Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 17 de março de 2026

China - Inverte fuga de cérebros com salários altos e laboratórios de topo

O Governo chinês está a atrair cientistas e investigadores de todo o mundo com salários competitivos e laboratórios de ponta, num momento em que disputa com os Estados Unidos a liderança tecnológica global

Para captar talento internacional, a China lançou programas como o “Mil Talentos”, que oferecem remunerações elevadas e bolsas generosas a especialistas em áreas consideradas estratégicas, sobretudo ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). A progressão na carreira e o acesso a infraestruturas avançadas também são fatores de atração.

“Na Europa estava preso no gargalo dos pós-doutoramentos. Fiz quatro, mas a minha experiência já estava muito mais avançada do que o meu perfil académico refletia”, disse à Lusa o investigador espanhol David Fernández-Blanco, que trabalha no Instituto de Ciência e Engenharia do Mar Profundo (IDSSE), na cidade costeira de Sanya, na ilha tropical de Hainan. “Aqui fui avaliado pelos meus méritos e ofereceram-me uma posição mais alinhada com a minha experiência”, acrescentou.

Fernández-Blanco é investigador associado no IDSSE, um centro dedicado ao estudo do oceano profundo, área considerada estratégica pelas autoridades chinesas. “O instituto tem três navios de investigação oceanográfica e dois submersíveis tripulados”, disse. “Para quem trabalha em investigação do oceano profundo, isso é fundamental”.

O acesso a equipamentos avançados permite realizar investigação diretamente no local onde os dados são recolhidos, algo que nem sempre é possível noutras instituições, salientou.

Não existem dados oficiais sobre o número de cientistas estrangeiros que se mudaram para a China ou de investigadores chineses que regressaram ao país. Ainda assim, notícias sobre académicos de alto nível que optam por trabalhar no país têm-se tornado mais frequentes.

A cadeia televisiva norte-americana CNN contabilizou pelo menos 85 cientistas que trabalhavam nos Estados Unidos em instituições de topo e que passaram a integrar laboratórios chineses a tempo inteiro desde o início de 2024.

Entre eles estão o especialista em fármacos contra o cancro Lin Wenbin, antigo investigador da Universidade de Chicago que se juntou à Universidade Westlake, e o matemático Qian Hong, que regressou à China após mais de 40 anos nos Estados Unidos, deixando um cargo de professor catedrático na Universidade de Washington para integrar a mesma instituição no leste do país.

Observadores classificaram este fenómeno como uma “fuga de cérebros inversa”, que pode favorecer a China num período de crescente competição com os Estados Unidos pelo domínio das indústrias do futuro.

Linglin Zhang, que ingressou na China Europe International Business School (CEIBS), em Xangai, após cerca de 20 anos nos Estados Unidos, afirmou ter sido atraída por uma investigação “mais pragmática” e pelo “excelente acesso a empresários e profissionais”.

Para Fernández-Blanco, outro factor importante é a autonomia científica. “Existe uma abordagem pouco interventiva. Há linhas de investigação definidas pelo instituto, mas ninguém está constantemente a verificar o que estou a fazer”, disse.

Alguns programas de recrutamento oferecem financiamento inicial significativo, que pode chegar a um milhão de yuan para criar um laboratório e formar equipas de investigação.

Entre as áreas que recebem mais investimento estão o espaço profundo e o oceano profundo, duas fronteiras científicas que exigem equipamentos caros e projetos de longo prazo. “São duas das grandes prioridades científicas neste momento”, afirmou Fernández-Blanco.

Além do interesse científico, estas áreas têm também importância estratégica. No oceano profundo existem depósitos minerais que poderão ser explorados, enquanto no espaço alguns asteroides podem conter de metais raros em abundância.

Apesar das oportunidades, barreiras linguísticas e culturais continuam a ser um desafio para investigadores estrangeiros na China. “Há formas de trabalhar diferentes das que conhecemos na Europa”, disse Fernández-Blanco. “Às vezes é preciso aceitar como as coisas funcionam”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 15 de maio de 2025

Internacional - Cientistas da Universidade de Coimbra recorrem a machine learning e reduzem em sete vezes o tempo de cálculo das estrelas de neutrões

As estrelas de neutrões são um dos objetos mais densos do Universo. Podem ser vistas como núcleos gigantes muito ricos em neutrões, mas a sua verdadeira composição ainda é uma incógnita: será que no seu interior os quarks estão desconfinados? Será que na sua composição além de protões e neutrões também existem hiperões, partículas parecidas aos nucleões, mas contendo um quark estranho?


 

Explorando o potencial do método de regressão simbólica, uma ferramenta no âmbito de técnicas de machine learning, que fornece relações algébricas entre diferentes propriedades, uma equipa de cientistas do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) obteve uma relação entre a massa máxima de uma estrela de neutrões e a sua equação de estado. 

Esta relação, descrita na revista científica Physics Letters B, reduz os cálculos computacionais por um fator de sete, numa das etapas essenciais da procura de modelos compatíveis com as observações. O cálculo utiliza a inferência de Bayes, que pode ser muito demorada, uma vez que é necessário resolver as equações diferenciais que determinam a massa e o raio da estrela para vários milhões de modelos. 

«Com os atuais dados experimentais e observacionais disponíveis e os dados que serão recolhidos nas próximas décadas, espera-se que a composição destes objetos seja finalmente desvendada», afirma Constança Providência, investigadora do Centro de Física da Universidade de Coimbra (CFisUC) e professora da FCTUC. «Extrair das observações astronómicas as propriedades da matéria que interage pela força forte, como a matéria nuclear, a altas densidades, é, no entanto, outro desafio», considera.  

As utilizações de métodos estatísticos revelam-se essenciais para o sucesso deste problema. No entanto, de acordo com os especialistas, determinar o modo como a matéria sujeita a densidades e pressões extremamente elevadas se comporta dentro destes objetos - isto é, qual é a sua equação de estado, partindo do conhecimento da massa e raio das estrelas de neutrões, é um problema complicado que exige muitas horas de cálculo, pela quantidade de modelos que têm de ser testados. 

«Num futuro próximo, esperamos que seja possível descodificar a equação de estado da matéria densa diretamente a partir do conhecimento preciso dos observáveis das estrelas de neutrões, utilizando estas técnicas computacionais avançadas, o que nos permitirá desvendar as propriedades da matéria bariónica a altas densidades. Assim, será possível saber a que densidades os quarks deixam de estar confinados aos nucleões e se a transição de fase para a matéria desconfinada é uma transição de primeira ordem», concluem os investigadores envolvidos.

O artigo científico “Inferring the equation of state from neutron star observables via machine learning” é uma colaboração conjunta entre os investigadores Tuhin Malik, Helena Pais e Constança Providência do CFisUC, juntamente com investigadores na China e na Índia. Universidade de Coimbra – Portugal


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Canadá - Cientistas apresentam carta aberta de 60 metros de comprimento ao governo Federal exigindo aumento

Centenas de cientistas e pesquisadores estiveram reunidos esta semana no Parliamnet Hill em Otava para pedir um aumento. Os organizadores do comício “Apoie nossa Ciência” apresentaram uma carta aberta ao primeiro-ministro Justin Trudeau e ao ministro da Ciência e Inovação François-Philippe Champagne que foi assinada por milhares de cientistas e mede mais de 60 metros de comprimento

O grupo diz que muitos bolsistas graduados e pós-doutorados recebem financiamento de três agências federais, mas muitas vezes as bolsas de estudo são inferiores ao salário mínimo. Eles também destacam que os estudantes de pós-graduação não têm um aumento desde 2003, e os bolsistas de pós-doutorado só tiveram um aumento salarial de 12,5% nestes 19 anos.

Por causa disso, muitos pesquisadores deixam o país ou abandonam suas áreas de atuação. O grupo quer que o governo federal aumente o valor deste financiamento em 48% para acompanhar a inflação desde 2003, e que crie 50% mais bolsas de pós-graduação e de pós-doutorado. In “Milénio Stadium” - Canadá


segunda-feira, 20 de junho de 2022

Portugal - Cientistas da Universidade de Coimbra criam dispositivo inovador para produção de energia a partir das ondas

Uma equipa da Universidade de Coimbra (UC) desenvolveu um dispositivo inovador para converter a energia armazenada nas ondas do mar em energia elétrica. A invenção já está protegida por patente internacional.

O dispositivo, designado REEFS, acrónimo de Renewable Electric Energy From Sea (energia elétrica renovável a partir do mar), resulta de oito anos de investigação desenvolvida no Laboratório de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente do Departamento de Engenharia Civil (DC), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).


Este conversor de energia das ondas desenvolvido na UC, já com patente internacional concedida, é um dispositivo costeiro modular que fica totalmente submerso, invisível à superfície do mar. «É apoiado em pilares e o resto do fundo do mar fica livre para todo o tipo de processos marinhos», explica o líder do projeto, José Lopes de Almeida.

Por outro lado, sublinha, é um dispositivo que «procura utilizar tecnologias que já existem, nomeadamente as turbinas de ultrabaixa queda que são aplicadas nos aproveitamentos mini-hídricos e que recentemente se tornaram competitivas em termos comerciais. É possível migrar essa tecnologia para o mar e aplicá-la precisamente para aproveitar os desníveis criados pelas ondas, que na nossa costa ocidental apresentam frequentemente alturas de 1 a 5 metros».

Basicamente, sintetiza o cientista, «o que o dispositivo faz é transformar o movimento alternado das ondas do mar num fluxo de água contínuo no interior do conversor REEFS. Esse fluxo, criado entre a crista e a cava das ondas, pode ser usado para acionar as referidas turbinas mini-hídricas de ultrabaixa queda», o representa um salto tecnológico considerável, pois «não precisamos de desenvolver uma tecnologia de raiz, podemos adaptar uma tecnologia hidroelétrica já existente».

Além disso, esta tecnologia contribui para mitigar a erosão costeira, uma vez que pode funcionar como um recife artificial, induzindo a rebentação precoce das ondas para assim retirar, logo à partida, alguma da sua energia antes que atinjam a linha de costa.


José Lopes de Almeida lembra que a investigação nesta área assume hoje particular relevância tendo em conta a atual conjuntura internacional causada pela guerra na Ucrânia. «A situação atual chama a atenção para a extraordinária vulnerabilidade da Europa em relação à sua dependência energética. Por exemplo, no caso de Portugal, o país importa ainda hoje cerca de 2/3 dos seus recursos energéticos.  Portanto, olhar para os recursos endógenos marinhos e procurar utilizá-los, criando valor para a economia, é um desiderato que se impõe, particularmente em Portugal, porque é um país que tem uma linha de costa bastante extensa relativamente à sua área territorial».

No entanto, para que esta solução tecnológica possa chegar ao mercado, ainda são necessários novos estudos e testes, esclarece o coordenador do projeto: «o conceito está provado. Demonstrámos em laboratório a transformação de toda a cadeia – desde a onda até à produção de energia elétrica. Contudo, para chegar à fase comercial, o dispositivo tem de ser otimizado e testado a escalas sucessivamente maiores até instalarmos um projeto piloto no mar, só depois é que poderemos passar à fase de comercialização da tecnologia».

Nesse sentido, a equipa, que, além de José Lopes de Almeida, integra Fernando Seabra Santos, Aldina Santiago, Maria Constança Rigueiro e Daniel Oliveira, está a concorrer a financiamentos, com o apoio da UC Business – Gabinete de Transferência de Tecnologia da UC –, que permitam efetuar uma instalação no mar, na costa portuguesa, «um passo muito importante para testar, em condições reais, a performance do dispositivo e avaliar todas as condicionantes que poderão advir da sua instalação em ambiente marinho».

Apesar do caminho que o projeto ainda tem pela frente, a estimativa é que, quando o produto estiver apto a ser instalado no mar, evoluirá em competitividade, como ocorreu com a energia eólica. «Do ponto de vista concorrencial, tem um potencial comparável ao da energia eólica, embora o mercado não seja tão abrangente, com a vantagem de não ter impacto paisagístico, proporcionar maior previsibilidade na produção e se localizar no litoral onde usualmente se concentra a maior parte da atividade económica», conclui José Lopes de Almeida.

O vídeo de apresentação do projeto está disponível aqui. Universidade de Coimbra - Portugal




segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Brasil - Cientistas rejeitaram receber medalhas dadas por Bolsonaro

Vinte e um cientistas propostos para uma das maiores honrarias do Brasil, a Ordem Nacional do Mérito Científico, renunciaram às medalhas após o presidente Jair Bolsonaro ter retirado da lista dois dos seus colegas, cujos trabalhos incomodavam o governo.

Um dos excluídos foi Marcus Lacerda, autor de um dos primeiros estudos sobre a ineficácia da cloroquina contra a covid-19. O outro foi Adele Benzaken (na foto) demitida da chefia do departamento de HIV/SIDA do Ministério da Saúde quando Bolsonaro assumiu a presidência, em 2019, depois que o departamento publicou uma cartilha voltada para os homens trans.

Em protesto, os cientistas rejeitaram as medalhas, em carta aberta. “É mais uma clara demonstração da perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do governo vigente”, escreveram.

“Este acto de renúncia, que nos entristece, expressa a nossa indignação frente ao processo de destruição do sistema universitário brasileiro e de Ciência e Tecnologia”. Adele Benzaken, directora da Fiocruz Amazónia, disse que se sentiu “extremamente honrada” com a decisão dos seus colegas de recusar as medalhas, ante o que chamou de “tratamento pouco elegante” dispensado a ela e a Lacerda por parte do governo. In Jornal Tribuna de Macau” - Macau


domingo, 6 de setembro de 2020

Lusofonia - Cartas com Ciência, abertas inscrições para o programa que envolve cientistas e alunos dos países de língua oficial portuguesa


Programas de troca de cartas entre cientistas e crianças nos países de língua oficial portuguesa



E se cientistas e estudantes trocassem cartas entre si durante um ano letivo?

Existem 9 países no mundo onde o português é língua oficial; 8 são países em desenvolvimento, 5 dos quais estão na lista da ONU dos Países Menos Desenvolvidos. A Cartas com Ciência cria conversas entre cientistas e crianças nestes países para mitigar barreiras e preconceitos relacionados com o ensino superior e carreiras científicas. A Cartas com Ciência é uma spin-off da Native Scientist, inspirada no projeto americano Letters to a Pre-Scientist, inaugurada no dia 5 de maio de 2020, o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Cartas com Ciência – saiba mais acedendo aqui.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Etiópia - Cientistas dizem ter encontrado um lugar onde não há vida



Lugar sem vida na Terra

Que a Terra está infestada de vida é algo que tem sido atestado uma vez após outra, com pesquisas nos locais menos amenos do nosso planeta.

Agora, contudo, uma equipe da Espanha e da França afirma ter encontrado o primeiro lugar na Terra onde nenhum organismo conhecido consegue sobreviver.

Jodie Belilla e seus colegas afirmam ter usado todos os métodos científicos disponíveis para confirmar a ausência total de vida nos lagos quentes, salinos e hiperácidos do campo geotérmico de Dallol, na Etiópia.

A paisagem estéril de Dallol, localizada na depressão etíope de Danakil, se estende sobre uma cratera vulcânica cheia de sal, onde emanam gases tóxicos, a água ferve em meio a uma intensa atividade hidrotermal e as temperaturas diárias no inverno superam os 45° C.

É um dos ambientes mais tórridos da Terra, com suas piscinas hipersalinas e hiperácidas apresentando até mesmo valores negativos de pH.

Vida extrema versus nenhuma vida

No início deste ano, uma equipe da Universidade de Bolonha, na Itália, apontou que certos microrganismos poderiam se desenvolver nesse ambiente multi-extremo (simultaneamente muito quente, salino e ácido), o que levou Barbara Cavalazzi e seus colegas a apresentarem Dallol como um exemplo dos limites que a vida pode suportar, propondo que ele seja um análogo terrestre adequado para o estudo da vida em outros planetas, assemelhando-se, por exemplo, ao planeta Marte em seus primórdios.

Agora a equipe franco-espanhola publicou um artigo que conclui o contrário.

Segundo esses pesquisadores, a conclusão de que não há vida nas piscinas infernais de Dallol foi confirmada pelos resultados de todos os vários métodos utilizados, incluindo o sequenciamento maciço de marcadores genéticos para detectar e classificar microrganismos, tentativas de cultura microbiana, citometria de fluxo fluorescente para identificar células individuais, análise química da salmoura e microscopia eletrônica de varredura combinada com espectroscopia de raios X.

"O que existe é uma grande diversidade de arqueias halofílicas [Archaea: um tipo de microrganismo primitivo que adora sal] no deserto e nos desfiladeiros salinos ao redor do local hidrotérmico, mas não nas próprias piscinas hiperácidas e hipersalinas e nem nos chamados Lagos Negro e Amarelo de Dallol, onde o magnésio é abundante. E tudo isso apesar do fato de a dispersão microbiana nessa área, devido ao vento e aos visitantes humanos, ser intensa.

"Em outros estudos, além da possível contaminação de amostras com arqueias de terrenos adjacentes, essas partículas minerais podem ter sido interpretadas como células fossilizadas, quando na realidade se formam espontaneamente nas salmouras, mesmo sem vida," afirmou Purificación Lopez Garcia, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS).

Vida em outros planetas

A equipe afirma que isso demonstra a necessidade de múltiplas indicações, de analisar todos os tipos de alternativas e de ser muito prudente com as interpretações, antes de se chegar a conclusões em astrobiologia.

"Não esperaríamos encontrar formas de vida em ambientes semelhantes em outros planetas, pelo menos não com base em uma bioquímica semelhante à bioquímica terrestre," disse Garcia.

Na verdade, ambos os estudos representam justamente essa busca por múltiplas interpretações, levantando discussões que mostram que o assunto está longe de uma palavra final - as manifestações dos especialistas nos sites acadêmicos mostram que ainda não há um consenso sobre se Dallol é mesmo o primeiro lugar conhecido na Terra "à prova de vida".

Além disso, como a equipe franco-espanhola reconhece, mesmo em Dallol, piscinas completamente estéreis se alternam com outras com condições biofísicas "ligeiramente melhores", que permitem a presença de arqueias e outros microrganismos, como os extremófilos, o que indica que menos prudente será indicar um corpo celeste como totalmente sem vida com base em amostragens de poucos locais. InInovação Tecnológica” – Brasil

Bibliografia:

Artigo: Hyperdiverse archaea near life limits at the polyextreme geothermal Dallol area
Autores: Jodie Belilla, David Moreira, Ludwig Jardillier, Guillaume Reboul, Karim Benzerara, José M. López-García, Paola Bertolino, Ana I. López-Archilla, Purificación López-García
Revista: Nature Ecology & Evolution
Vol.: 3, pages 1552-1561
DOI: 10.1038/s41559-019-1005-0

Artigo: The Dallol Geothermal Area, Northern Afar (Ethiopia) - An Exceptional Planetary Field Analog on Earth
Autores: B. Cavalazzi, R. Barbieri, F. Gómez, B. Capaccioni, K. Olsson-Francis, M. Pondrelli, A.P. Rossi, K. Hickman-Lewis, A. Agangi, G. Gasparotto, M. Glamoclija, G.G. Ori, N. Rodriguez, M. Hagos
Revista: Astrobiology
Vol.: 19 Issue 4
DOI: 10.1089/ast.2018.1926

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Brasil - Cientistas juntam-se ao Boticário para criar corantes cosméticos a partir de microrganismos

Um grupo de cientistas brasileiros vai utilizar fungos, bactérias e microalgas no processo de produção de corantes naturais para a indústria cosmética. Para isso, foi firmada uma parceria entre a Embrapa Agroenergia (DF) a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e o Grupo Boticário.

A pesquisa vai desenvolver-se no âmbito do projecto “Produção de corantes por via biotecnológica” com duração de dois anos e irá produzir as cores a partir da fermentação de microrganismos e microalgas.

“A gente acredita na capacidade de inovação brasileira e nas sinergias entre instituições de pesquisa tecnológica e empresas industriais”, afirma Paulo Roseiro, director de P&D do Grupo Boticário.

Consumo consciente

“O projecto de corantes naturais para cosméticos atende o desejo do consumo consciente. O consumidor está cada vez mais atento à origem e aos métodos de produção. A produção de novos conhecimentos facilita esse encontro”, afirma o director-presidente da Embrapii, Jorge Guimarães.

Por sua vez, Patrícia Abrão, pesquisadora da Embrapa que coordena o projecto conta que o trabalho usará a colecção de microrganismos e microalgas do centro de pesquisa que conta com mais de dez mil espécies da biodiversidade brasileira.



Desse banco, serão seleccionados os mais promissores para a produção de corantes por fermentação, e no fim do projecto, será identificado pelo menos um microrganismo produtor de corante com base nas características químicas.

Selecção de microrganismos

“Para desenvolver esse trabalho, iremos caracterizar quimicamente os corantes produzidos pelos candidatos seleccionados”. Além disso, será optimizado o cultivo de um microrganismo seleccionado para a produção de corante em meio de cultura. Esses corantes poderão ser empregados como pigmentos em cosméticos coloridos e também conferindo cor em outros tipos de formulações cosméticas.

A pesquisadora explica que a produção de corantes por bactérias fungos e microalgas é altamente influenciada pela fonte de carbono e nitrogénio utilizados, além de outros factores relacionados às condições de cultivo. Para isso, destaca Abrão, é necessário um estudo prospectivo com o objectivo de optimizar a produção dessas substâncias.

Embrapii financia um terço do projecto

Toda essa acção só foi possível pela parceria com a Embrapii, que financia um terço do projecto incentivando empresas privadas a investir em inovação.



A Embrapa participa com um terço do recurso total do projecto referente à contrapartida económica (estrutura e pessoal qualificado), e a empresa parceira também apoia o outro terço restante recurso financeiro.

“O investimento em inovação permite às empresas responderem às demandas por produtos mais sustentáveis apoiadas pelas Unidades Embrapii, que contam com toda estruturam, pesquisadores e profissionais capacitados para encontrar soluções às necessidades da indústria”, destaca Jorge Guimarães.

As pesquisas já começaram nos laboratórios da Embrapa Agroenergia com o suporte técnico de uma equipa de pesquisadores e analistas das áreas farmacêutica, biológica e engenharia química. In “Agricultura e Mar Actual” - Portugal


segunda-feira, 18 de março de 2019

Portugal - Cientistas italianos e portugueses querem trabalhar em colaboração

Hipácia é o nome da Associação dos Cientistas e Investigadores Italianos em Portugal criada na passada sexta-feira



Foi oficialmente constituída na passada sexta-feira a Associação dos Cientistas e Investigadores Italianos em Portugal. Chama-se "Hipácia", como a cientista Hipácia de Alexandria, matemática, filósofa e astrónoma da Grécia antiga.

No elenco dos sócios honorários, além do embaixador italiano em Portugal, Vanni d"Archirafi, encontra-se o professor Carlo Greco, diretor do Serviço de Radioncologia do Centro Clínico Champalimaud. São quinze os membros do núcleo fundador da associação, composta por investigadoras e investigadores italianos que trabalham em Portugal com importantes centros de estudo e investigação em diversas áreas, desde a robótica à botânica, revela a Embaixada de Itália, que acrescenta: "A constituição deste primeiro núcleo de cientistas e investigadores tem como objetivo reforçar os laços de colaboração entre o mundo científico português e o italiano, fazendo com que dialoguem sobre os temas de maior atualidade e interesse científico internacional, individualizando oportunidades que possam surgir da pertença comum à União Europeia".

Na ocasião, o embaixador Vanni d"Archirafi sublinhou que "em Lisboa, a Itália não tem um Adido Científico e a iniciativa agora lançada também visa criar as bases para um mais orgânico envolvimento entre as comunidades científicas italiana e portuguesa". In “Diário de Notícias” - Portugal

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Portugal – Cientistas descobrem espécie de fungo que pode substituir pesticidas

A Universidade do Minho explica que o novo fungo, descoberto por cientistas do Centro de Engenharia Biológica daquela instituição de ensino em parceria com a Universidade de El Manar (Tunísia), "tem a característica particular de não infetar nem apodrecer as maçãs"



Uma equipa de investigadores da Universidade do Minho (UMInho) descobriu uma "nova espécie de fungo", a "Penicililium tunisiense", que pode "ser muito útil" para combater doenças em maçãs, permitindo "evitar o uso de pesticidas e químicos", anunciou hoje aquela academia.

Em comunicado, a Universidade do Minho explica que o novo fungo, descoberto por cientistas do Centro de Engenharia Biológica da UMinho em parceria com a Universidade de El Manar (Tunísia), "tem a característica particular de não infetar nem apodrecer as maçãs".

Os investigadores acreditam que "assim, a partir de agora, será possível combater, de forma natural, a podridão do bolor azul (Penicillium expansum), uma das doenças mais comuns na fase pós-colheita, responsável por causar grandes prejuízos nos frutos".

Fungo é seguro e não contamina alimentos

Ao contrário do Penicillium expansum, explica o texto, aquela "nova espécie Penicillium tunisiense, além de ter o potencial de combater doenças específicas, não produz patulina, uma micotoxina produzida pelo bolor azul que contamina alimentos, em especial, a maçã".

A instituição minhota adianta que "a nova espécie está agora preservada e disponível no catálogo da MUM - Micoteca da Universidade do Minho, podendo vir a ser explorada para combater a podridão do bolor azul".

A MUM - Micoteca da Universidade do Minho é uma coleção de culturas de fungos filamentosos sediada no Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho desde 1996 que tem como principal missão ser um centro de recursos para a preservação da diversidade fúngica e sua informação, e criar soluções para o desenvolvimento sustentável e para o bem-estar do homem.

Com mais de 750 estirpes no catálogo, a MUM, salienta a UMInho, "tem colaborado de forma decisiva para os avanços na ciência, tendo recentemente conseguido trazer para Portugal a única sede de uma infraestrutura europeia de investigação, a MIRRI - Microbial Resource Research Infrastructure".

O Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho é um centro de investigação criado em 1995 e "altamente tecnológico", atuando nas áreas da Biotecnologia e Bioengenharia.

A atividade de investigação do CEB concentra-se nos setores ambiental, da saúde, industrial e alimentar. Nuno de Noronha – Portugal in “Sapolifestyle”

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Portugal - Cientistas de Coimbra invalidam teoria distinguida com Nobel da Química

A teoria de Marcus, que explica a transferência de eletrões em reações químicas, distinguida com um Prémio Nobel, foi invalidada por uma equipa de cientistas da Faculdade de Ciências de Coimbra, liderada por Luís Arnaut, foi anunciado esta quinta-feira.

“Sem margem para dúvidas, o artigo científico acabado de publicar na conceituada 'Nature Communications', do grupo Nature, prova que a teoria desenvolvida em 1956 por Rudolph Arthur Marcus”, que lhe valeu a atribuição do Nobel da Química em 1992, “está errada”, afirma a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), numa nota enviada hoje à agência Lusa.

Em causa está “a reorganização de moléculas necessária para a transferência de eletrões”, afirma a FCTUC, referindo que, para ocorrer este tipo de reações químicas, “a teoria de Marcus prevê que essa reorganização tem de ser principalmente efetuada nos solventes”.

Mas o estudo agora publicado concluiu que “não é assim”, evidenciando que “a chave para a transferência de eletrões está nos reagentes”.

Esta descoberta culmina “duas décadas e meia de estudos desenvolvidos no Departamento de Química da FCTUC, que geraram muita controvérsia dentro da comunidade científica ao longo do percurso”.

“O grande impulsionador de toda esta investigação foi o químico Formosinho Simões (catedrático da FCTUC, falecido em dezembro de 2016), que sempre questionou a teoria de Marcus”.

Formosinho Simões defendia que a chave para transferência de eletrões estava nos reagentes, mas “faltava uma evidência experimental decisiva para refutar a teoria de Marcus, pois Marcus era um cientista muito credível e a sua teoria foi premiada com o prémio Nobel da Química 1992”, conta Luís Arnaut.

Confrontado com duas visões radicalmente opostas em relação a esta reação química, Arnaut reuniu “em 1993 os químicos mais eminentes do mundo num NATO Workshop em Portugal para discutir o problema”.

O professor catedrático da FCTUC destaca que nesse encontro, “à exceção de Formosinho Simões, ninguém ousou questionar o prémio Nobel. Foi uma discussão muito intensa”.

Mas “o grupo de Coimbra não esmoreceu e avançou sozinho na conceção de experiências” que permitissem determinar qual das duas teorias estava correta.

Foram necessários 25 anos: “Foi uma tarefa extremamente difícil. Tivemos de desenhar, conceber e executar um vasto conjunto de estudos e experiências. Há múltiplas razões que justificam tantos anos de estudo, entre as quais a exigência de equipamento altamente sofisticado que nós não possuíamos, a necessidade de sintetizar moléculas que não existiam e a contratação de pessoal altamente qualificado para desenvolver o trabalho”, acrescenta Luís Arnaut, citado pela FCTUC.

Além de todas estas dificuldades, os cientistas da Universidade de Coimbra tiveram de enfrentar a crítica da comunidade científica, que “teimava em não aceitar que um Nobel da Química pudesse estar errado”, salienta a FCTUC, na mesma nota.

Após “um longo e sinuoso caminho, finalmente, em 2014”, a equipa de Formosinho Simões e de Luís Arnaut reuniu as condições adequadas para realizar “a experiência decisiva” – os resultados ficaram completos no final de 2017. O artigo científico foi submetido ao grupo Nature e, “mais uma vez, a polémica foi inevitável”, relata o coordenador do estudo.

No entanto, a argumentação dos cientistas da FCTUC “convenceu os ‘reviewers’ da revista e o artigo foi publicado” na quarta-feira.

Luís Arnaut acredita que a reação da comunidade científica “talvez vá ficar perplexa porque o que está escrito no artigo vai contra a corrente. Expõe claramente que a teoria de Marcus não funciona”.

Quanto a implicações práticas desta nova teoria – denominada ‘modelo de intersecção de estados’ –, o catedrático da FCTUC não crê que, “de repente, a teoria desenvolvida em Coimbra permita originar um produto que chegue ao mercado com vantagens relativamente aos existentes”.

“Demorámos 25 anos a realizar esta experiência, por isso é expectável que demore muitos anos para se desenvolver sistemas de uma forma diferente. Porém, o nosso modelo pode inspirar melhores soluções em áreas onde a transferência de eletrões é importante”, admite Luís Arnaut.

As reações de transferência de eletrão são a base das reações de oxidação-redução e “ocorrem em sistemas biológicos como a fotossíntese e a respiração, bem como em sistemas artificiais, por exemplo, painéis solares, polímeros condutores utilizados em televisões e computadores, optoeletrónica”, entre outros, conclui a FCTUC. In “Sapo24” - Portugal

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Internacional - Corrente do Golfo pode parar, diz estudo

Novo modelo mostra que esteira oceânica que transporta calor à Europa é mais vulnerável ao aquecimento global do que se imaginava, mas só pararia em séculos não de anos; Brasil seria afetado






















Cientistas chineses trabalhando nos EUA trouxeram uma notícia agridoce sobre um dos efeitos mais temidos do aquecimento global. Um modelo climático feito por eles mostra que a corrente oceânica que leva calor dos trópicos à Europa é mais vulnerável do que se imaginava às mudanças do clima, e desligará completamente caso a quantidade de gás carbônico na atmosfera siga aumentando. Por outro lado, esse desligamento ocorreria em séculos, não em anos ou décadas.

Conhecida como circulação termoalina do Atlântico, essa imensa esteira oceânica é um dos principais sistemas de regulação do clima da Terra. Sua face mais conhecida é a Corrente do Golfo, uma corrente quente que migra pela superfície do Atlântico tropical até as imediações do Ártico. No Atlântico Norte, ela fica mais fria e mais salgada (devido à evaporação da água no caminho), afundando e retornando aos trópicos na forma de uma corrente fria submarina. A dissipação de calor dessa corrente é o que mantém a Inglaterra e o norte da Europa com um clima relativamente tépido, mesmo estando em uma latitude elevada.

Desde os anos 1980 os cientistas têm postulado que o aquecimento global, ao derreter o gelo e a neve do Ártico, lançaria grande quantidade de água doce no oceano, diluindo o sal da corrente e impedindo que ela afundasse. O efeito imediato seria a suspensão do transporte do calor para a Europa, que mergulharia numa espécie de era do gelo. Isso já aconteceu há 8200 anos e resfriou o Velho Continente por dois séculos. Poderia acontecer de novo de forma rápida e causar problemas sérios à civilização, caricaturados no filme-catástrofe “O Dia Depois de Amanhã”, de 2004.

Observações feitas até aqui, que são esparsas, têm mostrado que justamente desde 2004 esteira oceânica está em sua menor potência nos últimos mil anos, provavelmente por causa do aquecimento global. Alguns cientistas temem que o colapso já tenha começado.

Ocorre que os modelos computacionais que simulam o clima da Terra no futuro, usados pelo IPCC (o painel do clima da ONU), têm falhado sistematicamente em apontar instabilidade no sistema. Por consequência, o desligamento repentino da corrente é considerado pouco provável pelo painel.

Entram em cena Wei Liu, da Universidade da Califórnia em San Diego (hoje na outra costa do país, na Universidade Yale), e colegas. Em estudo publicado nesta quarta-feira no sítio da revista Science Advances, o grupo aponta que os modelos padecem de um viés: uma distorção faz a corrente parecer artificialmente mais estável do que é de fato.

A origem do problema está longe da Europa, no Atlântico Sul. Essa região do oceano tropical, perto do equador, recebe chuvas constantes na chamada Zona de Convergência Intertropical, o cinturão de tempestades onde massas de ar aquecido dos dois hemisférios se encontram.

Liu e colegas dizem que os modelos do IPCC assumem que há mais água doce oriunda dessas chuvas na corrente do que há de fato. Isso causaria nos modelos uma ilusão de estabilidade – quanto mais água doce no trópico, menor a diferença de salinidade perto do Ártico, portanto, menos suscetível a perturbações a corrente seria. Esse viés afirma Liu, já havia sido sugerido por outros estudos no passado.

O que o chinês e seu grupo fizeram foi ajustar um dos modelos de acordo com parâmetros de salinidade que eles consideravam mais realistas. Mas não apenas isso: a correção do viés tornou a corrente mais instável e vulnerável ao próprio aquecimento da água do mar – algo que casa melhor com as observações. “O aquecimento reduz a densidade da água e impede a convecção”, disse Liu ao OC. “O método não é perfeito, mas é o melhor que podemos fazer agora para corrigir o viés e fazer uma projeção mais confiável.”

Os pesquisadores usaram o modelo ajustado para estimar o que acontece com a esteira oceânica caso o nível de CO2 na atmosfera duplique – algo que acontecerá por volta de meados do século se medidas radicais de controle de emissões não forem tomadas.

Aqui vem a nota de alívio do estudo: o colapso da corrente ocorre nas simulações apenas 300 anos após a quantidade de CO2 dobrar na atmosfera. Questionado sobre se isso era uma boa notícia, Liu foi cauteloso: “Sim, 300 anos são muita coisa comparado a uma vida humana, mas mudanças notáveis podem ocorrer antes de a circulação colapsar”, disse. “Além disso, nosso resultado é baseado em um modelo e em um cenário simples de aquecimento.” Liu e seus colegas não consideraram, por exemplo, o fator que até agora tem sido invocado para explicar a redução da corrente: o efeito do degelo da Groenlândia. Ao lançar excesso de água doce sobre o oceano no Ártico, o derretimento poderia agravar a situação de uma corrente que já seria impactada pelo aquecimento da superfície.

Um efeito esperado dessa redução na corrente, por exemplo, é uma mudança nos padrões de chuva em várias regiões do planeta. Um dos lugares que seriam afetados é o Brasil. Estudos do grupo do geólogo de Francisco Cruz, da USP, já mostraram que fases de redução da circulação termoalina no passado corresponderam a chuvas torrenciais no Brasil, devido ao deslocamento da Zona de Convergência Intertropical para o sul.

“Precisamos aplicar essa metodologia a mais modelos climáticos e a cenários de aquecimento global mais realistas”, afirmou Liu. Claudio Ângelo – Brasil in “Observatório do Clima”

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Brasil - Estação na Antártica começa a ser reconstruída



























Blocos de sustentação

A reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz teve início neste mês, pela empresa estatal Corporação Chinesa de Importações e Exportações Eletrônicas (Ceiec), vencedora da licitação.

Em dezembro, os equipamentos para a realização das obras, vindos da China, desembarcaram no continente. A meta é concluir a reconstrução da base no primeiro semestre de 2018.

Nessa primeira fase, serão instalados todos os blocos de sustentação dos módulos que irão abrigar os laboratórios, refeitórios, oficina e dormitórios.

Ao custo de US$ 99,6 milhões, a nova base está sendo construída com recursos da Marinha e do Ministério da Defesa. O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC) financia as pesquisas e os cientistas mantidos na base.

Um incêndio destruiu a antiga estação brasileira na Antártica em 2012. O projeto da nova estação foi escolhido em 2013, mas uma série de problemas na licitação retardou o início efetivo das obras. (Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) é uma base antártica pertencente ao Brasil localizada ilha do Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, na baía do Almirantado, na Antártida).

Nova Estação Antártica

Com uma área de aproximadamente 4,5 mil metros quadrados, a estação contará com 17 laboratórios, ultracongeladores para armazenamento de amostras e materiais usados nas atividades científicas, setor de saúde, biblioteca e sala de estar.

A área de pesquisa científica foi projetada para atender a várias exigências, com prioridade para os projetos do Programa Antártico Brasileiro (Proantar). Cerca de 300 pesquisadores realizam estudos na região a cada ano.

Quando a Estação Antártica estiver pronta, deverão ser retomados os trabalhos ligados ao monitoramento de fenômenos da alta atmosfera, como sua temperatura e ondas gravitacionais, ao monitoramento da dinâmica do buraco de ozônio atmosférico e dos raios ultravioleta; de parâmetros atmosféricos de superfície; inventários de fauna e flora locais (ambos terrestres e marinhos); qualidade do ar, impactos ambientais locais (contaminação de solos) e outros.

"Tudo vem montado da China. As obras na estação têm pelo menos três fiscais ambientais brasileiros para fiscalizar a reconstrução com respeito ao meio ambiente," comentou o capitão Geraldo Juaçaba, coordenador do projeto de reconstrução e fiscalização da estação. In “Inovação Tecnológica” - Brasil

domingo, 15 de janeiro de 2017

Brasil – Cientista brasileira que provou ligação entre zika e microcefalia mostra como a pesquisa pode beneficiar o mundo

Considerada uma das dez cientistas mais importantes de 2016 pela revista Nature, Celina Turchi diz que as pesquisas sobre a ação do vírus continuam e revela: “Ficaremos envolvidos nisso durante anos”

























Epidemias são sempre assustadoras para a po­pulação afetada, tanto que permitem a este jornalista o uso de um advérbio e um adjetivo para começar sua reportagem, algo incomum em textos jornalísticos. Isso porque uma epidemia significa centenas, às vezes milhares, de pessoas acometidas por uma doença que pode, em muitos casos, ser desconhecida. E não saber com o que se lida é, via de regra, apavorante.

Deixando de lado os adjetivos, imagine, leitor, uma epidemia de microcefalia, condição neurológica rara em que o crânio e o cérebro de uma criança recém-nascida são significativamente menores que o normal. Rara? Era, ao menos no Brasil, até 2015, ano em que centenas de casos de microcefalia começaram a aparecer pelo País, deixando a população, sobretudo as gestantes, em estado de constante alerta.

Mesmo assim, entre outubro de 2015 e outubro de 2016, segundo dados do Ministério da Saúde, foram registradas 2079 novas ocorrências de microcefalia no Brasil. Uma epidemia, sem dúvidas, e a melhor frase para descrever a situação veio da médica epidemiologista Celina Turchi: “Not even in my worst nightmare as an epidemiologist had I imagined a microcephaly neonate epidemic”.

Celina disse a frase ao repórter Declan Butler, durante a entrevista que deu à britânica “Nature”, uma das principais revistas científicas do mundo e que a colocou entre os dez cientistas mais relevantes do mundo em 2016. E ela tem razão: nem em seu pior pesadelo alguém poderia imaginar centenas de crianças afetadas com uma doença tão grave quanto a microcefalia, sobretudo quando não se sabe o motivo.

Seis meses antes da epidemia, o infectologista pernambucano Carlos Brito notou que vários adultos estavam apresentando sintomas semelhantes: febre, olhos vermelhos, erupções na pele, entre outros. Não se tratava de dengue e a doença não trazia grandes repercussões sistêmicas nos pacientes. Porém, aproximadamente um mês depois, começaram a aparecer casos de Síndrome de Guillain-Barré, uma doença grave que afeta o sistema nervoso.

Em março de 2015, pesquisadores conseguiram isolar o vírus no líquido cefalorraquidiano desses pacientes e descobriram que quase todos tinham sido infectados com o vírus zika. Mas a situação só se agravou quando, seis meses depois, tomografias de crânio de bebês ainda em gestação começaram a apresentar muitas calcificações, que são como cicatrizes dentro do cérebro das crianças.

Doenças infecciosas, durante a gestação, levam a essas calcificações. O problema é que as malformações eram muito mais graves que as já conhecidas. Sem consenso entre os especialistas e com a população — a essa altura não apenas a pernambucana, pois a situação se alastrava pelo Brasil — começando a entrar em pânico, o Ministério da Saúde convocou Celina Turchi para apresentar um parecer sobre a situação. Percebendo a gravidade, a médica achou necessário montar uma força-tarefa para chegar a uma conclusão mais rápida. Nascia o Merg, sigla para Micro­cephaly Epidemic Research Group.

Carlos Brito, o epidemiologista, já havia levantado a hipótese de que os casos, tanto de Guillain-Barré quanto de microcefalia, poderiam estar associados ao vírus zika. Era necessário provar. “E provar não apenas em estudos de caso, como também em estudos de casos-controle e coorte, que essa associação era real. Isto é, que crianças com microcefalia tinham a infecção de zika e que crianças sem microcefalia, da mesma área, não tinham a infecção. E foi isso que nós fizemos”, conta Celina.

A doença causada pelo vírus zika, entre 2013 e 2014, era considerada como não causadora de grandes consequências e não havia informações, em lugar algum, de que esse vírus poderia ser tão agressivo nas gestantes e causar uma infecção congênita. Do ponto de vista epidemiológico, outros vírus eram conhecidos por causar malformações fetais, como o citomegalovírus e a rubéola, e também outros agentes infecciosos, como o treponema pallidum, bactéria causadora da sífilis. Mas não o zika.

Dessa forma, se comprovada a associação, trataria-se de uma ameaça à saúde pública, afinal, as formas de transmissão do vírus zika não são apenas através de vetor (o mosquito), mas também por transmissão sexual. Se o vírus carregava a possibilidade de causar uma doença grave de malformação congênita como a microcefalia, a infecção era um assunto deveria ser tratado com o máximo cuidado.

Celina, que atua como pesquisadora visitante no Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Pernam­buco há oito anos, conta que chamou todos os parceiros de projetos anteriores que tivessem a possibilidade de contribuir com a pesquisa. “Todos perceberam que, na emergência, havia a necessidade de montar esse grupo. E ainda tivemos a sorte do instituto da Fiocruz Pernambuco ter um laboratório de excelência em flavivírus, em dengue, e, consequentemente, zika”, diz.

Segundo ela, foi montado um QG de zika no instituto, sob a coordenação do diretor Sinval Brandão. “De repente, a sala tinha dezenas pesquisadores trabalhando todo dia, afinal, era uma crise na saúde pública. Éramos cerca de 30 cientistas sênior mais a equipe de mestrandos e doutorandos. Éramos um grupo grande envolvido na pesquisa”, revela.

Inicialmente, o grupo formou um projeto para avaliar crianças da mesma área assim que nasciam; crianças com e sem microcefalia. Os pesquisadores as comparavam a fim de identificar a presença de vírus ou de anticorpos nas crianças e também nas mães. As análises feitas pelo grupo conseguiu comprovar a associação entre a infecção do vírus zika durante a gestação e as malformações congênitas. O estudo preliminar foi publicado na revista “The Lancet Infectious Diseases” e ganhou o mundo.

“Hoje”, diz a médica, “é muito claro que o vírus atinge as células que darão origem ao sistema nervoso central e sabemos também que a microcefalia é apenas a ponta do iceberg. Há um conjunto de alterações. Grupos de oftalmologia, por exemplo, fizeram um trabalho muito importante mostrando alterações oftálmicas em um grupo de crianças. Há também alterações nos membros superiores e inferiores, as artrogriposes”, explica.

Fora isso, segundo Celina, há também muitas evidências de alterações auditivas, o que pôde ser visto em crianças um pouco maiores. Por isso, aponta a médica, existe a tendência em expandir essa avaliação para todas as crianças filhas de mães que apresentaram sintomas e exames laboratoriais de infecção pelo vírus zika, independente de que elas apresentem malformações evidentes.

Celina explica que isso deve acontece porque é necessário saber se existe a possibilidade de que alterações, mesmo pequenas, estejam presentes nesse grupo de crianças. “Até porque o conhecimento sobre o processo infeccioso durante a gestação ainda não está concluído, mas está sendo produzido agora”.

Um esforço internacional
























As pesquisas continuam e não devem parar tão cedo. Celina Turchi afirma que o grupo deve agora analisar um número maior de crianças com e sem microcefalia e também com outras malformações. Essa análise deverá servir, inclusive, para descartar ou não outras possibilidades de causa para as alterações, afinal, não apenas o zika pode estar causando os problemas.

“Do ponto de vista de pesquisa”, ressalta a pesquisadora, “tão importante quanto provar é também afastar outras hipóteses. E várias hipóteses foram levantadas: de que isso poderia ser reflexo de alguma vacina ou de uma contaminação ambiental. Outra hipótese dava conta de que o pyriproxyfen [larvicida] era um causador da microcefalia. Então, todas essas outras hipóteses também foram investigadas e, agora, nessa análise de um maior número de casos, poderemos excluir ou não, com mais clareza, essas possibilidades.”

E não apenas o Merg está em busca por essas informações. Celina, que é professora aposentada da Universidade Federal de Goiás (UFG) e trabalha em Pernambuco há oito anos, conta que várias instituições, de diversas partes do mundo, estão se movimentando para achar respostas. “Há, inclusive, um esforço internacional para que se tenham protocolos padronizados de pesquisa a fim de que seja possível fazer análises em conjunto para entender em que momento da gestação se tem o maior risco de as crianças apresentarem alterações tanto neurológicas quanto físicas”.

O desafio agora é dar respostas para os efeitos da infecção do zika vírus nos diferentes períodos gestacionais e saber qual a frequência de nascimento de crianças com alterações congênitas em mulheres infectadas. Nesse sentido, grupos têm se formado para pesquisar o tema. Um deles é o “Zika Plan”, um consórcio da União Europeia constituído por 25 instituições de pesquisa do mundo, sendo três brasileiras: a Universidade Estadual de Pernam­buco, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro e Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da UFG.

O consórcio se propõe a acompanhar gestantes e neonatos de forma padronizada para chegar a evidências científicas em um tempo mais curto. Para Celina, isso mostra que o Brasil será capaz de dar muitas respostas através das redes de pesquisa. “O Brasil teve um papel decisivo para se identificar essa doença. O conhecimento importa sempre, mas do ponto de vista das doenças infecciosas, em que é necessário interromper a cadeia de transmissão, esse conhecimento é fundamental para ter ações dirigidas e poder avançar, principalmente, na prevenção e no repasse de informação à sociedade”, afirma.

Maior controle

O Brasil foi o primeiro país das Américas a apresentar casos de doenças provocadas pelo zika, vírus até então comum na África e na Ásia. A suspeita é que o vírus tenha entrado no Brasil devido aos grandes eventos que o País sediou a partir de 2007, quando aconteceram os jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, seguidos pela Copa do Mundo de 2014.

Como o vírus não era presente no Brasil, ele encontrou uma população ainda não imune aos seus efeitos, o que facilitou e muito a ocorrência de uma epidemia. Mas outros fatores facilitam a propagação de doenças associadas a vírus como o zika, a chikungunya e a dengue: a falta de controle vetorial. As cidades brasileiras têm dificuldade em controlar a procriação de vetores como o Aedes aegypti, logo, sempre existe o risco de que doenças transmitidas por vetores presentes em ambiente urbano ocorram.

Celina Turchi diz: “Convivemos com epidemias de dengue, em Goiás, por exemplo, desde a década de 1990. Chikungunya e zika são mais recentes. Então, temos elementos favoráveis para a transmissão: clima favorável, vetor e uma urbanização que transforma a cidade quase em um canteiro de proliferação. Então, as autoridades sanitárias devem ficar atentas para que possamos reduzir os casos de arboviroses”.

Para ela, casos de chikungunya devem aumentar neste ano. Já em relação ao zika, “há um controle epidemiológico que não existia antes.” Ela explica que, do ponto de vista de transmissão, são necessários três fatores: população receptível, a presença do vetor e a presença do vírus. Quando se tem uma epidemia, isso significa que aquele grupo infectado possivelmente já está imune. Por isso, quase todas as epidemias virais tendem a atingir um pico e ficar vários anos sem acontecer.

“Brasil tem centros de excelência que conseguem responder às necessidades do país”

Celina Turchi tem 64 anos e sempre trabalhou em pesquisas de epidemiologia na área de doenças infecciosas. Desem­penhou sua vida acadêmica em grande parte na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde se aposentou. Fez mestrado, como bolsista CNPq, na London School of Hygiene & Tropical Medicine e fez doutorado pela Universidade de São Paulo (USP).

O reconhecimento de Celina, que está atualmente entre as cientistas mais importantes do mundo, e de seus colegas pesquisadores é tanto um prêmio quanto uma responsabilidade para o Brasil, afinal, isso mostra que o País tem condições de formar e manter pesquisadores de qualidade. Basta querer — ou necessitar.

O Merg (Microcephaly Epi­demic Research Group) surgiu de uma necessidade do País e mostrou que a reunião de bons pesquisadores com o investimento certo foi benéfico para a sociedade não apenas brasileira, mas mundial. O recado para os governantes é claro: esse é um investimento que vale a pena.

Celina relata que o Brasil tem centros de excelência em diferentes lugares “e fica claro agora que essas instituições conseguem responder às necessidades do país. Por isso é estratégico para qualquer país aprimorar não só as instituições de pesquisa como também investimentos pesados na formação de pesquisadores. “Marcos Carreiro – Brasil in “Jornal Opção”