Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

China - Hengqin já tem mais de 8100 empresas com capitais da RAEM

O lançamento do “Projecto Geral de Construção da Zona de Cooperação Aprofundada” completou cinco anos, tendo diversas estratégias produzido frutos. Segundo o Governo de Hengqin, até ao final de Julho deste ano, o número de empresas de capitais da RAEM em Hengqin aumentou 75% para 8148, em relação ao verificado há cinco anos


No dia 31 de Julho deste ano, o número de empresas de capitais de Macau em Hengqin fixou-se em 8148, ilustrando um aumento de 75,7% face a 2021, ano em que foi oficialmente criada a Zona de Cooperação Aprofundada. Desse modo, as empresas de capitais da RAEM em Hengqin representam 16,2% do total, o que significa que “em cada seis empresas, há uma com gene de Macau”, salientou a Direcção dos Serviços Administrativos e Jurídicos da Zona de Cooperação.

Por ocasião do quinto aniversário da promulgação do “Projecto Geral de Construção da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”, o Governo de Hengqin constata ainda que já foram lançadas 350 medidas de articulação de regras, envolvendo áreas como a economia e comércio, assuntos comerciais e bem-estar da população. Simultaneamente, os serviços correspondentes ao objectivo “Assuntos de Macau tratados em Hengqin cresceram para um total de 474.

Noutra esfera, indica que o “Novo Bairro de Macau” acolhe até ao momento mais de 4000 residentes, ao passo que a Escola de Hengqin Anexa à Escola Hou Kong conta com um total de 970 alunos, do ensino infantil, primário e secundário, estando em preparação a unidade de ensino secundário complementar. Também no âmbito da educação, realça que mais de 1450 alunos de pós-graduação das três universidades públicas de Macau estão a estudar de forma transfronteiriça entre a RAEM e Hengqin.

Por outro lado, revela que, no segundo trimestre do corrente ano, o valor acrescentado das “quatro novas indústrias” em Hengqin atingiu 19,537 mil milhões de renminbis, traduzindo-se num acréscimo homólogo de 7,9%, ocupando 68,1% do Produto Interno Bruto. Paralelamente, até Agosto deste ano, 81 produtos de nove empresas obtiveram as designações “fabricado sob supervisão de Macau”, “produzido sob supervisão de Macau” ou “design de Macau”.

No que respeita ao turismo, na primeira metade deste ano, um dos sinais do “crescimento robusto” do mercado reflecte-se na subida homóloga em 168,7% do volume de participantes nas excursões Hengqin-Macau. No mesmo intervalo temporal, o número de convenções ou exposições realizadas sob o modelo “Um Evento, Dois Locais” de Macau e Hengqin mais do que duplicou face ao período homólogo do ano passado.

Quanto às finanças modernas, garante que têm sido explorados constantemente novos caminhos para fluxos de capital transfronteiriços.

Ademais, sublinha que deverá arrancar este ano a construção da Estação de Comboio Rápido de Hengqin, que se ligará à rede ferroviária nacional de alta velocidade.

Por outro lado, sublinha que o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola tem-se dedicado à criação de “pontes” para empresas expandirem negócios para o estrangeiro. Até Julho deste ano, o Centro estabeleceu parcerias com mais de 200 entidades de mercado e prestadores de serviços profissionais, e celebrou acordos de cooperação estratégica para a expansão internacional com 16 empresas líderes, incluindo a Huawei Macao, JD.com, Kuaishou Technology, Didi Chuxing e China Southern Airlines Technology.

Também até Julho, os 12 bancos-piloto em Hengqin abriram quase 800 contas de comércio livre multifuncionais, movimentando transferências de capitais superiores a 630 mil milhões de renminbis. Por outro lado, até 22 de Agosto, o Posto Fronteiriço de Hengqin tratou mais de mil pedidos para o serviço de reembolso do imposto à saída do território, que impulsionaram 7,3 milhões de renminbis em consumo por parte de visitantes.

Noutro domínio, indica ainda que, desde Fevereiro de 2026, foram filmadas 48 séries no Estúdio Internacional de Cinema e Televisão de Hengqin. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


sábado, 28 de dezembro de 2024

“A RAEM ganhou uma visibilidade diferente e também um papel próprio aos olhos de Pequim”

Macau “tornou-se no exemplo” da capacidade da China concretizar o princípio ‘Um País, Dois Sistemas’, mas a sua continuidade pós 2049 dependerá das cartas que der a nível internacional, afirma Cátia Miriam Costa. Para a investigadora do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, Macau continua a ser um “ponto de encontro” entre culturas, mas a plataforma sino-lusófona tem sido “hesitante”. Entre as razões, defende que “os contactos diplomáticos são parte do exercício” dessa função, e “falta a Portugal” decidir o papel de Macau “na sua política externa”

– O Presidente chinês, Xi Jinping, voltou a Macau pela terceira vez durante a sua presidência. Face à última visita, em 2019, como se encontra a situação política do país?

Cátia Miriam Costa – Estamos em conjunturas diferentes, não só a nível interno como externo. Após a pandemia e dois conflitos militares em curso, o ambiente internacional tornou-se menos previsível e mais conflitual, a par de uma crescente concorrência entre a China e os Estados Unidos da América.

Do lado interno, também se verificam novos desafios, como a manutenção do crescimento económico e desenvolvimento social. Após a erradicação da pobreza extrema, há a necessidade de criar uma economia resiliente que possa corresponder a uma maior competitividade internacional e à concretização de grandes projetos como a Nova Rota da Seda e a Grande Baía em que, de forma mais indireta ou direta, Macau tem um papel a desempenhar.

Como território exportador de serviços, sobretudo na área do turismo e do entretenimento, está particularmente exposto às alterações no relacionamento externo da China, mas também ao bem-estar do país, dado receber maioritariamente visitantes do Continente. Estes fatores fazem com que a receção ao Presidente Xi Jinping tenha decorrido num ambiente diferente de 2019, ao qual acresce toda a turbulência vivida em Hong Kong, que acabou por se refletir também nas decisões políticas em Macau.

Com a situação serenada, Macau recebe maior atenção, pois tornou-se no exemplo da capacidade da China concretizar cabalmente o princípio de ‘Um País, Dois Sistemas’. Se falarmos com chineses do Continente e lhes pedirmos para comparar as duas regiões ou perguntar onde agora preferem ir, a tendência é assinalar Macau como destino preferencial. A RAEM ganhou uma visibilidade diferente e também um papel próprio aos olhos de Pequim.

– Celebram-se os 25 anos da transferência de soberania. Como vê hoje a RAEM, decorridos tantos anos desde 1999?

C.M.C. – Para um visitante vindo do exterior, mudou sobretudo a paisagem. O Cotai e a incidência da indústria do entretenimento e do jogo cresceram numa dimensão inimaginável. Mas também a construção de mais pontes de ligação, alterando as infraestruturas de conetividade da RAEM à China Continental, causam impacto neste olhar de fora. Outro aspeto não menos relevante são as pessoas. A paisagem humana de Macau mudou, com mais chineses da China Continental e também com a audição de mandarim em ruas onde o cantonês tinha predominância total.

Claro que para um residente, as alterações são maiores, com a progressiva transformação da RAEM, a sua integração no projeto da Grande Baía, as novas regras para se aceder à residência permanente ou a diversificação económica que se avizinha. Contudo, estas mudanças não retiraram a Macau a sua especificidade.

Ainda vejo a RAEM como um território com uma riqueza cultural e social enormes, confortável para ser vivenciado por diferentes comunidades e, acima de tudo, ponto de encontro por excelência entre ocidente e oriente e ponte fundamental entre a língua mais falada do hemisfério sul, o português, e a língua mais falada do hemisfério norte, o mandarim.

– Acredita que a RAEM pode ter o posicionamento de plataforma que o Governo Central lhe incumbiu? Faltam ainda elementos?

C.M.C – A RAEM tem o posicionamento histórico, cultural e social para ser a plataforma de ligação, sobretudo para os Países de Língua Portuguesa, mas não só. A América Latina poderá ser outra região do mundo com a qual Macau tem proximidade, não só porque o Brasil está integrado na América do Sul, mas porque houve uma ligação histórica entre estes territórios, por exemplo, através do transporte de emigrantes chineses para a América Latina.

É evidente que para ser uma plataforma tem que existir um entendimento profundo com o Governo Central, porque os contactos diplomáticos são parte do exercício das funções de uma plataforma. Estando esta parte clarificada e Macau envolvido no projeto económico de maior fôlego, tem todas as condições reunidas para usar as instituições ao seu dispor, como o Fórum de Macau, para afirmar esta sua função que até agora tem feito de forma hesitante.

– A comunidade portuguesa pode ainda representar um papel importante para Macau e para a China?

C.M.C. – Apesar de ter diminuído numericamente, a comunidade portuguesa apresenta alguma diversidade, representando-se em diversos setores da sociedade. Creio que esse potencial pode aumentar se tivermos presença em projetos de iniciativa privada; seria uma variação face ao passado da Administração portuguesa.

É evidente que para manter a especificidade de Macau, precisamos de uma comunidade macaense ativa e integrada nas diversas dimensões da sociedade local, a par de uma comunidade portuguesa também participativa. A presença destas duas comunidades constitui uma prova da persistência de características diferenciadas e da riqueza que traduzem para este território da China. Naturalmente, ambas as comunidades, em especial a portuguesa, sentem a mudança dos tempos e estão numa fase de adaptação. Contudo, não me parece que esse papel esteja de forma alguma esgotado e que não possa ser direcionado para novas áreas.

– Existem condições para a continuidade do sistema político atual pós 2049?

C.M.C. – Macau irá passar por uma integração económica e política progressiva relativamente à China Continental, tal como o acordo entre a República Portuguesa e a República Popular da China previa. A cidade está cada vez mais ligada, não só fisicamente através das novas infraestruturas, mas também de abertura de canais de passagem facilitada. O movimento de pessoas, a facilidade de circular, sobretudo na Grande Baía, mudará decerto ainda mais a feição da cidade.

Todavia, existe a possibilidade de a China considerar interessante a manutenção de algumas características, que podem ir de uma maior autonomia dentro do quadro político de governação, a uma aposta na manutenção do ensino do português como elemento diferenciador.

Seria interessante conhecerem-se os planos do próximo Governo da RAEM, para percebermos até que ponto este poderá transmitir a sensibilidade local para o Governo Central. Mas (…) parece-me difícil manter a continuação cabal do atual sistema, a não ser que este se revele particularmente proveitoso para China, nomeadamente, em termos de notoriedade internacional.

– Portugal está a aproveitar a ligação histórica que tem com Macau ou esqueceu-a?

C.M.C. – Existe uma memória difusa, pela distância e pelo facto de poucos portugueses terem passado por Macau. Paralelamente, há um certo saudosismo e uma expectativa de encontrar em Macau um prolongamento asiático de Portugal. Quanto à contemporaneidade, Macau é desconhecido e ainda falta a Portugal uma decisão relativamente ao papel que esta Região poderá ter na sua política externa. Esta ligação não tem sido potenciada, devido a este afastamento político e social face a Macau. É evidente que a integração de Macau na Grande Baía poderá despertar, pelo menos entre empresários portugueses, algum interesse e um olhar diferenciado para esta pequena Região. Contudo, isso deveria ser acompanhado de um olhar político que entendesse o caminho que Macau traçou relativamente à Lusofonia. Nelson Moura – Macau in “Plataforma”


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Macau - Conselho das Comunidades espera que “novas gerações” “abracem” encontro dos Macaenses

José Luís de Sales Marques, presidente do Conselho das Comunidades Macaenses, disse à Tribuna de Macau que estão previstos 1400 participantes no Encontro dos Macaenses, que se realiza no início de Dezembro. Contudo, garantiu que a organização está a “trabalhar muito” para conseguir ultrapassar esse número. Por outro lado, vincou a importância das novas gerações aderirem ao evento, numa perspectiva de futuro. Apesar de ter havido alterações na atribuição de subsídio de viagem – agora são 2800 patacas para todas as viagens internacionais, quando anteriormente a distância pesava no cálculo -, Sales Marques acredita que isso não vai afastar os conterrâneos da diáspora


Cinco anos depois de ter sido realizado pela última vez, o Encontro das Comunidades Macaenses regressa este ano. José Luís de Sales Marques, presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Macaenses, disse que a organização espera conseguir receber mais do que os 1400 participantes previstos para esta edição e frisou a importância de a iniciativa ter perspectivas de futuro, apelando às novas gerações de macaenses para que “abracem” o evento.

Agendado para ter início no dia 30 de Novembro e para encerrar a 6 de Dezembro, como já tinha noticiado este jornal, o Encontro já tem delineado um programa preliminar. Juntar a comunidade macaense, celebrar o quarto de século da RAEM e dar a conhecer aos macaenses da diáspora o desenvolvimento de Macau e da Grande Baía são os “pontos fortes” desta edição. “Projectámos ter um Encontro grande, para celebrar os 25 anos da RAEM. Depois de o último ter sido em 2019 e de tudo o que aconteceu [pandemia], esperamos que seja uma grande festa para a comunidade macaense, mas também para a RAEM”, assinalou Sales Marques, apontando que o Governo de Macau tem sempre apoiado a iniciativa.

“Por outro lado, e como sempre tem sido um dos objectivos, queremos que os nossos conterrâneos, que estão espalhados por tantas partes do mundo, tenham também uma actualização daquilo que é hoje Macau e a Grande Baía. Temos de ter esta visão, em sintonia com aquilo que são os planos, e que aliás foram anunciados muito recentemente, relacionados com a diversificação da economia de Macau, e também de integração e construção desta realidade regional que é a Grande Baía”, prosseguiu.

Segundo disse, o Conselho das Comunidades Macaenses delimitou o prazo de inscrições até final de Fevereiro para poder ter uma noção do número aproximado de participantes. Sales Marques ressalvou, no entanto, que isso não significa que as pessoas não se possam vir a inscrever depois. “Esse número que vamos obter será indicativo. Espero, e vamos trabalhar muito, para que esse número seja apenas o princípio. Gostaríamos efectivamente de esgotar a capacidade prevista para este Encontro, que é de 1400 pessoas”, sublinhou. Esperam-se 1000 pessoas da diáspora e outras 400 de Macau.

Este ano, houve uma alteração nos moldes como o financiamento é feito, havendo três categorias para atribuição do subsídio dos custos de viagem: internacionais, regionais e de Hong Kong. Para as viagens internacionais, serão atribuídas 2800 patacas, um subsídio igual para todos, independentemente do ponto de partida. Anteriormente, esta questão era gerida pela comissão organizadora e o elemento “distância” pesava nas contas. “Há vantagens e inconvenientes. Havendo uma mudança de política na atribuição de subsídios, vamos ter de trabalhar com base nisso”, afirmou.

Questionado sobre se esta alteração não pode demover macaenses da diáspora, principalmente os que vivem mais longe, de participarem no Encontro, Sales Marques disse considerar que este não é um factor “determinante”. “Na realidade, o valor até é superior em relação a algumas Casas comparativamente a 2019”.

“Esperamos que venham pessoas de todas as Casas e que haja um grande esforço da organização local. Nos anos anteriores, houve sempre muita gente vinda dos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Brasil e até de Portugal. Tenho a certeza de que cada Casa, tendo em conta o seu número de sócios, fará o melhor possível para promover e para organizar uma representação muito significativa aqui neste Encontro”, acrescentou.

José Luís de Sales Marques referiu também que haverá colaborações com diversas associações locais, nomeadamente com a Associação de Estudos da Cultura Macaense e a Associação dos Jovens Macaenses. “Este é um Encontro que vejo também com perspectivas de futuro, não só para o presente. E nesse sentido, seria muito importante que fosse abraçado, muito participado, pelas novas gerações de macaenses. Acho que isso é fundamental e faço um grande apelo para que isso aconteça”, sublinhou.

Sobre se haverá alguma novidade para captar a atenção das gerações mais novas, Sales Marques disse que a organização irá trabalhar com as associações para “introduzir elementos” para lá daqueles que são os mais tradicionais. “Temos de ver isso como perspectiva de futuro, como algo que seja capaz, no próprio programa, de atrair a participação de novas gerações”, defendeu.

Do programa constam a já habitual Missa e Te-Deum na Sé Catedral, a sessão de fotografias junto às Ruínas de São Paulo, mas também visitas guiadas por especialistas do Instituto Cultural a locais de interesse histórico e um concurso de cozinha macaense. “Também haverá uma sessão cultural, promovida pelo Instituto Internacional de Macau. Recebemos uma carta do presidente, Jorge Rangel, a oferecer a sua colaboração, o que obviamente nos alegra muito e vamos abraçar”, acrescentou Sales Marques. Também haverá uma visita a Hengqin, com o apoio do Gabinete de Ligação do Governo Central, mas não há ainda detalhes sobre o programa.

Esperado apoio de entidades privadas

O montante que a Fundação Macau vai canalizar para este Encontro é superior ao da última edição, que aconteceu em 2019. O Conselho das Comunidades Macaenses contará com mais de 5,3 milhões de patacas para organizar a iniciativa. “Depois também esperamos que, tal como no passado, contar com o apoio de entidades privadas, nomeadamente de alguns resorts integrados. Isso obviamente é fundamental na medida em que estamos a falar de um encontro que diria que é um grande evento”, acrescentou Sales Marques.

O presidente do Conselho não quis adiantar pormenores sobre o eventual apoio das operadoras de jogo, mas disse que estão a trabalhar nesse sentido, “até por uma questão de logística”, isto porque a iniciativa acontece num mês de celebrações dos 25 anos da RAEM, em que haverá grande procura por salas de jantar ou banquetes, e espectáculos.

“Os nossos conterrâneos que têm vindo participar nos Encontros contribuem efectivamente para a economia de Macau, porque precisam de gastar muito nas suas viagens, estadias, e em tudo aquilo que fazem em Macau. De todos os pontos de vista, o Encontro vai ser um evento a assinalar no calendário de Macau para 2024”, prosseguiu Sales Marques, dizendo que há um subsídio para eventos locais, mas que obviamente não dá para cobrir os gastos todos. “Fazem um grande investimento pessoal e familiar para virem ao Encontro”, notou.

No último Encontro, que aconteceu em 2019, participaram 1313 pessoas, incluindo locais e convidados. Entre eles, houve 974 participantes provenientes da diáspora macaense.

Casa de Macau em Portugal abre inscrições até 31 de Janeiro

A Casa de Macau em Portugal anunciou ontem que o prazo para inscrição para o Encontro das Comunidades Macaenses encerra no dia 31 de Janeiro. Os interessados em pertencer à delegação da Casa devem submeter a inscrição por escrito junto dos serviços administrativos, através de email (casademacau@mail.telepac.pt) ou mensagem/WhatsApp (961294676). É ainda dito que serão divulgados mais detalhes sobre o evento junto dos sócios assim que forem facultados pelo Conselho das Comunidades Macaenses. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


terça-feira, 26 de dezembro de 2023

“Macau regressou”. Há 24 anos, nascia a RAEM

Foi há 24 anos que Macau deixou de ser administrada por Portugal para passar para a administração chinesa. Nascia, assim, a RAEM. “Macau regressou”, lia-se na capa da edição especial do Jornal Ou Mun do dia 20 de Dezembro de 1999. O Va Kio destacava “o início de uma nova era para Macau”. O Ponto Final – que nesse dia escrevia na capa simplesmente “Macau, China” – recorda agora o que foi contado pelos jornais neste “momento histórico”


A 20 de Dezembro de 1999, a China passava a administrar Macau enquanto região administrativa especial, depois de mais de 400 anos de administração portuguesa. A RAEM comemora hoje 24 anos.

A cronologia das cerimónias oficiais começou no dia 19, às 10 horas da manhã, quando Jorge Sampaio, na altura o Presidente da República de Portugal, recebeu os dignitários estrangeiros no Palácio de Santa Sancha e, pelas 11h30, chegou ao Aeroporto de Macau o Presidente da República Popular da China, Jiang Zemin. À tarde, pelas 16h30, Joaquim Rocha Vieira, último governador de Macau, saía pela última vez do Palácio de Santa Sancha, sua residência oficial, e a bandeira portuguesa era arriada pela última vez, naquela que é, actualmente, a Sede do Governo de Macau.

A festa deslocou-se, então, para o Centro Cultural de Macau e Jorge Sampaio começou a receber os convidados às 17h15. Depois disso, um sarau cultural, lançamento de fogo-de-artifício e um banquete. À meia-noite, no Centro Cultural, a bandeira portuguesa é arriada, a bandeira chinesa é hasteada, com discursos de Jiang Zemin e Jorge Sampaio. À 1h30 da manhã do dia 20 – aquele que era o primeiro dia da RAEM – Jorge Sampaio e Rocha Vieira abandonaram Macau e tomava posse o novo Governo da região, que tinha Edmund Ho com líder.

Já na manhã do dia 20, no Centro de Conferências Landmark, houve mais uma sessão para celebrar a implementação da RAEM, com Jiang Zemin a discursar precisamente às 10h04. Às 10h25, o primeiro Chefe do Executivo de Macau, Edmund Ho, também proferiu um discurso. Ao meio-dia do dia 20, Jiang Zemin deixou Macau e entraram as tropas do Exército de Libertação Popular pela fronteira das Portas do Cerco.

Um “momento histórico” assinalado pelos jornais de língua chinesa

O Ponto Final consultou os arquivos de alguns jornais locais para recordar aquilo que foi escrito por altura da transferência de soberania de Macau. O Jornal Ou Mun, na edição do dia 19 de Dezembro, constatava que a região ia regressar à administração chinesa à meia-noite e escrevia: “A população dá as boas-vindas ao momento histórico”. “A era antiga está a terminar e uma nova era está a chegar”, lia-se neste jornal.

O Ou Mun dava também os detalhes meteorológicos do dia seguinte, dizendo que “o tempo durante o dia de retorno será frio e sem chuva, o que favorecerá o bom andamento da transferência da administração e as diversas actividades comemorativas”.

À meia-noite, o Ou Mun publicou uma edição especial sobre a ocasião especial. “O país regozija-se ao lavar a humilhação centenária. Macau é agora abraçada pela pátria”, era um dos títulos do jornal de língua chinesa. Nesta edição, o jornal descrevia também que “todos os cidadãos passaram a noite a celebrar a criação da RAEM, a implementação do princípio ‘um país, dois sistemas’, ‘Macau governado pelas suas gentes’ e o alto grau de autonomia”.

O Ou Mun foi mais longe: “O regresso de Macau pôs fim à história de ocupação estrangeira do nosso território, significando o termo da história do colonialismo ocidental na Ásia. A luta incessante da nação chinesa para alcançar a independência ao longo do último século foi um sonho que se transformou em realidade”.

Já o jornal Va Kio destacava “o fim do domínio português e o início de uma nova era para Macau” e reforçava que “a China recupera a última parcela de terra ocupada por estrangeiros e Macau regressa à pátria, dando início a uma nova era de ‘um país, dois sistemas’ e ‘Macau governado pelas suas gentes'”. Sobre o momento em que Rocha Vieira, o último governador português, abandonou o Palácio do Governo, o Va Kio reparou que “algumas pessoas no local estavam em lágrimas”.

Um outro jornal em língua chinesa, mas neste caso de Hong Kong, o Apple Daily – entretanto extinto – também esteve presente nas cerimónias da transferência de soberania. O arquivo do jornal mostra um artigo publicado no dia 20 de Dezembro de 99 com o título: “Em 33 minutos, uma nova página da história foi virada, com centenas de milhões de pessoas a testemunharem a transferência de Macau para a China”. O jornal da região vizinha descrevia o momento da transferência de soberania de Macau destacando a “alegria chinesa” e as “lágrimas portuguesas”.

“À meia-noite, quando a bandeira chinesa foi hasteada lentamente ao som do hino nacional chinês, a delegação chinesa aplaudiu com alegria e os convidados oficiais portugueses aplaudiram lentamente, o que demonstrou os diferentes sentimentos entre a China e Portugal nesta cerimónia de transferência de soberania”, descrevia o Apple Daily.

Palavras de Jorge Sampaio e de Jiang Zemin citadas pelos jornais portugueses

“O tempo revelará se caminhamos na direcção certa”, disse Jorge Sampaio, num discurso proferido no dia 18 de Dezembro de 1999, numa sessão de condecorações. A edição do dia 19 de Dezembro do Jornal Tribuna de Macau (JTM) citava o Presidente português: “Macau é uma cidade moderna, preparada para a mudança, feita para as suas gentes e pelas suas gentes – chineses, portugueses e macaenses – unidos pelo seu dever comum”. Após um encontro com Edmund Ho, António Guterres, à data primeiro-ministro português, deixava claro: “O Governo português tem uma política externa e continuará a seguir de perto aquilo que se passará em Macau”.

O JTM noticiava também que em Pequim o acontecimento motivou celebrações. Mesmo com temperaturas na ordem dos 12 graus negativos, milhares de cidadãos chineses reuniram-se na Praça Tiananmen depois das 21 horas do dia 19 para celebrar o regresso de Macau à administração chinesa.

“Macau, China”. Foi a constatação de que Macau passava a ser parte da administração chinesa que o Ponto Final do dia 20 de Dezembro plasmou na capa. Lá dentro, dava-se conta do primeiro discurso de Edmund Ho enquanto Chefe do Executivo, que lembrou que o regresso de Macau à “mãe-pátria” traduzia uma “luta insistente” do povo chinês pela “defesa e soberania do Estado”. Esta edição do Ponto Final dava também nota da emoção na despedida de Rocha Vieira do Palácio de Santa Sancha. O último governador português não conteve as lágrimas ao segurar a bandeira junto ao peito.

No discurso de Jiang Zemin, o Presidente chinês aproveitou para elogiar a fórmula “um país, dois sistemas”, de Deng Xiaoping, e que começava então a funcionar em Macau. Zemin disse ainda que Taiwan seria o próximo passo para “a reunificação completa da China”. No discurso, no Centro Cultural, o Presidente concluiu que, depois do dia 20, Macau iria ter “um futuro mais brilhante”.

“Portugal, partindo, fica”, foram as palavras de Jorge Sampaio após a sessão cultural do dia 19. “Que fique claro, todavia, que se a administração portuguesa cessa, Portugal não parte. Fica apenas de modo diverso, para acompanhar Macau no seu percurso sob novos poderes de uma nova soberania”. André Vinagre e Catarina Chan – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Macau - RAEM regista saída de portugueses em “número elevado”

Numa altura em que já passaram dois anos desde o início da pandemia e em que as regras impostas pelas autoridades só tendem a agravar – pelo menos para quem tem família do outro lado do mundo -, muitos são os portugueses que estão a fazer as malas ou que já regressaram ao país. Não há dados precisos, mas a presidente da Casa de Portugal dá conta de um número “elevado” de portugueses a sair do território, fenómeno que a deixa “triste e preocupada”. O Jornal Tribuna de Macau conversou com Catarina Guerra Gonçalves, Ana Ferreira e Catarina Cabeçadas, que já saíram do território, e com Micaela Carvalho, que segue hoje para Portugal

Não há números concretos, mas é certo que muitos têm sido os portugueses a abandonar o território ou que vão fazê-lo nos próximos tempos. Com uma “carreira consolidada” em Macau, Catarina Guerra Gonçalves partiu este mês para Portugal, por razões familiares e de saúde – as medidas de prevenção da pandemia adoptadas na RAEM levaram-na a tomar a difícil decisão. Ana Ferreira saiu no Verão do ano passado. O objectivo não era ir definitivamente, mas quando lá chegou e percebeu o que era “estar num mundo real e livre” pôs de parte a ideia de regressar, pelo menos para já. Se tudo correr bem, Micaela Carvalho regressa hoje a Portugal, com o namorado. O facto de não haver um horizonte para a reabertura de fronteiras foi o motivo que a levou a fazer as malas. Já Catarina Cabeçadas e o namorado partiram em Setembro de 2021. No seu caso, a pandemia não foi a principal razão, mas ajudou.

A advogada Catarina Guerra Gonçalves veio para Macau pela primeira vez com os pais, em 1995, tendo frequentado o liceu e a actual Escola Portuguesa entre o 8º e o 12º. Depois seguiu para Portugal, onde estudou Direito, e regressou ao território em 2006. “Sair não foi uma decisão nada fácil […] São muitos anos em Macau – Macau entranha-se. É a cultura, a mistura de gentes, há algo de especial nessa terra”, confessou ao Jornal Tribuna de Macau.

Foram precisamente as medidas contra a pandemia adoptadas pelas autoridades que “precipitaram a decisão” de Catarina Guerra Gonçalves. “Tive de deixar Macau por razões familiares, mas sobretudo de saúde. Há tratamentos não disponíveis em Macau e fazer o tratamento em Portugal e regressar exigiria vários meses de ausência”, explicou a também ex-vogal da Mesa da Assembleia da Associação dos Advogados e ex-membro da Subcomissão de Estágio. Se não fossem as exigências actualmente impostas, a advogada teria ido fazer os tratamentos a Portugal e regressado depois a Macau. “A longa duração e condições da quarentena inviabilizaram isso”. Por outro lado, acrescentou, “estar dois anos ‘presa’ num território tão pequeno, sem poder viajar, afecta muito a parte psicológica de cada um”.

Ana Ferreira chegou ao território em 2019, através de um estágio do Inov Contact, na área da arquitectura. Depois de o concluir, acabou por arranjar trabalho na área, tendo por cá ficado dois anos. A decisão de partir “não foi fácil”, afinal, já tinha amigos que eram família e independência financeira, mas a distância falou mais alto. “Saí porque já estava há dois anos aí presa. No ano passado, pedi residência porque sem isso tinha a certeza de que não poderia voltar a Macau. O meu pedido foi aceite e decidi vir [a Portugal] porque já não via os meus pais há imenso tempo e a minha família, em geral, além de que tinha aqui um projecto que me obrigava a vir cá”, explicou.

A decisão de voltar a Portugal não era definitiva, mas quando chegou ao país acabou por mudar de ideias. “Só depois de estar cá e perceber a diferença do que é estar num mundo real e livre é que não me imagino a voltar tão cedo para Macau, pelo menos com as condições que há”, acrescentou Ana Ferreira.

A trabalhar na área do turismo, Micaela Carvalho diz já não ser possível continuar em Macau. “Trabalho na área do turismo e como não há perspectivas de abrirem as fronteiras, eu e o meu namorado decidimos que era melhor sair de Macau”, começou por contar Micaela Carvalho. A acrescentar a isso, há já dois anos que não vai a casa. “Estas restrições não se conjugam com o nosso trabalho, porque não conseguimos tirar dias de férias para ir a Portugal e depois fazer 21 dias de quarentena e mais sete em casa. Felizmente, conseguimos ir à China duas vezes e já deu para espairecer um bocadinho”, prosseguiu.

Há já seis anos em Macau, Micaela Carvalho disse que não foi uma decisão fácil de tomar, mas a verdade é que tanto para ela como para o namorado “já não dava mais”. Ainda assim, a saída do território tem enfrentado obstáculos – o casal já viu dois voos serem cancelados. “Tem sido difícil porque temos um gato e temos mesmo de ir por Hong Kong, por Macau não conseguimos. Em Hong Kong como tem havido alguns casos, algumas companhias estão a cancelar voos. Primeiro tínhamos um voo da Swiss Air, depois da Lufthansa, ambos foram cancelados. A data para saída que temos agora é 21 de Janeiro, pela Qatar Airways”, adiantou.

Catarina Cabeçadas também saiu da RAEM ao fim de quase seis anos – no seu caso, a pandemia não foi a principal razão por que saiu, mas ajudou. “Eu e o meu namorado já tínhamos o plano de voltar para a Europa antes da pandemia […] devido às condições de trabalho: férias, licenças, horários e oportunidades”, apontou. Trabalhando na indústria farmacêutica, sentia que “não tinha muitas hipóteses”, e por outro lado queria estar mais próxima da família.

“Claro que isto antes da pandemia tinha um peso e durante a pandemia ganhou um peso ainda maior. Acabámos por adiar durante uns meses esse plano, mas no final de 2020 voltámos a tentar, a mandar currículos, e a meio de 2021 consegui um trabalho. Neste momento estou na Suíça”, contou.

Catarina Cabeçadas chegou a Macau em Fevereiro de 2016 para integrar a equipa da Hovione. “Como é óbvio não foi uma decisão fácil. Tanto eu como ele gostamos muito de Macau e foram quase seis anos a viver aí – e para ele foram mais -, e eu gostava muito da vida que tinha em Macau, mas a nível profissional sentia que estava a ficar um bocadinho para trás. E claro que a pandemia deu uma forçazinha”, apontou.

Catarina Guerra Gonçalves, Ana Ferreira, Micaela Carvalho e Catarina Cabeçadas são apenas quatro exemplos dos muitos portugueses que estão a abandonar a RAEM ou já o fizeram. Este jornal contactou o Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong para perceber de que dados dispõe em relação a esta matéria. Segundo revelou, entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro, emitiu um total de 50 certificados de bagagem e dois certificados de cancelamento de residência.

No entanto, ressalvou que “o número de certificados de bagagem emitidos não é significado do número total de pessoas a regressar, dado que um certificado pode servir para o regresso de uma pessoa, assim como pode servir para uma família de várias pessoas”. Por outro lado, recebeu um total de 21 pedidos de certificado ao “Programa Regressar”.

Já os dados fornecidos pelo Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) revelam que, desde Janeiro e até 28 de Dezembro de 2021, a corporação recebeu seis pedidos de cancelamento de autorização de residência efectuados por portugueses. Em 2019 tinham sido três os pedidos e em 2020 contaram-se apenas dois.

Pressão psicológica “muito grande”

A presidente da Casa de Portugal, Amélia António, mostrou-se preocupada com o facto de muitos portugueses estarem a sair de Macau. “Sei que há um número, de facto elevado, de pessoas a sair, umas que já saíram, outras que eventualmente sairão no fim do ano lectivo. Penso que sobretudo há uma pressão psicológica muito grande, há muita gente que está stressada, enervada, deprimida”, apontou em declarações à Tribuna de Macau.

As razões são variadas e diferem de pessoa para pessoa. Amélia António enumerou-as: muitos têm família fora que estão habituados a acompanhar de forma mais próxima, algo que não conseguem fazer neste momento; outros têm família em Portugal com pessoas de muita idade e têm receio do que possa acontecer; há quem já tenha tido pessoas doentes e queira estar com elas enquanto lhes podem ser úteis e dar alguma assistência; outros têm filhos que estão a chegar ao fim do ensino secundário e vão optar pela entrada numa universidade no exterior, pelo que não querem ficar afastados deles; outros sentem-se “muito deprimidos” pelo facto de não verem horizonte de quando podem ter liberdade de movimento.

“Acho que fundamentalmente as razões estão ligadas à pandemia”, disse Amélia António, acrescentando que, por exemplo, no sector da comunicação social também houve algumas pessoas a sair, mas que “não constituem a maioria dos portugueses que têm saído”.

“É evidente que as regras que a pandemia ditou têm estado a dar cabo do estado de espírito e da saúde mental de muitas pessoas. As pessoas sentem uma grande limitação. Esta limitação é sentida de forma muito intensa porque se aguentaram bem, mas, entretanto, passaram dois anos e houve até agravamento de algumas medidas. Portanto, isto começa a ter, de facto, um efeito muito grande sobre as decisões e cabeça das pessoas”, sublinhou.

Amélia António disse olhar para este cenário “com muita preocupação em muitos aspectos”. Sublinhando que há pessoas que estão a sair que são qualificadas, defendeu que o fenómeno constitui uma “diminuição” para a RAEM. “Macau perde uma pessoa que lhe dava um contributo importante, a comunidade perde também alguém que tinha peso como membro da comunidade portuguesa, e, portanto, são perdas de todas as formas. Cada vez que vejo sair alguém nestas circunstâncias, fico preocupada e triste até porque, com a situação actual, à medida que essas pessoas saem, não podem ser substituídas. É sempre Macau que fica mais pobre”, prosseguiu.

Questionada sobre se acredita que após a pandemia estes quadros qualificados poderão vir a ser substituídos, Amélia António mostrou-se optimista, apontando que haverá sectores que “eventualmente renascerão” se as coisas voltarem à normalidade. “Acredito que há condições para se continuar a ter uma presença muito positiva e fortalecer a comunidade assim que as condições o permitam”, considerou.

Já sobre a eventual perda da presença da cultura portuguesa no território, a também advogada disse que é “um risco grande”, mas defendeu que tudo está nas mãos dos portugueses que ficam.

Envio de carga com “aumento significativo”

O aumento dos pedidos de envio de carga por via marítima por parte de portugueses para o país de origem é também sinal de que a comunidade está a encolher. Paulo Moreira trabalha na “World Freight Logistics” há quatro anos – mas não é “novo” no território. Já tinha estado em Macau nos anos 90 a trabalhar no mesmo ramo e na mesma empresa.

“Posso dizer que desde que cá estou há quatro anos, 2020 e 2021 foram os anos com mais movimento a nível de envio de bens pessoais”, apontou. Paulo Moreira sublinhou que o “aumento significativo” aconteceu não só para Portugal, como também para outros destinos.

“Claro está que todos estes movimentos não têm nada que ver com os movimentos da década de 90, com a passagem de soberania. Não há sequer termos comparativos. Mas obviamente no ano passado houve um aumento significativo”, sublinhou.

Segundo os dados disponibilizados a este jornal, em 2021 houve 31 envios de bens por transporte marítimo na “World Freight Logistics”, num total de 600 metros cúbicos. No ano anterior, cidadãos portugueses fizeram 21 envios, envolvendo um total de 394 metros cúbicos.

Neste caso, um envio “oficial” de um contentor não quer dizer obrigatoriamente que envolva um agregado familiar. “É comum um jogo de documentos conter na realidade os bens de mais do que um agregado familiar. Tal acontece, quando possível, por uma questão de optimização dos custos de transporte. Assim, por exemplo, os 31 documentos de embarque para Portugal representarão talvez mais de 50 agregados familiares a enviar bens para esse destino”, explicou Paulo Moreira à Tribuna de Macau.

Quanto ao período do Natal, em 2020 houve apenas um envio (28 metros cúbicos), enquanto em 2021 foram nove (num total de 200 metros cúbicos).

Se olharmos para 2019, foram feitos 30 envios (690 metros cúbicos) – um número não muito diferente do de 2021. “Uma das possíveis explicações que encontro para isso é que, de 2019 para 2021, os valores de transporte tiveram aumentos superiores a 125%. Acredito que houve muita gente que simplesmente desistiu de enviar bens ou tentou outras hipóteses – por exemplo, reduzir os bens ao máximo e enviar por encomenda postal”, apontou Paulo Moreira.

Neste momento, os valores tendem a não aumentar, mas ainda estão muito acima dos níveis pré-pandémicos. Paulo Moreira apontou que o que se espera do mercado é que a partir de agora – se não houver mais nenhuma crise – comecem a “descer consideravelmente”, na ordem dos 30%, 40% ou 50%.

Paulo Moreira deu ainda conta de que os tempos mudaram e actualmente as pessoas enviam muito menos mobília, além de que os mais jovens são mais “desapegados” e por isso a quantidade de bens que seguem daqui é inferior. “Antigamente, qualquer agregado familiar que se fosse embora de Macau e tivesse cá estado quatro ou cinco anos tinha de levar quase o recheio completo de uma casa, hoje não é necessário porque a maioria das casas estão mobiladas. O volume é sem dúvida muito menor”, explicou.

Neste sentido, houve inclusive quem tenha abandonado Macau sem efectuar qualquer envio de bens por via marítima. É o caso de Ana Ferreira, que se desfez da maior parte das coisas que tinha ou deixou-as com amigos.

Apesar de a “World Freight Logistics” ser o transitário em Macau com mais anos a servir especificamente a comunidade portuguesa, Paulo Moreira ressalva que há outras companhias no ramo e que não tem noção de que percentagem do mercado português serve.

Os tempos normais de trânsito rondam os 50 dias – no Verão, alongaram-se para entre 110 a 120 dias. Porém, nesta altura já estão “mais normalizados”. Do outro lado do mundo, no entanto, Catarina Cabeçadas continua ainda à espera dos bens que deveriam ter saído de Hong Kong em Novembro do ano passado. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Macau – Região Administrativa garante apoio continuado aos trabalhos do Fórum de Macau

Tendo iniciado funções recentemente, o secretário-geral do Secretariado do Fórum de Macau visitou o Secretário para a Economia e Finanças e o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China na RAEM. Ambos garantiram continuar a apoiar os trabalhos do Fórum de Macau


O novo secretário-geral do Secretariado do Fórum de Macau, Ji Xianzheng, visitou o Secretário para a Economia e Finanças. Lei Wai Nong manifestou “toda a disponibilidade do Governo da RAEM em prosseguir com o total e reiterado apoio aos trabalhos do Secretariado Permanente”, para que se obtenha “o máximo aproveitamento” da plataforma do Fórum de Macau, em articulação com a construção da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, no sentido de continuar a construir a Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e promover conjuntamente a diversificação adequada da economia.

Já Ji Xianzheng agradeceu o apoio prestado ao Fórum Macau desde a sua criação, “apreciando os esforços contínuos de todas as partes envolvidas”. Reconheceu igualmente as “vantagens únicas” de Macau enquanto plataforma de cooperação e intercâmbio entre a China e os Países de Língua Portuguesa, como também os “progressos positivos” alcançados no desenvolvimento do Fórum de Macau.

Por outro lado, disse que deve auscultar amplamente as sugestões de todas as partes, “aproveitando ao máximo o entusiasmo das mesmas, no sentido de superar o impacto adverso da epidemia”, assegurando-se um funcionamento mais estável e proactivo.

Ji Xianzheng efectuou também uma visita ao Comissário do Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China na RAEM. O comissário, Liu Xianfa, enalteceu o papel que o Fórum de Macau tem desempenhado nas vertentes da promoção da cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e da construção da plataforma sino-lusófona de Macau, assim como pelos resultados entretanto concretizados.

Além disso, manifestou ainda a disponibilidade do Comissariado para apoiar os trabalhos do Secretariado, na procura de impulsionar a cooperação e o desenvolvimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Ji Xianzheng, por sua vez, agradeceu pelo apoio prestado pelo Comissariado ao longo dos anos. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


segunda-feira, 15 de março de 2021

Lusofonia - Estudo avalia resposta dada à pandemia de covid-19 no espaço lusófono

Um inquérito aplicado a mais de uma centena de entidades – de profissionais de saúde a académicos e organizações não-governamentais – mostra que a falta de recursos e a comunicação pouco clara dirigida aos cidadãos dificultaram a resposta à pandemia de Covid-19 no espaço lusófono.

Este inquérito foi realizado no âmbito de um estudo liderado por André Dias Pereira, investigador do Instituto Jurídico e professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), e financiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Intitulado “Responsibility for Public Health in the Lusophone world: doing justice in and beyond the COVID emergency”, o estudo centrou-se na recolha e análise de dados relativos à preparação e resposta à pandemia de Covid-19 em Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e Região Administrativa Especial de Macau, com o objetivo de «propor soluções de políticas de saúde pública, permitindo a construção de sistemas de resposta eticamente adequados às dificuldades apresentadas em situações de pandemia», explica André Dias Pereira.

Este projeto, realça, «combina uma análise profunda à mais recente legislação e bibliografia sobre o assunto, com dados obtidos por meio de um questionário, endereçado a um número significativo de participantes, por forma a reunir diferentes experiências e analisar as dificuldades éticas identificadas na resposta à pandemia, que são problemas que vão perseguir e condicionar as opções políticas dos próximos anos e cujas repercussões ainda estão por avaliar; sem deixar de mencionar o catastrófico impacto económico da pandemia, transversal a todos os Estados».

Os inquiridos no âmbito do estudo defendem ainda «que o investimento na prevenção, além de ser muito eficaz na mitigação da pandemia, é também um dos vetores em que deverá haver mais concentração de alocação de recursos».

Deste projeto resultará um livro branco, dirigido às comunidades lusófonas e agências dos governos dos países e região administrativa especial envolvidos, onde são apresentadas propostas e recomendações que possam ser implementadas na prática para potenciar os sistemas de saúde, preparando-os para dar resposta a situações de emergência de saúde pública.

Todos os resultados obtidos pela equipa de André Dias Pereira, que integra académicos, juristas e advogados, bem como especialistas em Bioética, vão ser apresentados na conferência final do projeto, que tem lugar no próximo dia 25 de março, das 9h às 17h30, em formato online.

Nesta conferência, que reúne participantes de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Macau, vão também ser analisados os impactos da pandemia de Covid-19 no mundo lusófono, como, por exemplo, o problema dos doentes não-Covid, em especial os doentes oncológicos; a experiência de Macau contra a Covid-19; a atuação do Congresso Nacional brasileiro frente à pandemia; e a influência da Covid-19 no funcionamento das instituições universitárias de Angola.

O programa detalhado da conferência está disponível aqui e mais informação sobre o projeto em: http://direitodasaudepublicanomundolusofono.net/. Universidade de Coimbra - Portugal

 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Macau - Chefe do Executivo elogia imprensa de línguas portuguesa e inglesa e agradece apoio durante a pandemia

 


O Chefe do Executivo reuniu-se ontem com representantes dos órgãos de comunicação social de línguas portuguesa e inglesa, num almoço de intercâmbio de ideias. No discurso, Ho Iat Seng deixou elogios à imprensa portuguesa e inglesa.

No discurso aos representantes da imprensa de língua portuguesa e inglesa, Ho Iat Seng começou por lembrar que 2020 foi “um ano atípico” e que a pandemia “trouxe um grande desafio à humanidade e colocou também à prova a capacidade de resposta e de adaptação do Governo da RAEM”. O líder do Governo de Macau aproveitou para agradecer o “apoio e orientação” do Governo Central e à “união e empenho de toda a população”.

Durante o período de pandemia, “a comunicação social de línguas portuguesa e inglesa, ao reflectir atempadamente as opiniões e voz do público, providenciou muitas sugestões honestas, apoiando também o Governo da RAEM a melhor servir a população durante a epidemia e a dar resposta às reivindicações da sociedade”, sublinhou o Chefe do Executivo, endereçando os seus agradecimentos à imprensa.

Ho Iat Seng lembrou que Macau é “uma cidade internacional” e “dotada de uma história singular”. Por isso, a comunicação social de línguas portuguesa e inglesa desempenha “funções muito importantes”, usando a língua e cultura “como ponte para ligar as diversas comunidades, incrementar o entendimento entre Macau e o resto do mundo, e promover a harmonia e integração social, enquanto testemunha e contribui de forma importante para a coexistência e diversificação cultural de Macau”.

O Chefe do Executivo indicou também que há muitas pessoas no estrangeiro que ficam a par das notícias da região através da imprensa de línguas portuguesa e inglesa. “Durante a situação epidémica, que dura há mais de um ano, também tem sido evidente o papel essencial da comunicação social de línguas portuguesa e inglesa no apoio aos residentes de Macau no exterior e aos falantes de línguas estrangeiras para manterem a comunicação com o Governo da RAEM e compreenderem as políticas e medidas governamentais”, frisou Ho Iat Seng.

Assim, Ho Iat Seng disse esperar que, este ano, o sector mantenha o “espírito profissional” e transmita “as opiniões dos sectores sociais e dos residentes de forma objectiva”, apoiando e fiscalizando a acção governativa. Por outro lado, o Chefe do Executivo disse esperar que os órgãos de comunicação social em português e inglês possam contribuir para o intercâmbio e cooperação internacionais, desempenhando um papel singular”.

“O Governo da RAEM continuará, conforme o estipulado na Lei Básica e demais legislações, a reforçar a comunicação e a interacção positiva com os órgãos de comunicação social, a apoiá-los na cobertura noticiosa e no acesso à informação, no sentido de dar garantias aos profissionais do sector para que exerçam as suas atribuições e desempenhem as suas funções da melhor forma”, disse o líder do Governo no discurso de ontem.

Por fim, Ho Iat Seng afirmou que este é um ano em que o Governo quer consolidar as bases e avançar nas adversidades. O Chefe do Executivo destacou também os esforços para implementar o princípio ‘Um País, Dois Sistemas’, “Macau governado pelas suas gentes” e “alto grau de autonomia”, assim como continuar a fazer a prevenção da epidemia. Além disso, Ho Iat Seng quer que Macau aproveite as oportunidades de desenvolvimento com o 14.º Plano Quinquenal do país, a construção da Grande Baía, a iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ e a estratégia económica lançada por Pequim de “dupla circulação”.

“É desejo sincero do Governo da RAEM cooperar com a comunicação social de línguas portuguesa e inglesa, cada um na sua posição de trabalho mas com esforços concertados, em prol do desenvolvimento diversificado de Macau, da harmonia e estabilidade da RAEM e do sucesso da implementação do princípio ‘Um País, Dois Sistemas’”, afirmou Ho Iat Seng, concluindo: “A epidemia irá, decerto, passar e a Primavera vai finalmente chegar”. In “Ponto Final” - Macau


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Macau - Lançada versão chinesa de guia para investir nos PALOP e Timor-Leste

Publicação considerada essencial para fazer crescer o investimento chinês no mundo lusófono.

A versão chinesa de um guia para investir nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) e em Timor-Leste foi lançada pelo Legis-PALOP+TL, em parceria com a MacauLink, com o apoio de empresas e instituições de Macau.

Em comunicado, o grupo de ‘media’ MacauLink descreveu o “Guia para Investir nos PALOP – Formas de Investimento Estrangeiro nos PALOP e Timor-Leste” como “uma ferramenta prática” para se aceder a informação sobre seis ordenamentos jurídicos: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

A coordenadora do Legis-PALOP+TL disse que a versão chinesa desta publicação “é (…) essencial para empreendedores, decisores políticos chineses e activos ou potenciais investidores na África de língua portuguesa e em Timor-Leste”.

“Estamos certos de que esta publicação ajudará em investimentos futuros nesses mercados”, acrescentou Teresa Amador, citada na mesma nota.

O Legis-PALOP+TL é a base de dados jurídica oficial que contém legislação, jurisprudência e doutrina de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste

Já o director do MacauLink sublinhou que “a publicação deste guia é uma prova da vitalidade do sector privado em Macau, que está a contribuir significativamente para promover as relações económicas e comerciais entre a China e os países de língua portuguesa, através da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM)”.

“É ainda mais extraordinário que, num contexto difícil em todo o mundo, um grande investidor de Macau em Portugal, uma importante instituição financeira de Macau e um dos centros de pesquisa mais dinâmicos da RAEM se tenham unido para apoiar este lançamento”, precisou Gonçalo César de Sá.

Para o presidente executivo do Banco Nacional Ultramarino (BNU), Carlos Cid Álvares, a publicação será uma “ferramenta importante em termos de redução de riscos e incentivo aos investidores (…) e promoverá activamente os investimentos”.

O presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau, José Sales Marques, salientou que os investidores poderão encontrar na publicação uma “estrutura relevante de investimento estrangeiro, ambiente de trabalho, impostos e outras informações importantes sobre leis e regulamentos úteis que contribuem para o sucesso dos negócios”.

O empresário de Macau e produtor de vinho em Alenquer Wu Zhiwei afirmou que o guia vai facilitar um “melhor entendimento da estrutura de negócios” dos países lusófonos.

Os países lusófonos e a China registaram trocas comerciais de 51,8 mil milhões de dólares nos primeiros cinco meses do ano. O Brasil continua a ser de longe o país lusófono com o maior volume de trocas comerciais com a China, garantindo mais de 80% dos bens transacionados, seguindo-se Angola, Portugal, Moçambique, Timor-Leste, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. In “Ponto Final” - Macau

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Macau - Centro histórico é “testemunha importante” de “essências” de “uma história única”

Quinze anos depois do Centro Histórico ter sido integrado na Lista do Património Mundial da UNESCO, a Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura destaca que essa classificação reveste-se de “um significado peculiar”. Por sua vez, a Comissária do Ministério dos Negócios Estrangeiros considera que “enriquece a essência cultural de Macau” e aumenta a visibilidade do território no palco internacional. Em 2005, o então Chefe do Executivo, Edmund Ho, frisou que o conjunto de bens culturais mundialmente distinguido “constitui um tesouro único e um dos símbolos do intercâmbio entre o mundo ocidental e a civilização oriental”



Assinala-se hoje o 15º aniversário da inscrição do Centro Histórico de Macau na Lista de Património Mundial da UNESCO. Para o Gabinete da Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong, essa classificação resultou da “importância e apoio concedido pelo Governo Central” após a transferência de soberania de Macau, revestindo-se de “um significado peculiar”.

Numa resposta ao Jornal Tribuna de Macau, o Gabinete indica que este marco se reflecte em três aspectos, entre os quais, o “aumento da projecção de Macau a nível internacional e do seu estatuto cultural”. “Foi promovido o intercâmbio cultural e turístico entre a RAEM e todo o mundo e foram injectadas forças motrizes culturais no desenvolvimento social local”.

Paralelamente, houve também um “despertar e o reforço da sensibilização de toda a população para a salvaguarda do património cultural, contribuindo para o fortalecimento da protecção, divulgação e continuação das especificidades únicas de Macau – a integração das culturas chinesa e portuguesa e a coexistência das culturas oriental e ocidental”, pode ler-se.

Por outro lado, sublinha ainda a “inspiração e alerta para manter aberta a mente, com tolerância e vontade de aprender com os outros, e com sentido de missão para contribuir ainda mais para divulgar a cultura chinesa e promover a cooperação e intercâmbio multicultural”.

Ao longo dos últimos 15 anos, refere o Gabinete da titular da pasta da Cultura, “o Governo da RAEM tem cumprido escrupulosamente as directrizes relativas à conservação do património mundial, emitidas pela UNESCO e, contando com a participação de toda a população, tem desenvolvido os trabalhos de conservação do património mundial de Macau, sob a fiscalização e orientação das autoridades do Governo Central”, entre as quais o Ministério da Cultura e Turismo, a Administração Estatal do Património Cultural da República Popular da China e a Comissão Nacional da China para a UNESCO.

Para o futuro, garante que o Executivo “irá continuar a dar a maior importância ao nosso património cultural, e, juntamente com a população de Macau, proteger a nossa Casa com toda a diligência”.

Por sua vez, a Comissária do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, numa mensagem escrita enviada à Tribuna de Macau, referiu que “o sucesso da inscrição trata-se de uma grande causa e alegria, atingido através das estreitas colaborações entre o Governo Central e o Governo da RAEM, sob o enquadramento de ‘Um País, Dois Sistemas’, sendo um exemplo vivido da combinação orgânica entre desempenhar o papel do país, enquanto suporte forte, e aumentar a própria competitividade enquanto Região Administrativa Especial”.

Shen Beili defende ainda que “o Património Mundial abre uma janela importante para um país ou uma região mostrar o seu carisma natural, histórico e cultural único ao exterior”.

“O Centro Histórico de Macau é uma testemunha importante e uma combinação de essências da história única de intercâmbio e aprendizagem mútua entre culturais orientais e ocidentais e da coexistência multicultural que estendeu por mais de quatro séculos”, destacou. Na perspectiva da Comissária, a inscrição na Lista do Património Mundial “enriquece a essência cultural de Macau enquanto Centro Mundial de Turismo e Lazer, aumentando a visibilidade e atractividade de Macau no palco internacional”.

“Hoje em dia, o Património Mundial já se tornou num fundo cultural evidente de Macau e num cartão brilhante que esta cidade apresenta ao mundo”, acrescentou Shen Beili. “No passado, Macau era um centro essencial da Rota Marítima da Seda, uma ponte de ligação importante do intercâmbio cultural entre o Oriente e o Ocidente e assim formou o Património Cultural, cujo carisma único é a fusão multicultural”.

Por sua vez, o Instituto Cultural (IC) começou por referir que o Centro Histórico “engloba o mais antigo legado arquitectónico europeu existente em solo chinês na actualidade”. “Coexistindo com a arquitectura tradicional chinesa de Macau, constitui um testemunho de pluralismo cultural e retrata uma simbiose única de tradições arquitectónicas ocidentais e orientais”. O organismo assegura que, desde a inscrição na lista da UNESCO, “o Governo da RAEM promove, de forma constante, os trabalhos de protecção do seu Património Mundial”.

A título de exemplo, apontou a implementação da Lei de Salvaguarda do Património Cultural, “para que o trabalho de protecção e de gestão tenha um apoio e fundamentos legais”. Com base nela foi criado um mecanismo de vistoria e monitorização “para conhecer o estado de protecção do Património Mundial, proceder a reparações e manutenção de forma ordenada, emitir pareceres sobre protecção do património cultural para manter e controlar a aparência do Centro Histórico da cidade”.

O IC menciona ainda o desenvolvimento do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico “para optimizar a sua protecção e gestão, utilizar os recursos do Património Mundial e integrá-los na vida dos residentes e promover a educação e divulgação alusiva a este património, defendendo a conservação e apreciação do mesmo e impulsionando a participação activa da sociedade na sua protecção”.

Por outro lado, assegura que tem vindo a desenvolver trabalhos de levantamento e classificação de imóveis e património intangível de acordo com a lei, adoptando procedimentos do primeiro e do segundo grupo de classificação de imóveis e das áreas dos estaleiros navais de Lai Chi Vun.

“As construções e edifícios históricos e relíquias culturais protegidas de Macau mantiveram-se, desde há mais de 30 anos, em 128. Actualmente, o número aumentou para 147”, sublinha o IC.

O Jornal Tribuna de Macau tentou ainda obter comentários do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM, contudo, sem sucesso até ao fecho desta edição.

O desfecho feliz de um longo processo

O processo que culminou na classificação do Centro Histórico como Património Mundial da UNESCO foi longo, tendo começado ainda durante a administração portuguesa, e registou alguns sobressaltos mesmo na recta final. A 14 de Julho de 2005, um dia antes da inclusão na Lista ser oficializada, o Jornal Tribuna de Macau noticiou que o Comité do Património Mundial ameaçou retirar da Lista os locais que se encontram em perigo ou em estado de degradação. Só no dia seguinte a 29ª sessão do Comité do Património Mundial aprovou, por unanimidade, a inscrição do Centro Histórico na Lista. Eram 16:10 em Macau.

O então Chefe do Executivo, Edmund Ho, proferiu um discurso no qual disse estar “muito feliz” por poder partilhar “com todo o povo chinês e a população de Macau um momento tão especial que muito nos honra”. “Desde o início dos trabalhos preparatórios, o Governo da RAEM contou sempre, até ao fim, com um forte apoio do Governo Central para a apresentação da lista de bens culturais de Macau como a única candidatura nacional”, começou por referir.

“O momento da inclusão de Macau na lista de património mundial da UNESCO reveste-se de um significado profundo que não nos deve, todavia, envaidecer. O conjunto de bens culturais do território ora distinguido constitui um tesouro único e um dos símbolos do intercâmbio entre o mundo ocidental e a civilização oriental do nosso país”, frisou.

O processo de candidatura “contribuiu também para uma maior sensibilização e consciencialização de toda a população sobre a importância da protecção do Património e o seu sucesso é sinónimo do trabalho e esforços conjuntos de todos os cidadãos de Macau”. Neste sentido, “acreditamos que todos vão preservar e cuidar, cada vez mais, desta terra que é o nosso lar, participando activamente nas campanhas e actividades de protecção do Património”, disse Edmund Ho, assegurando que o Governo continuaria “a defender a preservação e promoção deste tesouro cultural regional e nacional para que mais pessoas possam conhecer o valor histórico e cultural da RAEM”.

Também o então Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura frisou que “a inscrição do Centro Histórico na Lista do Património Mundial é, para nós e para a cultura chinesa, um orgulho e, para os cidadãos de Macau, uma glória”. “Esta honra nada fácil de alcançar é o culminar de um esforço colectivo para o qual todos contribuíram ao longo de vários anos e é fruto de grande apoio do Governo Central, do empenhamento do Governo da RAEM e do entusiasmo e participação activa dos cidadãos de Macau”, sublinhou na altura Chui Sai On.

Além disso, defendeu que a inclusão na lista permitiria aos cidadãos “um aprofundamento da sua compreensão da história e da cultura de Macau e da pátria, um fortalecimento da sua identidade cultural e interiorização de um sentido de pertença, identidade e coesão”.

Património traduz “características únicas”

“É do conhecimento de todos que o património mundial da humanidade traduz os aspectos culturais e as características únicas de um povo, reflectindo fenómenos sociais e singularidades dos povos dos diversos países e regiões, num determinado período histórico. A classificação como património mundial encerra o reconhecimento do valor universal excepcional de um bem, do seu estatuto histórico e do seu valor cultural para o processo de evolução da humanidade”, destacou Chui Sai On.

“É nosso compromisso a protecção e a preservação dos bens hoje Património Mundial, através da criação de mecanismos de gestão e coordenação e de uma planificação científica da sua revitalização e reutilização”, enfatizou. Apontou também como propósito do Governo “o reforço das competências e sensibilização dos cidadãos para a participação e consciência colectiva da necessidade de preservação do Património Mundial através da cooperação e apoio mútuo com a sociedade civil, indivíduos e associações, congregando, assim, esforços para concretização desta missão”.

Também em 2005, o Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong aplaudiu a classificação do Centro Histórico. “É um sentimento de satisfação por constatar que a singularidade e características únicas que estão visíveis em Macau contribuíram para que a decisão positiva por parte da UNESCO fosse tomada”, destacou Pedro Moitinho de Almeida.

Para o diplomata, a aprovação da candidatura constituiu o reconhecimento, pela comunidade internacional, do “intercâmbio e da convivência pacífica entre os povos português e chinês em Macau ao longo de cerca de 450 anos”. Inês Almeida – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

Na lista da Unesco:

Largo do Lilau
Largo da Barra
Largo de Santo Agostinho
Largo do Senado
Largo da Sé
Largo de São Domingos
Largo da Companhia de Jesus
Largo de Camões
Templo de Á-Má
Quartel dos Mouros
Casa do Mandarim
Igreja de São Lourenço
Igreja e Seminário de São José
Teatro Dom Pedro V
Biblioteca Sir Robert Ho Tung
Igreja de Santo Agostinho
Edifício do Leal Senado (IAM)
Templo de Sam Kai Vui Kun
Santa Casa da Misericórdia
Igreja da Sé
Casa de Lou Kau
Igreja de São Domingos
Ruínas de São Paulo
Templo de Na Tcha
Troço das Antigas Muralhas de Defesa
Fortaleza do Monte
Igreja de Santo António
Casa Garden
Cemitério Protestante
Fortaleza da Guia (incluindo a Capela e o Farol)