Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Portugal – O Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental une-se à defesa do Oceano como domínio estratégico da ciência portuguesa

Cinco centros de investigação nacionais apelam ao reconhecimento do Oceano como um dos Domínios Estratégicos da futura política nacional de investigação e inovação


O CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto uniu-se ao MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, ao Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro (CESAM), ao Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR) e ao Instituto de Investigação em Ciências do Mar da Universidade dos Açores (OKEANOS) na assinatura de um manifesto que defende o reconhecimento do Oceano como um Domínio Estratégico da ciência e inovação em Portugal.

A iniciativa surge numa altura em que a Agência para a Investigação e Inovação (AI²) está a definir as áreas estratégicas que irão orientar o investimento público em investigação e inovação nos próximos anos. Os cinco centros consideram que o Oceano deve assumir um papel central nesta estratégia, refletindo a importância científica, ambiental, económica e geopolítica do mar para o país.

Portugal possui uma das maiores áreas marítimas da Europa, com cerca de 97% do seu território sob jurisdição marítima e uma Zona Económica Exclusiva de aproximadamente 1,7 milhões de quilómetros quadrados, à qual se soma a proposta de extensão da plataforma continental. Para os subscritores do manifesto, esta realidade torna evidente a necessidade de uma aposta continuada na investigação marinha, capaz de apoiar políticas públicas, promover a inovação e responder aos desafios colocados pelas alterações climáticas, pela conservação da biodiversidade e pelo desenvolvimento sustentável da economia azul.

O texto do manifesto foi apresentado durante o Encontro Ciência 2026 e defende que o reconhecimento do Oceano como domínio estratégico permitirá reforçar a capacidade científica nacional e consolidar o papel de Portugal como país de referência na investigação marinha.

Entre os argumentos apresentados estão o contributo da ciência para a gestão sustentável dos recursos marinhos, a segurança alimentar, a conservação dos ecossistemas, a soberania marítima e a competitividade da economia azul.

Leia abaixo o conteúdo do manifesto.

O Manifesto: O oceano como domínio estratégico na ciência e na inovação

Se hoje tivéssemos de decidir quais os domínios que deveriam ser designados como «Domínios Estratégicos» no âmbito da IA², muitos de nós faríamos uma pergunta muito simples:

Que outro domínio reúne, tudo ao mesmo tempo, soberania, segurança, clima, energia, biodiversidade, alimentação, recursos geológicos, dados, património cultural, inteligência artificial, telecomunicações, economia, diplomacia e inovação?

Só há uma resposta: o oceano.

Portugal não é apenas um país com litoral. É um país definido pelo mar. Gerimos uma Zona Económica Exclusiva de cerca de 1,7 milhões de km², com uma extensão proposta da plataforma continental que ultrapassa os 4 milhões de km². Cerca de 97 % do nosso território é mar. Essa responsabilidade de governação não se exerce através de discursos. Exerce-se através da ciência, da tecnologia e da inovação.

Mas há uma segunda razão.

O AI² está a ser criado para ligar a investigação, a inovação e o impacto. O AI² define os domínios estratégicos como aqueles que respondem aos principais desafios da sociedade, integram diferentes áreas científicas e transformam o conhecimento em valor económico, social, cultural e ambiental.

Nenhuma área representa melhor essa integração do que o oceano.

O oceano exige que reunamos a biologia, a engenharia, a inteligência artificial, a robótica, a ciência de dados, os materiais, a energia, a economia, o direito, a saúde, as políticas públicas e as ciências sociais. É um verdadeiro laboratório de interdisciplinaridade e um acelerador da inovação.

E há uma terceira razão.

Portugal já dispõe de uma massa crítica extraordinária, como demonstrado pela Declaração de Aveiro. Os cinco principais centros de ciências marinhas (MARE, CESAM, CIIMAR, CCMAR, OKEANOS) reúnem mais de 900 investigadores de doutoramento integrados, mais de 10 500 publicações em cinco anos, mais de 700 projetos e cerca de 206 milhões de euros em financiamento competitivo, participando simultaneamente nas principais infraestruturas científicas europeias.

O problema não é a falta de excelência.

O problema é que esta excelência continua demasiado fragmentada, dependente de financiamento a curto prazo, travada por infraestruturas insuficientes, emprego precário e uma interface entre ciência e política que ainda é demasiado frágil.

É precisamente aqui que a AI² pode fazer a diferença.

Ao reconhecer o oceano como um domínio estratégico, a AI² não estaria a favorecer um único campo científico. Estaria a criar uma plataforma nacional para integrar conhecimentos, impulsionar missões orientadas para o impacto, mobilizar investimento público e privado, desenvolver tecnologias digitais e de inteligência artificial, reforçar uma economia azul sustentável e apoiar decisões políticas baseadas em dados concretos.

Numa altura em que a Europa está a debater a Lei Europeia dos Oceanos no âmbito do Pacto Europeu para os Oceanos e a investir em «gémeos digitais» oceânicos, na observação dos oceanos e na inteligência artificial aplicada ao mar, Portugal tem uma oportunidade única de liderar, em vez de se limitar a seguir.

Assim, a questão já não é se o oceano deve ser um domínio estratégico da AI².

A verdadeira questão é:

Como poderíamos construir uma estratégia nacional de investigação e inovação para Portugal sem colocar o oceano no seu centro?

Porque investir no oceano não é investir apenas num único domínio científico.

É investir na soberania, na competitividade, na segurança, na sustentabilidade e no futuro de Portugal.

Portugal pode voltar a ser uma potência marítima através do conhecimento.

Autores

Pedro R. Almeida, Diretor do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Universidade de Évora, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, Universidade de Coimbra, Universidade da Madeira, Politécnico de Leiria, Politécnico de Setúbal, ISPA e ARDITI)

Amadeu Soares, Diretor do CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Universidade de Aveiro

Vítor Vasconcelos, Diretor do CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, Universidade do Porto

Adelino Canário, Diretor do CCMAR – Centro de Ciências do Mar, Universidade do Algarve

Gui Menezes, Diretor do OKEANOS – Instituto de Investigação em Ciências do Mar, Universidade dos Açores. Universidade do Porto - Portugal




domingo, 22 de junho de 2025

Portugal – Universidade de Aveiro lidera projeto para restaurar os recifes de ostras no país

A Universidade de Aveiro (UA) está a liderar o projeto RePor – Restauração dos Recifes de Ostras de Portugal (MAR-016.9.1-FEAMPA-00004), com o objetivo de desenvolver uma estratégia inovadora para restaurar e reforçar a resiliência dos recifes de ostras nas zonas costeiras portuguesas


Coordenado pelo investigador Daniel Cleary, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), o RePor é apoiado pelo programa Mar2030, cofinanciado pelo Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos, das Pescas e Aquicultura (FEAMPA), no âmbito da ação de Apoio à Proteção e Restauração da Biodiversidade e dos Ecossistemas Marinhos.

O projeto obteve parecer favorável da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), por estar alinhado com a Diretiva Quadro Estratégia Marinha e contribuir para a implementação da Estratégia Ambiental do Atlântico Nordeste da Convenção OSPAR.

Este projeto propõe uma abordagem inovadora para restaurar os recifes de ostras que têm vindo a sofrer um acentuado declínio devido à exploração excessiva e poluição, de forma a recuperar e rentabilizar os benefícios ecológicos, económicos e sociais destes ecossistemas importantes. Serão desenvolvidas e aplicadas técnicas inovadoras para aumentar a resiliência das ostras juvenis (Ostrea edulis), incluindo o pré-condicionamento a choques térmicos e de salinidade, aliado à modulação do microbioma.

O projeto baseia-se numa plataforma tecnológica recentemente criada, composta por malhas poliméricas porosas e biodegradáveis, que permitem a libertação controlada de moduladores microbianos. Esta tecnologia foi desenvolvida pela mesma equipa no âmbito dos projetos AquaHeal (MAR-02.01.01-FEAMP-0031, MAR2020) e BlueComposite (CENTRO-01-0145-FEDER-181223, Portugal 2020), e encontra-se protegida pelo pedido de patente EP23188811.6.

Após a fase de testes em condições laboratoriais, as ostras tratadas serão transplantadas para áreas da Ria de Aveiro, onde serão monitorizados indicadores como saúde, crescimento, composição microbiana e taxa de sobrevivência.

Assim, com este trabalho espera-se contribuir para o desenvolvimento de estratégias eficazes e sustentáveis no restauro de habitats marinhos degradados, com base em soluções biotecnológicas e adaptadas às crescentes pressões ambientais sobre os ecossistemas costeiros. Universidade de Aveiro - Portugal


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Portugal - Amêijoa asiática limpa águas contaminadas

São invasoras, estão a destruir gradualmente os ecossistemas ribeirinhos nacionais, mas podem ser muito úteis na hora de despoluir águas contaminadas. Chamam-se amêijoas asiáticas e conseguem limpar as águas poluídas por uma das mais poluentes indústrias do sul da Europa: a da produção de azeite. A descoberta é de uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro (UA).



“Sabemos que as amêijoas asiáticas conseguem remover metais e compostos orgânicos recalcitrantes, ou seja, não biodegradáveis ou de difícil biodegradação, como os que se encontram nos efluentes da indústria de produção do azeite”, refere Joana Pereira, investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), uma das unidades de investigação da UA.

A cientista responsável pelo estudo sublinha também a capacidade destes bivalves em “remover matéria orgânica no geral, bem como de remover bactérias e vírus potencialmente patogénicos se integradas em determinadas fases dos processos de tratamento de água”.

“Estes efluentes deverão ser tratados, mas os sistemas de tratamento mais eficazes são ainda bastante dispendiosos e difíceis de manter dada a sazonalidade da produção, pelo que a procura de novas soluções de tratamento é um assunto relevante”, aponta a investigadora.

No que à indústria do azeite diz respeito, “sabe-se que, todos os anos, a quantidade média de efluentes provenientes da indústria do azeite pelos países mediterrâneos [Espanha, Itália, Portugal e Grécia] equivale a cerca de 30 milhões de toneladas” e que “o impacto ambiental de 1 metro cúbico desses efluentes equivale ao impacto de 200 metros cúbicos de efluentes domésticos”.

Ainda que o encaminhamento destas águas para tratamento seja feito de forma correta, “como felizmente acontece em muitas unidades”, confirma Joana Pereira, “é fundamental continuar a desenvolver soluções de tratamento eficazes e economicamente e ambientalmente sustentáveis”.



Organismo multifacetado

Organismos filtradores – os bivalves alimentam-se por filtração de material orgânico em suspensão na água –, as amêijoas asiáticas são uma espécie capaz não só de taxas de filtração elevada como também são tolerantes a condições ambientais adversas, como as que decorrem da contaminação.

“A tolerância a contaminantes problemáticos pode relacionar-se com as capacidades de acumulação deste tipo de compostos que as amêijoas têm e com a possibilidade de concentrarem os contaminantes nas pseudofezes que libertam para o exterior sob a forma de massas mais densas que a água, que por isso ficam depositadas nos fundos”, explica.

Ainda em fase experimental nos laboratórios do Departamento de Biologia, a utilização das amêijoas asiáticas adivinha-se como um apoio aos métodos de tratamento de água já existentes, podendo ser integradas em etapas do processo de tratamento de águas residuais em ETAR’s.

Teoricamente, aponta Joana Pereira, a amêijoa asiática pode ser utilizada “em todos os cenários em que haja uma matriz aquática a tratar, em que seja necessário remover contaminantes compatíveis com a tolerância e capacidade de processamento da amêijoa”. Hipoteticamente, “poderá adaptar-se esta ideia a estações de tratamento de águas residuais e de águas para consumo humano, mas também, entre muitos outros locais, a piscinas naturais e praias fluviais, desde que sejam sistemas já invadidos pela amêijoa asiática (ou seja, que esta não seja mais uma via de introdução do invasor) e desde que sejam tomadas todas as precauções para evitar a dispersão da espécie em habitats ainda não invadidos”.

Estas amêijoas têm duas vantagens essenciais em relação a produtos convencionais. Primeiro, aponta Joana Pereira, são uma solução biológica que poderá substituir a utilização de um ou mais químicos no sistema de tratamento, ou pelo menos diminuir as dosagens de utilização desses químicos, com vantagens óbvias sob o ponto de vista económico e ambiental. Segundo, “é dado um uso a uma espécie invasora que precisa de ser removida dos nossos ecossistemas aquáticos em iniciativas de controlo, o que pode compensar os gastos efetuados para essa remoção beneficiando, de uma forma geral, a sustentabilidade (incluindo a económica) dos programas de gestão desta espécie invasora”.

Para além de Joana Pereira, o trabalho publicado no Journal of Cleaner Production é assinado por Ana Domingues, Inês Correia Rosa, João Pinto da Costa, Teresa Rocha-Santos, Fernando Gonçalves e Ruth Pereira numa pareceria entre o CESAM, os departamentos de Biologia e de Química da UA e a Universidade do Porto. In “Universidade de Aveiro” - Portugal