Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Brasil - Consulado Geral de Portugal em São Paulo convida para a peça teatral “Heróis do Impossível”

O Consulado Geral de Portugal em São Paulo convida para a peça teatral “Heróis do Impossível”, uma realização da Companhia João Garcia Miguel, que terá lugar nos dias 6 e 7 de novembro no Centro Cultural e Biblioteca Serraria, sito à Rua Guarani, 790, em Diadema.

“Heróis do Impossível” é uma peça de teatro que acompanha a vida de um casal nos pós-revolução e que revela a força dos opostos na sua máxima tensão. O texto baseia-se nas histórias do diário que Natália Correia começou a escrever no dia 25 de Abril de 1974 e no testemunho de um dos capitães de Abril, pai do autor, João Garcia Miguel, em comemoração dos 50 anos do 25 de abril, que propõe uma viagem ao lado mais íntimo da Revolução dos Cravos: a transformação ocorrida no seio das relações familiares.

A entrada é gratuita. In “Mundo Lusíada” - Brasil




terça-feira, 25 de junho de 2024

Portugal – Concerto “Natália é quando uma mulher quiser” no Casino do Estoril

No encerramento da homenagem a Natália Correia pelo centenário do seu nascimento, através do espectáculo Natália é Quando uma Mulher Quiser, idealizado e produzido pelo músico Renato Júnior, criador musical dos poemas da escritora, vamos poder ouvir doze grandes vozes femininas da atualidade. Aurea, Ana Bacalhau, Amélia Muge, Elisa Rodrigues, Katia Guerreiro, Mafalda Veiga, Maria João, Patricia Antunes, Patricia Silveira, Rita Redshoes, Sofia Escobar e Viviane, acompanhadas de uma grandiosa orquestra, espetáculo único no dia 15 de Setembro no Casino do Estoril.


Na concepção visual deste concerto Natália é Quando uma Mulher Quiser, foi recriado o famoso “Botequim”, bar em Lisboa, propriedade de Natália Correia onde decorreram nos 70 e 80 verdadeiras tertúlias que juntaram algumas das personalidades mais relevantes da política, das artes e letras nos convívios literários e café-concerto. Um local que acabou por ser igualmente uma   extensão da atividade política desta mulher defensora dos direitos humanos e das mulheres.

Natália é Quando uma Mulher Quiser é um concerto que dá assim corpo e alma a alguns dos poemas mais emblemáticos da obra literária riquíssima da escritora, que se destacou na luta contra o fascismo.

Uma viagem no tempo e espaço de um dos nomes mais marcantes na cultura nacional, porque … Natália é Quando uma Mulher Quiser. P&C Assessoria de Imprensa - Portugal




domingo, 8 de outubro de 2023

Natália, entre dois extremos

A criação literária de Natália Correia possui duas componentes fundamentais: o pendor lírico, ao aprofundar os sentimentos mais íntimos, e a sátira escaldante e corrosiva para ajuste de contas com poetas, escritores, artistas, políticos e outras pessoas que detestava. (Texto publicado originalmente na revista Tempo Livre edição de 4 de Outubro, 2023, Lisboa.)


Natália Correia pertenceu ao reduzido número de mulheres que basta só dizer um nome para as identificar na amplitude da sua criação literária e artística e na singularidade da sua dimensão humana – Natália, Sophia, Vieira (da Silva), Agustina, Amália. Nasceu nos Açores na ilha de São Miguel, na Fajã de Baixo, uma freguesia do interior, próximo de Ponta Delgada. Pai e mãe entraram em rutura quando Natália tinha alguns meses. O pai emigrou para o Brasil.

A mãe de Natália, a professora primária Maria José Oliveira formara-se no ideário cívico e cultural da I República, adotando princípios laicos e tendências libertárias, o que era raro na época e, ainda, muito mais raro nos Açores. Além do exercício do magistério, colaborou em jornais e revistas. Mas, desde sempre, preocupou-se com a educação das filhas, incutindo-lhes os valores da democracia e a aproximação com a modernidade. Radicou-se, em 1934, definitivamente, em Lisboa. Quis dar às filhas – para triunfarem na vida – as oportunidades que não existiam nos Açores.

Natália ganhou notoriedade nos anos 40. Conciliou o jornalismo, a literatura e a política. Aderiu à oposição democrática; teve programas no Rádio Clube Português, escreveu em jornais e revistas. Assinou, em 1945, as listas do MUD. Todavia, ao contrário da maioria dos jovens intelectuais e políticos da sua geração – caso Mário Soares, Salgado Zenha – não ingressou no MUD Juvenil, dominado pelo Partido Comunista.

Os primórdios literários de Natália Correia refletem aspetos genéricos do neorrealismo. O romance Anoiteceu no Bairro e o livro de versos Rio de Nuvens são dois exemplos. Demarcou-se, todavia, deste movimento literário e político, nos anos 50. Seguiu outro caminho que prosseguiu, com variantes óbvias. Passou a ficar próxima do surrealismo.

Manteve relações pessoais e literárias com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Alexandre O’Neill, Manuel de Lima e Mário Henrique Leiria. Acrescente-se Luís Pacheco, editor dos surrealistas e de livros de poesia de Natália, desta segunda fase: Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958) e Comunicação (1959). É um documento humano repleto de inquietações e de perplexidades. Já o Canto do País Emerso (1961) constitui a transição para o combate político.

Publicou, com êxito, muitos outros livros de poesia, de ficção, de teatro, de ensaio e de crónicas ocasionais. Se a identificação de Natália Correia com Lisboa foi muito intensa, o vínculo com os Açores foi igualmente profundo. Não Percas a Rosa, um dos seus livros mais famosos, regista as reminiscências visuais, auditivas e gustativas que remontavam à infância e ao começo da adolescência, na ilha de São Miguel.

Na linhagem das Cantigas de Escárnio e Maldizer, concebeu as Cantigas de Risadilha. Para enfrentar todos os poderes e todos os convencionalismos. Ficaram célebres os versos para arrasar o deputado do CDS, João Morgado quando se pronunciou, na Assembleia da República, acerca da legislação sobre o aborto. Morgado disse categoricamente: «o ato sexual é para fazer filhos». Natália, deputada do PSD, não se conteve e fez, de um jato, um poema que saiu na íntegra no dia seguinte, no Diário de Lisboa.

Natália declamou com a maior ênfase: «Já que o coito – diz Morgado –/ tem como fim cristalino,/ preciso e imaculado/ fazer menina ou menino;/ e cada vez que o varão/ sexual petisco manduca,/ temos na procriação/ prova de que houve truca-truca./ Sendo pai só de um rebento, / lógica é a conclusão/ de que o viril instrumento/só usou–parca ração!–/uma vez. E se a função/ faz o órgão – diz o ditado –/ consumada essa exceção,/ ficou capado o Morgado!»

Lisboa era a sua cidade adotiva. Juntamente com o marido Alfredo Machado e com a escultora Isabel Meyrelles criou, em 1971, uma sociedade para instalar um bar, restaurante/café-concerto, no largo da Graça, no rés-do-chão da Vila Souza, um edifício histórico do bairro. Ficou a chamar-se o Botequim. Evocava a tradição literária, política e boémia, que remontava aos primeiros cafés de Lisboa, do século XVIII, ao tempo de Bocage e aos antecedentes da revolução liberal e da independência do Brasil.

Encontrava-se Natália envolvida, em 1971, em controvérsias políticas e literárias que deram brado em todo o País. Desencadeara no consulado de Salazar e na «primavera marcelista» duas ruidosas polémicas que a levaram à barra do Tribunal Plenário de Lisboa. O primeiro processo motivado pela introdução e coordenação da Antologia da Poesia Erótica e Satírica (1965). O segundo processo devido à responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas (1972) da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Ambos os livros foram objeto do alarme da Censura e da imediata apreensão da PIDE. Foi julgada e condenada, ao cabo de nove anos de guerrilhas judiciais. O 25 de Abril determinou o ponto final.

Em torno de Natália, o Botequim concentrou todas as noites, poetas, escritores e artistas das mais variadas tendências. Políticos de todos os quadrantes. Deputados, ministros (alguns futuros presidentes da República). Diplomatas portugueses e estrangeiros. Espiões nacionais e internacionais para se inteirarem dos bastidores do processo revolucionário e contrarrevolucionário. Representantes da FLAD, o movimento da independência dos Açores.

Durante mais de 20 anos a irradiação magnética de Natália proporcionou essa atmosfera irrepetível que Fernando Dacosta recriou no seu livro O Botequim da Liberdade (2013). Outra obra de referência obrigatória é a Fotobiografia de Natália (2006) da autoria de Ana Paula Costa. Recentemente, surgiu a biografia romanceada por Filipa Martins e com o título expressivo O Dever de Deslumbrar.

Trinta anos depois da morte e ao comemorar-se a 13 de setembro o centenário do nascimento, o legado cultural de Natália Correia perdura. Celebrou a vida como expressão de euforia, de afirmação de coragem pessoal e cívica, de rebeldia aparatosa, de inconformismo colérico. A sua poesia é sempre dominada por dois extremos: a confidência lírica e o sarcasmo feroz: a riqueza metafórica, o jogo dos paradoxos, o luxo ornamental, a exuberância do barroco e a interpelação simbólica. Uma Natália ávida de todas as experiências visíveis e invisíveis, em partilha contínua do profano com o sagrado. António Valdemar – Portugal in “Blog de São João del-Rei”

António Valdemar – Jornalista, carteira profissional número UM e investigador, sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3.

Do mesmo autor:

Cem anos de Natália Correia: a criação literária e a intervenção política de uma mulher única


domingo, 10 de setembro de 2023

Cem anos de Natália Correia: a criação literária e a intervenção política de uma mulher única

A expressão de Natália Correia (1923-1993) constituiu sempre um espetáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo. Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria. No centenário de seu nascimento, que se assinala na próxima quarta-feira, recordamo-la. (Texto publicado originalmente na revista do Expresso nº 2654, vol. 2, Lisboa, edição de 9 de Setembro, 2023)


Era uma força da natureza que desejava manter-se na íntegra. Mas só o pôde enquanto a saúde lhe permitiu. Natália Correia queria o impossível: continuar com o porte altivo, imponente, olímpico e a elegância física que faziam parar o Chiado, ou onde quer que passasse. Contudo, os últimos anos foram penosos. Fumar cigarros uns a seguir aos outros e ter apetite devorador para jantares opíparos e ceias pantagruélicas tem o seu preço. As caricaturas do Vasco não foram impiedosas. Um cartunista com força de Vasco podia ter sido muito mais cruel.

Nasceu a 13 de setembro de 1923, na ilha de São Miguel dos Açores, na freguesia da Fajã de Baixo, próximo da cidade de Ponta Delgada. O país mergulhara na turbulência social, na agitação política e na indisciplina militar. A crise financeira acentuava-se. As sucessivas alterações governamentais, na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler começavam a alastrar na primeira metade do século XX, um dos séculos mais trágicos e mais contraditórios da História. Foi neste quadro que se consolidou e expandiu o fascismo, o nazismo, o salazarismo e o franquismo.

Desenvolveu-se, partir de então, a indomável personalidade de Natália. Pai e mãe entraram em rutura quando tinha alguns meses. O pai emigrou para o Brasil. A mãe, Maria José Oliveira, professora primária que assimilou os valores cívicos e culturais da República, adquiriu formação laica e tendências libertárias. Colaborou em jornais e revistas. Frequentou tertúlias literárias e políticas, mas, desde sempre, preocupou-se com a educação das filhas: Carmen e Natália. Incutiu-lhes os princípios da liberdade, da independência, da solidariedade humana, os valores universais que fundamentam uma sociedade democrática.

O salazarismo arrancara com o patrocínio de um sector decisivo das Forças Armadas, da Igreja Católica — ferida pelas leis da República — e o contributo do poder financeiro e económico. A instauração da Censura, a vigilância sistemática da polícia política e o apoio incondicional de tribunais especiais reprimiram a opinião pública e silenciaram os vários sectores da oposição. Foi em 1934 que a mãe de Natália e de Carmen se instalou, definitivamente, em Lisboa.

Procurou dar às filhas outros horizontes. “Sendo uma intelectual que não se pôde realizar inteiramente devido ao meio e às circunstâncias — recordou Natália — quis preparar-nos.” Entendia que “o desenvolvimento intelectual da mulher corresponde a uma atitude social”. “A permanência em São Miguel, mesmo na cidade de Ponta Delgada, não reunia condições para nos desenvolver.” (...) era “um meio muito exíguo.” Natália Correia ainda passou pelo Liceu de Ponta Delgada; frequentou em Lisboa o Liceu Filipa de Lencastre, mas sem qualquer aproveitamento. Ficou, apenas, com o primeiro ciclo dos liceus.

Mostrou-se refratária aos métodos de ensino. Ela própria o declarou que “não podia aceitar regras impostas de fora: eu é que as tinha de criar”. A passagem pelos liceus foi, segundo as suas palavras, de “ave migratória”. O problema não se colocava, apenas, em São Miguel. Em Lisboa repetiu-se a mesma situação: os métodos eram semelhantes. A escola não constituía um espaço de formação. O ensino tinha de ser um ato de participação e cidadania, para habilitar os alunos a pensar e a interrogar o mundo.

Primeiras asas

Natália tornou-se, aos 22 anos — no esplendor da juventude —, uma figura de Lisboa ligada aos acontecimentos literários e políticos que permaneciam na ordem do dia. Nesta primeira fase — dos anos 40 aos anos 50 — conciliou o jornalismo, a literatura e a política. Ainda colaborou no Rádio Clube Português. Integrou-se nos círculos da oposição democrática.

Três jornalistas micaelenses, amigos da mãe, que trabalhavam em Lisboa, estimularam as aspirações de Natália. Trata-se de Rebelo de Bettencourt (1894-1969) amigo de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros, antigo chefe de redação do “Portugal Futurista” e que se acomodou, depois, a chefiar a redação da “Gazeta dos Caminhos de Ferro” e da revista “Viagem”; e o padre Diniz da Luz (1915-1988), antifascista e exaltado e antigermanófilo tempestuoso, embora redator do jornal “A Voz”, um dos diários monárquicos, católicos, ultraconservadores, onde se preparou a conspiração para implantar a ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, e introduzir , depois, o salazarismo.

Em 1946, Natália, principiou no quinzenário “Portugal Madeira e Açores”, empenhado na defesa dos interesses das então chamadas “ilhas adjacentes”. Chefiava a redação outro amigo da mãe: Breno de Vasconcelos (1909-1993), oriundo do “Correio dos Açores”, o memorialista do livro “A Paz Cinzenta” (1979).

Colaborou, depois, no semanário “O Sol”, fundado e dirigido por Alberto Lello Portela, (1893-1949), antigo político e parlamentar republicano e um dos militares que ingressaram nos primórdios da aviação.

Destacou-se com seu irmão, o advogado Raul Lello Portela, nos combates da oposição ao salazarismo. A chefia da redação de “O Sol” era assegurada por Alves Morgado (1901-1980), um outro profissional, conhecedor das regras do ofício. A distribuição de trabalho à redação (inclusive o desporto), nas relações com os colaboradores, nos contactos com a tipografia e na revisão escrupulosa de textos.

Tinha a colaboração de grandes nomes, como António Sérgio e Maria Archer, que deram visibilidade mediática a “O Sol”. Acrescente-se: Sérgio vacinou Natália contra o PCP e os outros núcleos marxistas e comunistas.

Natália falava e escrevia com desembaraço inglês e francês. Escreveu sobre política nacional e internacional: analisou as consequências da guerra de 1939 a 1945; as diretrizes de Mussolini e de Hitler, os efeitos do nazismo, os fundamentos do Reich, as extensões do fascismo na Europa (e a sua) disseminação em Portugal, na classe política e militar. Também escreveu sobre literatura e arte. Publicou um romance, um livro de poemas e um livro de reportagem e de crónicas de viagens.


O veneno da política

Herdou também da mãe — opositora declarada do salazarismo — o interesse pela política. Até à morte, a política constituiu uma solicitação irresistível: a ânsia incontrolável de possuir informação, em cima da hora, o desejo de partilhar nos debates e a disponibilidade para se embrenhar nas possíveis conspirações, num país repleto dos condicionalismos que se prolongaram até ao 25 de Abril.

Subscreveu as listas do MUD que reclamavam a reposição das liberdades e garantias fundamentais. Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos, deslocou-se, expressamente, a Ponte de Lima, para entrevistar o general, na sua casa de férias.

Participou, em 1958, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, concedendo uma entrevista explosiva ao “Diário Ilustrado”. Apoiou outros movimentos, entre os quais a ocupação do navio “Santa Maria”, comandado por Henrique Galvão, para acelerar a queda de Salazar e para pôr termo à política colonial. Nas primeiras eleições do consulado de Marcello Caetano, em 1969, colaborou com Mário Soares e Salgado Zenha na formação da CEUD, em luta com o MDP/ CDE, que incorporava comunistas e outros radicais de esquerda. Incluindo os chamados “católicos progressistas”.

Apesar de toda esta intervenção, ao surgir o 25 de Abril, os dirigentes partidários recearam convidá-la. Era imprevisível e um perigo iminente, em momentos delicados e complexos. Na linhagem das “Cantigas de Escárnio e Maldizer”, Natália Correia criou as “Cantigas de Risadilha”, para escarnecer a classe política. Não poupou amigos como Mário Soares e o Partido Socialista: “Já não sei se é país se é orfanato/ pois nem vela, nem reza, nem sabá/impede que em berreiro ou desacato/ ande tudo à procura do Papá”. (...) “Tinha o PS pai. Mas o Marocas/ mandou alguns filhotes para o galheiro/ e do partido por trocas e baldrocas,/ já não consegue ser o pai inteiro”. (...) “nesta lusa farronca sem vintém,/ neste muda que muda sem mudança,/ venha o que venha, há de lixar-se quem/ do salsifré tiver a governança”.

Em termo desdenhoso alvejou Freitas do Amaral: “muito a preceito dos cristãos fervores/ do CDS, o Lucas é o retrato/ De um menino Jesus entre os doutores/ A meter mestre Freitas num sapato”. Devido ao insólito mergulho no Tejo e outras peripécias não escapou Marcelo Rebelo de Sousa, o “picareta falante”: “o Marcelo neste mapa/ a brincar aos cowboys não há nenhum./ passa rasteira: o mais subtil derrapa;/ dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.” Sempre que podia dissecava o poder político e a rotina social. Zurziu as prosápias de fidalguia; os vícios e as vilezas dos novos e novíssimos ricos, os intelectuais e artistas enfatuados, os políticos arrivistas e corruptos. Execrava, ruidosamente, a ignorância e o fanatismo.

Estreitou amizade com Francisco Sá Carneiro, ao apadrinhar a aproximação íntima com Snu Abecasis. Assim, só em 1979, por insistência de Francisco Sá Carneiro, ingressou na Aliança Democrática. Finalmente, passou a ser deputada pelo PSD. Assumiu, como era de presumir, posições em divergência frontal com a linha de orientação política e religiosa da quase totalidade do PSD e do CDS.

A defesa do aborto deu lugar a uma intervenção de Natália que agitou a Assembleia da Republica. Ficaram célebres os seus versos, ao arrasar o deputado do CDS João Morgado, por ter proferido, no auge do debate parlamentar sobre a legislação sobre o aborto, a afirmação perentória que “o ato sexual é para fazer filhos”. Natália não se conteve e escreveu, de jato, um poema que circulou, em todo o país, até porque sairia, no dia seguinte, no “Diário de Lisboa”: “Já que o coito — diz Morgado — /tem como fim cristalino, /preciso e imaculado/ fazer menina ou menino;/ e cada vez que o varão/ sexual petisco manduca,/ temos na procriação/ prova de que houve truca-truca./ Sendo pai só de um rebento, /lógica é a conclusão/ de que o viril instrumento/ só usou — parca ração! — / uma vez. E se a função/ faz o órgão — diz o ditado —/ consumada essa exceção,/ ficou capado o Morgado!”

Confirmaram-se todas as apreensões. Nem o PSD lhe renovou o mandato, nem o PS — à frente do qual estava Jorge Sampaio — aceitou a proposta de entrar nas listas. Natália aderiu, então, ao Partido Renovador Democrático (PRD), que se constituiu sob a égide de Ramalho Eanes. Porque nada mais lhe restava, em 1992, cerca de um ano antes de falecer, juntamente com José Saramago e Luís Francisco Rebelo, entre outros, integrou a Frente Nacional Para a Defesa da Cultura (FNDC). Foi no segundo mandato presidencial de Mário Soares. Tinha por objetivo denunciar violações à liberdade de expressão, à ausência de pluralidade e diversidade na cultura e exigir uma estratégica para a real democratização do país. Os mal-entendidos e os conflitos reacenderam-se. O projeto extinguiu-se.

O percurso literário

Os primórdios da escrita de Natália Correia aproximam-se, em alguns aspetos, do neorrealismo. Demarcou-se, todavia, deste movimento literário e político. Ela própria explicou a sua opção: “Se pus ‘Anoiteceu no Bairro’ (romance da sua autoria, de 1946) à margem, não foi por ter sido escrito numa fase imatura da minha vida, mas porque o entendo inautêntico. Embora o livro corresponda a preocupações ideológicas que mantenho, não estou interessada em fazer literatura programada.” Era da opinião que, entre nós, “se fizera neorrealismo de empréstimo, de segunda mão” (...) “não se agitaram as pessoas e as instituições de forma a tornar visível o lodo depositado no fundo”(...) “Houve o medo” — concluiu — “de se realizar sequer um realismo a sério, porquanto este exige uma descida ao inferno e não vejo por aí quem se atreva além do purgatório”. Por isso se afastou do neorrealismo, cortou com a orientação literária e política de escritores portugueses que o representavam, muitos dos quais pertenciam ao Partido Comunista ou estavam próximo dele. Foi ainda mais explícita: “Não podemos competir — insistiu — com os mestres do neorrealismo americano e europeu, que, bons ou maus, para quem aprecia o género, já disseram a última palavra.”

Seguiu outro caminho que prosseguiu, com variantes óbvias. Passou a estar próxima do surrealismo. Já tinha relações pessoais com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, Alexandre O’Neill, Manuel de Lima, Mário Henrique Leiria e David Mourão-Ferreira. Acrescente-se Luís Pacheco, editor dos surrealistas e de livros de Natália nesta fase literária: “Dimensão Encontrada” (1957), “Passaporte” (1958), “Comunicação” (1959) e, mesmo, “O Canto do País Emerso” (1961).

A propósito da ligação ao surrealismo e aos surrealistas portugueses fez questão de observar: “Se existe qualquer relação entre a minha poesia e o surrealismo é francamente a posteriori, isto é para os que quiserem vê-la. Quanto a procurarem antecedentes, também temos por cá outros mais à mão que foram surrealistas sem pensar nisso: Gomes Leal e Sá Carneiro.”

A criação de Natália, sempre avessa a códigos literários e estéticos, verificou-se nos livros de poemas, nos romances, nas memórias, nas peças de teatro e nos ensaios, nasce e expande-se, em todos os sentidos, mergulha na complexidade do mundo, umas vezes numa interpelação provocatória, outras em torno das mais ínfimas e subtis realidades. Em suma, um todo bastante diverso, mas coeso, nas suas afinidades eletivas.

O último salão de Lisboa

Mesmo em vida, Natália Correia já pertencia à História de Lisboa. Residia num quinto andar do número 52 da Rua Rodrigues Sampaio, entre a Rua de Santa Marta e a Avenida da Liberdade. Ali permaneceu 40 anos, desde 1953 a 1993. Ali faleceu a 16 de março de 1993, horas depois de chegar a casa, ao regressar do Botequim. O lendário diretor do “Diário de Notícias” Augusto de Castro repetiu, até à exaustão, em livros, discursos e editoriais, que o “último salão literário de Lisboa” fora a casa, em Santa Catarina, de Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). É certo que marcou um tempo cultural, mas cada época tem o seu salão literário.

Na segunda metade do século XX, a casa de Natália Correia, entre várias outras, foi um espaço privilegiado de convívio, rodeado de uma fabulosa biblioteca, de notáveis obras de arte e de surpreendentes peças de arte decorativa. A hospitalidade afetuosa conjugava-se com a estatura intelectual dos convidados de Natália, em noites inesquecíveis que avançavam pela madrugada. Durante a passagem por Lisboa ofereceu receções a Marcel Marceau (que entrevistei, em 1959, ao lado de Natália, para o jornal “República”); ao poeta russo Ievtuchenko, ao poeta Henri Michaux; e, já no Botequim, ao jornalista e escritor Dominique de Roux, autor do enigmático romance “O Quinto Império”; e ainda aos escritores americanos Graham Greene e Henry Miller.

Visceralmente açoriana

Ficou sempre agarrada aos Açores. Nasceu, viveu e morreu açoriana. Um dos seus muitos poemas de forte componente insular resume-se nestes versos: “Para Lisboa me trouxeram/ não de uma vez e embarcada:/ minha longa matéria foi/ pouco a pouco transportada./Recém-vinda de ficada/ em morosa maravilha,/ sempre a chegar a Lisboa/ e sempre a ficar na ilha”.

Num dos seus livros mais emblemáticos, “Não Percas a Rosa”, encontramos sucessivas recordações da infância e da adolescência associadas a memórias gustativas, olfativas e visuais como, por exemplo, o cozido das Furnas sempre com inhames e maçarocas de milho. Desce mesmo ao pormenor: “Cozidas na terra fervente e mole à beira da Lagoa e que depois comemos numa mesa de pedra sob as plumas dos fetos; por entre colinas de pedra pomes, líquenes, musgos, mantos verdes que pendem dos ribanceiros onde se abrem as alas rosadas e azuis das hortênsias.” Ficou a ser, por vários motivos e até ao fim, uma ilha dentro da sua própria ilha.

O Botequim

Multiplicaram-se as dificuldades financeiras. O marido, Alfredo Machado, um jogador compulsivo, deixou de ter os recursos para manter uma vida aparatosa para Natália possuir em casa um salão — o seu palco doméstico — para receções faustosas e requintadas.

Em 1971, Natália, com o marido e a escultora Isabel Meyreles fundaram, no Largo da Graça, onde existiu em tempo uma carvoaria, um bar restaurante que lhe permitiu um novo espaço para voltar a pontificar. Tinha necessidade permanente de espetáculo. Chamava-se O Botequim, um nome que remetia para os cafés e restaurantes de Lisboa, do século XVII, do tempo de Bocage, da implantação do regime liberal e da independência do Brasil.

Rapidamente, O Botequim ganhou a maior notoriedade. Existiam (e existem) outros centros de convívio e de conspiração: o Snob, na Rua do Século; o Procópio, nas Amoreiras; o After Eight, na Praça das Flores. Nenhum deles, comparável a O Botequim.

Concentravam-se no Botequim poetas e escritores de várias tendências. Políticos de todos os quadrantes. Deputados, ministros, atuais ou futuros, presidentes da República. Representantes da FLAD, o movimento da independência dos Açores. Incorporou as fases conturbadas do processo revolucionário e contrarrevolucionário que vivemos na sequência do 25 de Abril.

Encontrava-se Natália envolvida, em 1971, em controvérsias políticas e literárias que deram brado em todo o país. Desencadeara no consulado de Salazar e na “primavera marcelista” duas ruidosas polémicas que a levaram à barra do Tribunal Plenário de Lisboa. O primeiro processo, motivado pela introdução e coordenação da “Antologia de Poesia Erótica e Satírica” (1965). O segundo processo devido à responsabilidade editorial das “Novas Cartas Portuguesas” (1972), da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Ambos os livros desencadearam o alarme da Censura e a imediata apreensão da PIDE. Natália foi julgada e condenada, ao cabo de nove anos de guerrilhas judiciais. O 25 de Abril determinou o ponto final.

A presença carismática de Natália pontificou, no Botequim, durante mais de 20 anos. Com a morte de Natália, morreu o Botequim. Revive, contudo, no livro de Fernando Dacosta “O Botequim da Liberdade” (Lisboa, 2013). Na “Fotobiografia de Natália Correia”, de Ana Paula Costa (2006) e na extensa biografia romanceada de Filipa Martins “O Dever de Deslumbrar” (2024). Um facto, porém, é incontestável: malograram-se as tentativas de revitalizar o Botequim. Com a morte de Natália, o Botequim ficou morto e enterrado.

Ela e só ela

A memória de Natália perdura na sua obra. Pouco antes de falecer reuniu as poesias completas em dois volumes e com o título genérico “O Sol das Noites e o Luar dos Dias” (1993). Clara Rocha classificou nesta síntese lapidar: “O retrato de uma voz que se modula nos sons da fúria ou da emoção lírica, do riso ou da mágoa, da saudade e da vivência, mas que estremece e, livre, resiste, se transforma e transforma.”

O nome de Natália encontra-se consagrado em ruas, de Lisboa e dos Açores, em diversas bibliotecas, no repertório musical de Carlos Alberto Moniz e num café de Angra do Heroísmo e com a seguinte lápide: “Quando me derem por morta/ de lágrimas nem uma pinga:/ um trevo de quatro folhas/ tenho debaixo da língua./ Está em regra o passaporte./ Venha o limite de idade/ não me chorem, não é morte/ é só invisibilidade./ Túnel, poço ou espiral/ suga a alma. Fica o corpo./ Vai-se a cópia sideral/ e isso não é estar morto.”

As comemorações centenárias — a realizar de 2023 a 2024 — em Portugal, em França e noutros países vão, mais uma vez, demonstrar que está viva.

Recuperado o espólio de Natália Correia

O património familiar de Natália resumia-se aos bens de um tio, irmão do pai, o padre Francisco Oliveira Correia, muitos anos pároco da freguesia da Achadinha, na costa norte da ilha de São Miguel. Acumulou bens patrimoniais e depósitos bancários. Era extremamente conservador. Como poderia aceitar a separação da mãe do pai, a rebeldia literária e política de Natália e, ainda por cima, três casamentos civis consecutivos? — com Dias Ferreira, em 1949; com William Hylen, e com Alfredo Machado, um homem muito mais velho (e a partir de 17 de março de 1990 viria ainda a casar com um amigo íntimo de longos anos, o poeta e realizador Dórdio Guimarães). O resultado foi óbvio. O advogado José de Medeiros Tavares (1899-1986), da Ribeira Grande, a meu pedido, sem levar quaisquer honorários, consultou as possíveis disposições testamentárias. Obviamente, Natália e a irmã ficaram sem hipótese de se habilitar aos bens móveis e imóveis. No início do livro “Não Percas a Rosa” (1978), Natália aludiu ao tio com o maior desdém.

Pertenciam ao colecionador Manuel Cardoso Martha — a quem Natália, na casa da Rodrigues Sampaio deu acolhimento no final da vida — a biblioteca, os quadros, óleos, guaches, desenhos, esculturas e objetos raros de arte decorativa. Era amigo de sua mãe e também o professor de Natália que, durante anos, contribuiu para que ficasse com uma sólida cultura intelectual. Apurou-lhe os conhecimentos de língua portuguesa. Desenvolveu-lhe os rudimentos de francês e inglês, que passou a falar e a escrever corretamente.

O viúvo de Natália, o poeta e realizador Dórdio Guimarães, viria a ser o herdeiro natural de todos os bens de Natália que eram de Cardoso Martha. Após a morte de Dórdio Guimarães, que fizera 16 testamentos, Luís Fagundes Duarte, na altura diretor regional da Cultura, decidiu avaliar a importância da biblioteca. Como solução de emergência mandou fotografar cada uma das prateleiras das numerosas estantes. Incumbiu o advogado Álvaro Monjardino de clarificar este processo. Por tudo isto o espólio distribuiu-se por São Miguel, para a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada; pela Biblioteca Nacional de Lisboa e pela Sociedade Portuguesa de Autores. Evitou-se o roubo e a dispersão. Manuel Cardoso Martha (1882-1958) figueirense dos quatro costados, lecionava em Lisboa na Escola Fonseca Benevides. Antigo seminarista, com profundo conhecimento das humanidades clássicas da literatura portuguesa e das várias literaturas europeias, Cardoso Martha era um notável erudito, bibliógrafo, bibliófilo, colecionador de manuscritos e de livros raros e antigos.

Entre numerosos manuscritos encontrou-se uma coleção de poesias — cuja capa reproduzimos — com o título “O Purgatório dos Poetas: Poesias Eróticas d’Alguns Escritores Portugueses dos Séculos XV a XIX / Coligidas por Cardoso Martha — 1935”. Revista e acrescentada com autores contemporâneos, viria a constituir a polémia “Antologia de Poesia Erótica e Satírica”, coordenada por Natália Correia e editada por Fernando Ribeiro de Melo. A herança de Cardoso Martha — que organizou em 1912 e 1913 no Grémio Literário o I e II Salão dos Humoristas — possuía desenhos, aguarelas e guaches de Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Christiano Cruz, Jorge Barradas e outros participantes no primeiro modernismo.

O então presidente e vereadores da Câmara da Figueira da Foz fizeram diligências para que todo esse acervo literário e artístico ficasse depositado no Museu Santos Rocha, na altura a cargo de Vítor Guerra. Consultados os advogados Manuel João da Palma Carlos e Luís Francisco Rebello, amigos de Natália e do marido Alfredo Machado, apenas terão sido entregues à Figueira da Foz livros e opúsculos relacionados com a cidade e o seu concelho. Um tema ainda a investigar. António Valdemar – Portugal in “Blog de São João del-Rei”

António Valdemar - Jornalista e investigador, sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3.




quinta-feira, 31 de agosto de 2023

França - Paris homenageia Natália Correia

Uma exposição com obras de artistas plásticos que dialogam com a obra literária de Natália Correia (1923-1993), enriquecendo o contexto histórico e estético da poetisa e deputada, vai ser inaugurada a 8 de setembro, em Paris


Intitulada “Natália Correia – Confissão poética em torno de Mulher Atlante”, a mostra de artes plásticas com cerca de 30 autores terá lugar na Casa de Portugal – André de Gouveia, da Cité Internationale Universitaire de Paris – Fundação Calouste Gulbenkian em França.

Mário Cesariny, Agostinho Gonçalves, Cruzeiro Seixas, Fernando Lemos, Isabel Meyrelles, Matilde Marçal, João Rodrigues, José Escada, Júlio Resende, Margarida Madruga, Eduardo Gageiro, Benjamim Marques, Raul Perez, Mário-Henrique Leiria e Borderlovers são alguns dos criadores representados, segundo um comunicado da organização.

Trata-se de uma iniciativa enquadrada no centenário do nascimento de Natália Correia, escritora portuguesa nascida no arquipélago dos Açores que foi deputada à Assembleia da República, destacando-se pela intervenção política nas áreas da cultura, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.

A iniciativa, comissariada por Rui A. Pereira, tem como objetivo evocar a vida e obra da pensadora, o seu universo criativo e os caminhos artísticos que estimulou, segundo a organização, a cargo de Carlos Cabral Nunes, da Perve Galeria.

No texto de introdução ao catálogo da exposição, o comissário refere que as memórias de infância e adolescência marcaram Natália Correia: “Ter vivido nos Açores até aos seus 16 anos, com a circunstância de, desde muito cedo, ter um pai ausente; assumir que a presença materna junto de si foi basilar na construção da sua consciência no Feminino; viver o ‘espanto’ permanente em contiguidade com a presença da imensidão do mar foram, certamente, fatores determinantes na formação da sua personalidade”.

A observação das sucessões de marés inspirou “visões de encanto e reverência tão bem celebradas por ela [Natália Correia] e muitos outros criadores, os poetas, pintores…”.

A Casa de Portugal organizará ainda um ciclo de eventos no âmbito desta comemoração do centenário, nomeadamente um colóquio internacional em parceria com as Universidades de Paris Sorbonne, Paris Nanterre, Paris 8, Universidades Nova de Lisboa e de Göttinghem, nomeadamente com a Cátedra Almada Negreiros.

Marcada para dia 08 de setembro, às 18:00, a exposição ficará patente até 28 de outubro.

Durante esta iniciativa decorrerá a pré-estreia internacional do filme “O aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink”, conto de Natália Correia adaptado para cinema pela Marginal Filmes, com realização de Jo Monteiro. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 9 de abril de 2023

Estados Unidos da América - Natália Correia vai ter cátedra na Universidade da Califórnia

A Universidade Estadual da Califórnia em Fresno vai lançar no outono de 2023 a Cátedra Natália Correia, através do Instituto Português Além-Fronteiras e no âmbito do curso de Literatura e Cultura dos Açores lecionado nesta instituição de ensino superior

Segundo disse à Lusa o diretor do Instituto, o professor luso-americano Diniz Borges, Natália Correia foi escolhida “por ser uma figura impressionante do século XX e vanguardista de muitas formas”.

Com orçamento do Instituto Português Além-Fronteiras e de membros da comunidade portuguesa no vale central da Califórnia, que expressaram intenção de apoiar a iniciativa, a cátedra vai motivar a organização de eventos e palestras com escritores ligados aos Açores.

“Queremos instituir uma espécie de ‘fellowship’ em que possamos trazer, em cada outono, um escritor para fazer uma série de palestras no âmbito desse curso e ter algum contacto com o mundo académico e a comunidade local”, descreveu o professor Diniz Borges.

“Um outro aspeto tem a ver com alguns eventos culturais em torno da Natália Correia, em torno da poesia e da literatura”, continuou, referindo que o âmbito será alargado a mais escritores portugueses. O objetivo é organizar dois eventos por semestre.

A Cátedra terá um conselho consultivo formado por um “grupo de intelectuais” que irá dedicar-se aos Açores e à obra da escritora nascida no arquipélago.

A ideia é também “tentar estimular alguma investigação” e apoiar a publicação anual de trabalhos de pesquisa sobre Natália Correia, o que deverá ser feito através da Bruma Publications, o braço editorial do Instituto Português Além-Fronteiras. Além disso, várias edições da revista literária Filamentos serão dedicadas à autora.

“Gostaríamos de incentivar a pesquisa sobre a obra da Natália e também traduzi-la e torná-la mais acessível ao mundo americano”, frisou Diniz Borges, lembrando que são poucas as obras da escritora açoriana que estão disponíveis em inglês.

A cátedra e os eventos relacionados serão praticamente todos em língua inglesa, até porque muitos dos alunos que tiram o curso não são de origem portuguesa – ou sendo, não dominam o português a um nível avançado.

A Universidade, localizada numa das regiões com maior concentração de comunidades luso-americanas na Califórnia, tem uma ‘minor’ em Português criada há três anos.

“Um dos intuitos é que a cátedra crie mais entusiasmo através da obra e do pensamento da Natália Correia”, indicou Diniz Borges, “e, ao mesmo tempo, tentar através da ‘fellowship’ mais apoios para que os alunos que façam a ‘minor’ tenham algumas bolsas, até mesmo para investigação e explorarem estudos ligados à Natália”.

O Instituto Português Além-Fronteiras (PBBI, na sigla inglesa) assinalou o quarto aniversário em fevereiro com uma palestra do embaixador de Portugal nos Estados Unidos, Francisco Lopes. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo com “Lusa”


sexta-feira, 24 de março de 2023

Portugal - Cem anos depois, nove autores literários e uma fadista

Este ano comemora-se o centenário do nascimento de diversas figuras ligadas às artes e letras de Portugal, com especial enfoque na literatura. Dos mais conhecidos, poetas, cronistas, ensaístas, romancistas e tradutores, mas também a fadista Celeste Rodrigues, falecida em 2018


No ano em que se publicavam o “Livro de Soror Saudade” de Florbela Espanca ou “Os Pescadores” de Raul Brandão, nasciam nove célebres nomes ligados à literatura portuguesa e uma fadista. Comemora-se este ano o centenário de Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Henrique de Senna Fernandes, João Maia, José Palla e Carmo, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Celeste Rodrigues, irmã da voz de Portugal, Amália Rodrigues.

Prémio Camões em 1996 e Prémio Pessoa em 2011, Eduardo Lourenço foi um professor e filósofo português, com ligações profundadas a questões relacionadas com a identidade portuguesa, com especial enfoque na literatura, mas não só. Beirão nascido a 23 de Maio de 1923 no concelho de Almeida, distrito da Guarda, Eduardo Lourenço “é uma figura fulcral da cultura portuguesa”, considerou ao nosso jornal a professora universitária Lola G. Xavier, confessa seguidora do trabalho do pensador português.

Para Lola G. Xavier, até hoje, Eduardo Lourenço é “uma voz única e ímpar”. “Ao nível da própria filosofia e da ontologia do ser-se português. É um autor fundamental, essencial e incontornável em questões relacionadas com a lusofonia. Uma voz crítica que, por ter vivido muito tempo fora de Portugal, teve o afastamento físico necessário que lhe permitiu uma perspectiva mais objectiva”, considerou a docente.

Eduardo Lourenço recebeu diversos prémios ao longo da sua carreira e foi condecorado por inúmeras vezes, tanto em França, onde viveu, como em Portugal. De 2016 a 2020 foi Conselheiro de Estado, por nomeação presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Morreu em 2020, aos 97 anos, tendo o Governo português decretado um dia de luto nacional.

A universalidade de Eugénio de Andrade

Coube também a Lola G. Xavier comentar, mesmo que de forma breve, a vida e obra do poeta Eugénio de Andrade, nascido no concelho do Fundão a 19 de Janeiro de 1923. Prémio Camões em 2001, o também beirão esteve em Macau em 1990, território cujas impressões ficaram registadas no “Pequeno Caderno do Oriente”. “Aquilo que talvez mais me impressiona na sua poesia é como ele consegue, de uma forma aparentemente simples, dizer tanto”, referiu a professora universitária.

Para Lola G. Xavier, Eugénio de Andrade é “um dos poetas da universalidade” e, também por isso, “um dos poetas fundamentais em língua portuguesa”. “Conseguiu congregar de uma forma despretensiosa a beleza da língua portuguesa estampada em verso”, notou, acrescentando que “qualquer literato não terá dificuldade em incluir o poeta nos maiores da literatura portuguesa”.

Eugénio de Andrade é pseudónimo de José Fontinhas. Foi próximo de Eduardo Lourenço e de Miguel Torga, com quem conviveu em Coimbra. Para além de poeta, foi tradutor e escritor.

Morreu, no Porto, a 13 de Junho de 2005, aos 82 anos. A sua poesia lírica foi considerada por José Saramago como uma “poesia do corpo a que chega mediante uma depuração contínua”.

De Macau para o mundo

É unânime dizer-se que a ‘Magnum opus’ de Henrique de Senna Fernandes é o seu livro “Amor e Dedinhos de Pé”, obra adaptada para cinema em 1992 pelo realizador Luís Filipe Rocha e protagonizada por Joaquim de Almeida. O autor português de origem macaense nasceu a 15 de Outubro de 1923 em Macau, precisamente. Foi advogado e uma pessoa politicamente interventiva.

No campo da escrita, Senna Fernandes retratou a Macau antiga dos anos de 1930, 1940 e 1950, através dos seus livros publicados, de onde se destacam, para além do “Amor e Dedinhos de Pé”, “Nam Van – Contos de Macau”, “A Trança Feiticeira” e “Mong-Há – Contos de Macau”. O seu conto “A-Chan, a tancareira” vence o Prémio Fialho de Almeida, em 1950. “Em termos literários, o texto exibe o gosto pelo tratamento de amores interétnicos e pela representação da figura feminina, tão afastada, ainda hoje, da ‘atenção patriarcal’”, considerou o professor Pedro d’Alte ao nosso jornal.

Os seus contos e romances “estão repletos de força etnográfica e bem exprimem a cosmovisão da época”. “A construção narrativa, a força imagética e temática explicam, em parte, as adaptações para a sétima arte dos seus romances”, apontou ainda.

Morreu no território, já sob administração chinesa, aos 86 anos, no dia 4 de Outubro de 2010. Pedro d’Alte acredita que tanto ao leitor quanto ao apreciador de cinema, “decerto agradará a encenação glamorosa dos ambientes da Cidade Cristã e dos amores entre A-Ling e Adozindo ou Chico e Victorina”. “Na memória do centenário sobre o seu nascimento, Senna Fernandes bem merecia mais e melhor atenção literária por parte da ‘mátria’, Macau, e da ‘pátria, Portugal”, concluiu o docente.

Um lisboeta apaixonado pelo Alentejo

Urbano Tavares Rodrigues é outro dos autores cujo centenário se comemora este ano. Nasceu em Lisboa a 6 de Dezembro de 1923, tendo falecido também na capital portuguesa a 9 de Agosto de 2013, aos 89 anos. Foi escritor, jornalista, crítico e professor universitário. Afastado de Portugal por motivos políticos, foi leitor em diferentes universidades europeias. Foi um autor profícuo, tendo, entre 1949 e 2011, escrito quase uma centena de obras, tendo a última delas (“Nenhuma Vida”), já a título póstumo, sido editada em 2013, pouco tempo depois de morrer. Escreveu poesia, crónicas, textos para teatro, contos e literatura de viagem, mas foi nos ensaios e nos romances que deixou marca indelével nomeadamente com as obras “Uma pedrada no charco” (1958), “Nus e suplicantes” (1960) ou “Imitação da felicidade” (1966).

Com “Fuga imóvel” (1982) recebe o prémio Aquilino Ribeiro e com “Violeta e noite” (1991) é galardoado com o prémio Fernando Namora. “Urbano Tavares Rodrigues evidencia uma voz combativa e reflexiva. As suas personagens lutam, pelo século XX, contra os poderes instituídos de um sistema ditatorial repressivo. Assim, a sua escrita é um projecto político de militância pelo povo e pelos oprimidos, conforme se pode ler, desde logo, na bela composição Mulheres do Alentejo e da qual se relembram alguns versos: Mulheres do Alentejo / com papoilas nos olhos / São primaveras erguidas / Contra os bastões / Contra as balas (…) Mulheres searas fontes azinheiras / Nossa esperança, ainda em flor e fruto / No vermelho das feridas deste País de Abril”, afirmou Pedro d’Alte, enfatizando que devido a ter crescido em Moura, “o Alentejo é, efectivamente, paisagem, tema e inspiração da sua obra”.

Foi grande amigo de Mário Soares, ligação que esmoreceu com a filiação de Urbano Tavares Rodrigues no Partido Comunista Português. Segundo o próprio, foi devido aos seus ideais políticos que nunca chegou a receber o Prémio Camões.

A FENPROF, em colaboração com a SABSEG – Corretor de Seguros, criou, em 2012, o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, um prémio literário anual de ficção destinado a professores.

Uma açoreana de pêlo na venta

Natália Correia nasceu nos Açores, mais concretamente em Fajã de Baixo, uma localidade da ilha de São Miguel, a 13 de Setembro de 1923. Foi um dos nomes femininos mais sonantes da literatura portuguesa contemporânea, tendo-se destacado como escritora e poetisa. Devido ao seu carácter activista, moveu-se também na política portuguesa, tendo sido deputada à Assembleia da República entre 1980 e 1991. Interveio inúmeras vezes em prol da cultura e do património, mas também da defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.

Para além de autora da letra do Hino dos Açores, foi, juntamente com José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues, em 1992, fundadora da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). A sua obra, traduzida em várias línguas, estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Morreu em Lisboa, aos 69 anos, no dia 16 de Março de 1993, vítima de ataque cardíaco. “Só quem conhece profundamente a obra de Natália Correia pode afirmar que Natália Correia foi o mais importante poeta e pensador do século XX português. O seu pensamento supera o de Pessoa, Agostinho da Silva e Eduardo Lourenço”, referiu o escritor Henrique Levy, profundo admirador da obra da poetisa.

Henrique Levy vai mais longe e cita Ângela Almeida, autora também ela açoriana e especialista na obra de Natália Correia: “Não é possível entender o que representa a literatura para Natália Correia, sem constatarmos a imensidão do seu conhecimento: Natália bebe nas fontes antigas, clássicas, medievais, modernas, contemporâneas, ocidentais e orientais, percorre os ciclos históricos da humanidade, estuda as correntes de pensamento filosóficas e estéticas, viaja pelos géneros literários, estuda as religiões do mundo, sente o pulsar das culturas e das etnias e vive com todo o fulgor a relação telúrica e endógena que liga o ser humano à Tellus Mater. Tais fontes levam-na a escrever odes, epístolas, poesia lírica e épica, cantigas de amigo, textos dramáticos, romance, ensaios, textos para a imprensa (de 1943 a 1992)”.

O surrealismo português

Para além de poeta, Mário Cesariny foi também pintor, sendo considerado como o principal representante do surrealismo português. Nascido em Lisboa a 9 de Agosto de 1923, Cesariny também tem obra enquanto antologista, compilador e historiador. Homossexual assumido, foi muitas vezes detido pela polícia de costumes por “vagabundagem”.

Escreveu cerca de 20 livros. A sua poesia é animada por um sentido de contestação a comportamentos e princípios institucionalizados ou considerados normais nos campos do pensamento e dos costumes. Já a sua pintura, à imagem da sua personalidade inquieta, é marcada pela experimentação.

Em 2002 foi-lhe atribuído o grande Prémio EDP de Artes Plásticas e, em 2005, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Também em 2005, arrecadou o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD.

Morreu, também em Lisboa, a 26 de Novembro de 2006, aos 83 anos. Doou em vida o seu espólio à Fundação Cupertino de Miranda e, por testamento, deixou um milhão de euros (cerca de 10 milhões de patacas) à Casa Pia.

Mário-Henrique Leiria nasceu em Lisboa a 2 de Janeiro de 1923 e foi um escritor surrealista português, amigo próximo de Mário de Cesariny.

Poeta, escritor, pintor, crítico de arte, crítico literário, tradutor, gráfico e editor, Mário-Henrique Leiria tinha o espírito de coleccionador. Guardava tudo, desde escritos a desenhos, passando por pinturas e fotografias, catálogos ou manifestos. Envolveu-se activamente no Grupo Surrealista Português entre 1949 e 1951. Ao mesmo tempo também se dedicou a uma carreira musical que durou entre 1949 e 1979.

Foi preso pela PIDE. Posteriormente, instalou-se no Brasil onde desenvolveu várias actividades, como a de encenador e de director literário da Editora Samambaia. Regressou a Portugal em 1970 e aderiu, em 1976, ao Partido Revolucionário do Proletariado. Morreu aos 57 anos, a 9 de Janeiro de 1980, vítima de doença prolongada.

“Mário Cesariny e Mário-Henrique Leiria são nomes que conheço e cuja obra acompanhei de perto, porque representam uma certa modernidade, uma certa ruptura com o sistema, nomeadamente em relação a valores ou até à expressão”, referiu a professora Vera Borges, acrescentando que “faz todo o sentido atentarmos na literatura de um passado mais próximo”, mais contemporâneo.

O jesuíta das letras e o humorista Sesinando

Outros nomes há, também consagrados, que, por esta ou aquela razão, se tornaram desconhecidos do público em geral. Vera Borges explicou ao Ponto Final que tudo passa, essencialmente, “pela dimensão da sua obra” e, claro, “pelo gosto de cada um”. “São nomes que surgem, muitas vezes, a reboque de outros nomes. Autores pensados no âmbito de estudos específicos e desconhecidos num sentido mais lato”, referiu a docente de Português.

João Maia ou José Palla e Carmo são dois desses nomes. No entanto, considera Vera Borges, “são importantes para a literatura portuguesa”. “Gostava muito que esses nomes merecessem uma revisitação da sua obra. Talvez estas efemérides pudessem ser um ponto de partida para isso. Mas, claro, há nomes que têm sempre mais peso do que outros, é normal”, constatou.

João Maia foi um poeta e crítico, que também se notabilizou como cronista e ficcionista. Ganhou, em 1954, o prémio Antero de Quental pela sua obra literária “Abriu-se a Noite”. Anos antes, em 1940, ingressou na Companhia de Jesus, tendo-se licenciado em Filosofia pela Faculdade Pontifícia de Braga e, posteriormente, obteve o doutoramento na Faculdade de Teologia de Burgos, em Espanha. Autor de 10 livros, entre 1954 e 1989, a poesia de João Maia “pouco aberta a inovações formais e geralmente apoiada na rima”, mereceu de Jorge de Sena os epítetos de “suave e inteligente, meditativa e singela”.

Já José Palla e Carmo, nascido em Lisboa em 1923, foi um escritor, ensaísta, crítico, tradutor e especialista de literatura anglófona. Também se dedicava à escrita de textos humorísticos, os quais assinava como José Sesinando. Era irmão do consagrado arquitecto e fotógrafo Victor Palla e, por conseguinte, tio-avô do igualmente arquitecto e fotógrafo João Palla Martins, radicado em Macau há diversos anos.

O Instituto Português do Oriente (IPOR) também vai celebrar alguns destes nomes. Em declarações ao Ponto Final, a coordenadora do Centro de Língua Portuguesa foi peremptória em afirmar que se “deve falar e celebrá-los” a todos sem excepção, “independentemente de uns serem mais conhecidos do que outros”. No entanto, admitiu, o IPOR celebrará, ao que tudo indica, apenas seis desses nomes: Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Mário Cesariny, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Henrique de Senna Fernandes. “Vamos celebrando ao longo do ano. Começámos com o Eugénio e acabamos com o Urbano, dando ainda algum destaque ao centenário de Agustina Bessa-Luís, que se celebrou o ano passado, mas nós não o celebrámos como deveria ser”, notou Paula Costa.

Tudo isto é fado

A fadista Celeste Rodrigues nasceu no Fundão a 14 de Março de 1923 e morreu em Lisboa a 1 de Agosto de 2018, com 95 anos. Era a irmã mais nova da voz de Portugal, Amália Rodrigues.

Com 25 anos, Celeste conhece o actor Varela Silva com quem casaria com 30 anos. Ambos abrem a casa de fados “A Viela”, projecto que abandonariam após quatro anos. Por essa altura, e apesar de viver um pouco na sombra da irmã Amália, Celeste atingia a notoriedade com o tema “Olha a Mala”, da autoria de Manuel Casimiro.

Celeste Rodrigues cantou por mais uma década na casa de fados Parreirinha de Alfama, propriedade da também fadista Argentina Santos, passando depois a integrar o elenco da Taverna do Embuçado, do fadista João Ferreira-Rosa ao longo de 25 anos.

Ao Ponto Final, o actual proprietário da Parreirinha de Alfama, o guitarrista de Fado Paulo Valentim, que viveu em Macau por diversos anos, recordou que Celeste “trabalhou muitos anos na Parreirinha e a irmã [Amália] a visitava muitas vezes”. “Celeste era uma pessoa sábia, bastante culta e educada”, acrescentou.

Depois do 25 de Abril, passou meio ano no Canadá, acabando por divorciar-se de Varela Silva com quem teve duas filhas. O seu último trabalho discográfico foi o “Fado Celeste”, editado na Holanda em 2007. Três anos depois, em 2010, o neto Diogo Varela Silva revela o documentário “Fado Celeste”, realizado por si, que se debruça na vida e obra de Celeste Rodrigues.

Aliás, em declarações ao nosso jornal, o neto da fadista revelou que “foi inaugurada no dia 14 de Março uma exposição sobre ela no Museu do Fado”. “Houve o lançamento da biografia escrita por mim e lançámos dois temas inéditos que foram gravados muito pouco tempo antes dela falecer. Uma versão de “A Noite do Meu Bem” de Dolores Duran e uma música nova chamada “Se Alguém Me Procurar”, com letra de Ricardo Maria Louro e música de Pedro de Castro, que foi o seu último guitarrista. Fizemos ainda um grande jantar celebrativo nessa data com muitos amigos dela”, referiu, lamentando que o Fundão, cidade onde a fadista nasceu, aparentemente, não tenha qualquer homenagem marcada para celebrar o centenário, mas adiantando que tanto a família quanto os amigos estão a contar que Câmara Municipal de Lisboa a inclua na toponímia da cidade. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


 

domingo, 13 de novembro de 2022

Portugal - Sociedade Portuguesa de Autores presta homenagem a Natália Correia

Antecipando o aniversário dos cem anos do nascimento de Natália Correia, que se assinala em 2023, a Sociedade Portuguesa de Autores promove este concerto de homenagem à escritora no próximo dia 22 de novembro de 2022 na Aula Magna em Lisboa


Com conceção artística e musical de Renato Júnior, o espetáculo conta ainda com a participação de várias cantoras da atualidade.

O produtor e compositor musicou alguns dos poemas mais emblemáticos da escritora e convidou para os interpretar algumas das melhores vozes femininas.

Ana Bacalhau, Áurea, Amélia Muge, Elisa Rodrigues, Katia Guerreiro, Mafalda Veiga, Patrícia Antunes, Patrícia Silveira, Maria João, Rita Redshoes, Sofia Escobar e Viviane são os nomes que irão subir ao palco no próximo dia 22 e que poderão ouvir num álbum que será editado no início do próximo ano.

Será um concerto inteiramente alicerçado na poesia de Natália Correia, único na sua estética, e onde a mulher tem o protagonismo. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Açores - Primeira edição do concurso literário “Prémio Literário Natália Correia”


O Prémio Literário Natália Correia, apresentado por Maria José Lemos Duarte, é “a expressão de uma gratidão que é permanente, porque não se esgota, e que devemos a uma figura eminente do pensamento e da cultura portuguesa contemporânea”, afirmou a Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada.

A sessão de apresentação do Prémio, onde participou o Vereador da Cultura, Paulo Mendes, decorreu no Centro Natália Correia, na Fajã de Baixo, sem a presença de público, dadas as contingências atuais, mas com transmissão em direto no Facebook e no Youtube da autarquia. Na ocasião, a Presidente lembrou a vida, a obra e o pensamento de alguém que “marcou uma geração e continua a inspirar outras”.

Maria José Lemos Duarte destacou o “orgulho” que é para Ponta Delgada ser a cidade-berço de Natália, que “afirmou o seu pensamento desassombrado, provocador e ativista” e que “nos fez o favor de deixar uma obra que se desdobra em vários géneros, como a poesia, a dramaturgia, o romance ou o ensaio”, através dos quais “procurou quebrar tabus, indignar espíritos ou denunciar o puritanismo e a moralidade pública”.

“Natália é e será eternamente ‘a nossa’ e esta condição é uma responsabilidade para todos nós, poder público e sociedade civil”, afirmou a Presidente da autarquia, que anunciou uma “celebração condigna em torno da poeta”, com início este ano e até 2023, ano do centenário do nascimento de Natália Correia, com conferências, debates e um colóquio internacional sobre a sua vida, obra e pensamento.

O Prémio Literário, que marca o arranque desta celebração, "homenageia e celebra a poeta e escritora como inspiração para a criação poética e literária na Língua Portuguesa".

Com periodicidade anual, o Prémio é aberto a autores com idade mínima de 16 anos, de todas as nacionalidades, com obras originais e inéditas redigidas em Língua Portuguesa. Tem uma alternância, também anual, entre a produção poética e o domínio da narrativa (romance e conto). Este ano, é dedicado à produção poética, “o género a que por referência se definia a poeta".

Ao vencedor é atribuído um prémio com o valor pecuniário de 7500 euros e a publicação da obra vencedora.

“A abertura à diversidade cultural e de pensamento traduz a nossa ambição de acrescentar mais Mundo ao reconhecimento internacional da riquíssima obra de Natália Correia, em especial o do vasto e culturalmente próximo espaço da Lusofonia”, explicou, frisando que o Prémio “reafirma Ponta Delgada não só como Cidade de Poetas, mas também como lugar de cultura, de arte e de um modo singular de olhar o Mundo”.

Ângela Almeida, Diniz Borges, Lélia Nunes, Luís Sarmento e Vera Duarte são os membros do júri do Prémio Literário Natália Correia que “quer premiar a qualidade e a excelência poética”.

A apresentação pública do Prémio contou com um momento de declamação de poesia de Natália Correia por Ângela Almeida (Inédito) e Eleonora Duarte (Auto-retrato), e um momento musical com o professor Luís Abrantes (Alaúde) e a aluna Leonor Pereira (Voz), ambos do Conservatório Regional de Ponta Delgada.

Catarina Alves executou, ao vivo, a escultura “Mensageira da Liberdade – A voz que não conseguiram calar”, concebida em homenagem a Natália Correia.

As candidaturas ao Prémio Literário Natália Correia decorrem até 31 de março. O regulamento pode ser consultado aqui. In “Câmara Municipal de Ponta Delgada” - Açores