas segundo a sua temperatura absoluta, o coletivo de astrónomos deixou de pensar que a composição do Sol era semelhante à da Terra. Os cientistas aceitaram a proposta de Cecília, que mudou o sistema de classificação de estrelas, o único utilizado na atualidade.

A ciência caracteriza-se pela capacidade de assumir novos conceitos. O bom cientista procura não ser escravo dos seus hábitos de pensamento, prefere manter-se aberto às observações e abordar os problemas de diferentes perspetivas. Estas capacidades costumam dar bons resultados, assim que se de quando em vez introduzíssemos um pouco dessa coerência no nosso mundo particular algumas cousas poderiam ir melhor.

O coletivo nada homogéneo de pessoas que apoiam e cultivam diariamente na Galiza o português galego está formado por associações e grupos de língua, ecologismo, informática, artes e artesanias, boletins, jornais e revistas em papel e internet, blogues e páginas web pessoais. Centros sociais. Clubes de leitura. Coletivos feministas. Editoras literárias. Grupos musicais. Uma crescente prática individual, de professorado universitário e não universitário, de alunado. Uma academia de língua. Partidos políticos. Concelhos como o de Corcubiom oferecem a sua página também em português.

Quer dizer, na Galiza diariamente algumas pessoas mantemos nas nossas relações sociais, laborais e tecidos associativos uma prática linguística que, segundo outras pessoas, não é possível manter. Para estas últimas é impossível a aplicação da norma internacional do galego nas aulas. Não pode aplicar-se no emprego, nem serve para a política, nem para reivindicação eficaz de direitos civis. Quem assim opina parece querer dizer-nos que isso do português galego é pura teoria, apesar de que os textos que escrevemos, as reuniões que fazemos, as aulas que damos, os eventos que organizamos, os livros que publicamos, os discos que gravamos e as palavras que dizemos demonstram que a prática está aí, presente e repetindo-se a cada dia.

Esta prática não tem nada de extraordinário nem de revolucionário. As que assim nos conduzimos não violamos nenhuma lei do estado. Sabemos que o modelo de língua promovido pelo regime espanhol para o galego não é, nem foi nunca, oficial. Ninguém nunca teve obrigação de obedecê-lo. Nem sequer na função pública. E por isso somos livres para exercer o nosso direito a escolher e usar o modelo de língua que preferimos. Para explicar-nos o fenómeno da prática real do português galego na Galiza só temos duas opções: Ou começamos a acreditar como bons cristãos em milagres do nosso senhor, dado que algumas conseguimos fazer cousas que não é possível fazer, ou abrimos os olhos e assumimos que na Galiza pode haver e há um certo uso normal do português galego, tal como faria um honrado cientista.

O hidrogénio já ardia nas estrelas quando a astronomia ainda não sabia que tal pudesse acontecer. Mas uma vez descoberto e explicado o processo, e vendo que a novidade desborda o conceito anterior, devemos ultrapassar os limites auto-impostos e admitir como possível o que antes achávamos impossível. E, acreditem, abrir os olhos à evidência é tão beneficioso quanto necessário. Pode que a formação do professorado galego reintegracionista ainda não seja suficiente e, por isso, a confiança nas nossas possibilidades seja ainda melhorável. Pode que o número de pessoas que aplicam o português galego nas aulas também seja insuficiente e o processo de formação da estrela  mais lento do esperado. Mas a resposta a isso não pode ser o abandono ou o medo. Temos de achar os meios e os argumentos para avançar com o que achamos correto.

Escrever diferente é pensar diferente. A prática diária doutro modelo de língua abre a mente para novas ideias, novos contatos, serve para perder o medo a nos comunicar com pessoas de outros países. Ajuda a alargar as nossas aspirações, a querermos mais e melhor, a saber oferecer o melhor de nós mesmas. Aprender português galego vale para melhorar a nossa compreensão leitora, a capacidade de análise, a mudança de perspetiva, acabamos lendo textos de todo tipo de procedências, de pessoas que podem comunicar-se connosco porque usam a nossa língua. Escrever assim alarga os temas de conversa, serve para reconhecer as armadilhas dos administradores, estes sim, oficiais. Como lhes foi doado confundir-nos com as sucessivas mudanças de leis da educação e de “normativas” gráficas. Como os livros de texto reproduzem os mesmos erros, os mesmos silêncios e os mesmos preconceitos ano após ano, e como ano após ano se degrada a qualidade da língua que transmitimos aos filhos e ao alunado. No mundo lusófono está, ademais, toda essa literatura absolutamente maravilhosa que sempre nos diz mais do que pensamos, cheia de surpresas fascinantes que despertam a imaginação e satisfazem as ânsias leitoras mais exigentes.

Certo que utilizar o português na Galiza é algo mais do que trocar umas letras por outras. Há que aprender a falar a língua, isso que sabiam bastante bem as nossas avós e que hoje perdemos em cada enterro. Ademais há que aprender a escrevê-la, um outro abecedário, um outro sistema de acentuação e saber aplicá-lo. Há que usar muito o dicionário e a gramática para recuperar o tempo perdido. Há que mergulhar no mundo de fala portuguesa até sentir-nos tão cómodas nele quanto ao escutar um forte sotaque andaluz. Esta certeza depende diretamente do conhecimento que temos do mundo lusófono, do número de amigos brasileiros, angolanas, timorenses, da frequência de comunicação com elas e o tipo de eventos em que coincidimos. E ainda não chega, porque a relação deve fazer-se com vontade de identificação, dentro do respeito à diferença, procurando a cumplicidade através da língua, porque a conhecemos e a reconhecemos, porque ademais de ser nossa, a fazemos nossa.

Nesse processo que tod@s deveríamos começar quanto antes, algumas levamos já muitos anos, somos conhecidas nos nossos empregos e entornos precisamente por esta prática civil, pelo discurso aberto e a atitude rebelde face aos ditados administrativos quase sempre abusivos e até ilegais. Aqui estamos, exercendo a escolha soberana deste soberano modelo de língua, trabalhando assim desde há anos e com as famílias opinando e falando sobre o assunto. Sem complexos nem limitações. Preocupando-nos por que a gente saiba. Procurando precisamente que saibam.

Um exemplo desta atividade é a Equipa de Normalização da Língua Galega do compostelano Conservatório Profissional de Música, que durante o passado ano desenvolveu a sua atividade em português galego e este ano vai pelo mesmo caminho. O próximo evento programado terá lugar a quinta-feira 19 de dezembro, às 21h na catedral da cidade, lugar onde se celebrará o Concerto de Natal com motivo do 10.º aniversário do centro, em que o alunado interpretará várias obras para coro e orquestra. A EDLG colabora na elaboração de cartazes e programas de mão, difundindo o português galego entre estudantes, pais, mães e professorado, ademais dos visitantes da catedral e a cidadania compostelana. Mas este é somente um exemplo, há mais professorado galego a levar para a frente a tarefa de divulgação do modelo internacional da língua. Este artigo quer ser uma homenagem a essas pessoas e também uma lente telescópica para as que permanecem ignorantes desta realidade.

O hidrogénio, primeiro elemento da tabela periódica, é o componente mais abundante das estrelas. Ali desencadeia as maiores explosões às mais altas temperaturas do universo. A muita distância, graças à observação e ao uso da razão, a professora Payne desenvolveu um método de classificação estelar tão útil e fiável que não foi superado até agora. A ciência sabe reconhecer quando uma teoria responde à prática observada. Não viria mal aprendermos disso. Vivemos a hora da estrela. A estrela está aí fora. Os olhos para vê-la, no nosso interior. Isabel Rei – Galiza in “Sermos Galiza”

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Cozinha portuguesa

De olho na estrela Michelin

O chef Martinho Moniz quer fazer história e conseguir que o restaurante Guincho a Galera seja o primeiro de cozinha portuguesa em Macau a ser distinguido com uma estrela Michelin. Para lá chegar o chef promete trabalhar “mais e melhor”, obtendo o reconhecimento de críticos e do público.

Conseguir uma estrela no Guia Michelin é o maior desejo do chef português Martinho Moniz, que em Setembro deste ano completou dois anos como responsável máximo pela elaboração de pratos e gestão da cozinha e serviço do restaurante de gastronomia portuguesa Guincho a Galera, em Macau.

O espaço, que fica localizado no terceiro andar do Hotel Lisboa, voltou este ano a surgir na lista dos 20 melhores restaurantes das duas regiões administrativas especiais da China para 2014, na edição de Hong Kong da revista Tatler. Esta é originalmente uma publicação de origem britânica que indica anualmente as tendências sociais para a aristocracia e a alta sociedade de todo o mundo. Apesar de ter caído da 14a posição em 2013 para a 20a posição em 2014, o Guincho a Galera continua a ser o único restaurante de cozinha portuguesa neste guia, que inclui uma selecção variada de restaurantes de nível mundial, em Hong Kong e Macau.

A competição para conseguir a distinção é feroz e este ano há cinco novas entradas na lista da Tatler. “Entraram novos restaurantes, com novos investimentos e novas ambições”, diz o chef Martinho Moniz. A própria revista refere que a escolha das 20 melhores mesas de Hong Kong e Macau “não foi tarefa fácil”, tendo em consideração a variedade de restaurantes de classe mundial disponíveis nos dois territórios.

Fazer mais e melhor

Para conseguir a ambicionada estrela Michelin o principal chef do Guincho a Galera tenciona trabalhar em duas frentes. Por um lado, vai continuar a investir “em novos pratos, melhor serviço, na carta de vinhos”. Por outro, diz, é necessário um trabalho persistente de divulgação da “filosofia do restaurante” para obter o reconhecimento de críticos e do público. “Tenho consciência de que estamos a fazer um bom trabalho, mas que temos de fazer ainda mais e melhor. É necessário agradar a mais clientes, obter mais comentários nas revistas, nos [trip] ‘advisors’, nos blogues, nas publicações profissionais”, diz Martinho Moniz.

Obter reconhecimento e alcançar notoriedade é, todavia, um processo que leva tempo, “é um trabalho que vai sendo conquistado aos poucos”, explica.

Martinho Moniz, 33 anos, é originário de uma aldeia chamada Barreira de Leiria, em Portugal. Conta que a sua cozinha resulta da influência, sobretudo, da mãe, “a Dona Maria Alice, especialista em cozinha tradicional portuguesa”, e de “chefs internacionais”. Entre estes, contam-se o francês Aimé Barroyer, com quem Martinho Moniz trabalhou em Portugal, e o chef Paul Bocuse, que dá nome a um dos prémios mais prestigiados da hotelaria.

No Guincho a Galera, que deriva do restaurante português Fortaleza do Guincho, em Cascais, com uma estrela Michelin, o chef Martinho Moniz apresenta uma cozinha portuguesa “actual, contemporânea e, ao mesmo tempo, tradicional”. “Preservamos a autenticidade do produto, mas ao mesmo tempo com alguma irreverência do chef”, diz. Essa irreverência, adita Martinho Moniz, pode ser encontrada na combinação de sabores, de produtos, do tradicional com o internacional.

Na opinião do chef, a cozinha portuguesa, que costumava ser vista como uma opção de comida barata, está a ganhar espaço em Macau enquanto opção gastronómica de qualidade. “As pessoas têm necessidade da variedade e da diferença e, por estranho que pareça, há poucos restaurantes de autêntica comida portuguesa em Macau.” Martinho Moniz está agora a apostar no fabrico caseiro de enchidos. O objectivo é conseguir produtos mais autênticos, um dos distintivos dos restaurantes de alta qualidade. É, também, uma estratégia para marcar a diferença e, se tudo correr bem, ganhar uma estrela. Cláudia Aranda – Macau in “Ponto Final”

A lição de Mandela

A lição de Mandela mais inovadora e mais difícil de apreender

Parece estar a correr um abaixo-assinado, contra a presença do Professor Cavaco Silva, Presidente actual de Portugal, nas cerimónias fúnebres de Mandela, por, alegadamente tratar-se de um acto de hipocrisia de alguém que, há cerca de trinta anos (sublinho, trinta anos), teria votado alguma coisa contra esta figura, que se viria a impor como um ser de uma outra galáxia, na sua Humanidade.

Ora, esta é justamente uma forma de contrariar a maior lição de Mandela: saber perdoar o passado, assentar no presente e construir o futuro.

Lição difícil, na realidade, porque o que aprendemos todos dias, nós seres humanos normais, é enterrar os nossos pés no lodaçal do passado, para reclamar a nossa “caça às bruxas”. Por essa atitude inovadora, Mandela que sabia muito bem o que se passara, já abraçou o Professor Cavaco, pelo menos uma vez que vimos na TV. Mandela, defendeu portugueses, alguns dos quais apoiaram, por equívocos humanos, o apartheid, e deixou que continuassem a contribuir para o desenvolvimento da nova África do Sul e, sobretudo, para salvaguardar as suas vidas e sua dignidade humana, na medida do possível.

Por ser difícil de apreender, esta lição, é que quase se generalizava em alguns círculos africanos, com o princípio da vingança cega incorporado, a ideia de que Mandela seria “traidor” da causa dos “negros” contra os “brancos”, quando o que o Homem sempre defendeu era a igualdade justa entre os homens de todas as cores, latitudes e longitudes. Mas como esta lição tem efectivamente conteúdo, alguns dos autores do “baixo assinado”, esquecem-se de um presente em que – pasme-se – todos os partidos políticos parlamentares do “irmão” Portugal (com a excepção do Bloco de Esquerda), se recusaram a aprovar uma simples moção de censura, contra um regime africano (Angola) que mata um jovem desarmado a colocar um panfleto que reclama por outros dois jovens torturados, cujos corpos foram atirados a um rio, para gáudio de uns quantos jacarés.

Hoje, numa conferência na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa sobre “Economia Social de Mercado da União Europeia”, quase perguntei (só não o fiz tal e qual por certa delicadeza com alguns ouvidos mais sensíveis) se a União Europeia não tinha fundos para evitar que Portugal supere a sua crise, entre outras medidas, deixando-se colonizar por um regime africano que, no século XXI, gasta mais dinheiro com o aparelho repressivo contra o seu povo e sua juventude do que com a salvaguarda das suas vidas e sua educação. Mas, é esta a grande lição de Mandela, difícil de apreender: fixar-se essencialmente nos aspectos positivos do passado, estabelecer-se no presente e ter disponibilidade para repensar o futuro! Marcolino Moco - Angola

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Baía de Cabo Delgado

Plano de 18 mil hectares de terra no âmbito do projecto de Gás de Palma

A Empresa Nacional de Hidrocarbonetos apresentou, em Maputo, a proposta preliminar do Plano Geral de Urbanização (PGU) de uma área de 18.000Ha (dezoito mil hectares de terra) sita no Distrito de Palma, Província de Cabo Delgado. Pretende-se que este seja um instrumento facilitador, orientador e regulador da acção dos órgãos decisores do Estado e do Governo na implantação e desenvolvimento de infraestruturas diversas no local, no âmbito do projecto de instalação de uma zona industrial conexa à produção de Gás Natural Liquefeito (LNG).

A elaboração do Plano Geral de Urbanização dos 18 mil hectares surge na sequência da previsão de um enorme fluxo de população e um grande aumento de investimentos na região, e a necessidade de estabelecer condições legais e administrativas favoráveis ao desenvolvimento social e económico, à protecção do ambiente e das normas de gestão do solo.

A proposta foi apresentada num encontro de discussão técnica, realizado no dia 13 de Dezembro de 2013, que contou com a presença de representantes de diversas instituições públicas, empresários e organizações da sociedade civil. O evento serviu para colher contribuições das instituições acima mencionadas sobre as propostas de organização e destino dos espaços, com vista a harmonizá-las com as políticas e planos sectoriais incidentes sobre o mesmo espaço territorial, bem como a sua sensibilidade sobre os conteúdos, visando melhorar a abordagem.

Praia de Palma ao entardecer
O processo de elaboração do plano iniciou em Agosto do presente ano, e compreende cinco fases tendo a primeira abrangido os processos de caracterização e diagnóstico da situação actual da área, que terminou em Outubro passado; a segunda consistiu no Desenvolvimento da Proposta de Estratégia do Plano Geral de Urbanização e terminou em Novembro último. A terceira fase, ora em curso, consiste na elaboração da proposta do Plano, em consulta.

Segundo o PCA da ENH, Nelson Ocuane, pretende-se com o Plano Geral de Urbanização promover o desenvolvimento industrial associado à fábrica de liquefação de gás e também o desenvolvimento dos restantes sectores de serviços, comércios, e infraestruturas sociais que o presente plano deverá abranger, de uma forma harmoniosa. “O nosso desejo é que este seja um plano participativo, que as comunidades sejam integradas neste processo pois temos como fim salvaguardar as áreas das aldeias locais para que não seja necessário proceder ao reassentamento da população para a implementação das áreas industriais.”

No âmbito da elaboração do Plano estão a ser feitas consultas a diversas entidades, a todos os níveis (central, provincial, distrital e local), com sucessivas reuniões de trabalho institucional e com a população local, incluindo o Conselho Consultivo do Governo Distrital. O processo de elaboração privilegia o contacto directo com todos os intervenientes nos vários processos em curso na região de Palma, incluindo o projecto da Fábrica de Gás nos 7.000Ha (sete mil hectares de terra) no sentido de promover a interligação dos vários planos em elaboração.


Desde o início da elaboração do Plano têm sido assegurados todos os métodos de divulgação e publicitação do processo nos termos previstos na Lei Moçambicana. Após a recolha das contribuições resultantes de diversos encontros, seguir-se-á a sua harmonização e numa quarta fase, será apresentada a proposta final do Plano Geral de Urbanização que se prevê para princípios de Fevereiro de 2014. Olá Moçambique - Moçambique

2030: o desafio logístico

Apesar do empenho do governo federal em mudar a infraestrutura rodoviária, ferroviária, hidroviária e portuária, não se pode deixar de reconhecer que a situação por enquanto é sofrível. No passo em que se vai, dificilmente, antes de 2030, a participação do transporte rodoviário, que hoje representa 52% da movimentação total de cargas, cairá para 30%, meta que, se tivesse sido alcançada hoje, colocaria o Brasil ao lado das nações mais desenvolvidas.

Como criar essa infraestrutura? Parece claro que vai depender muito da habilidade do governo federal em aplicar recursos públicos nas obras certas e estimular a participação da iniciativa privada tanto de dentro como de fora do País em empreendimentos vitais.

A princípio, 17 anos constituem um período curto de tempo para uma tarefa de proporções ciclópicas, que exigiria o esforço de gerações, mas é de lembrar que a China em uma década conseguiu levantar uma infraestrutura capaz de atender à demanda dos seus setores produtivos. Basta ver que, entre os 16 maiores portos do planeta, seis estão em território chinês. E nenhum deles constava da lista há dez anos.

Quando se diz os maiores portos, obviamente, não se está aqui a se referir a sua extensão, mas a sua capacidade de operação, ou seja, sua capacidade de movimentar mais carga em menos tempo por custos menores que não onerem o preço final dos produtos. Como exemplo pode-se citar que hoje, enquanto no Porto de Santos o custo para movimentar um contêiner está ao redor de US$ 2.215, em Shangai, na China, o mesmo serviço sai por US$ 580.

Diante disso, está claro que os gargalos que atravancam o processo logístico brasileiro não estão apenas nas rodovias e ferrovias ou mesmo em estradas de terra batida, como a BR-163, que liga Tenente Portela, no Rio Grande do Sul, a Santarém, no Pará, mas que está asfaltada apenas até Guarantã do Norte, no Mato Grosso, caminho que seria fundamental para evitar que a supersafra agrícola congestionasse os portos de Santos e Paranaguá.

É óbvio que os gargalos também estão nos portos, que se mostram incapazes de atender às exigências de um comércio exterior que não para de crescer. No Porto de Santos, responsável por 26% desse intercâmbio no País, por exemplo, a situação dos ramais ferroviários está à beira do colapso, pois já não há espaço para manobras por excesso de demanda.

E se o modal ferroviário não tem como crescer, como diminuir os congestionamentos nas rodovias e nas vias de acesso aos portos? Resposta difícil porque a tendência é que os navios aumentem de tamanho e exijam calado cada vez maior, o que significa que maior quantidade de produtos será enviada aos portos brasileiros. Sem contar que cresce o número de produtos que passam a ser acondicionados em contêineres.

Como enfrentar esse crescimento com uma infraestrutura que já foi qualificada como a pior entre os membros do Bric (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul)? Eis o desafio que espera o Brasil até 2030. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.