Nos ensaios de “A Voz dos Sinos”, Hugo Almeida enaltece e traz à ribalta a voz do escritor Osman Lins, autor de “Avalovara” e “Nove, novena”
Osman Lins (Vitória do Santo Antão, Pernambuco, 1924-São Paulo, 1978) foi um dos mais notáveis, se não, o mais notável dos escritores de nosso pós-modernismo literário. Isto se deveu pela criatividade investida em seus contos, romances, ensaios e por seu espírito combativo, que o fez enfrentar com toda a coragem as mazelas de nossa miséria intelectual com o poder de sua pena e mesmo de sua voz, ainda mais quando teve a oportunidade de praticar o ensino, numa breve passagem pelo magistério superior na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, em São Paulo, onde lecionou Literatura Brasileira.
Morto prematuramente aos 54 anos, mesmo assim, deixou-nos um sólido conjunto de obras-primas como O Fiel e a Pedra, Avalovara (romances) e Nove, Novena (contos), entre outras, em que procede a uma renovação sistemática da prosa brasileira. E o mais extraordinário nisso tudo é que soube, como nenhum escritor antes e depois dele, unir as pontas de nossa ficção mais tradicional – de modo específico, em O Fiel e a Pedra – com o que havia de mais revolucionário no plano romanesco – em Avalovara e Nove, Novena. Em ambos os casos, de um lado, soube como evitar as armadilhas de um regionalismo esgotado e entendido ao pé da letra e, de outro, os modismos vazios e inconsequentes do nouveau roman.
Osman Lins sempre levou muito a sério a questão do dever no comportamento do escritor, que, de seu ponto de vista, deveria ter um papel fundamental como ativista cultural, não só assumindo um espírito revolucionário, ao promover mudanças radicais na forma romanesca, mas também e, sobretudo, por fazer sua voz soar como a dos sinos, para despertar as consciências do letargo.
E, em sendo assim, nada de mais louvável que, nos seus 100 anos de nascimento, críticos literários, por meio de simpósios e livros, se proponham a estudar Osman, de modo a fazer que seu sino-voz continue a se fazer ouvir com toda intensidade.

Entre essas atividades ou obras, gostaria de chamar a atenção, aqui, nos limites desta resenha, para o livro de Hugo Almeida – recém-lançado pela editora Sinete (São Paulo, 2024) – A Voz do Sinos, toda ela dedicada ao genial escritor pernambucano.
A Voz dos Sinos – o sagrado, a mulher e o amor (200 p.) conta com doze ensaios, além da Apresentação “Elos sagrados, laços femininos e amorosos”, contemplando toda a obra de Osman Lins, excetuando o teatro e os livros de ensaios, e tem como núcleo da análise a compreensão dos temas viscerais do autor.
Para levar a cabo tão ambiciosa tarefa, Hugo utiliza como metáfora recorrente – elo de ligação, a seu ver, entre as obras do autor e os ensaios críticos sobre o escritor – a do sino, um instrumento musical que, como se sabe, é e não é ligado ao sagrado. Quando não o é, esse instrumento de percussão é utilizado para dar sinais de alerta, conclamar a coletividade para alguma notícia (principalmente nas pequenas e mais antigas comunidades), servir como relógio e, quando o é, presta-se a anunciar festejos religiosos, chamar para a missa e demais atos religiosos, para marcar horas santas e, sobretudo, para dar o triste rebate para os finados.
Essa metáfora está presente não só no título do livro de Hugo, como também é perseguida ao longo da maioria dos ensaios. Isso porque nos remete para uma voz que – como um sino – procura se alçar acima dos homens, como espécie de nume sagrado e protetor, mas não só isso, pois, acima de tudo, terá como função acordar as consciências para tentar fazer que elas superem a força da tirania pelo amor pleno, tanto no plano do erótico, como no do sagrado.
E o curioso é que, como aponta o ensaísta, essa voz-sino, que se alteia com toda coragem e determinação, provocou, e muito, alguns luminares de nosso acanhado, medíocre, meio cultural, escandalizados que foram pela criatividade “insolente” de Osman. Afinal, o escritor pernambucano implodiu o convencionalismo, tanto do romance, quanto do conto, por meio de ousadias, entre elas, a de incorporar signos gráficos aos signos verbais (como em Nove, Novena), a de transformar os enredos em verdadeiros puzzles e a de subverter as dimensões de espaço e tempo (como em Avalovara e A Rainha dos Cárceres da Grécia). Contudo, como se pode observar, na ficção de Osman, tais experimentos não visavam tão-só a épater le bourgeois, como aconteceu com certa ficção novidadeira frequente até demais em nossas letras. Pelo contrário, todos os recursos estilísticos, utilizados com rara competência, visavam a fazer um hábil constructo, cuja finalidade era albergar epifanias, que eclodiam em momentos especiais, necessitando, pois, de revoluções tanto na forma, quanto na estrutura romanesca.
Assim, o caráter revolucionário do romance de Osman Lins, que Hugo Almeida ilustra à saciedade em seus ensaios, seria o produto da voz-sino, utilizada para despertar as consciências, fazer que elas igualmente pudessem participar dessa comunidade de iluminados. Isso não impediu, muito pelo contrário, que o escritor fosse vítima de críticas maldosas, entre elas, a de Wilson Martins, como Hugo demonstrou no ensaio “Infinito, eternidade e amor em Avalovara”, a que Osman deu resposta, com a ironia que lhe era peculiar. Mas o tempo, senhor da razão, acabou por esconder ou esquecer a mediocridade dos críticos e fazer que seus romances e contos inovadores se tornassem clássicos de nossa literatura.

O que também chama a atenção nesse conjunto de ensaios de Hugo Almeida, uma mais que justa homenagem ao autor de Avalovara, é a forma pela qual se fez a abordagem, em ordem cronológica, dos romances, livros de contos, experimentos ficcionais. A começar que o autor recusa o academicismo estéril, ao assumir um diálogo profícuo com as obras do autor contempladas no livro e, acima de tudo, com o grande número de críticos e ensaístas que consagraram seu tempo a examinar a ficção de Osman Lins. Assim, cada ensaio conjumina vozes que se alternam, para compor uma tessitura de análises, valorações, de modo a se evitar, por meio do enriquecedor pluralismo, a predominância da voz e opinião únicas, que teriam o condão de apontar apenas para um ponto de vista, em detrimento dos muitos que se intercalam nas páginas iluminadoras deste livro.
Com base nisso, pode-se dizer que, de certa forma, Hugo mimetiza, com esta sua generosa e peculiar abordagem da obra de Osman, o pluralismo narrativo do autor de Avalovara ou de Nove, Novena, deixando assim sua voz em segundo plano, para enaltecer e trazer à ribalta a voz do escritor que gerou sua fala. Parafraseando Vieira, Hugo Almeida seria um pregador exemplar pois, recusando os penduricalhos formais, que chamariam a atenção para si, para o seu brilho enquanto crítico, em detrimento da obra a ser analisada, humildemente escolhe como veículo de comunicação uma prosa límpida, direta, para fazer brilhar, acima de tudo, a aura de nosso escritor maior. Álvaro Gomes - Brasil
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A Voz dos Sinos, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 200 páginas, R$ 60,00, 2024. Site: https://www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com
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Álvaro Cardoso Gomes, Professor Titular da Universidade de São Paulo (USP), autor de romances: Os Rios Inumeráveis, Concerto Amazônico, Panarquia e de ensaios: O Simbolismo: uma revolução poética, A Poesia como Pintura.
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