Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 26 de abril de 2025

Estados Unidos da América - Luso-americanos alertam para risco de esquecimento do 25 de Abril

Cinquenta e um anos depois da revolução do 25 de Abril, luso-americanos que viveram a ditadura e emigraram para os Estados Unidos alertaram para a necessidade de preservar a memória e não deixar que as novas gerações se iludam

“Há uma tentativa de mitificar o salazarismo”, afirmou o professor Diniz Borges, num evento organizado pelo Instituto Português Além-Fronteiras, a que preside, na Universidade Estadual da Califórnia em Fresno.

“Tenho as memórias de uma terra pobre e triste”, contou, falando da sua origem numa pequena freguesia dos Açores, de onde saiu aos 10 anos.

No evento, intitulado “Revolução dos Cravos: Perspetivas de Portugueses na América”, o professor reformado José Luís da Silva considerou que há hoje uma “tentativa de limpar a imagem” de Salazar por certas franjas da sociedade.

“O tempo é perigoso, faz esquecer muita coisa e dourar o passado. Temos de evitar o saudosismo do antigo”, salientou. O vice-presidente da Luso-American Education Foundation lembrou que o regime usava o medo e o analfabetismo para controlar a população, e que em grande parte do país – incluindo a sua freguesia, Relva – não havia água canalizada nem eletricidade.

“Havia a Casa do Povo, a escola até à quarta classe e era isso”, apontou. “Era o regime do medo e do atraso com alguns avanços brandos, tudo muito pacato. Enquanto a Europa avançava, nós estávamos a marcar passo na Europa e no mundo”.

Também Anísio Correia, luso-americano que viveu a revolução em Portugal, apontou para o perigo da falta de memória e do ensino do que foi o regime ditatorial e como ele acabou.

“Tenho muito receio que as pessoas se esqueçam e comecem a idealizar um tempo horrível, antes da Revolução. E comecem a acreditar no que lhes dizem charlatães”, afirmou, realçando que há vozes que estão a crescer em influência e vendem uma visão do regime que não corresponde ao que realmente se passava.

Correia lembra que, nas primeiras eleições democráticas e livres em Portugal, a 25 de abril de 1975, foi atingido o recorde de participação de 91,7%, algo que é “impensável” hoje em qualquer democracia.

“Os problemas que agora surgem em Portugal são muito mais universais, são problemas e desafios à democracia que temos de ter em conta”, disse o consultor. “Espero que nós, como sobreviventes de uma época em que a democracia não existia, possamos dar o exemplo a quem não conheceu esse tempo”.

Ilídio Pereira, banqueiro que emigrou para os Estados Unidos em 1978, considerou que uma das maiores conquistas de Abril foi a eliminação da PIDE. “Ao ser extinta esta polícia de informação, tirou poder a quem a implantou e deu liberdade a quem a detestava”, apontou.

O movimento sindical que deu direitos aos trabalhadores e a liberdade de educação foram outros avanços importantes para o luso-americano, que se mostrou crítico da forma branda como a data tem sido assinalada na diáspora e até no país.

“Fico triste que haja autarquias em Portugal que não celebraram nada”, disse, referindo-se ao cancelamento de cerimónias devido à morte do Papa Francisco.

Pereira também notou que muitas associações portuguesas nos Estados Unidos preparam celebrações focadas na gastronomia, mas sem grandes referências ao 25 de Abril, algo que Diniz Borges confirmou.

“A falta de celebração do 25 de Abril pelo corpo diplomático português é assustadora”, afirmou o professor, reivindicando também maior atenção ao ensino de português na diáspora.

“Se Portugal tivesse investido no direito aos filhos dos imigrantes de aprenderem português, 50 anos mais tarde não tínhamos o problema que temos hoje”. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 9 de abril de 2023

Estados Unidos da América - Natália Correia vai ter cátedra na Universidade da Califórnia

A Universidade Estadual da Califórnia em Fresno vai lançar no outono de 2023 a Cátedra Natália Correia, através do Instituto Português Além-Fronteiras e no âmbito do curso de Literatura e Cultura dos Açores lecionado nesta instituição de ensino superior

Segundo disse à Lusa o diretor do Instituto, o professor luso-americano Diniz Borges, Natália Correia foi escolhida “por ser uma figura impressionante do século XX e vanguardista de muitas formas”.

Com orçamento do Instituto Português Além-Fronteiras e de membros da comunidade portuguesa no vale central da Califórnia, que expressaram intenção de apoiar a iniciativa, a cátedra vai motivar a organização de eventos e palestras com escritores ligados aos Açores.

“Queremos instituir uma espécie de ‘fellowship’ em que possamos trazer, em cada outono, um escritor para fazer uma série de palestras no âmbito desse curso e ter algum contacto com o mundo académico e a comunidade local”, descreveu o professor Diniz Borges.

“Um outro aspeto tem a ver com alguns eventos culturais em torno da Natália Correia, em torno da poesia e da literatura”, continuou, referindo que o âmbito será alargado a mais escritores portugueses. O objetivo é organizar dois eventos por semestre.

A Cátedra terá um conselho consultivo formado por um “grupo de intelectuais” que irá dedicar-se aos Açores e à obra da escritora nascida no arquipélago.

A ideia é também “tentar estimular alguma investigação” e apoiar a publicação anual de trabalhos de pesquisa sobre Natália Correia, o que deverá ser feito através da Bruma Publications, o braço editorial do Instituto Português Além-Fronteiras. Além disso, várias edições da revista literária Filamentos serão dedicadas à autora.

“Gostaríamos de incentivar a pesquisa sobre a obra da Natália e também traduzi-la e torná-la mais acessível ao mundo americano”, frisou Diniz Borges, lembrando que são poucas as obras da escritora açoriana que estão disponíveis em inglês.

A cátedra e os eventos relacionados serão praticamente todos em língua inglesa, até porque muitos dos alunos que tiram o curso não são de origem portuguesa – ou sendo, não dominam o português a um nível avançado.

A Universidade, localizada numa das regiões com maior concentração de comunidades luso-americanas na Califórnia, tem uma ‘minor’ em Português criada há três anos.

“Um dos intuitos é que a cátedra crie mais entusiasmo através da obra e do pensamento da Natália Correia”, indicou Diniz Borges, “e, ao mesmo tempo, tentar através da ‘fellowship’ mais apoios para que os alunos que façam a ‘minor’ tenham algumas bolsas, até mesmo para investigação e explorarem estudos ligados à Natália”.

O Instituto Português Além-Fronteiras (PBBI, na sigla inglesa) assinalou o quarto aniversário em fevereiro com uma palestra do embaixador de Portugal nos Estados Unidos, Francisco Lopes. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo com “Lusa”