Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 5 de abril de 2024

1964 - Lídia Maria de Melo, crescendo sob a ditadura

A santista Lídia Maria de Melo, 66 anos, é professora, jornalista, advogada e escritora; tinha seis anos quando a Polícia Marítima entrou no Sindicato dos Operários Portuários nas Docas de Santos, onde seu pai era um dos diretores, cresceu, ficou adolescente, estudou e se diplomou durante os 21 anos da ditadura militar. Mas uma coisa sempre faz questão de frisar, seja nas entrevistas ou nas palestras sobre essa longa experiência: uma criança de seis anos entende o que seus pais vivem e sofrem, como foi o caso do seu pai com prisão, separação da família, perda de trabalho e vigilância policial.

Ela se lembra das visitas que fazia ao seu pai no navio-prisão Raul Soares, ancorado no estuário do porto de Santos, de sua mãe com sua irmãzinha-bebê no colo, ela e sua irmã subindo pela escada junto ao casco do navio, e do medo que tinha de cair. Por isso, escreveu um livro no qual conta, na primeira parte, sua experiência nos primeiros anos difíceis, da adaptação da mãe e suas duas irmãs à nova realidade. De repente, sua mãe foi obrigada a assumir a educação das filhas, a manutenção da família e, ao mesmo tempo, cuidar da filha recém-nascida. Quando o pai foi libertado, não conseguia emprego e vivia sob vigilância, tinha de exercer atividades independentes mal remuneradas.

O livro teve o título de Raul Soares, um Navio Tatuado em Nós. A idéia desse título lhe veio ao pensar naqueles meses em que escalavam o casco do navio numa escada de corda para ver o pai, Os judeus vítimas do holocausto, presos nos campos de concentração pelos nazistas, tinham no braço seu número de identificação tatuado. As imagens daquele navio, daquela escada de corda balançando, o medo de caírem, o pai preso lá em cima, sem poder sair, ficaram gravadas como que tatuadas nas suas lembranças, nos seus cérebros, nas suas vidas.

Na primeira parte do livro, são registros da memória do que foi acontecendo na vida da família desde o 31 de Março de 1964 e, ao mesmo tempo do contexto nacional, o que ia acontecendo no Brasil e mesmo sua vida na escola e depois na Faculdade. Inclui também quatro poemas relacionados com diversas situações. "Quando acabou a ditadura em 1985, eu estava terminando minha segunda Faculdade, a de Jornalismo, depois de ter terminado a de Letras. Já era professora primária e dava aulas na rede estadual de ensino. Meu mestrado, na USP, em comunicação e artes, foi sobre a influência dos jornais no processo de surgimento de novas palavras na língua portuguesa".

A segunda parte do livro consta de depoimentos de seu pai sobre vida sindical, colhidos quando saiu da prisão. Ela conta que a família vivia em dois mundos paralelos: na escola, muitos professores falavam ou contavam coisas diferentes das vividas por eles na realidade. E sua mãe, cuidadosa sempre advertia: não falem lá fora sobre o que conversamos aqui dentro de casa, pode chamar a atenção sobre nós.

Lídia Maria e Adelto não se conheceram nesses anos, mas, guardada a diferença de idade, cursaram a mesma escola primária do Sindicato dos Trabalhadores das Docas de Santos. Mais tarde, já jornalistas, foram professores de jornalismo na Faculdade Católica Unisanta de Santos.

Lídia Maria começou sua carreira jornalística no jornal Cidade de Santos, hoje não mais existente, antes de ir para A Tribuna. O jornal publicou com destaque em 19 de outubro de 1997, com foto, a obtenção por Lídia Maria do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos com o conto Bala Perdida sobre as últimas horas de vida de uma criança de dez anos. 

Em outubro deste ano, Lídia Maria irá publicar um livro político de memórias e análises sobre os anos da ditadura. O título ainda não foi escolhido. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

1964 - Adelto Gonçalves - Os Viralatas da madrugada

Observada a trégua, pedida pelo presidente Lula, de se evitar uma barulhenta anti-comemoração dos 60 anos do golpe militar do 31 de março de 1964, a realidade com fatos atuais nos obriga a comentar senão o tema, pelo menos atos semelhantes e até mais mortíferos, numa área circunscrita - a Baixada Santista.

Há 60 anos, a Polícia Marítima com seus uniformes azuis claro e coturnos brancos invadia, portando metralhadoras, todas as entidades sindicais da região santista, como o principal Sindicato dos Portuários Trabalhadores das Docas de Santos, prendia diretores, doqueiros e os transferia para uma prisão flutuante, o navio Raul Soares, onde ficaram presos, depois de interrogatório e tortura. Ora, nestes últimos meses, a Baixada Santista numa extensão que chega ao Guarujá, tem sido alvo de ataques de comandos policiais, de caráter vindicativo, nas chamadas áreas perigosas, habitadas por favelados, pobres e negros, atos denunciados por organizações de defesa dos direitos humanos à imprensa e inclusive à Comissão de Direitos Humanos da ONU. Esse clima nos relança a 1964.

Há ainda testemunhas vivas, 60 anos depois, do Golpe de 1964, na cidade portuária paulista de Santos, onde as atividades sindicais e políticas eram bastante ativas desde a queda da ditadura de Vargas, chegando mesmo a ser chamada de Cidade Vermelha?

Muita gente já esqueceu a vitória do Partido Comunista do Brasil, legalizado logo após o retorno do Brasil à democracia em 1945, nas eleições para a Câmara Municipal de Santos, elegendo mais da metade dos vereadores. O estádio do Santos ficou repleto quando o Cavaleiro da Esperança, recém-libertado de uma longa prisão, Luís Carlos Prestes, fez ali um de seus primeiros discursos. Eleito senador, teve seu mandato cassado, em 1947, assim como foram cassados os mandatos de 14 deputados federais e dos 18 vereadores eleitos em Santos, após o cancelamento do registro do PCdoB pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Apesar de passados 60 anos, existem sim, em Santos, muitas testemunhas vivas do Golpe de 1964.  Achei duas e começo com Adelto Gonçalves, hoje com 72 anos, que foi jornalista dos jornais A Tribuna de Santos, Cidade de Santos, Estadão e professor de Comunicações na Faculdade  santista, além de ter escrito, entre outros, um livro (foi o seu primeiro livro, ainda adolescente) sobre a vida de pessoas vivendo e trabalhando no cais santista na época do golpe militar de 1964. Isso inclui estivadores, portuários, transportadores, donos de botecos, hotéis treme-treme, dançarinas e prostitutas.

Seu testemunho vale a pena ser conhecido, mesmo porque sob outras formas e em retaliação à morte de policiais, a truculência policial retornou atualmente à região da chamada Baixada Santista, com o ex-secretário de Segurança Guilherme Derrit, responsável por duas Operações de envergadura, que põem na prática o lema bolsonarista "bandido bom é bandido morto", com a liquidação de 76 pobres e negros. E com o governador Tarcísio de Freitas dizendo, numa entrevista coletiva "se quiserem vão se queixar na ONU, não estamos nem aí!"

Adelto Gonçalves, jornalista, escritor e crítico literário, tem boa memória: em 1961, ao terminar o curso primário entre os três melhores alunos, foi cumprimentado pessoalmente pelo presidente João Goulart, que visitava a cidade e esteve na escola primária do Sindicato dos Trabalhadores Portuários. Ele ainda se lembra da mão suarenta do presidente, deposto três anos depois, mas era ainda muito criança para entender as agitações criadas com o movimento pelas Reformas de Base.

Em 1964, frequentava o curso ginasial do Colégio Comercial Coelho Neto, onde, também se lembra, uma professora procurava sensibilizar alunos para participarem das manifestações da União Cívica Feminina contra as Reformas de Base do governo Goulart. Adelto tinha 12 anos e morava com seus pais num prédio defronte do Sindicato dos Operários Portuários de Santos, na rua General Câmara. Foi da janela que viu chegarem os soldados de uniforme azul-claro da Polícia Marítima de metralhadora e entrarem no Sindicato. Depois de muito barulho e de ouvir vidros quebrados, viu os diretores e funcionários do sindicato saírem do prédio, passarem por um corredor polonês recebendo safanões e subirem num caminhão coberto, sendo conduzidos ao presídio local e depois ao navio-prisão Raul Soares. O navio ficou atracado durante sete meses, junto à Ilha Barnabé, no estuário em frente ao Porto de Santos.

Adelto teve a reação de ir anotando tudo quanto ia vendo e ouvindo e, seis anos depois, utilizou seus rascunhos para escrever as bases do seu primeiro livro, Os Viralatas da Madrugada, lançado em 1981, com apresentação do jornalista e escritor de esquerda Marcos Faerman. Embora o livro já tivesse sido impresso com o prefácio de Faerman, a editora José Olympio decidiu arrancar manualmente as duas páginas iniciais com o texto de Faerman por receio do livro ser considerado subversivo e retirado das livrarias, mesmo se havia ganhado menção honrosa como romance no prêmio José Lins do Rego. Uma nova edição foi feita pela Editora Letra Selvagem em 2015.

Faerman, no seu prefácio escrito em plena ditadura, citava a frase de um general de que a história era escrita pelos vencedores. Puro engano do general, alguns anos depois o Brasil voltou à democracia e o aprendizado, nos 21 anos de ditadura, nos livrou de uma recente nova tentativa golpista. Donde a oportuna frase de Milan Kundera, citada no prefácio de Faerman, mas ainda hoje válida e aplicável nas lembranças do Golpe de há 60 anos: "a luta do homem contra o Poder é a luta da memória contra o esquecimento".

Os Viralatas da Madrugada não é um livro político e ideológico, mas um romance contra a miséria e desesperança vividas pelas personagens frequentadoras do cais do porto de Santos, no bairro do Paquetá. Um relato cru naturalista e realista da "boca do lixo" local, com seus proxenetas, suas prostitutas, frequentadores de bordéis, numa região também plena de atividades sindicais na qual existem referências à Coluna de Prestes e prisões de sindicalistas transferidos para um navio, onde são interrogados, torturados física e psicologicamente, dentro do quadro do Golpe instaurado em 1964. O próprio autor cita semelhanças no seu livro com o estilo de Jorge Amado, Plínio Marcos e o francês Jean Genet. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.