Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

França - A força dos jornalistas de Mediapart

É normal a imprensa ser detestada pelos corruptos e golpistas. Sempre existe um repórter, atacado pelos extremistas, descobrindo e tornando públicos um negócio escuso, uma trama, um desvio de dinheiro, uma conta secreta, um documento escondido.

É o caso do processo e condenação a cinco anos de prisão do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, sob a acusação de organizador de uma associação de malfeitores financiada pelo líbio Muamar Khadafi, por coincidência alguns dias depois da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No caso de Sarkozy, existe uma organização francesa de jornalistas investigativos especializada em localizar e seguir, sempre denunciando e publicando, etapa por etapa, os resultados de suas buscas. Ao mesmo tempo a condenação de Sarkozy assinala mais uma vitória do chamado jornalismo de investigação, corporificado e liderado na França pelo temido grupo de jornalistas do Mediapart, definido como uma espécie de fósforo cuja chama clareia e revela o lugar onde ocorre o escândalo ou crime, ao mesmo tempo que provoca o incêndio.

Mediapart não quer a exclusividade na investigação do escândalo revelado, contenta-se em mostrar e abrir o caminho para toda imprensa, seja o Le Monde, Libération, rádios e canais de televisão.

O caso Sarkozy começou há 14 anos com uma reportagem do jornalista Fabrice Arfi até terminar com uma severa sentença de cinco anos contra o ex-presidente. Mediapart foi também quem alertou a imprensa e a Justiça no recente caso de corrupção, desvio de fundos públicos, envolvendo os assistentes parlamentares do partido Reunião Nacional da líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen. Condenada a quatro anos de prisão, Marine se tornará inelegível à presidência da França, se seus recursos contra a sentença não forem aceites.

Foi também Mediapart quem denunciou o ator Gérard Depardieu por agressão sexual, também condenado. Por isso, o dirigente da ONG francesa anticorrupção Sherpa, declarou ser hoje reconhecido pelos juízes franceses o fundamento das acusações quando originárias de Mediapart.

Além disso, ajuntou, Mediapart não deixa as acusações serem esquecidas, fazendo com que avancem durante o passar dos anos com novas investigações e revelações, como foi no caso de Sarkozy com o financiamento de parte de sua campanha eleitoral pelo ditador líbio Muamar Kadhafi.

Embora alguns possam julgar serem os políticos de direita ou extrema-direita os alvos de Mediapart, uma rápida pesquisa afasta essa hipótese, pois a extrema-esquerda, França Insubmissa e seu líder Jean-Luc Mélenchon já foram também alvo de denúncias quanto às contas relacionadas com o  financiamento da campanha eleitoral de Mélenchon. Denúncias também contra a deputada da França Insubmissa Sophia Chikirou por abuso de bens sociais na última campanha eleitoral.

Apesar de sua importância e força, Mediapart tem a estrutura de um jornal de investigação numérico apenas online com 245 mil assinantes, menor portanto que muitos canais brasileiros nas redes sociais. Foi criado em 2008 por um grupo de jornalistas liderado por Edwy Plenel e é presidido pela jornalista Carine Fouteau. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Jornal suíço deixa papel para ser só digital

Não é novidade, é uma tendência englobando toda imprensa escrita, mas a notícia tem espaço garantido nos jornais suíços, porque se trata de uma primeira transição importante do papel ao online no mundo do jornalismo suíço.

Assim, o jornal Le Temps, editado em Genebra, dá grande destaque na página de Economia e Finanças à decisão da empresa proprietária do jornal "20 Minutes" de renunciar à sua edição diária em papel, mantendo a partir de setembro só a edição online.

Embora se trate de um jornal de grandes tiragens e trilíngues, tem a particularidade de ser gratuito e ter o formato de um tabloide, colocado à disposição do público nas galerias, supermercados e nos pontos centrais de transporte coletivo. Pode também ser lido gratuitamente no celular ou no computador.

A quase totalidade dos jornais já podem ser lidos também online, com a vantagem de alguns permitirem aos seus assinantes o acesso à atualização dos textos já publicados e o acesso aos noticiários preparados para a próxima publicação em papel, porém já se constatou por pesquisas juntos aos leitores haver um grande número de analfabetos numéricos.

Cerca de 25% das pessoas confessam ter dificuldade para acessar no celular ou no computador os noticiários do dia. Esse percentual é bem maior, por volta de 45% ou quase o dobro, entre as pessoas com mais de 75 anos, acostumadas ao contato do papel e incapazes ou simplesmente desinteressadas em procurar numa tela online as informações diárias. Nisso a Suíça está em atraso com relação aos países nórdicos.



O jornal "20 minutes", cujo título sintetiza o tempo necessário para ser lido, mostrava a vontade dos editores, o grupo TX, de propor, em 1999, um jornal de leitura rápida e acessível, para ser lido no trajeto de casa ao trabalho ou numa pausa. Editado nos três idiomas suíços, alemão, francês e italiano, tem até setembro, quando deixará de ser impresso, uma tiragem total de 500 mil exemplares. Paralelamente, o número de seus leitores online é calculado em 3 milhões.

A queda das rendas proporcionadas pelos anúncios publicitários vinha se acentuando nos últimos três anos, comprometendo o custo do papel, impressão e pessoal gráfico. Com a supressão dessas despesas haverá também a centralização de três redações com uma centena de demissões, incluindo-se jornalistas a tempo integral e colaboradores. 

Num futuro próximo, essa opção pela versão online para esse tabloide suíço acabará sendo adotada por muitos jornais, com o envelhecimento de seus leitores tradicionais, mesmo porque a tendência dos jovens leitores será a de utilizar a versão digital, além de ser a mais ecológica, respeitadora do meio ambiente: sem o uso do papel muitas árvores deixarão de ser sacrificadas.

O pesquisador Linards Udris, da Universidade de Zurique, afirma não ser grave o fim do 20 Minutes em papel. "Depois de uma pesquisa na Suíça alemã entre leitores do jornal, apenas 11% declararam ler 20 Minutes em papel. Os demais já se habituaram a ler online".

De acordo com o pesquisador, 20 Minutes é um jornal popular sobre as atualidades, lido por um público apressado e não exigente, numa média diária de 3 milhões de leitores, na sua versão digital. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Suíça - O choque da transição da imprensa para o digital

Os tempos mudam. Houve uma época em que um ciclista passava diante das casas e jogava o jornal do dia para os assinantes, enrolado com um elástico. Me lembro de meu pai saindo para buscar o leite e o pão e voltando com o jornal do dia, enquanto minha mãe preparava o café.

Isso acabou. A quase totalidade dos que lêem jornal utilizam o celular ou o computador. Uma enorme economia de papel com a desativação das enormes impressoras, seguida de demissões no setor gráfico. Uma realidade mundial, cuja consequência é o fechamento de jornais ou, numa fase inicial, a diminuição de suas tiragens.

Essa transição acaba de ocorrer aqui na Suíça com o grande grupo de imprensa Tamedia. Iniciado em 1893, o grupo cresceu e se estendeu pelos cantões suíços, criando e editando os jornais mais lidos do país. Para se entender sua importância cultural e mesmo política, deve-se lembrar de ter a população suíça uma excelente formação escolar e colegial proporcionada pelo país. O hábito da leitura não só de jornais como de livros faz parte do cotidiano da população.

Dentro desse quadro favorável à expansão, o grupo criou três grandes centros gráficos abastecendo a Suíça em jornais, livros e impressos. Até chegar a transição digital, implicando na redução para um só centro gráfico e diminuição de tiragens dos jornais, mesmo porque muitos assinantes preferem ter acesso à edição online. Para se ter uma ideia, estão ligados direta ou indiretamente aos produtores impressos do grupo Tamedia cerca de 5.5 milhões de pessoas, num total de cerca de quase 9 milhões de habitantes.

As economias com essa transformação devem ser direcionadas para o futuro digital, mas fazem vítimas entre os gráficos e entre os jornalistas e pessoal ligado à imprensa tradicional. O primeiro corte é da ordem de 20% no pessoal. Os mais jovens saberão encontrar se adaptar e encontrar variantes no mundo digital, os outros sofrerão o choque. Esse choque será mais doloroso para os profissionais da Suíça francesa, onde a transição do papel para o digital é mais lenta que na Suíça alemã.

É difícil de se imaginar, mas dois importantes centros de impressão serão desativados e terão suas rotativas imobilizadas, enquanto cerca de 150 gráficos perderão seu emprego, seguidos por mais 50 trabalhando nas redações dos jornais com páginas e tiragens diminuídas. Felizmente essa transição não será imediata e está prevista para ser concluída durante 2026.

Com a existência de um único centro de impressão em Berna, os jornais da região de Zurique e Genebra terão de editar suas edições diárias, fechar mais cedo, no jargão jornalístico, para assegurar o transporte e distribuição dos jornais para os assinantes e centros de venda de jornais, revistas e impressos em geral. Como já ocorre, os assinantes dos jornais online já têm acesso à edição atualizada depois do fechamento da edição destinada à impressão.

A direção de Tamedia, junto com seu plano de transição, assegurou seu objetivo de seguir as inovações da mídia no mundo digital sem perder em termos de jornalismo de qualidade. Depois de vinte anos de adaptações aos modelos de informação, a direção de Tamedia considera ter chegado o momento de mudanças radicais.

Em todo mundo, os grandes grupos de mídia vão se adaptando à transformação digital de seus veículos de informação. Isso também inclui a edição de livros em versões digitais. As salas de cinema sofrem igualmente o impacto da individualização da visão dos filmes por streaming, com consequências num redimensionamento e na importância dos festivais. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.