Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 2 de dezembro de 2023

Um grande poeta não morre

Alberto da Costa e Silva falece aos 92 anos, mas seus versos e livros ficam para sempre

                                                                                                    

                                                                    I

A um tempo em que a carreira diplomática atraía muitos homens de letras e de alta cultura, Alberto da Costa e Silva (1931-2023), que nos deixou há poucos dias, foi um símbolo dessa época. Poeta de fina sensibilidade, ensaísta, memorialista e historiador, notabilizou-se especialmente como africanólogo, depois do lançamento de A Enxada e a Lança: a África antes dos portugueses (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992), livro fundamental para quem quiser conhecer a história daquele continente, em que descreve povos e etnias, técnicas agrícolas e de navegação, expressões religiosas e artísticas, reinos extintos, cidades desaparecidas, costumes e crenças, línguas e dialetos, construindo “uma obra que já nasceu clássica”, na definição do crítico Wilson Martins (1921-2010).


A sua paixão pelo continente africano, porém, deu-se muitos anos antes, ao longo da primeira etapa de sua carreira diplomática, com a publicação de artigos em revistas e jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Recife, Teresina, Lisboa e Madri, cinco dos quais compõem a parte inicial de O Vício da África e outros vícios (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1989), obra que reúne também resenhas de livros e textos sobre pintores e escultores e ainda sobre suas viagens e experiências vividas em sua vida cigana, de embaixada em embaixada.

A nossa aproximação deu-se há exatamente trinta anos, à época em que ele estava encerrando sua passagem por Bogotá como embaixador, depois de sua nomeação para a Embaixada em Assunção. À época, eu havia publicado em A Tribuna, de Santos, uma recensão de A Enxada e a Lança, que, em boa hora, tive a ideia de lhe enviar em forma de fotocópia pelo correio para a Embaixada na Colômbia. Eu estava prestes a seguir para Portugal, com bolsa de doutoramento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, a fim de pesquisar e preparar uma tese sobre o poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), e ele, com destino a Assunção, fez questão de parar em São Paulo para que almoçássemos num restaurante e me oferecer alguns exemplares de seus livros (com as devidas dedicatórias). Aproveitou a ocasião para me passar alguns contatos importantes, já que, de 1986 a 1990, havia dirigido a Embaixada em Lisboa.

 

                                                                   II

Desde então, mantivemos esporádicos contatos por correspondência, até porque a Internet nem havia ainda chegado por aqui. Então, à época da defesa de minha tese de doutoramento na Universidade de São Paulo (USP), sugeri ao meu orientador, o professor Massaud Moisés (1928-2018), que o convidasse para fazer parte da banca. De início, modesto, ele relutou em aceitar o convite, alegando que não dispunha de titulação acadêmica, além da graduação em 1957 pelo Instituto Rio Branco, que desde 1945 forma os diplomatas brasileiros, embora tivesse recebido o título de doutor honoris causa em Letras pela Universidade Obafemi Awolowo, na Nigéria, em 1986. Foi, então, que Massaud Moisés lhe respondeu que a Universidade levava em conta principalmente o seu “notório saber”.

Assim, numa tarde de outubro de 1997, Costa e Silva participou da banca, ao lado de Massaud Moisés, do escritor e crítico Fábio Lucas e dos professores Francisco Maciel Silveira (1947-2019) e Lênia Márcia de Medeiros Mongelli, que fora quem me indicara àquele que seria o meu orientador. Mas o ponto alto da defesa de tese foi mesmo a sua participação, com uma oração que encantou por sua fluência aos poucos que tiveram a oportunidade de estar presentes, confirmando a sua fama de orador e declamador impetuoso e erudito.

Entusiasmado, não só aceitou escrever o prefácio como ainda convenceu a Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, a publicar, em 1999, a tese, que “não só é uma biografia do autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa”, mas “um instigante ensaio de história social das Minas Gerais e do Moçambique da segunda metade do século XVIII”, como observou. Por fim, considerou que Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, “um livro escrito com o gosto de um jornalista pelo ineditismo e pela surpresa, assenta-se na aplicação e no rigor de um scholar”.

Por iniciativa de Costa e Silva, a Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp) publicaram, em 2012, Tomás Antônio Gonzaga, estudo biográfico-crítico que escrevi e saiu na coleção Série Essencial, em homenagem ao patrono da cadeira 37 da ABL. De certa forma, graças a Costa e Silva, este livro abriu-me as portas da Imesp e acabei por publicar por aquela editora Direito de Justiça em Terras d´El Rei na São Paulo Colonial (2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo - 1788-1797 (2019) e a edição brasileira de Bocage: o Perfil Perdido (2021). Aliás, por decisão extemporânea de um governador de pouca cultura, essa obra, infelizmente, marcaria o encerramento da Imesp como editora de livros impressos.

 

                                                        III

Nascido na cidade de São Paulo, mas de origem nordestina, tendo passado a infância em Sobral, no Ceará, e a adolescência e juventude no Rio de Janeiro, filho de (Antônio Francisco) Da Costa e Silva (1885-1950), um dos mais importantes poetas brasileiros do início do século XX e nome representativo da Belle Epoque nacional, Costa e Silva, desde menino, sempre foi um exímio orador, que declamava poemas de seu pai e de outros, além de alguns já de sua própria lavra, como recordou o crítico Antônio Carlos Villaça (1928-2005), seu contemporâneo de curso colegial, amigo desde então, no prefácio que escreveu paras As Linhas da Mão (Rio de Janeiro/São Paulo, Difel, 1978). Villaça recordou que, em 1956, no Rio de Janeiro, foram ambos visitar o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) em seu apartamento no edifício São Miguel, na avenida Beira-Mar, no bairro da Glória. E que já a essa época Costa e Silva impressionava a todos como declamador.

Como recordou Villaça, o seu livro de estreia foi O Parque, de 1953, que marca o seu retorno depois de uma temporada em Campos do Jordão, onde se recuperara de uma pneumonia e da perda precoce do pai, que morrera em 1950, após vários anos acamado, destino que marcaria sua obra poética para sempre. Dessa época, são os versos do poema “Canção às moças tísicas” em que diz: (...) Ó jovens que caminhais tristonhas como se chorásseis, / ide recolher a inocência das manhãs e das rosas, / antes que soprem do sul os ventos desordenados! Depois desse livro, viriam Alberto carda, fia, doba e cresce (1962), O Tecelão (1962) e Livro de Linhagem (1966), que seriam reunidos em As Linhas da Mão, com cinco sonetos rurais. 

De As Linhas da Mão, é “O Menino a Cavalo”, considerado pelo poeta e crítico José Paulo Paes (1926-1998) “um dos poemas mais bem logrados, jamais escritos em seu gênero, na língua portuguesa”, em que o poeta evoca o pai doente:

A mão do meu pai sobre o papel desenha, / quase num só traço, o menino a cavalo. / Sai de sua mão a mão com que lhe aceno, / e vai sobre o papel o menino a cavalo. (...) / O rosto longo, e só, rasgado pelas rugas, / o olhar a rever o que perpétuo tinha, / e que nunca me disse, em seu pensar cortado / do dia em que vivia (no seu convívio raro / com a cadeira de braços, o pijama, os seus pássaros, / a cinza e a rotina de estar morto, acordado), / no papel ele unia a mão que desenhava / à mão com que acenava ao menino a cavalo, / neste adeus em que estou, desde então, ao seu lado, / o menino que volta, a chorar, a cavalo.

Em seguida, viriam A Roupa no Estendal, o Muro, os Pombos (1981), edição de autor, Consoada (1993), publicado em Bogotá, também edição de autor, Ao lado de Vera (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997), Poemas Reunidos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2000) e Alberto da Costa e Silva: melhores poemas (São Paulo, Global, 2007), com seleção e o prefácio “A memória acesa como um círio”, de André Seffrin, republicado em O demônio da inquietude (Santarém-Portugal, Rosmarinho Editora de Arte, 2023).

Dessa safra, são ainda Le linee dela mano, tradução italiana de Adelina Aletti e Giuliano Macchi, com estudo da professora Luciana Stegagno Pecchio, publicado em Milão por All´Insegna del Pesce D´Oro, em 1986, e Poemas de Da Costa e Silva e Alberto da Costa e Silva, tradução castelhana e ensaios de Carlos Germán Belli, publicado em Lima pela editora Tierra Brasileña, em 1986.

   

                                                        IV

De espírito incansável, foi extensa a sua obra também como historiador. Além do citado A Enxada e a Lança, que teve reedições em 1996 e 2006, publicou As Relações entre o Brasil e a África Negra, de 1822 à primeira guerra mundial, que, depois de publicado em O Vício da África, saiu em Luanda pela editora Cadernos do Museu Nacional da Escravatura (1996),  A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700 (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2002), Um Rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2003), Francisco Félix de Souza, mercador de escravos(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004-2012), Das mãos do oleiro (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2005), Imagens da África: da Antiguidade ao Século XIX, organização e notas (São Paulo, Companhia das Letras, 2012), Um passeio pela África (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006), A África explicada aos meus filhos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2008-2013) e, por fim, A África e os africanos na história e nos mitos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2021).

Como ensaísta nas áreas de História e Literatura, além do citado O Vício da África, publicou Guimarães Rosa, poeta, tradução castelhana de Nora  Ronderos, Bogotá, Centro Colombo-Americano (1992), Mestre Dezinho de Valença do Piauí (Teresina, Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1998), O Pardal na Janela (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2002), Castro Alves: um poeta sempre jovem (São Paulo, Companhia das Letras, 2006-2008) e O quadrado amarelo (São Paulo, Imesp, 2009).

No ensaio “As relações entre o Brasil e a África Negra, de 1822 à primeira guerra mundial”, que consta de O Vício da África, o leitor irá encontrar uma defesa do processo de miscigenação e uma exaltação ao “Brasil mulato e tropical”, numa contestação ao conde de Gobineau, ministro da França no Rio de Janeiro entre 1869 e 1870, que condenava as uniões carnais entre brancos, indígenas e negros, que produziriam “nas classes baixas, como nas altas, uma degenerescência do mais triste aspecto”.

Em resposta, diz o ensaísta: “Bem podemos imaginar os desgostos que o diplomata francês experimentaria, ao ter de lidar com os políticos do Império do Brasil, pois alguns dentre eles, e dos mais eminentes, tinham ascendência africana, como o visconde de Jequitinhonha, o visconde de Inhomirim e o barão de Cotegipe, um mestiço que foi chefe de governo, na monarquia, como seriam presidentes da República o caboclo Floriano Peixoto e os mulatos Nilo Peçanha e, se não mentem as fotografias, Campos Sales, Rodrigues Alves e Washington Luiz”.

 

                                                        V

Como memorialista, Costa e Silva publicou Espelho do Príncipe: ficções da memória (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994), Invenção do Desenho (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2007), e O Pai do Menino (edição de autor, 2008), extrato dos dois livros anteriores, com tiragem de 100 exemplares. Organizou e participou de várias antologias.

Por tão extensa obra, merecidamente conquistou o Prêmio Camões de 2014. Já afastado da carreira diplomática e vivendo no Rio de Janeiro, foi eleito para a cadeira de número 9 da Academia Brasileira de Letras, em 27 de julho de 2000, tendo sido presidente de entidade de 2002 a 2003. Em 2004, foi escolhido pela União Brasileira de Escritores (UBE) e pelo jornal Folha de S. Paulo como o Intelectual do Ano, recebendo o Prêmio Juca Pato. Foi também sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

Como diplomata, ocupou relevantes funções em Brasília, tendo servido inicialmente nas embaixadas em Lisboa, Washington, Caracas, Madri e Roma, antes de ser embaixador na Nigéria (1979-1983) e cumulativamente em Cotou, Benin (1981-1983), em Portugal (1986-1990), na Colômbia (1990-1993) e no Paraguai (1993-1995). Em nota a propósito de seu falecimento, o Ministério das Relações Exteriores destacou a sua valiosa e extensa contribuição diplomática que o tornou “um dos artífices da política externa brasileira para a África”.

Viúvo, deixou três filhos, todos vinculados ao Itamaraty – a embaixatriz Elza Maria, casada com embaixador João André Dias Lima, e os embaixadores Antônio Francisco e Pedro Miguel –, sete netos e uma bisneta. Foi casado com Vera Queiroz da Costa e Silva, falecida em 2011, premiada pela tradução de O Mundo se Despedaça (São Paulo, Companhia das Letras, 2009), romance de estreia do nigeriano Chinua Achebe (1930-2013), um dos mais importantes da literatura africana do século XX. A ela, dedicou os versos de Ao lado de Vera. Adelto Gonçalves - Brasil

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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), e O Reino a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 


domingo, 10 de setembro de 2023

Cem anos de Natália Correia: a criação literária e a intervenção política de uma mulher única

A expressão de Natália Correia (1923-1993) constituiu sempre um espetáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo. Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria. No centenário de seu nascimento, que se assinala na próxima quarta-feira, recordamo-la. (Texto publicado originalmente na revista do Expresso nº 2654, vol. 2, Lisboa, edição de 9 de Setembro, 2023)


Era uma força da natureza que desejava manter-se na íntegra. Mas só o pôde enquanto a saúde lhe permitiu. Natália Correia queria o impossível: continuar com o porte altivo, imponente, olímpico e a elegância física que faziam parar o Chiado, ou onde quer que passasse. Contudo, os últimos anos foram penosos. Fumar cigarros uns a seguir aos outros e ter apetite devorador para jantares opíparos e ceias pantagruélicas tem o seu preço. As caricaturas do Vasco não foram impiedosas. Um cartunista com força de Vasco podia ter sido muito mais cruel.

Nasceu a 13 de setembro de 1923, na ilha de São Miguel dos Açores, na freguesia da Fajã de Baixo, próximo da cidade de Ponta Delgada. O país mergulhara na turbulência social, na agitação política e na indisciplina militar. A crise financeira acentuava-se. As sucessivas alterações governamentais, na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler começavam a alastrar na primeira metade do século XX, um dos séculos mais trágicos e mais contraditórios da História. Foi neste quadro que se consolidou e expandiu o fascismo, o nazismo, o salazarismo e o franquismo.

Desenvolveu-se, partir de então, a indomável personalidade de Natália. Pai e mãe entraram em rutura quando tinha alguns meses. O pai emigrou para o Brasil. A mãe, Maria José Oliveira, professora primária que assimilou os valores cívicos e culturais da República, adquiriu formação laica e tendências libertárias. Colaborou em jornais e revistas. Frequentou tertúlias literárias e políticas, mas, desde sempre, preocupou-se com a educação das filhas: Carmen e Natália. Incutiu-lhes os princípios da liberdade, da independência, da solidariedade humana, os valores universais que fundamentam uma sociedade democrática.

O salazarismo arrancara com o patrocínio de um sector decisivo das Forças Armadas, da Igreja Católica — ferida pelas leis da República — e o contributo do poder financeiro e económico. A instauração da Censura, a vigilância sistemática da polícia política e o apoio incondicional de tribunais especiais reprimiram a opinião pública e silenciaram os vários sectores da oposição. Foi em 1934 que a mãe de Natália e de Carmen se instalou, definitivamente, em Lisboa.

Procurou dar às filhas outros horizontes. “Sendo uma intelectual que não se pôde realizar inteiramente devido ao meio e às circunstâncias — recordou Natália — quis preparar-nos.” Entendia que “o desenvolvimento intelectual da mulher corresponde a uma atitude social”. “A permanência em São Miguel, mesmo na cidade de Ponta Delgada, não reunia condições para nos desenvolver.” (...) era “um meio muito exíguo.” Natália Correia ainda passou pelo Liceu de Ponta Delgada; frequentou em Lisboa o Liceu Filipa de Lencastre, mas sem qualquer aproveitamento. Ficou, apenas, com o primeiro ciclo dos liceus.

Mostrou-se refratária aos métodos de ensino. Ela própria o declarou que “não podia aceitar regras impostas de fora: eu é que as tinha de criar”. A passagem pelos liceus foi, segundo as suas palavras, de “ave migratória”. O problema não se colocava, apenas, em São Miguel. Em Lisboa repetiu-se a mesma situação: os métodos eram semelhantes. A escola não constituía um espaço de formação. O ensino tinha de ser um ato de participação e cidadania, para habilitar os alunos a pensar e a interrogar o mundo.

Primeiras asas

Natália tornou-se, aos 22 anos — no esplendor da juventude —, uma figura de Lisboa ligada aos acontecimentos literários e políticos que permaneciam na ordem do dia. Nesta primeira fase — dos anos 40 aos anos 50 — conciliou o jornalismo, a literatura e a política. Ainda colaborou no Rádio Clube Português. Integrou-se nos círculos da oposição democrática.

Três jornalistas micaelenses, amigos da mãe, que trabalhavam em Lisboa, estimularam as aspirações de Natália. Trata-se de Rebelo de Bettencourt (1894-1969) amigo de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros, antigo chefe de redação do “Portugal Futurista” e que se acomodou, depois, a chefiar a redação da “Gazeta dos Caminhos de Ferro” e da revista “Viagem”; e o padre Diniz da Luz (1915-1988), antifascista e exaltado e antigermanófilo tempestuoso, embora redator do jornal “A Voz”, um dos diários monárquicos, católicos, ultraconservadores, onde se preparou a conspiração para implantar a ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, e introduzir , depois, o salazarismo.

Em 1946, Natália, principiou no quinzenário “Portugal Madeira e Açores”, empenhado na defesa dos interesses das então chamadas “ilhas adjacentes”. Chefiava a redação outro amigo da mãe: Breno de Vasconcelos (1909-1993), oriundo do “Correio dos Açores”, o memorialista do livro “A Paz Cinzenta” (1979).

Colaborou, depois, no semanário “O Sol”, fundado e dirigido por Alberto Lello Portela, (1893-1949), antigo político e parlamentar republicano e um dos militares que ingressaram nos primórdios da aviação.

Destacou-se com seu irmão, o advogado Raul Lello Portela, nos combates da oposição ao salazarismo. A chefia da redação de “O Sol” era assegurada por Alves Morgado (1901-1980), um outro profissional, conhecedor das regras do ofício. A distribuição de trabalho à redação (inclusive o desporto), nas relações com os colaboradores, nos contactos com a tipografia e na revisão escrupulosa de textos.

Tinha a colaboração de grandes nomes, como António Sérgio e Maria Archer, que deram visibilidade mediática a “O Sol”. Acrescente-se: Sérgio vacinou Natália contra o PCP e os outros núcleos marxistas e comunistas.

Natália falava e escrevia com desembaraço inglês e francês. Escreveu sobre política nacional e internacional: analisou as consequências da guerra de 1939 a 1945; as diretrizes de Mussolini e de Hitler, os efeitos do nazismo, os fundamentos do Reich, as extensões do fascismo na Europa (e a sua) disseminação em Portugal, na classe política e militar. Também escreveu sobre literatura e arte. Publicou um romance, um livro de poemas e um livro de reportagem e de crónicas de viagens.


O veneno da política

Herdou também da mãe — opositora declarada do salazarismo — o interesse pela política. Até à morte, a política constituiu uma solicitação irresistível: a ânsia incontrolável de possuir informação, em cima da hora, o desejo de partilhar nos debates e a disponibilidade para se embrenhar nas possíveis conspirações, num país repleto dos condicionalismos que se prolongaram até ao 25 de Abril.

Subscreveu as listas do MUD que reclamavam a reposição das liberdades e garantias fundamentais. Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos, deslocou-se, expressamente, a Ponte de Lima, para entrevistar o general, na sua casa de férias.

Participou, em 1958, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, concedendo uma entrevista explosiva ao “Diário Ilustrado”. Apoiou outros movimentos, entre os quais a ocupação do navio “Santa Maria”, comandado por Henrique Galvão, para acelerar a queda de Salazar e para pôr termo à política colonial. Nas primeiras eleições do consulado de Marcello Caetano, em 1969, colaborou com Mário Soares e Salgado Zenha na formação da CEUD, em luta com o MDP/ CDE, que incorporava comunistas e outros radicais de esquerda. Incluindo os chamados “católicos progressistas”.

Apesar de toda esta intervenção, ao surgir o 25 de Abril, os dirigentes partidários recearam convidá-la. Era imprevisível e um perigo iminente, em momentos delicados e complexos. Na linhagem das “Cantigas de Escárnio e Maldizer”, Natália Correia criou as “Cantigas de Risadilha”, para escarnecer a classe política. Não poupou amigos como Mário Soares e o Partido Socialista: “Já não sei se é país se é orfanato/ pois nem vela, nem reza, nem sabá/impede que em berreiro ou desacato/ ande tudo à procura do Papá”. (...) “Tinha o PS pai. Mas o Marocas/ mandou alguns filhotes para o galheiro/ e do partido por trocas e baldrocas,/ já não consegue ser o pai inteiro”. (...) “nesta lusa farronca sem vintém,/ neste muda que muda sem mudança,/ venha o que venha, há de lixar-se quem/ do salsifré tiver a governança”.

Em termo desdenhoso alvejou Freitas do Amaral: “muito a preceito dos cristãos fervores/ do CDS, o Lucas é o retrato/ De um menino Jesus entre os doutores/ A meter mestre Freitas num sapato”. Devido ao insólito mergulho no Tejo e outras peripécias não escapou Marcelo Rebelo de Sousa, o “picareta falante”: “o Marcelo neste mapa/ a brincar aos cowboys não há nenhum./ passa rasteira: o mais subtil derrapa;/ dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.” Sempre que podia dissecava o poder político e a rotina social. Zurziu as prosápias de fidalguia; os vícios e as vilezas dos novos e novíssimos ricos, os intelectuais e artistas enfatuados, os políticos arrivistas e corruptos. Execrava, ruidosamente, a ignorância e o fanatismo.

Estreitou amizade com Francisco Sá Carneiro, ao apadrinhar a aproximação íntima com Snu Abecasis. Assim, só em 1979, por insistência de Francisco Sá Carneiro, ingressou na Aliança Democrática. Finalmente, passou a ser deputada pelo PSD. Assumiu, como era de presumir, posições em divergência frontal com a linha de orientação política e religiosa da quase totalidade do PSD e do CDS.

A defesa do aborto deu lugar a uma intervenção de Natália que agitou a Assembleia da Republica. Ficaram célebres os seus versos, ao arrasar o deputado do CDS João Morgado, por ter proferido, no auge do debate parlamentar sobre a legislação sobre o aborto, a afirmação perentória que “o ato sexual é para fazer filhos”. Natália não se conteve e escreveu, de jato, um poema que circulou, em todo o país, até porque sairia, no dia seguinte, no “Diário de Lisboa”: “Já que o coito — diz Morgado — /tem como fim cristalino, /preciso e imaculado/ fazer menina ou menino;/ e cada vez que o varão/ sexual petisco manduca,/ temos na procriação/ prova de que houve truca-truca./ Sendo pai só de um rebento, /lógica é a conclusão/ de que o viril instrumento/ só usou — parca ração! — / uma vez. E se a função/ faz o órgão — diz o ditado —/ consumada essa exceção,/ ficou capado o Morgado!”

Confirmaram-se todas as apreensões. Nem o PSD lhe renovou o mandato, nem o PS — à frente do qual estava Jorge Sampaio — aceitou a proposta de entrar nas listas. Natália aderiu, então, ao Partido Renovador Democrático (PRD), que se constituiu sob a égide de Ramalho Eanes. Porque nada mais lhe restava, em 1992, cerca de um ano antes de falecer, juntamente com José Saramago e Luís Francisco Rebelo, entre outros, integrou a Frente Nacional Para a Defesa da Cultura (FNDC). Foi no segundo mandato presidencial de Mário Soares. Tinha por objetivo denunciar violações à liberdade de expressão, à ausência de pluralidade e diversidade na cultura e exigir uma estratégica para a real democratização do país. Os mal-entendidos e os conflitos reacenderam-se. O projeto extinguiu-se.

O percurso literário

Os primórdios da escrita de Natália Correia aproximam-se, em alguns aspetos, do neorrealismo. Demarcou-se, todavia, deste movimento literário e político. Ela própria explicou a sua opção: “Se pus ‘Anoiteceu no Bairro’ (romance da sua autoria, de 1946) à margem, não foi por ter sido escrito numa fase imatura da minha vida, mas porque o entendo inautêntico. Embora o livro corresponda a preocupações ideológicas que mantenho, não estou interessada em fazer literatura programada.” Era da opinião que, entre nós, “se fizera neorrealismo de empréstimo, de segunda mão” (...) “não se agitaram as pessoas e as instituições de forma a tornar visível o lodo depositado no fundo”(...) “Houve o medo” — concluiu — “de se realizar sequer um realismo a sério, porquanto este exige uma descida ao inferno e não vejo por aí quem se atreva além do purgatório”. Por isso se afastou do neorrealismo, cortou com a orientação literária e política de escritores portugueses que o representavam, muitos dos quais pertenciam ao Partido Comunista ou estavam próximo dele. Foi ainda mais explícita: “Não podemos competir — insistiu — com os mestres do neorrealismo americano e europeu, que, bons ou maus, para quem aprecia o género, já disseram a última palavra.”

Seguiu outro caminho que prosseguiu, com variantes óbvias. Passou a estar próxima do surrealismo. Já tinha relações pessoais com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, Alexandre O’Neill, Manuel de Lima, Mário Henrique Leiria e David Mourão-Ferreira. Acrescente-se Luís Pacheco, editor dos surrealistas e de livros de Natália nesta fase literária: “Dimensão Encontrada” (1957), “Passaporte” (1958), “Comunicação” (1959) e, mesmo, “O Canto do País Emerso” (1961).

A propósito da ligação ao surrealismo e aos surrealistas portugueses fez questão de observar: “Se existe qualquer relação entre a minha poesia e o surrealismo é francamente a posteriori, isto é para os que quiserem vê-la. Quanto a procurarem antecedentes, também temos por cá outros mais à mão que foram surrealistas sem pensar nisso: Gomes Leal e Sá Carneiro.”

A criação de Natália, sempre avessa a códigos literários e estéticos, verificou-se nos livros de poemas, nos romances, nas memórias, nas peças de teatro e nos ensaios, nasce e expande-se, em todos os sentidos, mergulha na complexidade do mundo, umas vezes numa interpelação provocatória, outras em torno das mais ínfimas e subtis realidades. Em suma, um todo bastante diverso, mas coeso, nas suas afinidades eletivas.

O último salão de Lisboa

Mesmo em vida, Natália Correia já pertencia à História de Lisboa. Residia num quinto andar do número 52 da Rua Rodrigues Sampaio, entre a Rua de Santa Marta e a Avenida da Liberdade. Ali permaneceu 40 anos, desde 1953 a 1993. Ali faleceu a 16 de março de 1993, horas depois de chegar a casa, ao regressar do Botequim. O lendário diretor do “Diário de Notícias” Augusto de Castro repetiu, até à exaustão, em livros, discursos e editoriais, que o “último salão literário de Lisboa” fora a casa, em Santa Catarina, de Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). É certo que marcou um tempo cultural, mas cada época tem o seu salão literário.

Na segunda metade do século XX, a casa de Natália Correia, entre várias outras, foi um espaço privilegiado de convívio, rodeado de uma fabulosa biblioteca, de notáveis obras de arte e de surpreendentes peças de arte decorativa. A hospitalidade afetuosa conjugava-se com a estatura intelectual dos convidados de Natália, em noites inesquecíveis que avançavam pela madrugada. Durante a passagem por Lisboa ofereceu receções a Marcel Marceau (que entrevistei, em 1959, ao lado de Natália, para o jornal “República”); ao poeta russo Ievtuchenko, ao poeta Henri Michaux; e, já no Botequim, ao jornalista e escritor Dominique de Roux, autor do enigmático romance “O Quinto Império”; e ainda aos escritores americanos Graham Greene e Henry Miller.

Visceralmente açoriana

Ficou sempre agarrada aos Açores. Nasceu, viveu e morreu açoriana. Um dos seus muitos poemas de forte componente insular resume-se nestes versos: “Para Lisboa me trouxeram/ não de uma vez e embarcada:/ minha longa matéria foi/ pouco a pouco transportada./Recém-vinda de ficada/ em morosa maravilha,/ sempre a chegar a Lisboa/ e sempre a ficar na ilha”.

Num dos seus livros mais emblemáticos, “Não Percas a Rosa”, encontramos sucessivas recordações da infância e da adolescência associadas a memórias gustativas, olfativas e visuais como, por exemplo, o cozido das Furnas sempre com inhames e maçarocas de milho. Desce mesmo ao pormenor: “Cozidas na terra fervente e mole à beira da Lagoa e que depois comemos numa mesa de pedra sob as plumas dos fetos; por entre colinas de pedra pomes, líquenes, musgos, mantos verdes que pendem dos ribanceiros onde se abrem as alas rosadas e azuis das hortênsias.” Ficou a ser, por vários motivos e até ao fim, uma ilha dentro da sua própria ilha.

O Botequim

Multiplicaram-se as dificuldades financeiras. O marido, Alfredo Machado, um jogador compulsivo, deixou de ter os recursos para manter uma vida aparatosa para Natália possuir em casa um salão — o seu palco doméstico — para receções faustosas e requintadas.

Em 1971, Natália, com o marido e a escultora Isabel Meyreles fundaram, no Largo da Graça, onde existiu em tempo uma carvoaria, um bar restaurante que lhe permitiu um novo espaço para voltar a pontificar. Tinha necessidade permanente de espetáculo. Chamava-se O Botequim, um nome que remetia para os cafés e restaurantes de Lisboa, do século XVII, do tempo de Bocage, da implantação do regime liberal e da independência do Brasil.

Rapidamente, O Botequim ganhou a maior notoriedade. Existiam (e existem) outros centros de convívio e de conspiração: o Snob, na Rua do Século; o Procópio, nas Amoreiras; o After Eight, na Praça das Flores. Nenhum deles, comparável a O Botequim.

Concentravam-se no Botequim poetas e escritores de várias tendências. Políticos de todos os quadrantes. Deputados, ministros, atuais ou futuros, presidentes da República. Representantes da FLAD, o movimento da independência dos Açores. Incorporou as fases conturbadas do processo revolucionário e contrarrevolucionário que vivemos na sequência do 25 de Abril.

Encontrava-se Natália envolvida, em 1971, em controvérsias políticas e literárias que deram brado em todo o país. Desencadeara no consulado de Salazar e na “primavera marcelista” duas ruidosas polémicas que a levaram à barra do Tribunal Plenário de Lisboa. O primeiro processo, motivado pela introdução e coordenação da “Antologia de Poesia Erótica e Satírica” (1965). O segundo processo devido à responsabilidade editorial das “Novas Cartas Portuguesas” (1972), da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Ambos os livros desencadearam o alarme da Censura e a imediata apreensão da PIDE. Natália foi julgada e condenada, ao cabo de nove anos de guerrilhas judiciais. O 25 de Abril determinou o ponto final.

A presença carismática de Natália pontificou, no Botequim, durante mais de 20 anos. Com a morte de Natália, morreu o Botequim. Revive, contudo, no livro de Fernando Dacosta “O Botequim da Liberdade” (Lisboa, 2013). Na “Fotobiografia de Natália Correia”, de Ana Paula Costa (2006) e na extensa biografia romanceada de Filipa Martins “O Dever de Deslumbrar” (2024). Um facto, porém, é incontestável: malograram-se as tentativas de revitalizar o Botequim. Com a morte de Natália, o Botequim ficou morto e enterrado.

Ela e só ela

A memória de Natália perdura na sua obra. Pouco antes de falecer reuniu as poesias completas em dois volumes e com o título genérico “O Sol das Noites e o Luar dos Dias” (1993). Clara Rocha classificou nesta síntese lapidar: “O retrato de uma voz que se modula nos sons da fúria ou da emoção lírica, do riso ou da mágoa, da saudade e da vivência, mas que estremece e, livre, resiste, se transforma e transforma.”

O nome de Natália encontra-se consagrado em ruas, de Lisboa e dos Açores, em diversas bibliotecas, no repertório musical de Carlos Alberto Moniz e num café de Angra do Heroísmo e com a seguinte lápide: “Quando me derem por morta/ de lágrimas nem uma pinga:/ um trevo de quatro folhas/ tenho debaixo da língua./ Está em regra o passaporte./ Venha o limite de idade/ não me chorem, não é morte/ é só invisibilidade./ Túnel, poço ou espiral/ suga a alma. Fica o corpo./ Vai-se a cópia sideral/ e isso não é estar morto.”

As comemorações centenárias — a realizar de 2023 a 2024 — em Portugal, em França e noutros países vão, mais uma vez, demonstrar que está viva.

Recuperado o espólio de Natália Correia

O património familiar de Natália resumia-se aos bens de um tio, irmão do pai, o padre Francisco Oliveira Correia, muitos anos pároco da freguesia da Achadinha, na costa norte da ilha de São Miguel. Acumulou bens patrimoniais e depósitos bancários. Era extremamente conservador. Como poderia aceitar a separação da mãe do pai, a rebeldia literária e política de Natália e, ainda por cima, três casamentos civis consecutivos? — com Dias Ferreira, em 1949; com William Hylen, e com Alfredo Machado, um homem muito mais velho (e a partir de 17 de março de 1990 viria ainda a casar com um amigo íntimo de longos anos, o poeta e realizador Dórdio Guimarães). O resultado foi óbvio. O advogado José de Medeiros Tavares (1899-1986), da Ribeira Grande, a meu pedido, sem levar quaisquer honorários, consultou as possíveis disposições testamentárias. Obviamente, Natália e a irmã ficaram sem hipótese de se habilitar aos bens móveis e imóveis. No início do livro “Não Percas a Rosa” (1978), Natália aludiu ao tio com o maior desdém.

Pertenciam ao colecionador Manuel Cardoso Martha — a quem Natália, na casa da Rodrigues Sampaio deu acolhimento no final da vida — a biblioteca, os quadros, óleos, guaches, desenhos, esculturas e objetos raros de arte decorativa. Era amigo de sua mãe e também o professor de Natália que, durante anos, contribuiu para que ficasse com uma sólida cultura intelectual. Apurou-lhe os conhecimentos de língua portuguesa. Desenvolveu-lhe os rudimentos de francês e inglês, que passou a falar e a escrever corretamente.

O viúvo de Natália, o poeta e realizador Dórdio Guimarães, viria a ser o herdeiro natural de todos os bens de Natália que eram de Cardoso Martha. Após a morte de Dórdio Guimarães, que fizera 16 testamentos, Luís Fagundes Duarte, na altura diretor regional da Cultura, decidiu avaliar a importância da biblioteca. Como solução de emergência mandou fotografar cada uma das prateleiras das numerosas estantes. Incumbiu o advogado Álvaro Monjardino de clarificar este processo. Por tudo isto o espólio distribuiu-se por São Miguel, para a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada; pela Biblioteca Nacional de Lisboa e pela Sociedade Portuguesa de Autores. Evitou-se o roubo e a dispersão. Manuel Cardoso Martha (1882-1958) figueirense dos quatro costados, lecionava em Lisboa na Escola Fonseca Benevides. Antigo seminarista, com profundo conhecimento das humanidades clássicas da literatura portuguesa e das várias literaturas europeias, Cardoso Martha era um notável erudito, bibliógrafo, bibliófilo, colecionador de manuscritos e de livros raros e antigos.

Entre numerosos manuscritos encontrou-se uma coleção de poesias — cuja capa reproduzimos — com o título “O Purgatório dos Poetas: Poesias Eróticas d’Alguns Escritores Portugueses dos Séculos XV a XIX / Coligidas por Cardoso Martha — 1935”. Revista e acrescentada com autores contemporâneos, viria a constituir a polémia “Antologia de Poesia Erótica e Satírica”, coordenada por Natália Correia e editada por Fernando Ribeiro de Melo. A herança de Cardoso Martha — que organizou em 1912 e 1913 no Grémio Literário o I e II Salão dos Humoristas — possuía desenhos, aguarelas e guaches de Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Christiano Cruz, Jorge Barradas e outros participantes no primeiro modernismo.

O então presidente e vereadores da Câmara da Figueira da Foz fizeram diligências para que todo esse acervo literário e artístico ficasse depositado no Museu Santos Rocha, na altura a cargo de Vítor Guerra. Consultados os advogados Manuel João da Palma Carlos e Luís Francisco Rebello, amigos de Natália e do marido Alfredo Machado, apenas terão sido entregues à Figueira da Foz livros e opúsculos relacionados com a cidade e o seu concelho. Um tema ainda a investigar. António Valdemar – Portugal in “Blog de São João del-Rei”

António Valdemar - Jornalista e investigador, sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3.




sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Um inventário dos poetas católicos do Brasil

                                                                    I

Um excepcional inventário sobre a produção dos principais poetas católicos do Brasil é o que o leitor irá encontrar em Os Fios da Escrita - ensaios literários (Itabuna-BA: Editora Mondrongo, 2020), de Adalberto de Queiroz, poeta, jornalista e ensaísta, que foi empresário no ramo de Tecnologia da Informação por 26 anos. É reparada assim uma injustiça, pois a poesia escrita por poetas católicos brasileiros, que tanta repercussão teve nos anos de 1930 a 1960, nas últimas décadas, havia sido, praticamente, excluída do alvo da crítica, ainda que continue a ser apreciada por alguns poucos jovens leitores.

Para Queiroz, há um “quarteto sagrado” da poesia feita por católicos no Brasil do século XX: Jorge de Lima (1893-1953), Murilo Mendes (1901-1975), Tasso da Silveira (1895-1968) e Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). A esse grupo, porém, o ensaísta acrescenta Cecília Meireles (1901-1964), Manuel Bandeira (1886-1968) e Lúcio Cardoso (1912-1968). Desses, reconhece, apenas o paranaense Tasso da Silveira é menos conhecido, sendo mais estudado nos círculos acadêmicos de letras de Curitiba e do Rio de Janeiro, onde foi professor.

Segundo o ensaísta, na tradição da inteligência católica, de Jorge de Lima, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt, “há uma fortuna crítica significativa, menor no caso de Schmidt, mas ainda assim representativa no levantamento que se fez antes e durante o cinquentenário de sua morte em 2015”. Para Queiroz, conhecidos por um semicírculo de iniciados na poesia, os chamados “poetas de Deus” criaram uma lírica que continua viva e digna de ser realçada ante o olhar do público leitor e da crítica literária do século XXI. “Mesmo se diminuta essa contribuição, pode a iniciativa servir à crítica (e aos poucos leitores de poesia) de nosso tempo, como uma espécie de penitência, pela nossa culpa por tão longo silêncio”, observa no primeiro ensaio de uma série de seis.

 

                                                                   II

Na primeira parte do livro – dividido em quatro –, o ensaísta dedica-se, entre outros autores, com especial enlevo, às obras de Gustavo Corção (1896-1978), outro grande pensador e romancista católico, e do argentino Jorge Luís Borges (1899-1986).  No ensaio “Gustavo Corção e o compromisso com o eterno”, traça um perfil do pensador e saúda a republicação de suas obras, cerca de quatro décadas depois de sua morte. E acrescenta que os artigos que constam de A Descoberta do Outro (Rio de Janeiro, Agir Editora, 2000) “eram provenientes desta farinha para as almas que mistura Léon Bloy, Ortega y Gasset, seu amigo e antípoda Alceu de Amoroso Lima, Oswald de Andrade, Georges Bernanos e Machado de Assis a questões sociais e musicais, de Mozart ao comprimento das saias, do conserto de automóveis ao suicídio de Getúlio Vargas, tudo com a marca da alta cultura que marcou a passagem de Gustavo Corção pelas letras nacionais”.

De se lembrar é que este articulista, na segunda parte da década de 1970, ao tempo em que desempenhou o cargo de redator e subeditor da seção de Política do jornal O Estado de S. Paulo, entre as suas funções, estava a de preparar a coluna de Corção para publicação. Preparar significava ler o texto e adequar aqui ou ali alguma palavra às normas da redação do jornal e, depois, colar as folhas nas laudas e enviá-las para a composição no sistema nylonprint, que havia pouco substituíra a impressão a chumbo. Este articulista ainda recorda que o artigo de Corção vinha datilografado em folhas de papel de seda. 

Inconformado com o que a ditadura civil-militar (1964-1985) praticava naquele tempo, torturando e fazendo desaparecer adversários políticos, este articulista não se sentia bem naquela tarefa, até porque Corção era uma “figura de proa” em defesa de princípios que seriam usados indevidamente para justificar as arbitrariedades dos golpistas de 1964. Mas, hoje, com a lucidez que a idade traz, não pode deixar de reconhecer a importância do pensador católico, um dos maiores escritores da história da literatura brasileira.  E autor do romance Lições do Abismo (1953), aliás o único de sua autoria, que Menotti del Picchia (1892-1988) considerou “o maior livro de ficção que já se escreveu no Brasil”, como assinalou o ensaísta.

Sobre Borges, Queiroz cita o livro Borges Babilônico: uma enciclopédia (Companhia das Letras, 2017), do argentino Jorge Schwartz (1944), ex-professor deste articulista na Universidade de São Paulo (USP), que reúne mais de mil verbetes sobre o escritor, indispensável para quem quer conhecer a fundo a produção desse contista que se tornou universal. Mais adiante, observa que Borges é “um conservador que treina a mente para aforismos, frases lapidares e uma sabedoria silenciosa, mesmo quando faz uso de emissões radiofônicas e televisivas”, quando era obrigado a falar de si mesmo.

 

                                                                   III

Na segunda parte do livro, intitulada “Entradas e bandeiras (temas brasileiros)”, o autor não só dirige suas reflexões críticas sobre o “quarteto sagrado” citado acima, como ainda ajunta Lúcio Cardoso e Hermilo Borba Filho (1917-1976), todos de visibilidade formal e estética diferenciada, além de Dora Ferreira da Silva (1918-2006), até hoje pouco lembrada. Dedica ainda ensaios à produção de dois jovens poetas baianos:  Wladimir Saldanha (1977), responsável pelo texto de apresentação na contracapa do livro, e João Filho (1975). Deste último, diz que, além da carga poética que a região Nordeste legou à poesia brasileira, ele carrega em seus versos a tradição católica. Para João Filho, segundo o ensaísta, está reservado um lugar entre os grandes da poesia de nossa época.

Na terceira parte, “Legião estrangeira”, o autor reúne análises de livros de nomes consagrados mundialmente como Giacomo Leopardi (1798-1837), W. B. Yeats (1865-1939), Walt Whitman (1819-1892), Kazuo Ishiguro (1954), Flannery O´Connor (1925-1964) e V. S. Naipul (1932-2018), entre outros. Na última parte, “O mito e a sabedoria”, dedica-se a estudar mitos e símbolos na poesia, passeando pelas obras de estudiosos, como o romeno Mircea Eliade (1907-1986), o canadense Northrop Frye (1912-1991) e o sacerdote e teólogo belga Charles Moeller (1912-1986), ao mesmo tempo em que faz uma releitura cristã de grandes autores do século XX.


                                                                  IV

Adalberto de Queiroz (1955), nascido em Goiânia, foi educado como órfão em abrigo de Anápolis, de onde saiu em 1973 para cursar Física na Universidade Federal de Goiás (UFG). Em seguida, mudou-se para Porto Alegre, onde concluiu o curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Depois, retornou a Goiânia onde cursou Jornalismo na UFG. Pós-graduado em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, tornou-se empreendedor de sucesso na área de Tecnologia da Informação.

Deixando as atividades empresariais em 2014, dedicou-se integralmente às letras, assinando com o pseudônimo de Beto Queiroz coluna de ensaios literários na revista digital Recorte Lírico, de Curitiba. É autor também de Frágil Armação, poesia (1985), Destino Palavra, poesia (2016) e O Rio Incontornável, poesia (Editora Mondrongo, 2017). Organizou a antologia Literatura Goyaz (2015), que reúne poemas e minicontos de 46 autores. No final da década de 70, participou das antologias Qorpo Insano e Veia Poética.  É membro da Academia Goiana de Letras, ocupando a cadeira 32. Mantém o blog: https://betoqueiroz.com. Adelto Gonçalves - Brasil

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Os Fios da Escrita (ensaios literários), de Adalberto de Queiroz, com apresentação de Mariel Reis e Wladimir Saldanha. Itabuna-BA, Editora Mondrongo, 259 págs., R$ 45,00, 2020. Site: www.editoramondrongo.com.br E-mail: editoramondrongo@gmail.com

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela USP e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 




quinta-feira, 29 de abril de 2021

Cabo Verde – Espólio de Onésimo Silveira fica na Universidade do Mindelo

Mindelo – O reitor da Universidade do Mindelo (Uni-Mindelo) disse hoje que Onésimo Silveira deixou à universidade um espólio, com “uma bibliografia vasta”, que irá permitir a inauguração de uma biblioteca, dentro de 20 dias, com o nome do ex-autarca.

Segundo Albertino Graça, em declarações à Inforpress, poucas horas após o falecimento de Onésimo Silveira, ocorrido na manhã de hoje, 29 de Abril, no Mindelo, Silveira foi um dos promotores da ideia da criação da Uni-Mindelo e merece “todo o tipo de homenagem”, daí, adiantou, ter baptizado o auditório da instituição com o seu nome e ter-lhe atribuído o título ‘honoris causa’, que foi “uma grande honra”.

“Ele era um grande académico e merece um grande respeito, é um dos maiores políticos que apareceu em Cabo Verde e o que se faz de política hoje, no País, é fruto daquilo que Onésimo ensinou”, destacou.

Albertino Graça, que privou com Onésimo Silveira, revelou que a sua relação com o ex-presidente de câmara de São Vicente “era de pai para filho”. 

E, no âmbito dessa amizade, “praticamente uma relação familiar”, teve a oportunidade de lidar com Nelson Mandela e Joaquim Chissano, entre outras “grandes figuras históricas da humanidade”.

“Eu costumava dizer que eu era aquele filho que Onésimo Silveira gostaria de ter, pela forma carinhosa como ele me tratava e como me ajudava. Com ele tinha todas as portas abertas”, disse ainda o reitor da Uni-Mindelo.

A mesma fonte lembrou que o ex-autarca disse que “só sairia da política com a sua morte biológica e ele teve a oportunidade de fazer aquilo que gostava até à morte”, porque Onésimo Silveira, lembrou, esteve a apoiá-lo, “em toda a linha”, quando se candidatou nas autárquicas do passado dia 25 de Outubro.

Onésimo Silveira, 86 anos, nasceu em São Vicente e doutorou-se em Ciências Políticas, pela Universidade de Uppsala (Suécia), em 1976, ano em que começou a trabalhar na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Em 1977, transitou para a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) com o estatuto de diplomata, ali permanecendo até Dezembro de 1990, com passagens por países como Somália, Angola e Moçambique.

Em 1992, tornou-se o primeiro presidente eleito da Câmara Municipal de São Vicente, cargo em que permaneceu até 2001.

Em 2002, suspendeu o mandato de deputado à Assembleia Nacional e aceitou a nomeação para embaixador extraordinário e plenipotenciário de Cabo Verde em Portugal, Israel, Espanha e Marrocos.

A nível cultural, é considerado um dos mais proeminentes membros da elite literária cabo-verdiana, tendo muitos trabalhos publicados no campo da literatura (novela, poesia e romance) e do ensaio (política, sociologia e antropologia).

Onésimo Silveira também traduziu vários livros, entre os quais “Obras Completas de Mao Tsé Tung”, em parceria com Gentil Viana, e colaborava regularmente, com artigos de opinião, no jornal A Semana e em revistas de Cabo Verde, Portugal, França, Suécia e Noruega.

Fundou o Partido do Trabalho e Solidariedade (PTS), depois da ruptura com o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (ex-PAIGC) e nos últimos anos tornou-se uma das vozes mais activas pela regionalização do país.

Em 08 de Dezembro de 2012 foi distinguido com o doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Mindelo pelo “imenso contributo para a democratização” do País e pelo seu papel na “internacionalização do municipalismo cabo-verdiano”. In “Inforpress” – Cabo Verde

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Portugal – Eduardo Lourenço (1923 – 2020)


Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço foi um dos pensadores mais proeminentes da cultura portuguesa, escrevendo várias obras sobre a sociedade e identidade portuguesa. O Labirinto da Saudade (“discurso crítico sobre as imagens que de nós próprios temos forjado”, nas palavras do autor)​, Fernando, Rei da Nossa Baviera, Os Militares e o Poder são algumas das suas principais obras.

Eduardo Lourenço Faria nasceu em 23 de Maio de 1923, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Alta. O mais velho de sete irmãos, e filho de um militar do exército, frequentou a escola primária da aldeia onde nasceu e matriculou-se, posteriormente, no Colégio Militar, em Lisboa, onde concluiu o curso em 1940.

“Vindo de uma pequena aldeia e de uma família conservadora, encontrou em Coimbra um ambiente mais aberto e propício a uma reflexão cultural que sempre haveria de prosseguir”, refere o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses”, editado em 1998. Frequentou o curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde foi depois professor assistente. Emigrou para França em 1949, ano em que é publicado o seu livro de estreia, Heterodoxia I – “um dos mais nobres e perturbantes discursos ensaísticos de toda a nossa história literária”, classificou o professor e ensaísta Eugénio Lisboa.

Foi leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas Universidades de Hamburgo e Heidelberg, na Alemanha, e Montpellier, na França, depois professor de filosofia na Universidade Federal da Bahia, no Brasil. Também foi leitor a cargo do Governo francês nas Universidades de Grenoble e de Nice.

Na juventude escreveu poesia e narrativa, mas passou para uma literatura mais ensaística. “Em relação à ficção – com a minha falta de sentido do concreto – muito cedo pensei que não teria capacidade de me tornar naquilo que eu mais queria ser: um romancista, um ficcionista”, disse à revista Ler, em 2008.

Conhecia Dostoievsky, Kafka e Camus, mas o primeiro encantamento literário foi com Júlio Dinis, ainda criança. Husserl, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Sartre estavam nas suas primeiras leituras. Apesar destas referências, “a sua mundividência foi associada à de um certo existencialismo, sobretudo por volta dos anos 50, altura em que colaborou na Árvore e se tornou amigo de Vergílio Ferreira”, descreve o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. “Eduardo Lourenço nunca se deixou enfeudar, todavia, a qualquer escola de pensamento, já que, embora favorável a ideias de esquerda, nunca abandonou uma atitude crítica perante essa esquerda, facto sobejamente explícito em opiniões manifestadas no conturbado período pós-revolucionário”.

Apaixonado pela literatura, referia-se aos livros como “filhos” e dizia que “estar-se sem livros é já ter morrido”. Em 2008, nessa conversa com a Ler, dizia que “dificilmente” conseguiria imaginar o mundo sem livros em papel. “Bom, de qualquer modo os livros ainda estarão aí. Estarão aí, mas como museu. Em vez de termos uma biblioteca, que é uma floresta viva da memória humana, os livros estarão lá como espectros. Mas, enfim, podem ser ressuscitados pela leitura de cada um. Isso modifica a nossa relação com o mundo. Porque o relacionamento com os livros – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas. Faltará qualquer coisa quando a nossa relação com eles for puramente electrónica.”

E completava: “No livro a gente pode voltar atrás, andar para frente. Também podemos fazer isso com a imagem, provavelmente, mas há sobretudo esse tempo que é transportado fisicamente pelo livro. Esse pó que fica nos livros. O pó do tempo. Nos novos instrumentos não haverá pó. É só o que lhes falta. Esse pó quer dizer o tempo, quer dizer a própria essência da nossa vida.”

Entre as várias distinções que Eduardo Lourenço recebeu estão o Prémio Casa da Imprensa (1974), o Prémio Jacinto do Prado Coelho (1986), o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (1988), o Prémio Camões (1996), o Prémio Pessoa (2011), e o Prix du Rayonnement de la Langue et de la Littérature Françaises da Academia Francesa (2016). Em França, recebeu também a condecoração de Officier de l’Ordre de Mérite, Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres; em Espanha, a Encomienda de Numero de la Orden del Mérito Civil. Em Portugal, era Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, de que também possuía a Grã-Cruz, assim como da Ordem do Infante D. Henrique e da Ordem da Liberdade. Era também Oficial da Ordem Nacional do Mérito, Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e da Legião de Honra de França.

A missa de corpo presente decorre na quarta-feira, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, às 12h, sendo celebrada pelo cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, e pelo cardeal e bibliotecário da Santa Sé, Tolentino Mendonça, referiu fonte da Presidência da República à Lusa. In “Público” – Portugal com “Lusa”


 

terça-feira, 26 de junho de 2018

Agostinho da Silva, um pensador lusófono

                                                          I
O filósofo, poeta e ensaísta Agostinho da Silva (1906-1994) sempre teve múltiplos interesses, mas concentrou-se em áreas como literatura portuguesa e brasileira e as questões portuguesas, deixando obras, artigos e ensaios que o colocam hoje como um dos maiores – senão, o maior – pensadores luso-brasileiros do século XX. Em Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, volume I (Lisboa, Editora Âncora, 2000), que tem merecido reedições, o leitor encontrará textos pedagógicos e filosóficos, especialmente aqueles que apareceram a partir da década de 1950, embora possam ser encontrados alguns de décadas anteriores, mas que são suficientes para dar uma ideia geral do pensamento agostiniano.

Um dos textos que se destaca entre os 28 artigos, prefácios de livros e ensaios aqui reunidos é aquele que carrega o título “Ensaio para uma teoria do Brasil”, publicado originalmente na revista Espiral, nºs. 11-12, de 1966, em que o autor diz que “a grande base do retardamento do Brasil como civilização nova vai estar no ciclo do açúcar e, mais que tudo, no ciclo do ouro, que provoca o quase despovoamento de Portugal em homens, fixa no Brasil uma tão elevada percentagem de europeus que o equilíbrio anterior se rompe e se perde aquele hibridismo de cultura que se apresentava como tão promissor”.

Para Agostinho da Silva, a partir daqui, “o indígena passa a ser uma minoria que se elimina rapidamente e a lei de Pombal, banindo o uso do tupi, é o ponto culminante do drama brasileiro, que consiste essencialmente em ver-se arrastada pelas correntes de um mundo europeu, que lhe é estranho, a nação que estava ensaiando um teor de vida inteiramente novo”. Dessa maneira, passou o Brasil a ser o que Portugal foi a partir do século XV, “um país ocupado pelo estrangeiro, quer a ocupação se faça com o direito romano, a arquitetura renascentista ou a poesia do tipo italiano, quer se processe com instituições da Contra-Reforma, a política de linha maquiavélica e, mais diretamente, as tropas de ordenação austríaca trazidas pelo duque de Alba”.
Segundo o pensador português, “a melancolia portuguesa que nitidamente se estabelece nesta altura, embora haja, e devido a outras ocupações, raízes anteriores, passa ao Brasil, ocupado também por uma característica de vivência que de nenhum modo correspondia aos seus anelos íntimos e às suas mais profundas disposições”.

                                               II
Pois é essa melancolia que se faz cada vez mais intensa neste Brasil do início do século XXI, em que o País parece destinado a um futuro pouco promissor, de violência urbana desenfreada, sem políticos confiáveis que possam conduzir a Nação. O resultado disso é uma diáspora que pode repetir o fenômeno do século XVIII ao inverso, com os brasileiros seguindo cada vez em maior número para Portugal, em busca de uma vida mais tranquila, a ponto de hoje a outrora pacífica vila de Cascais estar a ponto de virar um bairro carioca. Até quando o pequenino Portugal vai aguentar essa “invasão” é que não se sabe.   

Nesse ensaio, Agostinho da Silva alertava ainda para a necessidade que o Brasil tinha de oferecer uma educação de massas, mas, como se vê, o alerta caiu no vazio. Hoje, a carreira de professor não atrai mais os jovens porque deixou de ser uma profissão digna, constituindo apenas um “bico”, ou seja, uma atividade-extra para reforçar o orçamento doméstico. E, como o professor está pouco capacitado para ensinar, aquele que aprende a ler (quase sempre apenas para ver o que aparece no visor do aparelho celular ou telemóvel), geralmente, mal entende o que lê porque, como dizia o pensador, não lhes cultivaram o hábito de “joeirar criticamente o que lê”.

Em outras palavras: sem educação de massas, enquanto as elites digladiam-se na rinha para arrombar os cofres públicos, para o resto da população sobra apenas o caos social, até porque a tecnologia – especialmente, a informatização – está reduzindo drasticamente os empregos e, por consequência, eliminando os consumidores do mercado interno. Ou seja, o que se afigura hoje para o Brasil é um futuro sombrio, de desregramento social, bem diferente daquele que Agostinho da Silva gostaria que fosse.

                                                           III
Nascido no Porto, George Agostinho Baptista da Silva, depois de concluído o ensino secundário, fez o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade do Porto de 1925 a 1928, diplomando-se doutor em Filologia Clássica em 1929, com apenas 23 anos de idade.  Naquele mesmo ano, publicou a sua tese de doutoramento e a obra Breve Ensaio sobre Pérsio, além de lecionar no Liceu Alexandre Herculano. Depois, partiu para Lisboa onde fez estágio na Escola Normal Superior (1930-1931).

Obteve bolsa para estudar História e Literatura na Sorbonne e no Collège de France (1931-1933). Em 1932, fundou em Lisboa o Centro de Estudos Filológicos da Universidade Clássica e passou a atuar também no Liceu José Estêvão, em Aveiro. Porém, em 1935, ao tempo do regime salazarista (1933-1974), foi demitido da função pública por ter se recusado a assinar declaração de repúdio ao comunismo. Ganhou bolsa para estudar em Madri, mas deixou a Espanha devido à aproximação da guerra civil (1936-1939).  De regresso a Lisboa, voltou a ensinar, desta vez no setor privado, no Colégio Infante Sagres.

Em julho de 1943, foi preso pela polícia política do regime salazarista, a Pide, e ficou na cadeia do Aljube, permanecendo incomunicável durante 18 dias. Depois de libertado, foi-lhe imposta pena de residência fixa que cumpriu em Portimão. Em 1944, partiu com a mulher e um casal de filhos para o exílio, na América Latina. Em 1945, foi para o Uruguai, onde lecionou História e Filosofia em escolas de Montevidéu.

Em 1946, já na Argentina, organizou cursos de Pedagogia Moderna para a Escola de Estudos Superiores de Buenos Aires. Em 1947, fixou-se definitivamente no Brasil, onde viveu até 1969 com a sua segunda mulher, a professora Judith Cortesão (1914-2007), filha do historiador Jaime Cortesão (1884-1960), da qual teve seis filhos.  

Entre 1948 e 1952, fixou-se no Rio de Janeiro, onde trabalhou no Instituto de Biologia Oswaldo Cruz, dedicando-se à investigação nas áreas de Zoologia, Entomologia e Parasitologia, além de ter lecionado Filosofia da Educação na Faculdade Fluminense de Filosofia. Associou-se a outros exilados portugueses, entre os quais se destacava Jaime Cortesão, com quem colaborou num estudo da obra de Alexandre de Gusmão (1658-1753).

Em 1952, mudou-se para João Pessoa a fim de ajudar a fundar a Universidade Federal da Paraíba, onde deu aulas de História Antiga e Geografia Física até 1955. Em 1959, juntou-se ao professor Eduardo Lourenço na Universidade da Bahia, onde ensinou Filosofia do Teatro e pôs em marcha o projeto de conhecimento da África Negra pelo Brasil, tendo fundado o Centro de Estudos Afro-Orientais.

Em 1961, foi nomeado assessor para a política externa do presidente Jânio Quadros (1917-1992). Em 1962, com Darcy Ribeiro (1922-1997), dedicou-se ao projeto da fundação da Universidade de Brasília e criou o Centro de Estudos Portugueses naquela instituição. Em 1963, com bolsa da Unesco, viajou para o Japão, onde deu aulas de Português. Conheceu ainda Macau e Timor e visitou os Estados Unidos e o Senegal.

Só regressou a Portugal após a morte de António de Oliveira Salazar (1889-1970). Depois do 25 de Abril de 1974, passou a lecionar em diversas universidades portuguesas, tendo dirigido o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa e desempenhado funções de consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, atual Instituto Camões.

Na década de 70, o governo brasileiro o aposentou do ensino. Mais tarde, ele dirigiu o Centro de Estudos Latino-Americanos. Tempos depois, o governo português restituiu-lhe os salários retroativos aos anos da ditadura salazarista. Despreocupado com a questão financeira, viajou, escreveu, recebeu medalhas e títulos, além de ter concedido muitas entrevistas a órgãos de imprensa. Faleceu em 1994, em Lisboa, aos 88 anos. Pouco antes de falecer, havia sido homenageado pelo embaixador do Brasil em Lisboa, José Aparecido de Oliveira (1929-2007).

É ainda autor de A vida de Pasteur (Seara Nova, 1938), Sanderson e a escola de Oundle (Inquérito, 1941), Moisés e outras páginas bíblicas (1945), Um Fernando Pessoa (Agir, 1958), Um Fernando Pessoa e Antologia de Releitura (Guimarães, 1959), Quadras inéditas (Ulmeiro, 1990), Do Agostinho em Torno do Pessoa (póstumo, 1997) e Uns poemas de Agostinho (póstumo, 1997), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil



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Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira – volume I, de Agostinho da Silva, com introdução de Paulo Alexandre Esteves Borges. Lisboa: Âncora Editora, 1ª edição, 350 páginas, 2000, 19,50 euros. E-mail: ancora.editora@ancora.editora.pt  Site: www.ancora-editora.pt
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br