Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Brasil - Estudo revela que conhecimento local melhora a sustentabilidade das pescas interligadas

Uma nova investigação, que conta com a participação de Sérgio Timóteo, investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), revela o valor do conhecimento local e da organização das comunidades na criação de estratégias de proteção para a pesca de pirarucu (Arapaima gigas).


O trabalho, publicado no Journal of Applied Ecology, explica como essas estratégias podem ser aplicadas a outros sistemas socioecológicos, utilizando redes espaciais e modelação de meta-população, dentro e fora da Amazónia.

De acordo com Sérgio Timóteo, na Bacia do rio Juruá, na Amazónia Ocidental brasileira, a cogestão do pirarucu - o maior peixe de água doce do mundo - tem atraído atenção para a sua conservação, uma vez que a proteção dos lagos de meandro levada a cabo pelos habitantes locais tem favorecido a recuperação desta espécie emblemática, que estava à beira da extinção, beneficiando a biodiversidade e o bem-estar das comunidades.

«Entre as várias possibilidades, a escolha dos lagos a proteger é feita por pescadores locais experientes, que se baseiam no conhecimento ecológico acumulado ao longo de gerações sobre as dinâmicas sazonais do rio e o comportamento dos peixes. Este conhecimento local é combinado com políticas regulatórias que definem quotas anuais de pesca para os lagos em cogestão, com o objetivo de garantir a sustentabilidade do sistema e prevenir a pesca ilegal», explica o especialista.

Embora as escolhas locais e as regulamentações governamentais tenham demonstrado ser eficazes, os habitantes locais querem saber se as suas decisões são as melhores, enquanto os gestores e governos procuram formas de expandir esta iniciativa por toda a Amazónia. No entanto, experiências empíricas em larga escala são desafiantes, especialmente em áreas remotas como o coração da Amazónia.

Para apoiar esta iniciativa, os autores desenvolveram seis cenários alternativos de cogestão da pesca na região, baseados em dados populacionais de pirarucu recolhidos entre 2011 e 2022 por pescadores locais em 13 lagos protegidos e 19 lagos não protegidos. A equipa construiu uma rede espacial na qual os 31 lagos estudados se ligam entre si dependendo da sua posição geográfica, estado de proteção e ecologia do pirarucu.

Este estudo foi utilizado para desenvolver um modelo populacional que considera o número de adultos de pirarucu em cada lago ao longo do tempo, o crescimento populacional e a capacidade de carga de cada lago. Os cenários alternativos propostos envolvem mudanças nos lagos protegidos com base em fatores como ligações entre lagos, área, posição geográfica, capacidade de carga ou sem critérios específicos. Os autores também modelaram diferentes níveis de pesca ilegal nos lagos não protegidos.

«Os resultados foram surpreendentes», afirma o coautor. «Embora uma estratégia baseada na capacidade de carga ofereça resultados mais eficientes, o esquema de cogestão existente apresentou um desempenho muito próximo. Isto realça a importância e a fiabilidade do conhecimento local dos pescadores, já que os lagos geridos pelas comunidades mantiveram populações elevadas de pirarucu e são importantes refúgios contra a sobre-exploração», sublinha.

«A dinâmica de meta-população e a taxa de crescimento do pirarucu nesta área garantem que os lagos protegidos funcionem como fonte de novos indivíduos para o ecossistema fluvial, moderando o declínio populacional dentro de determinados limites, dependendo de cada cenário», realça o investigador do CFE/FCTUC.

Para além do conhecimento sobre a região do Juruá e a Amazónia, este trabalho oferece um modelo transferível na avaliação de estratégias de cogestão de pescas em diferentes cenários sociais e ecológicos. Ele fornece um guia para integrar o conhecimento local e a modelação ecológica, promovendo a sustentabilidade em ecossistemas complexos em todo o mundo.

«Estes resultados reforçam o valor do conhecimento ecológico local na definição de planos de conservação espacial na Amazónia. Ao selecionar quais os lagos que devem ser protegidos ou geridos de forma sustentável, os pescadores locais realizam uma análise multidimensional que considera vários fatores, como a ecologia dos peixes, as condições ambientais do lago e os aspetos logísticos de acesso. Este processo representa a materialização de uma tecnologia social complexa, forjada ao longo de milénios de interações entre pessoas e a natureza», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Portugal - Estudo avalia risco de exceder limites de segurança de metais tóxicos e iodo pelo consumo de macroalgas e halófitas

Um grupo de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com a Universidade de Aveiro, realizou, em Portugal, o levantamento dos níveis de metais tóxicos e iodo em macroalgas e plantas naturalmente adaptadas a biótopos salinos, conhecidas como halófitas.


Atualmente, as macroalgas e halófitas são reconhecidas como alimentos funcionais, representando uma fonte de nutrientes essenciais e compostos bioativos. O aumento do consumo destes produtos e o facto de serem ainda pouco estudados justificaram esta avaliação a nível nacional.

Os resultados mostram que o arsénio e o iodo são os dois elementos químicos que limitam o consumo, em segurança, de macroalgas, principalmente de macroalgas castanhas, que são as que as pessoas mais consomem. Por outro lado, as halófitas parecem ser uma boa alternativa se cultivadas em locais não contaminados.

Importa destacar que a Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC), da Organização Mundial da Saúde, classifica o arsénio como cancerígeno para o ser humano (Grupo I). A mesma organização reconhece, ainda, que a ingestão excessiva de iodo pode causar disfunção da glândula tiroide. O nível dos elementos químicos estudados está em curso em vários países europeus, em cumprimento de uma recomendação da Agência Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), de 2018, que visa garantir a segurança alimentar e promover o desenvolvimento sustentável e responsável do setor.

«Este trabalho teve como principais objetivos determinar em que medida a ingestão de cádmio, chumbo, mercúrio, arsénio e iodo presentes em macroalgas e halófitas excede os limites de segurança conhecidos. Para além disso, foi avaliado o potencial das várias espécies e dos locais de amostragem estudados como possíveis promotores da economia azul e da agricultura marinha em Portugal, considerando que a acumulação dos elementos químicos está relacionada com a localização geográfica em que as várias espécies crescem», elucida Elsa Teresa Rodrigues, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) e do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC.

Nesta investigação concluiu-se, ainda, que as zonas estuarinas não são apropriadas para desenvolver agricultura marinha, enquanto a costa rochosa portuguesa apresenta condições seguras para esse fim.

De acordo com a equipa de investigadores, a implementação da agricultura marinha, em Portugal, deve ser feita apenas em zonas restritas da costa, com qualidade ambiental comprovada. Os produtos alimentares comercializados devem apresentar elevada qualidade, ser vendidos a preços justos e garantir benefícios económicos e ambientais, nomeadamente pelo aproveitamento dos subprodutos para o desenvolvimento de outro tipo de indústrias.

«É fundamental a Comissão Europeia estabelecer limites máximos para arsénio e iodo em macroalgas destinadas ao consumo humano e a sua monitorização rigorosa deve ser assegurada pelas autoridades nacionais competentes», consideram os especialistas.

«Faz-se, ainda, o apelo à população para limitar o consumo de macroalgas castanhas, devido ao seu elevado teor de arsénio e iodo, dada a possibilidade de haver efeitos adversos para a saúde», concluem.

O artigo científico “Risks of exceeding health-based guidance values for toxic metals and metalloids through seaweed and halophyte consumption” está disponível aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 12 de junho de 2025

Investigadora da Universidade de Coimbra colabora em livro que destaca a urgência da conservação da flora única de São Tomé e Príncipe

Maria do Céu Madureira, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), colaborou no “Livro Vermelho das Espécies Endémicas de São Tomé e Príncipe”, resultado do projeto “Characterization of the threatened flora of São Tomé & Príncipe - Projecto Flora Ameaçada”, financiado pelo Critical Ecosystem Partnership Fund (CEPF).


Esta obra pioneira fornece a primeira visão geral do estado de conservação de 106 espécies de plantas (sub)endémicas, avaliadas de acordo com os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

«O livro mostra que duas espécies estão já extintas, enquanto doze se encontram criticamente em perigo, 53 em perigo, e 25 consideradas vulneráveis. A publicação evidencia a urgência da ação conservacionista, numa altura em que a biodiversidade das ilhas enfrenta ameaças crescentes, como a expansão agrícola, desflorestação e espécies invasoras», revela Maria do Céu Madureira.

De acordo com a especialista da FCTUC, a redescoberta de espécies raras como Balthasaria mannii e Psychotria exellii, não vistas há mais de meio século, bem como a identificação de pelo menos 17 espécies novas para a ciência – incluindo uma nova espécie dominante de Cleistanthus nas florestas secas do norte de São Tomé –, estão entre as descobertas mais marcantes.

O livro, ilustrado com gráficos e mapas de distribuição, destaca também os ecossistemas do arquipélago, apresenta as metodologias utilizadas e propõe diretrizes para a conservação. Identifica 21 áreas de elevada importância para a preservação da flora, muitas das quais fora da atual rede de Áreas Chave da Biodiversidade (KBA’s). Além disso, foram realizadas ações de conservação ex situ, com a plantação de espécimes ameaçados em viveiros locais, no Jardim Botânico de Bom Sucesso e em áreas florestais degradadas.

«Esta publicação sublinha a importância de reforçar o conhecimento científico local e a formação de técnicos e botânicos são-tomenses, reconhecendo a flora endémica como um património natural de valor incalculável para a resiliência dos ecossistemas face às alterações climáticas», conclui Maria do Céu Madureira.

O “Livro Vermelho das Espécies Endémicas de São Tomé e Príncipe” representa uma ferramenta científica vital para orientar decisões políticas, educativas e de conservação, sendo dirigido a autoridades governamentais, comunidades locais, setor privado e profissionais da conservação.

A obra pode ser descarregada de forma gratuita aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Portugal - Estudo da Universidade de Coimbra avalia impacto das plantações de eucalipto nos animais invertebrados

Um estudo liderado por investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) avaliou os impactos das plantações de eucalipto nas comunidades de invertebrados do solo à escala global, comparando esses efeitos com os observados noutras utilizações do solo.


 

Esta investigação, que contou com a participação de investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE), do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e da Universidade Estadual de Santa Catarina (Brasil), está publicada na revista científica Land Degradation & Development

«Os resultados do estudo mostram que as plantações de eucalipto têm uma densidade de invertebrados inferior à das outras plantações florestais, mas superior à das pastagens e sistemas agroflorestais. A diversidade de invertebrados é menor nas plantações de eucalipto em comparação com as florestas nativas, mas maior do que em outras plantações florestais. Além disso, os impactos variam conforme o tipo de plantação e fatores climáticos, como temperatura e precipitação», revela Raquel Juan-Ovejero, investigadora do CFE e da Universidade de Vigo. 

Para alcançar os objetivos deste estudo, os especialistas realizaram uma meta-análise global que integrou evidência científica de 26 estudos publicados, permitindo a comparação dos impactos das plantações de eucalipto com os de outros usos do solo, incluindo florestas nativas, outras plantações florestais, pastagens, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta e áreas invadidas por acácias. Além disso, a investigação procurou identificar fatores que influenciam esses impactos, como o tipo de plantação e as variáveis climáticas.  

A líder do estudo considera «crucial a integração de informação em futuros estudos sobre as propriedades físico-químicas do solo, a idade das árvores, os métodos de amostragem e as práticas de gestão florestal, para melhorar a compreensão dos efeitos das plantações de eucalipto sobre os invertebrados, o solo e a biodiversidade em geral. Os resultados que obtivemos têm um impacto significativo tanto no avanço do conhecimento científico como na prática da gestão florestal». 

De acordo com os especialistas, os invertebrados desempenham um papel fundamental nos ecossistemas, como a decomposição de matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes. «Ao compreender melhor os impactos destas plantações nestes organismos, os gestores florestais podem adotar práticas que minimizem os efeitos negativos nos invertebrados e, consequentemente, promovam a saúde do solo e a manutenção das funções ecológicas», acredita. 

«Desta forma, o estudo contribui para o desenvolvimento de estratégias de gestão mais equilibradas, que procurem reduzir os impactos ambientais das plantações de eucaliptos e garantir a sustentabilidade dos ecossistemas a longo prazo», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Portugal - Estudo mostra que dispersores de sementes ajudam plantas a subir às montanhas para escapar das alterações climáticas

Um estudo liderado por Sara Mendes e Rúben Heleno, investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), concluiu que os dispersores de sementes ajudam as plantas a subir às montanhas para escapar das alterações climáticas.


 

Esta investigação, publicada na revista New Phytologist, documentou todas as espécies de animais que dispersam cada espécie de planta ao longo dos cinco pisos de vegetação altitudinais da ilha de Tenerife, nas Canárias. Esta ilha é o ponto mais alto do Oceano Atlântico, atingindo os 3718 metros acima do nível do mar, e a sua vegetação está estruturada verticalmente, o que a torna o local ideal para explorar como as espécies respondem às alterações climáticas em ecossistemas montanhosos. 

«Durante dois anos, subimos e descemos a serra, culminando numa das redes de dispersão de sementes mais completas já compiladas a nível mundial. Os resultados que obtivemos indicam que os dispersores de sementes conectam os diferentes pisos de vegetação, comendo frutos e dispersando sementes viáveis ao longo de "corredores" que vão da praia ao cume da montanha. Desta forma, permitem que as próximas gerações de plantas consigam germinar e crescer em altitudes mais elevadas, escapando às duras alterações climáticas nas zonas mais baixas (seca e calor)», revela Sara Mendes, primeira autora do estudo. 

De acordo com os autores, um dos resultados mais importantes e inesperado foi terem encontrado sementes de onze espécies de plantas a ser dispersadas pelos animais (nos seus excrementos) para altitudes superiores àquelas onde as plantas adultas atualmente existem.  «Estas sementes mostram que os animais conseguem ajudar as plantas a subir a montanha a uma velocidade suficiente para que estas consigam acompanhar as alterações climáticas», afirmam. 

Contudo, alertam os especialistas, «o estudo revelou um resultado preocupante: mais de metade dessas plantas que os animais estão a ajudar são espécies exóticas, que podem tirar vantagem desta boleia, representando uma potencial ameaça para os ecossistemas nativos».

Esta investigação frisa a importância de proteger as espécies de animais que dispersam sementes, não apenas pelo seu valor intrínseco, mas também pelo serviço que prestam para a sobrevivência das plantas nas montanhas num clima em mudança. No entanto, evidencia ainda a necessidade urgente de controlar a propagação de espécies exóticas. 

«Proteger os dispersores de sementes e investir em estratégias de conservação para mitigar a invasão de espécies exóticas são passos cruciais para salvaguardar a integridade dos ecossistemas montanhosos», concluem. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Portugal - Investigadores exploram células do tamarilho com potencial para produção de substâncias ativas

Um grupo de investigadores do Laboratório de Biotecnologia Vegetal do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) tem vindo a explorar, ao longo dos últimos anos, linhas celulares de plantas solanáceas, nomeadamente o tamarilho, com o objetivo de induzir a produção de moléculas ativas em cultura in vitro com potencial para aplicação em diferentes setores.

O projeto PlantReact, um dos vencedores dos Prémios Semente da Universidade de Coimbra, centrou-se na produção de enzimas hidrolíticas, moléculas com a capacidade de decompor outras moléculas em frações mais simples. 

«Estas enzimas têm um amplo leque de aplicações, incluindo nos setores industrial, farmacêutico e na luta contra fungos e bactérias, devido às suas propriedades de resposta a reações de stress. A obtenção de fontes sustentáveis para a produção destas enzimas é de grande relevância», considera Sandra Correia, investigadora do CFE e diretora do Departamento de Proteção de Culturas Específicas no Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect. 

Até ao momento, os resultados alcançados mostram que os produtos obtidos se enquadram na classe de compostos ativos com potencial para reduzir o impacto de fungos em determinadas culturas agrícolas, embora seja necessário mais financiamento para realizar testes adicionais e validar esta aplicação.

Segundo a especialista, no decorrer da investigação, foi possível realizar análises proteómicas detalhadas e compreender em que condições estas proteínas são produzidas, assim como identificar fatores que estimulam a sua produção. Além disso, foram conduzidos ensaios de atividade enzimática em condições in vitro, marcando um avanço significativo na exploração do potencial destas células vegetais. Foi ainda possível aumentar a escala de produção desses compostos através de crescimentos celulares em bioreatores. 

«A agricultura celular, apesar de ser uma área emergente, mostra um enorme potencial para a produção de compostos ativos de forma controlada, segura e sustentável. As células vegetais destacam-se por possuírem características únicas que permitem produzir compostos de interesse industrial e alimentar, sem a necessidade de explorar recursos naturais de forma intensiva», revela a especialista, sublinhando que «este método possibilita controlar e até aumentar a produção de forma rigorosa». 

De acordo com o grupo de investigação, o tamarilho revelou-se uma espécie particularmente adequada para esta investigação, dada a facilidade de indução de linhas celulares a partir de uma simples folha, transformando-a numa massa de células pluripotentes com um potencial metabólico variado. Estas células podem, assim, ser estimuladas a produzir diferentes compostos de interesse.

«O projeto PlantReact posiciona-se, assim, como um avanço promissor no desenvolvimento de soluções sustentáveis para a produção de moléculas ativas de alto valor, contribuindo para a inovação na agricultura celular e na biotecnologia vegetal», conclui. 

O projeto PlantReact, financiado pelo Banco Santander, contou com a colaboração entre o CFE, o Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC), o Centro de Apoio Tecnológico Agro-Alimentar (CATAA) e a Universidade de Antioquia, na Colômbia. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Europa - Estudo da Science revela crise preocupante de dispersão de sementes

Um estudo, liderado por investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e publicado na prestigiada revista Science, revela que a Europa está a atravessar uma preocupante crise de dispersão de sementes.


Os resultados desta investigação mostram que um terço das 398 espécies de animais que dispersam sementes ou está já ameaçado de extinção ou as suas populações estão em declínio e poderão vir a enfrentar risco de extinção num futuro próximo. Por outro lado, pelo menos 190 espécies de plantas selvagens na Europa têm a maioria dos seus dispersores conhecidos ameaçados ou em declínio.

«Este estudo demonstra claramente que existe uma crise de dispersão de sementes em todos os biomas europeus. Por outro lado, evidencia ainda que apenas conhecemos os dispersores de 26% das espécies de plantas que produzem frutos carnudos da Europa, pelo que é urgente conhecer melhor quais os animais que podem ajudar as plantas selvagens a escapar das rápidas alterações climáticas e da desertificação, principalmente no Sul da Europa», alerta Sara Mendes, investigadora do CFE e primeira autora do estudo. 

Por sua vez, Rúben Heleno, professor do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC e coautor deste estudo, considera que «é necessário investira mais na investigação e na conservação do serviço de dispersão de sementes na Europa e no mundo, já que este serviço é fundamental para garantir um funcionamento sustentável e a resiliência das florestas.

As plantas não se movem e por isso dependem dos serviços dos animais que se alimentam dos seus frutos para levar as suas sementes para novos locais onde possam crescer. Proteger os animais selvagens que prestam este serviço, beneficiará não só os próprios animais, como também as plantas e todo o ecossistema, do qual depende em última análise a economia e a nossa própria qualidade de vida», nota o também investigador do CFE.

«Este serviço é essencial para recuperar áreas perturbadas, por exemplo por incêndios florestais, cheias ou atividades humanas, especialmente em paisagens muito fragmentadas por vias de comunicação, cidades e vilas, como as que dominam a Europa. Além disso, no atual cenário de alterações climáticas, os animais que se alimentam de frutos são essenciais para ajudar as plantas a acompanhar as alterações do clima, mudando-se para locais com condições mais favoráveis», concluem os especialistas.

A investigação reuniu informação de cerca de dois mil artigos, publicados entre 1660 e 2023, em 27 línguas e de 38 países, para identificar quais os animais que prestam este serviço de dispersão de sementes na Europa e qual o seu estado de conservação. A compilação desta informação demorou mais de três anos e resultou na maior rede de dispersão de sementes do mundo, e a primeira a reunir informação de um continente inteiro. Universidade de Coimbra - Portugal