Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Portugal - Avanço tecnológico cria condições inéditas para a deteção de eventos ultra-raros

Uma equipa de cientistas do Laboratório de Instrumentação, Engenharia Biomédica e Física da Radiação (LIBPhys) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) conseguiu a melhor purificação do isótopo radioativo 222 de Radão (222Rn) da história, reduzindo a sua concentração a 430 átomos por tonelada de alvo de xénon líquido, um valor 5 vezes inferior ao obtido por outras experiências que usam a mesma tecnologia.


Este resultado histórico, obtido no âmbito da experiência internacional XENONnT, um sistema com um nível de sensibilidade sem precedentes na deteção de matéria escura, está publicado na prestigiada revista Physical Review X.

O XENONnT foi construído para a deteção direta de matéria escura. Está instalado no laboratório subterrâneo de Gran Sasso, em Itália, debaixo de 1300 metros de rocha, para reduzir os níveis de radiação cósmica drasticamente em relação aos que existem à superfície do nosso planeta. Este sistema usa como alvo seis toneladas de xénon ultra-purificado.

Como explica José Matias-Lopes, coordenador da equipa portuguesa, «uma radiação ao passar pelo alvo pode produzir, em geral, sinais ínfimos de luz e carga. A esmagadora maioria destes sinais (mais de 99,99%) devem-se a radiações de origem conhecida, o que permite aos cientistas calcular com grande precisão o número de eventos esperados».

O requisito mais importante para medir eventos tão raros como os dos neutrinos e da matéria escura é que o alvo tenha o nível mais baixo possível de radiação (radiação de fundo), para que possa distinguir o que se pretende medir. Para conseguir alcançar tal meta, tecnicamente tão exigente, todos os tipos de fontes de radiação contam, incluindo até a presente no próprio alvo de xénon e a que provém dos materiais de que é construído o sistema de deteção (XENONnT).

De acordo com o investigador do Departamento de Física da FCTUC, para lidar com a mais limitativa de todas, a colaboração XENONnT conseguiu reduzir o nível de contaminação do isótopo 222Rn para níveis sem precedentes graças a uma coluna de destilação com um sistema inovador de bomba de calor criogénica, especialmente desenvolvida para o efeito pelos especialistas envolvidos. «Todos os materiais usados no XENONnT foram cuidadosamente selecionados (até o mais pequeno dos parafusos) para terem o mais baixo nível possível de radiação», revela o cientista.

O XENONnT tem como alvo o local do planeta Terra com a menor radiação de fundo de toda a história da Humanidade, dando, assim, início a uma nova era na direção da matéria escura, por iniciar a deteção do nevoeiro de neutrinos, onde coexistem com a matéria escura, que, por serem quase indistinguíveis, dificulta a sua deteção.

Por outro lado, o nível extraordinariamente baixo de radiação alcançado neste sistema também permite estudar um grande número de fenómenos particularmente raros, tais como a interação de matéria escura na forma de axiões solares, de partículas análogas aos axiões, neutrinos com momento magnético anómalo e a deteção por dispersão elástica coerente neutrino-núcleo (CEvNS, sigla em inglês).

«Através destas condições, o XENONnT reafirma o seu lugar como o melhor observatório de partículas espaciais de baixa energia, uma vez que poderá realizar medições de neutrinos com alta precisão e pesquisas de eventos extremamente raros, como o duplo decaimento beta dos isótopos 124 e 126 de Xénon. Para além disso, poderá continuar a testar a existência de um número alargado de candidatos de matéria escura, incluindo as partículas massivas de interação muito fraca (WIMPs, sigla em inglês), até ao limite do nevoeiro de neutrinos», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal


Brasil - Literatura e memória marcam arranque do Fliaraxá 2025

O Festival Literário Internacional de Araxá (Fliaraxá) começou esta quarta-feira, 1 de outubro, em Minas Gerais, Brasil, e prolonga-se até ao dia 5, no Teatro CBMM do Centro Cultural Uniaraxá. Na sua 13.ª edição, o evento gratuito e transmitido online reúne mais de uma centena de escritores nacionais e internacionais em torno do tema “Literatura, Encruzilhada e Memória”.


Entre os homenageados estão o escritor baiano Itamar Vieira Junior e a ruandesa Scholastique Mukasonga, que marca presença como figura central da programação. A autora, radicada em França, traz para o encontro a reflexão sobre o “dever da memória”, elemento que atravessa a sua obra marcada pelo genocídio em Ruanda.

Em entrevista à nossa reportagem, Mukasonga sublinhou o calor “humano e sincero” do público brasileiro.

“Fliaraxá é uma nova descoberta, e não termina aqui, o Brasil é um continente. Vou ao encontro de um novo público e reencontrar Afonso Borges, o meu anjo da guarda. Tive o prazer de o conhecer em Petrópolis, no festival do livro. Fui recebida de forma muito calorosa. Essa primeira experiência sob a égide de Afonso e da sua equipa foi um sucesso. Ele cumpriu a promessa de nos rever. É a mesma equipa que me espera para o Fliaraxá. Conheço o calor, tão humano e sincero, dos brasileiros. Vou, portanto, confiante, ao encontro de novas leitoras e novos leitores que, estou certa, serão muitos”, disse esta autora.

Portugueses marcarão presença em palco

Além de Mukasonga, a nova edição do Fliaraxá contará com a participação da portuguesa Rute Simões Ribeiro, cujo percurso literário tem explorado dilemas existenciais e éticos.

“Participo no Fliaraxá com a grande alegria de encontrar os meus pares na expressão literária livre, na insistência pelo encantamento que a literatura permite. Fico imensamente feliz por poder estar, durante estes dias, imersa na atmosfera particular destes festivais do incrível Afonso Borges, abundantes na esperança, na permanência, na comunhão. E por, de algum modo, fazer parte da grande construção, e que são as pequenas revoluções que vamos fazer nas crianças que, durante o festival, terão contacto com livros, escritores e pensadores”, reforçou a escritora, que revelou os avanços esperados que festivais como o Fliaraxá podem promover no universo da literatura lusófona.

“A literatura é sempre uma forma de pensar um país”

“Festivais como o Fliaraxá sedimentam o curso da arte, cavam possibilidades de resistência. A língua portuguesa, partilhada por tantos, é potenciada no convívio das suas imensas possibilidades. As trocas entre quem se pensa e pensa o outro são galvanizadas num ambiente fraterno e livre, e isso só beneficia a criação literária. A literatura contemporânea mantém-se lúcida, afiada, humanizada”, afirmou.

A escritora portuguesa nascida em Coimbra e doutorada em Saúde Pública, se afirmou no panorama literário com títulos como Ensaio sobre o Dever, A Alegria de Ser Miserável e Do Corpo o Homem, obra distinguida em 2023 com o Prémio Literário Hugo Santos. A sua escrita, marcada por reflexões existenciais e éticas, dialoga diretamente com o tema do Fliaraxá ao propor uma literatura comprometida com a responsabilidade da palavra e com os dilemas humanos.

Na opinião da escritora luso-brasileira Tatiana Salem Levy, que se destaca pela narrativa construída a partir da memória familiar e da experiência do exílio, integrar a programação do festival é uma forma de estar em contacto direto com os leitores.

“Como eu não moro no Brasil, festivais como o Fliaraxá são, para mim, uma grande oportunidade de entrar em contacto direto com os leitores. Além disso, é a ocasião de estar com grandes amigos escritores, a quem admiro muito. Então tem um aspeto de trabalho, de falar daquilo que faço, dialogar com o público e com outros escritores, mas também um grande componente festivo. Eu adoro ambiente de festival literário”, comentou Tatiana Levy, que valoriza a defesa do universo lusófono.

“Afonso Borges fez há muito tempo essa sábia opção pela lusofonia, em colocar autores dos diferentes países lusófonos dialogando. Isso nos leva não só a quebrar preconceitos, mas também a pensar o presente e o futuro dessas nações. A literatura é sempre uma forma de pensar um país, e, no Fliaraxá, podemos pensar uma comunidade”, confirmou.

Tatiana Salem Levy, nascida em Lisboa em 1979 durante o exílio da sua família e regressada ao Brasil ainda criança, é autora de obras como A Chave de Casa, livro premiado em 2008 com o Prémio São Paulo de Literatura, constrói uma narrativa profundamente marcada pela memória familiar, pelo exílio e pelo trânsito entre culturas. A sua participação reforça o carácter plural do festival, entrelaçando raízes portuguesas, brasileiras e judaico-turcas.

“Ao reunir autores como Scholastique Mukasonga, Rute Simões Ribeiro e Tatiana Salem Levy, o evento sublinha também a sua vertente internacional e o compromisso em refletir sobre a memória e os caminhos éticos que a humanidade deve trilhar”, finalizou Afonso Borges, idealizador do festival.

O evento, viabilizado pela Lei Rouanet e patrocinado por instituições como Itaú e CBMM, consolida-se como um dos maiores encontros literários do Brasil. Ígor Lopes – Brasil in “Mundo Lusíada”


França - A força dos jornalistas de Mediapart

É normal a imprensa ser detestada pelos corruptos e golpistas. Sempre existe um repórter, atacado pelos extremistas, descobrindo e tornando públicos um negócio escuso, uma trama, um desvio de dinheiro, uma conta secreta, um documento escondido.

É o caso do processo e condenação a cinco anos de prisão do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, sob a acusação de organizador de uma associação de malfeitores financiada pelo líbio Muamar Khadafi, por coincidência alguns dias depois da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No caso de Sarkozy, existe uma organização francesa de jornalistas investigativos especializada em localizar e seguir, sempre denunciando e publicando, etapa por etapa, os resultados de suas buscas. Ao mesmo tempo a condenação de Sarkozy assinala mais uma vitória do chamado jornalismo de investigação, corporificado e liderado na França pelo temido grupo de jornalistas do Mediapart, definido como uma espécie de fósforo cuja chama clareia e revela o lugar onde ocorre o escândalo ou crime, ao mesmo tempo que provoca o incêndio.

Mediapart não quer a exclusividade na investigação do escândalo revelado, contenta-se em mostrar e abrir o caminho para toda imprensa, seja o Le Monde, Libération, rádios e canais de televisão.

O caso Sarkozy começou há 14 anos com uma reportagem do jornalista Fabrice Arfi até terminar com uma severa sentença de cinco anos contra o ex-presidente. Mediapart foi também quem alertou a imprensa e a Justiça no recente caso de corrupção, desvio de fundos públicos, envolvendo os assistentes parlamentares do partido Reunião Nacional da líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen. Condenada a quatro anos de prisão, Marine se tornará inelegível à presidência da França, se seus recursos contra a sentença não forem aceites.

Foi também Mediapart quem denunciou o ator Gérard Depardieu por agressão sexual, também condenado. Por isso, o dirigente da ONG francesa anticorrupção Sherpa, declarou ser hoje reconhecido pelos juízes franceses o fundamento das acusações quando originárias de Mediapart.

Além disso, ajuntou, Mediapart não deixa as acusações serem esquecidas, fazendo com que avancem durante o passar dos anos com novas investigações e revelações, como foi no caso de Sarkozy com o financiamento de parte de sua campanha eleitoral pelo ditador líbio Muamar Kadhafi.

Embora alguns possam julgar serem os políticos de direita ou extrema-direita os alvos de Mediapart, uma rápida pesquisa afasta essa hipótese, pois a extrema-esquerda, França Insubmissa e seu líder Jean-Luc Mélenchon já foram também alvo de denúncias quanto às contas relacionadas com o  financiamento da campanha eleitoral de Mélenchon. Denúncias também contra a deputada da França Insubmissa Sophia Chikirou por abuso de bens sociais na última campanha eleitoral.

Apesar de sua importância e força, Mediapart tem a estrutura de um jornal de investigação numérico apenas online com 245 mil assinantes, menor portanto que muitos canais brasileiros nas redes sociais. Foi criado em 2008 por um grupo de jornalistas liderado por Edwy Plenel e é presidido pela jornalista Carine Fouteau. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Moçambique - Ozias Cambanje lança seu livro de estreia “A Paz no Pombo Preto” em Tete

No próximo dia 3 de Outubro, às 16h30, o Hotel Kassuende, na cidade de Tete, será palco do lançamento do livro “A Paz no Pombo Preto”, obra de estreia do escritor Ozias Cambanje. A cerimónia contará com a apresentação do também escritor e político Virgílio Ferrão


O livro apresenta o “pombo negro” como um símbolo de resistência e afirmação, que, apesar das correntes da rejeição, voa orgulhoso da sua cor. A obra convida a refletir sobre justiça histórica, representatividade e pertença, utilizando a poesia como ferramenta para despertar consciências e inspirar esperança.

No prefácio, o académico Sóstenes Rego destaca que se trata de “uma leitura aprazível, especialmente para amantes da poesia e do prazer de ler. O autor finca os pés na terra que o viu nascer e, a partir dela, voa, rasante e em grandes alturas, embalado pelos espíritos dos seus antepassados. […] A poesia deste autor brota-lhe do íntimo, sem ser intimista por concreto.”

Ozias Cambanje é o pseudónimo de Hosiasse Miguel Cambanje, nascido em 1990, em Cahora Bassa, província de Tete. Licenciado em Gestão e Estudos Culturais pelo ISArC, é técnico da Direcção Provincial da Cultura e Turismo e membro da Assembleia Provincial de Tete, tendo já participado em várias antologias literárias.

O apresentador do livro, Virgílio Ferrão, natural de Angónia, província de Tete, é mestre em Ciências Aplicadas pela Universidade de Glasgow e autor das obras Norte (1975) e Compreender Moçambique (2002), além de ter exercido diversos cargos de chefia na Função Pública. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


China – Português Rui Martins recebe em Pequim a Medalha da Amizade

O vice-reitor da Universidade de Macau, Rui Martins, recebeu em Pequim a Medalha da Amizade do Governo chinês, naquele que é considerado o maior prémio concedido pela República Popular da China a especialistas estrangeiros que tenham feito contribuições notáveis para o progresso económico e social do país”. A cerimónia, integrada nas celebrações do Dia Nacional da China, decorreu no Grande Palácio do Povo e contou com outas personalidades igualmente distinguidas


A Medalha da Amizade, que é a mais alta condecoração da China atribuída a personalidades estrangeiras que se tenham destacado por “contribuições notáveis” em diversas áreas, foi entregue a Rui Martins. A cerimónia foi agendada para o Grande Palácio do Povo, em Pequim.

Outras figuras de relevo que contribuíram para a “modernização socialista da China, a promoção do intercâmbio e da cooperação entre a China e países estrangeiros e a protecção da paz mundial”, foram igualmente distinguidas com medalhas e certificados. Todos os agraciados “cooperaram e participaram activamente no apoio ao desenvolvimento social, cultural, económico e internacional da China em vários graus”, pode ler-se na justificação para a entrega deste galardão.

O “Friendship Award”, que em 2024 distinguiu, entre outros, Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil e presidente, desde 2023, do Novo Banco de Desenvolvimento, sediado em Xangai (Banco do BRICS), foi criado inicialmente como Medalha da Amizade Sino-Soviética em 1951. Nessa altura, foi concedido a especialistas da antiga União Soviética e de países da Europa Oriental pelo então Primeiro-Ministro Zhou Enlai e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros Chen Yi.

Em 1955, o governo chinês decretou que cada especialista soviético que partisse receberia uma medalha, a qual apresentava as bandeiras da China e da União Soviética, juntamente com a inscrição “Viva a Amizade Sino-Soviética”.

O prémio da amizade foi abolido com a ruptura sino-soviética no início da década de 1960. Durante o período que se seguiu, em particular a Revolução Cultural, os estrangeiros na China eram frequentemente considerados “espiões” e muito poucos permaneceram no país.

Após a reabertura da China, um novo Prémio da Amizade foi reintroduzido em 1991. Desde então, os vencedores têm sido seleccionados pela Administração Estatal de Assuntos de Especialistas Estrangeiros sob o Conselho de Estado.

O prémio, concedido como parte das comemorações do Dia Nacional da República Popular da China consiste numa medalha e num certificado. A medalha é decorada com uma imagem da Grande Muralha e adoptou vários elementos, como uma pomba, seguida por um sinal de aperto de mão que simboliza a atitude amigável da China para com outros países. A placa da medalha é rodeada por pétalas de lótus, uma flor que representa pureza, paz e harmonia na cultura tradicional chinesa.

Além desta condecoração nacional, vários prémios locais para especialistas estrangeiros também são concedidos nos níveis provincial, regional e municipal.

A primeira Medalha da Amizade, no novo formato, foi concedida pelo Presidente Xi Jinping ao homólogo russo, Vladimir Putin, em 8 de Junho de 2018.

Esta é a primeira condecoração da República Popular da China a Rui Martins, tendo o académico português sido já agraciado em Macau, nomeadamente com a Medalha de Mérito Profissional atribuída em 1999, o “Título Honorífico de Valor (2001) e Medalha de Mérito na Educação (2021). Obteve também o Prémio Nacional de Engenharia Eléctrica (Portugal, 2024).

Com 68 anos de idade, nasceu em São Jorge de Arraiolos, em Lisboa, mas cresceu em Moçambique, onde se formou. É conhecido pelas suas contribuições para a investigação em microelectrónica e ensino superior, exercendo funções de vice-reitor da Universidade de Macau (UM) para os Assuntos Globais, desde 1997. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

São Tomé e Príncipe - UNESCO classifica todo o território como Reserva Mundial da Biosfera

São Tomé e Príncipe passa a ter todo o seu território classificado como Reserva Mundial da Biosfera, segundo decisão anunciada pela UNESCO, que incluiu ainda Angola, Guiné Equatorial e Portugal na lista de novos locais. A decisão, anunciada após o Congresso Mundial de Reservas da Biosfera, que decorreu em Hangzhou, acrescentou 26 locais em 21 países à rede mundial da biosfera da instituição, nomeadamente em quatro países lusófonos.


A UNESCO, com sede em Paris, revela que São Tomé e Príncipe se tornou o primeiro país totalmente coberto por uma Reserva da Biosfera – ao reconhecer a ilha de São Tomé depois de, em 2012, ter sido inscrita a ilha do Príncipe e as ilhotas circundantes – e destaca que Angola e Guiné Equatorial têm pela primeira vez áreas reconhecidas pelos seus ecossistemas e abordagens inovadoras para a vida sustentável.

A Reserva da Biosfera da Ilha de São Tomé cobre quase 1130 quilómetros quadrados de picos vulcânicos, florestas tropicais e paisagens agrícolas férteis. Segundo a UNESCO, as zonas de protecção marinha incluem ilhéus como o das Cabras, o de Santana e o das Rolas, “que abrigam recifes de coral, colónias de aves marinhas e praias de nidificação de tartarugas”.

Além disso, “cerca de 130.000 habitantes estão envolvidos em actividades profundamente ligadas à terra e ao mar”, lê-se no comunicado, que apresenta o ecoturismo como uma actividade que oferece oportunidades de crescimento e destaca o “cacau orgânico de renome mundial de São Tomé”, que está enraizado na comunidade local e “é um símbolo do legado agrícola e do conhecimento transmitido através das gerações”.

Por último, conclui a UNESCO, a Reserva da Biosfera da Ilha de São Tomé “protege um património natural e cultural insubstituível através da participação da comunidade, uso sustentável da terra e conservação”.

Angola viu reconhecida, pela primeira vez, uma reserva da biosfera, a Quiçama, ao longo de 206 quilómetros da selvagem costa atlântica, ao sul de Luanda. Com 33.160 quilómetros quadrados, a reserva da Quiçama “não só conserva a biodiversidade costeira e marinha única, mas também fortalece a resiliência climática e a identidade cultural unindo pessoas e natureza numa visão partilhada de paz e sustentabilidade”, lê-se no comunicado.

Já a Guiné Equatorial, país que integra a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), viu reconhecida a Reserva da Biosfera da Ilha de Bioko, “uma joia vulcânica e exuberante”, sendo a quarta maior ilha de África, com uma área superior a 2000 quilómetros quadrados, que alberga a capital do país, Malabo, e abriga uma das mais notáveis biodiversidades da África Central, realça.

A Reserva da Biosfera da Ilha de Bioko protege, segundo a UNESCO, a riqueza natural que inclui o Parque Nacional do Pico Basilé, a Reserva Científica da Caldeira de Luba e áreas marinhas, “protegendo tanto a terra como o mar” e combinando a vida urbana em Malabo com comunidades rurais. Segundo a UNESCO, esta primeira classificação na Guiné Equatorial “promoverá a conservação, o desenvolvimento sustentável e a pesquisa científica, garantindo que os primatas, florestas e legado cultural de Bioko perdurem por gerações futuras”.

Portugal também está na lista com a incorporação da Reserva da Biosfera da Arrábida, localizada a sul de Lisboa, com aproximadamente 200 quilómetros quadrados.

Na lista deste ano, além das reservas nos quatro países lusófonos, a UNESCO destaca a classificação do arquipélago Raja Ampat, na Indonésia, como o ecossistema marinho com maior biodiversidade da Terra.

O programa O Homem e a Biosfera da UNESCO está a passar por uma expansão sem precedentes desde 2018, com 142 novas reservas da biosfera representando mais de um milhão de quilómetros quadrados (Km2) adicionais de áreas naturais protegidas. Hoje, as 785 reservas em 142 países cobrem 8 milhões de km2 – a área da Austrália – e beneficiam directamente cerca de 300 milhões de pessoas que nelas vivem, segundo a organização.

Na abertura do congresso, Audrey Azoulay, directora-geral da UNESCO, disse esperar que, até 2030, cada Estado-membro tenha pelo menos uma reserva, como prevê o plano de acção para a próxima década que apresentou no encontro.

O plano inclui ainda duas medidas “para ir mais longe na protecção”, nomeadamente, a conservação e restauro de pelo menos 30% dos ecossistemas degradados até 2035 e a redução da pressão humana sobre a biodiversidade. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


Sahara Ocidental - Apelo para acabar com a exploração dos recursos naturais

A Federação Internacional para a Proteção de Minorias Étnicas, Religiosas e Linguísticas e o Movimento Internacional de Jovens e Estudantes das Nações Unidas pediram o fim da exploração ilegal dos recursos naturais do Sahara Ocidental, instando os estados e as empresas a " não lucrarem com a ocupação ".


"Não pode haver justiça climática sem descolonização, nem futuro sustentável enquanto os saharauís forem privados da soberania sobre as suas terras e recursos", enfatizaram as duas organizações numa declaração conjunta numa sessão do Conselho de Direitos Humanos em Genebra. Na declaração proferida pela ativista Najla Mohamed Lamine Selma, estas organizações lamentam que o Sahara Ocidental continue sendo uma das últimas colónias em África onde o povo saharauí é privado do seu direito inalienável à autodeterminação.

Neste contexto, eles afirmam que o povo saharauí continua a enfrentar "repressão contínua sob ocupação marroquina", enquanto os seus recursos naturais são "explorados ilegalmente" e "sem o seu consentimento", em flagrante violação do direito internacional e do princípio da soberania permanente sobre os recursos naturais.

"A transição global para as energias renováveis ​​não deve ocorrer à custa dos direitos fundamentais", argumentam também as duas organizações, lembrando que "grandes projetos solares e eólicos nos territórios ocupados estão a ser usados ​​para consolidar a ocupação e intensificar a exploração dos recursos naturais".

Defendendo a justiça climática, a Federação Internacional para a Proteção das Minorias Étnicas, Religiosas e Linguísticas, bem como o Movimento Internacional da Juventude e dos Estudantes das Nações Unidas, argumentam que o povo saharauí está entre os mais vulneráveis ​​às alterações climáticas, especialmente os saharauís que vivem em campos de refugiados, onde "enfrentam desafios crescentes, como escassez de água, desertificação e temperaturas extremas". Saliou Cissé – Casamansa in “Journal du Pays”