Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 2 de setembro de 2025

UCCLA - Inauguração da exposição “Laboratório do Atlântico - Arte Contemporânea de São Tomé e Príncipe”

Vai ter lugar no dia 11 de setembro, às 17h30, a inauguração da exposição “Laboratório do Atlântico - Arte Contemporânea de São Tomé e Príncipe” na galeria de exposições da UCCLA.


Para assinalar o momento, decorrerá uma palestra no auditório, que contará com a intervenção de Esterline Gonçalves Género (Embaixador de São Tomé e Príncipe em Portugal e embaixador permanente junto da CPLP), Luís Álvaro Campos Ferreira (Secretário-Geral da UCCLA), Isabel Castro Henriques (historiadora) e João Carlos Silva (curador e presidente da Roça Mundo).

A proposta curatorial - por João Carlos Silva e Ricardo Barbosa Vicente - pretende revelar a riqueza e a complexidade da produção artística ligada ao arquipélago, destacando São Tomé e Príncipe como um autêntico entreposto de artes e um laboratório de criação artística.

O território tem sido, ao longo dos tempos, um ponto de confluência de culturas, onde influências diversas se cruzam, se reinventam e se traduzem em expressões visuais únicas. Assim, a exposição não se limitará à obra de artistas santomenses, mas incluirá também aqueles que, ao passarem por São Tomé e Príncipe, incorporam a fusão cultural e contribuem para a contínua construção da sua identidade criativa.

A mostra pretende estabelecer um diálogo profundo entre passado, presente e futuro, celebrando a herança histórica e cultural do país enquanto projeta novas perspetivas e narrativas. A seleção de artistas procura evidenciar a diversidade de linguagens e abordagens artísticas que vão da pintura à fotografia, do vídeo à instalação, permitindo ao público uma experiência sensorial e imersiva.

A exposição reunirá obras dos seguintes artistas: Adilson Castro, Amadeo Carvalho, Conceição Lima, Daniel Blaufuks, Dário Pequeno Paraíso, Eduardo Malé, Emerson Quinda, Geane Castro, Inês Gonçalves, Ismael Sequeira, Ivanick Lopandza, Janik Santos, José Chambel, Kwame Sousa, Mafalda Santos, Mariana Maia Rocha, Marilene Mandinga, Miguel Ribeiro, Nuno Prazeres, Olavo Amado, Preta (Roxana Perreira), René Tavares, Valdemar Dória e Yuran Henrique.

Este tecido artístico, composto por criadores locais e internacionais inspirados pela cultura santomense, traduz a multiplicidade de perspetivas que orbitam em torno do arquipélago e da sua diáspora.

As técnicas utilizadas nesta mostra são: desenho, fotografia, instalação, instalação sonora, pintura e vídeo-instalação.

A entrada é livre.

A exposição poderá ser visitada até ao dia 11 de dezembro de 2025, de segunda a sexta-feira, das 10 às 13 horas e das 14 às 18 horas.

Parceiros da exposição “Laboratório do Atlântico - Arte Contemporânea de São Tomé e Príncipe”:

Organização: UCCLA e Camões I.P.;

Parceiros: Roça Mundo, Embaixada de São Tomé e Príncipe em Portugal, Câmara Municipal de Lisboa, Comemorações Oficiais dos 50 anos da Independência de São Tomé e Príncipe e governo santomense;

Apoio: DGArtes, Fundação Calouste Gulbenkian, Câmara Municipal de Loulé, Câmara Municipal do Porto, Atelie M, Coletivo Multimédia Perve, Galeria Vera Cortês, Innovarisk, Mén Non, MOVART e This is Not a White Cube;

Media Partner: RTP, jornal Téla Nón e CST.



Uma poeta interpretada por outra

Novo livro de Maria Estela Guedes reúne ensaios sobre as obras de Maria Azenha

                                                                               I

Aprofundados estudos sobre livros que fazem parte da extensa obra de Maria Azenha, talvez a mais significativa poeta portuguesa contemporânea, é o que o leitor vai encontrar em Na Casa de Maria Azenha (Lisboa, Edições Esgotadas, 2025), de Maria Estela Guedes, poeta e ensaísta. De início, a autora deixa claro que a maior parte dos poemas de Maria Azenha revela sinais muito fortes de misticismo, de que o seu livro O último rei de Portugal (Lisboa, Fundação Lusíada, 1992) é um dos mais marcantes exemplos.

Trata-se de textos curtos, porém reflexivos, opinativos e detalhados, sobre os temas tratados em poemas da autora, ainda que sem a pretensão de esgotá-los, explorando-os de forma pessoal e crítica, além de oferecer novas perspectivas ao leitor. Enfim, são ensaios que convidam o leitor a uma reflexão crítica sobre temas específicos, indo além da superfície e explorando suas diversas facetas.

No primeiro ensaio, “Em trânsito de signos”, em que se refere a onze obras da autora, Maria Estela ressalta que a poeta faz uma viagem iniciática no mais místico dos terrenos literários de Portugal, “quer relembrando acontecimentos notáveis, batalhas, reis, navegadores, heróis e poetas, em mais de uma centena de textos, quer deixando-se possuir pelo ritmo e cadências de alguns poemas dos autores invocados”.

Como observa a ensaísta, neste caso, o título não se refere a dom Manuel II (1889-1932), o monarca imediatamente antecessor da República Portuguesa, deposto em 1910, mas ao rei que haverá de vir, segundo a lenda que remonta a dom Sebastião (1554-1578), o “Desejado”, que foi rei de Portugal a partir de 1557 e desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir, o que deu origem ao mito do sebastianismo, ou seja, a crença de que ele, como um pretenso Messias, retornaria, um dia, para salvar Portugal.

Para a ensaísta, a poeta sempre esteve muito atenta à iminência de uma catástrofe mundial, “ao movimento cívico, à guerra, aos resultados desta, em especial em migrações forçadas que são pretexto para genocídio”. Ela observa que talvez por isso, por sua experiência da desgraça ser grande, o fazer poético de Maria Azenha tende para o messianismo, “o que na mística portuguesa corresponde à crença na vinda de um rei salvador, D. Sebastião”. Também por isso, entende a ensaísta, o tema do Mal, em modalidades variadas, entre elas a do Holocausto, e as migrações forçadas que se vê na Europa e no Oriente Médio ocorrem regularmente nos livros de Maria Azenha.

Ainda nesse ensaio de abertura, Maria Estela ressalta a oralidade presente na lírica de Maria Azenha, que se manifesta no interior dos textos. E, entre outros exemplos, a título de ilustração, observa como a autora reescreve à sua maneira o poema “O Mostrengo”, de Fernando Pessoa (1888-1935), e a passagem de Os Lusíadas, de Luís de Camões (c.1520-c.1580) sobre o gigante Adamastor, citando o poema intitulado “O Cabo das Tormentas”, cujo final é o que segue: Rodou o Mostrengo, então. Rodou três vezes. / Três vezes mais rodou além de estremo; / E Deus, da velha Nau, daqueles revezes, / Tornou-se Português. Com Bojador ao leme. 

 

                                                 II

Já no ensaio “Pequenas histórias”, a ensaísta aborda o livro A loucura das facas (2021), que reúne poemas escritos à época do confinamento provocado pela epidemia de covid-19. E constata: “Temos assim uma névoa de revolta contra Deus, um teto baixo de nuvens negras a pressagiar desastre, uma atmosfera de tragédias à espreita ao voltarmos a página”. Como exemplo dessa atmosfera ameaçadora, reproduz os versos do poema “No chão do medo” em que Maria Azenha recupera a apreensão que sentia à época da infância: “Em criança tinha muito medo da morte. / Agarrava-me às saias de minha mãe e escondia os olhos. / Esperava assim que ela se fosse embora / E nunca mais me voltasse a procurar. / Agora, à noite, os relógios / acordam a transpirar de medo”.  

No ensaio “O tenebrismo d´A casa de ler no escuro”, a ensaísta volta a constatar que, nesta obra, composta por 33 rápidos poemas, a autora reafirma “a situação apocalíptica em que se encontram países e nações e uma Europa que posa desnuda e morta”, com versos que “apelam para a maior desgraça humanitária da Europa de nossos dias, fulcro de conflitos internacionais”. E cita breves versos do poema “Migração”: “Limparam nossos lábios com a poeira do deserto. / Cada um que sai leva as últimas palavras”.

Mais adiante, ainda no mesmo ensaio, Maria Estela define “A casa de ler no escuro” como “retrato tenebrista do mundo e da Europa num século XXI que se esperava civilizado de grandes progressos humanitários e espirituais e não apenas progresso tecnológico”. E conclui que a obra “é a câmara escura em que a autora vai decifrando os sinais do presente que anunciam um futuro francamente tenebroso”. Isso, porém, adverte, não significa que não haja esperança nos poemas de Maria Azenha. E cita o poema “Lesbos” em que “a esperança que nele rebrilha é a única arma capaz de vencer a catástrofe da família, do desgoverno, da violência, da guerra e da pobreza: o amor, a compaixão dos que praticam a misericórdia”. É o que se vê nos versos finais daquele poema: “Nos confins da terra, / passos / recomeçam, / sem balanço nem piedade, / a marcha da esperança”.



                                                 III

Em outro ensaio, ao analisar “Xeque-mate” (2018), Maria Estela diz que este livro de guerra não se assemelha a nenhum outro dela, definindo Maria Azenha como” uma escritora de alta imaginação e com grande capacidade para se renovar a si mesma”, sem deixar de destacar que nele permanecem de obras anteriores “a notação de flashes do quotidiano, a metaforização de tonalidade surrealista, que, ao deslocar atributos de um objeto para outro de forma radical, pode também provocar o riso”.

No ensaio que encerra o livro, intitulado “No lugar do outro”, Maria Estela destaca a capacidade da poeta de assumir os dramas das pessoas que a cercam, ao “deixar-se possuir pela alma alheia”. E conta, com a devida autorização da autora, que Maria Azenha em seu mais recente trabalho, “A Casa da Memória” (2024), de certo modo, repete alguns casos já tratados pontualmente em obras anteriores, que foram inspirados na própria atividade da autora como atendente de uma linha telefônica de ajuda e apoio emocional a pessoas emocionalmente fragilizadas, ou seja, um trabalho de prevenção ao suicídio. E lembra que Maria Azenha, como adepta do movimento filosófico e esotérico Rosa-Cruz, “vem de há muito ajudando pessoas em situações difíceis”. Daí também a presença da Alquimia em várias obras da autora.

A ensaísta cita ainda o poema “A torre do silêncio” que, ao contrário da maior parte dos outros, inspirados por conversas, faz uma homenagem ao silêncio, “como se existissem dois mundos, um exterior, regido pelas armas, e outro de tormento interior, o do silêncio”: “Não ouve os tiros da noite / nem aqueles que mais amou. / Ficou na Torre do Silêncio / no quarto sagrado da Morte, onde mais ninguém entrou”.

Do livro em homenagem a Maria Azenha, consta ainda entrevista que a autora fez com a poeta em que esta diz que a poesia é o seu “modo de respirar através de um espaço estético, de um espaço de liberdade: um espaço de reinvenção”.


                                                 IV

Maria Azenha (1945), nascida em Coimbra, licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Desempenhou atividade docente no Quadro de Nomeação Definitiva na Escola de Ensino Artístico António Arroio. É membro da Associação Portuguesa de Escritores e membro de honra do Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Lisboa. Frequentou o Conservatório Nacional de Música em Coimbra e tem participado de vários recitais.

É autora de mais de duas dezenas de obras de poesia. Estreou em 1987 com Folha móvel (Lisboa, Edições Átrio). Entre os seus últimos livros, estão: A Casa da Memória (2024), O Livro do Absurdo (2023), A loucura das facas (2021), Bosque branco (2020), A mamã por cima dos telhados e o meu amor (2019), Xeque-mate (2018), As mãos no fogo (2017) e A casa de ler no escuro (2016), todos publicados pela Editora Urutau, de São Paulo, e distribuídos também na Galiza (Espanha) e em Portugal, além da obra De amor ardem os bosques (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2018).

Maria Azenha ilustra com poemas as pinturas de Ellys no seu livro "De Camões a Pessoa - a viagem iniciática", e é autora ainda de De Camões a Pessoa: a viagem iniciática (Lisboa, Sete Caminhos, 2006), em que explora com poemas ilustrativos a influência de Luís Vaz de Camões na obra de Fernando Pessoa. Nesta obra, sugere uma jornada de aprendizado e transformação em que Pessoa, como herdeiro da tradição literária portuguesa, busca superar e reinterpretar a obra de Camões.

Tem poemas publicados em mais de 25 antologias. Seus versos já foram traduzidos para os idiomas italiano, espanhol e inglês. De destaque é também o seu trabalho nas artes plásticas, já que, além de pintora com participação em várias exposições, é autora de textos publicados em livros de pintores, como Symbolos (2000), de Valdemar Ribeiro. É ainda autora de O mar atinge-nos (2009), CD em que declama seus poemas com acompanhamento à guitarra portuguesa.


                                                 V

Maria Estela Guedes (1947), licenciada em Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1978, é membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação InComunidade, da Sociedade Portuguesa de Autores e do Instituto São Tomás de Aquino. É editora da plataforma Triplov (www.triplov.pt), um dos mais significativos sites de divulgação das literaturas de expressão portuguesa, onde pode ser consultada a maior parte de seu trabalho.

Nasceu em Lamego, onde mora hoje, mas viveu na Guiné Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. Reuniu seus poemas evocativos dessa época e de uma Guiné-Bissau que já não existe no livro Chão de papel (Lisboa, Apenas Livros, 2009).

Tem vastíssima obra publicada de livros de e sobre poesia, crítica literária, História e Filosofia das Ciências, em que se destacam:  Herberto Helder, poeta obscuro (Lisboa, Moraes Editores, 1979), SO2 (Lisboa, Guimarães Editores, 1980), Eco, pedras rolantes (Lisboa, Ler Editora, 1983), Mário de Sá Carneiro (Lisboa, Editorial Presença, 1985), À sombra de Orpheu (Lisboa, Guimarães Editores, 1990), a_maar_gato (Lisboa, Editorial Minerva, 2005), Lápis de carvão (Lisboa, Apenas Livros, 2005), Ofício das trevas, teatro (Lisboa, Apenas Livros, 2006), A boba – monólogo em três insónias e um despertador (Lisboa, Apenas Livros, 2006), À la Carbonara, em co-autoria com J. C. Cabanel e Sílvio Luís Benítez Lopes (Lisboa, Apenas Livros, 2007), Poesia na Óptica da Óptica (Lisboa, Apenas Livros, 2008); A obra ao rubro de Herberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010); Clitóris Clítoris (Cotia SP, Editora Urutau, 2019); Esta noite dormimos em Tânger  (Cotia-SP, Editora Urutau, 2020); Númeras letras (ARC Edições, 2021);  Conversas com Federico García Lorca (Editora Urutau, 2022), Corpus Corpus – José Emílio-Nelson & Herberto Helder (Edições Esgotadas, 2024) entre outros. É autora também de Glu-Glu-Glu, antologia de poemas editada pela Tesseractum (São Paulo, 2024, e-book).

Está traduzida em romeno por Maria Manuel Chacán, na obra Dracula draco (Editora Academiei Internationale Orient-Occident, Curtea de Arges, 2017). Clitóris Clítoris foi traduzido para espanhol por Berta Lucia Estrada. Dois trabalhos seus foram levados à cena, O lagarto do âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987), com direção de Alberto Lopes, e A boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008), com direção de Carlos Avilez. Considera suas obras de referência Herberto Helder, poeta obscuro e A obra ao rubro de Herberto Helder. Adelto Gonçalves - Brasil

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Na Casa de Maria Azenha de Maria Estela Guedes. Lisboa, Edições Esgotadas Lda., 131 páginas, 15 euros, 2025.

Site: www.edicoesesgotadas.com E-mail: geral@edicoesesgotadas.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br






segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Macau – Escritor Su Tong destaca influência mundial de José Saramago

O autor chinês Su Tong, pseudónimo de Tong Zhonggui, vencedor do prémio literário Man Asian, que recebeu um doutoramento ‘honoris causa’ em Macau, realçou à Lusa o impacto de José Saramago, “figura reverenciada por escritores”, em todo o mundo. “No mundo de língua portuguesa, há uma figura reverenciada e honrada por escritores em todo o mundo: José Saramago. A sua influência estende-se por todo o planeta”, disse Su Tong.


“Eu também estou entre os seus admiradores”, acrescentou o escritor de 62 anos, após uma palestra sobre a sua carreira literária, na Universidade da Cidade de Macau (UCM). A UCM distinguiu com um doutoramento ‘honoris causa’ Su Tong, autor de sete romances e mais de 200 contos, alguns dos quais traduzidos para português, como “A Minha Vida Enquanto Imperador” e “Esposas e Concubinas”. “Esposas e Concubinas” foi adaptado ao cinema pelo realizador Zhang Yimou em 1991 e chegou a estar proibido na China continental.

Durante a palestra, Su Tong observou que a sua jornada literária começou quando era jovem, ao ouvir contar histórias. “No início dos anos 70, quando a vida espiritual das pessoas era árida, o fascínio por contos tornava-se cada vez mais intenso”, recordou. Para dar continuidade a uma história que não tinha ouvido até ao final, Su Tong tentou escrever o desenlace da trama, embarcando, assim, na carreira de escritor.

O autor considera que foi precisamente a época que viveu que forjou a sua ligação à criação literária. A década de 1980 fez a China entrar numa era de fervor literário, o que acendeu ainda mais a sua paixão criativa, explicou.

Su Tong é um dos romancistas chineses contemporâneos mais conhecidos a residir na China e venceu em 2009 o Man Asian Literary Prize, versão asiática do Man Booker Prize, com o livro “O Barco para a Redenção”, um romance passado durante a Revolução Cultural.

Todos os escritores são porta-vozes do seu tempo, e a época, “como a Esfinge do Egipto, revela aspectos diferentes quando vista de diferentes tempos e ângulos”, referiu na palestra.

À Lusa, Su Tong afirmou que os escritores desta era partilham um sentimento de “ausência de peso”, “essa sensação de estar à deriva”. “Consequentemente, tornam-se mais sintonizados com a relação entre a humanidade e a realidade, e entre o escritor e o mundo”, explicou. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


Macau – Editora Livros do Meio lança tradução para língua portuguesa dos escritos do Mestre Xun Kuang

A primeira tradução integral de chinês para português da obra completa do filósofo Xun Kuang, mais conhecido por Xun Zi, vai ser lançada no dia 10 deste mês de Setembro, pela editora Livros do Meio, numa co-edição com a Fundação Macau. “Escritos de Mestre Xun” integra 32 capítulos do filósofo confuciano.

A tradução da publicação é “uma pedra angular do pensamento filosófico chinês finalmente acessível ao leitor lusófono em edição definitiva e preenche uma lacuna crucial nos estudos filosóficos e sinológicos em língua portuguesa”, refere o texto de divulgação.

O trabalho conta com extensas notas explicativas, comentários críticos e uma introdução abrangente que situa Xun Zi no contexto do período dos Reinos Combatentes e traça a sua influência ao longo da história.

Diferente do seu contemporâneo Mencius, “que acreditava na bondade inata do ser humano”, Xun Zi defendia que a “natureza humana é originalmente má (xing er)”, e que a bondade é adquirida através do “esforço consciente, da educação ritualizada (li) e da orientação dos sábios e de um governo justo”, acrescenta a nota.

A obra aborda aspectos como ética, política, educação, linguagem e cosmologia, “oferecendo perspectivas surpreendentemente modernas sobre a natureza da sociedade”.

Xun Zi é caracterizado como um “gigante intelectual”, cujo pensamento é fundamental para entender não apenas o Confucionismo, mas toda a história intelectual chinesa. Publicar as suas obras completas em português é um “marco editorial e um presente para estudantes, académicos e todos os leitores que buscam compreender as bases da civilização chinesa”, salienta o comunicado do lançamento do livro.

A editora Livros do Meio refere que, depois de ter publicado recentemente o último dos Quatro Livros, torna este clássico acessível aos leitores de língua portuguesa. “Traduzir Xun Zi foi uma jornada de vários anos”, sublinha, acrescentando que “o racionalismo do filósofo chinês, a sua defesa da cultura como antídoto para o caos e a sua análise da linguagem ressoam de forma poderosa nos dias de hoje”.

A nossa maior preocupação, conclui o documento introdutório do evento, “foi também capturar a precisão e a força argumentativa do seu texto, permitindo que o leitor de língua portuguesa enfrente, pela primeira vez em toda a sua extensão, um dos pensadores mais lúcidos e desafiadores da humanidade”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


Portugal – Equipa do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde e Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar descobre a primeira nova peroxina humana em 20 anos

Trabalho de investigação, que permitiu identificar a PEX39 como um novo fator essencial na biogénese peroxissomal, foi recentemente publicado na prestigiada revista Nature Cell Biology


Uma equipa de investigação do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS) identificou recentemente a PEX39 como um novo fator essencial na biogénese peroxissomal (peroxina), particularmente na importação de proteínas para a matriz do peroxissoma. A descoberta desta nova peroxina humana, a primeira desde há 20 anos, foi recentemente publicada na prestigiada revista Nature Cell Biology.

O genoma humano codifica cerca de 20 mil proteínas, mas para quase 10% destas proteínas não existe qualquer tipo de informação relativamente à sua função. Até recentemente, era este o caso da proteína C6ORF226 humana. Investigadores do i3S e do ICBAS, em colaboração com parceiros internacionais, descobriram que esta proteína participa na importação de proteínas para a matriz dos peroxissomas. Estes organelos, essenciais para a saúde e desenvolvimento do ser humano, estão envolvidos na oxidação de ácidos gordos e na síntese de lípidos da mielina e ácidos biliares. Dado o seu papel na formação dos peroxissomas, esta proteína foi batizada pelos investigadores como peroxina 39 ou PEX39.

A caracterização bioquímica / funcional da PEX39 humana foi realizada pelo investigador pós-doutorado Tony Rodrigues, co-primeiro autor, e outros membros do grupo «Organelle Biogenesis & Function», liderado por Jorge Azevedo, investigador no i3S e professor no ICBAS. Estes investigadores demonstraram que a PEX39 se liga com elevada afinidade a uma outra peroxina já conhecida, a PEX7, ajudando-a a reconhecer no citosol proteínas que serão endereçadas para o interior dos peroxissomas.

Os investigadores portugueses colaboraram com uma vasta equipa internacional, em particular com Walter Chen, co-primeiro autor, investigador pós-doutorado no laboratório de Ralph DeBerardinis, co-autor sénior e professor no Southwestern Medical Center da Universidade do Texas, EUA, e Daniel Wendscheck, co-primeiro autor, doutorando no laboratório de Bettina Warscheid, co-autora sénior e professora no Departamento de Bioquímica da Universidade de Würzburg, Alemanha.

Segundo o investigador Tony Rodrigues, o domínio funcional que caracteriza a PEX39 foi conservado ao longo da evolução, encontrando-se em leveduras, plantas, invertebrados e mamíferos, e fornece novos dados sobre a forma como a maquinaria de importação de proteínas para o peroxissoma evoluiu. Interessantemente, em plantas e em alguns outros organismos, o domínio PEX39 não existe como uma proteína autónoma. É, antes, parte integrante de uma outra peroxina já bem conhecida, a PEX14, um componente membranar da maquinaria de translocação proteica do peroxissoma. Aliás, segundo Jorge Azevedo, esta observação foi o primeiro grande indício de que a C6ORF226 seria, de facto, uma nova peroxina, estando na origem deste trabalho.

A descoberta desta nova peroxina humana por esta equipa de investigação internacional interrompe uma pausa de mais de 20 anos na identificação de novos componentes da maquinaria de biogénese peroxisomal. Universidade do Porto - Portugal


Trump está vivo, quem pode morrer são os norte-americanos

Correm rumores e fakes sobre o estado de saúde de Trump, mas quem corre risco de morte e doenças são os norte-americanos.

Pela simples razão de que o ministro da Saúde de Trump, Robert Kennedy Jr., não acredita em vacinas e é tão negacionista como o ex-presidente Bolsonaro.

Na época da epidemia do Covid, quando esse sobrinho do presidente John Kennedy, não era ainda ministro da Saúde, dizia besteiras sobre a vacina contra Covid, acusando-as, sem provas, de provocarem a morte de quem se vacinasse.

Porém, diante do Congresso norte-americano, antes de sua nomeação como ministro da Saúde, Robert Kennedy Jr. negou ser contra as vacinas. Entretanto, tão logo assumiu o cargo começou sua ação contra as vacinas, demitindo um grupo de 17 cientistas especialistas em vacinas, cortou as subvenções para pesquisas sobre vacinas, tornou opcional e não obrigatória a vacinação de crianças nas escolas, e acaba de demitir Sandra Monarez, do cargo de diretora dos CDC, centros de prevenção e controle de doenças. Logo depois de empossado como presidente, Donald Trump já havia retirado os CDC da Organização Mundial da Saúde, onde tinham participação ativa.

A demissão de Susan causou surpresa, pois sua nomeação tinha sido confirmada pelo Senado há pouco mais de um mês por ser reconhecida especialista em doenças infecciosas.

A demissão veio em reação à sua posição em favor do uso de vacinas. Embora Susan tenha resistido à demissão, o ministro anti-vacinas recorreu ao presidente Trump, obtendo a declaração de que Susan não dirigia mais os centros CDC. Em apoio a Susan, um grupo de cientistas também se demitiu.

Está ocorrendo nos Estados Unidos um desmantelamento da credibilidade científica, diante do negacionismo do ministro da Saúde.

A imprensa europeia assinala que diante dessas opções não científicas do governo passa a correr perigo a saúde pública nos Estados Unidos, quebrando uma situação de prestígio ocupada até a chegada de Trump ao poder.

Numerosas doenças banidas até agora com a vacinação nas escolas poderão ressurgir, sem a obrigatoriedade da vacinação. E não serão os pastores da vertente evangélica Cura Divina, verdadeiros embusteiros, que impedirão o ressurgimento dessas doenças como varíola, pólio, sarampo, hepatite B, meningite, tétano e outras. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI
 

Suíça – Portugueses são a população maioritária no município de Täsch

Colada a um dos destinos turísticos mais conhecidos da Suíça, Täsch abriga 62% de estrangeiros e tem maioria portuguesa desde os anos 2000. A força de trabalho vinda de Portugal sustenta o turismo local, mas a integração entre comunidades ainda é limitada.


À primeira vista, poucos lugares são mais tipicamente suíços do que Täsch, com os seus tradicionais chalés de madeira, trilhos para caminhadas e proximidade direta com o Matterhorn, uma montanha tão icónica que há muito tempo adorna as barras de chocolate Toblerone. O pequeno vilarejo do cantão do Valais, situado num vale a mais de 1400 metros de altitude, é conhecida como a principal porta de entrada para Zermatt, um dos principais pontos turísticos do país.

Noutras palavras, em Täsch está a entrar na Suíça dos cartões-postais. E, no entanto, é talvez um dos lugares onde tem menos probabilidade de encontrar falantes nativos de “Wallisertitsch”, o dialeto local.

6 em cada 10 habitantes não são suíços

O município abriga a maior proporção de estrangeiros do país. Das 1366 pessoas que residiam lá durante todo o ano em 2023, 848 não tinham nacionalidade suíça, ou 62%, segundo o Departamento Federal de Estatísticas (BfS, na sigla em alemão). No total, vivem lá quase quarenta nacionalidades.

Num país onde mais de um quarto da população é estrangeira, não é surpreendente que algumas localidades tenham uma alta percentagem de estrangeiros. No entanto, é possível contar nos dedos das mãos os municípios que, como Täsch, abrigam mais estrangeiros do que suíços.

Mas o que torna Täsch verdadeiramente único na Suíça é o facto de uma nacionalidade estrangeira formar a maioria da população. Há vários anos, homens e mulheres portugueses superam em número os suíços (41% e 38% da população da vila, respectivamente).

Mais de 255 mil cidadãos portugueses vivem na Suíça, tornando-os a terceira nacionalidade estrangeira mais representada no país. O cantão de Valais, e em particular o Vale de Zermatt, é um dos seus locais preferidos.

Migrantes mantêm Zermatt em funcionamento

A explicação está justamente no forte poder de atração de Zermatt. O terceiro município mais visitado da Suíça recebe, todos os anos, turistas do mundo inteiro e registou, em 2024, 1,6 milhão de dormidas, distribuídas ao longo do ano.

É preciso muita gente para manter uma máquina turística deste porte a funcionar, e a maioria é de estrangeiros – em grande parte, portugueses. Centenas de trabalhadoras e trabalhadores imigrantes ocupam empregos de baixa remuneração nos setores de hotelaria e restauração (como ilustra este recente projeto fotográfico), manutenção e serviços de todo tipo.

Uma parte importante da população estrangeira vive na própria Zermatt. Mas a falta de moradias acessíveis na estação, somada ao facto de ser um local de difícil acesso (carros são proibidos), leva muitas pessoas que trabalham ali a preferirem morar em vilarejos vizinhos – Täsch, mas também Randa ou Saas-Fee.

A crise económica impulsionou a imigração

A presença da comunidade portuguesa na área de Zermatt remonta à década de 1980. Naquela época, essa força de trabalho, muitas vezes não qualificada, emigrou para encontrar trabalho nas regiões turísticas dos Alpes.

No início dos anos 2000, a entrada em vigor da livre circulação de pessoas incentivou a imigração para a Suíça de cidadãos de toda a União Europeia, permitindo que eles se estabelecessem permanentemente e trouxessem as suas famílias.


Posteriormente, a crise económica da década de 2010, que atingiu severamente vários países do sul da Europa, em particular Portugal, amplificou significativamente o fenómeno. Desde a melhoria da situação económica em Portugal, o crescimento da população portuguesa em Täsch estabilizou-se.

Choque cultural

No auge da crise em 2012, quando a imigração portuguesa estava a aumentar em Täsch, a Swissinfo foi um dos primeiros veículos de comunicação a relatar o choque cultural que isso representava, tanto para a pequeno vilarejo no Alto Valais quanto para os recém-chegados.

Vários meios de comunicação internacionais, incluindo a BBC e o jornal português Público, interessaram-se posteriormente por este enclave português aos pés do Matterhorn, onde se pode encontrar bacalhau e pastéis de nata no supermercado e onde também são celebradas missas em português.

“Os portugueses podem ser muito barulhentos”, brincou o representante da comunidade lusófona à BBC. “Os moradores vão dormir às nove da noite, ou mesmo meia-hora antes, e não gostam muito que façamos barulho antes das dez da noite. É algo a que temos de nos adaptar.”

Um membro da diretoria da Täsch disse à Swissinfo que os contactos eram bons, mas que os principais problemas eram o baixo nível de alemão e a baixa participação da população portuguesa na comunidade. Ele acrescentou, no entanto, que havia observado uma melhoria: “Os portugueses estão a investir aqui, comprando casas ou abrindo pequenos negócios. Eles estão a mostrar que vieram para ficar.”

Convivência pacífica

Noutra reportagem mais recente do canal de televisão SRF (em alemão), vários moradores de Täsch observam que estrangeiros e suíços vivem mais lado a lado do que realmente juntos. “Já não é mais uma única aldeia unida”, lamenta um homem entrevistado, garantindo, no entanto, não ter nenhum problema com a outra metade da população.

A delegada de integração Eva Jenni, por sua vez, fala de uma “convivência pacífica”, em que “cada um deixa o outro em paz”.


A política de integração de Täsch faz com que a localidade seja regularmente apresentada como um laboratório em matéria de imigração e convivência. As autoridades locais já haviam adotado, há vários anos, uma série de medidas para favorecer a aproximação entre as comunidades. Isso inclui, principalmente, um forte foco no ensino de alemão nas escolas, campanhas de informação e a organização de eventos interculturais.

Mas, ressalta Eva Jenni, “não se pode obrigar as pessoas a misturarem-se”. Os portugueses e portuguesas de Täsch “não têm realmente pressão para se integrar”, explica ela. A maioria deles vem não apenas do mesmo país, mas também da mesma região, e possui muitos parentes no local. Os membros da comunidade mantêm laços estreitos e poderiam, sem dificuldade, viver no dia a dia sem sequer precisar falar alemão.

Vilarejo revitalizado

Esses desafios, no entanto, são menos presentes na segunda geração, que na sua maioria domina melhor o idioma e tem mais vínculos com os habitantes locais.

Além disso, Täsch, cuja população nativa diminui ano após ano, também reconhece o quanto deve à imigração. “Se não houvesse mais estrangeiros aqui, teríamos menos mão de obra no setor do turismo. As escolas fechariam e os professores perderiam o sustento. Haveria toda uma série de problemas”, resume um morador entrevistado pela SRF. “Podemos analisar a questão de todos os ângulos, mas no fim das contas precisamos viver juntos.” Pauline Turuban – França in “Swissinfo”