Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Portugal - Novo cone de conífera com cerca de 133 milhões de anos descoberto no Cretácico Inferior

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) identificou uma nova espécie de conífera, com cerca de 133 milhões de anos, na flora de Vale Cortiço, na região de Torres Vedras. 


Trata-se de um cone masculino muito bem preservado, composto por microsporófilos imbricados e dispostos helicoidalmente, no qual se observam grãos de pólen do género Classopollis. O achado enquadra-se no género Classostrobus (porque produzia pólenes do género Classopollis) e foi descrito como Classostrobus amealensis, derivando o restritivo específico do nome da pequena localidade de Ameal, onde foi encontrado.

«As floras do Cretácico português são ricas em coníferas da família Cheirolepidiaceae (atualmente extintas) de grande importância para a compreensão das condições paleoclimáticas e dos ecossistemas em que viveram», explica Mário Miguel Mendes, investigador do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra (CITEUC) e professor da Universidade Fernando Pessoa (Porto).

Nesta família enquadram-se os frenelopsídeos pertencentes aos géneros Frenelopsis e Pseudofrenelopsis. Atendendo ao que tem sido observado no registo fóssil, estas plantas tinham uma notável capacidade de adaptação, habitando uma ampla gama de habitats, desde ambientes semiáridos a áridos e, em certos casos, regiões interiores com condições mais amenas.

«A presença destes frenelopsídeos, mas, sobretudo, dos seus pólenes característicos atribuíveis ao género Classopollis, é um indicador chave de climas quentes, semiáridos ou áridos. A flora de Vale Cortiço é rica em restos de frenelopsídeos pertencentes às espécies Frenelopsis teixeirae e Pseudofrenelopsis dinisii, sendo a primeira, particularmente, abundante nos níveis fossilíferos de onde provém o novo cone masculino agora descrito. Portanto, além dos restos vegetativos, foi encontrada, agora, uma estrutura reprodutiva masculina», revela o especialista.

Mário Miguel Mendes já tinha estudado, com detalhe, a associação esporo-polínica desta jazida fossilífera e identificou pólenes que suspeitava pertencerem à espécie Classopollis martinottii. No entanto, e porque apenas os observou em microscopia ótica, optou por classificá-los dentro do género Classopollis e como espécie indeterminada.

«Os pólenes observados in situ foram estudados minuciosamente, através da técnica de microscopia eletrónica de transmissão. Os resultados obtidos permitiram concluir tratar-se da espécie Classopollis martinotii, o que significa que o novo cone, Classotrobus amealensis, produzia pólenes da espécie Classopollis martinottii. Todavia, o novo cone não se encontrava anexado a nenhum ramo vegetativo – Frenelopsis teixeirae ou Pseudofrenelopsis dinisii», esclarece o paleobotânico.

No entanto, conclui, «a predominância de fragmentos de Frenelopsis teixeirae, no mesmo nível fossilífero, e a organização dos estomas observada nas cutículas de Classostrobus amealensis, sugere que a espécie Frenelopsis teixeirae dava origem a cones da espécie Classotrobus amealensis que, por sua vez, produziam pólenes atribuíveis a Classopollis martinottii».

Este trabalho foi realizado em parceria com investigadores do Paleontological Institute of the Russian Academy of Sciences (Rússia), do National Museum Prague (República Checa) e do Naturalis Biodiversity Center (Leiden, Países Baixos), tendo recebido financiamento do CITEUC e da Czech Grant Agency.

O estudo será publicado no volume de maio da revista internacional Cretaceous Research e pode ser consultado aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Internacional - Descoberta nova flora de angiospérmicas no Cretácico Inferior da região de Torres Vedras

Um investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) participou numa investigação internacional que descobriu uma nova flora de angiospérmicas (plantas com flor), recolhida no Cretácico Inferior de Catefica, na região de Torres Vedras.


Este trabalho de investigação, publicado na revista FOSSIL IMPRINT, com o título “The Early Cretaceous Mesofossil Flora of Catefica, Portugal: Angiosperms”, pretende, essencialmente, relacionar a evolução temporal da flora de angiospérmicas com modificações estratigráficas, ambientais e climáticas tendo em vista a caracterização de paleoambientes e paleoclimas.

De acordo com Mário Miguel Mendes, investigador do MARE e coautor do estudo, «os cientistas envolvidos têm tentado determinar elos de ligação, correlacionando os órgãos florais preservados no registo fóssil com as angiospérmicas atuais, na procura do estabelecimento de linhas evolutivas das etapas iniciais da evolução do grupo».

«Neste trabalho, a combinação da microscopia eletrónica de varrimento (MEV) com a técnica não destrutiva de microtomografia de raios-X por radiação de sincrotrão (realizada no Instituto Paul Scherrer, em Villigen, Suíça) possibilitou a realização de análises detalhadas e minuciosas dos vegetais fósseis e a identificação de 67 espécies de angiospérmicas. Inclusive, foram descritos cinco novos géneros e seis novas espécies para a ciência, o que é simplesmente extraordinário», afirma.

«Nesta flora destaca-se a ocorrência de estruturas estaminadas com grãos de pólen in situ muito semelhantes aos produzidos pelos atuais géneros Ascarina e Hedyosmum (ambos atribuíveis à família Chloranthaceae). Estas estruturas masculinas foram descritas como novo género e espécie - Proencistemon portugallicus gen. et sp. nov», descreve o investigador da FCTUC.

Segundo Mário Miguel Mendes, o novo género Proencistemon é dedicado a Pedro Proença e Cunha, professor catedrático do Departamento de Ciências da Terra da FCTUC, «pelos contributos de vulto que tem dado no âmbito da estratigrafia do Cretácico português».

As angiospérmicas constituem cerca de 230 mil espécies da flora moderna e são essenciais para a manutenção da vida na Terra. No entanto, ainda pouco se sabe acerca das condições que terão presidido à radiação e diversificação deste grupo de plantas extremamente importante que atualmente domina os ecossistemas terrestres.

«Assim, na minha opinião, os estudos da vegetação cretácica são absolutamente imprescindíveis para o conhecimento das etapas iniciais de desenvolvimento das plantas com flor e para a caracterização dos paleoambientes e dos paleoclimas em que estas viveram. Portugal, a nível global, é uma região que reúne condições excelentes para o estudo desta temática», considera o cientista do MARE.

«Neste momento estamos dedicados ao estudo de toda a flora de “não angiospérmicas” de Catefica, nomeadamente, fetos, coníferas e plantas do grupo BEG (Bennettiales-Erdtmanithecales-Gnetales). A combinação de todos os resultados irá permitir compreender em que condições se desenvolveu aquela flora», conclui.

Este trabalho foi realizado em colaboração com investigadores da Dinamarca, Estados Unidos, República Checa e Suécia, tendo recebido financiamento do Swedish Research Council, da United States National Science Foundation, da Czech Grant Agency, assim como do MARE/ARNET da Universidade de Coimbra. Universidade de Coimbra - Portugal


domingo, 12 de janeiro de 2014

Tartaruga

Francisco Ortega e Adán Pérez-Garcia
O fóssil de uma nova espécie de tartaruga com 145 milhões de anos foi descoberto nas arribas de uma praia em Mafra, anunciaram este sábado, em Torres Vedras, os paleontólogos espanhóis Francisco Ortega e Adán Pérez-García.

"Sabíamos que estas tartarugas se encontravam unicamente na Europa e apenas na Inglaterra no Cretáceo Inferior (há 65 milhões de anos), mas este achado em Portugal permitiu-nos descobrir uma tartaruga com 80 milhões de diferença daquela, porque esta é do Jurássico Superior e tem 145 milhões de anos", disse à agência Lusa Francisco Ortega, paleontólogo e director científico da Sociedade de História Natural de Torres Vedras. 
 
As semelhanças existentes entre elas permitiram aos cientistas perceber que pertencem à mesma família das "eucryptodiras", de que fazem parte tartarugas actuais, mas as diferenças anatómicas entre ambas levaram-nos a concluir que se tratava de uma nova espécie para a ciência, a que apelidaram de 'Hylaeochelys kappa'. 
 
"Tem formas um pouco mais primitivas do que a da Inglaterra, como uma carapaça mais aplanada do que a das outras que são mais redondas, o que não é tão comum nas tartarugas", explicou o também professor na Universidade Nacional de Educação à Distância, em Madrid. 
 
Essa característica levou os investigadores a inspirarem-se num episódio em que os japoneses, no século XVI, confundiram as cabeças dos frades franciscanos portugueses com as figuras mitológicas japonesas 'kappas', semelhantes a tartarugas, por terem a cabeça parecida à carapaça das tartarugas, para apelidarem a nova espécie.  
 
Trata-se de uma tartaruga de água doce adulta, cuja carapaça de meio metro de diâmetro foi encontrada quase completa. 
 
O achado foi feito em 2011 na praia do Porto Barril, concelho de Mafra, por José Joaquim dos Santos, um cidadão de Torres Vedras que, nos seus tempos livres de carpinteiro, se ocupa a encontrar achados de dinossauro e outros animais nas arribas. 
 
A descoberta foi validada pela comunidade científica, depois de a Academia das Ciências francesa ter aprovado a publicação para breve do artigo científico na sua revista. 
 
Para os cientistas, este grupo de tartarugas confinado à Europa vem corroborar a tese de que, com a abertura do Atlântico Norte no Jurássico Superior e a separação dos continentes europeu e americano, começou a existir faunas diferentes dos dois lados que se tornou mais patente no Cretáceo.
 
Nos últimos 20 anos, José Joaquim dos Santos recolheu alguns milhares de fósseis pertencentes a dinossauros, tartarugas, crocodilos, peixes e até tubarões, cuja colecção foi vendida em 2009 à Câmara de Torres Vedras, para vir a expô-los num futuro museu. 
 
A colecção tem vindo a ser estudada desde essa altura por investigadores associados da Sociedade de História Natural. In “Rádio Renascença" - Portugal