Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 9 de março de 2025

Brasil - Preservando a cultura portuguesa: um legado de memórias e oportunidades para o setor privado

Em seu artigo, Luiz Filho explora como o setor privado pode desempenhar um papel crucial na manutenção e promoção da rica cultura portuguesa no Brasil, gerando valor tanto para as empresas quanto para a comunidade luso-brasileira



A ligação entre Brasil e Portugal vai muito além dos livros de história. É uma herança viva, presente no dia a dia de milhares de brasileiros, expressa na música, na gastronomia, nas festas populares e, principalmente, nas memórias e tradições das comunidades portuguesas espalhadas pelo país. Preservar essa cultura é mais do que um ato de saudosismo; é um investimento no futuro, um reconhecimento da contribuição dos imigrantes portugueses e de seus descendentes para a formação da identidade brasileira. E nesse cenário, o setor privado tem um papel fundamental a desempenhar.

Não se trata apenas de filantropia. Investir na cultura portuguesa é uma oportunidade estratégica para empresas que buscam se conectar com um público engajado, fortalecer sua marca e construir uma imagem positiva. Centros culturais, como a Casa de Portugal ou o Clube Português em São Paulo, ou o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, são exemplos de instituições que preservam e difundem a cultura portuguesa, mas que precisam de apoio para ampliar seu alcance e impacto.

Os centros culturais, guardiões da memória luso-brasileira, são um terreno fértil para o investimento privado, indo além do apoio a eventos. Eles podem ser centros de pesquisa viva, onde a história da imigração é resgatada e celebrada. Imagine exposições interativas que combinem tecnologia e acervos históricos – cartas, fotografias, objetos – narrando a saga dos imigrantes. Empresas podem patrocinar espaços literários, com bibliotecas digitais, clubes de leitura e oficinas, que celebrem a riqueza e a diversidade da literatura em língua portuguesa, com um olhar especial para as conexões entre Brasil e Portugal, promovendo o diálogo entre autores e leitores dos dois países. Ou investir em estúdios para músicos de fado e outras expressões, fomentando a produção artística.

Sei que, para alguns, isso pode soar como um sonho distante, mas resgatar e valorizar nossa cultura, nossa história, é um investimento no presente e no futuro. Apoiar esses centros, com foco no legado e na produção artística, fortalece a identidade luso-brasileira e gera um impacto duradouro.

E por falar em memória, permitam-me uma breve lembrança pessoal. Como tantos de vocês, também carrego em mim a herança de Portugal. Meus avós vieram de Celorico da Beira, na região da Beira Alta, e, como muitos imigrantes, trouxeram consigo a alma da nossa cultura, ensinando aos filhos e netos o amor pela música, pela culinária e pela língua portuguesa. Essa história, que se repete em tantas famílias luso-brasileiras, é um patrimônio que nos une e que merece ser preservado. Ao apoiar projetos que registram e divulgam essas memórias, as empresas ajudam a manter viva a chama da nossa identidade, fortalecendo os laços que unem a comunidade portuguesa no Brasil.

A colaboração entre o setor privado, o governo e as comunidades portuguesas é a chave para criar um ecossistema vibrante de preservação e promoção da nossa cultura. Para além das tradicionais bolsas de estudo para intercâmbio – que são sempre bem-vindas –, as empresas podem ir muito além. Que tal, por exemplo, patrocinar um concurso que premie jovens luso-descendentes que apresentem projetos inovadores para a preservação da cultura portuguesa, seja através da arte, da tecnologia, da gastronomia ou de outras áreas? Ou, quem sabe, criar um aplicativo que use realidade aumentada para transportar os usuários para dentro de um azulejo português, revelando seus segredos e histórias?

O convite está feito. Empresas que desejam se conectar com um público apaixonado por suas raízes, construir uma imagem de responsabilidade social e contribuir para a preservação de um legado cultural valioso, têm na cultura portuguesa um campo fértil de oportunidades. Entre em contato com um centro cultural português, participe de um evento da comunidade, converse com descendentes de portugueses. Descubra como sua empresa pode fazer parte dessa história e ajudar a construir um futuro onde a cultura portuguesa continue a brilhar no Brasil. Luiz Filho – Brasil in “Mundo Lusíada”

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Luiz Filho - Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.


domingo, 29 de dezembro de 2024

Goa – Naturais aproximam-se cada vez mais da língua e cultura portuguesas

O investigador Óscar Noronha considerou que o interesse pela cultura portuguesa em Goa tem crescido nos últimos anos, uma tendência acompanhada por um aumento do número de alunos da língua de Camões



“Atualmente, pelo menos da parte do povo, há maior abertura à língua e cultura de matriz portuguesa. Ele tem melhor consciência de como é rica e única a cultura indo-portuguesa”, declarou o professor universitário goês à agência Lusa.

Por outro lado, quanto à aprendizagem da língua, “o número de alunos tem aumentado ao longo dos anos”, num contexto em que “tanto a Fundação Oriente como o instituto Camões têm exercido um papel relevante nesse sentido”.

Em 1961, a União Indiana anexou o então estado da Índia, colónia portuguesa que era constituída pelos territórios de Goa, Damão e Diu.

“Os meus pais, Fernando de Noronha e Judite da Veiga, apesar do novo condicionalismo político, continuaram, na medida do possível, com o modo de vida a que estavam habituados. Por isso é que viemos, muito naturalmente, a falar a língua portuguesa e a cultivar a literatura e a música portuguesas, sem embargo do nosso amor à língua concani”, declarou Óscar Noronha.

O seu pai inculcou na família “um amor ao idioma luso” e, a pedido dos filhos, “deixou registadas as suas memórias” em dois livros: “Momentos do meu passado” (2002) e “Goa tal como a conheci” (2018), este publicado postumamente.

“Escrevi a biografia do meu tio-avô, monsenhor Castilho de Noronha, que foi parlamentar [da antiga Assembleia Nacional do Estado Novo], além de ter sido professor do Seminário de Goa, diretor de um jornal e autor de duas obras sobre a filosofia indiana”, disse.

Como “muitos aspectos da cultura comunitária estão a desaparecer”, Óscar Noronha produz há alguns anos o ‘podcast’ “Renascença Goa” com o objetivo de “redescobrir a cultura indo-portuguesa”, além de ter traduzido e editado obras em inglês e português.

O Saint Xavier’s College, de Mapuçá, tem vindo a organizar, anualmente, o Dia da Língua e Cultura Portuguesa, com a participação de alunos de escolas de ensino secundário do estado de Goa.

Também, entretanto, passou a haver localmente “grande interesse” por fado e mandó, dois géneros musicais que o irmão de Óscar, o guitarrista Fernando Noronha, decidiu valorizar abrindo em Pangim a casa da especialidade “Madragoa”. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


domingo, 21 de janeiro de 2024

Austrália - Lusodescendente ensina português através da música

Mónica Marques ensina português na Austrália e tenta que as suas aulas “sejam as mais dinâmicas possíveis”, nomeadamente através da transmissão de música portuguesa, pois “a música é internacional, chega a todos”

“Eu tento abordar a cultura portuguesa – falar de música, de gastronomia – para que interajam com Portugal, porque saber falar português não é apenas transmitir a gramática, tem também a ver com a cultura e é por isso que os meus alunos gostam das aulas”, explicou em entrevista à agência Lusa.

Mónica Marques nasceu em Sydney, na Austrália, filha de emigrantes portugueses. Aos três anos foi viver para Setúbal, em Portugal. Em 2021, devido à conjuntura económica do país, decidiu, juntamente com o seu marido e filho, regressar à Austrália à procura de uma vida melhor. É licenciada em terapia ocupacional, mas é no ensino que se sente realizada.

“Eu não me vejo, a longo termo, na área em que estou agora: a terapia ocupacional. Gostava, sinceramente, de enveredar pela área do ensino, ou comunicação, mas sempre relacionado com o português”, referiu.

Durante nove meses validou as suas competências profissionais como terapeuta ocupacional na Austrália, período em que aproveitou também para avaliar se seria viável enveredar pelo caminho do ensino.

Começou por inserir-se nos grupos das redes sociais de portugueses na região e percebeu que havia procura de portugueses que queriam transmitir a sua língua e cultura aos descendentes, mas que em casa só falavam, habitualmente, inglês.

Ao estar integrada nesses grupos das redes sociais, começou a criar conteúdos digitais e a cativar a atenção das pessoas.

Em 2022 começou a dar explicações de português, que conjuga com o seu trabalho de terapeuta.

Atualmente tem alunos de todas as idades: quatro crianças, três adolescentes e 10 adultos – dos quais duas australianas que, em contacto com portugueses, ganharam curiosidade em aprender a língua.

Por isso, as suas aulas são adaptadas a cada pessoa, consoante a sua faixa etária e as suas necessidades.

“Neste momento, tenho alunos em Brisbane, Camberra, em Melbourne e Parth”, disse.

“Para sermos explicadoras – que aqui chamam tutora – não precisamos de nenhuma qualificação, precisamos apenas de saber os conteúdos programáticos. Eu estou inserida na escola virtual [da Porto Editora], que é de Portugal e dedicada a todos os professores, com acesso aos conteúdos do programa curricular”, explicou.

A explicadora referiu ainda que começa sempre as suas aulas em inglês e vai adicionando palavras portuguesas ao seu discurso ao fim de algumas aulas, para os alunos começarem a assimilarem as palavras, o seu significado e como pronunciá-las. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


segunda-feira, 17 de abril de 2023

Macau - Escola Portuguesa de Macau, 25 anos de um “tremendo sucesso”

Faz amanhã 25 anos desde que foi lançada a primeira pedra da Escola Portuguesa de Macau (EPM). De lá para cá, foram anos de “tremendo sucesso” com cada vez mais qualidade e cada vez mais alunos, aponta José Luís Sales Marques, administrador da Fundação EPM. Manuel Machado, director da instituição de ensino, destaca a importância da EPM enquanto garantia da presença cultural portuguesa na RAEM


Foi a 18 de Abril de 1998 que foi lançada a primeira pedra da Escola Portuguesa de Macau (EPM), herdeira de três instituições de ensino em língua portuguesa: a Escola Primária Oficial, a Escola Comercial e o Liceu de Macau. Faz amanhã, então, 25 anos desde que surgiu a instituição. Por ocasião da cerimónia, estiveram em Macau o então primeiro-ministro português António Guterres e o ministro da Educação da altura, Marçal Grilo, além do governador da região, Vasco Rocha Vieira.

Antes, no dia 9 de Abril de 98, tinha sido criada a Fundação Escola Portuguesa de Macau, resultado da colaboração entre o Estado Português, a Fundação Oriente e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, que cedeu o edifício da Escola Comercial Pedro Nolasco – actualmente extinta – para a instalação da EPM.

No dia 21 de Agosto de 1998, a EPM passou a fazer parte do sistema educativo de Macau como instituição educativa particular sem fins lucrativos, tendo recebido o alvará da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ).

Na altura, a EPM recebeu os alunos provenientes de escolas que foram extintas antes da transferência de soberania de Macau, como a secção portuguesa do Colégio de Santa Rosa de Lima, a Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva (Central), o Colégio D. Bosco, o Liceu de Macau e a Escola Comercial Pedro Nolasco.

25 anos de um “tremendo sucesso”

José Luís Sales Marques, administrador da Fundação EPM, fez, ao Ponto Final, um balanço muito positivo destes 25 anos da instituição, comentando que “a escola tem sido um tremendo sucesso”. “Quando se começou com a escola, havia quem duvidasse da sua capacidade de sobreviver nos primeiros anos da RAEM. Todavia, passados 25 anos, o que a escola neste momento está a enfrentar são exactamente problemas relativos ao seu crescimento”, disse, apontando para a falta de espaço que, nos últimos tempos, a instituição tem sentido. Neste momento, a EPM tem cerca de 700 alunos.

Segundo foi noticiado no passado mês de Março, a EPM poderá ter de rejeitar matrículas das crianças para 2023-2024, uma vez que, segundo indicou na altura Manuel Machado, director da escola, não há capacidade para albergar todos os alunos. Em Setembro, quando começar o novo ano lectivo, a EPM só poderá acrescentar 60 a 70 alunos, o que poderá ser insuficiente para a continuidade das crianças de cinco anos que neste momento frequentam o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes e que poderão querer prosseguir os estudos na EPM. A ampliação da EPM só poderá avançar com o apoio do Governo português, mas o Ministério da Educação de Portugal não dá resposta aos pedidos, atrasando o processo, informou a TDM Rádio Macau.

Em 2019 tinha sido anunciado que a EPM teria um novo polo na Zona A dos Novos Aterros, no entanto, a hipótese caiu por terra no final de 2022. Nessa altura, Sales Marques considerou que seria “completamente irrealista” construir novas instalações para o estabelecimento de ensino, sendo que a intenção actual passa apenas por ampliar as instalações existentes na Avenida do Infante D. Henrique.

Agora, Sales Marques referiu que a procura pelo ensino que é leccionado na EPM leva a que a prioridade da Fundação seja encontrar soluções “que estão a ser estudadas para a ampliação das actuais instalações”.

O número de alunos e o crescente interesse no estabelecimento de ensino é resultado da qualidade do ensino, justificou Sales Marques, notando que a EPM tem estado “muito bem posicionada nos rankings” de ensino. Recorde-se que a EPM tem liderado o ranking de escolas portuguesas no estrangeiro.

Um outro factor que contribui para o sucesso da EPM é, na opinião de Sales Marques, o facto de este ser um estabelecimento de ensino internacional, ainda que não seja considerada uma escola internacional. O administrador da Fundação destaca a composição do corpo docente da instituição, o tipo de ensino que “permite o acesso a qualquer universidade do mundo”, e a própria língua portuguesa, “que tem um elevado estatuto internacional”. Além disso, “o ensino de inglês é de excelente qualidade”.

Há cada vez mais encarregados de educação – dentro e fora do espectro da comunidade portuguesa de Macau – que procura a EPM, apontou Sales Marques, concluindo: “Essa é uma realidade que nos coloca mais desafios, mas são desafios positivos, que vale a pena enfrentar”.

Balanço “bastante positivo”

“O balanço é bastante positivo”, comentou Manuel Machado. Ao Ponto Final, o director da instituição lembrou que, quando começou a funcionar, o estabelecimento propôs-se a “assegurar o ensino do currículo português, em língua portuguesa, aos inúmeros jovens lusos que aqui se encontravam com os seus familiares”.

Notando que, entre 98 e o final da década de 2000 a população discente decresceu na “sequência da ida para Portugal de muitas famílias”, ressalvou que, desde o ano lectivo 2009/2010, “a tendência começou a inverter-se e o número de estudantes, tem vindo a aumentar desde então”. “A alteração do projecto educativo, e do próprio currículo, entre outros factores, contribuíram para um progressivo aumento da procura da escola por parte de alunos e encarregados de educação”, salientou Manuel Machado.

“Como tenho afirmado frequentemente, a EPM tem vindo a ser procurada por jovens de diferentes nacionalidades”, afirmou, contabilizando 20 diferentes nacionalidades entre os alunos matriculados este ano na instituição. “Devemos estar orgulhosos uma vez que esta procura é a prova do reconhecimento da qualidade do serviço educativo oferecido pela EPM. É, pois, o melhor balanço que podemos fazer em vésperas de mais um aniversário desta instituição”, frisou.

Para o director da EPM, a importância da instituição reside em dois vectores: “a continuidade de um ensino de qualidade que permita o prosseguimento de estudos em qualquer universidade portuguesa, mas também internacional, tal como tem vindo a acontecer ao longo dos anos; e assegurar a presença cultural portuguesa na RAEM, contribuindo para manter a secular relação entre os povos português e chinês, entre as suas culturas, com superior respeito e exaltação das mesmas”.

Manuel Machado concluiu apontando que o principal desafio para o futuro é que a EPM continue a manter-se na RAEM “enquanto instituição de ensino de prestígio, merecedora da procura e consideração das diversas comunidades que aqui vivem”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”



quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Macau - Casas-museu vão receber restaurante que “promova a cultura portuguesa”

Uma das Casas-Museu da Taipa vai servir para albergar um restaurante “que promova a cultura portuguesa com características próprias de Macau” e que sirva “alimentos e bebidas gourmet macaenses”. A ideia foi anunciada ontem pelo Instituto Cultural, através da abertura de um concurso público. O espaço, que deverá também servir para exposições e workshops, será arrendado por um período de quatro anos


O Instituto Cultural (IC) pretende aproveitar uma das Casas-Museu da Taipa para abrir um restaurante que promova a cultura portuguesa com características próprias de Macau. Para isso, o organismo abriu um concurso público. De acordo com a informação publicada ontem em Boletim Oficial, o prazo do arrendamento do espaço será de quatro anos.

Em concreto o objectivo do concurso é a adjudicação, por arrendamento, do nº 1 da Avenida da Praia na Taipa, para a “abertura e exploração de um restaurante que promova a cultura portuguesa com características próprias de Macau e que possua elementos do património cultural intangível de Macau, através de fornecimento de alimentos e bebidas gourmet macaenses, em conjugação com o ambiente envolvente das Casas da Taipa”. Além disso, o espaço deve também ser utilizado para “vendas, exposições, actividades experimentais, workshops, entre outros”.

Segundo o anúncio, assinado pela presidente do organismo, Leong Wai Man, as propostas devem ser entregues no edifício do IC, no Tap Seac, até às 17h00 de 30 de Dezembro. No dia 15 de Novembro, realizar-se-á uma visita ao espaço que será arrendado, pelas 15h30, sendo que os interessados devem contactar o IC para inscrição até às 17h00 do dia 14.

Os candidatos têm de entregar uma caução provisória de 20 mil patacas e uma caução definitiva de 40 mil patacas. A renda base ainda não está definida. Além disso, os concorrentes devem estar inscritos nos Serviços de Finanças e na Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Imóveis. Se o concorrente for empresário em nome individual, deve ser residente na RAEM; no caso de sociedades comerciais, o capital social deve ser detido numa percentagem superior a 50% por residentes da RAEM, não sendo admitida a participação de consórcio.

Segundo o IC, os critérios de apreciação incluem a renda (40%), o plano de negócios (35%), o projecto de planeamento do interior (10%) e a experiência do concorrente (15%).

As Casas-Museu da Taipa foram construídas em 1921, tendo servido, em tempos, como residências de funcionários públicos de categorias superiores, nomeadamente às famílias macaenses, segundo o IC. Em 1992, foram reconhecidas como um complexo edificado de valor arquitectónico. Mais tarde, o Governo decidiu renovar as casas completamente e transformá-las num sítio museológico, que abriu ao público em finais de 1999 como as Casas-Museu.

“Aclamado como um dos oito sítios de topo de Macau, as Casas da Taipa representam o encanto do estilo arquitectónico português na Taipa. As residências portuguesas ao longo da Avenida da Praia, em conjunto com a vizinha Igreja de Nossa Senhora do Carmo e jardim, abrangem uma paisagem pitoresca na qual as cinco casas verdes sobressaem como mais representativas”, pode ler-se na página do organismo. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 6 de junho de 2022

Macau - Estudantes gravam vídeos para dar “a conhecer melhor a cultura portuguesa”

Um grupo de estudantes de uma escola de matriz chinesa de Macau tem vindo a gravar vídeos, que passam nos autocarros da cidade, a dar “a conhecer melhor a cultura portuguesa”, através de provérbios. O próximo vídeo, que foi gravado na semana passada no Consulado-geral de Portugal em Macau, explica, num formato cómico, a expressão “rato de biblioteca”


“É alguém que estuda todos os dias”, explicou Bernice à Lusa. Bernice estuda português há sete anos na Escola Secundária Pui Ching, numa turma que começou por publicar vídeos na plataforma YouTube e que agora colabora com uma empresa local que produz conteúdo, nomeadamente para os transportes públicos de Macau. “Eles gostam desta maneira de aprender a língua portuguesa porque não têm de ir para a escola e aprendem fora da sala de aula”, sublinhou Miki Tong Weng U, uma das professoras.

“Através dos vídeos, eles têm de falar, porque quando estamos na sala de aula, só praticamos a capacidade de leitura ou compreensão oral”, disse Miki. “Há poucas oportunidades para os alunos falarem na língua portuguesa”, lamentou a docente.

Em Maio, vários professores chineses disseram à Lusa que as restrições impostas pela China à entrada de estrangeiros, devido à pandemia de covid-19, tem reduzido o contacto dos estudantes com falantes nativos de português, dificultando a aprendizagem.

As dificuldades das escolas de Macau em recrutar docentes de português já tinham levado o Governo a anunciar, em 14 de abril, um programa-piloto para levantar as restrições fronteiriças a alguns estrangeiros, incluindo professores portugueses.

Apesar do português ser uma das línguas oficiais em Macau e de dezenas de milhares de habitantes terem a nacionalidade portuguesa, a maioria da população não fala português. “Quando leio os livros e também no YouTube vejo muitos vídeos sobre os provérbios ingleses e acho que os provérbios portugueses também são muito interessantes”, explicou Miki.

Um dos vídeos que os estudantes da Pui Ching já gravaram é dedicado à expressão “engolir sapos”. “Em português é muito diferente do chinês. Nós dizemos “engoli um gato”, em cantonês”, disse a professora.

Um dos vídeos gravados na semana passada, que dá destaque a petiscos portugueses, nasceu da expressão “ser um bom garfo”. “Eu acho que um bom garfo significa alguém que gosta de comer e comer muitas coisas e então é como eu”, explicou à Lusa, com uma risada, um outro estudante, que adotou o nome português Dragão. “A reacção da audiência é bastante boa (…) porque o conteúdo é bastante engraçado”, disse Miki. “Os vídeos ajudam bastante os cidadãos de Macau a conhecer melhor a cultura portuguesa”, acrescentou.

A professora acredita que os vídeos deram aos alunos motivação, não apenas para aprender português na Pui Ching, mas também para “continuar os estudos em relação com a língua portuguesa”.

Muitos dos alunos já pensam em estudar em universidade portuguesas. Tanto Dragão como uma outra estudante, Célia, têm planos para ingressar na Universidade de Porto após terminarem o ensino secundário. Outra estudante, também chamada Miki, só começou este ano letivo a estudar português, mas já sabe o que quer fazer no futuro. “Quero estudar Direito, mas a língua portuguesa é uma língua importante em Macau”, disse. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


sexta-feira, 15 de abril de 2022

Alemanha - Teo Ferrer de Mesquita, o baluarte da cultura portuguesa

Criada em Frankfurt em 1980, a TFM é a livraria portuguesa mais antiga na Alemanha. Já editou 110 obras lusófonas. O seu fundador, Teo Ferrer de Mesquita, privou com Saramago e Cardoso Pires, e encontrou nos livros a forma de fazer uma revolução sem se meter na política


O amigo de Saramago

Quando o sol nasceu na manhã de 8 de Outubro de 1998, Teo Ferrer de Mesquita ainda não sabia que iria experimentar um dos dias mais memoráveis da sua vida. Pelas 10h, foi levar José Saramago ao aeroporto de Frankfurt; o escritor português tinha sido a atracção da Feira do Livro, a maior do género Europa, e estava então de regresso a Lanzarote, em Espanha, onde a sua companheira Pilar del Rio o aguardava. “Ele disse-me que não precisava de o levar porque sabia que eu estava cheio de trabalho na feira”, recorda Teo Ferrer de Mesquita. “Mas eu já o conhecia há uns bons anos e tinha receio que se perdesse no aeroporto, que é enorme”.

Regressado ao evento, o livreiro português foi surpreendido com a comunicação da Academia Sueca: José Saramago, à época com 75 anos, acabara de vencer o Prémio Nobel da Literatura. Era meio-dia. Sabendo que o avião descolava para Madrid somente às 13h, Teo apressou-se a encontrar uma maneira de avisar o escritor, para que não embarcasse e regressasse ao certame. “Estava lá toda a comitiva portuguesa e a imprensa do mundo inteiro. Mas na altura não havia telemóveis para lhe ligar directamente”, lembra. “Consegui que uma representante do AICEP em Berlim telefonasse para a [companhia aérea] Iberia. Atendeu uma hospedeira que confirmou que Saramago estava na sala de espera, a ler um jornal.

Primeiro, disse que tinha muito para fazer e que não o podia chamar. Mas ele lá veio. Demos-lhe a notícia mas ele não queria voltar para a feira, dizia que a Pilar estava à espera dele e que tinha de ir para Espanha”. Só depois de falar com Pilar e com o seu editor, Zeferino Coelho, Saramago se convenceu a ficar.

Teo foi apanhá-lo ao aeroporto. Na messe (feira), editores, escritores e visitantes portugueses aguardavam à entrada para receber o autor de Ensaio sobre a Cegueira com cravos e ovações. “Mas, sem querer, fiz asneira”, recorda Teo. “Como tinha lugar de estacionamento no topo de um dos edifícios, descemos directamente para o pavilhão das editoras portuguesas sem passar pela entrada. Os primeiros a darem os parabéns a Saramago, depois de mim, foram os espanhóis que estavam lá ao lado”. Os patrícios acabaram por chegar e homenagearam o escritor cantando Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, e com uma chuva púrpura de flores de Abril. O Nobel acabaria por convidar Teo para a cerimónia de entrega do prémio, em Estocolmo, mas o livreiro de Frankfurt acabaria por recusar, para que o galardoado oferecesse a entrada – bastante exclusiva – a alguém mais próximo.

A amizade improvável entre o escritor comunista e Teo, filho de médico oftalmologista nascido na Beira, em Moçambique, em 1945, começou na entrada da década de 80 do século transacto. Nesses tempos, o português que fez de Frankfurt a sua casa era um engenheiro electrotécnico recém-licenciado, em busca de uma forma de dar a conhecer a até então incógnita cultura lusófona aos alemães. A 2 de Maio de 1980, foi a uma repartição de finanças para registar uma livraria que pudesse vender obras de autores portugueses, brasileiros e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Quando lhe perguntaram por um nome, pensou que a empresa era unipessoal, ele e mais ninguém. Então baptizou-a com as suas iniciais: TFM – Centro do Livro e do Disco de Língua Portuguesa. A sua primeira morada foi na Heiligkreuzgasse, bem no coração da capital do estado federado de Hessen. Mas até aí chegar Teo teve de perceber qual a sua forma de participar na revolução sem quebrar uma promessa que tinha feito ao pai.

Viva Portugal!

As guerras pela independência de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra o regime colonial português apanharam Teo a chegar à maioridade. Isso significava que teria de cumprir o serviço militar e, seguramente, ir para a guerra, algo que nem ele nem o pai queriam. O mais velho de cinco irmãos, dois deles doentes com poliomielite, foi aconselhado a seguir os estudos universitários na Europa: “A primeira opção foi Paris mas o meu pai sabia que era aí que estavam os exilados do Estado Novo e que, indo para lá, ia acabar por me meter na política. Receoso, fez-me prometer que não seguiria esse caminho”, conta o livreiro, hoje reformado e a viver no bairro de Benfica, em Lisboa. “Como tínhamos uns amigos alemães em Moçambique, eles sugeriram-nos que eu fosse para Frankfurt”.

Chegou à Alemanha em 1963 e foi para a universidade em Darmstadt, a uma hora de Frankfurt. Até 1969, não pôs os pés em Portugal e teve de se apresentar no consulado luso de seis em seis meses, de modo a mostrar que tinha boas notas para evitar a recruta. “As cartas que recebia da Beira vinham censuradas e os aerogramas abertos. Dava para perceber que a ditadura continuava apertada”, diz. Com a “primavera marcelista”, em 1969, teve a oportunidade de visitar pela primeira vez as suas origens em Lisboa. “Quando regressei à Alemanha, comecei a colaborar com a Amnistia para ajudar prisioneiros políticos”.

A curiosidade de Teo por Portugal era insaciável e a feira literária que se realizava anualmente em Frankfurt dava-lhe uma oportunidade única de privar com editores e intelectuais, cujas conversas eram bem mais politizadas do que as dos operários emigrados. No certame, já todos conheciam o jovem universitário. Na edição de 1968, conheceu Francisco Lyon de Castro, que era editor das publicações Europa – América. “Uma das primeiras coisas que ele me disse foi que eu devia ser um privilegiado porque estava a estudar na Alemanha sem fazer o serviço militar”, recorda. Ficaram a dar-se bem. “Era evidente a diferença da Europa – América, que já tinha editado Jorge Amado e outros autores forçados a passar pela comissão de censura, e da Verbo, por exemplo, que estava mais alinhada com o regime. Castro pertenceu ao PCP, esteve preso e dava-me uma visão do país que eu precisava de escutar”.

O 25 de Abril apanhou Teo já empregado. Como não havia muita gente fluente em português e alemão na cidade, os repórteres da televisão Hessischer Rundfunk convidaram-no logo no dia seguinte para integrar uma equipa de filmagens que ia cobrir os históricos acontecimentos em Portugal. Não hesitou. Solicitou as férias que tinha em atraso e, a 27 de Abril, já estava em Lisboa a actuar como intérprete, motorista e produtor da equipa alemã. Ao longo de mais de um mês, testemunhou a libertação dos presos políticos de Caxias e a entrada nos calabouços dos inspectores da PIDE, a ocupação das terras por parte dos camponeses do Ribatejo e do Alentejo, as primeiras campanhas de alfabetização, a primeira peregrinação a Fátima após a ditadura e a grande festa do primeiro 1º de Maio em liberdade. Pelo meio, contactou muitos jornalistas e artistas portugueses, como Zeca Afonso, Fausto e Sérgio Godinho. O resultado foi “Viva Portugal”, um documentário precioso sobre a infância da democracia no país. “Foi uma experiência tão fascinante que me mudou a vida”, comenta Teo.

De regresso a casa, quis fervorosamente contribuir para aquela importante etapa da vida do país. A sua primeira ideia: ter qualificação pedagógica para ajudar os jovens portugueses a obter cursos profissionais, que lhes permitia aceder a emprego técnico e a melhores salários. Esbarrou contra um muro: “Para tal, eles tinham de deixar de trabalhar durante um período e as famílias opunham-se porque ficavam temporariamente sem salário”, lamenta.

Assim, virou-se de novo para os livros: em Outubro tirava férias só para ir à feira. Ali, começou a pressionar os representantes portugueses: “Era necessário trazer editoras novas e que o objectivo não fosse apenas comprar direitos de obras estrangeiras, mas também vender direitos de títulos de autores nacionais. Havia muita falta de confiança”, afirma. Chegou ao Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB, hoje DGLAB), chefiado por Alçada Baptista, que o começou a ajudar a persuadir autores portugueses a deslocarem-se à Alemanha e a traduzir livros para a língua de Goethe.

Os primeiros passos da TFM foram dados com cautela: “Aluguei uma cave para guardar os livros e batia à máquina um boletim trimestral com as novidades da literatura lusófona”, diz Teo. “A minha intenção era tornar o português numa língua mundial e apostava muito na ideia de que tinha, na altura, 110 milhões de falantes. As ex-colónias eram agora independentes e havia curiosidade. Comecei a importar livros das Edições 70, do Luandino Vieira, Boaventura Cardoso e do José Craveirinha”. Também disponibilizou manuais escolares de português aos professores, que “se sentiam muito isolados no ensino do idioma”.


Mas Teo também pensava em grande. Em 1982, alcançou a proeza de juntar à mesma mesa, na Biblioteca Central de Frankfurt, José Saramago, José Cardoso Pires e António Lobo Antunes, três dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea. Saramago e Lobo Antunes, que nunca se deram bem, ficaram em extremos opostos. No meio, estava ainda Ray-Güde Mertin, agente literária de vários autores de língua portuguesa e castelhana, entretanto falecida. “Depois de regressarem a Portugal, ela perguntou-me se eu achava que ela podia agenciar os direitos desses autores. Eu respondi-lhe que sim, porque era isso que faltava aos escritores portugueses”, conta Teo. Ray-Güde acabou por traduzir vários títulos de Saramago e de Lobo Antunes para o alemão. “Quando dei por mim, as coisas tinham mudado”, conclui Teo. “Já não era eu que tinha de escrever às editoras, elas é que me escreviam a mim”.

Livraria de Petra e cal

A nova proprietária da TFM, a alemã Petra Noack, nasceu na Saxónia em 1974, quando Teo andava a dissecar a revolução portuguesa, e estagiou na livraria em 1998, o ano em que Saramago soube em Frankfurt que era Nobel. O primeiro livro em português que leu foi "A Menina do Mar", de Sophia de Mello Breyner Andresen. “Entrei em línguas românicas e achei que havia demasiados alunos a estudarem espanhol. Escolhi português sem ter grande ligação, só para ser diferente, e cedo comecei a desenvolver um fascínio pelo idioma”, diz Petra.

O tempo em que passava as tardes a embrulhar encomendas na antiga loja, que tinha o aspecto caótico e fascinante de um alfarrabista, e tinha de ir ao aeroporto levantar 150kg de livros, já passou. Hoje os serviços de entrega depositam os pedidos no nº 47 da Grosse Seestrasse, em Bockenheim, na zona ocidental de Frankfurt, onde a TFM tem a sua nova casa. De um lado estão os livros de autores portugueses em alemão, do outro traduções de títulos internacionais em português. À entrada, um poster de Sebastião Salgado. Há um cantinho para discos, outro para livros infantis e uma mesa com vinhos portugueses. “O interesse sobre a literatura lusófona é muito de ondas”, refere. “Por exemplo, como Portugal é um destino turístico na moda, há muitos pensionistas a quererem estudar a língua para se mudarem para lá. Há casais a comprarem livros infantis para os filhos acompanharem o português. Este ano Portugal foi o país-tema da feira do livro de Leipzig e fizeram-se quase 50 traduções. E depois há coisas estranhas. Por exemplo, os alemães gostam de romances criminais em países estrangeiros, e um dos livros que temos vendido mais é este Lost in Fuseta – ein Portugal-Krimi [Perdido na Fuseta – um crime em Portugal], de um escritor alemão que assina com o pseudónimo Gil Ribeiro”.

Para além de ter influenciado a tradução de dezenas de manuscritos para alemão, a TFM também tem uma chancela própria com 110 títulos, entre eles edições bilingues de obras de Mário de Carvalho, Manuel Alegre ou José Saramago. O último foi "Sonhos Azuis pelas Esquinas", do angolano Ondjaki, que também já marcou presença na TFM para uma leitura. A liderar o top da editora está há muito tempo "Um Brasileiro em Berlim", de João Ubaldo Ribeiro, segundo Petra Noack “um livro com bastante humor que incide nas diferenças culturais entre a Alemanha e o Brasil”. Um clássico da TFM é também "O Conto da Ilha Desconhecida", de Saramago, cujos direitos o ribatejano ofereceu a Teo como prova do respeito pelo seu trabalho. Já de outras editoras, a tradução para alemão de "O Retorno", de Dulce Maria Cardoso, e "Essa Dama Bate Bué", de Yara Monteiro, têm tido bastante procura nos últimos meses.

A pandemia travou várias iniciativas da livraria, como as tertúlias, as sessões de leitura, concertos e provas de vinho que tinham vindo a ser realizadas com uma enóloga de Colónia: “Ter actualmente 25 pessoas neste espaço reduzido a provar vinho é capaz de não ser boa ideia”, comenta Petra, que ficou a gerir a TFM a partir de 2014, altura em que Teo requisitou o seu merecido descanso. No entanto, mesmo num período em que o encarecimento do papel promete fazer aumentar os preços dos livros, a TFM continua com vendas estáveis, de pedra e cal como o baluarte da cultura portuguesa no centro da Europa. A empresa fornece livrarias por toda a Alemanha, mas também na Suíça, na Áustria e fora do universo germânico, na Holanda, na Croácia, Luxemburgo e Reino Unido.

Petra espera agora o alívio das medidas sanitárias para voltar a organizar as sessões do grupo de leitura e também para involucrar a TFM nas apresentações agendadas para Frankfurt no próximo mês de Outubro, entre as quais a de Itamar Vieira Júnior, vencedor do último prémio Leya.

Mais do que uma livraria

O legado de Teo na divulgação da cultura portuguesa não se cingiu à literatura. Estendeu-se também à música e de uma forma muito peculiar. Vivendo diante da Alte Oper (Ópera Antiga) de Frankfurt, acompanhou e fez donativos para a reconstrução da sala de espectáculos, danificada na 2ª guerra mundial. Quando as obras terminaram, leu com estupefacção num jornal local o agradecimento da autarquia “a todos os alemães que tinha contribuído”. Teo não gostou e protestou junto dos responsáveis da Ópera: “Não foram só os alemães que ajudaram. Muitos estrangeiros residentes em Frankfurt, como eu, também contribuíram para a reconstrução”, disse. Eles foram sensíveis aos argumentos.

Desde 1981 até 2004, colaborou com a distinta sala de espectáculos como mentor cultural para a língua portuguesa no programa Cultura para as Minorias: Carlos Paredes, José Mário Branco, Vitorino, Tito Paris, Milton Nascimento e Amália foram alguns dos reputados músicos que o beirense trouxe à Ópera, sempre com grande sucesso. “O Carlos do Carmo foi o que veio mais vezes até porque falava alemão, fruto dos seus estudos na Suíça”, lembra. Num outro espectáculo, Viena encontra-se com Lisboa em Frankfurt, Teo desafiou o maestro António Vitorino de Almeida a compôr canções para a austríaca Erika Pluhar e para Carlos do Carmo. “Acabou com a Erika Pluhar a cantar fado em alemão”, diz.

O trabalho de Teo e de Petra foi distinguido em 2015 e em 2020 com o Prémio Alemão das Livrarias, para o melhor negócio livreiro do país. “O Teo meteu-se sempre nas sessões de leitura e nos concertos sem olhar para o retorno financeiro. A sua grande obsessão sempre foi a promoção da língua portuguesa e da cultura lusófona”, diz Michael Kegler, tradutor de várias obras lusófonas para alemão, incluindo de Gonçalo M. Tavares e de José Eduardo Agualusa. Gonçalo M. Tavares disse ao jornal I, em 2014: “Sempre que os livros e a cultura portuguesa estavam por perto, Teo estava por perto”. Até Saramago, em Cadernos de Lanzarote, imortalizou a faceta altruísta do fundador da TFM: “O Teo ajuda sempre, acha que nasceu para isso”.

Saramago não deixou de retribuir o apoio do livreiro de Frankfurt. Cinco anos depois do episódio do Nobel, aproveitando uma escala de uma viagem para os Países Baixos, ofereceu-se para realizar uma sessão de leitura na cidade do rio Main. “Fui logo pedir a sala do Volksbildungheim, de 500 lugares, no centro da cidade. Como eram um domingo ao fim da tarde tinha receio de que houvesse pouco público, pois os alemães aos domingos são muito caseiros”, explica Teo. Mas a sala encheu. “Estavam 600 pessoas. Foi um momento que nunca vou esquecer”. Tiago Carrasco – Portugal in “Contacto”




quarta-feira, 6 de abril de 2022

Estados Unidos da América - Milhares esperados no festival mais português da Califórnia

O Festival Português do Vale de São Joaquim estará de volta a Turlock, Califórnia, em 09 e 10 de abril, retomando o calendário que tinha sido alterado por causa da pandemia de covid-19


“Tentamos abranger os diferentes aspetos da cultura portuguesa neste fim de semana”, disse à Lusa Elaina Vieira, diretora-executiva da Carlos Vieira Foundation, que organiza o evento. “As pessoas estão entusiasmadas por terem celebrações e por se reunirem com a comunidade portuguesa outra vez”, acrescentou.

O festival vai abrir com uma “Parada Portuguesa” e seguirá com as atuações de várias bandas filarmónicas e grupos folclóricos. Haverá uma tourada à corda no sábado e uma tourada sem sangue no domingo, eventos que nas edições anteriores foram dos mais populares entre a audiência.

No programa de entretenimento estão também as atuações dos comediantes Taylor Amarante e Vavo Brito, da fadista Marisa Silva Rocha e dos cantores populares Anthony Morais, Luízinho, David DeMelo, Emily e Alcides Machado.

Esta será a terceira edição do festival que celebra a cultura luso-americana no vale central da Califórnia, onde há uma grande concentração de pessoas de origem portuguesa, e terá entrada gratuita no sábado, para atrair o maior número possível de visitantes.

“Há muitos jovens que não estão tão envolvidos na comunidade portuguesa e não estão interessados em ir às Festas, e podem até nem saber o que é este festival, mas irão porque a entrada é gratuita”, explicou Elaina Vieira. “Queremos incentivar essas pessoas a virem, dar-lhes a oportunidade de descobrirem mais e envolverem-se”.

A organização antecipa que o evento atraia dez mil visitantes durante todo o fim de semana, com cerca de sete mil no sábado e três mil no domingo, dia em que a entrada para a tourada sem sangue custará 15 dólares. “Esperamos que seja um regresso à normalidade. Parece que vamos ter um bom nível de participação”, salientou a responsável.

Com 50 a 60 empresas expositoras, que irão desde a Ginja9 e PortuCali à Avila Imports e Azorean Brothers, o festival também terá uma prova de vinhos e queijos portugueses.

“Um dos grandes objetivos da celebração é apelar a todas as audiências”, afirmou Elaina Vieira. “Queremos convidar os mais velhos da comunidade a virem e a desfrutarem da cultura e dos portugueses do vale central, mas também queremos reacender esse sentimento nas gerações mais novas”, explicou.

Estará ainda patente uma exposição cultural, com a participação do Museu Histórico Português de São José, que comemora 25 anos, do Centro Histórico Português de San Diego e algumas exibições especiais.

“Tentamos trabalhar para que isto seja algo apelativo para as gerações de portugueses mais novas e mais velhas e também para os que não são portugueses e querem saber mais sobre a cultura”, realçou Vieira.

A dirigente disse que a Fundação trabalha “muito de perto” com o patrocinador principal, Portuguese Fraternal Society of America (PFSA), “que tem como um dos seus propósitos manter a cultura portuguesa viva”.

As receitas geradas pelo festival vão reverter, como nos anos anteriores, para a campanha permanente que a Fundação Carlos Vieira tem para apoiar crianças autistas, denominada “Race for Autism”. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


segunda-feira, 1 de março de 2021

Estados Unidos da América - Mãe e filha dão vida à cultura portuguesa no país

As empreendedoras luso-americanas Maria e Lisa Dias, uma dupla de mãe e filha, criaram a marca LisbonBlue para promover a cultura portuguesa nos Estados Unidos, retirando inspiração do azul dos azulejos espalhados pela capital


“São produtos inspirados em Portugal que vendemos para todo o mundo”, disse à Lusa a designer Lisa Dias. Embora o alvo da marca seja o consumidor nos Estados Unidos, a loja online tem conquistado clientes espalhados por outros países, desde Reino Unido e Itália a França, Austrália e até Portugal e Japão.

“Adoramos o azul dos azulejos de Lisboa”, afirmou Maria Dias, que nasceu em Braga e emigrou para os Estados Unidos nos anos sessenta do século passado.

A responsável explicou que os efeitos da pandemia de covid-19, entre o confinamento e o cancelamento das Festas portuguesas, contribuíram para um maior interesse dos luso-americanos nas suas raízes e herança cultural.

“Recebo muitas perguntas das gerações mais novas, penso que estão muito interessados e cada vez mais envolvidos”, afirmou Maria Dias, que é também autora de livros de cozinha e conhecida nas redes sociais como “Tia Maria”.

“Penso que, com a pandemia, a família é mais importante e as pessoas estão mais próximas. Querem aprender qual a sua herança, a sua cultura”, indicou, referindo que entre os produtos mais bem sucedidos da LisbonBlue estão aventais, pósteres decorativos e canecas com frases em português e inglês.

“Cozinha da Maria”, “I’m Here for the Sardinhas”, “But first, Vinho”, “Bem-vindos” ou “Saudade” são algumas das frases disponíveis em produtos da loja, sendo possível pedir frases e nomes personalizados.

“O atrativo número um é que personalizamos os produtos com qualquer nome e qualquer língua”, afirmou Lisa Dias, salientando que as canecas personalizadas para primas e primos são um êxito junto das gerações mais novas.

“As pessoas anseiam por isto, especialmente com a pandemia. Agora o foco está na família”, acrescentou Maria Dias. “Penso que a geração mais nova está a aperceber-se de como é importante preservar a nossa cultura”, afirmou.

A LisbonBlue tem um portefólio de 700 produtos diferentes e o objetivo da dupla empreendedora é chegar aos mil até ao final de 2021, estando a ponderar a adição de novas categorias.

“Queremos expandir e ter mais produtos, possivelmente cerâmica portuguesa”, indicou Lisa Dias.

Além das t-shirts, aventais, canecas, ornamentos e objetos de decoração, a marca também desenha brincos feitos de cortiça portuguesa com padrões e ícones tradicionais, tais como o Galo de Barcelos. Os brincos e os aventais são feitos à mão.

Antes da criação desta marca, Maria e Lisa Dias encontraram sucesso com um blogue de culinária, que deu origem a um canal de YouTube e os livros de receitas de cozinha portuguesa “Taste Portugal”, o mais recente dos quais publicado em 2020. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo com “Lusa”