Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 1 de março de 2026

Equador - Quase 150 anos depois de terem sido extintas, as tartarugas gigantes regressam à ilha Floreana, no arquipélago de Galápagos

Os guardas-florestais soltaram 158 tartarugas híbridas juvenis em Floreana para restaurar o ecossistema da ilha


Quase 150 anos depois da remoção das últimas tartarugas-gigantes da Ilha Floreana, no arquipélago de Galápagos, no Equador, a espécie retornou na sexta-feira (20 de fevereiro), quando dezenas de híbridos juvenis foram soltos para iniciar a restauração do ecossistema degradado da ilha.

As 158 novas tartarugas, com idades entre 8 e 13 anos, começaram a explorar o habitat que irão remodelar nos próximos anos. A sua soltura coincidiu perfeitamente com a chegada das primeiras chuvas de inverno.

“Elas são grandes o suficiente para serem soltas e conseguem defender-se de animais introduzidos, como ratos e gatos”, diz Fredy Villalba, diretor do centro de reprodução do Parque Nacional de Galápagos, na Ilha de Santa Cruz, observando que os melhores espécimes, com a linhagem mais forte, foram selecionados especificamente para Floreana.

Por que as tartarugas gigantes de Floreana foram extintas?

Estes espécimes juvenis libertados, de um total de 700 planeados para Floreana, serão introduzidos gradualmente. De acordo com Christian Sevilla, diretor de ecossistemas do Parque Nacional de Galápagos, elas carregam entre 40% e 80% da composição genética do Chelonoidis niger – uma espécie extinta há 150 anos.

A linhagem desses híbridos remonta ao Vulcão Wolf, na Ilha Isabela, uma descoberta que ainda intriga os cientistas. Ao selecionar adultos com a composição genética mais forte, diz Sevilla, o programa de reprodução visa trazer gradualmente a espécie extinta Floreana de volta à sua pureza original.

Há dois séculos, Floreana abrigava aproximadamente 20.000 tartarugas-gigantes. No entanto, a caça às baleias, um incêndio devastador e a exploração humana implacável acabaram por levar à sua completa extinção na ilha.

“Em termos genéticos, reintroduzir uma espécie naquela ilha com um componente genético significativo da espécie original é vital”, afirma o biólogo Washington Tapia.

Tapia, pesquisador e diretor da Biodiversa-Consultores – empresa especializada nas Ilhas Galápagos – enfatizou que esse processo vai além de simples cálculos, trata-se de restaurar uma linhagem perdida.

Floreana é um sítio ecológico remoto e de vital importância

Floreana, uma ilha com aproximadamente 173 quilômetros quadrados, é uma massa de terra vulcânica e o ponto mais meridional do arquipélago de Galápagos. Situada no meio do Oceano Pacífico – a cerca de 1000 quilômetros da costa continental – permanece um local remoto e de vital importância ecológica.

As tartarugas reintroduzidas em Floreana compartilharão o seu território com uma população diversificada de quase 200 pessoas, além de flamingos, iguanas, pinguins, gaivotas e gaviões. No entanto, elas também terão de lidar com espécies de plantas introduzidas, como a amora-preta e a goiaba, bem como com animais como ratos, gatos, porcos e burros. Essas espécies não nativas, introduzidas pela atividade humana, representam ameaças potenciais aos novos habitantes da ilha.

A moradora de Floreana, Verónica Mora, descreve a soltura das tartarugas como um sonho realizado. "Estamos vendo a concretização de um projeto que começou há vários anos", diz ela, acrescentando que a comunidade sente imenso orgulho com o retorno das tartarugas gigantes.

As Nações Unidas designaram as Ilhas Galápagos como Património Natural da Humanidade em 1978. Essa honra reconhece a abundância única de espécies terrestres e marinhas presentes nas ilhas, encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Euronews


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Brasil - Banco Mundial apoia iniciativa para melhorar a gestão da água e diminuir os riscos de cheias no estado do Espírito Santo

O Programa Reflorestar, do governo do estado do Espírito Santo, já promoveu a restauração de 12 mil hectares e a conservação de 13 mil hectares de Mata Atlântica, com impactos positivos que se estendem até à região metropolitana de Vitória


Um programa apoiado pelo Banco Mundial no estado do Espírito Santo já investiu, desde 2011, mais de R$ 100 milhões em ações que procuram proteger as áreas altas das bacias hidrográficas.

O objetivo do Programa Reflorestar é melhorar a gestão integrada das águas e reduzir os riscos de cheias, além de diminuir a quantidade de sedimentos nos reservatórios que abastecem a região metropolitana de Vitória.

Pagamento por serviços ambientais

O Reflorestar atendeu mais de 5 mil propriedades nos últimos 15 anos, promovendo a restauração de 12 mil hectares e a conservação de 13 mil hectares. Atualmente, o Banco Mundial apoia esse trabalho por meio do projeto Águas e Paisagens II.

Uma das atividades do Reflorestar é o pagamento por serviços ambientais, PSA. Ele destina-se aos produtores rurais que recuperam e preservam as matas nativas.

Plantar árvores ajuda a infiltrar e reter a água na terra, evitando o carreamento de sólidos que normalmente acontece nos mananciais hídricos quando uma área está desmatada.

Por isso, o reflorestamento faz melhorar não só a qualidade, mas também a quantidade da água das bacias hidrográficas. Também ajuda as estradas a sofrer menos com a erosão e a manter-se transitáveis durante a época das chuvas.

Empregos e oportunidades

Entre as pessoas que fazem o esforço para recuperar a Mata Atlântica, estão os produtores rurais Tânia e Henrique Gravel, de Guaçuí. Em 1999, quando foram morar numa propriedade de 25 hectares, cercada pelas montanhas da Serra do Caparaó, o local tinha apenas uma nascente. Hoje, são 14.

Henrique orgulha-se da produção diversificada: “Nós temos café, nós temos banana, a gente mexe com mel, que é o carro-chefe. A gente tem fruta, nós temos abacate, nós temos cambuci, que a gente vai atender a merenda escolar...”

Além de preservar a natureza, a recuperação da floresta gera empregos e prosperidade, como mostra a comunidade rural de Feliz Lembrança, no município de Alegre. Lá, 62 famílias distribuem-se por 152 hectares.

A comunidade sofria, no começo dos anos 2000, com o êxodo rural e a degradação das terras, que eram usadas para pastagens de gado de corte. O grupo de jovens de uma igreja local decidiu formar uma associação para participar de projetos de agricultura familiar. E, também, resgatar formas de plantio usadas pelos antepassados, como o consórcio entre o café conilon e outras espécies alimentícias, como banana, abacate e laranja.

Próximos passos

O café produzido em Feliz Lembrança agora participa em concursos locais e tem selo de qualidade.

O produtor rural Fábio de Souza conta como foi o apoio do Programa Reflorestar:

“Comprámos muitas mudas, fizemos cercas em volta das nascentes... Assim, áreas que estavam cheias de voçoroca e a terra escorria toda para o rio foram recuperadas”.

Na atual fase do Reflorestar, a ideia é aprimorar ainda mais os investimentos em intervenções físicas que ajudam a reter a água, como barraginhas e cochinhos. Também estão a ser implementados biodigestores.

Tudo isso tem o objetivo de aumentar a resiliência aos efeitos climáticos de inundações e secas, além de melhorar a qualidade da água após o uso produtivo e humano. Mariana Ceratti - Banco Mundial Brasil ONU News

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Japão - Três oficinas de restauração de pianos danificados pela bomba atômica de Hiroshima são selecionadas para o Prémio de Cultura Musical JASRAC

No dia 18, a Sociedade Japonesa para os Direitos de Autores, Compositores e Editores (JASRAC) anunciou a seleção de três grupos para receber o 12.º Prémio JASRAC de Cultura Musical, que reconhece contribuições para a cultura musical por meio de atividades consistentes. Entre eles estão o Projeto HOPE e a Oficina de Piano Yakawa (ambos em Hiroshima), que restauraram e preservaram pianos "hibaku" danificados pela bomba atómica e realizam concertos por todo o país. Cada premiado receberá 500.000 ienes.


O projeto e a oficina restauraram pianos danificados nos bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente, e transmitiram a mensagem de paz às futuras gerações através do som desses pianos. Os pianos armazenados pelo projeto também foram tocados pela pianista de renome mundial Martha Argerich. “Nippon.com” – Japão com “Kyodo Notícias”


quarta-feira, 30 de julho de 2025

Macau - Finalizados trabalhos de reparação da estátua de Luís Vaz de Camões

Já foram concluídos os trabalhos de renovação do busto de Camões, indicou o Instituto para os Assuntos Municipais ao Jornal Tribuna de Macau, acrescentando que o Instituto Cultural já inspeccionou o local. Recorde-se que a terceira estrofe de “Os Lusíadas” que consta na parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Luís Vaz de Camões estava praticamente ilegível


O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) indicou que “os trabalhos de renovação da estátua [de Camões] já foram terminados”. Recorde-se de que a terceira estrofe de “Os Lusíadas” que consta na parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Luís Vaz de Camões estava praticamente ilegível.

Confrontado com esta situação em Julho do ano passado, o IAM tinha dito ao JTM que “já tinha verificado que as inscrições estão a desaparecer” e que estava a “acompanhar” a situação, tendo acrescentado que seriam realizados trabalhos de manutenção. Agora, o organismo indicou também ao Jornal Tribuna de Macau que “já foi feita uma inspecção pelo Instituto Cultural”.

A estrofe que já estava praticamente incompreensível era a número 81 do Canto VI:

“E ainda, Ninfas minhas, não bastava/ Que tamanhas misérias me cercassem,/ Senão que aqueles que eu cantando andava/ Tal prémio de meus versos me tornassem:/ A troco dos descansos que esperava,/ Das capelas de louro que me honrassem,/ Trabalhos nunca usados me inventaram,/ Com que em tão duro estado me deitaram”.

Num artigo de opinião publicado neste jornal no ano passado, o investigador António Aresta alertou para esta questão, dizendo que a estância precisava de ser reescrita. “Luís de Camões merece este desvelo, 500 anos depois”, defendeu.

Os dois primeiros excertos que constam do pedestal em pedra na Gruta de Camões ainda se conseguiam ler. Dizem respeito à estrofe 95 do Canto VI e à estância 42 do Canto VIII.

O Jardim de Luís de Camões, um dos mais antigos de Macau, foi criado em meados do século XVIII. Na Gruta, constituída por três grandes rochedos facetados, encontra-se então o busto de Camões, da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro.

Diz-se que, em meados do século XVI, Camões (1524-1580) viveu em Macau durante dois anos, onde terá terminado, na Gruta que tem hoje o seu nome, a obra “Os Lusíadas”. “Com o patrocínio de 600 francos de um rico comerciante português de Macau, Lourenço Marques, genro de Manuel Pereira, a gruta foi renovada em 1849, sendo aí colocado um busto do poeta. Foi também erigido um pavilhão sobre a gruta, o qual já não existe. O último restauro da gruta data de 1866 e o busto do poeta foi refundido em bronze”, pode ler-se na página do património cultural de Macau. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


domingo, 22 de junho de 2025

Portugal – Universidade de Aveiro lidera projeto para restaurar os recifes de ostras no país

A Universidade de Aveiro (UA) está a liderar o projeto RePor – Restauração dos Recifes de Ostras de Portugal (MAR-016.9.1-FEAMPA-00004), com o objetivo de desenvolver uma estratégia inovadora para restaurar e reforçar a resiliência dos recifes de ostras nas zonas costeiras portuguesas


Coordenado pelo investigador Daniel Cleary, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), o RePor é apoiado pelo programa Mar2030, cofinanciado pelo Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos, das Pescas e Aquicultura (FEAMPA), no âmbito da ação de Apoio à Proteção e Restauração da Biodiversidade e dos Ecossistemas Marinhos.

O projeto obteve parecer favorável da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), por estar alinhado com a Diretiva Quadro Estratégia Marinha e contribuir para a implementação da Estratégia Ambiental do Atlântico Nordeste da Convenção OSPAR.

Este projeto propõe uma abordagem inovadora para restaurar os recifes de ostras que têm vindo a sofrer um acentuado declínio devido à exploração excessiva e poluição, de forma a recuperar e rentabilizar os benefícios ecológicos, económicos e sociais destes ecossistemas importantes. Serão desenvolvidas e aplicadas técnicas inovadoras para aumentar a resiliência das ostras juvenis (Ostrea edulis), incluindo o pré-condicionamento a choques térmicos e de salinidade, aliado à modulação do microbioma.

O projeto baseia-se numa plataforma tecnológica recentemente criada, composta por malhas poliméricas porosas e biodegradáveis, que permitem a libertação controlada de moduladores microbianos. Esta tecnologia foi desenvolvida pela mesma equipa no âmbito dos projetos AquaHeal (MAR-02.01.01-FEAMP-0031, MAR2020) e BlueComposite (CENTRO-01-0145-FEDER-181223, Portugal 2020), e encontra-se protegida pelo pedido de patente EP23188811.6.

Após a fase de testes em condições laboratoriais, as ostras tratadas serão transplantadas para áreas da Ria de Aveiro, onde serão monitorizados indicadores como saúde, crescimento, composição microbiana e taxa de sobrevivência.

Assim, com este trabalho espera-se contribuir para o desenvolvimento de estratégias eficazes e sustentáveis no restauro de habitats marinhos degradados, com base em soluções biotecnológicas e adaptadas às crescentes pressões ambientais sobre os ecossistemas costeiros. Universidade de Aveiro - Portugal


quinta-feira, 8 de junho de 2023

Cabo Verde - Inauguração do projecto de requalificação e reabilitação do Forte Duque de Bragança, localizado no ilhéu da cidade de Sal Rei

Sal Rei – O primeiro-ministro considerou na Boa Vista que a intervenção na reabilitação do Forte Duque de Bragança enquadra-se na política cultural definida desde 2017 pelo Governo para restaurar, reabilitar e requalificar patrimónios históricos e religiosos do País.


Ulisses Correia e Silva falava na quarta-feira, 07, no acto de inauguração do projecto de requalificação e reabilitação do edifício histórico Forte Duque de Bragança, localizado no ilhéu da cidade de Sal Rei, construído em 1820 para proteger Boa Vista.

O chefe do Governo destacou, por isso, a importância deste tipo de intervenção, uma vez que países que deixam degradar os seus patrimónios “não valorizem a sua história e identidade”, pois, considerou, além do valor económico este tipo de património tem “um valor simbólico forte” do percurso e história da Nação e da transmissão de valores para o futuro.

“Este património tem um valor turístico importante porque é uma centralidade de visita da ilha, ao mesmo tempo agradável porque para se chegar aqui se faz uma travessia de pouco tempo no mar, o que aumenta possibilidade de haver mais visitantes, e isto terá uma devolução com valor acrescido para a população e para o território local e nacional”, frisou, reconhecendo a parceria com a Câmara Municipal da Boa Vista.

Na ocasião, o chefe do Governo felicitou o Instituto do Património Cultural (IPC) por este projecto que, a seu ver, “demonstra o trabalho meritório” que a instituição tem vindo a desenvolver com “esforço e qualidade”, que ficou também com a marca do ex-presidente do IPC, Hamilton Jair Fernandes, pela dedicação a este restauro e iniciativa de colocar este património dentro do leque dos reabilitados.

“Com estas reabilitações estamos a restaurar, a reconstituir, e a restituir a nossa história como povo independente, e não somente o património colonial como tem sido veiculado em debates”, afirmou, por seu lado, o ministro da Cultura, Abraão Vicente, que recordou outras reabilitações como a Catedral e o Pelourinho da Cidade Velha e o Forte de São Filipe.

O presidente da Câmara Municipal da Boa Vista, Cláudio Mendonça, manifestou-se satisfeito pela requalificação, visto que vai valorizar o espaço e a cidade de Sal Rei, destacando-o como um “elemento importante para resgatar e valorizar a história e a cultura” da ilha, contribuindo para “alavancar a actividade económica” da Boa Vista, que é o turismo.

“Hoje colocou-se uma gota de água para o desenvolvimento do município”, disse o autarca, garantindo que a sua equipa fará de tudo para valorizar e conservar o espaço, a começar pelo aspecto ambiental, que deve merecer a atenção não só da autarquia, como dos munícipes, entidades públicas e privadas.

A reabilitação é parte integrante do Plano Nacional de Reabilitação dos Edifícios Históricos e Estudos Religiosos, coordenado pelo Ministério da Cultura das Indústrias Criativas, através do Instituto de Património Cultural (IPC).

As obras de requalificação do Forte Duque de Bragança incluíram a conservação e restauro de sete canhões do monumento, colocados no passadiço que vai desde o Forte até o litoral, e a musealização com colocação de sinaléticas informativas à volta do ilhéu.

Além da reabilitação deste edifício histórico e património e a musealização de todo o ilhéu foram igualmente criados roteiros subaquáticos, reabilitada e requalificada a antiga Alfândega, edifício onde foi instalado o Museu de Arqueologia Subaquática, que será inaugurado hoje, projetos que complementam o núcleo de arqueologia da Boa Vista.

O projecto contou com co-financiamento da Direção Nacional do Ambiente, através do programa da Bio-Tur com o financiamento do PNUD no valor de 3508 contos, sendo o valor global do investimento de 4208 contos. In “Inforpress” – Cabo Verde


segunda-feira, 1 de maio de 2023

Macau - Quatro restaurantes de cozinha portuguesa seleccionados no Guia Michelin

O “Banza”, “A Lorcha”, “O Manuel – Cozinha Portuguesa” e o “Espaço Lisboa” são as casas de repasto seleccionadas para uma vez mais, fazerem parte do guia gastronómico mais famoso do mundo. E isso, garantem os seus proprietários e chefs ao Ponto Final, faz toda a diferença, principalmente em tempo pós-Covid-19. Mais do que os locais, os turistas são cada vez mais oriundos da região vizinha de Hong Kong. O carismático “O Castiço” continua a ostentar o título de “Bib Gourmand”, a par do restaurante educacional do IFT

O anúncio dos restaurantes estrelados pelo Guia Michelin para Hong Kong e Macau aconteceu na semana passada, mas não só de estrelas vive o mais famoso guia gastronómico do mundo. Há também boas propostas nas escolhas “Bib Gourmand” e nas casas seleccionadas.

Aqui, Macau também marca pontos nos diversos tipos de cozinha. Nós destacamos a culinária portuguesa. “A Lorcha”, em Macau, “O Manuel – Cozinha Portuguesa” e o “Banza”, na Taipa, e o “Espaço Lisboa”, em Coloane, surgem, uma vez mais, como escolhas seleccionadas no guia deste ano. “O Castiço” surge, novamente, este ano como escolha “Bib Gourmand”, distinção que partilha, entre outros, com o restaurante educacional do Instituto de Formação Turística de Macau (IFT).

Escreve o Guia Michelin que o “Banza”, “localizado num enorme complexo de apartamentos”, “possui uma sala de jantar verde e branca que exala elegância campestre”. “Os pratos de peixe são os protagonistas do cardápio, enquanto as escolhas populares entre os frequentadores incluem amêijoas à Banza, cozinhadas num molho picante de tomate, cebola e pimentão”.

Ao Ponto Final, os proprietários Fernando Freitas e Marco Policarpo mostram-se satisfeitos por uma vez mais, terem sido seleccionados para o guia gastronómico, algo que acontece, ininterruptamente desde 2014. “É claro que é importante, como todos os outros prémios que possam surgir. E mais importante se torna depois destes três difíceis anos devido à Covid-19”, começou por dizer Fernando Freitas.

O português acrescenta ainda que é “uma vitória que premeia uma grande dedicação”, destacando que estar no Guia Michelin representa, “com toda a certeza”, mais clientela. “Temos tido mais clientes, o que, naturalmente, nos deixa mais satisfeitos e confiantes. E nota-se que muita gente de Hong Kong e da China continental chega até nós. O guia deve ter um papel importante nessa divulgação, não duvido”.

Saltamos até à vila de Coloane para destacar o “Espaço Lisboa”, um local, referem os inspectores da Michelin, tem um “estilo decorativo que vem directamente de Portugal, assim como as influências por trás de muitos dos pratos caseiros”. “O proprietário criou um ‘espaço lisboeta’ caseiro nesta casa de dois andares na vila”, refere ainda o guia, não esquecendo de destacar “o presunto pata negra” e “o frango africano de Moçambique com sabor a coco”.

À conversa com um dos proprietários, o nosso jornal ficou a saber que o negócio “corre melhor” agora. O português Francisco Cruz, que partilha a propriedade do espaço com Henrique Custódio, admitiu que “é sempre importante” aparecer em guias como o da Michelin. “Naturalmente que não sabemos quem são e quando vêm, mas ter aquele autocolante na porta faz a diferença”.

Francisco Cruz alinha no mesmo diapasão de Fernando Freitas. Os clientes de Hong Kong são primordiais para a restauração local. “A grande maioria vem da região vizinha. Também há clientes da China continental, de Taiwan e da Coreia do Sul, mas nada se assemelha a Hong Kong”, enfatizou, acrescentando que a distinção da Michelin, que têm desde 2017, “em nada muda os pressupostos do restaurante”, até porque, diz, “foi assim que eles nos conheceram e nos escolheram”.

Como em casa

Voltamos à Taipa para conversar com Palmira Pena, a chef do restaurante “O Manuel – Cozinha Portuguesa”. Para a macaense, a selecção do Guia Milchelin é “muito importante” porque “traz reconhecimento”. “E mais importante se torna depois de três anos de pandemia Covid-19. Por isso, este selo é mais especial este ano”, considerou.

Os inspectores da Michelin consideram “O Manuel” um lugar “como se fosse em casa”. “Autenticidade e hospitalidade é o que atrai os clientes a este acolhedor restaurante de rua. Os recém-chegados serão recebidos pelo proprietário tão calorosamente como se fossem clientes regulares”.

Ao Ponto Final, a cozinheira revelou que, com esta azáfama à volta dos prémios, foi convidada para produzir um prato para o almoço oficial do evento do Guia Michelin em Hong Kong/Macau que teve lugar no Grande Lisboa Palace, antes da revelação dos vencedores das estrelas deste ano, e isso “foi muito gratificante”.

Também o restaurante “O Manuel”, que ostenta o autocolante da Michelin desde 2014, está mais cheio por estes dias. “Claramente que sim”, sublinhou Palmira Pena. A jovem mulher acrescentou ainda que estar com a casa cheia, especialmente com pessoas fora de Macau, “é algo que não esperava ver tão cedo”, mas que aplaude. “Estar no guia em nada dificulta nem traz dificuldades acrescidas. Difícil foi ter entrado. Vamos continuar iguais a nós próprios, sérios e competentes”, notou Palmira Pena.

Na península de Macau, mais precisamente na Barra, perto do Templo de A-Má, encontramos a “A Lorcha”. O restaurante, fundado em 1989, também é selecção da Michelin há alguns anos e este ano não fugiu à regra. Os proprietários encontram-se fora de Macau e, por isso, um dos empregados que falou com o Ponto Final ao telefone referiu que não podia falar em nome da casa de repasto.

Contudo, os inspectores da Michelin falam por si. “Os clientes regulares simplesmente não se cansam da comida saudável de uma cozinha comandada pela mãe do proprietário. Comece pelos obrigatórios pastéis de bacalhau, passando pelos pratos de churrasco ou, ainda, pela carne de porco salteada e amêijoas à alentejana, arroz de marisco misto e frango com curcuma e coco à moda macaense”, notaram.

Um comilão especial

Desde 2014 que ostenta o troféu “Bid Gourmand”, um prémio que a Michelin tem dado desde 1997 e que se aplica a restaurantes que servem alta qualidade de refeições a um preço considerado de dia-a-dia. “Este pequeno local simples e despretensioso com apenas cinco mesas passou para o filho do falecido proprietário – embora o seu espírito ainda seja honrado na atmosfera do restaurante, que é tão amigável e intimista como sempre foi. Os pratos da casa são autênticos e cuidadosamente preparados, recomendando-se a carne de porco estufada com amêijoas e o bacalhau assado no forno com batatas”, escreve a Michelin.

Conversámos com José Ferreira, filho do antigo e carismático proprietário Luís ferreira, mais conhecido por Xiolas, falecido em 2013, precisamente no mês de Abril. Ao nosso jornal, o actual dono lembrou o pai e considerou que, esteja onde ele estiver, “está orgulhoso do que tem sido feito”. “Aliás, tudo o que temos vindo a fazer é em sua memória e é totalmente dedicado a ele”, referiu.

José Ferreira considerou que mais um ano como “Bib Gourmand” é “muito importante”. “Apesar da Covid-19, mantivemos o nível e continuamos a trabalhar como se nada fosse. Foi difícil? Foi, claro, mas a traça tradicional que esta casa tem desde sempre é para manter. É isso que também nos define e distingue”.

Dentro das selecções e “Bib Gourmand” para Macau, fora da gastronomia portuguesa, estão ainda espaços de restauração como o “Cheong Kei”, “Lok Kei Noodles”, “Lou Kei (Fai Chi Kei)”, “Din Tai Fung”, no City of Dreams, “Chan Seng Kei”, “lung Wah Tea House”, “Kika”, “Ving Kei” (Macau), “Il Teatro”, “Imperial Court”, “Ngao Kei Ka Lei Chon” (Macau), “Yi Shun” (Macau), “Mok Yee Kei”, “Fong Kei”, “Terrazza”, “Yi”, “The Ritz-Carlton Café”, “SW Steakhouse”, “Vista 38”, “Palace Garden” e o “Lord Stow Bakery” situado na Rua do Tassara, em Coloane. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


sábado, 21 de maio de 2022

Já lá vão 20 anos da Restauração da Independência de Timor-Leste

Já lá vão vinte anos que a independência de Timor-Leste foi restaurada com cânticos de alegria. Já lá vão vinte anos que o povo de Timor de diversas cores estava a festejar a vitória alcançada. Já lá vão vinte anos que o povo de Timor começou a sentir-se livre, abraçando a sua pátria libertada com lágrimas felizardas. Já lá vão vinte anos que o povo de Timor fez uma marcha de liberdade pela memória de luta dos heróis martirizados.

Já lá vão vinte anos que o sistema governativo foi montado ou criado, mas está longe de ser consolidado, pois cada patrão não governava com o agir do senso comum, pois estava sempre com o senso pessoal, grupal e partidário. O sistema governativo estava longe de ser consolidado, porque todos queriam pescar os peixes dourados lá dentro…., que dentro é esse?, Não sei, pergunte ao sol do dia, talvez ele sabe, ou pergunte a lua da noite, talvez ela pode dar uma pista, … afinal nem o sol e nem a lua podem dizer sobre o que lá está dentro. Porém, o que precisamos acreditar é, amanhã será o novo dia, para a gente dialogar, para a gente cantar o hino de união e de fraternidade humana em prol de valorização da condição social do povo timorense e do desenvolvimento da nação, assentado na política de diálogo e de mútuo entendimento.

Já lá vão vinte anos que nós timorenses andávamos sempre com o pó das estradas de terra batida, o buraco de cada estrada fazia-nos mergulhar nas ondas do mar da terra. É por isso que está na hora de refletir e consciencializar a nossa mente sobre o que vamos fazer hoje, amanhã e depois de amanhã. Pensar em unir a força para tirar o pó das estradas de terra batida e transformá-lo em caminho fino.

Já lá vão vinte anos que o sistema de educação timorense foi estabelecido, mas está longe de ser consolidado, porque ainda há falta de professores em todas as áreas de atuação, ou de disciplinas, a miséria de infraestruturas escolares, falta de manuais didáticos, falta de bibliotecas escolares, falta de laboratórios escolares, e a questão do currículo também continua a ser um problema que tem de ser resolvido de imediato.

Já lá vão vinte anos que o sistema de saúde timorense foi estabelecido, mas está longe de ser consolidado e longe de ser classificado de excelente, porque os hospitais continuam a não ter condições necessárias para atender os pacientes, médicos especialistas ainda insuficientes, a precária infraestrutura hospitalar, falta de descentralização do pessoal de saúde aos centros de saúde comunitária em todo o território.

Já lá vão vinte anos que a independência de Timor-Leste foi restaurada com canções da terra, mas a valorização e a prosperidade do povo e da nação não estão tratadas ainda de forma igual para todos. Por isso o ambiente social e económico estão a caminhar lentamente sem oferecer nenhuma garantia de prosperidade e de melhoramento desejado para todo o timorense, porque não está a dar a máxima atenção ao setor da educação, não está a dar a máxima atenção ao sistema de saúde, não está a dar a máxima atenção ao setor agrícola e ao setor de turismo, e isso implica a qualidade de vida do povo e a sustentabilidade económica da nação. Mesmo assim acreditamos que tudo fique resolvido com o grande entendimento no plano estratégico de desenvolvimento, se a alma daqueles que governam é grande para fazer mudanças.

Já lá vão vinte anos que a questão da língua portuguesa cresce e se consolida em Timor-Leste, particularmente no ensino, no funcionalismo público, nos média e na igreja, incluindo nos setores privados e nas sociedades civis. Mesmo assim, não vemos uma política responsável por parte do estado e do governo sobre as línguas de ensino, e isso faz com que os nossos estudantes sofram de uma grande deficiência no domínio das línguas oficiais como instrumento de aprendizagem. Todavia, o mais importante é que continuamos a sonhar por uma mudança que nos acorde daqui a alguns dias, alguns meses, alguns anos, portanto o mais importante é que dentro de cada um de nós haja sempre uma luz de esperança.

Já lá vão vinte anos que a independência de Timor-Leste foi restaurada com hino da pátria, mas os lugares de preservação do património cultural não estavam construídos. Não havia casa da cultura construída, nem que tenha existido o museu nacional, a biblioteca nacional, as bibliotecas municipais, incluindo outras casas de cultura; será que vai haver mesmo depois de amanhã, não sabemos quando, mas vamos sonhando com uma pequena luz de esperança.

Finalmente, já lá vão vinte anos, o passado já foi, muitas coisas foram feitas, algumas delas de grande qualidade, algumas delas também de qualidade suficiente, outras também de qualidade insuficiente e até de mísera qualidade. E agora, o que vamos fazer é ter esperança para conquistar o tesouro dourado no fundo do mar, ou buscar as estrelas do céu para enfeitar o nosso olhar à educação, à vida saudável com seguro de saúde assegurado, à sustentabilidade económica e ao desenvolvimento das infraestruturas. Pensar numa educação de qualidade, pensar numa paz plena, pensar numa economia sustentável, pensar numa política de diálogo, pensar numa sociedade justa que respeite os princípios dos valores universais da humanidade. Portanto, tudo é pensar para um Timor-Leste melhor e para um povo próspero.

Viva Timor-Leste pelo seu vigésimo aniversário da Restauração da Independência de Timor-Leste! Vicente Paulino – Timor-Leste in “Tatoli”    

 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Portugal - Fundação Luso restaura esculturas de arte sacra no Bussaco


Duas peças de escultura barroca cuja restauração foi financiada pela Fundação Luso, ligada à Sociedade da Água de Luso (SAL), já podem ser visitadas no altar-mor do Convento de Santa Cruz do Bussaco, foi anunciado

A intervenção de conservação e restauro das peças de arte sacra começou em 2019, representou um valor a rondar os oito mil euros e foi financiada pela Fundação através da “receita gerada pelos visitantes da exposição da edição de 2019 sobre a “Cultura e Tradições do Concelho da Mealhada”, patente no Casino do Luso.

A escultura do Profeta Santo Elias, datada do século XVII – XVIII e enquadrada no estilo da escultura barroca, foi a primeira a ser restaurada, ainda em 2019.

Segundo foi divulgado pela Fundação Luso, “apresentava vários problemas de conservação e a intervenção realizada foi preferencialmente de conservação, tendo nas zonas mais degradadas sido realizados alguns restauros da policromia de modo a que não se perdesse a leitura da peça”.

O processo de conservação e restauro foi levado a cabo pelo Laboratório de Conservação e Restauro do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, da Direção Regional da Cultura do Centro.

Mais recente é o restauro de uma peça de arte sacra de São João da Cruz, datada dos séculos XVII – XVIII e enquadrada no estilo da escultura barroca.

“Apresentava vários problemas de conservação, nomeadamente destacamentos de suporte e de policromia. A intervenção seguiu os procedimentos da conservação e da conservação preventiva, tendo sido realizadas a desinfestação, a limpeza, a fixação de policromias, a colagem de elementos do suporte que se encontravam destacados, foram realizados preenchimentos de matéria, como intervenção preventiva, tendo estes recebido integração pictórica de modo a que não se perdesse a leitura da peça”, resume a Fundação.

A intervenção começou no início deste ano e ficou concluída há poucos dias.

“É com grande orgulho que vemos a recuperação do São João da Cruz, uma peça de arte com incomensurável valor cultural, histórico e patrimonial”, sublinha Nuno Pinto de Magalhães, presidente da Fundação Luso, acrescentando que vão ser feitas novas restaurações de figuras sacras, sempre financiadas pelas receitas das entradas no Casino da vila termal, propriedade da SAL. In “Mundo Português” - Portugal

sábado, 13 de junho de 2020

Cabo Verde – Restauração de capelas do séc XVII é um tributo a gerações passadas

Pedra Badejo – O primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, afirmou que em cada património reconstruído, restaurado e reabilitado se está a prestar tributos a gerações passadas, estabelecendo pontes para as gerações actuais e futuras.

O governante falava no acto de entrega das chaves das capelas de Nossa Senhora Imaculada Conceição, na localidade de Flamengos, e de Nossa Senhora de Socorro, em Achada Pizarra, no município de São Miguel, monumentos do século XVII, que foram reabilitados pelo Governo, em colaboração com a Câmara Municipal de São Miguel e Diocese de Santiago.

“A preservação da nossa herança material e imaterial é algo que o Governo considerou como um dos pilares fundamentais da sua política de cultura, mas da política global”, declarou, destacando a valorização da identidade cabo-verdiana.

Ao seu ver, a entrega destas capelas é um retrato da história, lutas e construção da identidade do País.

“Hoje começamos a cumprir um calendário, que vai alongar-se ao longo dos próximos dias e meses, de entrega de diversas intervenções realizadas e em curso a nível do património religioso, patrimónios da Nação cabo-verdiana, da igreja católica e de todos aqueles dos séculos passados que fizeram o máximo de esforço para que sejamos hoje a Nação que temos orgulho de pertença”, garantiu.

Por sua vez, o cardeal Dom Arlindo Furtado, que se congratula com a reabilitação, assegurou que esta iniciativa tem “grande significado” para a paróquia e diocese, mas também para o município de São Miguel que ficou “mais valorizado”.

“Governo tomou boas medidas porque isso faz bem ao povo e o povo saberá agradecer e dar valor àquilo que temos e que é importante para nós”, transmitiu, acrescentando que se está perante um “momento importante”.

Sobre as ossadas descobertas pelo Instituto do Património Cultural (IPC), Dom Arlindo Furtado, diz que a igreja acompanhou todo o processo e defende que sejam transferidas para lugares apropriados.

O ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, afiançou que se está a reforçar a crença do povo cabo-verdiano em si mesmo, mencionando sua identidade, história e seu percurso.

O governante realçou ainda o reconhecimento de um papel “quase umbilical” da igreja católica no nascimento da identidade cabo-verdiana.

Para o presidente da Câmara Municipal de São Miguel, Herménio Fernandes, os patrimónios do seu município estão a ser valorizados, traduzindo em “grandes recursos turísticos e religioso”.

“Com estas reabilitações criamos as condições de facto para promover o turismo de história e memória”, enfatizou. In “Inforpress” – Cabo Verde

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Macau - Epidemia “arrasa” negócios de portugueses



“Não tenho palavras. Não sei, não sei. O impacto [é] de 100% para quase 0%”, disse à Lusa Santos Pinto, dono de um restaurante que habita há trinta anos a rua que mais turistas atrai na ilha da Taipa, “O Santos”.

É dos poucos restaurantes abertos. Meia dúzia deles, ligados à restauração, já fechou portas. Na casa, habitualmente cheia, há um casal sentado a uma mesa. Hoje, a contabilidade está feita: há mais empregados do que refeições servidas.

“Este fim de semana ainda vou estar aberto. Na segunda-feira talvez vá fechar porque (…) não vem aqui ninguém. O que estou aqui a fazer?”, pergunta, perto de uma fotografia em que o próprio surge acompanhado do vocalista dos Rolling Stones, um dos muitos famosos que já visitaram o restaurante.

“Noutros tempos, no tempo da SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave, que matou 774 pessoas em todo o mundo], a situação nunca foi tão grave, ou pelo menos tão explosiva”, lembrou o benfiquista que fez da sua casa quase um santuário para os adeptos das ‘águias’.

“Tinha um grupo que chamava os solteiros, divorciados e os mal casados. Vinham aqui sempre, 15, 20 pessoas. Neste momento não sei onde é que eles andam”, lamenta.

À semelhança de Santos Pinto, Manuela Salema ainda estava a recuperar do impacto que os protestos na cidade vizinha de Hong Kong tiveram no seu negócio de importação/exportação de produtos portugueses, quando a epidemia apareceu para infectar toda a contabilidade.

“Quando nós finalmente começámos a ver alguma luz ao fundo do túnel, esperançados novamente … isto foi a gota de água. Não há ninguém, não temos clientes nenhuns”, sublinha a dona do “Cool-Thingz & PortugueseSpot”, numa das ruas da velha Taipa que há pouco mais de duas semanas fervilhava de movimento.

É preciso recordar-se do que aconteceu antes de 1999, “com as tríades e mortes nas ruas” de Macau para tentar explicar por que razão evitaria dizer que este é um momento trágico. Mas a antiga funcionária pública que se aventurou na criação do próprio negócio, familiar, a pensar também nas duas filhas, depressa admite “o momento muito complicado na vida normal das pessoas, na vida dos empresários, das lojas”.

Há conservas de atum e de sardinha, cerâmica, vinhos, compotas e têxteis impregnados de algum tipo de ‘ADN português’ na loja, mas desapareceram os clientes. “Tudo está vazio, enfim, é um impacto extraordinário, e eu não sei onde vamos parar”, confessa, outrora habituada aos clientes chineses, de Singapura, Taiwan, Japão e da Coreia do Sul, que desembarcavam na loja a partir de Hong Kong, agora apenas perturbada, quanto muito, pelo ruído de uma obra que decorre duas casas abaixo.

A loja, esclarece, “está semiaberta para aqueles que precisarem alguma coisa”, para um café, uma sandes e até uma máscara, se a farmácia estiver fechada. Já aconteceu antes: “Temos um sentido de cidadania”, justifica.

Uns metros mais à frente, o restaurante “A Petisqueira” não mais abriu as portas após um período de férias que coincide normalmente com o do Ano Novo Lunar. Eusébio Tomé deveria meter a chave na porta na sexta-feira e voltar a servir refeições. A falta de clientes e algumas empregadas Filipinas que estão no seu país impedidas de viajar para a China, numa proibição preventiva das autoridades que também inclui Macau, estragou-lhe os planos.

“Agora não sei quando vou abrir. É esperar mais uma ou duas semanas, ver o que acontece e esperar que as minhas empregadas consigam regressar a Macau para trabalhar”, resume, conformado, o português.

Noutra rua, outro negócio da restauração luso fechado. A cervejaria portuguesa Portugália. Quase em frente, “A Toca” ainda tem uma tarja com a qual se tentava seduzir os turistas e locais, com o pretexto de um festival dedicado ao polvo e ao bacalhau, mas as luzes estão apagadas e a porta não abre.

Na terça-feira, dia em que o chefe do Governo anunciou o fecho dos casinos, a população adivinhou que as medidas do Governo começavam a ganhar, de facto, o estatuto de excepcionais. Poucas horas foram necessárias para que o cenário de paralisação económica fosse óbvio. João Carreira – “Agência Lusa” in “Jornal Tribuna de Macau”

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Macau - Café Lisboa sai da Taipa em direcção ao NAPE para fusão com o Baía

O icónico restaurante muda de sítio, depois de 18 anos nas ilhas. No início desta semana começou uma nova vida, que agora se mistura com outro espaço bem conhecido da comunidade portuguesa, o Baía. O casal Carlos e Rosa já tem saudades do passado, mas olha para o futuro com esperança. Os bitoques, o bacalhau, o arroz de pato, e os incontornáveis grelhados vão continuar a ser actores principais do novo capítulo do antigo Lisboa



Ao final de 18 anos, a mudança. Não foi por vontade própria, mas por um fenómeno que em Macau passou a ser o prato do dia: a pressão imobiliária. Carlos e Rosa, donos do Café Lisboa, começaram a fazer contas a vida, e o que ganhavam não dava para fazer face a uma renda que ultrapassava as 100 mil patacas por mês. Tiveram que arranjar alternativa. E a oportunidade levou-os para a península, na zona do NAPE, para o lugar de um também afamado restaurante. O nome Lisboa caiu, para já, e é o antigo Baía que dá nome ao espaço. Pode-se mesmo, segundo o casal, falar de uma fusão entre o Lisboa e o Baía.

São 15h30, e o casal recupera do terceiro dia em que serve o almoço depois da reabertura. Têm sido dias de grande azáfama, com o ‘set lunch’ a fazer furor. O Café Lisboa — local de referência para a comunidade portuguesa de Macau quando é altura de almoçar ou jantar — teve de sair da Taipa onde o espaço conquistou fama.

Culpado? O valor exagerado das rendas. “O senhorio tinha aumentado o ano passado, e eu já tinha dito que não aguentava o valor o que ele queria”, afirma Carlos Lao, de 59 anos.

O dono do Lisboa explica que, no ano passado, o negócio não estava a correr tão bem, e que, por essa razão, “não dava para pagar a renda que eles estavam a pedir”. “Não dava mesmo para continuar. Já tínhamos decidido”, repete.

Carlos e Rosa começaram a falar de alternativas, e a necessidade de arranjar outro local para continuar o negócio tornou-se uma evidência. O senhorio nem sequer manifestou vontade de negociar. O crescimento da Taipa enquanto espaço turístico tem feito encarecer os arrendamentos do outro lado do rio, e, segundo Carlos, a realidade actual é a de que o aluguer de espaços comerciais está mais caro do que em Macau. “Ainda procurámos na Taipa, mas não encontrámos nada”, avança o proprietário.

Começaram a busca, e conversa puxa conversa, com amigos em comum à mistura, e houve duas vontades que se juntaram. A de Constantino José, ex-dono do Baía — de abandonar a RAEM depois de aqui ter assentado arraiais em 2013 — e a dos líderes do Café Lisboa de precisarem de um novo lugar para prosseguir a sua vida. Começou, logo ali, a ganhar forma a fusão que aconteceria mais tarde.

O pessoal do Lisboa mudou-se para o antigo Baía. “Trocar de nome é muito complicado, a burocracia é muito grande, mas se calhar, lá mais para a frente, isso poderá acontecer”, avança Rosa.

Prós e contras

A mudança, segundo Lao, foi uma decisão difícil de tomar. “Sempre são 18 anos. Tínhamos a clientela feita”, lamenta. Rosa acrescenta, entre risos: “Nem quero muito pensar nisso”. “Foi muito tempo naquele sítio, e agora há também a adaptação aqui”.

E ainda recorda que, antes, “fazíamos as coisas de olhos fechados”. “A cozinha lá era melhor, apesar de esta estar bem equipada, mas faltam-me os frios. Tinha os dois frigoríficos, e aqui não há”, enumera.

Mas, claro, também há coisas boas com a passagem para o NAPE. “Temos mais espaço, é ligeiramente mais barato, mas não muito”, começa por dizer. Se no anterior Lisboa havia lugar para 40 pessoas “bem apertadinhas”, aqui “podem sentar-se 50”. Ou seja, há mais espaço para rentabilizar. Mas o que pode parecer à primeira vista uma mais-valia, é avaliado por estes empresários como um pau de dois gumes. É que se por um lado podem ter mais gente, por outro lado isso terá como consequência o aumento de todos os custos.

“Pensámos numa coisa mais pequenina, para ter menos encargos. Arranjar pessoal é uma dor de cabeça muito grande, porque depois ainda é preciso treiná-los. Não queríamos ter tantas despesas, mas foi o que apareceu”, explica a mulher.

Sucesso imediato

No entanto, os primeiros dias de funcionamento ao almoço, segundo Rosa, têm sido uma loucura. Muita afluência. Mesas cheias. Pratos a entrar e a sair da cozinha. “Temos o ‘set menu’ e isto enche. Este é o terceiro dia, e isto é uma dor de cabeça porque a equipa ainda não está oleada”, confessa a mulher que comanda a operação.

O pessoal que forma a equipa é também uma fusão dos dois restaurantes, saem dois da cozinha do antigo Lisboa, e entram dois do antigo Baía.

Esta afluência ao almoço contrasta com o que era a rotina na Taipa, onde era o momento mais parado do dia. “Não ia muita gente, porque não há muitos escritórios. Trabalhávamos melhor à noite, porque os nossos clientes eram mais as pessoas que ali viviam”, explica, o que contrasta com aquela zona do NAPE, polvilhada de empresas e de funcionários.

Um ‘handicap’ da anterior “casa” na Taipa era a falta de sitio para os clientes estacionarem, o que a nova localização tem em bom número. No novo Baía, Rosa e Carlos esperam conseguir manter muitos dos clientes antigos, que já prometeram não abandonar o espaço, e conquistar novos públicos.

Longe vão os tempos em que era apenas a comunidade portuguesa a dar corpo à realidade do então Café Lisboa. Rosa lembra que, depois desse início, começaram a vir os chineses, “muitas pessoas de Taiwan”, e o turismo trouxe os japoneses e os coreanos que se apaixonaram pelos sabores portugueses. Hoje é um espaço muito heterogéneo.

Ementa de fusão

O casal ainda está a apalpar terreno. Para já o menú é aquele que Constantino José e a mulher Noémia tinham delineado. No futuro será uma mistura dos dois restaurantes. Rosa diz que vão aproveitar, da anterior gestão, “pelo menos os pratos de marisco”, que “são muito bons”. A esses vão acrescentar os clássicos “bife, bitoque, carne de porco à alentejana e a lula recheada”. Juntar-se-ão o “arroz de povo e o arroz de pato”, “o bacalhau assado e o polvo à lagareiro”. Não vão faltar os tradicionais grelhados, em que os frangos, a entremeada, e os secretos, eram as vítimas mais conhecidas.

Mas se no antigo Lisboa a carta era até grande demais para o número de mesas que o restaurante detinha, no novo Baía, a carta vai ser mais pequena, apesar de haver mais espaço para clientes. A razão é uma: “A cozinha é mais pequena, por isso não pode ser de outra forma”.

Se na Taipa o Café Lisboa estava aberto ininterruptamente entre as 11 horas e as 22 horas, a gestão vai adoptar, para já, outro modelo. Uma primeira abertura às 12 até as 15 horas para o almoço, e outra das 18 às 22 horas para o jantar.

Uma história que começou com salgadinhos

Os dezoito anos na vida dos humanos é uma marca que está ligada à entrada na fase adulta, e o mesmo se passa no caso do restaurante Café Lisboa.

Rosa relembra o início desta história quando tudo era mais voluntarista e nascia com a espontaneidade de quem se lembra de uma receita ou um prato novo para pôr na lista. “Nós começámos e não tínhamos condições nenhumas, era só para ser salgados e bolinhos”, recorda.

Tudo o que havia era “uma copazinha”. Rosa começou por fazer tudo em casa, primeiro uma carne assada, depois um arroz de pato. “E as pessoas começaram a pedir mais coisas. Ia mudando”, diz nostálgica.

Ela explica logo que não é cozinheira de profissão, mas que o acabou por ser por vocação. “Gosto de fazer, mas nunca pensei em trabalhar numa cozinha destas”, declara. O Café Lisboa foi crescendo, e o casal ficou com a parte que estava ao lado do estabelecimento.

“A partir daí começámos a fazer mais coisas, e eu todos os dias acrescentava um prato. Começámos a ter a lista, porque não a tínhamos sequer. E as coisas foram por aí fora”, relembra.

Podemos estar a entrar num capítulo de mais 18 anos, numa nova casa? “Ui, não”, solta, sonora, Rosa. “Isto será só mais uns aninhos, e depois passamos. É até à reforma. Dezoito anos são muitos anos, mas haja saúde”, remata. João Malta – Macau in “Ponto Final”

Joaomalta.pontofinal@gmail.com

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Brasil – Museu Nacional do Rio de Janeiro, incertezas um ano após o incêndio


Um ano após o incêndio que consumiu o Museu Nacional, a restauração da instituição é missão repleta de incertezas. Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam caminhos, fazem críticas e demonstram esperança em meio aos escombros



Na noite de 02 de setembro de 2018, bastaram poucas horas para o fogo apagar mais de dois séculos de história brasileira. Mais antiga instituição científica do país, a recuperação do acervo e do Palácio de São Cristóvão, que abrigou no passado a família real, é uma jornada de desafios. Por enquanto, as palavras de ordem são paciência e esforço para cumprir os objetivos traçados.

De acordo com o diretor da instituição, Alexander Kellner, é difícil falar de datas concretas.

"Enquanto não finalizarmos os projetos, fazemos estimativas. Mas temos metas. A primeira que queremos alcançar é de que em 2022, ano do Bicentenário da Independência, a gente consiga abrir parte do museu para a população. É uma meta que pode ser alcançada, basta boa vontade e coordenação", afirma o paleontólogo para a Sputnik Brasil.

A nova reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Pires de Carvalho, primeira mulher a assumir o cargo, no dia 8 de julho, disse em coletiva de imprensa que o objetivo de sua gestão é reabrir pelo menos uma ala do Palácio até 7 de setembro.

Os projetos a que Kellner se refere são os estudos para a restauração da fachada e do telhado do edifício localizado na Quinta da Boa Vista; a reconstrução da área interna do museu; e os anteprojetos de novas exposições.

"As pessoas não têm um entendimento completo do que acontece. Os projetos que precisam ser feitos estão em andamento, mas apenas quando concluídos, teremos uma ideia melhor de tempo e custo. Não adianta sair contratando empreiteira", diz Kellner.

Arrecadações muito abaixo do orçamento mínimo

Entre tanta incerteza, esperança. De acordo com o diretor, os danos à estrutura do edifício, datado do início do século 19, foram menores do que o imaginado. A reconstrução da fachada e do telhado deve começar neste ano.

"O museu teve danos estruturais, mas não irremediáveis", afirma.

Até o momento, têm se trabalhado com o valor aproximado de R$ 300 milhões para recuperar o museu. O diretor da instituição ressalta que esse número também é uma estimativa.

"Tem gente que avaliou em R$ 150 milhões, só vamos saber quando os projetos estiverem concluídos, o que deve acontecer até meados do ano que vem", diz o paleontólogo.

O dinheiro arrecadado até agora, no entanto, não atingiu nem mesmo essa previsão de orçamento mais enxuto. A maior parte foi enviada pelo governo alemão, que já destinou aproximadamente R$ 1,4 milhão para a Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN), que gerencia as contribuições. O governo da Alemanha prometeu mais R$ 4 milhões. Ao todo, a SAMN recebeu cerca de R$ 3,2 milhões, incluindo outros doadores internacionais e nacionais.

Ao contrário da Europa, política de doações dificulta captação no Brasil

Kellner agradece a campanha de arrecadação.

"Recebemos R$ 380 mil de pessoas físicas. Contamos com apoio, mas quando comparamos com doações na Europa, é diferente. Mesmo assim agradecemos o esforço das pessoas, mais de 3 mil fizeram doações" diz o diretor.

Quando se fala no Velho Continente, o que vem à mente é o desastre na Catedral de Notre-Dame, em Paris. Ocorrido no dia 14 de abril de 2019, a tragédia comoveu o mundo. E mobilizou os bolsos: em apenas dois dias, foram arrecadados R$ 3,76 bilhões para reconstruir o monumento.

"Quando se faz comparações com doações para Notre-Dame, as pessoas se esquecem que lá o doador deixa de pagar imposto para fazer isso. A conta não é exata assim, mas é uma linha de ação bem elaborada por governos na Europa e nos Estados Unidos, que nós talvez pudéssemos adotar. Enquanto isso não acontecer, não imagino ver doações vultuosas aqui", lamenta Kellner.

A instituição brasileira ainda conta com R$ 80,8 milhões do governo, mas a maior parte do dinheiro não chegou. O Ministério da Educação (MEC) já liberou R$ 16 milhões. Mais R$ 21 milhões virão de um contrato com o BNDES assinado antes do incêndio. Há ainda R$ 43 milhões destinados por uma emenda parlamentar da bancada do Rio à espera.

Pesquisadora culpa falta de investimentos dos governos

Para Kátia de Marco, presidente da ONG Associação Brasileira de Gestão Cultural, a dificuldade para captar recursos dos setores públicos para investimento em patrimônio é reflexo da crise econômica.

"O orçamento anual do Museu, de 2013 para 2018, caiu de R$ 531 mil para R$ 54 mil. Não é possível uma instituição que teve recursos reduzidos tão drasticamente conseguir seguir protocolos de excelência para preservar acervos", afirma ela para a Sputnik Brasil.

De acordo com perícia da Polícia Federal, o incêndio começou devido a uma sobrecarga num aparelho de ar condicionado instalado no auditório. Contribuiu para o fogo uma gambiarra na fiação. As investigações estão em fase de conclusão e ainda não apontaram culpados.

"A rede elétrica é o calcanhar de Aquiles dos museus, muitas vezes prédios antigos, sem estruturas atualizadas. Há exemplos de outros incêndios causados pela deficiência na manutenção delas", diz a pesquisadora.

Ações de prevenção podem ser simples e não custar caro

Segundo Kátia, é preciso investimento para prevenção, detecção e combate ao fogo e situações como inundações e umidade.

"Os governos são responsáveis por essa falta de prioridade. A gente vê isso por diversas instituições no Brasil. Dos quase 4 mil museus cadastrados no país, a maioria sofre com problemas relacionados à manutenção de suas estruturas", critica.

Apesar disso, a pesquisadora considera que algumas ações de prevenção são simples e econômicas.

"Existem protocolos de rotina que não custam muito, como o treinamento contínuo, a vigilância cotidiana da rede elétrica. Há uma cartilha do Instituto Brasileiro de Museus (Ibran) sobre segurança. Coisas básicas, como conferência de extintores, evitar materiais inflamáveis", explica.

Com doações até do Ibama, aos poucos parte de acervo vai sendo recuperado

As imagens do fogo ardendo no Museu causaram comoção nos brasileiros. A doutoranda em Museologia Kátia resume o sentimento diante da tragédia:

"A história do Brasil agora tem um apagão. Um vazio enorme".

Os danos foram gigantescos. Metade das coleções viraram cinzas. A de entomologia foi praticamente dizimada – o que significa 12 milhões de exemplares. Em termos de acervo total, 80% foi afetado, o que não significa necessariamente ter sido perdido.

Embora parte da história tenha virado cinzas, o diretor da instituição olha para frente e comemora doações de peças.



"Recuperamos ao máximo o material sob os escombros. Ainda estamos terminando essa fase. Retirar e colocar em segurança. A fase de catalogação, de inventário, vai demorar um pouco. Só depois que tirarmos tudo teremos tempo para avaliar as peças, o ponto mais demorado. Ao final recuperamos mais material do que prevíamos", afirma Kellner.

Muitas doações são feitas por particulares, instituições e órgãos de governo. Algumas são peculiares. Minerais, animais mortos e outros artefatos estão vindo de apreensões do Ibama e da Polícia Federal. Além disso, a direção do Museu já recuperou 15 mil volumes de obras doadas para restaurar a Biblioteca Francisca Keller. A previsão é de que 90% dela seja reposta.

"Tivemos a excelente notícia de que o Governo Federal está regularizando um terreno de 40 mil metros quadrados, adjacente à Quinta da Boa Vista, para fazer instalações provisórias do Museu com espaço para receber doações", diz Kellner.

Um alento vem do quintal do próprio Palácio de São Cristóvão. Um tesouro arqueológico de mais de 30 mil peças foi encontrado durante obras de modernização do Zoológico do Rio de Janeiro, localizado na Quinta da Boa Vista. A maior parte desses objetos serão destinados ao Museu Nacional.

Muitos itens remontam ao período no qual havia no local uma vila de funcionários do Palácio Imperial. Mas também foram encontrados vestígios de um antigo quartel, construído após a Proclamação da República. São objetos do cotidiano, como louças, xícaras, pratos, talheres, ferraduras e botões de roupas com o brasão imperial.

Os arqueólogos acreditam que muitas peças foram dadas por pessoas do próprio Palácio para os moradores do entorno. Ou seja, mais de 100 anos após de sair de casa, esse pequeno conjunto de itens retornará ao lar, ajudando a aliviar as dores de uma tragédia que talvez nunca cicatrize.

Ao final, a esperança dos especialistas é de que a tragédia no Palácio de São Cristóvão sirva como lição para aumentar a eficiência dos gestores culturais e conscientizar a população sobre história.

"Em vez de Fulano sai na padaria, por que não Fulano entrou num museu?"

Para Nélson Colás, gerente-geral da Federação de Amigos de Museus do Brasil (Feambra), tragédias como as do Museu Nacional sensibilizam as pessoas sobre o valor dessas instituições.

"O número de visitantes tem aumentado gradativamente, dados do Ibran mostram aumento constantes nos últimos 4 anos, de 20% em média. Mas dependemos de divulgação. A gente sabe que muitas pessoas ainda têm medo de entrar nos museus, pois não sabem o que vão encontrar. O que não podemos é deixar de falar deles. Brinco que os sites de notícias anunciam atualmente: 'Fulano sai da padaria'. Poderia mudar para 'Fulano foi visto entrando num museu'", diz Colás para a Sputnik Brasil. In “Sputnik Brasil” - Brasil