Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fundação Calouste Gulbenkian - Alianza Ceibo vence Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2026

O Prémio ajudará a Alianza Ceibo a ampliar o seu modelo de governação comunitária, a reforçar a proteção da floresta tropical e a investir na educação e na formação de lideranças, e em oportunidades para as próximas gerações


A Alianza Ceibo é uma organização sem fins lucrativos que trabalha para proteger terras ancestrais essenciais para o clima na bacia superior do Amazonas. Reunindo as nações indígenas A’i Kofán, Siekopai, Siona e Waorani, a Alianza protege mais de dois milhões de hectares de floresta tropical rica em biodiversidade no Equador, Peru e Colômbia. A organização apoia também os povos indígenas na resposta às ameaças à sua cultura e à autonomia, através de estratégias enraizadas nas comunidades e centradas no reforço da liderança das mulheres e dos jovens. Destacam-se a Escola de Empreendedorismo e Liderança para Mulheres, que ao longo dos últimos dez anos formou 260 mulheres indígenas em alternativas de economia sustentável, e a Escola de Comunicação Indígena, que forma os jovens em narrativa, fotografia, cinema e jornalismo, contribuindo para preservar a memória e a cultura.

Ao atribuir este Prémio, a Fundação Calouste Gulbenkian reconhece o trabalho que a Alianza Ceibo desenvolve há uma década a unir comunidades, defender os territórios ancestrais da Amazónia, a promover os direitos dos Povos Indígenas e a contribuir para a justiça climática. O Prémio, no valor de 1 milhão de euros, ajudará a Aliança de Povos Indígenas da Amazónia a manter e ampliar o seu modelo liderado por Povos Indígenas, reforçando a proteção da floresta tropical e investindo simultaneamente na educação promovida pelas comunidades, na formação de lideranças, e na criação de oportunidades para a próxima geração de jovens indígenas.

Para o Presidente da Fundação, António Feijó, “A vencedora deste ano é um exemplo poderoso da liderança indígena na luta pela justiça climática num dos ecossistemas mais preciosos da Terra—a floresta amazónica. Perante a adversidade, a Alianza Ceibo uniu esforços além-fronteiras para tomar nas suas mãos o futuro dos seus territórios ancestrais. Mostra-nos o que pode ser alcançado quando nos unimos em torno de um propósito comum.”

A força do modelo único da Alianza Ceibo, assente na liderança das comunidades, tem permitido alcançar resultados significativos na proteção das suas terras contra a exploração de recursos, incluindo vitórias históricas para travar a desflorestação e assegurar direitos territoriais, bem como a introdução de fontes de energia limpa e de água potável para proteger as comunidades dos rios contaminados pela indústria extrativa.

Entre as principais conquistas alcançadas pela Aliança até à data, destacam-se:

  • O desenvolvimento de modelos educativos e referenciais curriculares liderados pelas comunidades, cujo reconhecimento oficial pelo Governo equatoriano, em setembro de 2026, constituiu um marco histórico e permitiu a sua adoção pelo sistema público de ensino nos territórios A’i Kofán, Siekopai e Waorani. Este reconhecimento possibilita a integração formal dos conhecimentos ancestrais, das línguas e das cosmovisões destes povos no ensino público, estabelecendo simultaneamente um importante precedente para que outros povos indígenas do Equador possam seguir o mesmo caminho.
  • A obtenção de uma decisão judicial histórica que atribuiu ao povo Siekopai o título de propriedade do seu território ancestral;
  • A obtenção de uma decisão judicial que anulou 52 concessões mineiras ilegais no território A’i Kofán, protegendo a montante todo o sistema do rio Aguarico;
  • A vitória em processos judiciais que estabeleceram um precedente nacional em matéria de Consentimento Livre, Prévio e Informado, um instrumento poderoso que ajuda os Povos Indígenas a contestar a indústria extrativa;
  • A instalação de 1164 sistemas de filtragem de águas pluviais, que dão acesso a água potável a mais de 6500 pessoas afetadas pela contaminação por petróleo na Amazónia equatoriana e na Colômbia;
  • A construção de 200 sistemas de energia solar, que fornecem eletricidade a 208 agregados familiares, três associações de mulheres, sete escolas e 14 postos de patrulhamento territorial.

Nemonte Nenquimo, do povo Waorani, e cofundadora da Alianza Ceibo, declara: “Aceitamos humildemente este reconhecimento em nosso nome e em nome das nossas comunidades, dos nossos anciãos e dos territórios. Este prémio reconhece a luta que travamos desde os nossos antepassados e demonstra o seu verdadeiro impacto no mundo: os Povos Indígenas, que sempre viveram aqui, são fundamentais para proteger a floresta tropical e encontrar soluções para as alterações climáticas. A Amazónia é vital para o equilíbrio do planeta e, ainda assim, continua a ser destruída. Temos de permanecer firmes na sua defesa, porque as nossas vidas dependem dela.”

Por seu lado, Hernán Payaguaje, do povo Siekopai, e também cofundador da Alianza Ceibo, afirma: “Este prémio enche-nos de uma enorme gratidão. É um reconhecimento do trabalho que desenvolvemos a partir dos nossos territórios, apoiando processos comunitários, reforçando lideranças, desenvolvendo capacidades e promovendo a autonomia dos povos. Reconhece também o impacto positivo nas comunidades e a confiança construída com organizações, aliados e parceiros. Estas alianças permitiram-nos chegar a mais territórios, estabelecer ligação com mais pessoas e fazer crescer um movimento regional. Acreditamos que mais investimento na autonomia dos nossos povos, das suas organizações e dos seus territórios é uma verdadeira alternativa e uma garantia para assegurar a defesa dos nossos territórios e das nossas vidas.”

O Júri, presidido pela antiga Chanceler alemã Angela Merkel, selecionou o vencedor de entre 304 nomeações, oriundas de 73 países. Numa altura em que os defensores indígenas da terra enfrentam hostilidade e interferências políticas, a atribuição do Prémio Gulbenkian para a Humanidade à Alianza Ceibo reconhece o papel fundamental dos Povos Indígenas na salvaguarda deste que é um dos ecossistemas mais importantes do mundo.

Este Prémio, refere a Presidente do Júri, Angela Merkel, “distingue quem demonstra um compromisso excecional com a Terra e com a coexistência global entre as pessoas e o planeta. O Prémio recorda-nos que cada pessoa, onde quer que esteja no mundo, tem o poder de fazer a diferença — e que uma única ação, quando inspira outras pessoas, pode tornar-se uma poderosa força de mudança em todo o mundo.”

Num contexto em que os Povos Indígenas enfrentam, a nível mundial, uma falta de financiamento grave e persistente, o Prémio de 1 milhão de euros ajudará a Alianza Ceibo a salvaguardar a liderança indígena num dos ecossistemas mais importantes do mundo.

Saiba mais aqui. Fundação Calouste Gulbenkian - Portugal