Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Internacional - Série do português Vasco Mendonça sobre ópera contemporânea vai estrear no canal francês Mezzo

A série televisiva documental sobre ópera contemporânea Opera. Now, escrita e realizada pelo compositor Vasco Mendonça, estreia-se no próximo dia 05 de janeiro, na RTP2, que a coproduziu com o canal francês Mezzo e a plataforma de ‘streaming’ Medici.tv.

Em declarações à Lusa, o compositor Vasco Mendonça disse que esta série “é apresentada num tom confessional, de partilha pessoal, uma espécie de carta de amor à ópera”, género ao qual se refere como “maior” ao cruzar diferentes artes, da literatura às artes plásticas, passando pela dança e a música.

“A ópera mudou literalmente a minha vida como compositor. Esta série nasce do desejo de devolver essa experiência: abrir um espaço de escuta, abrandar o tempo e convidar novos públicos a entrar numa forma de arte que fala dos momentos mais extremos da condição humana”, disse.

A série estreia-se em janeiro na RTP2 e será exibida “até ao final do primeiro trimestre de 2026”, na Medici.tv e no Mezzo.

A série conta com a participação de compositores como Gyorgy Kurtag e Kajia Saariaho, que morreu em 2023, dos escritores Sofi Oksanen e Martin Crimp, dos encenadores Simon Stone, que tem marcado os principais palcos mundiais de ópera, de Salzburgo ao Met, em Nova Iorque, e Pierre Audi, que morreu no passado mês de maio, tendo dirigido a Ópera Nacional Neerlandesa durante mais de 30 anos, e das sopranos Barbara Hannigan e Julia Bullock, que se contam entre as principais cantoras da atualidade.

O compositor disse à Lusa que, para esta série, teve “o prazer de falar” com amigos e colegas criadores que admira. A série, afirmou Vasco Mendonça, demonstra “como a ópera está sintonizada com o nosso tempo”.

“Nestes tempos de voragem, de profunda crise social, a ópera, que se move mais lentamente, permite-nos abrandar, dar um passo atrás, e ajuda-nos a refletir com outra profundidade sobre o presente”.

Foram escolhidas oito óperas, uma por cada episódio, e o sexto aborda três óperas, todas selecionadas com base num critério que implicou o gosto pessoal, ter sido estreada no século XXI, tendo também em conta “o impacto e a aclamação que tiveram junto do público e da crítica internacional”.

As óperas selecionadas nos episódios um a cinco são: “Into the Little Hill”, de George Benjamin, “Innocence”, de Kaija Saariaho, “Fin de Partie”, de György Kurtág, “Alice in Wonderland”, de Unsuk Chin, e “The Snow Queen”, de Hans Abrahamsen.

No sexto episódio são abordadas as óperas “Ophelia”, “Upload” e “Denis & Katya”, respetivamente de Sarah Nemtsov, Michel van der Aa e Philip Venables.

A série propõe “um olhar de dentro” para os bastidores e o processo criativo, “observando de perto os dilemas, decisões e tensões que moldam cada obra”, num “tom descontraído e acessível”, apresentando a ópera como “um espaço vibrante de criação, debate e imaginação”, disse o autor e realizador de Opera. Now.

Vasco Mendonça adiantou que nesta produção, também apresentada por si, procura, “com humor e clareza”, aproximar o universo operático do público em geral, ou seja, “desmistificar o conceito da ópera como elitista e exclusiva”.

Para Vasco Mendonça, a ópera é a manifestação de uma pulsão primordial da natureza humana, que é “contar histórias através do canto, no momento em que a fala deixa de ser suficiente”.

O canto, disse o compositor, liga-se a “situações extremas” como a morte – os lamentos -, o êxtase, a luta, a guerra, o trabalho.

Na atualidade contemporânea, a ópera pode abordar temas do quotidiano como a identidade, a crise climática, os conflitos políticos, a intimidade, a própria tecnologia.

Vasco Mendonça, como compositor, tem feito parte dos programas de grupos como Asko|Schoenberg Ensemble, Nieuw Ensemble, Axiom Ensemble, Remix Ensemble, International Contemporary Ensemble, Sinfónica de São Paulo, orquestras Gulbenkian, Sinfónica Casa da Música e Drumming Grupo de Percussão.

O compositor tem recebido encomendas, para obras inéditas, de festivais como o d’Aix-en-Provence, Aldeburgh Music, Verbier Festival, Musica Nova Helsinki, Musica Strasbourg, November Music, Gaudeamus Music Week e Morelia Music Festival, e de instituições como Mousonturm Frankfurt, Casa da Música e Fundação Gulbenkian.

Vasco Mendonça foi aluno de George Benjamin, foi distinguido com o Prémio de Composição Lopes-Graça e a bolsa Mentor & Protégé (com Kaija Saariaho), entre outros, e foi compositor em residência da Casa da Música, em 2024.

Os seus próximos projetos incluem encomendas para a Dutch National Opera, a Bergen Symphony Orchestra, o Asko|Schoenberg Ensemble e a Queen Elizabeth Music Competition.

Opera. Now tem argumento e realização de Vasco Mendonça, produção de Catarina Mourão e Catarina Alves Costa, direção de fotografia de João Pedro Plácido e Marc Rovira, direção de som de Armanda Carvalho e Michael O’Donoghue, montagem de Pedro Mateus Duarte e Vasco Mendonça, efeitos especiais e animação de Beatriz Bagulho.

Com apoio financeiro do Instituto do Cinema e do Audiovisual, Opera. Now é uma coprodução RTP, Mezzo e medici.TV, tendo a britânica Proudfoot, como produtora associada. In “LusoJornal” – França com “Lusa”


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Macau - TDM celebra protocolos com RTP de Portugal e TV Cultura do Brasil

A Teledifusão de Macau (TDM) assinou protocolos com a RTP – Rádio e Televisão de Portugal e a TV Cultura do Brasil, com vista a reforçar a cooperação entre as partes. 


Lembrando que mantém laços de cooperação com a RTP há mais de 40 anos, a TDM sublinha que esta é esta a primeira vez que é assinado um protocolo com a TV Cultura do Brasil, o que representa um “novo avanço” nas relações com as televisões dos países lusófonos. 
Além disso, a TDM organizou um fórum para estabelecer uma base mais sólida de cooperação entre os meios de comunicação social locais e dos países lusófonos. Moderado por Gilberto Lopes, director de Informação e Programas Portugueses da TDM, o fórum contou com a participação, como oradores, de Karine Miranda, presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Cabo Verde, Hugo Figueiredo, administrador da RTP, Floriberto Fernandes, director de Programas da Televisão de Moçambique, e Hélio Ferraz, director da TV Cultura do Brasil, que exploraram as perspectivas sobre o futuro das estações públicas de rádio e televisão.
Entretanto, a Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, presidiu na sexta-feira à cerimónia de oferta do documentário “Construção Extraordinária” (2ª série) às estações de televisão dos países lusófonos. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


terça-feira, 20 de agosto de 2024

Macau - TDM e RTP podem reforçar cooperação

A possibilidade de haver uma maior cooperação com a RTP, televisão portuguesa, está a ser encarada pela TDM, televisão de Macau, indicou a emissora local em resposta ao deputado Che Sai Wang. Por outro lado, a TDM irá estudar a introdução do Canal CCTV-5, dedicado ao desporto, nos hotéis de Macau, “de modo a proporcionar programas desportivos mais interessantes aos visitantes internacionais e do Interior da China


Uma maior cooperação com a estação pública de televisão de Portugal poderá ser encarada num futuro próximo pela Teledifusão de Macau – TDM. A ideia será reforçar essa cooperação que, há anos, nos primórdios do canal, começou com a transmissão de jogos de futebol da primeira liga portuguesa, para além de outros conteúdos.

A referência à parceria que existe e que a TDM pretenderá reforçar, é um dos tópicos da resposta a uma interpelação escrita do deputado da Assembleia Legislativa, Che Sai Wang. Para além da questão da colaboração com a RTP, a presidente da Comissão Executiva da TDM, Lo Song Man, fez um balanço da actividade da estação e realçou o lançamento, em 2019, do canal desportivo do China Media Group, CCTV- 5, para a comemoração do 20º aniversário da RAEM.

Considerando que o CCTV-5 “desempenha um papel importante no enriquecimento da vida cultural da população da RAEM sobre o desenvolvimento do desporto no Interior da China e das realizações da construção nacional”, a administração da TDM pondera estudar a possibilidade de introdução do canal em alguns hotéis do território.

“Tomámos conhecimento do interesse de alguns hotéis em receber e transmitir o CCTV-5 e, a esse respeito, a TDM está a estudar a viabilidade do assunto em causa, tendo sido encontrada uma solução técnica preliminar”, refere a resposta da empresa, ressalvando ser “necessário esclarecer melhor se o fornecimento de licenças de transmissão do CCTV-5 aos hotéis pela TDM constituiria uma violação do contrato assinado entre a TDM e o Governo da RAEM”.

Relativamente ao último Campeonato da Europa de Futebol, a TDM justificou a decisão de não transmitir os desafios em directo, o que levou também à ausência de qualquer imagem dos jogos para poder incluir nos seus blocos informativos. A TDM salienta que manifestou a sua intenção ao titular dos direitos autorais desde 2021. Dois anos depois, a empresa tomou conhecimento de que o titular tinha mudado.

“Iniciámos de imediato as negociações, mas o preço exigido era muito superior ao que a TDM poderia suportar, ou seja, mais do triplo do valor mais elevado das transmissões dos campeonatos europeus anteriores”. Por isso, “foi impossível chegar a um acordo”, até porque, “ao adquirir programas, a TDM deve ter em conta uma série de factores, como o mercado e a popularidade do evento, analisar cuidadosamente a situação e apresentar contrapropostas razoáveis”.

Sobre audiências, a TDM indicou que, desde 2011, encomendou a uma empresa de consultoria a realização de inquéritos sobre os hábitos de visionamento e audição dos residentes de vários canais de televisão e rádio da TDM, bem como a recolha de comentários e sugestões. Mais recentemente, em 2023, “foram encomendados inquéritos de audiência do canal “TDM-Ou Mun” na região do Delta do Rio das Pérolas, esperando aproveitar os dados científicos da organização independente para “obter as verdadeiras taxas de visionamento dos diferentes programas naquela região”, sublinha Lo Song Man. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sexta-feira, 14 de julho de 2023

Guiné-Bissau - Bastonário da Ordem dos Jornalistas lamenta fecho das emissões da RTP e RDP/África no país

Bissau – O Bastonário da Ordem dos Jornalistas da Guiné-Bissau (OJGB), António Nhaga lamentou o fecho das emissões da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) e Rádio Difusão Portuguesa (RDP/África), que segundo diz,  “não abona em nada para a imagem do país”.

Em entrevista exclusiva concedida esta quinta-feira à ANG, António Nhaga sustentou que a liberdade de expressão é fundamental para o exercício democrático, acrescentando que não é benéfico para o país se os órgãos de comunicação social estão sendo fechados.

“Estou convencido de que tudo o que a Guiné-Bissau podia ganhar com a realização da Cimeira da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) está manchada. Porque, de facto, sair da realização da Cimeira da CEDEAO e Sessão Extraordinária da UEMOA digamos que ganhamos uma imagem, mas a seguir fecharmos a Rádio e a Televisão. Isso não abona para realização da democracia”, frisou.

O Governo guineense exigiu, em comunicado, tornado público no passado dia, 09 do corrente mês, a reposição da verdade sobre todas as injúrias, difamações e acusações, termologias que diz serem “levianamente proferidas” nos canais da RTP e RDP/África contra o Chefe de Estado Umaro Sissoco Embaló, sob pena de tomar “medidas retificadoras”.

Na quarta-feira a noite, segundo uma fonte da RTP/Africa, os dois serviços de comunicação social portugueses receberam ordem de fecho das suas emissões. A fonte da RTP/Africa disse que lhe foram dito que o fecho das duas emissões teria sido decidido   por “Ordem Superior”.

Para o Bastonário da Ordem de Jornalistas da Guiné-Bissau, a democracia exige liberdade de expressão, exige ainda ter órgãos de comunicação social onde as pessoas possam exprimir, e Nhaga salienta que se uma pessoa exprimir num programa da RTP ou RDP isso não pode impedir o Presidente da República e nem ninguém de exercer as suas funções.

O fecho dos órgãos de comunicação social, de acordo com o Nhaga, não dignifica o Estado Democrático que se quer construir no país, e sobretudo órgãos internacionais, porque a decisão vai ter efeitos na imagem externa do país.

António Nhaga sublinhou que nesse momento “quer queiramos ou não as pessoas vão dizer que não há democracia porque fecham rádios, e questiona se a RDP e RTP/África não estão noutros países dos PALOP, e diz que estão, mas nunca são fechadas e que de facto, os Presidentes tomam medidas caso necessário.

Para o comunicador, esse tipo de decisões pode comprometer as relações entre a Guiné-Bissau e Portugal.

“Portugal é um país que tem grande influência no mundo, é ouvido quendo cada vez que há problemas nos PALOP. Dizem que é quem colonizou e conhece melhor as suas colónias. Não é por acaso que dissemos que tudo que é nosso que vai passar pelo plano internacional passa por Portugal”, salientou.

António Nhaga adverte que Portugal pode ajudar o país a fazer corredores nas Nações Unidas, União Europeia, mas se houver mal-estar pode também bloquear, sustentando que Portugal pode não fazer esse bloqueio direto, mas há tentáculos onde pode contornar e fazer o que quer.     

Lamentou ainda que no país as pessoas não têm a noção de que a imprensa é fundamental para a democracia e para a construção de boa imagem de um país. In “Agência de Notícias da Guiné” – Guiné-Bissau


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Síria – Televisão pública portuguesa entrevista presidente sírio

O Presidente sírio recebeu o enviado da RTP Paulo Dentinho, que está por estes dias a cobrir o conflito na Síria, uma guerra que vai já no sexto ano, com mais de 260 mil vítimas e muitos milhões de refugiados
























RTP: Senhor Presidente, comecemos por Alepo. Ainda há milhares de civis encurralados a tentar sobreviver numa espécie de condições sub-humanas no meio de um dilúvio de bombas. Por que pensa que se recusam a sair?

Bashar al-Assad: A zona a que se referiu em Alepo, a que chamam de zona oriental, está ocupada por terroristas há três anos e eles têm usado civis como escudos humanos. Do nosso lado, da nossa parte enquanto Governo, temos duas missões: a primeira é combater contra esses terroristas para libertar a área e os civis desses terroristas e, ao mesmo tempo, tentar encontrar uma solução para retirar daquela área os terroristas, se aceitarem uma opção de reconciliação, na qual ou abdicam das suas armas beneficiando de uma amnistia, ou abandonam aquela área.

A outra coisa que fizemos como Governo foi abrir caminhos para os civis saírem daquela zona e, ao mesmo tempo, para que as colunas humanitárias e de auxílio possam por esse meio aceder a essa zona de Alepo.

Mas não está a usar os jihadistas para desacreditar todas a oposição aos olhos da opinião pública nacional e internacional, para depois tentar erradicá-los a todos?

Não, não podemos fazer isso por uma simples razão. Porque temos lidado com este tipo de terrorismo desde os anos 50, desde que a Irmandade Muçulmana veio para a Síria. E aprendemos muito bem a lição, especialmente nos anos 80: a de que os terroristas não podem ser usados como trunfo político.

Não podemos “metê-los no bolso” porque são como um escorpião. Acabarão por nos picar. Por isso não podemos usar os jihadistas. Seria como dar um tiro no pé. Acabarão por voltar-se contra nós.

Isto de uma forma pragmática, mas se virmos isto como um valor, é algo que não faríamos. Usar o terrorismo, jihadistas ou extremistas em prol de uma qualquer agenda política é imoral.

Mas não podemos assumir que os civis em Alepo provavelmente não confiam no Governo nem no exército e que só querem democracia, dignidade e liberdade? Pode dar-lhes isso?

Falemos deste ponto relativamente à realidade. Desde o início da crise, desde que os terroristas começaram a controlar certas áreas no interior da Síria, a maioria dos civis sírios trocou essas áreas por outras sob controlo governamental e não o contrário. Se a maioria dos sírios não confia no Governo, deve ir para outro lado.

Deixe-me dar-lhe outro exemplo – que é um exemplo mais marcante. Você esteve em Daraya, al-Muadamiya, há uns dias, quando aqui chegou. Os terroristas e militantes que saíram dessa área e foram para Idleb, no norte da Síria, para se juntarem a outros terroristas, deixaram as suas famílias sob a supervisão do Governo. Pode ir lá e visitá-las agora, se quiser.




















Estive aqui pela primeira vez há quatro anos e voltei agora. Está a vencer a guerra na Síria?

Só podemos dizer que vencemos a guerra quando restabelecermos a estabilidade na Síria. Não podemos falar em vitória enquanto houver mortes e destruição diariamente. Isso não significa que estejamos a perder a guerra. O exército está a progredir bem, todos os dias, contra os terroristas.

É claro que ainda têm o apoio da Turquia, Qatar, Arábia Saudita e alguns países ocidentais como os Estados Unidos. Mas a única opção que temos a esse nível é vencer. Se não vencermos e os terroristas ganharem, a Síria deixará de existir.

Mas teria feito isso também sem o Hezbollah, o Irão e a Rússia?

Eles estão aqui porque puderam oferecer uma ajuda essencial e deveras essencial já que a situação que agora enfrentamos não se prende tão só com alguns terroristas no interior da Síria. É como que uma guerra internacional contra a Síria.

Esses terroristas têm sido apoiados por dezenas de países estrangeiros, portanto a Síria sozinha não seria capaz de enfrentar esta guerra sem o auxílio dos seus amigos. É por isso que a sua existência e o seu apoio foram fulcrais.

Vladimir Putin é o seu aliado mais importante?

A Rússia é muito importante, o Irão é muito importante, o Hezbollah é muito importante. São todos importantes. Cada um deles alcançou grandes triunfos contra o terrorismo na Síria, por isso é difícil dizer quem é mais importante.

Mas qual é o papel da Rússia na Síria hoje em dia?

A parte mais importante do seu apoio é o apoio aéreo, que é deveras essencial. A Rússia possui grande poder de fogo e, ao mesmo tempo, é o principal fornecedor do nosso exército há mais de sessenta anos. Como tal, o nosso exército depende do apoio da Rússia em várias áreas militares.

Mas tem liberdade para decidir o futuro da Síria, ou está dependente das estratégias de Vladimir Putin?

Não, primeiro de tudo somos plenamente livres. Não é algo parcial, somos plenamente livres em tudo o que se prende com o futuro da Síria. Em segundo lugar - mais importante ou tão importante como o primeiro fator - os russos baseiam sempre as suas políticas em valores e esses valores são a soberania de outros países, o direito internacional, o respeito por outros povos, por outras culturas. Assim, não interferem em nada que esteja relacionado com o futuro da Síria ou do povo sírio.

Mas ajudaram-no algumas vezes nas Nações Unidas. Vetaram algumas resoluções que condenavam o seu Governo e o exército sírio. Há vários relatórios sobre o uso de armas químicas, abuso dos Direitos Humanos e crimes de guerra na Síria. Tudo isto no contexto das Nações Unidas.

E muitos perguntam “para quê?”. Ou seja, o que pediram em troca. Essa é a questão. Na verdade, e em primeiro lugar quanto aos seus valores. Porque nestes valores de que falo, o valor do direito internacional, eles também têm os seus interesses. Isto é, combater os terroristas da Síria não é do exclusivo interesse da Síria ou do povo sírio. É do interesse do Médio Oriente, da própria Europa – algo que muitos responsáveis do Ocidente não veem, ou não percebem ou não reconhecem – e do interesse do povo russo, porque este há já décadas que enfrenta terroristas. Portanto, os russos estão a lutar por nós, pelo mundo e por si próprios.

Mas, quando fala dos seus valores, a democracia é um valor.

É claro.

A liberdade é um valor?

É claro.

Pode afirmar que a Síria é uma democracia, segundo os padrões ocidentais?

A única entidade que pode lutar por tais valores, como a democracia e a liberdade, é o povo de qualquer país, ou de qualquer sociedade, não os estrangeiros. Os estrangeiros não podem trazer a liberdade, não podem trazer a democracia, porque isso diz respeito à cultura, aos diversos fatores que afetam ou influenciam essa sociedade. Não podemos trazer isso. Não podemos importá-lo. Não podemos importar nada do exterior do nosso país relativamente ao futuro do nosso próprio país.

Mas definiria a Síria como uma democracia?

Não, estamos a caminho da democracia. Não dissemos que somos totalmente democráticos; rumávamos a isso e estávamos a avançar. Lenta ou rapidamente, isso é subjetivo, não pode ser objetivo, é sempre subjetivo. Mas estávamos a progredir a esse nível.

Todavia, os nossos critérios ou paradigmas não são os do Ocidente, não é o paradigma ocidental, porque o Ocidente tem a sua própria cultura, nós temos a nossa própria cultura, eles têm a sua própria realidade e nós a nossa. Portanto a nossa democracia deve refletir a nossa cultura, os nossos hábitos, os nossos costumes e nossa realidade ao mesmo tempo.




















Sabe decerto que existe um novo Secretário-Geral das Nações Unidas. Como olha para ele, o sr. Guterres, tendo em conta a sua conhecida abordagem humanitária quanto à situação?

É claro que concordo com o “cabeçalho” dessa abordagem. Digo “cabeçalho” porque, sob isso, há sempre subtítulos ou títulos diferentes. Quando se fala da abordagem humanitária não implica apenas proporcionar às pessoas ajuda, alimentos, garantir as suas necessidades básicas. O principal, se perguntarmos aos refugiados sírios, por exemplo, a sua prioridade é poder voltar ao seu país e viver na Síria. Isso implica ajuda humanitária, tal como a entendemos, alimentos, cuidados médicos, quaisquer outros elementos básicos da vida quotidiana.

O segundo aspeto é ter estabilidade e segurança, o que significa que a abordagem humanitária implica combater os terroristas. Não se pode falar de ajuda humanitária e proteger os terroristas ao mesmo tempo. Não é possível. Há que escolher. E, claro, não falo dele, falo dos países que apoiam o seu plano, porque ele precisa do apoio de outros países. Ele não pode lograr tal plano enquanto muitos do mundo continuarem a apoiar os terroristas na Síria. Portanto, é claro que apoiamos tal abordagem, ajudando as pessoas a viver, a voltarem para o seu país e a viver em segurança sem terroristas.

Ele afirmou já que a paz na Síria é uma prioridade. Está disponível para falar com ele, para trabalhar com ele, com esse objetivo?

Sem dúvida, claro. É a prioridade dele e, claro, a nossa prioridade, isso é óbvio. E não é só a nossa prioridade, é também uma prioridade para o Médio Oriente. E quando o Médio Oriente estiver estável, o resto do mundo também o estará, porque o Médio Oriente está no coração do mundo, geográfica e geopoliticamente, e a Síria é o coração do Médio Oriente geográfica e geopoliticamente.

Somos a “falha geológica”. Se não lidarmos com ela, haverá um terramoto, foi sempre o que dissemos. É por isso que essa prioridade é 100 por cento correta na nossa perspetiva, e estamos prontos a colaborar de todas as formas em prol da estabilidade na Síria, tendo obviamente em conta o interesse do nosso país e a vontade do povo da Síria.

Disse, quando falámos, que as Nações Unidas são parciais. Pensa que com o Sr. Guterres isso poderá alterar-se um pouco?

Todos sabem que as Nações Unidas não são o Secretário-Geral. Ele tem uma posição importante, mas as Nações Unidas são os seus Estados membros. E, para ser franco, a maioria das pessoas consideram que são só os cinco membros permanentes. São eles as Nações Unidas porque têm o poder de veto, podem fazer ou recusarem o que quiserem e se houver uma reforma que esta organização carece eles podem vetá-la ou dar-lhe continuidade.

Mas, ao mesmo tempo, a forma como ele se apresentou como Secretário-Geral é muito importante. Se me perguntar o que espero de um novo representante numa posição tão importante eu diria que preciso de duas coisas: a primeira é ser objetivo em todas as declarações que possa fazer em relação a qualquer conflito no mundo, incluindo a Síria. A segunda –que está relacionada e é complementar da primeira - é não converter o cargo numa espécie de filial do Departamento de Estado norte-americano. É isso que esperamos agora.

Claro que, se for objetivo, poderá desempenhar um papel importante ao lidar com diferentes responsáveis das Nações Unidas, por forma a direcionar as políticas dos diversos Estados – sobretudo a Rússia e Estados Unidos – para uma maior cooperação e estabilidade relativamente à Síria.

Mas em relação à Síria há muitas agendas: Qatar, Turquia, Rússia, Estados Unidos, Irão e Arábia Saudita. Como é que é possível tentar um processo de paz com tantas agendas?

Sem levar todos esses países e os diferentes fatores ao encontro de uma só direção, claro que vai ser difícil. É por isso que digo sempre que o problema sírio, como um caso isolado, como um problema sírio, não é muito complicado. O que o torna complicado é a interferência do exterior, especialmente do Ocidente, porque vai contra a vontade do Governo sírio, enquanto que a intervencão da Rússia, do Irão e do Hezbollah surge a convite do governo sírio. Assim, o seu papel como secretário-geral ao juntar todas essas potências é essencial e esperamos que seja bem-sucedido. Não é fácil, claro.

Deixe-me referir a Turquia. O exército está no seu país, o Presidente turco disse na semana passada que os interesses da Turquia estão para além de fronteiras naturais. Referia-se a Mossul e Alepo. Aceita isto?

Claro que não. Está a falar de um homem doente. Ele é um Presidente megalómano, não é estável. Vive na era otomana, não no tempo presente. Está desfasado da realidade.

Mas o que vai fazer com o exército deles dentro do seu país?

É nosso direito defender o país contra qualquer tipo de invasão. Mas sejamos realistas, todos os terroristas que vieram para a Síria fizeram-no através da Turquia com o apoio de Erdogan. Portanto, combater esses terroristas é como lutar com o exército de Erdogan, não o exército turco.

Mas é um país da NATO, está consciente disso?

Sim, claro. Sendo um país da NATO ou não, não tem o direito de invadir outro país de acordo com o direito internacional ou qualquer outro valor moral.

Senhor Presidente, o que espera do novo Presidente eleito da América, Donald Trump?

Não temos grandes expetativas porque a administração americana não se restringe ao Presidente, há diferentes poderes no seio desta administração, diferentes “lobbies” que vão influenciar qualquer Presidente.

Por isso temos de esperar para ver o que fará ao assumir a sua nova missão, digamos assim, ou a sua posição de Presidente no seio desta administração, dentro de dois meses. Mas dizemos sempre que temos esperança de que os EUA não sejam parciais, que respeitem o direito internacional, que não interfiram noutros países em todo o mundo e, claro que deixem de apoiar os terroristas na Síria.

Mas ele disse em entrevista que parece estar pronto para trabalhar consigo na luta contra o Estado Islâmico. Está pronto para esse passo?

Claro, eu diria que isso é promissor, mas conseguirá ele cumprir? Conseguirá ir nessa direção? E as forças contrárias no seio da administração e os meios de comunicação mainstream que estiveram contra ele? Como lidará ele com isso? É por essa razão que permanece dúbio para nós saber se pode ou não cumprir as suas promessas. É por isso que somos muito prudentes na sua avaliação, especialmente porque nunca deteve até hoje qualquer cargo político. Portanto nada podemos dizer quanto ao que irá fazer mas se – “se” – ele combater os terroristas é claro que seremos um aliado natural, juntamente com os russos, os iranianos e muitos outros países que querem derrotar os terroristas.

Então vai cooperar com os Americanos na luta contra os terroristas?

Claro, definitivamente. Se forem genuínos, se tiverem a vontade e a capacidade, claro que seremos os primeiros a lutar contra o terrorismo porque já sofremos mais que nenhum outro país no mundo com os terroristas.

Então irá cooperar com os Americanos que agora apoiam os curdos, as Unidades de Proteção Popular que estão a tentar entrar em Raqqa?

Quando se fala em cooperação, fala-se de cooperação entre dois Governos legais, não cooperação entre um Governo estrangeiro e uma qualquer fação no seio da Síria. Qualquer cooperação que não passe pelo Governo sírio não é legal. Se não é legal, não pode existir cooperação, não a reconhecemos e não a aceitamos.

De qualquer forma, o vice-presidente Pence diz ter admitido o uso de força militar para impedir a vossa força militar de criar uma nova crise humanitária em Alepo. O que pensa disso?

Isso vai, de novo, contra o direto internacional e esse é o problema da posição americana. Pensam que são a polícia do mundo. Pensam que são o juiz do mundo. Não são. São um país soberano, um país independente, mas esse é o limite. Não devem interferir em qualquer outro país. Foi devido a essa interferência nos últimos 50 anos … é por isso que apenas são bons a criar problemas e não a resolvê-los. É esse é o problema do papel americano.

É por isso que dizemos que não colocamos demasiada esperança na mudança de administração: este contexto prolonga-se há mais de 50 anos e é o expectável. Se querem continuar nessa mesma senda de criação de problemas pelo mundo, é isso que têm de fazer: interferir nos assuntos de outras nações.

Mas voltando ao que o recente Presidente eleito disse sobre cooperação com o seu Governo na luta contra o Estado Islâmico, espera uma mudança também dentro dos países europeus?

Em relação à luta contra o terrorismo, estamos prontos a cooperar com qualquer pessoa no mundo sem condições. É esse o cerne da nossa política, não hoje, nem ontem, há anos. Mesmo antes da guerra na Síria, sempre o dissemos. Nos anos 80 pedimos uma aliança internacional contra o terrorismo, depois da crise da Irmandade Muçulmana na Síria, quando começaram a matar e, claro, foram derrotados nessa altura. Nós pedimos a mesma coisa. É pois uma política a longo prazo na qual nos baseamos há anos.

Uma última questão. Após tantos anos, ainda rejeita qualquer responsabilidade pelo que aconteceu no seu país?

Não, eu nunca rejeitei qualquer responsabilidade, mas isso depende da decisão. Quando falamos de responsabilidade, perguntamo-nos que decisões devem ser tomadas para lidar com a crise. O Presidente ordenou a morte de civis? Ordenou a destruição, mandou que apoiassem o terrorismo no seu país? Claro que não.

A minha decisão e a decisão das diferentes instituições e de diferentes representantes na Síria – e eu estou no topo – foi dialogar, combater os terroristas e criar reformas como resposta na fase inicial. Resposta às alegações que, naquele tempo, diziam que a Síria precisava de uma reforma, e nós respondemos a isso. Portanto, essa foi a decisão que tomei.

O senhor diria, ou alguém diria, que lutar contra o terrorismo é errado? Dialogar é errado? Fazer reformas é errado? Proteger os civis e libertar as áreas dos terroristas é errado? Claro que não. Há pois uma diferença entre a responsabilidade da política e a responsabilidade da prática. Em qualquer prática há procedimentos incorretos, isso é uma outra questão. Quando falamos do Estado e do presidente, falamos sempre das decisões e das políticas.

Obrigado por estar com a RTP, Senhor Presidente.

Eu é que agradeço.

Rádio Televisão Portuguesa (RTP) - Portugal